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Do mesmo modo como nosso corpo é coberto por roupas, nosso espírito é coberto
por mentiras. Nosso discurso, nossa ação, todo o nosso ser é mentiroso: e somente olhando através desse invólucro é possível, vez por outra, descobrir nossos sentimentos, assim como através das roupas se descobre a forma do corpo.
 (Arthur Schopenhauer - A Arte de Insultar)
 
 

 

Com as novas liberdades do fim da década de 90 e na entrada do terceiro milênio, se tornou menos necessário mentir para escapar às admoestações da moral e os freios da religião, ao tomar outras formas, muitas vezes fugindo do domínio dos preconceitos, exprimindo livremente todo o pensamento com a evolução da sociedade civilizada, multiplicando amplamente as relações, as exigências e as convenções sociais.

Não se sabe, entretanto, se foi a saturação da mentira que levou a sociedade a ela, se o perigo que corria pelo fato de que a ciência só chega quando há uma premência pelo medo do inevitável, ou de que fosse um meio e instrumento de interesse que favorecesse quase que exclusivamente o lucro na economia e fizesse com que a cultura ficasse atrás, em paralelo com a sociedade inculta com sua mente primitiva, e que sobrevivesse por intermédio de seus instintos, em uma censura indevida à civilização.
No entanto, como meio fácil e ao alcance de todas as inteligências, a mentira tornou-se a arma mais comum para sustentar a concorrência no campo da indústria, da arte, da política, das profissões liberais e de outras humildes ocupações. O indústrial que gaba os seus produtos, o artista que celebra os seus triunfos, o deputado que procura agradar aos eleitores, o demagogo que catequiza as massas e as inebria com a essência de ideais ditos por ele, mas que é ele o primeiro a não acreditar, não fazem, habitualmente, nada que não seja mentir o tempo todo. O advogado para livrar alguém da cadeia, o médico que subtrai-se ao dever imposto pelo sentimento para poupar uma dor ou a uma doença rebelde, para acalmar uma ansiedade incomoda, para afastar uma apreensão angustiosa; o jornalista para alarmar uma população; o policial para enfrentar uma situação de pânico, na realização da sua atividade, são todos, muitas vezes, forçados a mentir.
Não raro mente o sacerdote que deve pregar a verdade; mente o cientista, austero investigador da verdade científica; mente o pai para a mãe e os filhos; o filho para com o pais, pois que estes sempre fazem questão do respeito de seus filhos, mesmo que falso, usando de todos os meios: chicote, castigos, reprimendas, etc. Com freqüência o amigo recorre à desculpa hipócrita para obter a tolerância ou o perdão do companheiro. Mentem os amantes que não se amam e que são motivos para tantos casos relatados nos jornais.
Atores consumados na arte da simulação, limitam-se a recitar a vil comédia da paixão. As cenas de lágrimas, que despedaçam e agitam a pequena burguesia, não passam de um imenso viveiro de falsidades e de ficções.

(Albertino Aor da Cunha - "A mentira nua e crua")

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publicado às 14:38



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