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De tudo e de nada, discorrendo com divagações pessoais ou reflexões de autores consagrados. Este deverá ser considerado um ficheiro divagante, sem preconceitos ou falsos pudores, sobre os assuntos mais variados, desmi(s)tificando verdades ou dogmas.
Num verão, um amigo meu escreveu-me de Paris. Começava assim: "Cá estou no meio desta 'salgalhada' parisiense de livros, intelectuais, 'gays', putas, mulheres emancipadas, pedintes, 'clochards' e clérigos, que humildemente se perguntam em 'placards': "Se Deus existe, por que é que o mundo não é outro, e se não existe, por que é que continua universal e imparável a fome religiosa?"
Afinal, onde está Deus?
Deus está, antes de mais, precisamente nesta própria pergunta. Enquanto houver homens, hão-de confrontar-se com os enigmas do tempo e do amor e da morte, com a pergunta pela origem e pelo sentido último da realidade, e, consequentemente, com a questão de Deus. Suponhamos uma sociedade onde não existisse sequer a palavra Deus. O que é que aconteceria, se a simples palavra "Deus" deixasse de existir? Respondeu o famoso teólogo Karl Rahner: "Então o homem já não ficaria situado perante o todo da realidade enquanto tal, nem perante o todo uno da sua existência enquanto tal. Pois isto é o que faz a palavra “Deus” e só ela (...). Não notaria que já só pensa perguntas, mas não a pergunta pelo perguntar em geral. (...) O homem teria esquecido o todo e o seu fundamento e teria ao mesmo tempo - se é que assim se pode dizer - esquecido que esqueceu. Que seria então? Apenas podemos dizer: deixaria de ser homem. Teria realizado uma evolução regressiva, para voltar a ser um animal hábil. (...) o homem só existe propriamente como homem quando diz “Deus”, pelo menos como pergunta (...). A morte absoluta da palavra “Deus”, uma morte que eliminasse até o seu passado, seria o sinal, já não ouvido por ninguém, de que o homem morreu."
Deus, onde está Deus? Deus está no mundo e na história humana como sua origem viva radical, fundo abissal divino criador e impulsionador, envolvente radical e último, que a tudo dá sentido. Deus está no mundo e na história humana como seu dinamismo mais íntimo e promessa viva de realização plena.
Deus manifesta-se em toda a beleza e em toda a criação. No mais simples gesto de amor, Deus está presente. Deus é o Invisível último que torna visível tudo o que se vê.
Deus está em todo o mal enquanto Antimal, como Companheiro que está presente no nosso sofrimento para o superarmos e nas nossas lutas para a libertação.
Deus está na morte como esperança e o "além" de todos os limites.
E se os crentes andarem enganados? Se precisamente no instante da morte lhes fosse revelado que não há Deus? O filósofo Auguste Valensin respondeu que não se arrependeria de ter acreditado, que tanto pior para o universo se não tem um sentido último, que afinal o mal não está em nós por termos acreditado que Deus existe, mas em Deus por não existir. A mesma resposta deu Simone Weil, a filósofa e mística: não se arrependeria por ter acreditado, pois "Deus é o bem" e, orientando assim a vida, "nenhuma revelação no momento da morte pode provocar desgosto" ou arrependimento.
(Anselmo Borges - "Janela do (In)Visível")