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Enquanto conversa, Madame de T. baliza o terreno, prepara a próxima fase dos acontecimentos, dá a entender a seu parceiro o que ele deve pensar e como deve agir.

Faz tudo isso com finura, com elegância, e indiretamente, como se falasse de outra coisa. Faz com que ele descubra a frieza egoísta da condessa a fim de liberá-lo do dever de fidelidade e de descontraí-lo para a aventura noturna que ela prepara.

Organiza não apenas o futuro imediato como também o mais distante, fazendo o cavalheiro compreender que, sob hipótese alguma, ela quer se tornar concorrente da condessa, de quem ele não deve separar-se.

Dá a ele um curso resumido de educação sentimental, ensina-lhe sua filosofia prática do amor, que é preciso liberar da tirania das regras morais e proteger com a discrição que, de todas as virtudes, é a virtude suprema. E consegue até, com toda a naturalidade, explicar-lhe como ele deverá se comportar no dia seguinte com seu marido.

Vocês se espantam: onde, nesse espaço tão racionalmente organizado, balizado, traçado, calculado, medido, onde há lugar para a espontaneidade, para uma 'loucura', onde está o delírio, onde está a cegueira do desejo, 'o amor louco' que os surrealistas idolatraram, onde o esquecimento de si próprio? Onde estão todas aquelas virtudes da insensatez que formaram nossa ideia do amor? Não, nada disso tem vez aqui. Pois Madame de T. é a rainha da razão. Não da razão impiedosa da marquesa de Merteuil, mas de uma razão doce e terna, de uma razão cuja missão suprema é proteger o amor.

Vejo-a conduzindo o cavalheiro através da noite enluarada. Agora ela para e mostra-lhe os contornos de um telhado que se desenham diante deles na penumbra; ah, que momentos voluptuosos esse pavilhão presenciou, e é pena, diz ela, que não tenha trazido a sua chave. Aproximam-se da porta e (como é curioso! como é inesperado!) o pavilhão está aberto!

Por que ela lhe disse que não havia trazido a chave? Por que não lhe contou logo que não se fecha mais o pavilhão? Tudo está preparado, fabricado, e artificial, tudo é encenado, nada é franco, ou, em outras palavras, tudo é arte; nesse caso: arte de prolongar o suspense, ou melhor: arte de se manter o maior tempo possível em estado de excitação.

 


A pressa é inimiga da perfeição


Não se encontra nenhuma descrição da aparência física de Madame de T. em Denon; uma coisa entretanto me parece certa,: ela não pode ser magra; imagino que tenha 'formas redondas e flexíveis' (é com essas palavras que Laclos caracteriza o corpo feminino mais cobiçado das Ligações perigosas) é que as formas arredondadas do corpo façam nascer o arredondado e a lentidão dos movimentos e dos gestos.

Emana dela uma doce ociosidade. Possui a sabedoria da lentidão e manipula toda a técnica do “retardando”. Dá provas disso no decorrer da segunda etapa da noite, passada no pavilhão: eles entram, beijam-se, caem sobre um canapé, fazem amor. Mas 'tudo isso tinha sido um pouco brusco. Percebemos nosso erro (...) Quando se é muito ardente, se é menos delicado. Corre-se para o gozo confundindo todos os prazeres que o precedem.'

A precipitação que os faz perder a doce lentidão é imediatamente percebida pelos dois como um erro; mas não acredito que Madame de T. se surpreenda com isso, acho pelo contrário que ela sabia ser esse erro inevitável, fatal, que esperava por ele e que por isso premeditou o intermezzo no pavilhão, como um ritardando destinado a frear, a abafar a velocidade previsível e prevista dos acontecimentos a fim de que, chegando a terceira etapa, num novo cenário, sua aventura pudesse desabrochar em toda a sua esplêndida lentidão.

Ela interrompe o amor no pavilhão, sai com o cavalheiro, passeia com ele novamente, senta-se no banco no meio do gramado, retoma a conversa e leva-o em seguida para o castelo, para o quarto secreto próximo ao seu apartamento; foi o marido quem o preparou, outrora, para ser um templo encantado do amor. Na porta, o cavalheiro fica admirado: os espelhos que cobrem todas as paredes multiplicam as imagens dos dois de tal forma que de repente um cortejo infinito de casais beija-se à volta deles. Mas não é aí que fazem amor; como se Madame de T quisesse evitar uma explosão dos sentidos intensa demais e para prolongar ao máximo o tempo de excitação, ela o leva para a peça contígua, uma gruta submersa em obscuridade, cheia de almofadas; é somente ali que eles fazem amor, longa e,: lentamente, até a madrugada.

Ao tornar mais lento o decorrer de sua noite, ao dividi-la em diferentes partes separadas uma da outra, Madame de T. soube transformar o curto espaço de tempo que lhes foi concedido numa pequena arquitetura maravilhosa, como uma forma. Imprimir forma a uma duração é uma exigência da beleza, mas é também uma exigência da memória.

Pois aquilo que não tem forma é inalcançável, imemorável. Conceber seu encontro como uma forma foi algo de particularmente precioso para eles, visto que sua noite não deveria ter amanhã e só poderia se repetir na lembrança.

Há um vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. Imaginemos uma situação das mais comuns: um homem andando na rua. De repente, ele quer se lembrar de alguma coisa mas a lembrança lhe escapa.

Nesse momento, maquinalmente, seus passos ficam mais lentos. Ao contrário, quem está tentando esquecer um incidente penoso que acabou de viver sem querer acelerar o passo, como se quisesse rapidamente se afastar daquilo que, no tempo, ainda está muito próximo de si.

Na matemática existencial, essa experiência toma a forma de duas equações elementares: o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.

 


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publicado às 04:39


Heloísa

por Thynus, em 26.02.18

Longe de gemer arrependida pelas faltas que cometi, penso suspirando naquelas que não posso mais cometer...

 



Abelardo e Heloísa: o Poder da Igreja Passou e o Romance Permanece

 

 


 

Há vidas que transcendem a vida por sua paixão, e sua intensidade merece ficar gravada na memória do fogo. O sofrimento dos legendários amantes do medievo francês, Abelardo e Heloísa, ultrapassou a imaginação que mitificou outros casais pelo poder da magia, do sonho e da morte. Este é um dos casos em que a realidade excede o vigor persuasivo da literatura; sobretudo no caso dela, porque elevou sua rebeldia ao nível da obediência sem jamais incorrer em resignação, porque amou com religiosidade e sem desperdiçar um instante para esperar seus infortúnios ao pé do altar. Insuperável até hoje, Heloísa é o símbolo de uma força espiritual que transforma seu desamparo em perspicácia, e suas orações a Deus em refúgio da palavra a fim de se purificar do desamor. 

 

Conquanto o suplício infligido ao prestigioso filósofo, coube a ela pagar com piedade o preço de uma entrega que começou entre leituras e logo depois explodiu na fogueira do ódio; uma entrega que transgrediu preconceitos, que despertou seu desejo de poder e de consumar o proibido com a certeza de que é no estar juntos que se preenche o sentido de ser, enquanto na separação dos amantes se sofre o verdadeiro inferno. 

 

Foi, então, a sua uma entrega tão profunda e tão disposta a abarcar a vida e a morte, que acabou levando-a a aceitar o hábito apesar de suas vacilações na fé; e a transformar seu próprio coração porque ele, dono de sua alma, assim lhe pediu em meio à tormenta, para sobreviver à perseguição provocada por sua desventurada união. 

 

Jovem sobrinha de um clérigo de Paris, a aristocrática e excepcionalmente bem dotada Heloísa foi posta sob sua tutela depois de passar a infância em um convento de monjas. Seu drama se desencadeou por volta dos 18 anos de idade, quando, a pretexto de estudarem sob o mesmo teto, professor e aluna entregaram-se inteiramente ao amor durante meses de tanta volúpia que, doze anos depois, ao evocá-lo em sua célebre carta a um amigo depois de sua controvertida vida monástica, Abelardo reconheceu que seu ardor experimentou todas as fases do frenesi e que jamais evitaram nenhum dos requintes mais insólitos de que a paixão é capaz. Quando Fulberto descobriu a situação dos amantes, somaramse infâmias ao desconsolo do casal. 

 

A princípio o tumulto familiar deixou-os insensíveis, pois até então o gozo da posse para eles havia se tornado mais doce. Também de origem nobre, ao ser convidado a orientar o aprendizado de Heloísa, Abelardo já era respeitado por sua cátedra e admirado por seu talento em Corbeil, Melun e na própria Universidade de Paris. Daí a gravidade do escândalo. 

 

Ao descobrir que estava grávida, Heloísa recusou o matrimônio com uma firmeza incomum a fim de não prejudicar a carreira ascendente do afamado filósofo que, mesmo então, já era alvo de muitos invejosos. Protegida por ele, fugiu para a Bretanha para dar à luz seu filho Astrolábio como mãe solteira, e apesar de sua obstinada decisão em assumir as conseqüências daquilo que representava seu pecado, o casal foi obrigado pelo cônego a contrair matrimônio sob condições humilhantes para ambos, ainda que, em princípio, a família tenha aceitado manter a união em segredo. 

 

A tragédia irrompeu quando Fulberto, tio de Heloísa, cego de ira porque considerou que a mácula sobre a honra familiar e sua reparação imperfeita os humilharia durante gerações, persuade os demais parentes para que, com a ajuda do servo infiel que até então gozara da maior confiança de Abelardo, o mutilassem da maneira mais selvagem. 

 

Foi essa a represália ao afeto frustrado da sobrinha por um clérigo, para quem o matrimônio não era apenas algo malvisto na época, mas que dele se esperava o celibato e a conivência de suas obras com a hipocrisia que reinava no século mais corrupto da Igreja Católica. Abelardo, ferido no mais profundo de seu ser, atormentado pela paixão do saber e a paixão amorosa, conhece seu natural tormentório e não encontra outra solução afora o confinamento de ambos na vida religiosa. É este o motivo por que o filósofo obriga sua esposa Heloísa a ingressar no convento de Argenteuil e a 'retirar-se do século'. Ele, por seu lado, realiza sua vocação teológica tornando-se abade e protagoniza, até o último dia de sua vida, uma sucessão de importunações por parte do clero, que o faria vítima de uma das mais persistentes intolerâncias de que foram capazes os homens pensantes. 
 

Em sua Historia calamitatum, ele mesmo narrou os pormenores da tragédia. Nunca diminuíram as perseguições; ao contrário, somaram-se as vexações a novos escândalos originados pela inveja de seu talento. Apesar de nunca ter deixado de padecer uma vida errante e miserável, retomou seus trabalhos teológicos e perseverou em sua rebeldia filosófica. Durante doze anos vive a seu modo a infelicidade do mártir, até que, oculto por detrás da linguagem teológica, Abelardo empreende sua famosa aventura epistolar com Heloísa.

 

Margens opostas do mesmo drama, cada um evoca seu celibato forçado com linguagens distintas. Ele se refere ao pecado e a incita a segui-lo em sua liberdade espiritual de castrado. Prior de Saint-Marcel, na Borgonha, apela por todos meios à força da razão, ao amor verdadeiro, à renúncia aos bens terrenos, ao amor divino; ela não crê na virtude, está dividida, sua fé vacila. O escândalo é um nó que a dilacera entre o espírito e o sexo, entre as exigências do claustro e o furor amoroso. Jamais se resigna; bem ao contrário, glorifica sua desventura, e assim como se volta para seu templo protestando contra Deus com lamentações de viúva, escreve ao amado de forma beligerante, desafia-o e recorda-lhe os lugares de sua paixão, as horas de fogo e sua ausência...

Para onde quer que me volva aparecem diante de meus olhos aqueles deleites e despertam outra vez meu desejo... Até durante as solenidades da missa, quando a prece deveria ser mais pura do que nunca, imagens obscenas assaltam minha pobre alma e a ocupam mais do que o ofício divino... Longe de gemer arrependida pelas faltas que cometi, penso suspirando naquelas que não posso mais cometer...

 

É assim que ela escreve a Abelardo, sempre amante, esposa insatisfeita e decidida a dessacralizar a vida religiosa na qual ele mesmo a confinou. Longe de conquistar a paz, ela invoca seu sacrifício a fim de consagrar sua verdadeira paixão. Se Abelardo procura voltar os olhos para Deus, Heloísa reafirma o passado, traspassa-o com erotismo incomum, como se nas palavras buscasse a satisfação proscrita e com a verdade apaziguasse a maldição de um destino ao qual se submeteu por necessidade, mas nunca porque o coração lho ditasse. 

