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A morte, uma evidência recusada

por Thynus, em 25.02.13

Jacques Bossuet, o prelado e historiador francês do século 17, ficou famoso por suas orações fúnebres; em uma delas enunciou uma intrigante constatação do óbvio: "Nos funerais só se ouvem palavras de surpresa por aquele mortal estar morto".
Aquele mortal estar morto! Qual a fonte da surpresa? Não é a morte inexorável e sua chegada apenas uma questão de tempos e circunstâncias? Não estaria certo Fernando Pessoa ao sugerir que o humano é somente um cadáver adiado, mais do que o bípede implume platônico ou o animal racional aristotélico? Teria Pessoa se inspirado no provérbio inglês que diz ser a morte uma sombra que sempre acompanha o corpo? O filósofo romano Séneca, contemporâneo do nascimento do Cristianismo, afirmou, em uma de suas Cartas a Lucílio, que "a hora final, quando cessamos de existir, não nos traz a morte; ela simplesmente completa o processo de morrer. Nós alcançamos a morte naquele momento, mas já estávamos há muito tempo no caminho". Ora, se assim é, por que nossa recusa em aceitá-la?
Todos os seres vivos morrem; no entanto, é provável que o humano seja o único que sabe que vai morrer. Mesmo assim, a rejeição a esse fato natural é exuberante. As crianças, antes de serem por nós, adulteradas, têm por hábito mencionar a morte dizendo: "quando eu morrer...", "quando você morrer..." etc. São corrigidas rapidamente pelos adultos, de modo a substituírem o advérbio de tempo por uma conjunção condicional: "se eu morrer", "se você morrer", como se a alteração morfológica mudasse a substantividade do fenômeno e afastasse a ocorrência.
É claro que também se dá à morte um caráter positivo; é possível racionalizá-la supondo que a imortalidade seria insuportável, que morrer é descansar ou partir para uma situação melhor. Simone de Beauvoir, por exemplo, discute o dilema existencial em seu romance Os Mandarins e nele escreve que "a morte parece-nos menos terrível quando estamos cansados". O mesmo faz o poeta Arthur Rimbaud quando, nos seus deliciosos delírios pré-simbolistas, exclama: "Ó morte misteriosa, ó irmã de caridade!" É a "boa morte" (eutanásia) como desejo freqüente.
Entretanto, a morte apavora a muitos (a todos?). Para alguns, temor do desconhecido; para outros, rejeição à provisoriedade. O tremendo esforço das religiões para dar à morte uma lógica e a busca por integrá-la em um sentido mais unitário é acompanhado de perto pelas ciências em seu trabalho cotidiano de procurar retardá-la; o mesmo ocorre nas artes, com suas expressões catárticas, quando intentam circunscrever a mortalidade nos parâmetros da imortalidade estética.
Talvez valesse a pena nos apegarmos aos ensinamentos de Epicuro que, já no século 3 a.C., entendia não ter o humano nenhuma relação com a morte. O ateniense, pregando a calma felicidade, disse não temer a morte porque nunca iria encontrá-la, pois "enquanto sou a morte não é; e desde que ela seja, não sou mais". Consolo pueril ou convicção racional? Não importa; ajuda a exorcizar o terrível mistério.
De qualquer forma, é sempre bom recordar a sapiência secular da mineira Dona Sinhá Azeredo: quando afrontada pelos filhos e netos que, de brincadeira, ironizavam sua idade avançada (com os males e esquisitices senis decorrentes), retrucava, de modo triunfal: "Deixa estar; caminheiros somos, caminhando vamos..."

(Mario Sergio Cortella - "Não espere pelo epitáfio")

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publicado às 20:14


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