Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Não digam que não foram avisados!

por Thynus, em 24.03.13

Quando a crise chega e o novo desastre bate à porta, nem você nem eu temos o direito de pedir desculpas por não termos sido avisados. Somente uma pessoa como Simão o Eremita, que passou avida encarapitado no alto de uma coluna, bem acima da multidão enlouquecida e fora do alcance datagarelice (se pudéssemos imaginar façanha semelhante num planeta atravessado por autoestradas deinformação; se houvesseseguidores contemporâneos de Simão o Eremita, eles não iam tirar o iPhone do bolso antes de subir à coluna), poderia alegar ignorância. Não nós, que seguramos na palma damão aparelhos inteligentes capazes de nos proporcionar de imediato todo conhecimento disponível.
Temos plena ciência, por exemplo, de que estamos sentados sobre uma bomba-relógio  ecológica (ainda que raramente se vejam sinais desse conhecimento em nossa maneira cotidiana deagir). Estamos fartos de ouvir que nos sentamos sobre uma bomba-relógio demográfica (“há gentedemais, especialmente ‘eles’, quem quer que ‘eles’ sejam”). Ou uma bomba-relógio consumista(“Por quanto tempo nosso pobre planeta poderá alimentar esses milhões que batem a nossas portasmendigando à espera de serem admitidos em nossa festa?”). E alguns outros tipos de bomba, cujonúmero parece aumentar em vez de diminuir. Dessa forma, o leitor não vai se chocar ao ser advertidode que, entre todas essas bombas, há uma cujo tique-taque ressoa de modo tão funesto quanto as quemencionei, embora tenha ainda menos nossa atenção que as outras.

Poucas semanas atrás podíamos ter ouvido essa advertência (mas quantos de nós a ouvimos de fato?): a da bomba-relógio da desigualdade, pronta a explodir em futuro não muito distante. Umrelatório da ONU sobre desenvolvimento urbano baseado num estudo sobre as 120 maiores cidadesdo mundo alertou que “altos níveis de desigualdade podem trazer consequências sociais, econômicase políticas negativas, acarretando um efeito desestabilizador para as sociedades”; eles “geramfraturas sociais e políticas que podem se transformar em intranquilidade social e insegurança”.
As divisões entre ricos e pobres são muitas, profundas e dão fortes demonstrações de que serãoduradouras, como a famosa “teoria da capilaridade”, que ajuda os ricos a continuarem ricos e a se tornarem ainda mais ricos, embora seja patente que ela não beneficia os pobres. Até hoje, os efeitosdo crescimento econômico acelerado na maioria dos países têm associado de modo inextricável orápido aumento da riqueza “média” e total com uma rápida multiplicação de privações intoleráveisentre as massas de desempregados e trabalhadores ocasionais e informais.
Embora sejam confortavelmente atenuadas pela distância, essas notícias podem parecerassustadoras para muitos de nós à medida que se aproximam chegadas de terras muito longínquas.
Mas, repito, não digam que não foram avisados! Não estamos falando aqui apenas dos camponesesde ontem, amontoados em vergonhosas conurbações dispersas, desordenadas, carentes de recursos,de políticas de gestão e de serviços públicos da África subsaariana ou da América Latina. AsNações Unidas declararam que Nova York é a nona cidade mais desigual do mundo, enquantograndes e prósperos centros urbanos dos Estados Unidos, como Atlanta, Nova Orleans, Washington eMiami, têm um nível dedesigualdade quase idêntico ao de Nairóbi ou Abidjan. Alguns poucos países, sobretudo Dinamarca, Finlândia, Holanda e Eslovênia, parecem por enquanto escapar datendência universal.

