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Os cabelos

por Thynus, em 14.02.13
Ó cabelo, cabelo meu, se não fosses meu, não seria tão...eu!  
Vistos anatomicamente, os cabelos localizam-se na parte mais alta do corpo e cobrem o lado sombrio ou noturno de nosso globo terrestre pessoal. Nossa força e nosso brilho refletem-se em sua força e em seu brilho. Quando estamos em forma e saudáveis, eles também o estão. Sua linguagem simbólica revela muitos temas cabeludos. Eles fizeram história como símbolo da liberdade. A época hippie, com suas lendas surgidas em torno da Era de Aquário e do musical "Hair", demonstra plasticamente a relação entre o orgulho capilar e a reivindicação de liberdade. O pólo oposto dos hippies da Era de Aquário constituído pelos soldados de todas as épocas e de todos os países. Por mais antagônicas que as ideologias possam ser, elas lutam, e ao fazê-lo sempre sacrificam algo [Haar = cabelo / Haare lassen müssen = sacrificar algo contra a vontade] – tanto literalmente como em sentido figurado. Todos os exércitos regulares são unânimes em rapar o cabelo de seus recrutas. Pois assim, juntamente com seus cabelos, corta-se simbolicamente também sua liberdade. Encontra-se o mesmo fenômeno nos monges zen, embora renunciem aos cabelos e à liberdade externa que eles simbolizam por livre e espontânea vontade e conscientemente. Seu objetivo é aquela liberdade interna mais profunda no âmbito espiritual, para cuja realização as liberdades externas seriam somente um estorvo. Mas observando com distanciamento, os monges zen devem renunciar à própria vontade de maneira tão estrita como os soldados. A obediência vem em primeiro lugar, e para isso os próprios cachos [Locken] e as seduções [Lockungen] do mundo, simbolicamente, atrapalhariam. Para os guerreiros da liberdade, indivíduos responsáveis por si mesmos que lutam por seu país e por sua independência, os cabelos não atrapalham de forma alguma. Eles buscam expressamente a liberdade externa, ou seja, política. Aos servos, ao contrário, estava vedado o uso de uma orgulhosa cabeleira. Eles eram "rapados", tal como o demonstra até hoje a expressão bávara correspondente. Ela explícita ainda a depreciação que as pessoas "sem" cabelos tinham de suportar na época, e que muitos "carecas" sofrem até hoje.
Os cabelos são um dos campos de batalha favoritos para as lutas simbólicas pela liberdade. Na China, erigiu-se toda uma ordem social, literalmente, com as tranças. Ainda hoje nós cortamos simbolicamente as velhas tranças. Em sua ordenação estrita, a existência da trança depende de que cada mecha tenha e mantenha exatamente o seu lugar. O próprio ato de fazer a trança já é um ato de disciplina. Caso se comece todos os dias com essa autodisciplina simbólica, a vida adquire uma moldura ordenada, mas também dolorosamente controlada. Nenhum fio de cabelo pode seguir seu próprio caminho, cada mecha está firmemente sob controle. Nesse sentido, cortar as tranças é até hoje para muitas meninas um ato de libertação e de emancipação. Em épocas mais antigas, os cabelos longos não eram tanto um símbolo de liberdade para as mulheres, pois eram uma obviedade. Por esta razão, quebrar essa regra era um ato de emancipação, e com isso a mulher queria de fato libertar-se do típico papel feminino, que se por um lado a livrava das preocupações com a subsistência, por outro livrava-a também de qualquer responsabilidade social.
O selvagem crescimento dos cabelos da geração de Aquário pode ter sido somente um breve relâmpago se o comparamos com a tormenta que se desencadeou quando as primeiras mulheres abandonaram suas longas e ordenadas cabeleiras para, com penteados pagem e à Ia garçon, assumir as liberdades do mundo dos homens. Em ambos os casos, tratava-se de impor a própria cabeça e não mais dançar de acordo com a música dos outros. Por trás do lema: “O cabelo é meu” está, de maneira ainda mais decidida: "Eu tenho minha própria cabeça e posso determinar de maneira independente o que cresce sobre ela e o que acontece dentro dela!”.
Os penteados refletem posturas intelectuais. Assim, os artistas freqüentemente tendem a usar penteados extravagantes enquanto as pessoas que estão comprometidas com as normas da sociedade tendem a usar penteados uniformes, normais e pouco fantasiosos. Os “coques", que podem ser encontrados raramente no campo, são um caso ainda mais extremo que o das tranças. Tudo está dado de antemão na forma rígida, nem um único fio de cabelo pode levantarse, não há lugar nem para a liberdade nem para a criatividade, seja na cabeça ou na vida. No pólo oposto, os penteados dos punks são um sinal dado conscientemente de que eles assumem todas as liberdades e não querem ter mais nada a ver com a disciplina e a ordem simbolizadas pelos penteados usuais.
