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O rosto

por Thynus, em 14.02.13
 

O rosto é não apenas a parte de nosso corpo com a qual vemos o mundo, ele é sobretudo a parte de nós que antes de todo o resto vê o mundo pela primeira vez. Imagem e aparência também fazem parte do jogo. Qualquer tomada de contato começa com o sentido da visão, com nossos olhos. Eles são hoje nossos órgãos sensoriais mais importantes. Os termos de avaliação ficam claros quando, para algo caríssimo, dizemos que custa "os olhos da cara". Nos primórdios da humanidade, um bom nariz era ainda mais importante; de forma correspondente, a parte do cérebro responsável pelo olfato é maior e mais antiga. Um ouvido apurado também era importante para a sobrevivência, já que o homem era ameaçado por perigos naturais. Até mesmo o paladar, que no entretempo tornou-se praticamente um sentido de luxo, podia decidir entre a vida e a morte quando era preciso separar os alimentos estragados dos comestíveis. A vista é o que mais chama nossa atenção. Nós avaliamos o mundo a olho. Apesar disso, a perda da audição é ainda mais grave para o bem-estar anímico que a perda da visão, o que demonstra que nas profundezas da alma predominam outros valores.
Não somente os sentidos mais importantes estão localizados no rosto, nossa sensualidade também se espelha nele, assim como nele expressam-se nossos estados de ânimo. É, portanto,compreensível que prestemos a ele nossa máxima atenção. Nós tentamos preservar o rosto praticamente a qualquer preço, e temos medo de perdê-lo. Embora, em nosso âmbito cultural, seja a única parte do corpo que revelamos descoberta ao mundo, aquele rosto que mostramos só raramente é nosso verdadeiro rosto. No curso da vida adquirimos um sem-número de máscaras para não termos de abandonar nossa posição na vida. Uma das máscaras mais difundidas goza de grande apreço entre nós, apesar do nome norte-americano: é o keep-smiling. Aconteça o que acontecer, se sorri. "Fazer boa cara a um mau jogo", diz a voz popular dessa representação desonesta, da amabilidade e covardia de um casamento aparentemente feliz mas que é totalmente insatisfatório para a vida intima. E assim sorrimos atormentados o dia todo, mesmo que não tenhamos nenhuma razão para sorrir. Essa discrepância entre nosso verdadeiro rosto e o rosto que mostramos é responsável por inúmeras tensões musculares. No que a isso se refere, os asiáticos levam outra vantagem sobre nós. Somente um especialista pode dizer o que realmente se esconde por trás da radiante fachada de seus rostos permanentemente sorridentes. O reverso da fachada sorridente é a máscara circunspecta de quem arca com grandes responsabilidades que os políticos gostam tanto de usar.
Muitas pessoas utilizam suas diferentes máscaras com grande facilidade, passando de um sorriso charmoso a um compassivo, de um olhar significativo a uma eloqüente seriedade de acordo com a necessidade. Outros trocam a máscara inteira e, de acordo com a ocasião, mostram um rosto feliz ou, se for necessário, triste. Pode-se guiar até mesmo pelo calendário e voltar a mostrar a cara de segunda-feira de manhã após ter usado a do feriado de domingo. Com a pergunta "por que você está com essa cara hoje?” somos lembrados, em certas circunstâncias, que com tanta sinceridade se foi longe demais. Um sacerdote me disse que tinha um rosto de batizado, um rosto de casamento e um rosto de enterro. Essas máscaras profissionais estão pelo menos tão difundidas quanto os uniformes profissionais. O sorriso faz parte do uniforme de aeromoças e garçons, enquanto para juizes e coveiros essa máscara teria pouca utilidade. Os atores, por outro lado,jogam o jogo, em si desonesto, de maneira honesta, quando entram "na máscara" antes da cena e se caracterizam para subir ao palco. O rosto mostra o quanto atuamos e como encobrimos nossa verdadeira expressão. Há, portanto, muitas razões para não mostrar nosso rosto verdadeiro.
Em uma sociedade que menospreza a idade, muitas pessoas sentem-se incomodadas quando o rosto começa a espelhar os traços da vida. O ideal seria operar as marcas deixadas pelo tempo, e alguns cirurgiões plásticos levam uma boa vida baseada nesse medo da idade. A possibilidade de embelezar a realidade cirurgicamente pode ser nova, mas a idéia é antiqüíssima. Com métodos parcialmente se marciais, já na cinzenta pré-história se tentavam correções da testa, do nariz e até mesmo da cabeça.
E em nenhuma outra parte se disfarça tanto como no rosto, pois em nenhuma outra parte há tanto para encobrir. Quando se ousa levantar a máscara, para raspar o verniz e ver o que há sob a tinta, a sinceridade é posta a descoberto. Há toda uma indústria vivendo disso, fingindo o que não é com cosméticos, bronzeamento artificial, etc., e ocultando o que é.
Apesar de tudo isso, os retoques não devem sei descartados radicalmente (como desonestos). Depende da intenção. Quando uma pessoa assume a posição do lótus, as realidades interna e externa, de maneira geral, não coincidem inteiramente. A perfeita forma externa encobre algo que (ainda) não existe internamente. Apesar disso, faz sentido praticar esses antiqüíssimos exercícios, na esperança de que com o tempo o interior se iguale ao exterior. Vistas dessa maneira, algumas tentativas cosméticas conscientes também adquirem significado.
O estudo das fisionomias deriva imagens do caráter a partir das indicações da forma do rosto. Parte desse conhecimento surge novamente na sabedoria e expressões populares, fazendo parte do acervo de experiências do conhecimento humano subjacente, quase inconsciente, mas que é utilizado por quase todas as pessoas. Muitas pessoas sabem e todos sentem que lábios grossos refletem uma sensualidade especial, e que um queixo proeminente deixa entrever uma vontade equivalente. A testa estreita mostra menos intelecto que uma fronte alta, olhos pequenos e profundos denotam recolhimento, enquanto os salientes olhos dos que sofrem do mal de Basedow têm algo de indiscretos e, ao mesmo tempo, assustador. A interpretação inconsciente dos padrões do rosto é utilizada amplamente na vida cotidiana. Ela decide se uma pessoa é simpática ou antipática. O estado de ânimo também se manifesta de forma espontânea na expressão do rosto e, novamente, não sabemos como isso acontece.
Com tanta sinceridade em um único lugar e tantas tentativas de embelezá-la, não é de admirar que os sintomas frustrem nítida e algo dolorosamente o ocultamento dos fatos. É também no rosto que o organismo age mais ativamente em relação ao tema da sinceridade. Quando tentamos ocultar com truques o que está escrito em nossa cara, o destino utiliza um buril mais duro para traçar seus riscos na matriz da realidade, neste caso a pele de nossa face.

