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Como escapar da crise?

por Thynus, em 24.03.13

Outro leitor de La Repubblica, David Bernardi, perguntou o que podemos fazer para escapar da situação alarmante em que nos encontramos depois da crise do crédito e como evitar suas consequências possivelmente catastróficas. Em outras palavras, ele perguntou como cada um de nós pode e deve se comportar e viver – e quais as possibilidades de que outras pessoas sigam o bom exemplo.
Estas são perguntas que nos fazemos todos os dias; afinal, não foi só o sistema bancário e a bolsa de valores que sofreram duros e sucessivos golpes – nossa confiança nas estratégias de vida, nos modos de agir, nos padrões de sucesso e no ideal de felicidade que, dia após dia, nos últimos anos, nos disseram que valia a pena seguir também foi abalado e perdeu parte considerável de sua autoridade e poder de atração. Nossos ídolos, versões líquido-modernas do bezerro de ouro bíblico, derreteram ao mesmo tempo que a confiança na economia! Como observou Mark Furlong, da La Trove University, Michigan: “Acabou, foi tudo ralo abaixo. … À vista de todo mundo, ‘os melhores e mais brilhantes’, os ‘caras mais inteligentes da turma’ fizeram tudo espetacularmente errado” (Mark Furlong, “Crying to be heard”).
Pensando em retrospecto, os anos anteriores à crise do crédito parecem ter sido tempos tranquilos e alegres do tipo “aproveite agora, pague depois”; uma época em que nós agíamos com a certeza de que haveria riqueza suficiente e até maior no dia seguinte, anulando qualquer preocupação com o crescimento das dívidas de hoje, desde que fizéssemos o que se exigia para aderir aos “caras mais inteligentes da turma” e seguir seu exemplo. Naqueles dias que ficaram para trás, o exercício de subir montanhas cada vez mais altas e ter acesso a paisagens cada vez mais arrebatadoras, eclipsar as grandiosas montanhas de ontem com o perfil das colinas de hoje e aplainar as colinas de ontem na gentil ondulação das planícies de hoje parecia durar para sempre. Como declarou a milhões de internautas um jovem e brilhante corretor de fundos de hedge, hoje falido: “Ninguém jamais perdeu de verdade – a viagem já estava difícil há muito tempo. De repente, pum!!”
O fato é que agora o tempo da orgia acabou. Chegaram os dias (meses, talvez anos) de fazer contas, de calcular. Dias de ressaca e de recobrar a sobriedade. Por sorte, dias também de reflexão, de repensar coisas que pareciam estabelecidas há muito tempo e para sempre; dias de voltar à prancheta; dias ameaçadores e promissores, de maus presságios e bons augúrios (dependendo de sua preferência!) acerca dos longos dias de decroissance (decrescimento), como os chama Serge Latouche (leiam o livro dele, Farewell to Growth).
Latouche fala em apertar os cintos, de voltar aos anos anteriores à orgia. Menciona tempos nos quais (como nos faz lembrar David Bernardi) havia menos cosméticos e detergentes, menos automóveis nas estradas; em compensação, havia menos lixo e desperdício, menos refugos e disparidades, mas muita energia e silêncio. Até é possível, sugere Bernardi, que haja dias de ar menos poluído, com menos edifícios e mais áreas verdes… Pode ser, quem sabe? Quem pode garantir que isso acontecerá? Haverá um caminho de volta ao passado (caminhos para percorrer na vida real, e não para contemplar com saudosismo nos filmes de Hollywood)? Ou será que os homens se parecem com sua época muito mais do que com seus pais, como diz a sabedoria árabe?
Deixando de lado o arriscado jogo de fazer prognósticos e adivinhações, a questão prática é se saberemos nos virar em qualquer paisagem que venha substituir a orgia. Como poderemos viver, entra dia, sai dia, num mundo meio esquecido pelos mais velhos e totalmente estranho e desconhecido para os jovens?
