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O Pescoço

por Thynus, em 16.02.13


Como ligação entre a cabeça e o tronco, o pescoço é uma região marcadamente sensível, um desfiladeiro através do qual tudo o que é essencial precisa passar. O ar que se respira, a alimentação e as ordens emitidas pela cabeça vêm de cima para baixo, enquanto as comunicações do corpo são devolvidas para a central que está acima. Três vias centrais de comunicações concentram-se aqui em um espaço extremamente restrito: a traquéia, o esôfago e a medula espinhal. Conseqüentemente, o controle dessas ligações é uma função essencial dessa região. A decisiva disseminação da voz feita pela laringe também está relacionada à transmissão e à comunicação. Comunicação para fora através da voz e comunicação para dentro através do esôfago são os temas básicos da região. Os nervos da medula espinhal transitam em ambas as direções.
Devido à estreiteza dominante, o pescoço tem uma estreita ligação com a angústia (do latim angustus = estreito) e especialmente com a angústia da morte. Todos somos confrontados com a combinação de estreiteza e angústia no início da vida. Como tudo já está contido no início, assim como a árvore na semente, não é de admirar que a angústia seja e continue sendo uma experiência humana fundamental. Quando se aperta o pescoço, em seu caráter de desfiladeiro decisivo para as três vias de ligação decisivas entre a cabeça e o corpo, isso representa uma ameaça de morte sob vários aspectos. Pode-se sufocar em questão de minutos, morrer de sede em dias, morrer de fome61 em semanas e, no caso da medula espinhal, em segundos quando ocorre uma paralisia central.
Assim, o pescoço é na verdade um lugar predestinado para matar seres humanos. As sociedades mais diversas e totalmente heterogêneas desenvolveram os mais diferentes métodos de execução, mas a maioria tem preferência pelo pescoço como local do acontecimento. Na França, ele era cortado na guilhotina com precisão maquinal, na Inglaterra o delinqüente era pendurado por ele, nos países orientais ele é seccionado com a espada, enquanto no Ocidente utilizava-se o machado. Os assassinos utilizam de preferência um xale ou suas próprias mãos para estrangulá-lo. Sendo assim, é absolutamente compreensível que a angústia da morte nos oprima o pescoço, ou que este se aperte quando estamos perdidos. Como a angústia sempre surge quando as coisas apertam, o pescoço é seu lar natural.
Em conseqüência, ter algo ao redor do pescoço é algo ameaçador, ou pelo menos incômodo. Quando caímos nas mãos de um usurário, podemos endividar-nos até o pescoço, e a água nos chega até o pescoço. Pular no pescoço de alguém coloca essa pessoa em uma situação perigosa de imediato, acontecendo algo semelhante quando alguém dá uma "gravata" em outra pessoa. Por outro lado, permitir que alguém coloque os braços ao redor do pescoço com intenção amável é uma prova de confiança. A pessoa tem certeza de que ele não vai ser torcido. Também em sentido figurado, pode-se confiar os segredos carregados de angústia a tal pessoa. Ela não vai colocar uma corda ao redor de seu pescoço.
Além da angústia, a avidez também reside no pescoço, especialmente a avidez de incorporar e, conseqüentemente, a de possuir. Para muitas pessoas, engolir representa uma satisfação ainda maior que a de sentir o sabor. Ao observar pessoas comendo, tem-se freqüentemente a impressão de que se trata de engolir o máximo possível no menor tempo possível. O simbolismo relacionando o pescoço com a posse e a avidez é muito profundo.
Uma outra camada de significados está relacionada com a nuca. Ela é um lugar de energia primordial, e a angústia sentida na nuca é especialmente ameaçadora. Com as nucas de touros literais [em alemão, Stiernacken: Stier = touro / nacken = nuca] pode-se desatolar as carroças. A pessoa com nuca de touro é um modelo popular de força. Ela segue seu caminho de maneira firme e sem ser tocada por dúvidas intelectuais, impondo-se pela própria força e pela teimosia que a acompanha. Golpes na nuca são tão perigosos justamente porque atingem o local das forças simbólicas. Além disso, eles vêm de trás e são, portanto, golpes dados pelas costas, injustos e freqüentemente revidados.