Na visão de senso comum, a questão é a desigualdade de acesso à educação, a carreirasprofissionais e a contatos sociais – e, em decorrência disso, uma desigualdade de posses materiais ede oportunidades de fruição da vida. Mas Göran Therborn nos faz lembrar que este não é o fim dahistória, nem mesmo de seu capítulo mais notável. Além da desigualdade “material” ou “derecursos”, há o que ele denomina de “desigualdade vital”1 – o fato de a expectativa de vida e achance de morrer bem antes de alcançar a idade adulta divergirem profundamente segundo asdiferentes classes sociais e diferentes países.
De acordo com Therborn, “um inglês aposentado, ex-bancário ou funcionário de companhia deseguros pode contar com sete ou oito anos a mais de vida pós-aposentadoria que um funcionário daWhitbread ou da Tesco”.a As pessoas classificadas nos níveis inferiores de renda em estatísticasoficiais do governo britânico têm quatro vezes menos chances de atingir a idade de aposentadoriaque os situados nos níveis mais altos. A expectativa de vida nas áreas mais pobres de Glasglow(Calton) é 28 anos menor que na área privilegiada da mesma cidade (Lenzie) e também na prósperaregião de Kensington ou Chelsea, emLondres. “As hierarquias de status social são literalmente letais”, conclui Therborn.
Há um terceiro caso ou aspecto da desigualdade, acrescenta o sociólogo sueco: A desigualdade“existencial”, que “o afeta como pessoa”, “que limita a liberdade de ação de certas categorias de pessoas” (por exemplo, o impedimento que recaía sobre as mulheres de entrar em espaços públicosna Inglaterra vitoriana e em muitos países hoje; ou o confinamento de londrinos no East End, cemanos atrás, substituído na atualidade pelos banlieues franceses, as favelas latino-americanas ou osguetos urbanos dos Estados Unidos). São vítimas da desigualdade existencial as categorias sociaishumilhadas, desrespeitadas e inferiorizadas por terem arrancada de si uma parcela fundamental desua humanidade – como os negros americanos ou os ameríndios (as “nações nativas”, como ahipocrisia do politicamente correto exige chamá-los) nos Estados Unidos; os imigrantes pobres, as“castas inferiores” e os grupos étnicos em vários lugares do mundo.
Recentemente, o governo italiano transformou em lei a desigualdade existencial e sancionoucomo crime qualquer tentativa de suavizá-la; a lei exige que os cidadãos italianos espionem edenunciem os imigrantes ilegais, ameaçando-os de pena de prisão por ajudar e abrigar essesimigrantes.

A transformação do capital financeiro num imenso cassino global criou a presente criseeconômica que desempregou centenas de milhares de pessoas e criou a necessidade de sedispor de bilhões de libras do dinheiro dos contribuintes. No sul, a crise mundial está gerandomais pobreza, fome e morte. … A ampliação da distância social entre os pobres e os ricosdiminui a coesão social, e isso, por sua vez, significa novas questões coletivas, como o crime ea violência, e a redução dos recursos para solucionar todos os nossos problemas comunais, da
identidade nacional à mudança climática.

Mas este também não é o fim da história. Inquietações sociais, agitações urbanas, crime,violência, terrorismo, estas são possibilidades ameaçadoras que prenunciam desgraças para nossasegurança e a de nossos filhos. Contudo, são, por assim dizer, sintomas externos, explosõesespetaculares e intensamente dramatizadas de males sociais inflamados pelo acréscimo de novashumilhações às já existentes, são acontecimentos que aprofundam as desigualdades. No rastro de seucrescimento, a desigualdade lega à sociedade outro tipo de estrago: a devastação moral, a cegueiraética e a insensibilidade, a habituação à visão do sofrimento humano e ao dano que os homenscausam a outros homens todos os dias – a gradual mas implacável, paulatina e subterrânea erosão dosvalores que dão sentido à vida, tornam viável a coexistência humana e plausível o prazer de viver. Osaudoso Richard Rorty conhecia bem os perigos em questão quando dirigiu aos seus contemporâneoso seguinte apelo:

Devemos educar nossos filhos para achar intolerável o fato de que nos sentemos às nossasmesas e, com nossos teclados, recebamos dez vezes mais que aqueles que sujam as mãoslimpando nossas latrinas; e cem vezes mais que aqueles que fabricam nossos teclados noTerceiro Mundo. Devemos ter certeza de que eles se preocupam porque os países que seindustrializaram primeiro têm centenas de vezes mais riqueza que os ainda não industrializados.Nossos filhos devem aprender desde cedo a considerar que as desigualdades entre sua fortunae a de outras crianças não decorrem da vontade de Deus nem constitui um preço necessário apagar pela eficiência econômica, mas é uma tragédia evitável. Eles devem começar a pensar omais cedo possível que se pode mudar o mundo para assegurar que ninguém passe fomeenquanto outros se fartam.

Já está mais que na hora de parar de dizer que não fomos avisados. Ou de parar de perguntar porquem os sinos dobram cada dia mais fortemente.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 12:36



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D