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A cor cinza

por Thynus, em 16.02.13

 

A temática do envelhecimento também pode ser tratada a partir dos conceitos do tornar-se grisalho e do horror [Ergrauen = encanecer / Grauen = alvorada, mas também medo, horror]. As modificações da pele devem ser classificadas aqui, assim como o envelhecimento das percepções sensoriais que podem chegar à catarata, que estende uma cortina cinzenta diante do mundo colorido. De fato, a percepção das cores diminui à medida que os elementos da retina responsáveis pela percepção da luz retrocedem. Dirige-se um olhar turvo em direção a perspectivas sombrias. O véu cinzento tampouco se detém diante do ouvido, cuja capacidade auditiva para sons agudos diminui, e o paladar e o olfato passam a ignorar as notas mais picantes dos odores e dos sabores. Até mesmo a alma parece encanecer de forma múltipla, parecendo cansada e vazia, sem vontade e sem cor.
A retirada das cores da vida torna-se especialmente nítida nos cabelos e pode ser interpretada como sinal de resignação (1). Quando eles, como sinal típico do envelhecimento, encanecem antes de cair, trata-se para muitos de um horror. Sendo que o cinza nas têmporas goza de certa preferência entre os homens. Neste caso, ele estaria documentando a experiência do mundo e da vida que pode acompanhar a velhice. Ziegler é de opinião que o encanecimento na velhice tem a ver com o horror, que esta fase da vida transforma-se em tarefa. Ele vê as possibilidades e a loucura dessa época de forma positiva, já que se trataria de aprender o próprio horror e também ensiná-lo aos jovens. Esta relação destaca-se especialmente no encanecimento prematuro e particularmente no encanecimento instantâneo durante a noite. Por trás disso há situações de pavor que os afetados não puderam digerir conscientemente. O corpo precisa entrar como substituto e conferir expressão ao horror na cor dos cabelos.
A tarefa é sair de casa, aprender a temer e desembarcar no pólo escuro, ir de livre e espontânea vontade até lá, onde a vida perde todo o colorido: até o mundo das sombras, o lado noturno da vida. Aqui se está agora em seu próprio elemento, à noite todos os gatos são pardos. As vivas cores do mundo superior não fazem parte dos fantasmas da noite, trata-se das profundezas da alma. O grande arco, a abstração, está no ponto central do trabalho de elaboração das experiências da vida, pois todas as teorias também são cinzentas. A confrontação com a sombra, desde que esta seja aceita e integrada, pode amadurecer e, em um sentido mais profundo, transformar-se em sabedoria. Quando a luz e a sombra se unem surge o cinza, e o colorido do mundo parece uma ilusão. Sábio [= Weis] e branco [= Weiss] não estão assim tão distantes. Todas as cores estão contidas no branco, assim como todo o conhecimento na sabedoria. É uma questão da consciência saber se, ao tornar-se velho e grisalho, o cinza indica uma carência de cor ou o branco onde se encontra tudo. Não é possível decidir de fora se a cor dos cabelos reflete o estado interno ou o compensa, cada pessoa deve esclarecê-lo por si mesma. Um aspecto substancial da velhice está no horror que, derivando da cor cinza, descreve um estado de alma. Na medida em que a cor esmaece, sobra o cinza. Nesse contexto, chama a atenção como essa cor está próxima dos fantasmas que vivem, ou melhor, animam e enchem de horror as regiões junto à fronteira da vida. Os fantasmas aparecem sem as cores da vida, já que mais propriamente são também enviados do reino dos mortos. Sua horrível paleta de cores consiste de nuanças de cinza e vai do cinza quase negro até o cinza esbranquiçado. Assim como a pele de pessoas muito velhas, suas vestes que lembram farrapos pendem deles e, com a ausência de qualquer estrutura ou cor, transmitem a conhecida impressão medonha. Assim como o fantasmagórico, a velhice se refere à morte; mais além do horror que inspira, o fantasma da velhice tem uma relação intima com o além. Mas a velhice não compartilha somente a forma e a cor com o fantasmagórico, mas também as localidades que prefere  habitar. Afastada da vida pulsante, nas margens e nichos da sociedade, ela circula por lugares sinistros e faz das suas, já que inspira horror aos vivos. Os cemitérios jamais foram campos de paz para os vivos como o foram para os que estão do lado de lá. De qualquer forma, eles logo se desenvolveram e se transformaram em ante-salas do horror, em portos de medo do outro mundo. Pode-se observar, especialmente no campo, como eles atraem os velhos e ao mesmo tempo os colocam sob seu encanto mágico.