 

Ruborização
 O destino tem sinais mais suaves à disposição, dos quais se serve antes de recorrer a medidas dolorosas e desfiguradoras. A ruborização,freqüentemente, é um fenômeno que quer trazer um tema à consciência do afetado e que este bloqueia. A situação tem algo de teatral. Na maioria das vezes, trata-se de um tema malicioso que, envolvido em uma piada, por exemplo, impregna o ar da sala. Os afetados tentam ignorar o tema e agem, por exemplo, como se não tivessem entendido a piada e de qualquer forma não tivessem nada a ver com isso. Apesar de que eles adorariam que o chão se abrisse sob seus pés para que pudessem tornar-se invisíveis, a sincera pele (do rosto) anuncia, através da ruborização, que eles sim têm algo a ver com isso. A "cara cor de tomate" atrai magicamente a atenção para si. Quanto mais seu proprietário resiste a esse conhecimento e tenta acalmar-se, mais vermelho e mais quente vai se tornando seu rosto. Como um farol, ele anuncia a penosa verdade. O próprio tema é aludido até mesmo pelas "luzes vermelhas" que, no mundo exterior, transmitem a mesma mensagem quando colocadas diante dos estabelecimentos correspondentes. A pele do rosto faz com que seja impossível deixar de ver aquilo que os afetados não querem perceber.
A lição a ser aprendida está clara. A lâmpada vermelha somente se apaga quando a pessoa se dispõe a reconhecer o tema ao qual não prestou a devida atenção e admite sua relação com ele. Aquilo que vivenciamos de maneira normal e natural não pode acender a luz da vergonha em nossa cara. Quando for realmente possível contar uma piada correspondente sem morrer de vergonha, isso significa que o tema foi integrado, e a luz de alarma fica apagada. O mais importante é que o âmbito que antes era desagradável e estava carregado de angústia pode agora ser vivenciado abertamente, com alegria, e ser integrado à vida. Até mesmo um sintoma aparentemente tão pequeno e inofensivo esta em condições de revelar grandes tarefas de aprendizado.

(Rüdger Dahlke - "A doença como linguagem da alma")

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publicado às 20:22



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