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Ouvido e audição

por Thynus, em 16.02.13

A orelha, que é a parte externa do ouvido. tem uma forma eminentemente feminina. Enquanto o olho tem acesso a um controle ativo, a lei que rege o ouvido o submete a uma maior passividade. Ele permanece aberto mesmo durante a noite, que é a metade feminina do dia, não se deixa dirigir ou controlar e, de maneira correspondente, tem menor capacidade de concentração. Naturalmente não existe, portanto, um ponto em que a audição é mais aguçada. Enquanto o olho, por princípio, pode fechar-se e está limitado a uma metade da realidade, aquela para a qual o rosto está voltado, o ouvido não pode ser desligado e por essa razão está sempre sendo informado de maneira abrangente. Ainda que se durma sobre um dos ouvidos, o outro continua desperto. Na escala de ondas eletromagnéticas, a faixa de freqüências percebida pelo ouvido ultrapassa em muito a do olho. Contrariamente às pálpebras, a ausência de mobilidade das orelhas acentua igualmente a qualidade passiva do sentido da audição, já que não se encontram no centro como os olhos mas, tipicamente, na periferia do rosto. Nós emprestamos nossos ouvidos a alguém ou damos uma ouvida no que ele tem a dizer, embora somente lancemos olhares ao nosso redor. O fato de que os animais sejam capazes de mover as orelhas e de que algumas poucas pessoas também tenham a possibilidade de executar ativamente com elas alguns movimentos rudimentares permite presumir que essa capacidade foi sendo perdida por desleixo. É somente em sentido figurado que nós ainda podemos ficar com as orelhas em pé. O ponto a que chegamos pode ser comprovado pelo fato de acharmos que orelhas móveis são cômicas, enquanto olhos imóveis nos parecem trágicos. A diferente valoração de ambos os sentidos mostra-se também no fato de nós confiarmos constantemente em nossa ótica, mas só muito raramente se é todo ouvidos, já que nós praticamente nos esquecemos de ouvir com atenção.
A cóclea, o órgão da audição propriamente dito, que está situado no interior do ouvido, é um sinal ainda mais importante que o pavilhão auricular. A imagem da espiral é um símbolo primordial que, ao contrário das linhas retas, está muito mais próxima da realidade. No âmbito do infinitamente pequeno, os físicos atômicos encontraram sua marca no local de formação de matéria nova, assim como o fizeram os astrofísicos nas gigantescas dimensões do universo, sob a forma de nebulosas em espiral, enquanto os biólogos moleculares seguiram seu rastro no material genético do DNA; já os psicoterapeutas a conhecem como aquele redemoinho com que o ciclo da vida tem inicio, na concepção, e com o qual se fecha ao final da vida, quando a alma volta a deixar o corpo. Conseqüentemente, a percepção do ouvido aproxima-se mais da realidade, sobretudo quando pensamos que tudo na criação foi constituído a partir do som. "Nada-Brahma, o mundo é som” (1). C. G. Carus disse: "O ouvido interno pode ser considerado o órgão mais importante e significativo do desenvolvimento psíquico"” Schopenhauer e Kant referem-se à relação entre o ouvido e o tempo, que nós medimos de acordo com o curso das estrelas desde tempos imemoriais. Suas "órbitas" são na realidade espirais. Rudolf Steiner reconheceu que a vida é ritmo, e por também decorrer ritmicamente (2), o tempo está intimamente ligado à nossa vida. Nós vemos com os olhos a superfície do mundo, os fenômenos. Com nossos ouvidos, entretanto, escutamos as profundezas, as raízes de nossa vida. Nesse sentido, os olhos "fenomenais" contrapõem-se aos ouvidos radicais (do latim radix = raiz). Isso não faz com que os ouvidos sejam fundamentalmente melhores que os olhos, somente mostra que nós os utilizamos de outra maneira, mais profunda.
A relação dos dois mais importantes órgãos dos sentidos fica evidente nos relacionamentos interpessoais. Nós vemos e ouvimos uns aos outros. Primeiro entramos em contato e por último, eventualmente, aprendemos a nos entender mutuamente. As reações à cegueira e à surdez demonstram como a audição nos toca profundamente. Devido à valoração dominante, consideramos a cegueira como sendo muito pior, mas a prática demonstra que ela é mais fácil de suportar. Com a audição, perdemos o vibrar juntamente como mundo e, assim, a sensação de ser parte dele, o que resulta em perturbações psíquicas que chegam até à depressão. A surdez acarreta a ausência de sensações. Quando a mão está surda [em alemão = dormente] não pode sentir mais nada. O ditado alemão mostra que ouvir e sentir podem substituir um ao outro: "Aquele que não quer ouvir deve sentir."
Quando nos privam da audição, vivemos em um mundo sem som. E a sensação de ser expulso, de ser um estranho no pior sentido, o que animicamente é quase insuportável. Assim como no início da criação há um som, toda criatura ouve desde o princípio o batimento do coração materno. Todas as mães sentem como esse cordão umbilical acústico é importante ao estreitar o filho inquieto contra o peito de maneira intuitiva e espontânea. É esse som tão conhecido que, em última instância, acalma a criança. Qualquer família de patos mostra o fenômeno. A mãe grasna ininterruptamente e enquanto os patinhos a escutam, tudo está em ordem. Assim que os grasnidos enfraquecem, é hora de retornar.
No ensurdecimento, ou seja, quando se começa a ter dificuldade em ouvir, a indicação é parar, dirigir a escuta para fora e esperar que as respostas venham de lá. Não é mais o caso de escutar o exterior, mas a voz interna, à qual, unicamente, se está sendo remetido pelo sintoma. O ritmo interno quer ser encontrado. De acordo com a natureza, esta é uma tarefa da idade madura, razão pela qual o sintoma também afeta preferencialmente essa faixa etária. Quem, em idade avançada, continua voltado apenas para o exterior, pode contar com que o destino o corrigirá. Mas isso pode ocorrer através do fechamento do ouvido externo. A própria voz interna, assim como a voz de Deus, pode ser ouvida independentemente dos ouvidos físicos e, em casos extremos, terminam sendo a única conexão. Isso pode ser sentido como drama ou oportunidade. Neste ponto, dever-se-ia se pensar também nos compositores Beethoven e Smetana, que apesar da surdez externa compuseram música divina e também ouviram internamente.

(1) Comparar com a obra homônima de Joachim-Ernst Behrendt.

(2) A cada dia segue-se uma noite, a cada verão um inverno, etc., em um ritmo constante e perpétuo.

(Rüdger Dahlke - "A doença como linguagem da alma")

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publicado às 21:25



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