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Nariz e olfato

por Thynus, em 16.02.13

O nariz é o mais proeminente de nossos órgãos dos sentidos e é considerado o mais sincero. Em caso de dúvida, pode-se ler a verdade na ponta do nariz. Devido à sua posição exposta, ele tornou-se um âmbito significativo e prenhe de significados. Como o caminho sempre segue a direção do nariz, um nariz torto pode naturalmente levar a um caminho torto. Um nariz em forma de gancho indica um caráter "delator", outro com uma curva elegante representa a elegância correspondente, um nariz aristocrático representa o arrojo, um nariz grosseiro e sem forma representa a grosseria. O nariz escorrendo denota desleixo e a tristeza que o acompanha, o nariz desfigurado por verrugas lembra a bruxa e o perigo que representa enquanto o nariz arrebitado indica o indiscreto caráter infantil que, curioso e esperto, gosta de estar um passo adiante de seu entorno. Este "nariz ascendente" faz parte do esquema de criancinha que está profundamente gravado em nós e que determina mais nosso comportamento do que pode parecer correto ao intelecto racional. A voz popular pressupõe que um nariz longo e pontudo se meterá indiscretamente por toda parte, enquanto o bulbo redondo e luminosamente vermelho do palhaço é um símbolo de seu descaramento. Enquanto o mundo inteiro tenta maquiar o nariz para torná-lo discreto, tirando seu brilho com pó ou base para tornar mais decente e inofensiva a nitidez de seu contorno, os palhaços e os bobos o destacam especialmente, assim como gostam de trazer à luz as coisas mais suspeitas e fazer graça a respeito. O que esta em jogo aqui é especialmente a referência sexual do nariz, que popularmente é comparado ao órgão sexual masculino. A sabedoria popular volta a demonstrar muita agudeza, pois de fato há nas mucosas das narinas zonas reflexas para os órgãos sexuais. Assim, cada fossa nasal torna-se uma espécie de zona de manipulação dos reflexos dessa delicada área. Essa é também a razão pela qual meter o dedo no nariz é considerado indecente e é um costume tão difícil de impedir. Isso evidentemente transmite grande desejo àqueles que o fazem. Somente quando o desejo sexual se desloca para a área genital, ao longo do desenvolvimento, é que a compulsão para escavar o nariz cede.
Em nossa escala de valores, o olfato e também o paladar estão ainda mais em segundo plano que a audição. Comparado como cérebro, bastante mais jovem, o rinencéfalo é antiqüíssimo.Juntamente com o nariz, ele pertencia originalmente a um órgão dos sentidos relativamente autóctone. O nariz farejante era algo ainda totalmente animal, algo para o qual, hoje, torcemos o nariz. Nós orgulhosamente nos erguemos do chão, passamos a ter o nariz empinado e perdemos em grande parte nosso bom olfato, com o que as narinas continuam apontando para baixo, para o reino das mães e do mundo material. Somente quando esfregamos coisas no nariz ou as temos debaixo do nariz é que podemos percebê-las com certeza. Enquanto o olho está construído como uma câmara e o ouvido como um instrumento musical, o olfato está baseado em algo mais simples, no princípio de chave e fechadura do contato físico diferenciado. A mucosa olfativa, localizada no pavilhão nasal superior, está formada por cinco milhões de células olfativas providas de cílios sensíveis que são estimuladas através do contato. Elas funcionam como fechadura, a matéria olfativa como chave. Para poder perceber o aroma de uma rosa, algumas moléculas-chave do “perfume de rosa" precisam encontrar sua fechadura no nariz. Lá, então, elas nos revelam o aroma. Uma grande parte da percepção de sabores também segue esse caminho, já que nós também percebemos o aroma das comidas por meio da mucosa olfativa. A coriza nos dá uma comprovação prática, quando tudo se torna igual e não tem gosto de nada.
