Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Vieram anos em que tive de descobrir de novo em mim um instinto primitivo, que ficara dissimulado e oculto no mundo luminoso e permitido. Como todos os homens, vislumbrei no frouxo alvorecer do sentimento do sexo a aparição de um inimigo e de um elemento destruidor, de algo proibido, de tentação e de pecado. Aquilo que minha curiosidade buscava, aquilo que inspirava meus sonhos e me infundia prazer e medo ao mesmo tempo, o grande mistério da puberdade, não entrosava com a segura bem-aventurança de minha paz infantil. Procedi como todos. Vivi a dupla vida de criança que já deixou de sê-lo. Minha consciência permanecia adstrita ao círculo familiar e lícito e negava o novo mundo nascente, enquanto que eu vivia em meus sonhos, instintos e desejos subterrâneos, sobre os quais aquela vida consciente construía pontes cada vez mais inseguras, já que o mundo infantil ia desmoronando-se em mim. Como quase todos os pais, também os meus não auxiliaram o despertar dos instintos vitais, assunto sobre o qual nunca se falou em nossa casa. Auxiliaram apenas, com inesgotável atenção, minhas tentativas vãs de negar a realidade e continuar habitando um mundo infantil cada vez mais irreal e fictício. Não sei se os pais podem fazer a esse respeito alguma coisa, e nenhuma reprovação tenho para com os meus. Eu devia encontrar meu caminho por mim mesmo, tarefa que me foi tão difícil quanto à maioria dos jovens que receberam o que se costuma chamar de "uma boa educação".
Todos os homens vivem esses momentos difíceis. Para os de nível médio, este é o ponto da existência em que surge a maior oposição entre o avançar da própria vida e o mundo em derredor, o ponto em que se torna mais duro conquistar o caminho que conduz à frente. São muitos os que unicamente esta vez passam na vida por aquele morrer e renascer que é o nosso destino, somente esta vez, quando tudo o que chegarmos a amar quer abandonar-nos e sentimos de repente em nós a solidão e o frio mortal dos espaços infinitos. E há muitos também que se embaraçam para sempre nesses escolhos e permanecem a vida toda agarrados a um passado sem retorno, ao sonho do paraíso perdido, o pior e o mais assassino de todos os sonhos.

(HERMANN HESSE - "DEMIAN")

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:32



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D