 

Clama por justiça a seus direitos de esposa e, desde a clausura de sua abadia, cede à fatalidade de sua absurda separação. Quanto mais Abelardo persegue o rigor, quanto mais se inclina para o raciocínio lógico em busca de respostas teóricas, tanto mais Heloísa se confirma no poder de suas emoções. Assim transita da ternura à cólera, da compaixão à impotência, até cair na irracionalidade. Ele se integra com a ajuda da filosofia; ela se fragmenta, se desespera e finalmente se cala; retira-se em um silêncio dolente, depois de cumprir sua promessa de guardar para o futuro o testemunho de seu lamento:

 

Prometo publicar nossa desgraça em vários idiomas a fim de envergonhar este século injusto, que não te compreendeu... 

Meu cruel tio acreditou que eu não te amava por ti mesmo (como as demais mulheres), 

mas somente teu sexo: enganou-se totalmente ao privar-te dele; pois a minha vingança é amar-te cada vez mais...

 

A Theologia de Abelardo foi queimada como herética por decisão do Concilio de Soissons, no ano de 1121, além de suportar uma prisão preventiva na Abadia de Saint-Médard. 

 

Enquanto ele resistia às pressões eclesiásticas e às perseguições que o obrigavam a se refugiar em diferentes lugares, Heloísa funda e dirige, sempre atendendo aos pedidos de seu amado, de sua abadia, cede à fatalidade de sua absurda separação. Quanto mais Abelardo persegue o rigor, quanto mais se inclina para o raciocínio lógico em busca de respostas teóricas, tanto mais Heloísa se confirma no poder de suas emoções. Assim transita da ternura à cólera, da compaixão à impotência, até cair na irracionalidade. Ele se integra com a ajuda da filosofia; ela se fragmenta, se desespera e finalmente se cala; retira-se em um silêncio dolente, depois de cumprir sua promessa de guardar para o futuro o testemunho de seu lamento:
 

Prometo publicar nossa desgraça em vários idiomas a fim de envergonhar este século injusto, que não te compreendeu... 

Meu cruel tio acreditou que eu não te amava por ti mesmo (como as demais mulheres), 

mas somente teu sexo: enganou-se totalmente ao privar-te dele; pois a minha vingança é amar-te cada vez mais...

 

A Theologia de Abelardo foi queimada como herética por decisão do Concilio de Soissons, no ano de 1121, além de suportar uma prisão preventiva na Abadia de Saint-Médard. 

 

Enquanto ele resistia às pressões eclesiásticas e às perseguições que o obrigavam a se refugiar em diferentes lugares, Heloísa funda e dirige, sempre atendendo aos pedidos de seu amado, uma nova ordem de monjas denominada O Paráclito, da qual Abelardo se tornaria abade e mentor das regras, inclinadas para o estudo do pensamento e das letras. 

 

Proveu as monjas de livros e hinos compostos por ele mesmo e, a partir de 1130, ambos empreenderam a célebre obra epistolar em que entremearam temas de amor e de religião. 

 

Confirmada sua condenação pelo Concilio de Sens e ratificada depois pelo papa Inocêncio II, Abelardo partiu para o Mosteiro de Cluny, na Borgonha, onde, graças à mediação de seu abade, Pedro o Venerável, fez as pazes com Bernardo de Clairvaux e pôde doravante se dedicar ao ensino. Já velho, viveu seus últimos anos como monge cluniacense. Seus restos mortais foram levados primeiro ao convento do Paráclito, a pedido de sua amada, e posteriormente, já no século XIX, ao cemitério de Père-Lachaise, em Paris, a fim de serem reunidos aos despojos de Heloísa. 

 

Se Abelardo esteve disposto a assumir sua escolha, Heloísa aparece como a figura desvalida, desprovida de vontade - ainda que nunca de entendimento -, em que pese o fato de nos momentos mais decisivos todos decidirem por ela: sua juventude entre monjas, sua paixão por Abelardo, a renúncia ã sua maternidade, seu confinamento conventual e a condenação de padecer uma constante ausência, a ponto de afirmar que o vazio de Abelardo, mais que qualquer outro acontecimento, preenchera absolutamente sua vida. 

 

Heloísa, mais que o seu amante, é a figura a ser observada. Heloísa e sua paixão mutilada; Heloísa enamorada e, não obstante, atacada pelo sentimento de culpa; enquanto Abelardo, em seu perfeito papel de amado, deixa-se querer e lhe recomenda canalizar seu fogo para o caminho da salvação. 

 

O século lamentou-se pela fatalidade de Abelardo e ele retribuiu à sua desgraça transformando em lenda a condenação de Heloísa, a amada que, confinada por sua paixão no convento de Argenteuil, encontrou na redação de cartas o único meio de recuperar o objeto de sua dor. 

 

Uma natureza rebelde, uma mulher excepcional, Heloísa nasceu em 1098 e morreu a 15 de maio de 1164, sem quebrantar seu voto de obediência e jamais ter se resignado.

 

 

(Martha Robles - Mulheres, Mitos e Deusas - o feminino através dos tempos)

Cartas de amor de Heloísa e Abelardo

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publicado às 03:15


WiFi neural

por Thynus, em 25.02.18
  “Quando você sorri, o mundo inteiro sorri junto com você.”

Ao me acomodar em um banco no metrô em Nova York, um desses momentos ambíguos, possivelmente ameaçadores da vida urbana, ocorreu: ouvi um grito atrás de mim, na extremidade oposta do vagão onde eu me encontrava.
A fonte do grito estava às minhas costas. No entanto, à minha frente, estava um cavalheiro cujo rosto de repente expressou uma aparência de leve ansiedade.
Minha mente disparou, na tentativa de compreender o que estava acontecendo e o que eu deveria fazer. Seria uma briga? Alguém estaria agindo de forma violenta no metrô? O perigo vinha em minha direção?
Ou seria apenas um grito de alegria, talvez vindo de um grupo de adolescentes que estavam se divertindo a valer?
Minha resposta veio rapidamente, estampada no rosto do homem que poderia ver o que estava acontecendo: sua expressão preocupada foi-se acalmando e ele voltou a ler o jornal. O que quer que pudesse estar acontecendo lá atrás, eu sabia que estava tudo bem.
Minha apreensão inicial foi alimentada pela dele, até que eu me acalmei ao ver seu rosto relaxar. Em momentos como o de minha repentina preocupação no metrô, tornamo-nos instintivamente mais atentos ao rosto das pessoas ao nosso redor, em busca de sorrisos ou franzir de sobrancelhas que nos proporcionem uma melhor noção de como interpretar os sinais de perigo ou que possam sinalizar as intenções de alguém.1
Na pré-história humana, um grupo primitivo – com seus numerosos olhos e ouvidos – poderia ser mais vigilante do que um indivíduo isolado. E, no mundo habitado pelos primeiros seres humanos, a capacidade de multiplicar a atenção – e um mecanismo cerebral sintonizado para captar automaticamente os sinais de perigo e mobilizar o medo – sem dúvida tinha grande valor para a sobrevivência.
Embora nos extremos da ansiedade possamos nos deixar dominar pelo medo, sem condições de nos sintonizar em nada, de modo geral a ansiedade aumenta as transações emocionais; assim, as pessoas que se sentem ameaçadas e ansiosas são especialmente propensas a captar as emoções dos outros. Em um desses primeiros agrupamentos humanos, sem dúvida, a expressão aterrorizada de uma pessoa que acabasse de avistar um tigre seria suficiente para provocar o mesmo pânico em quem quer que tivesse visto essa expressão – e levar todo mundo a correr em busca de um lugar seguro.
Olhe esta face por um momento:
 
A amígdala reage instantaneamente a essa fotografia e, quanto mais forte a emoção exibida, mais intensa a reação da amígdala.2 Quando algumas pessoas olharam essa fotografia durante uma sessão de ressonância magnética, em seus cérebros, pareciam elas mesmas pessoas assustadas, embora em uma faixa modificada.3
Quando duas pessoas interagem pessoalmente, o contágio se dissemina via diversos circuitos neurais, operando em paralelo dentro do cérebro de cada uma. Esses sistemas de tráfego de contágio emocional operam em toda a faixa de sentimentos, da tristeza e da ansiedade à alegria.
Momentos de contágio representam um evento neural notável: a formação entre dois cérebros de um elo funcional, um loop de feedback que atravessa a barreira da pele e do crânio entre os corpos. Em termos de sistemas, durante essa ligação, os cérebros se “acoplam” e o resultado é que um se torna a entrada que impulsiona o funcionamento do outro, formando, temporariamente, o equivalente a um circuito intercerebral. Quando duas entidades se conectam em um loop de feedback, se a primeira muda, a segunda também muda.
Quando as pessoas iniciam um loop em conjunto, seus cérebros enviam e recebem um fluxo contínuo de sinais que lhes permitem criar uma harmonia tácita – e, se o fluxo ocorrer na direção certa, sua ressonância é ampliada. O loop permite a sincronia de sentimentos, pensamentos e ações. Enviamos e recebemos estados internos para melhor ou para pior – riso e ternura ou tensão e rancor.
Em física, a propriedade que define a ressonância é a vibração simpática, a tendência que uma das partes tem de ampliar sua taxa de vibração ao fazê-la coincidir com o ritmo no qual a outra parte vibra. Tal ressonância produz a maior resposta possível, e também a mais longa, entre duas partes que interagem – um reflexo de esplendor.
O loop entre os cérebros ocorre sem que estejamos conscientes, sem que se exija atenção ou intenção especial. Embora possamos intencionalmente tentar imitar uma pessoa para aumentar a intimidade, tais tentativas tendem a parecer estranhas. A sincronia funciona melhor quando é espontânea, não construída a partir de motivos dissimulados, como insinuação ou qualquer outra intenção consciente.4
O caráter automático da via inferior permite sua rapidez. Por exemplo, a amígdala detecta sinais de medo no rosto de alguém com uma velocidade notável, captando-os em 33 milissegundos e, em algumas pessoas, em menos de 17 milissegundos (menos de dois centésimos de segundo).5 Essa leitura rápida atesta a enorme velocidade da via inferior, tão rápida que a mente consciente não se dá conta dela (embora possamos sentir a vaga sensação de inquietude resultante disso).
Podemos não constatar conscientemente como estamos nos sincronizando, mas, ainda assim, entrosamo-nos com notável facilidade. Esse dueto social espontâneo é trabalho de uma classe especial de neurônios.
 
