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Jesus, que viveu no horizonte da apocalíptica e, portanto, na expectativa da irrupção plena iminente do Reino de Deus, já presente na sua pessoa, nas suas palavras e acções, onde nenhum homem dominaria sobre outro homem, Reino sem malvadez, sem exploração, sem doença nem morte, na abundância de bens, de fraternidade, de generosidade, de realização adequada de todas as esperanças, de alegria toda, não fundou propriamente uma Igreja nem, por isso mesmo, pensou em dar-lhe uma determinada constituição.
As primeiras comunidades cristãs eram verdadeiras comunidades fraternas, sem hierarquias, partilhando inclusivamente os bens materiais. Os primeiros cristãos viviam de tal modo da convicção da iminência do regresso de Cristo na sua glória - a segunda vinda de Cristo - e da instauração plena do Reino de Deus que pensavam não vir a ser atingidos pela morte. Foi com o atraso da chegada de Cristo que foi preciso reflectir sobre o "entretanto", incluindo a necessidade de um mínimo de organização das comunidades. Para isso, serviram-se de modelos organizativos disponíveis, e a história explica como se chegou a uma instituição piramidal e rigidamente hierarquizada na Igreja.
Isto significa que, tendo sido a Igreja que deu a si mesma a presente organização constitucional, hierarquizada e centralizada, também pode modificá-la, como mostrou o exegeta Herbert Haag, da Universidade de Tubinga, e deverá fazê-lo num sentido democratizante. A quem argumentar que "a Igreja não é uma democracia", pois isso significaria politizá-la, deverá responder-se que Jesus queria ainda mais do que uma democracia, pois o que estava no seu horizonte era a filadélfia, comunidade de comunidades de irmãos e amigos. Por isso, também na Igreja deve valer o que se tornou claro para a sociedade em geral: toda a autoridade vem de Deus, mas através do povo.
O que pertence a todos deve ser decidido por todos. Há, portanto, perguntas que voltam sempre de novo: Por que é que a Igreja Católica é a última grande instituição do Ocidente por onde não passou ainda a Revolução Francesa, portanto, sem real divisão de poderes e com uma monarquia absoluta? É admissível que a vida religiosa de mil milhões de pessoas continue na dependência de um só homem, o Papa? Como é que a Igreja, Povo de Deus enquanto comunidade daqueles e daquelas que têm como determinante da sua vida Jesus, o Crucificado, que o foi por blasfémia e subversão político-religiosa, e o Vivente ressuscitado, é compatível com a Igreja, sistema de poder centralizado, com o seu quartel-general no Estado do Vaticano, onde, por princípio, não vivem mulheres e, portanto, onde também não há crianças, pois os hierarcas devem ser celibatários do sexo masculino? Um Estado minúsculo do ponto de vista geográfico, mas com influência mundial, onde não vivem mulheres nem crianças!

(Anselmo Borges - "Janela do (In)Visível")

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publicado às 19:11



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