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Panta rei?

por Thynus, em 28.02.13

Novo ano, vida nova? Esperança não-delirante? Então, mais uma vez, cante-se a primeira estrofe da marcha-rancho "Até Quarta-feira" (composta por H. Silva e Paulo Setti), grande sucesso em 1967 na voz do sambista mineiro Mário de Souza Marques Filho, eternizado como Noite Ilustrada: "este ano não vai ser igual aquele que passou". Então, novamente, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima! Em meados do século 20, o mesmo Noite Ilustrada gravou esse clássico do cientista Paulo Vanzolini e, desde aquela época, amiúde recordamos da fundamental — em todos os sentidos — "Volta por cima". Afinal, em vários momentos e de muitas maneiras, cada um do seu jeito, sempre podemos dizer que "ali onde eu chorei / qualquer um chorava / dar a volta por cima que eu dei / quero ver quem dava". Este ano não vai ser igual àquele que passou! Aliás, daria para ser de outro modo? Há possibilidade de algum ano, mês ou dia ser idêntico a outro qualquer, como se ficássemos aprisionados no "feitiço do tempo?" Eis aí a chave para abrir um dos pensamentos mais instigantes quando se deseja refletir sobre a vida no dia-a-dia e as intercorrências dela advindas; fala-se com freqüência uma frase que pareceria máxima popular: "Nenhum homem toma banho duas vezes no mesmo rio, pois, quando volta a ele, nem o rio é o mesmo e nem mais o homem o é". Essa correta percepção remonta à Antigüidade. Voltemos até Platão que, ainda jovem e vivendo na cidade natal de Atenas, pode conhecer pessoalmente Sócrates, a quem considerou "o mais sábio e o mais justo dos homens" (condenado ao suicídio em 399 a.C., antes que o ardoroso discípulo completasse trinta anos de idade). A admiração de Platão pelo mestre foi tamanha que, de todos os seus inúmeros e memoráveis "Diálogos", Sócrates só não é a principal personagem (sempre vencedora nos debates!) em um deles. No entanto, antes do contato inicial com a sua maior influência, foi apresentado a Crátilo, um pensador que defendia a concepção de que nada é estável (o conhecimento ou a ação), pois tudo, na vida e no cosmos, é fluidez e mudança constante; essa tese provocava e incomodava por demais a Platão, a ponto de ele ter passado a existência procurando conciliar e explicar a presença do provisório e do permanente, do passageiro e do duradouro, do mutável e do imutável. O nome desse pensador que impactou o adolescente Platão será também o título de um dos seus "Diálogos", e nele o autor traz à tona a fonte original das idéias preconizadas um pouco superficialmente pelo lembrado Crátilo. No diálogo ele remete a Heráclito de Éfeso (nascido nessa cidade da Ásia Menor, atual Turquia, e por muitos exaltado como o mais importante entre os filósofos pré-socráticos). Afirma Platão que "Heráclito diz em alguma passagem que todas as coisas se movem e nada permanece imóvel. E, ao comparar os seres com a corrente de um rio, afirma que não poderia entrar duas vezes num mesmo rio". De fato, embora não tenha restado obra alguma completa desse pré-socrático, entre os fragmentos esparsos aquele que foi numerado como 91 diz literalmente: "Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-se; avança e se retira". Essa idéia é sintetizada pela expressão grega "panta rei" (tudo flui). Panta rei é também título de um bem tramado livro de Luciano de Crescenzo, no qual simula uma conversa com Heráclito. Crescenzo, napolitano nascido em 1928, engenheiro e alto executivo de multinacionais até a idade de 50 anos, decidiu mudar tudo e, abandonando a segura carreira, buscou outro equilíbrio, tornando-se escritor, ator, roteirista, apresentador de televisão. Não o fez sozinho e é dele uma belíssima e esperançosa expressão — felizmente não mutável — que pode nos ajudar nos antigos e novos vôos: "Somos todos anjos com uma asa só; e só podemos voar quando abraçados uns aos outros".

(Mario Sergio Cortella - "Não espere pelo epitáfio")

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publicado às 17:06



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