ESPELHOS NEURAIS
Eu devia ter só um ou dois anos na época, mas a lembrança continua viva em minha memória. Ao caminhar por um dos corredores do supermercado de minha cidade, ao lado de minha mãe, uma senhora me viu – uma graça de menino – e me dirigiu um sorriso afetuoso.
Meus lábios – ainda me lembro – me surpreenderam ao se movimentar involuntariamente e sorrir de volta. Senti como se, de alguma forma, meu rosto fosse uma espécie de marionete, cujos músculos eram puxados por fios misteriosos que manipulavam os músculos ao redor de minha boca e inflavam minhas bochechas.
Senti que o sorriso era indesejado – não vinha de dentro de mim, mas sim de fora.
Sem dúvida, essa reação indesejada sinalizava a atividade do que conhecemos como “neurônios-espelho” em meu cérebro de menino. Os neurônios-espelho fazem exatamente o que o nome diz: refletem uma ação que observamos em outra pessoa, levando-nos a imitar essa ação ou ter o impulso de fazê-lo. Tais neurônios oferecem ao cérebro um mecanismo que explica o velho ditado: “Quando você sorri, o mundo inteiro sorri junto com você.”
As pistas principais da via inferior certamente passam por esse tipo de neurônio. Temos diversos sistemas de neurônios-espelho e outros vão sendo descobertos com o passar do tempo. Além dos tipos que já conhecemos até agora, parece haver diversos sistemas neurais que ainda não foram mapeados.
Os neurocientistas se depararam acidentalmente com essa rede WiFi (rede sem fio de alta-fidelidade, do inglês wireless fidelity) em 1992. Estavam mapeando a área sensório-motora do cérebro dos macacos usando eletrodos tão finos que tinham de ser implantados em células cerebrais isoladas e vendo quais células eram ativadas durante um movimento específico.6 Os neurônios dessa área demonstravam-se notavelmente precisos; por exemplo, alguns neurônios só eram ativados quando o macaco estava segurando algo na mão; outros quando estava rasgando o objeto.
No entanto, a descoberta realmente inesperada ocorreu numa tarde quente, quando o assistente de pesquisa voltou de uma saída para tomar um sorvete. Os cientistas ficaram impressionados quando viram uma célula sensório-motora ativada quando um macaco observou o assistente levar o sorvete à boca. Ficaram assombrados ao descobrir que um conjunto específico de neurônios parecia ativar-se quando o macaco simplesmente via outro macaco – ou um dos experimentadores – fazer um dado movimento.
Como essa primeira observação dos neurônios-espelho em ação nos macacos, os mesmos sistemas foram encontrados no cérebro humano. Em um estudo notável, no qual um eletrodo mínimo monitorava um único neurônio numa pessoa acordada, o neurônio se ativava quando a pessoa previa o sofrimento – um beliscão, por exemplo – ou simplesmente quando via outra pessoa receber um beliscão – um instantâneo neural da empatia primitiva em ação.7
Muitos neurônios-espelho atuam no córtex pré-motor, que governa atividades que vão da fala e dos movimentos à simples intenção de agir. Como eles estão próximos aos neurônios motores, sua localização significa que as áreas do cérebro que iniciam um movimento podem prontamente começar a se ativar, mesmo quando observamos outra pessoa fazendo aquele mesmo movimento.8 Quando ensaiamos mentalmente uma ação – por exemplo, quando treinamos para uma palestra que teremos de dar, ou ensaiamos um saque no vôlei –, os mesmos neurônios se ativam no córtex pré-motor, como se já tivéssemos pronunciados as palavras ou feito o movimento. Para o cérebro, simular um movimento é o mesmo que executá-lo, exceto pelo fato de a execução real ser bloqueada, de alguma forma.9
Nossos neurônios-espelho se ativam quando observamos outra pessoa, por exemplo, coçar a cabeça ou enxugar uma lágrima, para que uma parte do padrão dos disparos neuronais em nosso cérebro imite os dela. Isso mapeia informações idênticas às que estamos vendo em nossos neurônios mentais, deixando-nos participar das ações da outra pessoa, como se estivéssemos executando essa ação.
O cérebro humano abriga diversos sistemas neuronais, não apenas para imitar ações, mas também para ler intenções, para extrair as implicações sociais do que alguém faz ou simplesmente para ler as emoções.10 Por exemplo, quando os voluntários se submetem a uma ressonância magnética assistindo a um vídeo que mostra uma pessoa sorrindo ou franzindo as sobrancelhas, a maior parte das áreas do cérebro ativadas nos observadores são as mesmas que estão ativas na pessoa que demonstra a emoção, embora não tão extremas.11
Os neurônios-espelho tornam as emoções contagiosas, deixando que os sentimentos que testemunhamos fluam através de nós, ajudando-nos a entrar em sincronia e seguindo o que está acontecendo. “Sentimos” o outro no sentido mais amplo da palavra: tendo seus mesmos sentimentos, movimentos, sensações e emoções na medida em que elas agem também dentro de nós.
A habilidade social depende dos neurônios-espelho. Em primeiro lugar, ecoar o que observamos em outra pessoa nos prepara para dar uma resposta rápida e apropriada. Em segundo lugar, os neurônios reagem ao mero sinal de que existe intenção de se movimentar e ajudam-nos a monitorar qualquer motivação que esteja em jogo.12 Perceber o que as outras pessoas têm em mente – e os motivos correspondentes – oferece informações sociais valiosas, deixando-nos um passo à frente do que acontecerá em seguida, como camaleões sociais.
Os neurônios-espelho parecem ser essenciais para a forma como as crianças aprendem. Há muito tempo, o aprendizado por imitação é reconhecido como um dos principais caminhos de desenvolvimento infantil. Mas as nossas descobertas sobre os neurônios-espelho explicam como as crianças podem dominar o mistério por meio da mera observação. Ao observarem, elas desenvolvem nos próprios cérebros um repertório de emoções, de comportamentos e de como o mundo funciona.
Os neurônios-espelho humanos são muito mais flexíveis e diversos do que os encontrados nos macacos, refletindo nossas sofisticadas habilidades sociais. Ao imitar o que outra pessoa faz ou sente, os neurônios-espelho criam uma sensibilidade compartilhada, levando para dentro de nós o que está do lado de fora: para entender o outro, precisamos nos tornar como o outro – pelo menos um pouco.13 Essa sensação virtual do que a outra pessoa vivencia está de acordo com a atual noção na filosofia da mente: de que entendemos os outros ao traduzir suas ações na linguagem neural, que nos prepara para as mesmas ações e nos permite ter as mesmas experiências.14
Entendo sua ação criando em meu cérebro um modelo dela. Como explica Giacomo Rizzolatti, neurocientista italiano que descobriu os neurônios-espelho, esses sistemas “nos permitem entender a mente dos outros não apenas pelo raciocínio conceitual, mas por simulação direta: pensando, não sentindo”.15
Os sinais externos desses elos internos foram detalhados por um psiquiatra americano que trabalha na Universidade de Genebra, Daniel Stern, que, durante décadas, fez observações sistemáticas de mães e filhos. Cientista do desenvolvimento na tradição de Jean Piaget, Stern também explora as interações entre adultos, como entre os psicoterapeutas e seus clientes, ou entre amantes.
Stern conclui que nossos sistemas nervosos “foram construídos para ser captados pelos sistemas nervosos de outras pessoas, para que possamos vivenciá-los como se estivéssemos vivendo aquilo pessoalmente”.16 Em tais momentos, ressoamos com a experiência alheia e os outros, com a nossa.
“Não podemos mais”, acrescenta Stern, “ver nossas mentes como tão independentes, separadas e isoladas”. Devemos vê-las como “permeáveis”, interagindo continuamente, como se estivessem ligadas por um elo invisível. No nível inconsciente, estamos em constante diálogo com qualquer pessoa com quem interagimos; nossos sentimentos e nossos movimentos estão sintonizados com os dessas pessoas. Pelo menos naquele momento, nossa vida mental é co-criada, em uma matriz de duas pessoas, interconectada.
O circuito dos músculos faciais garante que as emoções que fluem dentro de nós sejam exibidas para que os outros as leiam (a não ser que sejam ativamente suprimidas). E os neurônios-espelho garantem que, no momento em que alguém vê uma emoção expressa em sua face, imediatamente vivencie o mesmo sentimento. Assim, nossas emoções são vivenciadas não apenas por nós, isoladamente, mas também por aqueles que estão a nosso redor – tanto implícita quanto explicitamente.
Stern sugere que os neurônios-espelho entram em ação sempre que sentimos o estado de espírito de outra pessoa e reproduzimos seus sentimentos. Esta ligação entre os cérebros faz com que os corpos se movimentem em conjunto, os pensamentos percorram as mesmas vias e as emoções transitem pelas mesmas linhas. Quando os neurônios-espelho estabelecem uma ponte entre os cérebros, criam um dueto tácito que abre caminho a transações sutis, mas poderosas.
 
A VANTAGEM DA EXPRESSÃO DE FELICIDADE
Quando conheci Paul Ekman, na década de 1980, ele acabara de passar um ano olhando no espelho e, ao mesmo tempo, aprendendo a controlar voluntariamente cada um dos aproximadamente duzentos músculos da face. Isso significou usar uma técnica de pesquisa científica que envolveu um toque de heroísmo: ele tinha de aplicar um leve choque elétrico para perceber fisicamente alguns músculos faciais de difícil localização. Depois de conseguir tal proeza de autocontrole, ele conseguiu mapear com precisão como diferentes agrupamentos desses músculos se mexem para exibir cada uma das principais emoções e suas variações.
Ekman identificou 18 tipos de sorrisos, todas as várias combinações dos 15 músculos faciais envolvidos. Para citar apenas alguns: um sorriso “amarelo” transmite uma expressão de infelicidade, como, por exemplo, um comentário sobre um período de tristeza. Um sorriso cruel mostra que a pessoa gosta de estar zangada e de ser malvada. Há também o sorriso nobre, marca registrada de Charlie Chaplin, que se baseia em um músculo que as pessoas em geral não conseguem mover intencionalmente – um sorriso, como diz Ekman, “que sorri do sorriso”.
Obviamente, existem também os sorrisos de prazer ou diversão genuínos. São os sorrisos com maior probabilidade de provocar outro sorriso. Essa ação sinaliza o trabalho dos neurônios-espelho dedicados a detectar sorrisos e provocar outros.18 É como no ditado tibetano: “Quando você sorri para a vida, metade do sorriso está em seu rosto e a outra metade no de outra pessoa.”
Os sorrisos têm uma vantagem sobre todas as outras expressões emocionais: o cérebro humano prefere faces sorridentes, reconhecendo-as mais pronta e rapidamente do que as expressões negativas – efeito conhecido como “vantagem da expressão de felicidade”.19 Alguns neurocientistas sugerem que o cérebro tem um sistema para sentimentos positivos que se mantém preparado para agir, fazendo com que as pessoas tenham um humor positivo com mais freqüência do que negativo, e que tenham uma perspectiva mais positiva acerca da vida.
Isso implica que a natureza tende a estimular relacionamentos positivos. Apesar do lugar demasiadamente destacado que a agressão ocupa nas questões humanas, não estamos preparados para desgostar das pessoas desde o início.
Mesmo entre pessoas totalmente estranhas, um momento de diversão, até mesmo de ingenuidade, tem uma repercussão instantânea. No que pode ser outro exemplo da psicologia ao tentar provar o óbvio, atribuiu-se a duplas de pessoas desconhecidas a tarefa de brincarem em uma série de jogos simples. Durante um desses jogos, uma pessoa teve de falar por um canudo enquanto orientava a outra – usando uma venda sobre os olhos – a arremessar uma bola macia para frente e para trás. Os estranhos, invariavelmente, caíam na gargalhada com a imperícia mútua.
Quando estranhos jogavam os mesmos jogos ingênuos sem a venda nos olhos, porém, jamais davam um só sorriso. No entanto, os pares que riam sentiam uma intimidade forte e imediata, mesmo depois de terem passado apenas alguns minutos juntos.20
De fato, o riso pode ser a menor distância entre dois cérebros, uma forma de contágio que desenvolve um elo social imediato.21 Tomemos duas adolescentes que conversam. Quanto mais elas brincam, mais em sincronia, animadas e felizes as duas ficam – em outras palavras, elas ressoam.22 O que, para os pais, pode parecer uma algazarra, para as adolescentes envolvidas é um dos momentos de maior ligação.
 
