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Assim passa a glória do mundo

por Thynus, em 28.02.13

Sic transit gloria mundi! Poucos não terão até hoje ouvido ou lido em algum lugar esta sentença verdadeira e terrível pela própria veracidade. A expressão tem seu uso mais comum para ressaltar a nossa efêmera existência, mas resulta de um ritual bastante utilizado na coroação de papas: diante do recém- eleito, o mestre de cerimônias coloca um pedaço de estopa ao qual se ateia fogo; enquanto as palavras são pronunciadas, o pano é rapidamente consumido pelas chamas.
Poder e glória, quando assumidos com empáfia ou insolência, quando sinais de soberba e petulância egoísta são, de fato, passageiros. Uma glória assim é pura fantasia ou simples quimera. Essa palavra tem origem no grego khimaira — que significa mais exatamente cabra —, mas que entrou para nossos vocabulários como sinônimo de ilusão ou coisa inexistente, pois na mitologia indica um animal monstruoso (corpo de cabra, cabeça de leão e cauda de cobra), filha de Tífon, um monstro terrível metade humano, e de Équidna, um outro monstro — metade mulher, metade serpente; ambos descendentes de Gaia, a Terra. Desse modo, a glória e o poder carregados de vaidade são devoradoras quimeras.


É curioso como até o nosso calendário, agora chamado de comum ou gregoriano (por ter sido reorganizado pelo Papa Gregório XIII em 1582), é afetado pela arrogância daqueles que pretendem garantir fugazmente a imortalidade e se apegam à "glória do mundo". Até o século 8 a.C. o ano do mundo romano da Antigüidade — do qual herdamos essas medidas — tinha apenas dez meses e se iniciava em 1º de março (martius), depois vinha aprilis, maius, iunius e, a partir daí, foram usados numerais (de 5 a 10) para denominar os meses seguintes (quinctilis, sextilis, september, october, november e december). No século seguinte, para acertar mais a fixação da contagem com o tempo de duração da volta da Terra em torno do Sol, os romanos introduziram mais dois meses (januarius e februarius) que ficaram para o final; só no século 1 a.C. o ditador Júlio César fez nova reordenação, passando janeiro e fevereiro para o início e mantendo doze meses (o que confunde até agora muitos que não entendem por que chamamos de sete/mbro ao mês que numeramos com nove, ou a dez/embro como aquele que é o doze).
No entanto, como Júlio César, nascido no mês quinctilis, foi assassinado, Marco Antônio, general romano e seguidor daquele, por compor o Segundo Triunvirato (junto com Otávio e Lépido), decidiu homenagear o líder e trocou o nome do antigo quinto mês para julius, mantendo os 31 dias que este comportava. Porém, a luta pelo poder veio à tona, e, a pretexto de proteger a honra familiar ofendida (pois Marco Antônio abandonara o antes conveniente casamento com Otávia, irmã de Otávio, e desposara Cleópatra, firmando-se como senhor do mundo oriental), a guerra foi declarada e, vencido, Antônio cometeu suicídio.
A mexida no calendário e no império não acaba aí, claro. Com a destituição de Lépido e, depois, a derrota de Marco Antônio, o outrora Otávio (também chamado Otaviano) em janeiro de 31 a.C. recebeu do Senado o título de Augusto, e, mais adiante, foi sagrado como o primeiro imperador de Roma e, por fim, Grande Pontífice. O imperador entendeu não ser adequado para alguém "do porte dele" não ser também homenageado com um nome no ano e não teve dúvidas em alterar o sexto mês, antigo sextilis, para augustus, criando o nosso atual agosto. Mas, não ficou contente; sextilis, seguindo a lógica de alternância dos meses com 30/31 dias (exceto fevereiro, pela sua posição mais anterior de último do ano, quando se fazia o acerto final da translação), sucedia a julius (grande, nos seus 31) e, desse modo, tinha duração de 30 dias. Sem problema; a lógica foi quebrada e ordenou que "seu" mês não fosse inferiorizado e passasse a ter, também, 31 dias.
Quase ninguém mais liga agosto ao outrora Augusto e, menos ainda, lembra que julho/agosto são os únicos consecutivos com o mesmo número de dias em memória do poderoso imperador. Os meses passam, o tempo com ele e, afinal, como sabiamente escreveu o mineiro Ari Barroso há pouco mais de meio século na perene canção Risque, "creia, toda quimera se esfuma, como a brancura da espuma que se desmancha na areia..."

(Mario Sergio Cortella - "Não espere pelo epitáfio")

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publicado às 02:54



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