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Religião

por Thynus, em 20.03.13


Toda sociedade humana ao longo da história parece ter possuído religião. Apesar disso, para alguns autores, o conceito de religião foi construído no Ocidente: se, por um lado, a religiosidade encontrada já nos neanderthais e visível em suas cerimônias fúnebres é um dos aspectos definidores do ser humano, por outro, foi no Ocidente que a distinção entre religião e os outros aspectos da vida social foi realizada. A palavra religião vem de religio, termo latino que originalmente se referia a qualquer conjunto de regras e interdições. Religião, pois, é uma categoria de análise histórica e social que pode ser definida como um conjunto de crenças, preceitos e valores que compõem artigo de fé de determinado grupo em um contexto histórico e cultural específico, lembrando que a religião é sempre coletiva.

Se já podemos ver religião entre os primeiros seres humanos, isso se deve a sua característica de esforço para explicar o mundo e o universo. Toda sociedade ao longo da história se preocupou com suas origens, com a própria origem da espécie e com os mistérios da morte. Os conjuntos de crenças que chamamos de religião foram as primeiras tentativas, válidas até hoje em diferentes culturas, para responder a essas questões. Tais crenças, originalmente, davam sentido e ordem a um mundo desconhecido e identificado com o caos, algo sempre temido pelas culturas da Antiguidade, como a Mesopotâmia e a Grécia Clássica.

Esses conjuntos de crenças que se apresentam como religiões podem assumir diferentes aspectos conforme a cultura que os constrói. Em alguns casos, baseiam-se no desenvolvimento dos valores e códigos de conduta, sem creditar a criação e os valores a entidades superiores, como é o caso da religião tupi-guarani, considerada por Hélène Clastres a própria negação da Teologia, visto a ausência total de divindades. No entanto, na maioria das vezes, as religiões defendem a existência de seres superiores, entidades sobrenaturais, com poderes sobre o destino humano. Tais seres superiores são os deuses.

Mas a variedade da religiosidade humana inclui mesmo a descrença na própria religião. Assim, é possível classificarmos indivíduos e sociedades naqueles que creem em religiões e naqueles que não creem. Nesse segundo caso estão ateus e agnósticos. Os ateus são aqueles que rejeitam a existência de divindades, sendo que alguns estudiosos defendem mesmo a existência de religiões ateias, que não consideram a existência de divindades. Exemplos seriam o Budismo, o Confucionismo, o Taoísmo, além da já mencionada religião tupi-guarani.

O agnosticismo, por sua vez, nega tanto o deísmo como o ateísmo, pois não considera que seja possível discutir e muito menos resolver a questão da existência ou não de poderes superiores. O agnosticismo se recusa a discutir a existência da religião como característica intrínseca à humanidade, assim como a possibilidade da existência de divindades. Para ele, na verdade, assim como é impossível provar a existência de Deus, é igualmente impossível provar Sua inexistência. Para os agnósticos, a discussão em torno da existência de divindades é, no mínimo, fútil e inútil, pois jamais vamos poder chegar a um resultado. Mas ateísmo e agnosticismo são conceitos complexos e muitas vezes pouco definidos. É comum, inclusive, a definição de agnóstico como aquele que não pertence a nenhuma religião, mas crê na existência de alguma entidade sobrenatural. Esses seriam os deístas. Sinteticamente, é possível afirmar, de forma simplista, que o ateu não acredita em deuses e o agnóstico enfatiza a dúvida.

Colocando agora a questão do ponto de vista dos que aceitam a religião, podemos fazer outra separação em dois grandes blocos, as religiões deístas, com divindades, e as religiões “ateias”, ou seja, sem divindades. No segundo caso estão religiões de cunho antropocentrista, cuja função é ditar valores morais, buscar a perfeição ou o paraíso, mas por meio da própria humanidade e não da adoração de entidades superiores. No Budismo, por exemplo, a busca se centra na elevação espiritual. Por  meio de uma série de preceitos e práticas ascéticas, o fiel budista almeja alcançar a perfeição humana, o Nirvana. Este não é o paraíso oferecido por divindades àqueles que seguem suas normas fielmente; pelo contrário, o Nirvana é o estágio mais elevado da própria humanidade, alcançado pelos que se dedicam a desenvolver certas potencialidades humanas ligadas ao espírito.

Já a extinta religião tupi-guarani, por sua vez, acreditava em paraíso. Mas este, todavia, não era criado e nem de responsabilidade de divindades: estava na terra, e poderia ser alcançado tanto pelos vivos quanto pelos mortos. Não existiam preceitos nem ritos específicos nessa religião, e o culto, quando presente, era voltado para a própria humanidade na figura dos antepassados. Mas, em geral, até mesmo esse culto era secundário, sendo o principal elemento religioso a busca da terra sem mal, o paraíso terreno.