Nossa época esclarecida limpou a paisagem (tanto a concreta como a espiritual) de fantasmas e assombrações, mas não pensou que nada se deixa eliminar definitivamente do mundo. Assim, as aparições tiveram de escolher o caminho que passa pelas sombras, que de qualquer maneira corresponde a seu ser. Elas se instalaram nas unidades de terapia intensiva, bem dissimuladas entre moderníssimos aparelhos reluzentes mas sem vida, assim como em asilos de velhos, nos departamentos geriátricos das instalações da psiquiatria e nas alas de internação de nossas clinicas modernas, onde a média de idade sobe cada vez mais, ilustrando de forma "horrível" os triunfos da medicina e também seu lado sombrio.
Todo o amplo campo da velhice e da idade transformou-se para nós em uma assombração. Mal temos tempo de comprar antes que as coisas já estejam velhas. Não se admite usar roupas envelhecidas, opiniões velhas, conhecimentos velhos, embora tudo isso ateste que já se está gasto, e poucas coisas são piores que isso. Em nosso esforço de sempre manter tudo no estado mais novo possível, pura e simplesmente lançamos uma impressionante magia de defesa contra a velhice. O papel dos castelos mal-assombrados e das ruínas antigas (2) foi transferido para os asilos de velhos, clínicas e outras instalações geriátricas. Por bonitos que sejam externamente, nós os evitamos como se eles pudessem nos influenciar. Nós não queremos nos infectar com o vírus da velhice. Poderíamos ser tomados pelos (maus) espíritos que lá padecem. A proximidade imediata do pólo oposto torna-se aqui especialmente nítida, pois estamos totalmente possuídos pelo espírito do novo. E uma maldição ser velho em uma sociedade tão possuída pela juventude e sedenta de renovação, e assim o mau costume de amaldiçoar, tão difundido antigamente, também conquistou seu lugar em nosso meio.
Tanto hoje em dia como antigamente, pagamos um preço para ser poupados pelo horrível fantasma da velhice. Assim como antigamente se tentava amenizar a disposição das assombrações com oferendas materiais, para que nos deixassem em paz, hoje praticamente toda a sociedade contribui com altas somas para o cuidado dos velhos na esperança equivocada de, por esse meio, retirar da velhice algo de seu horror. A previdência da velhice leva na verdade a que a pessoa, bem provida materialmente, experimente o medo e o horror da velhice de forma especialmente clara. Nada desvia mais do tema dessa etapa propriamente dito.
A tarefa da velhice cinzenta é o horror. Na sociedade, são os velhos que ensinam os jovens a ter medo, que se tornam os estraga-prazeres de seu culto à juventude, enegrecendo unilateralmente os pensamentos claros e superficiais. Assim como consigo mesmos, eles também podem fazer com que os outros fiquem preocupados e oportunamente escapar para o escuro do segundo plano. A luz do Sol não é mais coisa sua, ela danifica sua pele fatigada e cega seus olhos cada vez mais fracos. Assombrar desde o esconderijo e tecer fios invisíveis, cuspir na sopa dos que estão no primeiro plano como eminência parda, este é seu ofício. "O traste velho deve dar solavancos e fazer barulho, no ático e no porão. Ele deve rumorejar e assombrar. Sua hora propicia é a hora dos espíritos.. " (Oliver Sacks).
O que é válido para a sociedade, naturalmente afeta também o indivíduo idoso. A época grisalha é sua chance de confrontar-se com o escuro, o horrível de sua vida, fazer a arrumação dos fantasmas que foram se acumulando.
