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Comemorar o terror?

por Thynus, em 25.02.13

Memorável! E assim que se denomina alguém ou algo digno de ser lembrado. No entanto, fica mais difícil estabelecer o que, realmente, pode ser compreendido como digno; o conceito de digno é, de forma geral, aplicado às pessoas ou aos fatos impregnados de méritos ou decência, a ponto de merecerem registro mais permanente na nossa memória. Há também fatos que são memoráveis por serem célebres, isto é, inesquecíveis; desses precisamos recordar com persistência, ou seja, comemorar.
A palavra comemorar remete quase sempre ao verbo festejar; entretanto, comemorar significa memorar com outros, ou, em outras palavras, lembrar junto, o que não implica em ser, com exclusividade, uma recordação festiva. Pode-se comemorar uma tragédia, uma morte, uma situação traumática; uma missa de "sétimo dia", uma visita anual aos escombros restantes de uma cidade bombardeada, uma cerimônia de colocação de flores no "túmulo do soldado desconhecido", são formas de comemoração tanto quanto um brinde ao aniver-sário de alguém, uma solenidade em homenagem ao centenário de um poeta, a folia para alegrar-se com um título conquistado etc.
Desse modo, é necessário, por estranho que pareça, comemorar também o terror. Comemorar para repelir a repetição futura; recordar para negar a reincidência; rememorar para afastar a miséria espiritual!
É fundamental para a trajetória humana que possamos lamentar a fragmentação da fraternidade e a vitória circunstancial do pavor. A sensação de um medo continuado e inesperado que invade muitos homens e mulheres pelo planeta afora literalmente aterroriza as suas existências e bloqueia a possibilidade de partilharem momentos de paz. A condição imposta pelo terror, seja ele em qual formato vier, é assemelhada a uma descrição feita por vários portadores de "síndrome de pânico", angustiante patologia muito presente em nossos tempos; alguns de seus sofredores sentem uma ansiedade mais premente por imaginar e saber que o desatar da crise é como um raio à espreita, sem aviso ou prontidão, o que os deixa permanentemente em estado de tensão. Aliás, já se disse que a impressão oriunda da espera — tal como no despontar do terror — equivale à certeza de que, todos os dias, a qualquer instante desconhecido, o raio virá, não se sabe de onde e nem por que, mas virá. Terror é isso: seqüestrar a vivência da tranqüilidade e da segurança coletivas.
Muitos defendem a perspectiva de que o terror é apenas uma maneira de exercer um direito defensivo ou, até, a prática da virtude militante, da firmeza de princípios e da coerência ideológica, em função da qual até pode resultar uma brutalidade inevitável, mas necessária. Outros tantos entendem que essa é uma indesejada doença política que jamais obteve frutos positivos permanentes na História e que apenas indica uma mentalidade alienada, desumanizante e extemporânea.
De qualquer forma, é salutar recorrer a um profundo pensador da História, o filósofo alemão Hegel, que, há duas centenas de anos, já nos alertava sobre os riscos do hiperdimensionamento da ação retórica ou efetiva, ao dizer que "quem exagera o argumento prejudica a causa".
A comemoração como lamentação, mágoa ou lástima muitas vezes conduz a anseios de ódio. O abominável merece, sem dúvida, ser execrado e é legítima a repugnância pelos agentes econômicos, políticos ou bélicos responsáveis pelo estilhaçamento da urgente e ainda viável utopia da invenção de Humanidade como conjunto. Dá ganas de repelir mortalmente os que desprezam vidas e ameaçam a integridade social; porém, um sentimento rancoroso desse tipo é inaceitável, o que não impede que nos lembremos de um dos mais fortes ensinamentos de Pedro Nava, escritor mineiro, médico reumatologista — por isso entendia bem de algumas dores inexplicáveis — e autor de importantes obras nos anos 1970 e 1980:
"Eu não tenho ódio; eu tenho é memória".

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publicado às 19:43



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