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Religare

por Thynus, em 09.02.13

 Em entrevista a um popular programa de TV, Zeca Pagodinho, um prestigiado músico brasileiro disse ao entrevistador que o dinheiro o distanciou da igreja e que ele sentia falta, mas ao mesmo tempo percebia que o que lhe aproximava anteriormente da religião eram as dificuldades do dia a dia.
Com acesso a serviços sociais de qualidade e condições financeiras seguras, as pessoas dos países mais desenvolvidos por passarem menos dificuldades tendem a sofrer menos, logo, recorrem menos às religiões. Em épocas de crise, no entanto, esse quadro tende a se reverter, países como Espanha e Grécia abalados pela crise financeira mundial já apresentam uma alta no número de fiéis. Tal qual sugeriu o cantor brasileiro no programa de TV as dificuldades levam as pessoas a procurar amparo no lado espiritual.
Em geral, as religiões ajudam os fiéis a lidar com a pobreza, oferecem esperança, satisfação emocional e significado, compensações para os sofrimentos e insuficiências desta vida no outro mundo, seja o paraíso ou outra vida na Terra.
É da natureza humana buscar algo que avalize o viver em meio às crises. As religiões há milhares de anos tem se beneficiado dessa busca do ser humano e provavelmente se beneficiarão ainda mais. Num mundo com menos empregos, crises de identidade, de trabalho e de falta de alimentos as crises virão a colaborar com o aumento das pessoas em busca de significados para suas vidas.
A paz de espírito advinda das religiões me parece uma colaboração necessária para atravessarmos as crises que porventura vierem da reconfiguração de um mundo com menos empregos.
No entanto, a adoção de uma religião por si só não garantirá uma transição igualitária, de uma sociedade pautada na dependência do dinheiro para uma sociedade colaborativa.
Tal transição não passa necessariamente por esta ou aquela religião, mas encontra no sentido etimológico da palavra religião uma inspiração como explica o escritor e mestre das graphic novels Alan Moore: “A palavra religião não tem nada a ver com espiritualidade, mas com união, ligação em torno de algo. Nesse sentido, o Marxismo é uma religião. As várias escolas da Física também o são. O problema é que as religiões, no sentido que conhecemos a palavra hoje, criam dogmas, que são limitações ao pensamento – e isso nunca é uma coisa boa.”
Na linha do pensamento de Moore podemos considerar a reunião de um grupo de pessoas em torno de um assunto ou objetivo comum, uma religião. Assim os manifestantes do Occupy Wall Street são uma igreja, a galera do churrascão da gente diferenciada são outra igreja. Ambas compartilham a mesma crença “a do saco cheio de ralar para sobreviver enquanto os mais ricos se tornam cada vez mais ricos”, com a vantagem de não terem dogmas, de buscarem assim como os satisfeitos cidadãos escandinavos apenas a igualdade e a liberdade de expressão. Por isso os fiéis dessas neoigrejas querem mudanças. Os jovens desses movimentos em sintonia com a origem latina da palavra religião – religare – querem religar-se.
O atual modelo da sociedade pautado pelos valores capitalistas e interesses econômicos com uma crise aguda de empregos será posto em cheque. Substituir esse modelo por um mais democrático focado no bem comum ante ao capital, focado no já batido, mas fundamental “ser” ao “ter”, pode ser a religião do século XXI. Devemos nos religar para darmos inicio a uma nova sociedade.

(Gilmar R. Silva - "Sem trabalho, como sobreviver num mundo sem empregos")

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publicado às 08:43



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