Enquanto a visão ocorre por meio de ondas eletromagnéticas, a audição requer as ondas sonoras materiais; já o olfato exige o contato físico direto entre o emissor e o receptor. Se compararmos a visão e a audição com diferentes idiomas alfabéticos, o olfato e o paladar corresponderiam à s linguagens de figuras, mais antigas, que utilizam um símbolo próprio para cada conceito. O olfato é portanto uma forma de percepção ainda mais direta é primitiva, que penetra mais profundamente não só no âmbito físico mas também no anímico. A capacidade de cheirar corresponde ao grau de intensidade de nossa vivência anímica. Através dos olhos se dá o primeiro contato, aprendemos a nos conhecer por meio do som da voz, através do cheiro os corpos se tocam pela primeira vez. Em um grupo estranho os membros se cheiram com cuidado a princípio, até que tenham confiança uns nos outros, tal como nossos antepassados faziam há milhões de anos. Quando não queremos mais ver alguém, trata-se de um distanciamento relativamente superficial, mas a aversão é profunda quando não podemos mais cheirá-lo. Nas primeiras fases de nossa história o olfato atingia o âmbito intuitivo; ainda hoje muitas pessoas sentem o cheiro do perigo. Elas tem faro para situações complicadas. Nesse sentido, perdemos muito de nosso olfato em comparação com os animais. Os animais sentem não só o cheiro do perigo, mas também o da comida e o do companheiro. Os chamados primitivos anda hoje são capazes de sentir o cheiro da água no deserto. Nós modernos, no máximo sentimos o mau cheiro em sentido figurado. Apesar disso, o nariz ainda desempenha um papel muito mais importante do que muitas vezes admitimos na busca de companheiro e de alimento. É coisa sabida que o gourmet necessita principalmente de um nariz sutil. Já a enorme abrangência da indústria de perfumes pode esclarecer como o cheiro do companheiro é importante. Ela trabalha quase que exclusivamente com aromas de flores e especialmente de botões, porque estes nos levam mais seguramente para além do intelecto, até os âmbitos arcaicos do inconsciente. Emergem sensações primaveris e imagens do paraíso armazenadas no nível de padrões; não por acaso, o paraíso é representado como um jardim em muitas culturas.
Nós gostamos de acreditar que o sexo oposto exala esses aromas. Só muito raramente ainda achamos o olor corporal típico das pessoas atraente. Ele é honesto demais para nós. É aqui que os perfumistas intervêm em nosso auxilio, quando o cheiro natural degenera-se em odor desagradável ou até mesmo em fedor. Não podemos mais cheirar-nos, e assim torna-se forçoso o desenvolvimento em direção a materiais aromáticos cada vez mais artificiais. No entretempo, eles não são mais utilizados somente pelas mulheres, que geralmente têm narizes mais eficientes, mas também pelos homens. Cada um tem seu perfume e o considera sua marca pessoal. Apesar disso, é óbvio que se tratam de artigos fabricados em massa que, com nomes sonoros e preços altos, tentam unicamente vender-nos individualidade e exclusividade. Para que não notemos quão pouco originais nós mesmos somos, eles nos são apresentados propagandisticamente por pessoas muito especiais. Com o que, um delicioso perfume pode naturalmente valorizar ainda mais uma pessoa, pois se não serve para encobrir a própria transpiração, serve para fortalecer o aroma próprio.
Temos nossas próprias glândulas odoríferas na área coberta por pêlos das axilas e do púbis. Há várias razões para que já não demos mais valor a esta marca de perfume, que marca nosso próprio cheiro. Boa parte deve-se provavelmente ao fato de que nós realmente deixamos de ter um cheiro agradável. Costuma-se dizer na Índia que um corpo está puro e inocente quando tem o aroma da fruta recém-colhida. O agradável aroma dos bebês lembra ainda esse estado quase paradisíaco. No que a isso se refere, perdemos nossa inocência paradisíaca, ainda que evitemos comer alho. Os indianos descreviam os primeiros cabelos brancos como as faces pálidas que fedem na boca. Nosso tipo de vida e sobretudo nossa alimentação exerceram má influência sobre nossa transpiração. Nós, em conseqüência, reagimos em nossa própria maneira de funcionar. Encobrimos aquilo que fede em nós com os mais variados sprays líquidos. A purificação a partir de dentro e do fundo é ainda mais extenuante. Quem a arrisca, talvez sob a forma de uma cura através do jejum, experimentará o sortimento de detritos com os respectivos olores que são extraídos das profundezas de seu corpo.
