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Pois as coisas findas...

por Thynus, em 27.02.13

Em uma época em que a televisão ainda não estava presente em inúmeras cidades pelo nosso país afora, a grande e quase única diversão especial infantil e juvenil durante as férias de inverno era o cinema. Aqueles que tivemos de viver e pudemos fruir as obrigações ausentes naquelas circunstâncias, seja cm função de uma idade mais avançada hoje, seja pelo lugar em que vivíamos nos anos 1960, ficamos, claro, com muitas imagens nas nossas "retinas tão fatigadas". Grandes salas, grandes telas, grandes expectativas, grandes memórias.
Há algumas décadas, por exemplo, encarnávamos com perfeição a ansiedade pelo término das aulas no meio do ano letivo e, também, vivíamos a esperança de que as "grandes atrações" — que começáramos a chamar de filmes, substituindo a palavra fita usada pelos adultos — não deixassem de chegar logo, antes que acabassem os folguedos (outra deliciosa palavra antiga!). Uma das recorrentes atrações era o inesquecível desenho longa-metragem Fantasia, de Walt Disney; produzido em 1940, passou a reencantar anualmente nossas vidas. Afinal, é uma animação que apresentou a muitos de nós, nos capturando pelo restante da existência, a beleza profunda de músicas realmente clássicas, como as de Bach, Tchaikovsky, Dukas (menos conhecido, mas o mais lembrado pelas cenas do Mickey como Aprendiz de Feiticeiro), Stravinsky, Beethoven, Mussorgsky, Schubert e, pelo meio, o Amilcare Ponchielli. Esse italiano compôs em 1876 a ópera La Gioconda e jamais deve ter imaginado que dela um dia se usaria a Dança das Horas para seduzir nossas lembranças com os impossíveis e graciosos movimentos de bale feitos por hipopótamos, elefantes, avestruzes e jacarés...
Com o final do recesso, e o encerramento das exibições da linda Fantasia — no duplo sentido, restava-nos esperar que o ano viesse logo a terminar. As férias de final-de-ano — do começo de dezembro até o final de fevereiro — eram mais longas, demoravam agradavelmente para passar (sendo que, agora, até a semana passa rápido demais); por isso, com um calendário estirado, também os dias ficavam mais elásticos, com uma busca vagarosa e preguiçosa de preenchimento. Só nas longas férias de verão é que conseguíamos compreender aquilo que é exclusividade da infância: a imensa e perturbadora consciência contraditória de que, embora se queira tudo para já, há um tempo para tudo na vida.
Tempo para tudo! Nas Escrituras hebraicas está o Livro do Eclesiastes, incorporado pelo Cristianismo em sua Bíblia; esse texto tem uma segunda parte muito conhecida e que vai diretamente contra as vaidosas temporalidades humanas, especialmente na nossa incompreensão sobre o efêmero e o duradouro, sobre a relação entre o passageiro e o infinito. No capítulo 3 do livro religioso, do versículo 1 até o 8, são apresentadas 14 das oposições que estão sempre presentes como conteúdo da vida humana e que vale reproduzir na totalidade.
"Para tudo há momento, e tempo para cada coisa sob o céu: tempo de dar à luz e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de solapar e tempo de construir; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de lamentar e tempo de dançar; tempo de atirar pedras e tempo de juntar pedras; tempo de abraçar e tempo de evitar o abraço; tempo de procurar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de jogar fora; tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de calar e tempo de falar; tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz."
Dança das horas! E o duradouro dentro do efêmero. Por isso, ainda bem que continua existindo o eterno de Carlos Drummond de Andrade, expresso no poema Memória: "Pois as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão".

(Mario Sergio Cortella - "Não espere pelo epitáfio")

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publicado às 23:42



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