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O conceito de julgamento (Urteil em alemão) leva-nos naturalmente a considerar o ordàlio (Gottesurteil — juízo de Deus). A ligação etimológica é perceptível à primeira vista, se assim compararmos as palavras de ambas as línguas. A palavra "ordálio" significa precisamente "juízo divino". Mas não é nada fácil determinar exatamente o que o ordálio significa para o espírito primitivo. A primeira vista, pode parecer que o homem primitivo acreditava que os deuses se manifestavam através do resultado de uma prova ou de um jogo, qual das duas partes tinha razão ou — o que vem a dar no mesmo — em que direção orientaram o destino. É claro que a idéia de um milagre provando qual dos lados tem razão é apenas uma interpretação cristã secundária. Mas a concepção acima referida — a do juízo divino — por sua vez é provavelmente uma interpretação proveniente de uma fase cultural ainda mais antiga. O ponto de partida original do ordálio deve ter sido a competição, o jogo para ver quem ganha. Para o espírito primitivo o fato de ganhar, enquanto tal, é prova da posse da verdade e do direito; o resultado de qualquer competição, seja uma prova de força ou um jogo de sorte, é uma decisão sagrada, concedida pelos deuses. Ainda hoje somos dominados por este hábito mental quando aceitamos como regra que as questões serão decididas por unanimidade, ou quando aceitamos o voto da maioria. Só numa fase mais avançada da experiência religiosa a fórmula será a seguinte: a competição (ou ordálio) é uma revelação da verdade e da justiça porque há uma divindade que dirige a queda dos dados ou o resultado da batalha. Assim, quando Ehrenberg diz que "a justiça secular nasce do ordálio", parece estar invertendo, ou pelo menos exagerando, a seqüência histórica de idéias. Não seria mais verdadeiro dizer que o proferimento da sentença (e, portanto, a própria justiça legal) e o julgamento por ordálio têm ambos suas raízes na decisão agonística, na qual a última palavra é dada pelo resultado de uma competição (seja por sorteio, pelo acaso, ou uma prova de força, resistência etc.)? A luta pela vitória é sagrada em si mesma, mas, uma vez animada por concepções nítidas acerca do bem e do mal, a luta passa a pertencer à esfera do direito; e, vista à luz das concepções positivas do poder divino, passa a pertencer ao domínio da fé. Todavia, o fenômeno fundamental em todos estes casos é o jogo.

(Johan Huizinga - "Homo ludens") 

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publicado às 20:28



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