Sendo assim, a pele da cabeça é um bom palco para a constatação do papel que se está desempenhando nesta vida. Entretanto, hoje é preciso pensar ainda na possibilidade da compensação. Na época de Luís XV, um operário não tinha a possibilidade de melhorar exteriormente sua posição social usando uma peruca de cachos empoados. Hoje em dia, ao contrário, qualquer um pode encenar o sonho de sua vida sobre a cabeça sem que isso corresponda necessariamente à sua vida concreta. Quem agüenta uma vida de rato cinzento em um escritório cinzento pode, com uma louca cabeleira de cachos vermelhos, indicar que outros temas muito diferentes esperam ser descobertos. Mesmo que isso ainda seja um sonho distante, os sinais correspondentes já foram dados. A selvageria dos cachos pode ser então compensação para uma vida monótona, claro que podendo estar anunciando também as correspondentes reivindicações em relação ao futuro. O sonho não vivido torna-se especialmente chamativo e sintomático quando tanto a cor como a forma são produzidas artificialmente. Neste caso, quer-se realmente conquistar novas terras. Caso a pompa seja, ao contrário, autêntica, é provável que se esteja indicando âmbitos que vêm naturalmente à pessoa e que, neste caso, também se irão com a mesma facilidade.
Um outro nível de significado dos cabelos gira ao redor do tema poder. Pode-se pensar aqui na história bíblica de Sansão, que ao perder seus formidáveis cabelos perdeu também a Energia e o poder correspondentes, ou nos reis francos da Idade Média. Seu poder ilimitado e sua invulnerabilidade dependia, não por acaso, de longos cabelos que jamais tivessem sido tocados por uma faca. Pessoas das mais variadas culturas tendem a entretecer porções suplementares de cabelo para realçar sua aparência. Para as culturas que pensam simbolicamente, não é necessário nem mesmo que se tratem de cabelos verdadeiros, tais como nossas perucas e apliques, as pessoas também gostam de adornar-se com materiais e plumas alheias. Os cocares dos índios seguem o exemplo da plumagem dos pássaros. A cabeça de um chefe emoldurada por um formidável coca expressa força, poder e dignidade, bem como proximidade do céu.
Na batalha, os guerreiros celtas confiavam in seus penteados de guerra, nos quais os cabelos assumiam formas altíssimas e impressionantes. Como se fosse uma espécie de fixador primitivo, eles usavam lama. Com os cabelos assim transformados em montanhas, eles mostravam aos inimigos que além de ter cabelos na cabeça, não tinham pêlos na língua. Como a demonstração de poder está sempre ligada ao medo, fica claro neste caso que com tal espetáculo os cabelos dos inimigos também ficassem em pé. Os pássaros arrepiam as plumas e os animais eriçam os pêlos quando demonstram poder e quando têm boas razões para sentir medo. Em situações correspondentemente difíceis os seres humanos arrancam os próprios cabelos, o que por um lado expressa desespero por outro confere uma aparência mais impressionante. Quando não se toca “nem em fio de cabelo" de uma pessoa, deixa-se intactos seu poder e sua dignidade. Quando, ao contrário, duas pessoas se agarram pelos cabelos, o objetivo de cada um humilhar e superar o outro. O oponente deve ser depenado, e para isso tira-se pêlo da cara dele. Isso pode levar à discussão por causa de minúcias [Haarspalterei /Haar = cabelo / Spalt = fenda] e, além disso, faz com que em todo caso se encontre um cabelo na sopa [Ein Haar in der Suppe finden = deparar-se com algo desagradável].
O pólo oposto do poder mostra-se na perda de cabelo. As reclusas e as mulheres que tinham dormido com soldados inimigos tinham suas cabeças rapadas, o que lhes retirava tanto a liberdade como seu poder e energia femininos, para marcá-las e puni-las. Antigamente, o mesmo tratamento era dispensado às “bruxas", já que seus cabelos preferencialmente ruivos eram um sinal do poder feminino com o qual elas faziam com que "homens inocentes" perdessem a cabeça.
Uma variante mais suave dessa violação é o “puxar os cabelos", comum até os dias de hoje. Além do aspecto de punição, com isso indica-se também dolorosamente a mais absoluta impotência. Quando o professor ergue o aluno de seu assento puxando-o por seu símbolo de poder, dignidade e liberdade, ele demonstra com isso o próprio poder e a impotência de sua vítima. Quando algo é "puxado pelos cabelos"' [etwas an den Haaren herbeiziehen / puxar algo pelos cabelos = distorcer a verdade de acordo com a própria conveniência] a verdade é violada e torcida até ficar do jeito que se quer.
Os penteados altos de soberanas no estilo de Nefertiti unem o tema do poder com o tema da dignidade. Um penteado alto e senhoril frisa ainda mais o berço nobre. De maneira correspondente, e em consonância com suas portadoras, os penteados até hoje tendem a alcançar alturas cada vez mais elevadas. Quem erige seus cabelos em uma forma impressionante, sacrificando para isso tempo e dinheiro, pensa alto e espera que tanto seu ornamento como seu investimento valham a pena. Assim, o alto nascimento e as altas ambições estão próximos, e não é raro que penteados altos representem objetivos correspondentes. O aumento da consciência de si mesmo também desempenha um papel no contexto do poder e da dignidade, o que é percebido por qualquer adolescente que cuidadosamente lava ou penteia seu topete antes da festa para aparecer um pouquinho mais.