GUERRAS MEME*
Desde a década de 1970, o rap glorifica a vida dos bandidos, com suas armas e drogas, violência e misoginia. Mas isso parece estar mudando, como mudaram as vidas dos que escrevem tais letras.
“Parece que o hip-hop lida basicamente com grupos, armas e mulheres”, reconheceu Darryl McDaniels, o DMC do grupo de rap Run-DMC. Mas McDaniels, que prefere rock clássico a rap, acrescenta: “Tudo bem se você estiver em um clube, mas, das nove da manhã até a hora de dormir, a música não me diz nada.”23
Sua queixa anuncia o surgimento de um novo tipo de música rap, que abrange uma visão de vida mais saudável, ainda que corajosamente franca. Como um desses rappers reformados, John Stevens (conhecido como “A Lenda”) admite: “Eu não me sentiria à vontade fazendo música que glorifica a violência ou coisas do gênero.”24
Assim, “A Lenda”, tal qual seu colega Kanye West, voltou-se para a letra das músicas em uma chave positiva que mistura autocrítica com um deturpado comentário social. Essa sensibilidade, caracterizada por nuances, reflete sua experiência de vida, que seguiu caminhos marcadamente diferentes daqueles da maior parte dos astros de rap do passado. Stevens formou-se pela Universidade da Pensilvânia e Kanye é filho de um professor universitário. Observa Kayne: “Minha mãe é professora e eu também sou uma espécie de professor.”
Ele detectou algo. As letras de rap, como qualquer poema, ensaio ou reportagem, podem ser vistas como sistemas de entrega para “memes”, idéias que passam de mente para mente, como fazem as emoções. A noção de um meme baseia-se na de um gene: uma entidade que se duplica ao ser transmitida de uma pessoa para outra.
Os memes com força particular, como “democracia” ou “limpeza”, nos levam a agir de maneira específica; são idéias com alto impacto.25 Alguns memes se opõem naturalmente a outros e, quando isso ocorre, entram em guerra – uma batalha de idéias.
Os memes parecem ganhar poder da via inferior, por meio da associação com fortes emoções. Uma idéia é importante para nós na medida em que nos incita ou comove – e é exatamente isso que fazem as emoções. A força das letras dos raps (ou de qualquer música), vinda da instância inferior, fortalecida pelas batidas do oscilador, pode aumentar ainda mais – certamente mais do que se fosse simplesmente lida em uma folha de papel.
Um dia, os memes podem vir a ser entendidos como neurônios-espelho em ação. Seu registro inconsciente governa grande parte do que fazemos, principalmente quando estamos no “piloto automático”. Porém, o poder sutil dos memes de nos fazer agir não raro passa despercebido.
Considere seu poder surpreendente de preparação para as interações sociais.26 Em um experimento, um grupo de voluntários ouviu uma lista de palavras que se referiam a indelicadezas, como “rude” e “odioso”, enquanto outro grupo ouviu palavras como “atencioso” e “polido”. Em seguida, os dois grupos foram apresentados a uma situação em que tinham de transmitir uma mensagem a alguém que estava conversando com outra pessoa. Dois dos três do grupo que ouviram palavras relacionadas a indelicadezas se intrometeram abruptamente na conversa, interrompendo as outras pessoas, enquanto oito das dez pessoas preparadas para a cordialidade esperaram os dez minutos inteiros até a conversa terminar, antes de se manifestar a respeito da situação.27
Em outra forma de preparação, uma pista despercebida pode conduzir a sincronias surpreendentes. De que outra maneira poderíamos explicar o que aconteceu quando eu e minha esposa visitamos uma ilha tropical? Certa manhã, observamos uma maravilha no horizonte: um gracioso navio de oito mastros navegando próximo à costa. Minha esposa sugeriu que eu tirasse uma fotografia; então, peguei a máquina e atendi a seu pedido. Era a primeira vez que eu tirava uma fotografia desde que chegáramos, há dez dias.
Algumas horas depois, ao sairmos para almoçar, decidi levar a câmera, colocando-a na mochila. Ao caminharmos até uma praia próxima, onde ficava o restaurante escolhido, pensei em mencionar que havia trazido a câmera. Foi então que, de repente, do nada, antes de eu abrir a boca, minha esposa perguntou: “Trouxe a máquina?”
Era como se ela tivesse acabado de ler meus pensamentos.
Tais sincronias parecem surgir do equivalente verbal ao contágio emocional. Nossos encadeamentos de associações correm em trilhos fixos, circuitos de aprendizado e memória. Depois de preparado um desses encadeamentos, mesmo diante de uma simples menção, esse encadeamento instiga o inconsciente, além do alcance de nossa atenção ativa.28 Nas palavras do famoso dramaturgo russo Anton Chekhov: “Nunca coloque uma arma na parede no segundo ato de uma peça sem usá-la até o final do terceiro – pois o público estará esperando os tiros.”
Como basta pensar em uma ação para preparar a mente no sentido de realizá-la, tal preparo nos orienta em nossas rotinas diárias sem que tenhamos de nos esforçar mentalmente para pensar no que devemos fazer em seguida – algo como uma lista mental de afazeres. Ver a escova de dentes sobre a pia do banheiro pela manhã nos leva a buscá-la automaticamente e começar a escovar os dentes.
De forma semelhante, os encadeamentos paralelos de pensamento podem levar as pessoas a pensar, fazer ou dizer a mesma coisa no mesmo momento. Quando minha esposa e eu de repente nos sintonizamos em um pensamento idêntico, presumivelmente alguma percepção momentânea comum a ambos havia provocado um encadeamento semelhante de associações, fazendo-nos lembrar da máquina fotográfica.
Tal intimidade mental pressagia a proximidade emocional; quanto mais satisfeito e comunicativo é um casal, mais precisa é sua leitura mental mútua.29 Quando conhecemos bem alguém ou sentimos uma forte conexão com uma pessoa, as condições são quase ideais para uma confluência de nossos pensamentos, sentimentos, percepções e lembranças.30 Entramos em uma confluência mental na qual tendemos a perceber, pensar e sentir da mesma maneira que a outra pessoa.
Tal convergência ocorre mesmo quando estranhos se tornam amigos. Tomemos dois estudantes universitários que devem repartir o mesmo quarto. Pesquisadores de Berkeley recrutaram colegas de dormitório que não se conheciam anteriormente e monitoraram suas reações emocionais ao assistir separadamente a filmes curtos. Um deles era uma comédia com Robin Williams; outro, um melodrama, mostrando um garoto que chorava a morte do pai. Ao ver esses filmes pela primeira vez, os novos colegas de quarto reagiram de forma diferente, como qualquer outra dupla de estranhos reagiria. No entanto, meses depois, quando os pesquisadores convidaram os colegas de quarto para assistir novamente a filmes semelhantes, suas reações haviam convergido de maneira notável.31
 
A LOUCURA DAS MULTIDÕES
Eles os chamam de “superhooligans”, gangues de fãs do futebol que espalham tumultos e provocam enormes brigas nos jogos europeus. A fórmula é sempre a mesma, independente do país. Uma gangue pequena e unida de fãs chega ao jogo com horas de antecedência e começa a beber loucamente, a cantar o hino do time e a torcer de forma ruidosa.
Depois, quando a multidão começa a se reunir para o jogo, as gangues começam a agitar as bandeiras do time, cantar impetuosamente e provocar o time adversário, espalhando rixa pela arquibancada. Os superhooligans se dirigem aos pontos nos quais os fãs de seu time se misturam com os de seus rivais e as músicas se transformam em ameaças diretas. Chega, então, o momento em que o líder da gangue ataca a gangue rival, provocando os outros torcedores a se juntar à briga. E a luta começa.
Essa fórmula de violenta histeria em massa se repete desde o início da década de 1980, com trágicas conseqüências.32 Em uma multidão bêbada e beligerante, verificam-se as condições ideais para que a violência se dissemine: o álcool desinibe os controles neurais sobre os impulsos; assim, no momento em que o líder inicia a primeira carnificina, contagia a multidão de seguidores.
Elias Canetti, em um estudo intitulado Crowds and Power, observa que o que une uma massa de indivíduos em uma multidão é o domínio coletivo por uma “única paixão” que todos compartilham – uma emoção comum que leva à ação conjunta: o contágio coletivo.33 Uma atitude pode tomar de assalto um grupo com grande rapidez, em uma notável exibição do alinhamento paralelo de subsistemas biológicos que colocam todos os presentes em sincronia fisiológica.34
A rapidez das mudanças na atividade das multidões assemelha-se à coordenação entre os neurônios-espelho. As decisões da multidão são tomadas em questão de segundos – presumivelmente, o tempo necessário para que a transmissão da sincronia dos neurônios-espelho de pessoa para pessoa ocorra (embora, por enquanto, isso ainda seja mera especulação).
O contágio do grupo em suas formas mais tranqüilas pode ser testemunhado em qualquer grande apresentação em que atores ou músicos exerçam um efeito sobre as emoções do público. Peças, concertos e filmes nos permitem penetrar um campo de emoções comum a um grande número de estranhos. Adotar um registro otimista como grupo é, como gostam de dizer os psicólogos, “inerentemente reforçativo” – ou seja, faz com que todos se sintam bem.
O contágio das multidões ocorre até mesmo nos grupos menores, como, por exemplo, três pessoas sentadas em silêncio, juntas, durante alguns minutos. Na ausência de uma hierarquia de poder, a pessoa com o semblante mais expressivo emocionalmente define o tom do grupo.35
O contágio flui em praticamente qualquer agrupamento coordenado de pessoas. Tomemos um experimento em processos decisórios importantes no qual um grupo se reúne para decidir o valor do bônus a ser concedido a cada funcionário ao final do ano. Cada pessoa presente à reunião tentava obter o maior bônus possível para um ou outro funcionário e, ao mesmo tempo, fazer a melhor distribuição possível para o grupo como um todo.
As agendas conflitantes provocaram tensão e, no fim da reunião, todos estavam desgastados. No entanto, em uma reunião de outro grupo com objetivo idêntico, todos acabaram se sentindo bem com o resultado.
As duas reuniões foram simulações feitas em um estudo, hoje clássico, realizado na Yale University, no qual voluntários foram distribuídos em grupos para tomar decisões a respeito de bônus.36 Ninguém sabia que um dos participantes de cada grupo era, na verdade, um ator experiente cuja atribuição secreta era adotar uma postura de confronto e deprimente com alguns do grupo e útil e otimista com os outros.
Qualquer que fosse o caminho tomado por suas decisões, os outros participantes seguiam sua pista; os membros do grupo apresentaram uma mudança notável no humor – ora otimistas, ora desanimados. Entretanto, nenhum dos membros do grupo parecia saber por que seu humor havia mudado. Estavam sendo guiados inconscientemente a uma mudança de humor.
Os sentimentos que vigoram em um grupo podem definir como seus membros processam as informações e, portanto, as decisões por eles tomadas.37 Isso sugere que, ao tomar uma decisão conjunta, qualquer grupo deveria atentar não apenas ao que está sendo dito, mas também às emoções que vigoram no local físico.
Essa convergência pressagia um magnetismo sutil e inexorável, uma força gravitacional que leva as pessoas a pensarem e a se sentirem da mesma maneira a respeito de coisas em geral em relacionamentos íntimos – membros da família, colegas de trabalho e amigos.

 * Nota do Tradutor: O termo, cunhado em 1976 por Richard Dawkins no controverso best-seller O gene egoísta, vem do grego mimene, imitação. Um meme é para a memória o análogo do gene na genética: sua unidade mínima. É considerado uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro. Os memes podem ser idéias, músicas, sons, desenhos, modas, valores morais ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida com facilidade e transmitida como unidade autônoma. Quando usado em contexto coloquial e não-especializado, o termo meme pode significar apenas a transmissão de informação de uma mente para outra, como se fossem vírus mentais.
 
(Goleman, Daniel - Inteligência social)

