Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Como fazem os pássaros

por Thynus, em 23.03.13
“Twitter” (gorjear) é o que os pássaros fazem quando tweet (gorjeiam). Como nos dizem os especialistas em pássaros, o canto melodioso desempenha duas funções em aparência opostas, mas igualmente essenciais, na vida das aves: permite manter contato uns com os outros (isto é, não deixa que fiquem perdidos ou percam a pista dos parceiros no ninho ou do restante do grupo) e evita que outros pássaros, sobretudo os da mesma espécie, invadam o território que reservaram para eles. O gorjeio dos pássaros não transmite nenhuma outra mensagem, de modo que seus “conteúdos” (mesmo que houvesse algum, o que não é o caso) são irrelevantes; o que conta é que se produz o som melodioso e que ele seja (muito provavelmente será) ouvido.
Não sei dizer se Jack Dorsey, que criou o website chamado Twitter em 2006, quando ainda era estudante universitário, inspirou-se ou não no hábito milenar dos pássaros. Mas os 55 milhões de visitantes mensais desse site da internet parecem ter seguido esse hábito – sabedores disso ou não. Ao que parece, eles o consideram muito útil para suas necessidades e objetivos. Segundo cálculos de Peder Zane, do News and Observer, em 15 de março de 2009, o número de usuários do Twitter cresceu 900% entre 2008 e 2009 (enquanto o número de usuários do Facebook cresceu “apenas” 228%, de acordo com a Wikipedia). Os administradores do Twitter convidam e encorajam novos usuários a se juntarem ao poderoso exército de 55 milhões de usuários atuais afirmando que o “Twitter é um serviço ideal para a comunicação e conexão entre amigos, parentes e colegas de trabalho pela troca rápida de respostas a uma única pergunta: ‘O que você está fazendo?’” As respostas, como o leitor provavelmente sabe, devem ser rápidas e frequentes, mas também fáceis de digerir, e isso significa que devem ser muito, muito concisas e curtas (tal como a melodia do gorjeio de um pássaro) – nunca podem exceder os 140 caracteres.

Desse modo, o “fazer” sobre o qual se escrevem mensagens no Twitter talvez não signifique mais que dizer “estou comendo pizza aos quatro queijos”, ou “estou olhando pela janela”, ou “com sono e indo pra cama”, ou “morto de tédio”. Por cortesia da administração do Twitter, nossa notória mas envergonhada reticência e falta de jeito para relatar os motivos e objetivos de nossos atos – e os sentimentos que os acompanham – deixaram de ser uma desvantagem e subiram ao pódio das virtudes. O que nós e todos os nossos iguais somos levados a compreender é que a única coisa que importa é saber e contar aos demais o que estamos fazendo – neste momento ou em qualquer outro; o que importa é “ser visto”. Não tem importância alguma saber por que fazemos tal coisa, o que estamos pensando, desejando, sonhando, o que nos alegra ou entristece quando a fazemos, ou mesmo outras razões que nos inspiraram a usar o Twitter, além de manifestar nossa presença.

O contato face a face é substituído pelo contato tela a tela dos monitores; as superfícies é que entram em contato. Por gentileza do Twitter, “surfar”, o meio de locomoção preferido em nossa vida agitada, cheia de oportunidades que nascem e logo se extinguem, afinal chegou à comunicação interhumana. O que se perde é a intimidade, a profundidade e durabilidade da relação e dos laços humanos.

Os defensores e entusiastas dos “contatos” (mais exatamente, a reconfirmação de “estar conectado”) rápidos, fáceis e sem problemas tentam nos convencer de que os ganhos compensam em muito as perdas. Sob o título de “usos” do Twitter, o site da Wikepedia nos informa que, “durante os ataques de Mumbai, em 2008, testemunhas oculares enviaram cerca de oitenta mensagens por segundo relatando a tragédia. Os usuários que estavam no local ajudaram a compilar uma lista de mortos e feridos”; que, em “janeiro de 2009, o voo 1549 da companhia aérea US Airways sofreu múltiplos ataques de aves e teve de aterrissar em pleno rio Hudson após a decolagem do aeroporto de La Guardia, em Nova York. Janis Krums, passageiro de um dos barcos que prestou socorro, tirou uma foto do avião dentro do rio enquanto os passageiros ainda eram retirados da aeronave e enviou-a por Twitter antes que a mídia tradicional chegasse ao lugar”; ou que, “em fevereiro de 2009, a Country Fire Authority australiana usou o Twitter para divulgar alertas regulares e atualizações a respeito dos incêndios florestais de 2009 na região de Victoria”. Mas noticiar esses casos é como tentar convencer futuros apostadores dos benefícios universais a comprar bilhetes de loteria publicando de tempos em tempos a sorte grande dos poucos vencedores – enquanto evitam mencionar os milhões de frustrados perdedores.

