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Filosofia do vinho

por Thynus, em 22.12.12
Há mais filosofia e sabedoria numa garrafa de vinho, que em todos os livros.‘’ (Louis Pasteur)


Já amada por Dionísio, e enaltecida muito rapidamente como um valor simbólico também pela razão filosófica, tal bebida proporciona uma profunda reconsideração da relação entre vida e pensamento, vício e virtude, razão e paixão, medida e desmedida. Aquilo a que se alude, no contexto de uma análise rigorosa e anedótica, é a uma outra imagem da filosofia como tal. E exactamente a partir do vinho. Da condenação mais radical ao mais sincero entusiasmo, de um interesse mais científico a um não menos frequente e radical investimento simbólico, diversas foram as atitudes nas confrontações do seu poder sedutor.

Há também uma filosofia do vinho? Se há uma filosofia do conhecimento, da arte, da ciência, da moral, da acção, ... Cada área do saber pode aspirar a ser objecto de reflexão filosófica. Mas o vinho? É claro, o vinho é mais um produto da prática que do saber; e todavia são tais e tantas as suas implicações - culturais, religiosas, simbólicas, éticas, e, portanto, filosóficas - que não é de facto surpreendente encontrar-se entre as mãos um livro que traça a longa história da relação do vinho com a reflexão filosófica.
O livro apresenta-se como uma monografia da história das idéias. O interesse filosófico pelo vinho nasce com Platão, ou melhor, com o Sócrates platónico: é no Simposio que se assiste, pela primeira vez na história da filosofia ocidental, a um louvor do vinho e da embriaguez, que é a sua consequência; embriaguez que, com base no mito de Dionísio, do pitagorismo e do orfismo, é vista como reveladora da verdade. Mas já existe em Aristóteles a condenação da embriaguez que teria caracterizado grande parte da cultura ocidental. Enquanto no cristianismo se faz a exaltação do seu simbolismo: símbolo místico por excelência, o vinho é o sangue de Cristo. Ao ler a história filosófica do vinho até ao século XX (século em que a célebre "viragem linguística" não produziu também uma viragem enológica: Wittgenstein, observa Donà, tinha uma atitude "abertamente negativa" para com o vinho, enquanto descobrimos que Bacon evidencia os seus efeitos benéficos e que Descartes estava interessado nos processos de vinificação e nos efeitos do vinho sobre o organismo; que o racionalismo e o empirismo teorizavam a medida para bebê-lo, tal como Kant. Hegel amava-o, mas não o teorizava, Kierkegaard elogiava-o no diálogo “In vino veritas”. No século XIX foi visto às vezes como remédio para a tragicidade da existência (Baudelaire, Leopardi), enquanto no século XX foi visto muitas vezes como símbolo de transgressão dos valores informados pelo equilíbrio burguês de origem iluminista (Bataille, o existencialismo francês).

“O vinho é a parte intelectual de uma refeição. As carnes e legumes não são mais que a parte material.’’ (Alexandre Dumas)

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publicado às 21:54



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