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De tudo e de nada, discorrendo com divagações pessoais ou reflexões de autores consagrados. Este deverá ser considerado um ficheiro divagante, sem preconceitos ou falsos pudores, sobre os assuntos mais variados, desmi(s)tificando verdades ou dogmas.
As mudanças mais radicais no comportamento psicológico deram-se em grupos cuja constituição biológica não se modificou de maneira apreciável. Isto pode ser profusamente exemplificado no nosso próprio fundo cultural. A civiliação europeia esteve tão sujeita a .um comportamento místico, a epidemias de fenómenos psíquicos, na Idade Média, como o esteve no século XIX, ao mais seco materialismo. A cultura mudou de preconceitos sem ter correspondentemente mudado de constituição racial do grupo.
Mas as interpretações do comportamento em termos de cultura não têm necessidade de negar que também nele entra em jogo um elemento fisiológico. Negá-lo resulta de uma defeituosa interpretação das explicações em termos de ciência. A biologia não nega a química, ainda que esta seja insuficiente para explicar os fenómenos biológicos. Mas a biologia também não é obrigada a trabalhar segundo fórmulas químicas só porque reconhece que as leis da química estão na base dos fenómenos biológicos. Em cada campo da ciência é necessário insistir nas leis e resultados que mais adequadamente explicam as situações que se estudam, e no entanto insistir também em que existem outros elementos, ainda que se possa provar que não têm importância capital no resultado final. Notar, pois, que as .bases biológicas do comportamento cultural na humanidade são na sua maior parte irrelevantes, não é negar que existam. É apenas insistir no facto que,:os factores.históricos, são os que imediatamente actuam.
A Psicologia experimental foi forçada a uma .atitude desse género, .mesmo em estudos relativos .à nossa própria cultura. Experiências importantes recentes, referentes a feiçõesda personalidade, mostram que o que é crucial, mesmo em feições da .honestidade e das actividades orientadoras da chefia, são as determinantes sociais. Ser honesta numa situação experimental, quase não dava qualquer indicação sobre se a criança roubaria ou não, noutra situação. Conclui-se que :não havia pessoas honestas-desonestas, mas sim situações honestas-desonestas. Da mesma maneira, no estudo de chefes, provou-se não haver feições uniformes que pudessem ser apresentadas como padrão, mesmo na nossa sociedade. A função desenvolvia o chefe, e as suas qualidades eram as que a situação punha em destaque. Nestes resultados «situacionais», transparecia cada vez com maior clareza que a conduta social, até numa sociedade escolhida, é «não simplesmente a expressão de um'"mecanismo fixado que predetermina um modo de conduta, específico, mas antes um conjunto de tendências que o problema específico que se nos apresenta faz surgir de maneiras variáveis».
(R. Benedict - "A natureza da sociedade")