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Cautela com a laborlatria

por Thynus, em 26.02.13

Uma das boas memórias de quem já teve o prazer de mergulhar na produção satírica de Mark Twain — pseudônimo do escritor norte-americano do final do século 19, Samuel Langhorne Clemens — é, sem dúvida, a narrativa da cerca a ser forçadamente pintada pelo menino na obra-prima As aventuras de Tom Sawyer. Em um dia de sol inclemente, à beira do Rio Mississipi, quando tudo chamava para a brincadeira e o lazer descompromissado, eis que surge a convocação compulsória para o trabalho e não há alternativa que o garoto possa encontrar, a não ser tornar todo aquele fardo algo com um dissimulado ar prazeroso e, mais ainda, convocar e convencer a outros que deveriam ajudá-lo com satisfação.
Em um determinado momento, procurando livrar-se da atividade e, até, ganhar algum dinheiro com aquilo que desejava que outros fizessem em seu lugar, aparece o argumento de que "trabalho é tudo aquilo que uma pessoa é obrigada a fazer... Passatempo é tudo aquilo que uma pessoa não é obrigada a fazer".
Pouco mais de um século após, um compatriota de Twain, o cartunista Bob Thaves, desenhou uma de suas instigantes tirinhas que tem como personagens Frank & Ernest, os desleixados e eventualmente oportunistas representantes do "homem comum" do mundo contemporâneo urbano; nesse quadrinho, Ernest, preocupado, pergunta a Frank: "Nós somos vagabundos?" Frank, resoluto, responde: "Não, nós não somos vagabundos. Vagabundo é quem não tem o que fazer; nós temos, só não o fazemos..."
Essa visão colide frontalmente com um dos esteios de uma sociedade que, na história, acabou por fortalecer uma obsessão laboral que, às vezes, beira a histeria produtivista e o trabalho insano e incessante. Desde as primevas fontes culturais da sociedade ocidental, como por exemplo, vários dos escritos judaico-cristãos, há uma condenação cabal do ócio e do não-envolvimento com a labuta incessante; no Sirácida, um dos livros da Bíblia (também chamado Eclesiástico), há uma advertência: "Lança-o no trabalho, para que não fique ocioso, pois a ociosidade ensina muitas coisas perniciosas" (33,28-29).
Já ouviu dizer que o ócio é a mãe do pecado? Ou que o demônio sempre arruma ofício para quem está com as mãos desocupadas? Ou, ainda, que cabeça vazia é oficina do diabo?
Essa não é uma perspectiva exclusiva do mundo religioso. Voltaire, um dos grandes pensadores iluministas e hóspede eventual da prisão na Bastilha dos começos do século 18 por seus artigos contra governantes e clérigos, escreveu em Cândido que "o trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade".
Ou, como registrou Anatole France, conterrâneo e herdeiro, no século seguinte, da mordacidade voltairiana: "O trabalho é bom para o homem. Distrai-o da própria vida, desvia-o da visão assustadora de si mesmo; impede-o de olhar esse outro que é ele e que lhe torna a solidão horrível. É um santo remédio para a ética e a estética. O trabalho tem mais isso de excelente: distrai nossa vaidade, engana nossa falta de poder e faz-nos sentir a esperança de um bom acontecimento".
Não é por acaso que Paul Lafargue, um franco-cubano casado com Laura, filha de Karl Marx, e fundador do Partido Operário Francês, foi pouco compreendido na ironia contida em alguns de seus escritos. Em 1883, quando todo o movimento social reivindicava tenazmente o direito ao trabalho, isto é, o término de qualquer forma de desocupação, o genro de Marx publicou Direito à preguiça, uma desnorteante e — só na aparência — paradoxal análise sobre a alienação e exploração humana no sistema capitalista.
Nessas horas é sempre bom reviver Rubem Braga em O conde e o passarinho que, ao falar sobre o Dia do Trabalho, escreveu: "A ordem foi mantida. Os operários não permitiram que a polícia praticasse nenhum distúrbio".

(Mario Sergio Cortella - "Não espere pelo epitáfio")

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publicado às 20:34



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