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Caim de José Saramago

por Thynus, em 05.12.10

"Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a Adão e Eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta..."

Inicia assim o romance de José Saramago no qual assistimos a uma nova incursão na Bíblia e que se intitula CAIM, uma obra na qual o Nobel português faz uma revisão do Antigo Testamento. Caim é a reinterpretação do primeiro fratricídio narrado na Bíblia: Caim, primogénito de Adão e Eva que mata o irmão Abel. O mesmo autor, conhecido pelo seu ateísmo e depois de ser acusado várias vezes de anti-semitismo, comenta assim as escrituras: "É-me difícil compreender como o povo hebraico tenha escolhido como texto sagrado o Antigo Testamento. È uma tal mistura de absurdos que não pode ter sido inventado por um homem só. Foi preciso gerações e gerações para produzir esta monstruosidade".
Depois duma primeira olhada ao Novo Testamento do Evangelo segundo Jesus Cristo em 1991, romance que fez crescer a sua popularidade em todo o mundo, Saramago vai mais atrás no tempo e à raíz da história do cristianismo oferecendo uma visão heterodoxa e enfrentando o tema de Deus e das suas criaturas.

"Deus, o demónio, o bem, o mal, tudo está na nossa cabeça, não no céu ou no inferno, também estes inventados por nós. Não nos damos conta, que tendo inventado Deus, nos tornamos imediatamente escravos". Esta é uma das reflexões que o escritor fez sobre o seu novo livro. A reinventação historico-literária está carregada de subtil e elegante ironia típicas do estilo de Saramago, com uma história que vai mais além do mero facto narrado pela Bíblia para aportar ao tema eterno: crer ou não crer num ser supremo. O livro chega a tratar também questões como a religiosidade, o poder e a tirania, a existência ou menos do destino e o seu sentido e muitas outras perguntas que se apresentam na visão heterodoxa de José Saramago.

O escritor já nos seus oitenta e seis anos, não obstante a sua longa doença, que o levou a um passo da morte, não mudou de facto a idéia sobre a religião e o seu credo: "Sabendo que Deus não existe, mesmo que me tivesse aparecido, o que lhe deveria pedir? Que me prolongasse a vida? Morreremos quando deveremos morrer. Me salvaram os médicos, me salvou Pilar, me salvou o coração excelente que ainda tenho, apesar da idade. Tudo o resto é literatura, e da pior".

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publicado às 19:42



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