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A verdade, uma conquista inevitável?

por Thynus, em 23.02.13

Apesar de estarmos principiando o século 21, o "inconsciente coletivo" do mundo ocidental parece estar ainda marcado pelo cientificismo preconceituoso do século passado e retrasado. A literatura popular, o cinema, a mídia, os livros didáticos, continuam reforçando a obsessão evolucionista que se apóia em pelo menos três tipos de preconceitos: a) o Passado é sinônimo de atraso e ignorância inocente; b) a verdade é uma conquista inevitável da racionalidade progressiva; c) a Ciência é instrumento de redenção da humanidade em geral.
Willian de Baskerville, personagem central da magnífica obra de Umberto Eco O nome da rosa, diz que "talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, fazer rir a verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade". O monge diz isso na noite do sétimo dia, ao contemplar a abadia em chamas e, na mesma seqüência, alerta seu discípulo Adso: "Teme os profetas e os que estão dispostos a morrer pela verdade, pois de hábito levam à morte, muitíssimos consigo, freqüentemente antes de si, às vezes em seu lugar".
Esse tipo de mentalidade dominante criticada por Eco não abre espaço para a relatividade histórica e nem para a compreensão das condições de produção do conhecimento; mais ainda, deixa entrever a fatalidade dos destinos coletivos serem conduzidos apenas e unicamente por aqueles homens que partilhem do acesso exclusivo ao mundo do saber.
A maioria de nossa população está estigmatizada — involuntariamente — por uma compreensão do real como um produto acabado, finito; também a compreensão do produto científico (da teoria, principalmente) fica reclusa dentro de um determinismo histórico bastante fixista ou — quando muito — de "inspirações individuais" dos cientistas e pensadores famosos. Por não vislumbrarem o aspecto processual do passado, muitos não conseguem perceber a continuidade disso e, conseqüentemente, a idéia de transformação da realidade ou de elaboração de conhecimentos adquire um sentido quase mágico ou transcendental.
É por isso que, já em 1933, W. E. B. Du Bois, um líder norte-americano na luta pelos direitos civis, afirmava que "há certos livros no mundo que todo aquele que procura a verdade deve conhecer: a Bíblia, a Crítica da razão pura, a Origem das espécies, e O capital de K. Marx".
Religião, Filosofia, Ciências Naturais e Economia Política são fontes múltiplas e interdisciplinares indicadas por Du Bois para a construção da verdade. No capítulo 6 d'O sinal dos quatro, Sherlock Holmes, a criação de Conan Doyle que inspirou o Willian de Umberto Eco, diz que "quando você eliminou o impossível, tudo o que restar, por mais que improvável, deve ser a verdade".
Para os que sofrem de síndrome persecutória e se consideram proprietários da verdade não podemos esquecer do alerta de Oscar Wilde: "uma coisa não é forçosamente verdadeira só porque um homem morreu por ela". E o mesmo que pensa o paleontologista Stephen Jay Gould; no seu Darwin e os grandes enigmas da vida enuncia ironicamente: "acontece que um homem não atinge a condição de Galileu simplesmente por ter sido perseguido; ele também precisa estar certo". No entanto, para além da vã filosofia, vale o pensamento de Arthur Koestler: "A distinção entre o verdadeiro e o falso aplica-se às idéias, não aos sentimentos. Um sentimento pode ser superficial, mas não mentiroso".

(Mario Sergio Cortella - "Não espere pelo epitáfio") 

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publicado às 16:04



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