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No rasto da "Geração Y"

por Thynus, em 24.03.13

Nenhum ser humano é exatamente igual a outro – e isso se aplica tanto aos jovens quanto aos velhos. Contudo, é possível notar que, em determinadas categorias de seres humanos, algumas características ou atributos tendem a aparecer com maior frequência que em outras. É essa “condensação relativa” de traços característicos que nos permite falar, em primeiro lugar, em “categorias”, sejam elas nações, classes, gêneros ou gerações. Ao fazê-lo, ignoramos temporariamente a multiplicidade de características que faz de cada um de seus integrantes uma entidade única e irrepetível, diferente de todas as outras, um ser que se destaca de todos os demais membros da “mesma categoria”. 
Nós nos concentramos nos aspectos comuns a todos ou à maioria de seus integrantes em comparação com sua ausência ou relativa raridade entre os que fazem parte das outras “categorias”. É com essa condição sempre na cabeça que nos permitimos dizer que todos os nossos contemporâneos, salvo os muito mais velhos, “pertencem” a três gerações sucessivas.

A primeira geração é a dos chamados baby boomers, pessoas que nasceram entre 1946 e 1964, durante a explosão dos índices de natalidade no pós-guerra, quando os soldados que voltaram dos campos de batalha e dos campos de prisioneiros consideraram que era chegada a hora de fazer planos para o futuro, casar e ter filhos. Esses homens ainda traziam na cabeça a lembrança dos anos de desemprego, escassez e austeridade do pré-guerra, de uma vida precária sob as permanentes ameaças de privação.
Não admira que, regressando da guerra, aceitassem com alegria as ofertas de emprego que de  repente surgiam com fartura; e, embora, calejados pelas amargas experiências do passado recente, vissem nessas ofertas uma dádiva da sorte que lhes podia ser retirada a qualquer momento. Por esse motivo, dedicaram-se arduamente ao trabalho, economizando centavos para se prevenir contra um tempo de vacas magras e oferecer aos filhos a vida despreocupada que nunca puderam levar.
Seus filhos, a chamada “geração X”, que hoje tem entre 28 e 45 anos, nasceram num mundo diferente, o mundo que foi construído com a ajuda de dedicação ao trabalho, longas jornadas, prudência, parcimônia e espírito de sacrifício de seus pais. Embora em geral seguissem a estratégia e a filosofia de vida dos pais, fizeram isso com relutância – e maior impaciência, à medida que o mundo crescia em riqueza e promessas de uma vida mais segura, para ver e desfrutar as recompensas oferecidas pela existência de temperança, moderação e abnegação de seus pais e sobretudo deles próprios. A nova “geração X” preocupou-se menos que seus pais com o futuro, concentrando-se no “aqui e agora”: uma vida de prazeres ao alcance de suas mãos e de consumo imediato. Por isso foi apelidada, de forma um tanto mordaz, mas pungente, de me generation ou “geração do eu”, uma geração autocentrada.
Em seguida veio a “geração Y”– a que hoje tem entre 11 e 28 anos. Estudiosos e pesquisadores concordam em dizer que suas atitudes os diferenciam bastante das gerações dos pais e avós. Os jovens da “geração Y” nasceram num mundo que seus pais não conheceram na juventude, que lhes era difícil ou até impossível imaginar quando tinham a idade que os filhos têm hoje, e que, depois, receberam com um misto de perplexidade e desconfiança: um mundo de emprego abundante, oportunidades aparentemente infinitas de prazer, cada um mais atraente que o outro – e capaz de multiplicar esses prazeres cada vez mais sedutores, relegando as antigas satisfações a uma aposentadoria precoce e ao esquecimento final.
