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Onde está Deus

por Thynus, em 29.01.13

Num verão, um amigo meu escreveu-me de Paris. Começava assim: "Cá estou no meio desta 'salgalhada' parisiense de livros, intelectuais, 'gays', putas, mulheres emancipadas, pedintes, 'clochards' e clérigos, que humildemente se perguntam em 'placards': "Se Deus existe, por que é que o mundo não é outro, e se não existe, por que é que continua universal e imparável a fome religiosa?"
Afinal, onde está Deus?
Deus está, antes de mais, precisamente nesta própria pergunta. Enquanto houver homens, hão-de confrontar-se com os enigmas do tempo e do amor e da morte, com a pergunta pela origem e pelo sentido último da realidade, e, consequentemente, com a questão de Deus. Suponhamos uma sociedade onde não existisse sequer a palavra Deus. O que é que aconteceria, se a simples palavra "Deus" deixasse de existir? Respondeu o famoso teólogo Karl Rahner: "Então o homem já não ficaria situado perante o todo da realidade enquanto tal, nem perante o todo uno da sua existência enquanto tal. Pois isto é o que faz a palavra “Deus” e só ela (...). Não notaria que já só pensa perguntas, mas não a pergunta pelo perguntar em geral. (...) O homem teria esquecido o todo e o seu fundamento e teria ao mesmo tempo - se é que assim se pode dizer - esquecido que esqueceu. Que seria então? Apenas podemos dizer: deixaria de ser homem. Teria realizado uma evolução regressiva, para voltar a ser um animal hábil. (...) o homem só existe propriamente como homem quando diz “Deus”, pelo menos como pergunta (...). A morte absoluta da palavra “Deus”, uma morte que eliminasse até o seu passado, seria o sinal, já não ouvido por ninguém, de que o homem morreu."
Deus, onde está Deus? Deus está no mundo e na história humana como sua origem viva radical, fundo abissal divino criador e impulsionador, envolvente radical e último, que a tudo dá sentido. Deus está no mundo e na história humana como seu dinamismo mais íntimo e promessa viva de realização plena.
Deus manifesta-se em toda a beleza e em toda a criação. No mais simples gesto de amor, Deus está presente. Deus é o Invisível último que torna visível tudo o que se vê.
Deus está em todo o mal enquanto Antimal, como Companheiro que está presente no nosso sofrimento para o superarmos e nas nossas lutas para a libertação.
Deus está na morte como esperança e o "além" de todos os limites.
E se os crentes andarem enganados? Se precisamente no instante da morte lhes fosse revelado que não há Deus? O filósofo Auguste Valensin respondeu que não se arrependeria de ter acreditado, que tanto pior para o universo se não tem um sentido último, que afinal o mal não está em nós por termos acreditado que Deus existe, mas em Deus por não existir. A mesma resposta deu Simone Weil, a filósofa e mística: não se arrependeria por ter acreditado, pois "Deus é o bem" e, orientando assim a vida, "nenhuma revelação no momento da morte pode provocar desgosto" ou arrependimento.

(Anselmo Borges - "Janela do (In)Visível")

publicado às 22:19


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