NOTAS:
1. Sobre medo, imitação e contágio, consulte Brooks Gump e James Kulik, “Stress, Affiliation, and Emotional Contagion”, Journal of Personality and Social Psychology 72 (1997), pp. 305–19.
2. Vide, por exemplo, Paul J. Whalen et al., “A Functional MRI Study of Human Amygdala Responses to Facial Expressions of Fear Versus Anger”, Emotion 1(2001), pp. 70–83; J. S. Morris et al., “Conscious and Unconscious Emotional Learning in the Human Amygdala”, Nature 393 (1998), pp. 467–70.
3. A pessoa que vê o rosto de alguém expressando terror vivencia o mesmo estímulo interno, porém com menor intensidade. Uma das maiores diferenças está no nível de reatividade do sistema nervoso autônomo, que se encontra em seu nível máximo na pessoa aterrorizada e muito mais fraco naquela que a observa. Quanto mais a ínsula se ativa, mais forte é a reação emocional.
4. Sobre imitação, vide J. A. Bargh, M. Chen e L. Burrows, “Automaticity of Social Behavior: Direct Effects of Trait Construct and Stereotype Activation on Action”, Journal of Personality and Social Psychology 71 (1996), pp. 230–44.
5. Sobre velocidade da percepção do medo, consulte Luiz Pessoa et al., “Visual Awareness and the Detection of Fearful Faces”, Emotion 5 (2005), pp. 243–47.
6. Sobre a descoberta dos neurônios-espelho, consulte G. di Pelligrino et al., “Understanding Motor Events: A Neurophysiological Study”, Experimental Brain Research 91 (1992), pp. 176–80.
7. Sobre esse tipo de neurônio, consulte W. D. Hutchinson et al., “Pain-related Neurons in the Human Cingulate Cortex”, Nature Neuroscience 2 (1999), pp. 403–5. Outros estudos de ressonância magnética funcional revelam que áreas cerebrais idênticas se ativam quando uma pessoa observa um movimento do dedo e quando eles fazem o mesmo movimento; em um deles, a atividade foi maior quando a pessoa fez o movimento em resposta a outra pessoa que o fez – ou seja, quando imitava a pessoa: Marco Iacoboni et al., “Cortical Mechanisms of Human Imitation”, Science 286 (1999), pp. 2526–28. Por outro lado, alguns estudos revelaram que observar um movimento ativava um conjunto maior de áreas neurais do que imaginar fazer o movimento; a interpretação era que as áreas envolvidas no reconhecimento dos movimentos diferem das que contribuem para a produção real do movimento – neste caso, pegar um objeto. Vide S. T. Grafton et al., “Localization of Grasp Representations in Humans by PET: Observation Compared with Imagination”, Experimental Brain Research 112 (1996), pp. 103–11.
8. Sobre espelhamento em seres humanos, vide, por exemplo, L. Fadiga et al., “Motor Facilitation During Action Observation: A Magnetic Stimulation Study”,Journal of Neuroph ysiology 73 (1995), pp. 2.608–26.
9. Esse bloqueio ocorre por neurônios inibidores no córtex pré-frontal. Pacientes com lesões nesse circuito pré-frontal são notoriamente isentos de inibição: dizem ou fazem o que quer que venha à sua cabeça. As áreas pré-frontais podem ter conexões inibidoras diretas ou as regiões corticais posteriores, que possuem conexões inibidoras locais, podem ser ativadas.
10. Até o momento, foram descobertos neurônios-espelho em diversas áreas do cérebro humano além do córtex pré-motor, inclusive no lobo parietal superior, no sulco temporal superior e na ínsula.
11. Sobre neurônios-espelho em seres humanos, consulte Iacoboni et al., “Cortical Mechanisms”.
12. Consulte Kiyoshe Nakahara e Yasushi Miyashita, “Understanding Intentions: Through the Looking Glass”, Science 308 (2005), pp. 644–45; Leonardo Fogassi, “Parietal Lobe: From Action Organization to Intention Understanding”, Science 308 (2005), pp. 662–66.
13. Consulte Stephanie D. Preston e Frans de Waal, “The Communication of Emotions and the Possibility of Empathy in Animals”, in Stephen G. Post et al., eds., Altruism and Altruistic Love: Science, Philosophy, and Religion in Dialogue (Nova York: Oxford University Press, 2002).
14. Se as ações da outra pessoa revelarem alto interesse emocional por nós, fazemos automaticamente um pequeno gesto ou expressão facial revelando que sentimos o mesmo. Esse preview de um sentimento ou movimento, sugerem alguns neurocientistas, pode ter sido essencial ao desenvolvimento da linguagem e da comunicação entre os seres humanos. Diz uma teoria que, na pré-história, a evolução da linguagem surgiu das atividades dos neurônios-espelho, inicialmente para um idioma feito de gestos e, depois, para uma forma vocal. Consulte Giacomo Rizzolatti e M. A. Arbib, “Language Within Our Grasp”, Trends in Neuroscience 21 (1998), pp. 188–94.
15. Giacomo Rizzolatti é citado em Sandra Blakeslee, “Cells That Read Minds”, The New York Times, 10 de Janeiro de 2006, p. C3.
16. Daniel Stern, The Present Moment in Psychotherapy and Everyday Life (Nova York: W.W. Norton, 2004), p. 76.
17. Paul Ekman, Telling Lies: Clues to Deceit in the Marketplace, Politics, and Marriage (Nova York: W.W. Norton, 1985).
18. Robert Provine, Laughter: A Scientific Investigation (Nova York: Viking Press, 2000).
19. Sobre a preferência do cérebro por rostos felizes, consulte Jukka Leppanen e Jari Hietanen, “Affect and Face Perception”, Emotion 3 (2003), pp. 315–26.
20. Barbara Fraley e Arthur Aron, “The Effect of a Shared Humorous Experience on Closeness in Initial Encounters”, Personal Relationships 11 (2004), pp. 61–78.
21. O circuito do riso reside nas partes mais primitivas do cérebro, o tronco cerebral. Consulte Stephen Sivvy e Jaak Panksepp, “Juvenile Play in the Rat”, Physiology and Behavior 41 (1987), pp. 103–14.
22. Sobre melhores amigos, consulte Brenda Lundy et al., “Same-sex and Opposite-sex Best Friend Interactions Among High School Juniors and Seniors”, Adolescence 33 (1998), pp. 279–88.
23. Darryl McDaniels é citado em Josh Tyrangiel, “Why You Can’t Ignore Kanye”, Time, 21 de agosto de 2005.
24. A lenda foi citada em “Bling Is Not Their Thing: Hip-hop Takes a Relentlessly Positive Turn”, Daily News of Los Angeles, 24 de fevereiro de 2005.
25. Sobre memes, consulte Susan Blakemore, The Meme Machine (Oxford, Reino Unido.: Oxford University Press, 1999).
26. Para um relato mais completo da preparação, consulte E. T. Higgins, “Knowledge Activation: Accessibility, Applicability, and Salience”, Social Psychology: Handbook of Basic Principles (Nova York: Guilford Press, 1996).
27. Sobre a preparação para a polidez, consulte Bargh, Chen e Burrows, “Automaticity of Social Behavior”, p. 71.
28. Sobre fluxos automáticos de pensamento, consulte John A. Bargh, “The Automaticity of Everyday Life”, in R. S. Wyer, org., Advances in Social Cognition (Hillsdale, N.J.: Erlbaum, 1997), v. 10.
29. Sobre a precisão da leitura mental, consulte Thomas Geoff e Garth Fletcher, “Mind-reading Accuracy in Intimate Relationships: Assessing the Roles of the Relationship, the Target, and the Judge”, Journal of Personality and Social Psychology 85 (2003), pp. 1.079–94.
30. Sobre a confluência de duas mentes, consulte Colwyn Trevarthen, “The Self Born in Intersubjecti vity: The Psychology of Infant Communicating”, in Ulric Neisser, org. The Perceived Self: Ecological and Interpersonal Sources of Self-knowledge (Nova York: Cambridge University Press, 1993), pp. 121–73.
31. A fusão emocional ocorreu independente de os dois terem sentido que haviam se tornado amigos íntimos. Cameron Anderson, Dacher Keltner e Oliver P. John, “Emotional Convergence Between People over Time”, Journal of Personality and Social Psychology 84, no. 5 (2003), pp. 1.054–68.
32. No infame desastre de Heysel em 1985, os hooligans ingleses atacaram os fãs belgas, causando o desabamento de um muro e causando a morte de 39 pessoas. Desde então, tem havido vários episódios em toda a Europa em jogos de futebol, com mortos e feridos.
33. Elias Canetti, Massa e poder(São Paulo, Companhia das Letras, 2005).
34. A rapidez das variações do humor em grupos é observada em Robert Levenson e Anna Reuf, “Emotional Knowledge and Rapport”, in William Ickes, org., Empathic Accuracy (Nova York: Guilford Press, 1997), pp. 44–72.
35. Sobre compartilhar emoções, consulte Elaine Hatfield et al., Emotional Contagion (Cambridge, Reino Unido: Cambridge University Press, 1994).
36. Sobre contágio emocional em equipes, consulte Sigal Barsade, “The Ripple Effect: Emotional Contagion and Its Influence on Group Behavior”, Administrative Science Quarterly 47 (2002), pp. 644–75.
37. A interação em um grupo ajuda a manter todos no mesmo comprimento de onda. Em grupos formados para processos decisórios, estimula o tipo de conexão que permite a expressão aberta das diferenças, sem medo de explosões. A harmonia em um grupo permite a consideração da mais ampla variedade de visões e a tomada das melhores decisões – desde que as pessoas se sintam livres para manifestar opiniões contrárias. Durante uma discussão acirrada, as pessoas têm dificuldade de internalizar o que a outra está dizendo, e ainda mais de sintonizar-se.

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publicado às 03:22

Jesus é judeu e não cristão, mas rompeu com o anti-feminismo de sua tradição religiosa. Considerando-se sua gesta e palavras percebe-se que se mostrava sensível a tudo o que pertence à esfera do feminino em contraposição aos valores do masculino cultural, centrado na submissão da mulher. Nele se encontram, com frescor originário, sensibilidade, capacidade de amar e perdoar, ternura para com as crianças, para com os pobres e compaixão para com os sofredores deste mundo, abertura indiscriminada a todos, especialmente a Deus, chamando-o de Paizinho querido (Abba). Vive cercado de discípulos homens e mulheres. Desde o início de sua peregrinação de pregador, elas o seguiam (Lc 8,1-3; 23,49;24,6-10; cf.E.Schlüsser-Fiorenza,Discipulado de iguais, Vozes 1995).
Em razão da utopia que prega – o Reino de Deus – que é uma libertação de todo tipo de opressão, quebra vários tabus que pesavam sobre as mulheres. Mantem uma profunda amizade com Marta e Maria (Lc 10,38). Contra o ethos do tempo, conversa publicamente e a sós com uma hereje samaritana, causando perplexidade aos discípulos (Jo 7,53-8,10). Deixa-se tocar e ungir os pés por uma conhecida prostituta, Madalena (Lc 7,36-50). São várias as mulheres que foram beneficiadas com seu cuidado como a sogra de Pedro (Lc 4,38-39), a mãe do jovem de Naim, ressuscitado por Jesus (Lc 7,11-17), igualmente a filhinha morta de Jairo, oficial romano (Mt 9,l8-29), a mulher corcundinha (Lc 13,10-17), a pagã siro-fenícia, cuja filha, psiquicamente doente, foi libertada (Mc 7,26) e a mulher que sofria há doze anos de um fluxo de sangue (Mt 9,20-22). Todas elas foram curadas.
Em suas parábolas ocorrem muitas mulheres, especialmente, pobres como a que extraviou a moeda (Lc l15,8-10), a viúva que depositou dois trocados no cofre do templo e era tudo o que tinha (Mc 12,41-44), a outra viúva, corajosa, que enfrentou o juiz (Lc 18,1-8). Nunca são apresentadas como discriminadas mas com toda sua dignidade, à altura dos homens. A crítica que faz da prática social do divórcio, pelos motivos mais fúteis e a defesa do laço indissolúvel do amor (Mc 10,1-10), tem seu sentido ético de salvaguarda da dignidade da mulher.
Se admiramos a sensibilidade feminina de Jesus (a dimensão da anima), seu profundo sentido espiritual da vida, a ponto de ver sua ação providente em cada detalhe da vida como nos lírios do campo, então devemos também supor que ele aprofundou esta dimensão a partir de seu contato com as mulheres com a quais conviveu. Jesus aprendeu, não só ensinou. As mulheres com sua anima completaram o seu masculino, o animus.
Resumindo, a mensagem e a prática de Jesus significam uma ruptura com a situação imperante e a introdução de um novo tipo de relação, fundado não na ordem patriarcal da subordinação, mas no amor como mútua doação que inclui a igualdade entre o homem e a mulher. A mulher irrompe como pessoa, filha de Deus, destinatária do sonho de Jesus e convidada a ser, junto com os homens, também discípulas e membros de um novo tipo de humanidade.
Um dado da pesquisa recente vem confirmar esta constatação. Dois textos, chamados evangelhos apócrifos, o Evangelho de Maria (edição da Vozes 1998) e o Evangelho de Felipe (Vozes 2006)) mostram uma relação extremamente afetiva de Jesus. Como homem ele viveu profundamente esta dimensão.
Ai se diz que ele entretinha uma relação especial com Miryam de Mágdala, chamada de “companheira”(koinónos). No evangelho de Maria, Pedro confessa: “Irmã, nós sabemos que o Mestre te amou diferentemente das outras mulheres”(op.cit. p. 111) e Levi reconhece que “o Mestre a amou mais que a nós”. Ela vem apresentada como a sua principal interlocutora, comunicando-lhe ensinamentos subtraídos aos discípulos. Das 46 perguntas que os discípulos colocam a Jesus, depois de sua ressurreição, 39 são feitas por Míriam de Mágdala (cf. Tradução e comentário de J.Y.Leloup, Vozes 2006, pp.25-46).
O Evangelho de Felipe diz ainda: “Eram três que acompanhavam sempre o Mestre, Maria sua mãe, e Miryam de Mágdala que é conhecida como sua companheira porque Miryam é para Ele uma irmã, uma mãe e uma esposa (koinónos: Evangelho de Felipe, Vozes 2006,p.71). Mais adiante particulariza afirmando: “O Senhor amava Maria mais que todos os demais discípulos e a beijava com frequência na boca. Os discípulos, ao verem que a amava, perguntavam-lhe: por que amas a ela mais que a todos nós? O Redentor lhes respondeu dizendo: o que? eu não devo amar a ela tanto quanto a vocês” (Evangelho de Felipe, op.cit. p. 89)?
Embora tais relatos possam ser interpretados no sentido espiritual dos gnósticos, pois essa é sua matriz, não devemos, dizem reconhecidos exegetas (cf.A.Piñero,El otro Jesús: la vida de Jesús en los apócrifos, Cordoba 1993 p.113) excluir um fundo histórico verdadeiro, a saber, uma relação concreta e carnal de Jesus com Míriam de Mágdala, base para o sentido espiritual. Por que não? Há algo mais sagrado que o amor efetivo entre um homem (o Filho do Homem, Jesus) e uma mulher?
Um dito antigo da teologia afirma ”tudo aquilo que não é assumido por Jesus Cristo não é redimido”. Se a sexualidade não tivesse sido assumida por Jesus, não teria sido redimida. A dimensão sexuada de Jesus não tira nada de sua dimensão divina. Antes, a torna concreta e histórica. E seu lado profundamente humano.