Tudo o que nos é fácil, constante e fartamente acessível tende a ser óbvio demais para ser notado, quanto mais para nos fazer pensar. Sem ar para respirar, não sobrevivemos mais que um ou dois minutos. Mas se nos pedissem para fazer uma lista das coisas que consideramos “essenciais à vida”, dificilmente nos lembraríamos de mencionar o ar. Na hipótese improvável de incluí-lo, ele aparecerá no fim da lista. Simplesmente presumimos, sem pensar, que o ar está presente a qualquer hora, em qualquer lugar; tudo o que temos de fazer é inspirá-lo na quantidade que nossos pulmões permitem.
Até cerca de um ano atrás, o trabalho (pelo menos em nossa parte do mundo) era como o ar para nós: sempre disponível toda vez que precisávamos dele; se por acaso nos faltasse por um instante (como o ar fresco numa sala apinhada de gente), bastava um pequeno esforço (como abrir uma janela) para que as coisas “voltassem ao normal”. Por incrível que pudesse parecer aos membros da geração dos baby boomers ou mesmo aos da “geração X”, não admira que, segundo inúmeros pesquisadores, o “trabalho” apareça nos últimos lugares da lista “de itens indispensáveis ao bem viver” dos membros da “geração Y”. Se lhes pedirmos para justificar a razão dessa negligência, eles tendem a responder: “Trabalho? Sem dúvida é indispensável (como o ar) para nos manter vivos. Mas por si só não torna a vida boa de ser vivida. Ao contrário, pode torná-la um fardo tedioso, monótono, desinteressante, vazio – em que nada acontece, nada que desperte a imaginação, que estimule os sentidos. Se um trabalho nos dá pouco prazer, não se transforma em obstáculo para as coisas que realmente importam? A maior parte do tempo livre fora do escritório, da loja ou da fábrica, os dias de folga, quando algo mais interessante aflora em outro lugar qualquer, viajar, estar nos lugares e entre os amigos que a gente escolhe – tudo isso tem um aspecto em comum: tende a ocorrer fora do local de trabalho. A vida está em outro lugar!”
Fossem quais fossem os projetos de vida que os integrantes da “geração Y” cultivassem e se empenhassem em realizar, eles dificilmente envolviam um emprego – menos ainda um trabalho regular que os comprometesse para todo o sempre. A última coisa de que gostariam é de um emprego com estabilidade eterna.
Pesquisas revelam que as mais conceituadas agências de recrutamento e seleção de jovens talentos para o mercado de trabalho estavam perfeitamente informadas sobre as prioridades e fobias da “geração Y”. Suas campanhas de alistamento de candidatos empenhavam-se em acentuar as promessas de liberdade do emprego oferecido: jornadas de trabalho flexíveis, trabalho em casa, períodos sabáticos de afastamento, licenças de longa duração sem perda de vínculo empregatício e oportunidades de diversão e lazer durante o expediente e no próprio local de trabalho. As agências de emprego compreenderam que, se o trabalho parecesse desinteressante, os recém-chegados ao mercado simplesmente largavam o emprego e iam procurar outra coisa. Como a expectativa de desemprego – esse cruel, desumano e eficiente patrulheiro da estabilidade da mão de obra – já não assustava ninguém, não restava muito para prendê-los.

Se esse é de fato o tipo de estratégia e filosofia de vida que costumava distinguir a “geração Y” das que a precederam, a juventude de hoje está fadada a despertar para uma triste realidade. Os países mais prósperos da Europa já dão como certo o ressurgimento de um longo período de desemprego em massa que até então parecia esquecido e relegado ao exílio permanente. Se as premonições mais tenebrosas se concretizarem, estão prestes a desaparecer as infinitas escolhas, a liberdade de movimento e de mudança que os jovens contemporâneos se acostumaram a visualizar (ou melhor, que nasceram para ver) como parte da natureza; e, com elas, o crédito aparentemente ilimitado com o qual esperavam se sustentar em situações de (breve e temporária) adversidade, e que resolveria qualquer (breve e temporária ) falta de solução imediata e satisfatória para seus problemas.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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