Por outro lado, em nosso ambiente industrial somos confrontados com uma tal torrente de olores fortes e não naturais que a sensibilidade e a capacidade de diferenciação se viram consideravelmente reduzidas. Finalmente, nossa individualidade não tem mais um gosto especial porque nós, de fato, nos tornamos seres humanos massificados. Em vez de usar a nota perfumada individual, nos atemos a alguns modelos proeminentes e assumimos sua marca de perfume. Entretanto, não conseguiremos de todo uniformizar-nos odoriferamente, o componente próprio é tão forte que até mesmo os perfumes industriais têm um aroma diferente em cada pele.
As borboletas encontram seus parceiros exclusivamente através de partículas odoríferas, e em nossa busca de companheiro o aroma desempenha um papel relevante. As pesquisas demonstram que os aromas atuam de maneira mais erótica que as impressões óticas. A atração irresistível dos apaixonados, o contágio do amor pode encontrar aqui uma explicação adicional. Irradiação é também, substancialmente, exalação. Poderíamos obter muito mais do olfato se o levássemos a sério e não tratássemos somente de combatê-lo e subjugá-lo. Quando cheiramos mal, estamos mal e fedemos diferente. Quando não suportamos sentir o cheiro de alguém, essa pessoa não é boa para nós. Caso nosso suor cheire mal, nosso corpo está se livrando de algo que não pode assimilar, ele se desintoxica através da pele. Os médicos antigos davam grande valor a seu órgão olfativo no estabelecimento de diagnósticos. Eles não cheiravam apenas secreções isoladas, fazendo-o intensamente com toda a pessoa. Dessa maneira, o nariz lhes podia indicar a pista correta e, muitas vezes, o caminho correto.
O fato de que nós, hoje, confiemos principalmente no sentido da visão, ligado às superfícies, mostra o quanto nos tornamos superficiais. O olfato também ocorre exclusivamente em nós, mas ele preenche melhor a exigência de percepção real. O método chave-fechadura é mais primitivo e menos sujeito a erros que o complicado sistema eletromagnético visual. Por essa razão, "conhecer alguém pelo cheiro” diz muito mais, em última instância, que achar alguém bonito. É uma atração exercida em um nível mais profundo. Neste caso algo se ajusta entre duas pessoas como a chave e a fechadura.
Visto a partir de fora, o abandono de nossa capacidade olfativa pode parecer não ser nenhum problema, hoje em dia podemos prescindir dela perfeitamente. Há alguns milhares de anos, entretanto, ela era crucial para a sobrevivência de nossos antepassados. Por outro lado, o poder inconsciente que o nariz continua exercendo sobre nós e nossas decisões mostra como estamos profundamente enraizados em nosso passado. O sintoma da hiperosmia, uma percepção olfativa exacerbada, que pode aparecer como aura na epilepsia, em histéricos e durante a gravidez, mostra um retorno a épocas arcaicas, quando um olfato sutil ainda tinha algo a dizer.
Caso nós, modernos, voltássemos a viver de acordo com nosso nariz e a valorizar o olfato, algumas coisas seriam mais simples e mais fáceis. Criaríamos para nós mesmos um mundo diferente do nosso “mundo óptico". A alienação do nariz reflete um mundo em que vastas áreas cheiram mal, e que portanto cheira mal para nós. Ter faro para algo significa ter uma sensação segura em relação a esta situação; seria desejável, para nós e para nosso mundo, que reaprendêssemos a confiar mais no nariz.
Nós, então, certamente constataríamos também que o ar que inspiramos constantemente não é somente um insulto ao nosso órgão olfativo, mas também ao nosso sistema respiratório, pois afinal o nariz não deixa de ser o começo das vias respiratórias. Em relação a isso, sua função é a de primeira estação purificadora do ar, já que apanha as grandes partículas de sujeira em sua rede de pequenos pêlos. Além disso, ele pré-aquece o ar antes que atingir as vias respiratórias mais profundas, para o que dispõe de um longo sistema de tubulações.

(Rüdger Dahlke - "A doença como linguagem da alma")  

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publicado às 19:45



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