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De tudo e de nada, discorrendo com divagações pessoais ou reflexões de autores consagrados. Este deverá ser considerado um ficheiro divagante, sem preconceitos ou falsos pudores, sobre os assuntos mais variados, desmi(s)tificando verdades ou dogmas.
Com as novas liberdades do fim da década de 90 e na entrada do terceiro milênio, se tornou menos necessário mentir para escapar às admoestações da moral e os freios da religião, ao tomar outras formas, muitas vezes fugindo do domínio dos preconceitos, exprimindo livremente todo o pensamento com a evolução da sociedade civilizada, multiplicando amplamente as relações, as exigências e as convenções sociais.
Não se sabe, entretanto, se foi a saturação da mentira que levou a sociedade a ela, se o perigo que corria pelo fato de que a ciência só chega quando há uma premência pelo medo do inevitável, ou de que fosse um meio e instrumento de interesse que favorecesse quase que exclusivamente o lucro na economia e fizesse com que a cultura ficasse atrás, em paralelo com a sociedade inculta com sua mente primitiva, e que sobrevivesse por intermédio de seus instintos, em uma censura indevida à civilização.
No entanto, como meio fácil e ao alcance de todas as inteligências, a mentira tornou-se a arma mais comum para sustentar a concorrência no campo da indústria, da arte, da política, das profissões liberais e de outras humildes ocupações. O indústrial que gaba os seus produtos, o artista que celebra os seus triunfos, o deputado que procura agradar aos eleitores, o demagogo que catequiza as massas e as inebria com a essência de ideais ditos por ele, mas que é ele o primeiro a não acreditar, não fazem, habitualmente, nada que não seja mentir o tempo todo. O advogado para livrar alguém da cadeia, o médico que subtrai-se ao dever imposto pelo sentimento para poupar uma dor ou a uma doença rebelde, para acalmar uma ansiedade incomoda, para afastar uma apreensão angustiosa; o jornalista para alarmar uma população; o policial para enfrentar uma situação de pânico, na realização da sua atividade, são todos, muitas vezes, forçados a mentir.
Não raro mente o sacerdote que deve pregar a verdade; mente o cientista, austero investigador da verdade científica; mente o pai para a mãe e os filhos; o filho para com o pais, pois que estes sempre fazem questão do respeito de seus filhos, mesmo que falso, usando de todos os meios: chicote, castigos, reprimendas, etc. Com freqüência o amigo recorre à desculpa hipócrita para obter a tolerância ou o perdão do companheiro. Mentem os amantes que não se amam e que são motivos para tantos casos relatados nos jornais.
Atores consumados na arte da simulação, limitam-se a recitar a vil comédia da paixão. As cenas de lágrimas, que despedaçam e agitam a pequena burguesia, não passam de um imenso viveiro de falsidades e de ficções.
(Albertino Aor da Cunha - "A mentira nua e crua")