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A inveja do falo

por Thynus, em 11.12.12

A partir da psicanálise sobretudo (mas não somente a partir dela), considera-se a sociedade ocidental, de origem judaico-cristã, como uma sociedade falocrata (phalo = pênis; krathós = poder) e patriarcal (sob o poder do Pai). O falo (isto é, o pênis como objeto simbólico), representado consciente e inconscientemente como origem de todas as coisas (poder criador), como autoridade (a Lei como lei do Pai) e sabedoria, é aquilo que a mulher não possui e deseja. Marcada por uma falta ou carência originária, por uma lacuna, a mulher seria um ser que sexualmente se caracterizaria pela inveja do pênis, enquanto o homem, rival do Pai, seria sexualmente marcado pelo medo da perda do pênis, isto é, pelo medo da castração. Em nossasociedade, portanto, a repressão sexual operaria a partir daquela inveja e daquele medo. Pouco a pouco, os estudiosos acabaram generalizando essa idéia para todas as sociedades patriarcais.
Ora, estudos antropológicos revelaram sociedades nas quais, se ”inveja” houver, é dos homens em relação às mulheres:invejariam o útero, a capacidade geradora das mulheres. Tanto assim que os Baruya, da Nova Guiné, consideram que as mulheres criaram a flauta — para a comunicação com os espíritos — e o arco — para a alimentação e a guerra. Isto é, criaram os objetos simbólicos fundamentais de sua sociedade. Porém,as mulheres não teriam sabido usar adequadamente esses objetos e por isso estão proibidas deempregá-los, somente os homens podendo usá-los para bem orientar a caça, a guerra e a religião.Admite-se, portanto, a criação originária como feminina e somente a seguir se acrescenta a violência simbólica contra elas, mantendo-as na posição subordinada. É possível, dizem os antropólogos, que o panode fundo dessa mitologia seja a organização matriarcal que essa sociedade teria tido inicialmente (asmulheres sem carência, sem lacuna e sem inveja), antes de se tornar patriarcal.
Percebe-se, pois, que tanto a ”inveja do pênis”, nas mulheres, quanto a ”inveja do útero”, nos homens, não dependem diretamente da anatomia, mas do processo de simbolização da diferença sexual no interior de uma cultura determinada. É nesse processo que melhor se oculta e melhor se revela a repressão sexual.Além disso, é nessa simbolização que melhor transparece a sexualidade como desejo, carência, plenitude e criação. Vida e morte.


(Marilena Chaui – “Repressão Sexual”)

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publicado às 23:25



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