(Leonardo Boff escreveu O Rosto materno de Deus Vozes 2005)

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Desejo: o dele e o dela

por Thynus, em 22.02.18
“Quando o pênis endurece, o cérebro amolece.”
Um de meus melhores amigos em meu primeiro ano de faculdade foi um brilhante e rude jogador de rugby a quem apelidamos de “Hulk”. Até hoje recordo o conselho que, segundo ele, o pai, um alemão, lhe deu quando ele saiu de casa para estudar.
A máxima tinha um tempero brechtiano, deturpadamente sarcástico. O conselho dizia mais ou menos assim: “Quando o pênis endurece, o cérebro amolece.”
Dito de forma mais técnica, o circuito neural para o sexo inibe as regiões subcorticais das via secundárias, localizadas além do alcance do cérebro pensante.
Como esses circuitos mais baixos nos orientam com uma urgência cada vez maior, nos importamos cada vez menos com os conselhos que as regiões racionais da via principal podem nos oferecer.
Num sentido mais geral, esse mapa de circuito é responsável pela irracionalidade de tantas escolhas nos relacionamentos amorosos: nosso circuito lógico nada tem a ver com a questão. O cérebro social pode amar e importar-se com o outro, mas a luxúria trafega pelos ramos mais inferiores da via secundária.
O desejo parece vir em duas formas: o dele e o dela. Quando casais apaixonados examinaram fotos dos parceiros, um estudo de imagens cerebrais revelou uma diferença reveladora: nos homens apaixonados – mas não nas mulheres apaixonadas –, os centros do processamento visual e da excitação sexual se ativaram, mostrando que a aparência da mulher amada dispara a paixão do homem. Não é de se admirar que homens no mundo inteiro se interessem por pornografia visual, como observam os pesquisadores, ou que as mulheres tendam a valorizar tanto a aparência pessoal e dedicar-lhe tanta energia, para “anunciar visualmente seus ativos”, como dizem elas próprias.1
Por outro lado, nas mulheres apaixonadas, examinar a foto de seus amados ativa centros muito diferentes no circuito do cérebro social: centros cognitivos de memória e atenção.2 Tal diferença sugere que as mulheres ponderam melhor seus sentimentos e avaliam o homem como possível cônjuge e provedor. As mulheres que estão iniciando um romance, notoriamente, tendem a ser mais pragmáticas do que os homens; portanto, apaixonam-se de forma mais lenta. Um dos pesquisadores comenta que, para as mulheres, normalmente o “sexo casual” não é tão casual quanto para os homens.3
Afinal, o radar do cérebro para o apego em geral precisa de uma série de encontros para tomar sua decisão de se envolver. Quando se apaixonam, os homens mergulham de cabeça, com o auxílio da via secundária. Certamente, os homens usam a via secundária na ida, mas também usam a principal na volta.
Uma visão mais sarcástica diz que “os homens estão em busca de objetos sexuais; as mulheres estão em busca de objetos de sucesso”. No entanto, embora as mulheres realmente tendam a se sentir atraídas por sinais externos de poder e riqueza de um homem, e os homens, por sua vez, pela aparência física da mulher, esses não são os principais fatores que atraem a ambos –apenas os aspectos nos quais eles mais diferem.4 Tanto para o homem quanto para a mulher, a bondade encabeça a lista.
Para confundir mais ainda a vida amorosa, os circuitos dentro da via principal, por meio de sentimentos elevados ou puritanos, lutam resolutamente para conter as correntes subterrâneas da luxúria. Ao longo da história, as culturas aplicaram freios da via principal aos desejos da via secundária – nas palavras de Freud, a civilização sempre combateu os descontentes. Por exemplo, durante séculos, casamentos na classe alta européia eram decididos unicamente pelas famílias como forma de assegurar que suas propriedades permanecessem em determinada linhagem; em essência, as famílias se casavam com outras famílias por meio de casamentos arranjados. Que se danassem a luxúria e o amor – afinal, sempre haveria o adultério.
Os historiadores sociais nos dizem que, pelo menos na Europa, foi somente durante a Reforma que surgiu a atual noção de amor romântico como um elo emocional de amor e desejo entre marido e mulher – um afastamento do ideal medieval de castidade, que via o casamento como um mal necessário. Foi somente por volta da época da Revolução Industrial, com a ascensão da classe média, que a noção de amor romântico tornou-se suficientemente popular no Ocidente, com a idéia de que bastava apenas um casal se apaixonar para se casar. E, é claro, em culturas como a Índia, na fronteira entre tradição e modernidade, os casais que se casam por amor continuam sendo uma pequena minoria, muitas vezes encontrando forte resistência dos familiares, que preferem um casamento arranjado.
Mas a biologia nem sempre coopera com o ideal moderno de casamento que associa companheirismo e cuidados para a vida inteira com as delícias mais volúveis do ardor romântico. Anos de familiaridade enfraquecem notoriamente o desejo – às vezes, isso pode acontecer assim que o relacionamento se torna estável.
Para piorar ainda mais as coisas, a natureza considerou adequado dotar homens e mulheres com tendências diferentes até mesmo nas moléculas do amor. Os homens geralmente têm níveis mais altos do que as mulheres das substâncias químicas que estimulam o desejo e níveis mais baixos das que estimulam o apego. Tais discrepâncias biológicas criam muitas das tensões clássicas entre homens e mulheres na arena da paixão.
À parte a cultura e a diferença de gêneros, talvez o maior dilema para o amor romântico tenha suas origens na tensão essencial entre os sistemas cerebrais subjacentes à noção segura de apego e os subjacentes a carinho e sexo. Cada uma dessas redes neurais abastece um conjunto de motivos e necessidades próprias – que podem ser compatíveis ou conflitantes. Quando existem conflitos, o amor pode cambalear; quando existe harmonia, o amor pode florescer.
 
UM ESPERTO TRUQUE DA NATUREZA
Uma escritora independente e empreendedora sempre viajava com a fronha do travesseiro com que o marido havia dormido. Aonde quer que ela fosse, colocava-a no travesseiro do hotel. Sua explicação: tinha mais facilidade de pegar no sono em uma cama que não era a dela se sentisse o perfume do marido.
Essa atitude faz sentido do ponto de vista biológico e nos oferece uma dica sobre os truques da natureza na tentativa de preservar a espécie. Alguns dos princípios da atração sexual – ou pelo menos do interesse sexual – seguem o caminho da via secundária: os sentidos, e não o pensamento formulado (ou até mesmo a emoção). Para as mulheres, essa intriga subliminar inicial pode surgir de uma impressão olfativa; para os homens, de uma impressão visual.
Os cientistas descobriram que o cheiro do suor masculino pode ter efeitos notáveis sobre as emoções das mulheres, melhorando seu humor, relaxando-as e elevando seus níveis dos hormônios luteinizantes, que provocam a ovulação.
O estudo que sugere isso, porém, foi realizado em circunstâncias puramente clínicas (e decididamente não-românticas), em laboratório. Amostras extraídas da axila de homens que não haviam usado desodorante durante quatro semanas foram colocadas em uma mistura aplicada ao lábio superior de uma jovem que se oferecera como voluntária para o que acreditava ser um estudo do cheiro de produtos de limpeza.5 Quando o perfume era do suor masculino, e não de outra fonte, a mulher ficava mais relaxada e feliz.
Em um contexto mais romântico, propõem os pesquisadores, esses odores também podem provocar desejos sexuais. Assim, presumivelmente, quando os casais dançam, seu abraço hormonal pode abrir silenciosamente caminho para a excitação sexual, à medida que seus corpos orquestram subliminarmente condições propícias à reprodução. Na verdade, o estudo fazia parte de uma pesquisa sobre novas terapias para fertilidade, com o objetivo de ver se o ingrediente ativo na transpiração poderia ser isolado; a pesquisa foi publicada no periódico Biology of Reproduction.
Para o homem, a conseqüência pode muito bem ser a visão do corpo da mulher nos centros de prazer do seu cérebro. O cérebro masculino contém detectores de sinais aparentemente ligados para aspectos-chave do corpo feminino, particularmente a proporção das medidas busto-cintura-quadril, um sinal de beleza jovem que, em si, pode provocar excitação sexual nos homens.6 Quando homens ao redor do mundo classificaram a atratividade dos contornos femininos com proporções variadas, a maior parte escolheu mulheres cuja circunferência equivalia a 70% da medida dos quadris.7
Há décadas, os motivos pelos quais o cérebro masculino funciona assim vêm despertando muita polêmica. Há quem veja nesse circuito neural uma forma de fazer com que os sinais biológicos do pico de fertilidade da mulher sejam singularmente atraentes para eles, economizando, assim, seu esperma.
Qualquer que seja a razão, trata-se de elegantes designs da biologia humana: a própria visão da mulher lhe causa deleite e o odor dele a prepara para o amor. Sem dúvida, tal tática funcionou bem nos estágios iniciais da pré-história humana. Porém, na vida moderna, a neurobiologia do amor passou por algumas complicações.
 
O CÉREBRO DA LIBIDO
Apaixonar-se “de verdade, profunda e loucamente” foi um dos critérios para selecionar homens e mulheres para um estudo no University College, em Londres. As 17 pessoas que se ofereceram foram submetidas a imagens cerebrais referentes à análise de uma fotografia de seu parceiro romântico e, em seguida, de fotografias de amigos. Conclusões: eles parecem ser dependentes do amor.
Tanto nos homens quanto nas mulheres, o objeto da paixão – e não os amigos – ativou setores singularmente associados do cérebro, um circuito tão específico que parece especializado no amor romântico.8 Grande parte desse circuito, como propôs o neurocientista Jaak Panksepp, é ativada em outro estado eufórico: com cocaína e opiáceos. Essa descoberta sugere que a natureza enlevada e viciante do romance intenso tem um fundamento neural. É intrigante constatar que nos homens esse circuito do amor não adianta muito durante a excitação sexual em si, embora as áreas adjacentes às do romance se ativem, sugerindo uma ligação anatômica quando o desejo sexual aumenta.9
A neurociência, por meio de tais estudos, desvendou o mistério da paixão sexual, desvendando o mix de hormônios e substâncias neuroquímicas que conferem à luxúria tal tempero. A receita para o desejo certamente varia um pouco entre os sexos. Mas os ingredientes e seu timing durante o ato sexual revelam um plano engenhoso, que confere à propagação de nossa espécie seu vigor.
O circuito da luxúria, onde reside a libido, abrange uma boa parte do cérebro límbico.10 Os sexos compartilham grande parte desse circuito da via secundária para o ardor sexual, mas existem algumas diferenças reveladoras. Tais diferenças causam disparidades nas maneiras como homem e mulher vivenciam o ato sexual, bem como no valor que cada um deles atribui aos vários aspectos de um encontro romântico.
Para os homens, tanto a sexualidade quanto a agressividade são ativadas pela ação da testosterona, o hormônio sexual, em áreas conectadas do cérebro.11 Quando os homens ficam excitados sexualmente, seus níveis de testosterona disparam. O hormônio masculino também alimenta o desejo sexual nas mulheres, ainda que não seja com tanta intensidade quanto nos homens.
Há, também, a questão da dependência. Tanto para os homens quanto para as mulheres, a dopamina – substância química que injeta intenso prazer em atividades tão diversas quanto jogar e usar drogas – se eleva nos encontros sexuais. Os níveis de dopamina aumentam não apenas durante a excitação sexual, mas também com a freqüência das relações e a intensidade da libido da pessoa.12
A oxitocina, substância química que dá origem à nossa necessidade de cuidar do outro, permeia mais o cérebro da mulher do que o do homem, por isso tem mais impacto sobre a ligação sexual da mulher. A vasopressina, hormônio intimamente relacionado à oxitocina, também pode desempenhar um papel na formação dessa ligação.13 Curiosamente, os receptores de vasopressina são abundantes nas células fusiformes, os conectores ultra-rápidos do cérebro social. Por exemplo, as células fusiformes estão envolvidas quando fazemos julgamentos rápidos e intuitivos sobre alguém que acabamos de conhecer. Embora os estudos ainda sejam inconclusivos, essas células parecem ser boas candidatas à parte do sistema cerebral que gera o amor – ou pelo menos o desejo – “à primeira vista”.
No período que antecede o ato sexual, os níveis de oxitocina atingem seu pico no cérebro masculino, assim como a fome hormonal provocada pela arginina e pela vasopressina (conhecidas coletivamente como AVP). O cérebro masculino tem mais receptores de AVP do que o feminino, e grande parte se concentra no circuito sexual. A dupla AVP, que se torna abundante na puberdade, parece alimentar o desejo sexual masculino, acumula-se com a aproximação da ejaculação e declina rapidamente no momento do orgasmo.
Tanto no homem quanto na mulher, a oxitocina alimenta muitos dos deliciosos sentimentos do contato sexual. Durante o orgasmo, são secretadas grandes doses desse hormônio; após, uma inundação dele parece estimular a sensação de aconchego e afeto – colocando homem e mulher no mesmo comprimento de onda durante certo tempo.14 A secreção de oxitocina continua intensa após o orgasmo, em particular no período que se segue a ele.15
A oxitocina é secretada com força ainda maior nos homens durante esse período “refratário” após o orgasmo, quando eles normalmente não conseguem ter ereção. É intrigante observar que, pelo menos nos roedores (e possivelmente nos seres humanos), a satisfação sexual nos homens faz com que os níveis de oxitocina fiquem três vezes maiores – uma mudança cerebral que aparentemente aproxima a química do cérebro masculino da química do cérebro feminino, pelo menos durante aquele período. De qualquer forma, essa engenhosa manobra química após o amor proporciona um período de relaxamento durante o qual os elos se consolidam, outra função da oxitocina.
O circuito da luxúria também prepara o casal para o próximo encontro. O hipocampo, estrutura-chave no armazenamento da memória, possui neurônios ricos em receptores tanto de AVP quanto de oxitocina. O AVP, particularmente no homem, parece gravar na memória, com força especial, a imagem instigante da parceira fervendo de paixão, tornando o ato sexual singularmente memorável. A oxitocina gerada pelo orgasmo também acentua a memória, mais uma vez gravando a figura da pessoa amada no olho da mente.
Embora essa bioquímica primordial instigue a atividade sexual, os centros cerebrais da via principal também exercem sua influência, que nem sempre é compatível. Os sistemas cerebrais que durante anos funcionaram bem para a sobrevivência humana hoje parecem vulneráveis aos conflitos e tensões, e isso pode fazer com que o trabalho do amor vá por água abaixo.
 