Juntamente com isso, há também uma participação substancial do elemento "doidice". O que o velho louco faz é totalmente incompreensível para os contemporâneos de orientação mundana, porque ele já vê as coisas de uma outra perspectiva. No tarô, o louco é o grau mais elevado. O fato de que justamente ele seja classificado por algumas escolas de tarô como sendo o primeiro símbolo, inferior, mostra a grande confusão que no entretempo se formou em relação a esse arquétipo. O papel clássico do louco e da oportunidade contida nessa fase pode ser visto na imagem do bobo da corte. O bobo da corte era o único que podia dizer a verdade sem disfarces ao governante sem ter de responder por isso. Estando fora da jurisdição normal, ele já não podia mais ser culpado. Seu maior crime era ser chato.
Mostra-se aqui como esse arquétipo está desamparado hoje em dia. Temos uma profusão de políticos envelhecidos que se aferram ao poder e que chegam até mesmo a levá-lo para a tumba. Os aduladores da corte de épocas anteriores foram substituídos por hordas envelhecidas de funcionários públicos que, cinzentos e mesquinhos, deficientemente representam as belas e frescas cortesãs de outros tempos e somente conservam florescente o padrão do lacaio. Os velhos loucos, que podem se permitir dizer simplesmente a verdade e isso, ainda por cima, de forma irônica, nos fazem falta. O que não daríamos por um velho político que, como bobo da corte e admoestador que não tem mais nada a perder e, por isso mesmo, tem tudo a ganhar, escreve a verdade nua e crua no livro de visitas da solícita camarilha de provocadores.
O velho louco, que finalmente pode dizer o que sempre quis ser declarado, seria em conseqüência uma solução do tema da velhice. De uma maneira mais direta, mais irônica e até mesmo mais obscena, ele poderia obter ar para si mesmo. Caso até então ele guardasse no coração algum rancor assassino, agora seria a hora de, sob a proteção da velhice, trazer à luz do dia todas as formas escuras e indecentes. Talvez escandalizar os outros trouxesse alívio para si mesmo. Suas advertências poderiam esmagar a desgraça contra a parede. Livre da carga do próprio sustento e do cansativo jogo da sociedade, ele poderia recuperar a alegria infantil provocada por todos os segredos e surpresas da vida. É raro que se presencie ainda um desses velhos loucos nas poucas grandes famílias unidas que ainda restam, que são tratados pelas crianças como um igual porque consideram as regras de seus jogos tão importantes como os jogos dos adultos. Eles nem menosprezam o jogo infantil nem o revestem com a seriedade dos adultos. Eles voltaram a ser semelhantes às crianças (no sentido bíblico) e por essa razão freqüentemente são mais queridos por elas que os próprios pais. O parentesco entre as épocas da infância e da velhice é expresso também em algumas imagens de remédios homeopáticos que descrevem esse arquétipo do velho louco eternamente jovem. Viver a maluquice dessa maneira é a melhor profilaxia em relação à loucura psiquiátrica não-redimida, que de resto castiga a velhice com freqüência.
O arquétipo da velhice citado quase sempre é o do velho sábio. Ele já não pode desempenhar qualquer papel em nossa sociedade, porque a velhice se agarra tão convulsivamente à vida que perde aquela soltura imprescindível ao velho sábio. Ele é sábio porque, como Sócrates, sabe que não sabe nada e que a vida é muito mais que saber e fazer. Velhos sábios seriam extremamente desagradáveis para uma sociedade de provocadores, pois estes teriam de questionar permanentemente o rufar dos tambores produzido com tanto esforço.

(Rüdger Dahlke - "A doença como linguagem da alma")

(1) Re-signação = retirar o sinal (da vida colorida), literalmente (do latim) tirar o lacre, devolver, anular.

(2) O fato de que tais lugares horripilantes gozem de uma certa preferência turística tem seu lado bom, pois assim as sombras fantasmais reprimidas voltam à vida. Esse tipo de lugar mal-assombrado, salas dos horrores, tremfantasma e também os correspondentes filmes de terror têm a vantagem da distância em relação aos asilos para cidadãos alquebrados e enfraquecidos pela idade. Não se é lembrado do próprio futuro de maneira tão imediata.

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publicado às 19:46



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