Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




On-line, off-line

por Thynus, em 23.03.13
Ann-Sophie, vinte anos, estudante da Copenhagen Business School, respondeu da seguinte maneira as perguntas formuladas por Flemming Wisler: “Não quero que minha vida me controle demais. … O mais importante é se sentir à vontade. … Ninguém quer ficar parado no mesmo emprego por muito tempo.” Em outras palavras: mantenha abertas suas opções. Não jure fidelidade do tipo “até que a morte nos separe” a qualquer coisa ou a qualquer pessoa. O mundo está cheio de oportunidades maravilhosas, sedutoras e promissoras; é loucura perder qualquer delas tentando se amarrar de pés e mãos a compromissos irrevogáveis.

Não admira que o surfe ocupe um dos primeiros lugares de uma lista de habilidades básicas que motivam um jovem a procurar aprender, que ele anseia por dominar acima e além do desejo ultrapassado de “sondar” e “penetrar” o sentido das coisas. Mas, como observou Katie Baldo, orientadora pedagógica da Cooperstown Middle School, do Estado de Nova York, “os adolescentes perdem importantes dicas sociais porque estão fixados em seus Ipods, telefones celulares e videogames. Vejo isso o tempo todo nos corredores do colégio, quando eles não conseguem dizer ‘oi’ nem fazer contato com os olhos”.

Fazer contato com o olhar, reconhecendo a proximidade física de outro ser humano, parece perda de tempo: sinaliza a necessidade de gastar uma parcela do tempo precioso, mas horrivelmente escasso, em mergulhos profundos (coisa que a exploração de profundidades certamente exigiria); uma decisão que poderia interromper ou impedir o surfe por tantas outras superfícies não menos – e talvez muito mais – convidativas.

Numa vida de contínuas emergências, as relações virtuais derrotam facilmente a “vida real”. Embora os principais estímulos para que os jovens estejam sempre em movimento provenham do mundo off-line, esses estímulos seriam inúteis sem a capacidade dos equipamentos eletrônicos de multiplicar encontros entre indivíduos, tornando-os breves, superficiais e sobretudo descartáveis. As relações virtuais contam com teclas de “excluir” e “remover spams” que protegem contra as consequências inconvenientes (e principalmente consumidoras de tempo) da interação mais profunda.

Não posso deixar de recordar aqui Chance, o personagem interpretado por Peter Sellers no filme Muito além do jardim (1979), de Hal Hashby: recém-chegado a uma cidade movimentada, depois de passar a vida inteira num tête-à-tête exclusivo com “o mundo mostrado pela televisão”, Chance tenta em vão apagar um irritante e desagradável grupo de freiras de seu campo visual com a ajuda do controle remoto.

Para um jovem, o principal atrativo do mundo virtual é a ausência de contradições e objetivos conflitantes que rondam a vida off-line. O mundo on-line, por outro lado, cria uma multiplicação infinita de possibilidades de contatos plausíveis e factíveis. Ele faz isso reduzindo a duração desses contatos e, por conseguinte, enfraquecendo os laços, muitas vezes impondo o tempo – em flagrante oposição à sua contrapartida off-line, que, como é sabido, se apoia no esforço continuado de fortalecer os vínculos, limitando severamente o número de contatos à medida que eles se ampliam e se aprofundam. Essa é uma grande vantagem para homens e mulheres que se atormentam com a ideia de que o passo que deram talvez seja equivocado (apenas talvez), e que talvez (apenas talvez) fosse tarde demais para minimizar as perdas. Daí se sentirem mal com tudo que evoque um compromisso “de longo prazo” – seja planejar a vida, seja envolver-se com outros seres vivos.

