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O demônio do escrúpulo

por Thynus, em 26.02.13

Não é raro que pessoas, ao falarem de si mesmas, proclamem como a sua principal virtude a coerência, ou seja, a determinação de não ter uma vida com duplicidades, pensando uma coisa e fazendo outra. Claro que, para indicar modéstia, o auto-elogio vem acompanhado da frase "mas sou alguém cheio de defeitos; por exemplo, sou muito perfeccionista". O "perfeccionismo" parece ser o defeito predileto dos que se consideram sem defeitos; é difícil que alguém se declare dissimulado, fingido ou incongruente e, por isso, o "querer tudo certinho" é a grande e positiva distinção entre os mortais que padecem de alguma debilidade de caráter.
Dizem esses que, como a vida é uma só, melhor aproveitá-la com integridade e coragem, aproximando-se, conscientemente ou não, das idéias do filósofo Marco Aurélio quando este escreveu: "da vida humana, a duração é um ponto; a substância, fluida; a sensação, apagada; a composição de todo o corpo, putrescível; a alma, inquieta; a sorte, imprevisível; a fama, incerta".
Ora, Marco Aurélio é um dos representantes, embora menor, da doutrina denominada estoicismo, cujo nome vem da palavra grega stoá (pórtico), por se acreditar que foi ao lado de um deles que Zenão fundou tal escola de pensamento no século 4 a.C.; no ideário estóico a suprema virtude é viver de acordo com a natureza, ou seja, suportar a vida como ela é. Nessa direção, a felicidade seria resultante de se aceitar, pacificamente, a própria existência na condição em que ela está, libertando-se de paixões e cercando-se de calmo desprendimento e resignação coerente.
No entanto, o mesmo Marco Aurélio era imperador romano e viveu uma forte contradição que perturbou sua mente até a morte: propugnava e assumia intelectualmente o ideal de uma vida pacífica, mas foi um dos mais beligerantes e agressivos governantes no século II do mundo latino. Enquanto enveredava pela reflexão erudita, produzindo seus escritos reunidos sob o título de Pensamentos e neles registrando uma concepção humanitária, conduziu com todo o vigor a perseguição aos cristãos e submeteu (transformando em colonos ou soldados) milhares e milhares de pessoas pertencentes aos chamados "povos bárbaros".
Mesmo assim, lá nos Pensamentos definiu: "É próprio do homem amar até os que o ofendem. Chegamos a isso quando pensamos em que os homens são o nosso próximo; em que é pela ignorância e malgrado seu que pecam; e em que logo morreremos, uns e outros; antes de tudo que não nos fizeram mal".
Cinismo? Não! Auto-engano? Provavelmente, pois o desequilíbrio entre o proclamado e o vivido fez com que ficasse constantemente atormentado pelo "demônio do escrúpulo". Essa apropriada expressão foi cunhada pelo renomado historiador francês Ernest Renan no século 19 exatamente para explicar as angústias do romano, a quem admirava bastante, a ponto de ter concluído sua monumental História das origens do cristianismo intitulando o sétimo e último volume como "Marco Aurélio e o fim do mundo antigo". Nesse estudo, Renan afirma que Pensamento, a obra meditativa do perseguidor, era "o livro mais puramente humano que há [...] verdadeiro Evangelho eterno". Por ironia, o mesmo demônio acuava o admirador, pois, aos 22 anos, sacerdote que era, abandonou a atividade eclesiástica ao entrar em crise por não suportar o confronto entre as imposições vindas da religiosidade com os ditames da racionalidade; entretanto, continuou um místico com obsessivas e recorrentes hesitações na fé parcial.
Para nosso espanto, o termo escrúpulo, no sentido de obstáculo de consciência, tem origem quase drummondiana, dado que "scrupulum" em latim significa pedrinha ou pedregulho, sendo um diminutivo de "scropum" (rochedo). Como sempre, quando emerge um abalo da necessária sintonia entre o dito e o feito, "tinha uma pedra no meio do caminho"...
Cautela! Esse demônio continua solto e pode começar a assombrar a alguns distraídos perfeccionistas.

(Mario Sergio Cortella - "Não espere pelo epitáfio")

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publicado às 12:59



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