Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




O Fim Nunca está Próximo

por Thynus, em 23.02.13

Dez, nove, oito, sete... E, aí vem a contagem regressiva que nos remete aos recomeços e ao nosso persistente fascínio pela gestação daquilo que poderia ou poderá ser diferente.
Adoramos a idéia de ciclos, períodos, ou épocas que se encerram; essas ocasiões nos permitem imaginar que uma etapa pode ser terminada e, supostamente, nos oferecer a chance de começar de novo, de um outro jeito, de novas formas, com inéditos vigores e renovadas intenções. Nossa obsessão pelos insistentes fins e recomeços fica ainda mais aguda quando nos remetemos aos anos, por serem estes os tijolos que compõem décadas, séculos e milênios, descortinando uma atração pelo mistério matemático que nos envolve na aura do misticismo impregnador dos sonhos dos reinícios.
Todo esse misticismo em torno dos aparentes términos está profundamente entranhado nas sociedades que estruturaram um sistema decimal de numeração para a contagem do tempo, especialmente quando escolheram as datas terminadas em 10 ou múltiplas de 10 como sendo as mais marcantes. Por que isso? Por que o 10 e seus múltiplos dão a idéia de "ciclo terminal completo". São esses os algarismos que aprendemos primeiro, para depois compor os outros; em algumas brincadeiras infantis (como o pega-pega ou esconde-esconde), conta-se até 10 antes de sair correndo; dividimos o tempo em décadas e, ao juntar 10 delas, formamos um século que, multiplicado por 10, compõe um milênio.
Falamos em planos decenais, na prestação de contas necessária nos primeiros 100 dias de um governo, atribuímos nota 10 ao que parece ótimo e, como sempre, fazemos a contagem regressiva a partir do 10 até para marcar o ápice do réveillon. Também o 10 x 10 x 10 era, desde o passado, um número do exagero, para mostrar como algo era grande demais; assim, por exemplo, ainda hoje dizemos "já te falei 1.000 vezes para não fazer isso!", "você já prometeu 1.000 vezes que agora iria mudar de vida".
Queremos vencer os finais e reinventá-los de maneira incessante. Por isso, temos muita dificuldade em aceitar o aprisionamento temporal quase fatalista proposto pelo alemão Schiller — autor da Ode à alegria, utilizado por Beethoven no último movimento da insuperável 9a Sinfonia — que há 200 anos afirmou: "Três aspectos tem a marcha do tempo: o futuro aproxima-se hesitante, o agora voa como seta arremessada, o passado fica eternamente imóvel". Nesta hora, o prenúncio antropocêntrico sugerido por Shakespeare nos domina e assumimos um pouco a tarefa de Hamlet, pronunciada no Ato I, e que usa a idéia de tempo de forma propositadamente ambígua: "Como andam os tempos fora dos eixos! Ó maldita vexação, ter eu nascido para dar-lhes correção!"
Quem realmente ganha com essa repercussão e celebração das datas? Todos podemos ganhar, se ela for vivida com responsabilidade saudável e afetividade sincera. Há aqueles que procurarão obter vantagens inescrupulosas com os temores religiosos, explorando a fragilidade de nossas angústias e fraqueza; contra esses "vampiros de almas" só funciona o aparato judicial e a religiosidade esclarecida e não-alienante.
O lado mais positivo disso tudo é a comemoração e o revigorar da esperança; comemorar significa "memorar junto", lembrar com outros. Nós, humanas e humanos, gostamos demais de festejar, porque essa é a possibilidade de nos alegrarmos e nos encontrarmos, de maneira livre e lúdica e, portanto, qualquer motivo é um bom motivo, mesmo quando não é uma data tão "redonda".
O que estaremos lembrando? Estarmos vivos e juntos, mesmo que algo pareça estar terminando e nunca haver a certeza absoluta de que seja invencível o renascer. Não importa; fazemos com que assim seja e queremos que não deixe de ser assim.

(Mario Sergio Cortella - "Não espere pelo epitáfio")

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:01



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D