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Cristianismo

por Thynus, em 20.03.13


O Cristianismo é uma religião monoteísta que apresenta numerosas ramificações surgidas das diversas misturas culturais realizadas durante seus dois mil anos de história. É além disso uma das maiores religiões do mundo contemporâneo, dominante no Ocidente, influenciando mesmo os mais céticos.
A religião cristã, como movimento cultural, é antes de tudo uma construção histórica, o que significa que ela precisa ser historicizada, sempre entendida a partir do período e da sociedade na qual está inserida. Mas de outro modo, como religião, é também um conjunto de práticas e ritos. É preciso lembrar, porém, que Cristo não elaborou claramente uma doutrina teológica propriamente dita, o que só foi realizado posteriormente pelos primeiros cristãos a organizarem sua Igreja.
O Cristianismo surgiu no Império Romano, com a pregação dos seguidores de Jesus Cristo, profeta martirizado na Jerusalém romana no século i. A palavra cristão foi usada pela primeira vez em Antioquia, cidade Síria, que era então um dos mais importantes núcleos urbanos do Império Romano. O termo equivalia a povo de Cristo. Por essa mesma época e na mesma cidade, surgiu outra expressão, por muito tempo fortemente vinculada ao povo de Cristo: católico. Esse termo foi utilizado pela primeira vez para se referir à “Igreja como um todo”, opondo-se às diversas posturas divergentes que as comunidades possuíam. A partir desse ponto, católico foi progressivamente tornando-se sinônimo de universal. Essa definição permitiu à Igreja Católica apresentar-se como detentora do único ponto de vista correto que deveria ser aceito por todas as comunidades cristãs primitivas.
Desde muito cedo, entretanto, grupos divergentes apareceram, contrapondo-se a essa visão de mundo que se considerava universalista. A vasta maioria deles, todavia, foi sufocada pela Igreja, como as chamadas heresias medievais. Outros, ao longo do tempo, conseguiram resistir ao esmagamento, tornando-se igrejas independentes e criando tradições próprias, como é o caso das ramificações protestantes surgidas a partir da Idade Moderna. Nesse sentido, percebemos que não há uma unidade interna ao Cristianismo, chegando mesmo suas diferentes facções a se separarem totalmente, muitas vezes tornando-se rivais.
Mas apesar da fragmentação que o Cristianismo foi sofrendo na história, característica fundamental que a tornou uma das mais importantes religiões do mundo foi sua grande expansão. Primeira religião a cruzar os oceanos e estabelecer-se em todos os continentes: na Idade Média, igrejas cristãs floresciam desde os planaltos áridos da Etiópia até os fiordes gelados da Groelândia; missionários levaram a religião cristã para os pontos mais distantes do continente asiático, desde o Mar Cáspio e a China, até às praias indianas; padres católicos chegaram ao Japão no século xvi e acompanharam as expedições portuguesas e espanholas durante a conquista do Novo Mundo; importantes comunidades protestantes fundaram colônias na América do Norte, na África do Sul e na Austrália, definindo a religiosidade que até hoje marca esses países.
Praticamente todas as igrejas cristãs têm um denominador comum e reconhecem Cristo como seu fundador. Além disso, outro ponto de união é a crença monoteísta herdada da tradição judaica, mas que defende a divindade de Jesus Cristo e do Espírito Santo, ou seja, a teoria da Santíssima Trindade. Nessa teoria, o único Deus se revela em três “pessoas” independentes, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que são também consideradas uma unidade, por compartilharem de uma mesma “substância”. Com algumas exceções, a maior parte das Igrejas cristãs aceita as deliberações dos três primeiros concílios ecumênicos: Niceia, em 325; Constantinopla, em 381; e Calcedônia, em 425. Entre essas deliberações está a crença na identidade da substância, ou seja, no chamado mistério da fé, segundo o qual as três pessoas são e não são um único Ser; também está a crença em Maria como paridoura de Deus, visto que seu filho teve duas naturezas, a divina e a humana (excetuando o pecado). Entre as Igrejas que não aceitam tais crenças, estão a Igreja Etíope, as orientais, como a caldaica, e denominações cristãs surgidas no século xix e chamadas de “ramos colaterais” do Cristianismo, como as Testemunhas de Jeová, os Mórmons e a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
O Cristianismo primitivo foi baseado nos ensinamentos de Cristo e na crença em sua morte e ressurreição. Para as primeiras comunidades cristãs e sua doutrina, Deus  intervinha diretamente na história humana, a morte de Cristo representava o penhor pela salvação de toda a humanidade e o reino de Deus era instalado naquele momento. Até o momento em que o Apóstolo Paulo expandiu a fé cristã, a partir do século i d.C., para muitos rincões do mundo romano helenizado, o Cristianismo foi considerado apenas um movimento reformista no Judaísmo e bastante próprio de Jerusalém. As primeiras comunidades cristãs eram pequenas e dispersas e se formaram quando os Apóstolos, discípulos do próprio Cristo, ainda viviam em seu meio. Todavia, com a morte de Paulo, a hierarquia da Igreja começou a se enrijecer, o que permitiu a sobrevivência da nova religião. Por volta de 110 d.C., o bispo Inácio estabeleceu os três cargos clássicos da hierarquia eclesiástica: bispos, presbíteros e diáconos, instituindo, assim, a separação entre povo e hierarquia. Se antes predominavam nas comunidades aqueles com mais carisma, e a capacidade administrativa era uma qualidade irrelevante, a partir de então apenas os funcionários eclesiásticos podiam dirigir as igrejas, e o povo tornou-se audiência. A eucaristia, por exemplo, não podia mais ser celebrada sem a presença de um bispo.
