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O amor e suas razões

por Thynus, em 23.02.13

Lá pelos meios do século passado, o filósofo e psicanalista alemão Erich Fromm — que, ao lado de Marcuse, influenciou imensamente os movimentos contra-culturais dos nossos anos 1960 e 1970 — publicou o livro A arte de amar e, no capítulo 2, afirmou: "O amor imaturo diz: — eu te amo porque preciso de ti; o amor maduro diz: — eu preciso de ti porque te amo". Essa aparente contradição indicada por Fromm, supostamente produzida pela transição da imaturidade para a maturidade, aponta para uma outra questão: a dimensão da causalidade. Quando imaturo, a necessidade de alguém faz com que aquele seja amado, sendo o amor um efeito; quando maduro, o amor por alguém faz com que dele se necessite, sendo o amor uma causa.
Existe, de fato, amor maduro? Mais ainda: pode existir? Ou, pior: existe o Amor, ou esse é apenas um outro nome para caracterizar as relações de dependência e precisão? Maduro ou não, o que é isso? E diferente o da mulher e o do homem? Lord Byron achava que sim; no seu Don Juan inseriu a máxima 471 de La Rochefoucauld: "na sua primeira paixão a mulher ama o seu amante; em todas as outras, tudo o que ela ama é o amor".
Todos nós, provavelmente, quando fomos apresentados aos estudos da gramática, ainda no processo inicial de alfabetização, nos demos conta de um fato: o melhor e mais citado exemplo para explicar um substantivo abstrato era Amor. Aprendemos que era substantivo e também que era abstrato; só não aprendemos qual a sua substância. Afinal de contas, o substantivo concreto é aquele que designa um objeto ou um ser; por sua vez, o substantivo abstrato é aquele que nomeia ações, qualidades ou estados considerados separados dos seres e objetos.
Separados dos seres e objetos! Onde, então? Teria a morfologia uma queda pelo idealismo de Platão ou, melhor ainda, assimilado completamente a noção de "amor platônico"?
Um dos melhoresgraffiti que já pude ler— pela sua erudição e sagacidade — ficou muito tempo numa das paredes da PUC/SP: "Para curar um amor platônico, nada como uma transada homérica!" Seria a revolta contra os ditames da impermeável abstração do substantivo exemplar ou apenas uma reificação psicanalítica amadora? De qualquer forma, a frase capta bem o sentido da idéia de Sebastien Chamfort que afirmava (em plena Revolução Francesa) que "o amor, tal como existe na sociedade, não passa da troca de duas fantasias e do contato de duas epidermes".
Seria o Amor resultante da fantasia, da quimera simbólica, da ânsia pelo valor mais alto dos pertencimentos recíprocos, da abstração? Mas, o sentido do Amor passa, sem dúvida, pelos sentidos dos corpos, pelo concreto. Qual o papel do tato ("tua pele macia"), do olfato ("o aroma de canela"), da audição ("tuas doces palavras"), da visão ("teu semblante majestático") e do paladar ("teu sabor de mel")? Ou, como pensava Albert Cohen, "teria Julieta amado Romeu se a Romeu faltassem quatro incisivos, deixando-lhe um grande buraco negro no meio?"
O amor é cego e... imaturo. É paixão e mistério. Tem razão Fernando Pessoa/Alvaro de Campos ao dizer que "todas as cartas de amor são ridículas/ não seriam cartas de amor se não fossem ridículas / [...] Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas".
Substantivo abstrato?! Ora, os gramáticos que nos perdoem...

(Mario Sergio Cortella - "Não espere pelo epitáfio")

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publicado às 02:37



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