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As decisões pessoais também afetam considerações globais — a ligação nesse caso é de "pessoa" a "planeta". A reprodução socializada conecta as decisões individuais à própria continuidade da espécie na Terra. Na medida em que a reprodução da espécie e a sexualidade se desvinculam, não há mais garantia da reprodução futura da espécie. O desenvolvimento da população global se incorpora dentro dos sistemas internamente referidos. Grande número de processos individuais de tomada de decisões, ligados através desses sistemas, provavelmente produzirão incertezas comparáveis àquelas geradas por outras ordens socializadas. A reprodução torna-se uma decisão individual variável, com um impacto geral sobre a reprodução da espécie que pode ser imponderável.
Podemos desenhar ainda mais conexões entre opções de estilo de vida e influências globalizantes. Consideremos os tópicos relacionados ecologia global e tentativas de redução do risco de guerra nuclear. Ao tocar em questões ecológicas e sua relação com debates políticos devemos perguntar antes de mais nada por que tanta atenção é dada a elas hoje. A resposta deve ser encontrada em parte na evidência acumulada de que o ambiente material foi submetido a processos de decadência mais abrangentes e intensos do que se suspeitava. Muito mais decisivas, contudo, são as alterações nas atitudes humanas relevantes para o problema. Pois o fato de que "a natureza chegou ao fim" não está limitado à consciência especializada dos profissionais; é conhecido pelo público em geral. Uma parte óbvia do crescente interesse pela ecologia é o reconhecimento de que a reversão da degradação do meio ambiente depende da adoção de novos padrões de estilo de vida. De longe a maior quantidade de prejuízo ecológico deriva dos modos de vida adotados pelos setores modernos da sociedade mundial. Os problemas ecológicos realçam a nova e acelerada interdependência dos sistemas globais e mostram a todos a profundidade das conexões entre a atividade pessoal e os problemas planetários.
Enfrentar as ameaças advindas do dano aos ecossistemas da Terra provavelmente demandará respostas globais coordenadas em níveis muito distantes da ação individual. Por outro lado, essas ameaças não serão eficazmente combatidas a menos que haja uma reação e uma adaptação da parte de todo indivíduo. Mudanças generalizadas de estilo de vida, junto com uma diminuição da importância atribuída à contínua acumulação econômica, serão quase certamente necessárias se quisermos minimizar os riscos ecológicos hoje à nossa frente. Num complicado entrelaçamento de reflexividade, a generalizada consciência reflexiva da natureza reflexiva dos sistemas que correntemente transformam os padrões ecológicos é ao mesmo tempo necessária e provável.
O problema da capacidade nuclear está no centro dessas preocupações, e certamente constitui um elo entre as questões ecológicas em geral e a existência de armas nucleares. Debates sobre se usinas nucleares devem continuar a ser construídas e, caso positivo, que relação deverão manter com as fontes existentes de energia material exemplificam muitas das questões levantadas na área da política-vida. Riscos de alta conseqüência estão envolvidos, alguns derivados de fatores incrementais de longo-prazo, outros, de influências mais imediatas. Cálculos técnicos dos níveis de risco não podem ser completamente à prova de erros, porque não podem controlar o erro humano e porque podem existir fatores ainda imprevistos. Uma pessoa que desejar informar-se sobre os debates a respeito da energia nuclear descobrirá que os entendidos estão tão radicalmente divididos em suas avaliações como nas demais áreas em que os sistemas abstratos predominam. A menos que alguma outra saída tecnológica — até aqui desconhecida — seja encontrada, o uso generalizado da energia nuclear será provavelmente inevitável se os processos globais de crescimento econômico continuarem no mesmo ritmo que hoje, e mais ainda se estes se intensificarem.
A diminuição da dependência da energia nuclear, ou a procura da eliminação completa de suas fontes, seja em regiões e países particulares, ou numa escala mais ampla, envolveria mudanças significativas de estilo de vida. Como em outras áreas da expansão dos sistemas internamente referidos, ninguém sabe ao certo quanto prejuízo à vida humana e ao meio ambiente físico já terá sido causado pelas fontes existentes de energia nuclear; a evidência é controversa. Voltemos às questões pessoais da biologia e da reprodução socializadas. Como disse um autor, "nosso esperma, nossos óvulos, nossos embriões e nossos filhos" estão "na linha de frente" na luta na "fronteira tóxica".
Como afirmam os proponentes da "ecologia profunda", um distanciamento em relação à acumulação econômica poderá envolver a substituição dos processos econômicos de crescimento ilimitado pelo crescimento pessoal — o cultivo das potencialidades de auto-expressão e criatividade. O projeto reflexivo do eu pode portanto ser o próprio eixo de uma transição para uma ordem global para além da atual. A ameaça da guerra nuclear também está ligada ao projeto reflexivo do eu. Como diz Lasch, ambos colocam o problema da "sobrevivência" em vivo destaque. E no entanto poderíamos também dizer que ambos dão destaque ao problema da paz — coexistência humana harmoniosa no nível global e auto-realização psicologicamente satisfatória no plano pessoal. O problema do armamento nuclear entra na política-vida como uma apropriação tanto positiva quanto negativa. Mostra com particular clareza o nível em que o global e o pessoal são interligados porque, como no caso do desastre ecológico potencial, não há para onde correr para escapar. A tecnologia militar ficou cada vez mais complexa, uma série de sistemas especializados sobre os quais é difícil para o leigo obter suficiente conhecimento especializado (até certo ponto por causa do sigilo de que os sistemas de armamentos são cercados). E no entanto esse processo torna a irrupção potencial de uma guerra nuclear não mais uma preocupação específica dos estrategistas militares e líderes políticos, mas um problema que envolve a vida de todo mundo. Operando sob um signo negativo, o perigo de confronto nuclear coincide com outros aspectos do campo da política-vida ao estimular a consciência reflexiva da socialização da natureza e de suas implicações para a vida pessoal.

(Anthony Giddens - "Modernidade e Identidade")

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publicado às 15:03



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