O Cristianismo passou então a se identificar com a Igreja Católica, que até o cisma da Igreja Ortodoxa foi a única Igreja cristã existente. Seu fortalecimento institucional deu-se exatamente nos séculos de crise do Império Romano, quando as instituições romanas ruíam. A ausência de ordem e poder, assim como os temores advindos da situação de crise em muito contribuíram para a aceitação dos valores cristãos pela maior parte da população do Império. Assim, de religião perseguida, o catolicismo se tornou religião oficial do Estado romano decadente. A Igreja surgiu, assim, com uma face protetora, assumindo as funções das antigas autoridades políticas romanas e, ao mesmo tempo, uma face perseguidora, pois os judeus e os fiéis dos cultos pagãos passaram a ser acossados. Durante a Idade Média, com o incremento do poder institucional da Igreja, o Cristianismo se tornou instituição de caráter supranacional, e o sentimento de pertencer à cristandade, na Europa, deveria ser maior do que o sentimento de pertença a um povo em particular.
Já com o surgimento dos Estados nacionais europeus, na transição da Idade Média para a Idade Moderna, o poder secular e político da Igreja entrou em crise, criticado pelos Estados emergentes. Em alguns casos, esses Estados se associaram à Igreja, passando a ser seu braço secular, como Portugal e Espanha. Em outros, entretanto, iniciaram-se sérias disputas políticas, como na França e nos principados alemães, que culminariam na Reforma Protestante.
Mas um dos primeiro abalos às pretensões católicas de centralização política e religiosa foi o chamado Cisma do Oriente em 1054, quando a exigência feita pela linha romana do catolicismo de ter a primazia sobre toda a Igreja afastou o Cristianismo ocidental do oriental. Tal processo foi desencadeado porque o patriarca latino sediado em Roma (posteriormente designado de papa), que era apenas um dentre os cinco patriarcas líderes da Igreja, e o único no Ocidente, exigiu para si a supremacia política, entrando em choque com a organização da Igreja Oriental. A Igreja Oriental, que era uma comunhão de Igrejas – originalmente os patriarcados de Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Jerusalém –, não aceitou as pretensões centralistas que emanavam de Roma. Essa disputa política serviu como pano de fundo para uma série de pequenas questões teológicas que terminou por separar as duas metades da Igreja. E diferentemente da Reforma Protestante, o Cisma de 1054 não apresentou nenhuma grande questão teológica de relevo, tanto que hoje, revogadas as excomunhões mútuas entre as duas Igrejas, quaisquer dos sacramentos recebidos em uma Igreja são válidos na outra. De qualquer maneira, foram as pequenas diferenças teológicas que serviram de estopim para a separação. A Trindade, aceita por ambos os lados, por exemplo, era vista de maneira diferente: os padres gregos ortodoxos entendiam o Deus único como uma estrela que dá luz a uma segunda e a uma terceira, apresentando o Espírito Santo (a terceira “estrela”) como provindo apenas do Deus Pai. A visão latina, por sua vez, a partir de Santo Agostinho, defendia que as três estrelas brilhavam simultaneamente no mesmo nível, assim como o Espírito Santo, fruto do amor entre Deus Pai e Deus Filho, era proveniente de ambos, e não apenas do primeiro – era um Deus que se autodesdobrava.