Fazendo um apelo óbvio aos valores da nova geração, um recente comercial anunciou a chegada ao mercado de uma nova marca de rímel, que “promete manter os cílios impecáveis por 24 horas”, usando o seguinte argumento: “Falamos de uma relação séria. Uma só aplicação, e seus belos cílios resistirão a chuva, suor, umidade, lágrimas. E é facilmente removível – basta água morna.” A duração de 24 horas já parece uma “relação séria”, mas até um compromisso tão rápido se tornaria menos sedutor se suas consequências não fossem tão fáceis de remover.

Seja qual for a escolha, ela nos fará recordar o “manto leve” de Max Weber, um dos fundadores da sociologia moderna; ele podia ser removido dos ombros à vontade, num instante, sem muitos problemas – ao contrário da “rígida crosta de aço”, que proporcionava uma proteção eficaz e duradoura contra as turbulências, mas era difícil de se despir, além de tolher os movimentos da pessoa que protegia e restringir o espaço para o exercício de seu livre-arbítrio.

O que mais importa para os jovens é preservar a capacidade de remodelar a “identidade” e a “rede” no momento em que surge uma necessidade (ou, na verdade, um capricho) de refazê-las, ou quando se suspeita que essa necessidade já tenha surgido. A preocupação dos antepassados com a própria identificação, exclusiva e única, tende a ser deslocada pela preocupação com uma reidentificação perpétua. As identidades devem ser descartáveis; uma identidade insatisfatória, ou não suficientemente satisfatória, ou uma identidade que denuncia a idade avançada, deve ser facilmente abandonável; a biodegradabilidade talvez seja o atributo ideal da identidade mais desejável nos nossos dias.

As capacidades interativas da internet são feitas sob medida para essa nova necessidade. Em sua versão eletrônica, é a quantidade de conexões, e não sua qualidade, que faz toda a diferença para as chances de sucesso ou de fracasso. É isso que possibilita manter-se au courant do que “todo mundo está falando” e das escolhas indispensáveis do momento: as músicas mais ouvidas, as camisetas da moda, as últimas aventuras das celebridades, as festas mais badaladas, os festivais e eventos mais comentados.

Ao mesmo tempo, estar em dia com tudo isso ajuda a atualizar os conteúdos e a redistribuir as ênfases na imagem da pessoa; ajuda ainda a apagar depressa os vestígios do passado, isto é, os conteúdos e as ênfases que agora estão vergonhosamente fora de moda. Tudo somado, a internet facilita demais, incentiva e inclusive impõe o exercício incessante da reinvenção – numa extensão inalcançável na vida off-line. Esta é, sem dúvida, uma das mais importantes explicações para o tempo que a “geração eletrônica” gasta no universo virtual: o tempo gradual e crescentemente utilizado no mundo virtual em detrimento do tempo passado no mundo “real” (off-line).

Os referentes dos principais conceitos que emolduram e mapeiam o Lebenswelt, o mundo do dia a dia, o mundo do qual o jovem tem experiência pessoal, estão sendo gradual e continuamente transplantados do espaço off-line para o espaço on-line. Entre os mais importantes desses conceitos estão os de “contato”, “encontro”, “reunião”, “comunicado”, “comunidade” ou “amizade” – todos referidos a relações interpessoais e a laços sociais.

Um dos principais efeitos da nova localização dos referentes é a percepção dos laços e compromissos sociais vigentes como fotos instantâneas do processo de renegociação, e não de situações estáveis de duração indefinita. (Diga-se desde logo que “foto instantânea” não é uma metáfora muito feliz, porque ela ainda mantém implícita a ideia de uma durabilidade superior à dos laços e compromissos mediados via eletrônica. A expressão “foto instantânea” pertence ao vocabulário do papel fotográfico e das fotografias reveladas e impressas, que só aceitam uma imagem por toda a vida; ao passo que, no caso dos laços criados por via eletrônica, apagar, reescrever e escrever por cima, inconcebíveis nos negativos de filmes e nos papéis fotográficos, são as opções mais importantes e mais recorrentes; na verdade, são o único atributo indelével das relações mediadas pela eletrônica.)

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 07:26



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D