Assim, podemos observar por esses exemplos que a religiosidade humana prescinde mesmo da divindade, muitas vezes se voltando para a própria glorificação do humano. Hoje, no entanto, as religiões com mais adeptos no mundo são as deístas, aquelas que acreditam na existência de divindades. Nesse caso também é possível fazer uma subdivisão entre as mono e as politeístas. Enquanto as primeiras defendem a existência de uma única divindade, as politeístas adoram um panteão, um conjunto de muitos deuses e deusas. As maiores religiões do mundo hoje são as monoteístas. E apesar do Judaísmo ter menos de 20 milhões de adeptos, com o Cristianismo e o Islã, abarca a metade da humanidade. Entre as politeístas, por sua vez, o Hinduísmo é a mais significativa. No entanto, a definição de religiões poli e monoteístas pode não ser tão simples como pensávamos. Primeiro, para muitos monoteístas não cristãos o próprio Cristianismo com a crença na Santíssima Trindade não é monoteísta, pois adoraria três divindades. Segundo lugar, visto que o Cristianismo afirma a unidade da divindade na Trindade, também o Hinduísmo, no qual todas as divindades terminam sendo reafirmações da divindade criadora, seria monoteísta e não politeísta. Entre os dois extremos está a definição de religião henoteísta, em que o politeísmo pode dar lugar a uma adoração monoteísta quando determinado grupo de fiéis escolhe adorar apenas uma divindade do panteão. Um exemplo seria o culto a Hare Krishna, originário do Hinduísmo, cuja adoração está centrada apenas em Krishna, avatar de Vishnu, uma das três divindades principais do panteão hindu.

Atualmente, as duas maiores religiões em números de praticantes são o Islã e o Cristianismo. A terceira, o Hinduísmo, por sua vez, é politeísta. A maioria das civilizações, até o surgimento e a expansão do Cristianismo e do Islamismo, eram politeístas, desde a Grécia clássica passando pelos maias na América Central até as cidades-estados iorubás na África ocidental. A marca de uma religião politeísta é seu panteão diversificado, em que a cada divindade são atribuídas determinadas características. Hoje o Hinduísmo, religião oficial da Índia, é a principal religião politeísta do mundo. No entanto, alguns consideram mais correto falar do Hinduísmo como um conjunto de religiões que partilham elementos em comum, mas sem uma teologia única. Muitos praticantes do Hinduísmo, inclusive, se ressentem desse termo, que tem mais uma característica geográfica que religiosa. O termo mais apropriado, para os indianos mais tradicionalistas, é Sanatana-Dharma, “religião eterna”. Como o Judaísmo, o Hinduísmo também gerou várias religiões importantes, como o Budismo e o Sikhismo.

O Budismo poderia se encaixar naquela definição de uma religião ateia, visto que não se baseia no culto às divindades. Surgida da filosofia pregada por Buda, o Iluminado, ou Siddartha Gautama, no século vi a.C., expandiu-se pela Ásia, hoje com 300 milhões de devotos em todo o mundo. O principal líder espiritual do budismo é o Dalai Lama, considerado, pela corrente tibetana do Budismo, a reencarnação de Buda. E, apesar de seu crescimento no Ocidente, nessa região ainda é uma religião sobre a qual são elaborados muitos mal-entendidos, principalmente devido ao crescimento do esoterismo, que reivindica, em geral, de modo indevido, ligações com a pregação budista. A base deste é a crença em uma insatisfação inerente ao homem, que, no entanto, pode ser transcendida para se obter a perfeição.

A variedade de religiões na história engloba ainda experiências tão diversas como o Candomblé, o Xintoísmo e o Espiritismo. O Espiritismo, ou Kardecismo, surgido no final do século xix na Europa com a doutrina de Allan Kardec, é uma religião espiritualista, ou seja, enfatiza a alma, acreditando que esta sobrevive à morte física do corpo. O Espiritismo mescla Cristianismo e influências hinduístas, como a crença fundamental na reencarnação, tendo como uma de suas características marcantes a apropriação de uma linguagem científica, reivindicando para si uma característica de cientificidade.

O Candomblé, por sua vez, é uma religião politeísta, que apesar de baseada no culto aos orixás, deuses africanos de povos como os iorubás, da atual Nigéria e Benin, nasceu no Brasil criada pelos escravos com base em cultos africanos, mas com elementos próprios, muitas vezes miscigenados. No entanto, a ligação do Candomblé com a religião africana dos orixás é bastante visível no fato de que em outros lugares da América podemos encontrar religiões com tradições similares, como a Santería cubana, por exemplo, também elaborada por escravos africanos.

Já o Xintoísmo, ou Xintó, religião tradicional do Japão, assim como a religião tupi-guarani e outras religiões “ateias”, pouco credita à teologia, preferindo se dedicar a encorajar respeito e gratidão aos ancestrais, além de enfatizar aspectos morais e sociais. Também como a religião tupi-guarani, o Xintoísmo não tem nem mesmo um termo específico para o conceito ocidental de Deus. Uma das suas mais marcantes e particulares características, no entanto, é seu caráter intrinsecamente nacional, estando tão ligado à cultura japonesa que praticamente não se propagou para outras regiões.

A discussão sobre a diversidade religiosa e os múltiplos significados da religião é ampla, e, depois de ter sido relegada por muito tempo como tema de pouco interesse para a ciência, a crise da modernidade no Ocidente trouxe de volta um interesse saudável em rever a religiosidade humana como parte integrante do que define mesmo o ser humano. A retomada da religião pode ser sentida na sala de aula, nas propostas curriculares de pedagogos. Cabe ao professor de História participar desse processo de revalorização da religiosidade, explicando historicamente a grande diversidade de crenças. No entanto, devemos tomar muito cuidado para não confundirmos valorização da religiosidade, como importante componente da identidade humana, com a imposição de crenças particulares específicas. Para o historiador, o respeito à liberdade de crenças, ainda que seja o respeito ao direito de não possuir nenhuma religião, é fundamental, e o professor precisa sempre ter esses preceitos em mente ao discutir temas correlatos.

(Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva - "Dicionário de conceitos históricos)

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publicado às 21:09



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