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Refocilar é preciso!

por Thynus, em 01.03.13

Fevereiro é sempre um mês que carrega em si a agradável idéia de menos trabalho (para quem já o tem), seja por ser um mês mais curto (mesmo nos anos bissextos), seja pela constância com a qual o Carnaval nele desponta. E mês também um pouco indefinido, inclusive quanto à origem do nome februarius (talvez vindo do latim februare/purificar), e acabou se tornando para nós uma época raramente recomendável para iniciar projetos e atividades, exceto no insistente e fragmentado calendário escolar. Fevereiro parece um intervalo temporal menos sério e austero, quase que deixando levemente suspensa a gravidade de nós requerida para o restante dos meses; nele, o nosso desvelo dá-se o direito de relaxar um pouco e dissolve em parte o apego aos cronogramas implacáveis ("depois de fevereiro a gente vê como faz"). No entanto, apesar da fingida vacuidade, fevereiro lembra para muitos um período de agradável refocilamento. Refocilamento? Será que Assis Valente sabia disso ao escrever "Brasil, esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros, que nós queremos sambar?" Nosso idioma guarda delícias surpreendentes e uma delas é que essa estranha palavra, refocilamento, significa recuperação das energias perdidas. De onde vem tal entendimento? Em latim o vocábulo focus (fogo) ganhou o diminutivo focilus (foguinho) não na acepção ébria, tão inconveniente por estes festejos, mas indicando o esquentar, aquecer, e, por extensão, reanimar. Refocilar é, portanto, reaquecer e revigorar! Uma pitada de erudição? E só lembrar que Camões usa o verbo no Canto 9 de Os lusíadas, dizendo: "Algum repouso, enfim, com que pudesse / refocilar a lassa humanidade". Fica malicioso perguntar a alguém se já está preparado para refocilar tranqüilamente nos feriados ou, melhor ainda, indagar a posteriori na volta ao trabalho: "refocilaste bem?" Para muita gente, refocilar implica antes de tudo em ser capaz de passar os dias de folga morgando. Morgar, essa gíria brasileira que quer dizer, entre outras coisas, dormir, nada fazer, deve ter a sua fonte indireta em morgue (necrotério, como descanso) ou, até, em morgado (bens e privilégios herdados que permitiam não trabalhar mais). De qualquer forma, morgar sugere o remanso, o sossego, a habilidade lentamente desejada e desenvolvida para imobilizar as atribulações do cotidiano e evitar perturbações momentâneas. Refocilar é restaurar e reforçar. E recompor potências, recuperar forças, retomar a animação, isto é, a vitalidade. Note-se que em todos os desdobramentos e identidades desse verbo aparece o prefixo "re" que indica repetição ou reforço de sentido, de forma a trazer de volta aquilo que talvez tenha se ausentado. Mas, logo fevereiro, pouco depois que o ano começa? Não parece prematuro? Refocilar, todavia, é também desenfadar e desenfastiar e aí o prefixo "des" é negativo, de modo a tornar nulo o enfado e o fastio. Qual enfado ou fastio? Aquele que os aborrecimentos, importunações e desprazeres miúdos provocam sorrateiros no nosso viver e que exigem sim uma carga refocilante. Reavivar a chama, dar à vida um tempo de recreio, de recreação (recreare, criar de novo), sinalizando esse recrear com a perspectiva de diversão e júbilo. Não é à toa que as nossas memórias se fartam vez ou outra na recordação de grandes recreios vividos com transbordante alegria na aparentemente longínqua infância. Falamos muito — e isso é importante para afastar a síndrome do ocupacionismo desenfreado — em valorizar o "ócio criativo"; porém, cautela nessa empreita, pois corre-se o risco de querer tornar continuamente produtivo (na acepção utilitarista do termo) aquele tempo livre que tanto reivindicamos. O refocilar deve somar-se ao morgar e disso tudo tem de trazer à tona a possibilidade de viver um fundamental "ócio recreativo"...

(Mario Sergio Cortella - "Não espere pelo epitáfio")

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