DESEJO INSACIÁVEL
Vejamos o caso de uma bela e jovem advogada cujo noivo, escritor, trabalhava em casa. Sempre que ela chegava em casa, o noivo largava tudo o que estava fazendo para ficar atrás dela. Certa noite, quando se preparava para dormir, mal ela se deitou, ele a puxou impacientemente para junto de si.16
“Calma, assim você sufoca meu amor”, protestou ela – e o comentário feriu seus sentimentos. Ele ameaçou ir dormir no sofá.
O comentário revela o outro lado de uma interação muito próxima: ela pode ser sufocante. O objetivo da sintonia não é simplesmente emaranhar-se continuamente, acompanhar absolutamente todo e qualquer pensamento e sentimento do outro; inclui também dar ao outro espaço para ficar sozinho quando for preciso. Este ciclo de conexão estabelece um equilíbrio entre as necessidades do indivíduo e as do casal. Como diz um terapeuta de família: “Quanto mais um casal pode ficar longe, maior sua capacidade de ficar junto.”
As principais expressões do amor – apego, desejo e cuidado – têm uma biologia singular cujo objetivo é reunir os parceiros com uma cola química específica. Quando eles se alinham, o amor se fortalece. Quando se estranham, o amor pode minguar.
Considere o desafio para toda ligação que ocorre quando três sistemas de amor biológico se desalinham, como é comum ocorrer na tensão entre apego e sexo. Tal desalinhamento ocorre, por exemplo, quando um dos parceiros se sente inseguro ou, pior ainda, sente ciúmes ou medo de ser abandonado. Sob a perspectiva neural, o sistema de apego, quando toma a direção da ansiedade, inibe a operação dos outros. Essa apreensão atormentadora pode facilmente intimidar o desejo sexual e abafar as manifestações de carinho – pelo menos durante certo tempo.
A fixação do escritor na noiva advogada como objeto sexual se assemelha à insaciedade de um bebê ao ser amamentado, que nada sabe sobre os sentimentos e necessidades da mãe. Esses desejos também se manifestam durante o ato sexual, quando dois adultos apaixonados mergulham um no corpo do outro com o mesmo fervor de um bebê.
Como observamos, as raízes da intimidade vigentes na infância reaparecem entre os amantes com o uso de linguagem tatibitate e apelidos infantis. Os etólogos argumentam que essas pistas disparam no cérebro dos amantes reações parentais de ternura e cuidados. A diferença entre o desejo adulto e o desejo do bebê, porém, reside na capacidade de empatia do adulto; assim, a paixão se mistura à compaixão ou, pelo menos, ao afeto.
Dessa forma, Mark Epstein, o psiquiatra da advogada, sugeriu-lhe uma alternativa: diminuir o ritmo o suficiente para se sintonizar emocionalmente e, assim, criar um espaço psicológico que lhe permitisse manter-se em contato com o próprio desejo. Essa reciprocidade de desejo e manutenção da interação do casal lhe proporcionou uma maneira de recuperar a paixão que ela estava perdendo.
Isso nos reconduz à famosa pergunta de Freud: “O que quer uma mulher?” E Epstein responde: “A mulher quer um parceiro que se importe com seus desejos.”
OBJETO CONSENSUAL DO DESEJO
Anne Rice, autora de uma série de romances sobre vampiros – e de romances eróticos, sempre sob pseudônimo –, lembra-se de ter vívidas fantasias sadomasoquistas desde a infância.
Uma de suas primeiras fantasias girava em torno de sofisticados cenários de jovens na Grécia Antiga sendo leiloados como escravos sexuais; a atração entre homens sempre a fascinou. Depois de adulta, ela se descobriu atraída por amizades com gays e pela cultura gay.17
Esse é o material do qual se compõe sua ficção; os romances de vampiros de Rice, nos quais prevalecem subtemas homoeróticos, definem o tom para o universo romântico dos góticos. E, em seus romances eróticos, escritos sob pseudônimo, ela detalha atividades sadomasoquistas praticadas por ambos os sexos. Apesar de as fantasias sexuais serem, sem sombra de dúvida, as favoritas de todos, nada nelas está além do que as descobertas dos pesquisadores exemplificam como os devaneios eróticos de pessoas comuns.
As cenas sexuais exibicionistas que Rice elaborou em riqueza de detalhes não são “depravadas” no sentido normativo; ao contrário, estão entre os temas de fantasias normalmente descritos por homens e mulheres em vários estudos. Por exemplo, uma pesquisa descobriu que as fantasias sexuais mais freqüentes são: reviver um encontro sexual excitante; imaginar-se tendo relações sexuais com o parceiro de alguém ou outra pessoa, fazer sexo oral, fazer amor em um lugar romântico, ser irresistível – e ser forçado à submissão sexual.18
Uma grande variedade de fantasias sexuais pode refletir uma sexualidade saudável, oferecendo uma fonte de excitação que aumenta a excitação e o prazer.19 Quando ambas as partes consentem, isso inclui as mais bizarras fantasias, como as de Rice, que inicialmente pareceriam apresentar cenários cruéis.
Já caminhamos muito desde a declaração de Freud, um século atrás, que dizia: “Uma pessoa feliz nunca fantasia, só a insatisfeita.”20 Mas uma fantasia é apenas isso: intensa imaginação. Como Rice menciona explicitamente, ela concretizou suas fantasias, apesar das oportunidades. As fantasias sexuais podem não ser concretizadas com outra pessoa, mas, mesmo assim, acabar sendo úteis. Os estudos originais de Alfred Kinsey (que, em uma análise retrospectiva, representaram uma amostra distorcida) revelaram que 89% dos homens e 64% das mulheres admitiram ter fantasias sexuais durante a masturbação – uma descoberta chocante na década de 1950, mas particularmente desinteressante hoje em dia. Como o bom Professor Kinsey deixou claro, uma gama surpreendente de comportamentos sexuais nos homens e nas mulheres é muito mais comum do que admitimos publicamente.
Os tabus sociais que ainda reinam nos dias de hoje – apesar da ubiqüidade dos sites pornôs – significam que a incidência real de várias predileções é invariavelmente mais elevada do que as pessoas estão dispostas a admitir. Na verdade, os pesquisadores sexuais presumem rotineiramente que qualquer estatística baseada nos relatos das pessoas sobre seu comportamento sexual subestima os números reais. Quando estudantes universitários, tanto homens quanto mulheres, registraram em um diário cada fantasia ou pensamento sexual que tiveram durante o dia, os homens informaram sete por dia e as mulheres, de quatro a cinco. Em outros estudos, porém, no qual os estudantes responderam a um questionário que pedia que se lembrassem da mesma informação, os homens estimaram ter apenas uma fantasia sexual por dia e as mulheres, uma por semana.
Considere homens e mulheres que admitem ter fantasias sexuais durante a relação. Em praticamente todas as formas de comportamento sexual, os números referentes aos homens costumam ser mais altos do que os das mulheres, mas, no quesito fantasiar, durante a relação parece haver um equilíbrio; até 94% das mulheres e 92% dos homens admitem ter fantasiado (embora alguns relatos falem em 47% para os homens e 34% para as mulheres).
Um estudo revelou que ter relações sexuais com o amante atual é um devaneio que não ocorre durante o ato em si, mas imaginar-se transando com outra pessoa é uma fantasia mais freqüente durante a relação.21 Esses dados levaram um comediante a observar que, quando parceiros românticos fazem amor, na verdade quatro pessoas estão envolvidas: as duas pessoas reais e as outras duas imaginárias.
Em geral, as fantasias sexuais descrevem o outro como um objeto, um ser criado para satisfazer o próprio desejo, independentemente do que o outro, ou outra, deseje na situação. Mas, quando se trata de fantasia, vale tudo.
Consentir em participar, compartilhar e realizar uma fantasia sexual ao vivo é um ato de convergência; “interpretar” o roteiro com um parceiro disposto a entrar no jogo, em vez de impor a fantasia e fazer do outro um objeto, faz toda a diferença.22 Se ambos os parceiros concordarem e desejarem, até mesmo um cenário imaginário Eu-Isso pode gerar uma intimidade maior. Nas circunstâncias certas, considerar o amante como um objeto – quando a decisão é consensual – pode fazer parte do jogo do sexo.
Um psicoterapeuta observa que “uma boa relação sexual é como uma boa fantasia sexual” – excitante, porém segura. Quando os dois têm necessidades emocionais complementares, acrescenta, a química resultante – como fantasias que se misturam – pode gerar uma excitação capaz de diminuir o desinteresse sexual entre casais que estão juntos há muitos anos.23
A empatia e a compreensão entre os parceiros fazem toda a diferença entre uma fantasia divertida e outra dolorosa. Se ambos virem a relação sexual como um jogo, a própria facilidade em relação à fantasia cria uma empatia tranqüilizadora. À medida que entram na realidade da fantasia, a interação com a própria fantasia aumenta seu prazer mútuo e evidencia uma aceitação radical – um ato implícito de afeto.
 