Sendo um apêndice da pele, os cabelos também colocam em jogo qualidades venusianas, talvez quando eles, tingidos com a própria cor de Vênus, transformam a cabeça em um farol ou exibem uma selvagem juba de leão sedutoramente macia. Os cachos [Locken] têm algo de encantador [lockend], atraindo [locken = atrair] outros participantes de maneira relaxada [locker =frouxo, fofo, relaxado). Os cabelos cacheados [Lockenkopf / kopf = cabeça] representam a independência no sentido mais verdadeiro da palavra já que cada cacho, contra qualquer ordem estabelecida, segue seu próprio caminho criativo. Jubas não podem nem precisam ser penteadas, agitá-las é suficiente. Caso alguém ouse tentar domar um tal gato predador e selvagem, os longos cabelos cacheados podem revelar-se também meigos e insinuantes. Seu brilho sedoso expressa sua vitalidade.
Entretanto, uma bela e cheia cabeleira pode também apontar na direção contrária quando os cabelos, divididos ao meio com modéstia de Madona, caem lisos sobre os ombros. A energia e a dignidade também estão evidenciadas aqui, mas o caminho ordenado que elas seguem e a divisão equilibrada do caudal faz com que sejam consideradas do ponto de vista da harmonia. E para impressionar com esse cabelo, é necessário em todo caso um enorme volume, já que os cachos, por sua própria natureza, ocupam mais espaço. No pólo oposto, a renúncia voluntária ao adorno dos cabelos deixa claro como a pessoa faz pouco da impressão que exerce sobre o sexo oposto. Ela deveria ser indiferente para os monges, e outras coisas estão programadas para os soldados, mesmo que se trate de um oficial. Durante o serviço militar eles servem a sua pátria, e para isso o ego precisa ser obliterado e a liberdade pessoal e o efeito que se exerce devem passar para o segundo plano.
A problemática do encanecimento dos cabelos será tratada no final, juntamente com OS sintomas da velhice. Somente os próprios afetados podem decidir se o cinzento externo reflete o cinza interno ou se a brancura dos cabelos reflete sabedoria ou apenas a simula. O que é decisivo é saber se eles sofrem sob o efeito dessa coloração. O sofrimento sempre nos diz que algo saiu da consciência e foi empurrado para o corpo para então tornar-se incômodo lá. Quanto aos cabelos tingidos artificialmente, estamos mais próximos do plano da compensação. Os punks, de maneira muito evidente, levam para seus penteados as cores de que sentem falta na vida. Quem acrescenta um pai de mechas a seus cabelos de cor uniforme quer evidentemente um pouco de variação na monótona uniformidade de suas cabeças. Isso pode se dar como compensação, mas também de maneira programática, sendo então acompanhado das tentativas correspondentes de também expressar essa variação em outros planos.
No jogo das cores, o que menos se pede é a média. Cabelos escuros são tingidos de preferência de negro azeviche, enquanto para o castanho-claro prefere-se o mais luminoso louro. O anjo louro-ouropel e a misteriosa noite escura são compadres. A tendência aos extremos externos não raro contrastam com uma disposição morna no interior. A frase de Cristo: “Seja quente ou frio, o morno eu cuspirei" refere-se bastante univocamente à alma, mas é mais simples e cômodo aplicá-la externamente.
Finalmente os cabelos, como apêndice da pele, funcionam também como antenas a serviço da percepção externa e da vigilância. Nesse caso, pensamos nos bigodes dos gatos e nos pêlos mais finos do corpo humano. Uma pessoa sem pêlos, portanto, não tem antenas voltadas para fora. Entre os soldados, o isolamento simbólico do mundo exterior é desejável expressando-se também no internamento da caserna. Já entre os monges zen, o retraimento das antenas externas por meio do recolhimento na solidão do mosteiro tem um significado ainda mais profundo.
Pêlos no peito e nas pernas, por fim, permitem entrever um simbolismo humano-animalesco, evocando o passado da história da evolução, cheio de energia exuberante e selvageria animal. Os pêlos de barba nas faces e no queixo, por sua vez, são considerados adornos classicamente masculinos. Um cavanhaque pode acentuar o aspecto da força de vontade e da capacidade de se impor, enquanto uma barba cheia pode também naturalmente ocultá-las, ou seja, deixá-las no escuro. Enquanto os homens que lembram nosso peludo passado primordial gostam de se vangloriar, os acessórios correspondentes são insuportáveis para as mulheres. Pêlos de barba e cabelos no peito arruínam a aura feminina e são arrancados um a um. A honesta natureza, entretanto, é teimosa, e as excrescências masculinas sempre voltam a crescer. As expressões plenas de significado correspondentes equivalem à capacidade de resistência do organismo.

(Rüdger Dahlke - "A doença como linguagem da alma") 

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publicado às 20:59



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