Finalmente, o pescoço é importante também para a visão de conjunto e, com isso, para o horizonte espiritual. Ele determina a direção da cabeça e, portanto, do campo de visão. Assim como seu xará titânico carregava todo o globo terrestre, a vértebra cervical superior carrega nossa cabeça e, com isso, nosso mundo. Além disso, o Atlas gira ao redor da segunda vértebra, o áxis, que dessa forma torna-se o eixo do mundo. Ele é a parte do corpo mais importante para a torção do pescoço, que se move na direção mais oportuna a cada momento como se fosse um cata-vento. Mais quadro de costumes que doença, o torcicolo inspira muito mais temor pelo desgaste anímico-espiritual que pelo desgaste propriamente físico. A postura do pescoço é ao mesmo tempo a postura da cabeça. Nesse sentido, ele oculta muito simbolismo. Quando alguém não tem a coragem de ir ao encontro da vida com a cabeça direita e erguida, não é somente em sentido figurado que ele abaixa a cabeça. O pescoço tem então de suportar a carga da cabeça pendente, o que a longo prazo força em demasia os músculos da nuca. A obstinação é a conseqüência e ao mesmo tempo uma tentativa de se prevenir contra golpes na nuca. quem anda cabisbaixo pelo mundo não vê muito dele e, com isso, não obtém muito dele e da vida. Ele se oferece como vítima e em sinal disso assume a postura correspondente com a sensível nuca. Nessa postura, quase não se pode evitar os esperados golpes na nuca. Ao mesmo tempo, os afetados ocultam a parte anterior de seu pescoço, a garganta, e com ela o âmbito da incorporação e da posse. Eles não esperam nada da vida que valha a pena ser incorporado. Eles comprimem no espaço mais estreito aquilo que têm, e o escondem do mundo.
Trata-se de um círculo vicioso típico, pois os afetados vivenciam o todo na projeção. Eles acham que mantêm a cabeça baixa porque o mundo é tão ruim e, de qualquer forma, somente tem coisas negativas para oferecer-lhes. Eles deixam a cabeça cair um pouco mais a cada golpe e, com isso, atraem mais certamente ainda o próximo golpe na nuca.
Sua tarefa de aprendizado é liberar essa postura curvada e transformar o abatimento em humildade. quem espera com humildade aquilo que a vida deixa vir a seu encontro não força seu pescoço a viver de maneira substitutiva essa postura. A obstinação cederá a uma mobilidade adaptável. Quem se coloca aos pés do mundo com verdadeira humildade, terá finalmente o mundo a seus pés, e ele de qualquer maneira deixará de golpeá-lo.
A postura contrária é o nariz empinado, em que a cabeça é atirada sobre a nuca e o queixo empurrado para a frente. Dessa maneira, o queixo é ressaltado como símbolo da vontade. Tudo deve seguir o nariz da pessoa que tem o nariz empinado. De maneira correspondente, ela observa de cima para baixo o mundo que tem a seus pés. Ao mesmo tempo, o pescoço é forçado para a frente, esticado e tendenciosamente inchado, o que evoca a temática da insaciabilidade. Toda a figura da pessoa com nariz empinado expressa a expectativa de conquistar a submissão. Antigamente, os aristocratas olhavam para cima em direção aos cavalos, que tinham em alta consideração, e de maneira correspondente, desde essa postura olhavam para seus súditos com altivez. Não era raro que estes, humildes ou humilhados ao dirigir o olhar para ama vissem um pescoço inchado como um bócio.
A lição e redenção dessa má postura está em conquistar o olhar desde cima em sentido figurado e desenvolver a genuína coragem que repousa na força interna em substituição da soberba. quem submete o mundo neste sentido mais profundo não precisa provar sua soberania para si mesmo e para o mundo empinando fisicamente o nariz. Ele está à altura do mundo e não vai tentar crescer artificialmente um pouco mais por meio de uma postura forçada.
A postura lateralmente inclinada da cabeça mostra o quanto corpo e alma andam de mãos dadas. Basta inclinar a cabeça um pouco para um lado para que o olhar se feche para este lado e se abra na mesma medida para o lado oposto. Um experimento simples mostra como a inclinação da cabeça para a direita abre para o lado esquerdo e vice-versa. Neste experimento, basta espreitar dentro de si mesmo para sentir que abrir-se para o lado esquerdo, feminino, faz com que surja automaticamente um estado de espírito mais brando, de abandono. Quando, ao contrário, inclina-se a cabeça para a esquerda, abrindo-se assim para a "metade direita do mundo", a tendência do pólo masculino torna-se correspondentemente mais dura e determinada.
Quando alguém mantém sua cabeça permanentemente inclinada para um lado, a brincadeira torna-se um sintoma que mostra exatamente qual metade da realidade está sendo evitada e qual está sendo favorecida. A lição consiste em dirigir-se conscientemente para o lado preferido e deixar que o olhar descanse nele até que se possa reconhecer e aceitar sua essência e, assim, tornar-se maduro para o outro lado da realidade. A sintomática é ainda mais clara no caso do torcicolo, em que uma metade da realidade é totalmente obliterada. Também nesse caso, a solução passa pelo lado observado constantemente. De qualquer forma, o dirigir-se externamente para ele deve tornar-se algo interno e a observação, com isso, substancialmente mais profunda.

(Rüdger Dahlke - "A doença como linguagem da alma") 

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publicado às 19:49



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