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Homens, é hora de voltar para casa?

por Thynus, em 24.03.13

Ninguém sabe ao certo quantas demissões a atual crise financeira vai causar. No mundo inteiro, a economia está andando para trás; os dados estatísticos da atividade econômica e da produção de riquezas demonstram uma queda rápida ou a iminência da queda e o número de pessoas que recorrem ao seguro-desemprego só faz crescer num ritmo que a atual geração jamais presenciou.
As últimas estatísticas sobre os Estados Unidos (segundo o jornal New York Times de 7 de novembro de 2009) mostram que um quinto dos norte-americanos procurava emprego em vão ou desistira da busca depois de um ano de fracasso. (Os índices de desemprego alcançam 17,5% nesse momento e continuam a crescer. David Leonhardt avalia que “são os mais altos índices há décadas”, provavelmente mais elevados que os da Grande Depressão dos anos 1930: “Quase dezesseis milhões de pessoas estão desempregadas e mais de sete milhões de empregos foram perdidos desde 2007”.) As taxas de desemprego continuam a subir em todo o planeta.
É pouco, muito pouco o que os governos centrais podem fazer para segurar a onda, porque a dependência global e o entrelaçamento das economias os impede de chegar às raízes distantes dos problemas locais. A crise do crédito propagou-se com a rapidez de raio para os países mais remotos, revelando a densidade da interdependência da economia mundial. A súbita escassez de crédito nos Estados Unidos fez com que muitos americanos reduzissem drasticamente seu consumo (por um tempo, pelo menos); isto se refletiu no corte acentuado das importações americanas; a China, país que vem desenvolvendo rapidamente sua produção industrial e tem expandido em ritmo acelerado a exportação de bens de consumo, perdeu seu maior mercado; por conseguinte, os entrepostos chineses estão atulhados de mercadorias não vendidas, inúmeras empresas estão quebrando ou são obrigadas a suspender a produção; essas empresas se veem obrigadas a adiar seus projetos de expansão por tempo indeterminado. Até há pouco tempo, o crescimento da China absorvia grande parte do investimento tecnológico feito sobretudo pelo Japão e a Alemanha, de modo que esses dois gigantes industriais também estão em situação difícil, porque a demanda por seus serviços e produtos tende a diminuir.
Em termos gerais, as fileiras dos “demitidos” só fazem crescer em todo o mundo, fato que diminui ainda mais o consumo global; isso, por sua vez, acelera o aumento do número de desempregados, e por aí vai. É um círculo vicioso, uma cadeia retroalimentada de causas e efeitos que ninguém sabe como deter ou mesmo desacelerar. Medidas tomadas por vários governos no mundo inteiro têm produzido até agora resultados medíocres ou não mostraram efeito algum no que diz respeito ao emprego. De uma coisa podemos ter certeza: no futuro próximo (quem sabe por quanto tempo?) haverá menos empregos disponíveis e mais pessoas correndo atrás deles.
Essas observações deprimentes já deixaram de ser novidade. Mas só agora estamos começando a refletir a respeito das prováveis consequências das novas condições econômicas, ainda não de todo exploradas, sobre importantes aspectos de nossa vida cotidiana, como, por exemplo, a forma e a divisão de tarefas no interior da família. Só podemos especular acerca da gravidade e extensão dessas possíveis consequências – como poderão mudar nossos relacionamentos e padrões de interação cotidianos, ou nossa maneira de pensar sobre isso e as formas que desejaríamos que essas mudanças assumissem?
Vejamos um exemplo. Há muitos indícios de que a perda de empregos em grande escala poderia atingir sobretudo os setores da economia (em especial as indústrias “pesadas”) que tradicionalmente, até um tempo atrás, empregavam mais homens. Setores conhecidos por empregarem mão de obra feminina (como serviços e comércio) podem ser menos afetados pela depressão. Se isso de fato acontecer, a posição de marido e pai como principal provedor da família deverá receber um novo e sério golpe, e a habitual divisão do trabalho, assim como todo o padrão de vida típico das famílias, poderia ser devolvido ao “olho do furacão”.
É verdade que, por vários motivos, tanto por necessidade quanto por escolha, trabalhar fora de casa e ter um emprego remunerado já deixou de ser uma prática exclusiva ou predominantemente masculina. Em grande número de famílias, marido e mulher trabalham fora do domicílio familiar. Mas, na maioria dos casos, a remuneração do marido compunha, até pouco tempo atrás, a maior parcela do orçamento familiar.