A partir de seu berço bizantino-mediterrânico, o Cristianismo oriental espalhou-se pela Europa do Leste: o bizantinólogo Charles Diehl, no final do século xix, falou do papel de “educador” exercido por Bizâncio. De fato, os povos ditos bárbaros localizados além do Danúbio não foram atingidos pela Igreja Romana, mas pelos padres orientais. O monge oriental Cirilo, por exemplo, antes do século x, serviu junto aos morávios, incutiu-lhes a religião cristã em sua própria língua e criou para eles um alfabeto a partir do grego com sinais apropriados às suas expressões. Esse alfabeto, chamado cirílico, é ainda hoje a escrita de quase todas as línguas eslavas. Além disso, sérvios, búlgaros, russos, ucranianos, todos abraçaram a religião cristã ortodoxa.
No Ocidente, por sua vez, diante da decadência geral em que se encontrava a Igreja ao fim da Idade Média, não foram poucos os que tentaram reformá-la. Alguns agiram a partir de dentro, tentando transformar a estrutura sem abandoná-la de vez, como os franciscanos. Outros, diferentemente, não viam naquele sistema senão corrupção e perversão, e defendiam uma mudança tão profunda na estrutura que, ao fim, a Igreja não seria mais a mesma. Essa linha mais radical deu origem às diversas denominações protestantes.
Diferentemente da Igreja Católica, para quem uma única interpretação é fundamental, para o Cristianismo protestante a livre interpretação sempre foi uma das premissas básicas. Dessa maneira, com as igrejas ou denominações mais tradicionais, outras tantas surgiram com sutis variações teológicas. A partir da vertente Luterana, por exemplo, fortemente ligada ao Estado, surgiram igrejas nacionais como a sueca, a alemã, a norte-americana, entre outras, todas guardando entre si certa independência. Do Calvinismo, a mais relevante igreja a surgir foi a Presbiteriana. A partir da matriz Anglicana, evoluiu o maior número de novas denominações: a Episcopal (surgida após a independência dos Estados Unidos, pois os fiéis recém-independentes não queriam ficar atrelados a uma igreja inglesa), as Pentecostais, a Batista, a Congregacional, entre outras.
Mais ao sul, uma forte e antiga Igreja cristã resistiu: a Igreja Copta, termo que significa egípcio em grego, depois abreviado pelos árabes para fazer referência aos cristãos egípcios. Igreja cristã africana, com marcante presença na Etiópia, onde gerou toda uma cultura e um alfabeto próprios, a Igreja Copta se distingue das demais Igrejas cristãs, mesmo as orientais, por ser monofisista. Enquanto todas as Igrejas ocidentais sustentam que Cristo teve, ao mesmo tempo, duas naturezas, uma humana, outra divina, o monofisismo sustenta a existência de apenas uma natureza, a divina. Como o monofisismo foi condenado pela Igreja ocidental ainda unificada com o Oriente em 451, no Concílio de Calcedônia, a Igreja africana se separou do ramo maior do Cristianismo, isolando-se das outras vertentes.
Percebemos, assim, grande diversidade no Cristianismo. Embora durante sua longa história a maior parte de suas Igrejas tivesse se envolvido com questões de Estado, disputas, perseguições e violências de toda natureza, não devemos esquecer que, em seus fundamentos, o Cristianismo é uma doutrina filosófica que prega a não violência, o desapego ao mundo material, a caridade material e espiritual. Os princípios fundamentais do Cristianismo não são responsáveis, em si mesmos, por práticas fundamentalistas, violentas e intolerantes. Historicamente, todavia, essas práticas existiram.
Sendo a religião dominante no Ocidente, o Cristianismo, em suas muitas variações, termina por ser a religião da maioria dos alunos e dos professores no Brasil. Tal situação torna-se perigosa para o ensino e a conscientização social, dada a tendência a não se historicizar essa fé. No entanto, com dois mil anos de idade, diversas vertentes e uma história de relações com os Estados, o Cristianismo precisa ser estudado do ponto de vista histórico, e não entendido como uma entidade abstrata e atemporal. O pretenso universalismo das Igrejas cristãs e os vínculos estabelecidos com o poder secular permitiram por muito tempo uma série de imposições culturais  combinadas com interesses de ordem econômica responsáveis pela destruição física e cultural de diversas populações. A visão crítica, todavia, não precisa obliterar o fato de que há no Cristianismo, como em outras religiões, valores importantes para a vida em sociedade. Além disso, visto que essa religião está presente nos programas do ensino Médio e Fundamental em diferentes momentos, temos de nos defrontar com a necessidade de fazer uma reflexão crítica sobre nosso nível de envolvimento com o tema, repassando essa necessidade para os alunos. O desafio com que professores de História se defrontam ao abordar esse tema é trabalhar com os alunos mais religiosos o caráter histórico do Cristianismo, apresentando-lhes o fato de que analisar criticamente o processo histórico que envolve essa religião não significa perder de vista sua fé.

(Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva - "Dicionário de conceitos históricos)

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