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Vista e visão

por Thynus, em 15.02.13

Por sua aparência externa, os olhos correspondem ao Sol e ao princípio masculino (1). Na formulação de Goethe. "Se o olho não fosse solar, o Sol jamais poderia vê-lo". Já o órgão auditivo, ao contrário, impressiona externamente através do pavilhão auricular, que simbolicamente está próximo da Lua e do princípio feminino.
Os olhos são a única parte de nosso corpo onde o cérebro se torna visível, já que eles, de acordo com a história da evolução e juntamente com o nervo ocular e a retina, são parte do sistema nervoso central. Devido à sua própria natureza, visão e consciência estão naturalmente ligadas. A promoção dos olhos a órgão dos sentidos de primeira classe ocorreu juntamente com a primazia conquistada pelo cérebro. O pensamento impregna nossa visão, mas a visão também impregna o pensamento. Um corresponde ao outro em suas possibilidades e fontes de erro e se promoveram mutuamente. O pensamento, elegantemente, supriu várias deficiências da visão. Enquanto, por exemplo, podemos ouvir e cheirar em todas as direções, nós permanentemente vemos apenas metade do mundo. Apenas alguns deuses com muitos olhos e o pastor Argos podem admirar a totalidade.
A visão é orientada pela luz do Sol, cujos raios parecem tomar sempre o caminho reto e, portanto, mais curto. Correspondentemente, nós tentamos pensar e planejar linearmente e sem rodeios. Nós orientamos nosso ambiente artificial por linhas e ângulos retos enquanto a natureza, ao contrário, vive em curvas e esferas e desconhece as linhas e ângulos retos. Nosso pensamento não só está atrelado ao caminho mais curto, todas as nossas concepções e expectativas referentes ao desenvolvimento são projeções lineares no futuro. Mas como a realidade não decorre linearmente, alguma coisa nesses planos sempre talha. Há muitos fatores indicando que a violação de nosso meio ambiente natural tem muito a ver com a igualmente violenta imposição da linearidade. Esta, entretanto, tem a ver com um equívoco de raciocínio ligado à visão.
Expressões tais como luz do espírito, iluminação, claro entendimento, cabeça clara, a Idade das Trevas, etc., demonstram como a consciência, passando pela visão, está estreitamente ligada à luz. Nós falamos da luz do conhecimento como sendo algo totalmente óbvio, e não de seu som, gosto ou cheiro. O som, ao menos, deveria ter mais direito a essa honra pois segundo os mitos dos mais variados povos, no princípio houve um som, e toda a criação começou com ele. "No princípio era o verbo", ensina a Bíblia, e deduzimos dos Vedas que tudo surgiu a partir da sílaba primordial OM, enquanto na concepção dos aborígines da Austrália, Deus cantou o mundo. Até mesmo em nosso mundo desencantado a física ensina que o universo surgiu a partir de um estrondo primordial.
Não entendendo essa situação, nós favorecemos a visão em prejuízo da audição e colocamos nossa razão cristalina em primeiro lugar. A primeira coisa que nos sucede é ver a luz do mundo, embora saibamos que se escuta o batimento cardíaco materno muito antes que a luz do mundo seja visível e que em fases decisivas da vida o melhor é escutar a voz do coração.
A estrutura do olho revela uma outra propriedade de nossa visão e também, portanto, de nossa consciência, que não deixa de ser problemática. Nós não vemos igualmente bem e com a mesma nitidez em toda a superfície da retina. A capacidade de visão é mais fraca nas bordas, e a sensação das cores deficiente, melhorando à medida que se aproxima do ponto central. A visão tornou-se para nós um ato de concentração, pois nós fixamos o olhar em um ponto permitindo, assim, que o resto fique automaticamente fora de foco. De maneira correspondente, concentramos nossa consciência no que é mais importante, com o que as coisas menos importantes são muitas vezes esquecidas. Escolher tem um duplo caráter, consistindo de uma escolha para dentro e uma escolha para fora. Presume-se que a visão não foi sempre tão centrada. Ainda hoje, "outros mamíferos" tais como os cavalos enxergam igualmente bem em todo o campo de visão. Nosso olho tem ainda um ponto cego próximo ao ponto em que a visão é mais aguçada, o local onde o nervo ocular penetra na retina. A consciência, treinada para escolher e para adotar pontos de vista unívocos e a seguir racionalmente o caminho mais curto, tem igualmente outros tantos pontos cegos. Toda concentração e o conseqüente processo de escolha que se segue estão baseados na avaliação e pressupõem processos de pensamento.