Apesar dos espetaculares avanços na libertação das mulheres, a situação de ficar em casa e cuidar dos afazeres domésticos enquanto o cônjuge vai trabalhar fora é um cenário menos atrativo e mais difícil de suportar para os maridos que para as esposas. Na eventualidade de haver uma colisão entre as duas carreiras e for impossível conciliá-las, a prioridade sempre foi dada (por consentimento mútuo, embora nem sempre de coração e mais raro ainda com alegria) às exigências do trabalho do marido. Com a chegada de novos membros na família, o impulso “natural” sempre foi para que a mãe deixasse o emprego e dedicasse todo seu tempo e energia ao cuidado dos filhos.
É possível que essa “lógica da família”, aceita de maneira tácita, venha a entrar em conflito com a nova “lógica da economia” e depare com enormes desafios e pressões no sentido de ser repensada, renegociada e modernizada. A questão do direito das mulheres a uma carreira profissional, a uma renda pessoal e, em geral, ao acesso à esfera pública, com presença importante e influente, senão plenamente equitativa, que já parecia resolvida de uma vez por todas, pode vir a ressurgir com nova aparência e outra vez se tornar alvo de intenso e árduo debate.
Mesmo antes de tomarmos consciência de que a depressão econômica era uma realidade, alguns poucos sinais indicavam que o processo já havia começado. Nos Estados Unidos, há um inflamado debate em torno do livro de Megan Basham, Beside Every Successful Man: A Woman’s Guide to Having It All, no qual a autora argumenta que ajudar o marido a subir na carreira é mais produtivo para o casal e para toda a família que a situação em que marido e mulher seguem suas carreiras individuais, e cada um contribui com uma parcela do orçamento comum. Em termos puramente financeiros, as estatísticas parecem apoiar as conclusões de Megan Basham: homens cujas esposas ficam em casa ganham em média 31% a mais que os solteiros; mas, quando marido e mulher têm empregos de tempo integral, a vantagem cai para meros 3,4%.
A esses números, Megan Basham acrescenta sua experiência pessoal. Ela ajudou o marido a firmar-se num cargo na televisão, não só lhe oferecendo apoio moral, participando e absorvendo parte das tensões e frustrações geradas pela carreira dele, mas atuando na prática, trabalhando como redatora e sua empresária (de graça, claro). Ela se orgulha de sua contribuição e acha que a renda expressiva que o marido traz para casa é fruto do trabalho de ambos. Ela não ficou atrás do marido, mas, como sugere o título do livro, trabalhou ao lado dele (e não é a única, afinal, foi Michelle Obama quem apresentou Barack Obama ao círculo político de Chicago).
É assim que Megan Basham se sente. Mas nem todos os seus leitores entendem os sentimentos dela. Centenas de críticas, às vezes virulentas, acusaram-na de enganar a si própria, de desvirtuar a solidariedade feminina, de interromper a caminhada das mulheres rumo à verdadeira emancipação, e inclusive de tentar persuadi-las a recuar de uma guerra que ainda está longe de chegar ao fim. As críticas encaram o que Megan Basham interpreta como “estar ao lado” do homem como “ser lançada à sombra” dele, um exemplo de discriminação, negação da dignidade da pessoa – uma humilhação.
De um lado, críticas. De outro, aliados inesperados, talvez indesejados, de todo modo importunos. Pouco depois de Megan Basham publicar seu livro, a direita religiosa americana tornou público seu “Manifesto das mulheres de verdade”, que ressaltava o fato de que mulheres e homens foram criados para servir a Deus de modo complementar e de maneiras diferentes. Dizia que o lugar das mulheres é no lar, assim como caberia aos homens o papel de força de trabalho; a confusão desses papéis, insiste o manifesto, leva à destruição da ordem das coisas como Deus as instituiu, uma ordem que não deve ser tratada de modo superficial e deve permanecer intacta para todo o sempre.
O debate está longe de acabar. Pelo contrário, vem ganhando força. Só que hoje um novo participante está prestes a chegar: o crescimento desigual do desemprego depois da depressão econômica. E o recém-chegado pode reclamar ou ganhar sem pedir o voto decisivo, a última palavra, pelo menos na rodada atual da polêmica. Preparem-se.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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