Sejamos realistas: os impactos das novas tecnologias de comunicação são como os feitos da economia liderada pelos bancos, em que os ganhos tendem a ser privatizados, e as perdas socializadas. Em ambos os casos, “os danos colaterais” tendem a ser desproporcionalmente maiores, mais profundos e insidiosos que os eventuais e raros benefícios.

Existe, no entanto, um benefício de outro tipo, muito mais generalizado, que parece ser o principal atrativo do Twitter. Já há algum tempo, a famosa “prova da existência” de Descartes, “Penso, logo existo”, tem sido substituída e rejeitada por uma versão atualizada para nossa era da comunicação de massas: “Sou visto, logo existo.” Quanto mais pessoas podem escolher me ver, mais convincente é a prova de que estou aqui.

O padrão é estabelecido pelas celebridades. Não se mede o peso e a importância da existência dos “famosos” pela relevância do que eles fizeram, isto é, pelo peso de seus feitos (de qualquer modo, não dá para avaliar corretamente essas qualidades e confiar o bastante nos resultados para sustentar uma opinião). Sem dúvida as “celebridades” só têm importância pela visibilidade de sua presença: elas têm de ser olhadas e vistas por uma multiplicidade de pessoas, nas bancas de jornais, nas primeiras páginas dos tabloides, nas capas de revistas de amenidades, nas telas dos aparelhos de televisão. Se muita gente as olha, vigia cada passo que dão, se muitos dão ouvidos às fofocas a respeito de suas últimas aventuras, maldades e travessuras, se muita gente fala delas, então deve haver “algo nelas” – afinal, tantos não poderiam estar tão errados ao mesmo tempo!

Daniel Boorstin sintetizou tudo isso de maneira admirável: “A celebridade é uma pessoa famosa por ser famosa.” Conclusão (não necessariamente verdadeira, mas de todo modo crível): quanto maior é a frequência das minhas mensagens, quanto mais pessoas visitam meu Twitter, mais chances terei de ingressar nas fileiras dos famosos. Tal como as celebridades, o assunto das mensagens é completamente irrelevante. Afinal, o que lemos e ouvimos sobre as celebridades, no mais das vezes, trata do que elas comeram no café da manhã, de seus casos amorosos e incursões nos shoppings.

Como o peso da presença de uma pessoa no mundo é medido por sua “fama”, minhas mensagens lançadas ao mundo também são um meio de incrementar minha importância espiritual (uma espécie de dieta às avessas – considerando que fazer dieta é um método de diminuir nosso peso corporal). Pelo menos é o que parece. Tudo isso pode não passar de ilusão. Mas, para muitos de nossos contemporâneos, é uma ilusão bem-vinda. Bem-vinda para aqueles treinados e educados para crer que só conta ser visto, mas que não tiveram acesso às revistas de amenidades e aos jornais sensacionalistas, as verdadeiras fontes do poder de dividir as pessoas entre os “que são vistos” e os invisíveis, e de mantê-los do lado “visualizável” da divisão.

O Twitter é, para nós, pessoas comuns, o que as capas de revistas semanais e mensais representam para os poucos que são proclamados extraordinários. Nosso Twitter é uma espécie de réplica das butiques de alta-costura no comércio popular: o substituto da igualdade para os destituídos. Aos que estão condenados a comprar nas lojas populares, o Twitter atenua as crises da humilhação causada pela falta de acesso às lojas exclusivas.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 16:37



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D