Alguns dos analistas mais perspicazes a formular respostas para esses desafios, como Lisa Appignanesi, preveem um aumento acelerado da frequência e propagação dos problemas mentais. A autora afirma que, no plano mundial, “a ‘depressão’ em breve estará no segundo lugar entre as doenças graves, perdendo apenas para doenças cardíacas; no mundo desenvolvido, estará em primeiro lugar”.
Que depressão? A reação à perda de ilusões e à evaporação de belos sonhos, um sentimento de que o mundo ao redor “está indo para o brejo” e nos levando junto. A verdade é que não podemos fazer grande coisa para resistir ao fracasso ou mudar sua direção. Glenn Albrecht, da University of Newcastle, pesquisou tempos atrás os efeitos psicossociais que o fechamento das atividades de mineração teve sobre as comunidades mineiras adjacentes, descrevendo a “perda de bem-estar que se segue à consciência de que o ambiente onde se vive está sofrendo uma grave deterioração” (In Frulong). O terremoto que afetou o crédito e sacudiu as torres financeiras que ficaram de pé após o ataque terrorista ao World Trade Center talvez venha a ter efeitos similares, e não só para os que trabalham nelas.
Outra possível reação à crise econômica atual é o que Mark Furlong denominou de “militarização do eu”. É o que vão fazer, sem dúvida, os produtores e comerciantes interessados em capitalizar a catástrofe transformando-a em lucro acionário, como de hábito. A indústria farmacêutica já está em plena atividade, tentando invadir, conquistar e colonizar a nova “terra virgem” da depressão pós-crise a fim de vender sua “nova geração” de smart drugs, começando por semear, cultivar e fazer crescer as novas ilusões que tendem a propulsionar a demanda. Já estamos ouvindo falar de drogas fantásticas que prometem “melhorar tudo”, memória, humor, potência sexual e a energia de quem as ingere com regularidade, proporcionando assim total controle sobre a construção do próprio ego e sua preponderância sobre o ego de outros. É possível mesmo que o mundo esteja indo ladeira abaixo, por isso, deixem que eu me salve do tranco com a ajuda de inovações farmacêuticas.
Contudo, há outra possibilidade. Existe a opção de tentar chegar às raízes do problema atual e (como sugeriu Furlong) “fazer o contrário do que estamos acostumados: inverter o padrão e organizar nosso pensamento não mais a partir daquele em que o ‘indivíduo’ está no centro, mas segundo uma ordem alternativa centrada em práticas éticas e estéticas que privilegiem a relação e o contexto”.
Trata-se, sem dúvida, de uma possibilidade remota (inverossímil ou pretensiosa, diriam alguns), que exige um período prolongado, tortuoso e muitas vezes doloroso de autocrítica e reajuste. Nascemos e crescemos numa sociedade completamente “individualizada”, na qual a autonomia, a autossuficiência e o egocentrismo do indivíduo eram axiomas que não exigiam provas (nem as admitiam), e que dava pouco espaço, se é que dava, à discussão. Só que mudar nossa visão de mundo e assumir uma compreensão adequada do lugar e do papel que temos na sociedade não é fácil nem se faz de um dia para o outro. No entanto, essa mudança parece ser imperativa, na verdade, inevitável. Ao contrário do que falam sobre as espetaculares “medidas de emergência” generosamente oferecidas pelos governos aos administradores de bancos (sempre tendo em vista os telespectadores), não há curas instantâneas para doenças prolongadas e crônicas. Há poucas chances de se sarar a doença sem a cooperação voluntária e dedicada, muitas vezes árdua e envolvendosacrifício espontâneo do paciente. Todos nós somos pacientes no que diz respeito à doença sociocultural que nos afeta. Portanto, há necessidade de cooperação de todos e de cada um.
Creio que o “decrescimento” mencionado por Serge Latouche, por mais racional que seja e por mais aconselhável que pareça, está longe de ser um fato predeterminado. É apenas um dos cenários possíveis. Se ele vai ou não entrar no palco da história, isso dependerá do que nós, seus atores e em última análise seus dramaturgos involuntários, viermos a fazer.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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