A experiência da perspectiva ensina como é importante o papel desempenhado pela avaliação, tanto no processo da visão como no do pensamento. Distorcendo a realidade, nós percebemos como grande o que esta próximo e como pequeno o que está longe. Neste ponto já se nota em nosso tipo de visão o egocentrismo que impregnou nosso pensamento ao longo da história. Somente aquilo que está pessoalmente próximo a nós recebe espaço em nosso pensamento c na ótica correspondente. A espinha que temos no nariz está mais próxima e, portanto, é mais importante que a epidemia de cólera na América Latina.
Existe, por outro lado, o efeito aparentemente contraditório da projeção, que está ligado ao olho de maneira igualmente substancial. Enquanto intencionalmente não vejamos a viga no próprio olho, reconhecemos nitidamente o cisco no olho dos outros. Nós nos comprometemos a ver tudo do lado de fora, embora o olho nos prove o contrário o tempo todo. Todas as imagens sempre se formam somente sobre a retina, que inequivocamente está dentro. As imagens que se formam a posteriori deixam isso muito claro: quando se olha para a claridade do Sol e em seguida se fecha os olhos, o que se vê com os olhos fechados é uma mancha escura, um negativo do Sol que certamente não existe do lado de fora.
Todas as noites os sonhos nos mostram que a retina não é nem mesmo necessária para ver. Todas as imagens, aquelas que nós aparentemente obtemos de fora para dentro e sobretudo as imagens oníricas propriamente ditas são na realidade imagens internas. Não existe nenhuma outra e, por princípio, não pode haver nenhuma outra. Apesar disso, consideramos nossos olhos como sendo aparelhos fotográficos, e deduzimos que aquilo que é fotografado do lado de fora está realmente lá fora. Nós mostramos no primeiro volume como essa suposição tão óbvia para nós é problemática. Na realidade, nós vemos tudo internamente e o explicamos como sendo o mundo exterior. Este, entretanto, é o mecanismo da projeção, com cuja ajuda empurramos para fora tudo aquilo que não podemos suportar em nós (2).
O olho, portanto, fornece a base tanto para a racionalização como para a projeção, favorecendo nossas valorações e promovendo a escolha e, com ela, a limitação do mundo. Como ele faz tudo isso a serviço do pensamento e sua visão de mundo linear, racional e avaliadora, a consciência se vinga com um artifício ousado: ela sugere que todas as percepções de nossos olhos são objetivas, ou seja, que aquilo que nós imaginamos lá fora corresponde à realidade.
Nossa visão de mundo e o predomínio do intelecto estão baseados nesse truque. Em última instância, isso se deve aos olhos e seus esforços de endireitar artificialmente o mundo redondo.Sua própria forma redonda mostra quanta negação de si mesmo é necessária para isso. Hojenós sabemos que na realidade nada neste mundo ocorre linearmente. Aquilo que em pequena escala parece ser uma reta é na realidade uma curva, como pode ser comprovado a qualquer momento pela curvatura da Terra. Até mesmo os raios de luz não vêm do Sol em linha reta, e sim em grandes espirais. Nesse entretempo ficamos sabendo também que nossos olhos podem perceber somente uma parte ínfima do espectro de ondas eletromagnéticas e, portanto, de nossa "realidade". Nessa situação problemática, que ameaçava seu domínio ilimitado, o olho e o intelecto se associaram ainda mais estreitamente e o intelecto aparelhou o olho como não o fez com nenhum outro sentido. Com recursos técnicos, ele ajudou a ampliar as limitadas capacidades do olho, com microscópios para o mundo do muito pequeno e com lunetas e telescópios para o amplo espaço do infinito. Todos os truques e meios possíveis sugerem que nossa visão não vai tão mal como os novamente sinceros olhos individuais mostram. Os óculos deixam muito claro que a maioria dos intelectuais somente pode ver o mundo através de seus próprios óculos. A função das lentes de contato é impedir que a vertigem se torne evidente. O fato de que mais da metade da população das chamadas nações desenvolvidas mal pode enxergar sem a ajuda de meios artificiais poderia dar o que pensar. Nem mesmo os experimentos com lentes fixas permanentes podem modificar isso.
A todas essas experiências dolorosamente sinceras soma-se a física moderna que, com o princípio da incerteza de Heisenberg prova que nós, fundamentalmente, não estamos jamais em condições de perceber objetivamente porque o observador subjetivo sempre participa do processo de percepção. Devemos reconhecer o quanto nossa visão é relativa e quão facilmente ela pode ser induzida ao engano. A percepção é o modelo de toda medição científica mas, assim como esta, está sempre baseada em comparações e é, portanto, relativa. A figura abaixo ilustra o dilema:


Os dois círculos internos têm o mesmo tamanho mas, cercado por círculos menores, o da esquerda parece maior, enquanto seu irmão gêmeo da direita, cercado por círculos maiores, dá a impressão de ser pequeno. Aquilo que impressiona como uma ilusão de ótica corresponde à experiência cotidiana, a ponto de se procurar o ambiente mais quadriculado possível para que o efeito seja especial-mente grandioso.
Mas nossa visão não é somente relativa, ela é também enganosa. A cada filme que assistimos, vivenciamos como imagens fixas nos dão a ilusão de movimento, como nos filmes antigos as rodas das diligências repentinamente giram para trás, etc.
A imagem abaixo ilustra aquele que é talvez o aspecto mais problemático de nossa visão, a escolha e a avaliação:

Naturalmente, a velha e a jovem estão sempre e ao mesmo tempo lá. Entretanto, através da escolha podemos perceber apenas uma delas em um primeiro momento, aquela com a qual temos mais afinidade. Até mesmo quando, finalmente, descobrimos as duas, é impossível vê-las ao mesmo tempo, embora saibamos que elas estão lá simultaneamente. Aquilo que pode parecer divertido em um quebra-cabeça visual adquire uma qualidade muito diferente quando nos damos conta como, ao longo de toda a nossa vida, percebemos através de um desses retículos que deixam passar apenas determinadas coisas que são agradáveis para nós, tapando o resto. Nós não dirigimos nosso olhar ao mundo a nosso bel-prazer; vemos algumas coisas nele, e deixamos de ver outras. Na expressão de Schopenhauer "O mundo como vontade e representação”, essa experiência é posta em uso da mesma maneira que na opinião de Herman Weidelener, para quem olhar é também semear. Dessa maneira, abrem-se as portas para a especulação (do latim speculare = espiar), também ligada à visão, e a visão torna-se ainda mais suspeita. Uma aula de visão nos é dada pela política, onde representantes de uma malha social podem reunir-se com os adeptos de um partido conservador ou liberal somente para separar-se sem que se chegue a nenhum resultado. Tanto opticamente como em pensamento, somente podemos concentrar-nos em um único ponto de vista em um determinado momento. Quando nos inclinamos a fazer desse ponto de vista o único a ser defendido, os problemas conhecidos estão sendo pré-programados.

Os olhos nos mostram como estamos presos à polaridade. Eles transformam a simultaneidade em uma seqüência de eventos e garantem a linearidade. Eles transformam a unidade em dualidade e, dessa maneira, desempenham um papel central na desesperada situação em que nos encontramos. O conhecimento da unidade por meio dos dois olhos físicos é, por princípio, impossível.
Sendo assim, não é de admirar, e sim típico, que tenhamos problemas nos olhos com tanta freqüência. O fato de que nós, de maneira generalizada, tenhamos a tendência de forçar demais a vista resulta das exigências de nosso mundo primariamente óptico. Pois os problemas somente surgem quando não queremos perceber conscientemente as coisas percebidas. Não olhar para isso, não querer percebê-lo, é somatizado nas formas e sintomas mais diversos. O fato de as culturas chamadas de “primitivas", menos unilateral e visualmente orientadas, superarem a juventude sem miopia e a velhice sem presbiopia, mostra como apesar de sua freqüência, esses fenômenos têm a ver especificamente conosco.
(Rüdger Dahlke - "A doença como linguagem da alma") 

(1) Também, pode-se ver os olhos como símbolos da totalidade. A forma circular fala em favor disso, bem como a relação com a luz, que é um símbolo da perfeição. Mas como a luz se contrapõe à sombra no mundo polar, o olho tende mais para o masculino. Fundamentalmente o olho, assim como a luz, conserva seu caráter de integridade, ainda que em nossa cultura ele seja utilizado sobretudo sob o aspecto masculino. Ele é também espelho da alma e pode não somente brilhar mas também resplandecer, não só ver com agudeza mas também olhar. Para nós, entretanto, a visão tornou-se o sentido dominante sobretudo devido à sua óptica calculista.

 

(2) Nota pessoal: “não vemos o que vemos, vemos o que somos” (Fernando Pessoa)

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publicado às 14:34



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