QUANDO O SEXO SE CONCRETIZA
Imaginemos a vida amorosa de um narcisista patológico, conforme um relato de caso de seu psicoterapeuta:
Vinte e cinco anos de idade e solteiro, ele se apaixona facilmente pelas mulheres que encontra e é obcecado por intensas fantasias com cada uma delas. Porém, depois de uma série de encontros com cada mulher, ele sempre se decepciona com elas e, de uma hora para outra, passa a considerá-las pouco inteligentes, grudentas ou repugnantes fisicamente.
Por exemplo, quando se sentiu sozinho no Natal, tentou persuadir sua namorada da época – com quem mantinha um relacionamento de apenas algumas semanas – a ficar com ele, em vez de ir visitar a família. Quando ela se negou, ele a chamou de egoísta e, muito bravo, decidiu nunca mais voltar a vê-la.
Ao acreditar que tem direito a tudo, sem ressalvas, o narcisista sente que as regras e os limites comuns não se aplicam a ele. Como vimos antes, ele acredita que tem todo direito ao sexo quando uma mulher o encoraja ou provoca – mesmo que ela lhe peça claramente para parar. Ele continuará de qualquer maneira, mesmo que, para isso, tenha de usar a força bruta.
Lembre-se: a incapacidade de sentir empatia ocupa o topo da lista das características do narcisista, junto com a atitude exploradora e o egoísmo. Por isso, não deve ser surpresa o fato de que homens narcisistas endossam atitudes que favorecem a coação sexual, como a idéia de que as vítimas de estupro “tiveram o que pediram” ou que, quando uma mulher diz não ao sexo, na verdade quer dizer sim.24 Os narcisistas entre os universitários americanos tendem a concordar que “se uma garota aceita afagos e carinhos e a coisa esquenta demais, é culpa dela se o parceiro forçá-la a transar”. Para alguns homens, essa crença justifica os estupros nos casos em que o homem força uma relação com a mulher com quem troca carícias, mas que não quer ir em frente.
A prevalência de tais atitudes entre alguns homens pode explicar parcialmente por que, nos Estados Unidos, aproximadamente 20% das mulheres alegam terem sido forçadas à atividade sexual indesejada apesar de sua resistência – na maioria das vezes, pelo cônjuge, parceiro ou alguém com quem estejam romanticamente envolvidas na época.25 Na verdade, dez vezes mais mulheres são forçadas ao sexo por alguém que amam do que por um estranho. Um estudo realizado com estupradores confessos revelou que cada caso de coação aconteceu depois de uma brincadeira sexual consensual; o estuprador simplesmente ignorou os protestos da mulher para que não continuasse.26
Ao contrário da maioria dos homens, os narcisistas, na verdade, gostam de filmes em que o casal está em um clima quente e a mulher quer parar e, em seguida, o homem força o sexo apesar de sua dor e angústia evidentes, considerando-os excitantes sexualmente.27 Enquanto assistem a uma cena como essa, os narcisistas desviam a atenção do sofrimento da mulher e se concentram somente na gratificação do agressor. De maneira intrigante, os narcisistas deste estudo não gostaram da seqüência que mostra somente o estupro, sem as preliminares e a recusa.
A falta de empatia torna os narcisistas indiferentes ao sofrimento que causam às suas “namoradas”. Enquanto ela experimenta o sexo forçado como um ato distinto de violência, ele não entende por que ela não sente prazer com o ato, tampouco sente compaixão por ela. Na verdade, quanto mais dotado de empatia for o homem, menos probabilidade ele terá de agir como predador sexual ou até mesmo imaginar-se fazendo isso.28
Uma força hormonal adicional pode estar em ação no sexo forçado. Estudos descobriram que níveis extremamente elevados de testosterona aumentam a probabilidade de os homens tratarem a outra pessoa como um mero objeto sexual. Isso também os torna parceiros problemáticos no casamento.
Um estudo sobre os níveis de testosterona realizado com 4.462 homens americanos revelou um padrão alarmante entre os que apresentavam leituras muito elevadas do hormônio sexual masculino.29 Eles eram mais agressivos de um modo geral, apresentando maior probabilidade de ser presos e envolver-se em brigas. Além disso, eram péssimos maridos: tendiam a bater nas esposas, manter relações sexuais extraconjugais e, compreensivelmente, divorciar-se. Quanto mais elevado o nível de testosterona, pior a situação.
Por outro lado, observa o estudo, muitos homens com altos níveis de testosterona são felizes no casamento. Os autores do estudo postulam que o que faz a diferença é a capacidade de controle que os homens aprendem a ter sobre os ferozes impulsos provocados pela testosterona. O segredo para controlar os diversos tipos de impulsos, tanto os sexuais quanto os de agressividade, encontra-se nos sistemas pré-frontais. Isso nos reconduz à necessidade da via principal e à sua capacidade de colocar um freio na via secundária, como um contrapeso para a libido.
Anos atrás, quando eu era jornalista científico do The New York Times, estava conversando com um funcionário do FBI especializado em análise psicológica de serial killers. Ele me contou que tais assassinos estão, na grande maioria das vezes, vivendo fantasias sexuais perversas e cruéis nas quais as súplicas das vítimas tornam-se um estímulo para continuar. Na verdade (felizmente), um pequeno subconjunto de homens excita-se mais por descrições de estupros do que por cenas eróticas de sexo consensual.30 Seu estranho apetite por sofrimento separa esse grupo da grande maioria dos homens: nem mesmo os estupradores narcisistas se excitam sexualmente com o estupro direto.
Essa total falta de empatia parece explicar por que os estupradores em série não se deixam deter pelas lágrimas e pelos gritos de suas vítimas. Um número significativo de estupradores condenados informou posteriormente que durante o estupro nada sentiu em relação às suas vítimas e simplesmente não sabia ou não ligava para o que elas sentiam. Quase metade se convenceu de que as vítimas haviam “gostado”, apesar de terem ficado suficientemente transtornadas a ponto de colocá-los na cadeia.31
Um estudo realizado com estupradores condenados revelou que eles conseguiam entender as outras pessoas na maioria das situações, com uma notável exceção: eram incapazes de perceber expressões negativas nas mulheres, mas percebiam as positivas.32 Assim, embora tenham capacidade de empatia em geral, esses estupradores parecem incapazes ou pouco dispostos a ler os sinais que poderiam detê-los. Tais predadores podem ser seletivamente insensíveis, interpretar de modo equivocado os sinais que menos querem ver – a recusa ou o sofrimento da mulher.
Os mais problemáticos são homens muito depravados que preferem compulsivamente concretizar suas fantasias em cenários Eu-Isso – um padrão típico dos criminosos condenados por estupros em série, molestamento sexual infantil e exibicionismo. Esses homens normalmente são estimulados por fantasias desses atos abusivos com muito mais freqüência do que por cenas sexuais comuns.33 Obviamente, o simples fato de ter uma fantasia não significa que uma pessoa forçará outra a concretizá-la. Porém, aqueles que, como os criminosos sexuais, realmente impõem suas fantasias a outras pessoas eliminaram a barreira neural entre pensamento e ação.
Quando a via secundária rompe a barreira da via principal e concretiza um impulso abusivo, as fantasias tornam-se combustível para a malevolência, alimentando a libido desenfreada (há quem fale em desejo de poder), que leva aos crimes sexuais em série. Em casos assim, tais fantasias tornam-se um sinal de perigo – particularmente quando o homem não tem empatia por suas vítimas, acredita que elas  apresentavam leituras muito elevadas do hormônio sexual masculino.29 Eles eram mais agressivos de um modo geral, apresentando maior probabilidade de ser presos e envolver-se em brigas. Além disso, eram péssimos maridos: tendiam a bater nas esposas, manter relações sexuais extraconjugais e, compreensivelmente, divorciar-se. Quanto mais elevado o nível de testosterona, pior a situação.
Por outro lado, observa o estudo, muitos homens com altos níveis de testosterona são felizes no casamento. Os autores do estudo postulam que o que faz a diferença é a capacidade de controle que os homens aprendem a ter sobre os ferozes impulsos provocados pela testosterona. O segredo para controlar os diversos tipos de impulsos, tanto os sexuais quanto os de agressividade, encontra-se nos sistemas pré-frontais. Isso nos reconduz à necessidade da via principal e à sua capacidade de colocar um freio na via secundária, como um contrapeso para a libido.
Anos atrás, quando eu era jornalista científico do The New York Times, estava conversando com um funcionário do FBI especializado em análise psicológica de serial killers. Ele me contou que tais assassinos estão, na grande maioria das vezes, vivendo fantasias sexuais perversas e cruéis nas quais as súplicas das vítimas tornam-se um estímulo para continuar. Na verdade (felizmente), um pequeno subconjunto de homens excita-se mais por descrições de estupros do que por cenas eróticas de sexo consensual.30 Seu estranho apetite por sofrimento separa esse grupo da grande maioria dos homens: nem mesmo os estupradores narcisistas se excitam sexualmente com o estupro direto.
Essa total falta de empatia parece explicar por que os estupradores em série não se deixam deter pelas lágrimas e pelos gritos de suas vítimas. Um número significativo de estupradores condenados informou posteriormente que durante o estupro nada sentiu em relação às suas vítimas e simplesmente não sabia ou não ligava para o que elas sentiam. Quase metade se convenceu de que as vítimas haviam “gostado”, apesar de terem ficado suficientemente transtornadas a ponto de colocá-los na cadeia.31
Um estudo realizado com estupradores condenados revelou que eles conseguiam entender as outras pessoas na maioria das situações, com uma notável exceção: eram incapazes de perceber expressões negativas nas mulheres, mas percebiam as positivas.32 Assim, embora tenham capacidade de empatia em geral, esses estupradores parecem incapazes ou pouco dispostos a ler os sinais que poderiam detê-los. Tais predadores podem ser seletivamente insensíveis, interpretar de modo equivocado os sinais que menos querem ver – a recusa ou o sofrimento da mulher.
Os mais problemáticos são homens muito depravados que preferem compulsivamente concretizar suas fantasias em cenários Eu-Isso – um padrão típico dos criminosos condenados por estupros em série, molestamento sexual infantil e exibicionismo. Esses homens normalmente são estimulados por fantasias desses atos abusivos com muito mais freqüência do que por cenas sexuais comuns.33 Obviamente, o simples fato de ter uma fantasia não significa que uma pessoa forçará outra a concretizá-la. Porém, aqueles que, como os criminosos sexuais, realmente impõem suas fantasias a outras pessoas eliminaram a barreira neural entre pensamento e ação.
Quando a via secundária rompe a barreira da via principal e concretiza um impulso abusivo, as fantasias tornam-se combustível para a malevolência, alimentando a libido desenfreada (há quem fale em desejo de poder), que leva aos crimes sexuais em série. Em casos assim, tais fantasias tornam-se um sinal de perigo – particularmente quando o homem não tem empatia por suas vítimas, acredita que elas “gostam”, sente hostilidade em relação a elas e é emocionalmente solitário.34 Essa combinação explosiva praticamente assegura os problemas.
Compare a fria desassociação da sexualidade Eu-Isso com o afeto conectado de uma relação Eu-Tu. O amor romântico depende da ressonância; sem essa ligação íntima, apenas o desejo permanece. Com total empatia bilateral, o parceiro torna-se também um sujeito, sintonizado como um Tu, e a carga erótica aumenta radicalmente. Quando um casal mistura-se em união emocional associada à intimidade física, ambos perdem a noção de separação, no que foi chamado de “orgasmo do ego” – um encontro não só de corpos, mas também de seus próprios seres.35
Mesmo assim, nem o melhor orgasmo do mundo oferece garantia de que os amantes vão se importar um com o outro na manhã seguinte. O afeto tem uma lógica neural própria.
 
 (Goleman, Daniel - Inteligência social)
 
NOTAS:
 
1. Sobre imagens cerebrais enquanto se examina a foto do ser amado, vide H. A. Fisher et al., “Early Stage Intense Romantic Love Activates Cortical-basal Ganglia Reward/ Motivation, Emotion, and Attention Systems”, apresentação na reunião anual da Society for Neuroscience, Nova Orleans, 11 de novembro de 2003.
2. Os dois centros são: o núcleo caldado e o septo.
3. Sobre sexo casual, consulte Helen Fisher, Why We Love (Nova York: Henry Holt, 2004), 14p. 117.
4. Sobre características atrativas, consulte David Buss, “Sex Differences in Human Mate Preference: Evolutionary Hypotheses Tested in 37 Cultures”, Behavioral and Brain Sciences 12 (1989), pp. 1–49.
5. Sobre o estudo da transpiração, consulte Charles Wysocki, “Male Axillary Extracts Contain Pheromones that Affect Pulsatile Secretion of Luteinizing Hormone and Mood in Women Recipients”, Biology of Reproduction 68 (2003), pp. 2.107–13.
6. Sobre a proporção busto-cintura-quadril, vide David Buss, “Sex Differences”.
7. Devendra Singh, “Female Mate Value at a Glance: Relationship of Hip-to-Waist Ratio to Health, Fecundity, and Attractiveness”, Neuroendocrinology Letters, suppl.4 (2002), pp. 81–91.
8. As principais áreas ativadas durante o amor romântico são a ínsula medial, o CCA, o núcleo caldado e o putâmen, todos em ambos os lados. Todas essas áreas se ativam durante felicidade intensa. Igualmente importantes, porções do giro cingulado e da amígdala que se ativam durante a disforia foram desativadas. Vide Andrea Bartels and Semir Zeki, “The Neural Basis of Romantic Love”, NeuroReport 17 (2000), pp. 3.829–34.
9. Sobre excitação sexual e circuito cerebral nos homens, vide Serge Stoleru et al., “Neuroanatomical Correlates of Visually Evoked Sexual Arousal in Human Males”, Archives of Sexual Behavior 28 (1999), pp. 1–21; S. L. Rauch et al., “Neural Activation During Sexual and Competitive Arousal in Healthy Men”, Psychiatry Research 91(1999), pp. 1–10.
10. O circuito neural para o sexo inclui estruturas no cérebro límbico superior como a área do septo, o núcleo BNSA e as áreas pré-ópticas, que se conectam, por meio do hipotálamo anterior, ao prosencéfalo medial do hipotálamo lateral. Vide Jaak Panksepp, Affective Neuroscience: The Foundations of Human and Animal Emotions (New York: Oxford University Press, 1998).
11. O circuito da agressão se concentra nos lobos temporais, uma área mais ativa nos homens; o circuito da educação terna, concentrado na área cingulada, tende a ser mais ativo nas mulheres. Aqui, como em qualquer outra parte do cérebro, o que acontece depende de detalhes específicos: exatamente como a testosterona afeta o desejo sexual nas mulheres difere dependendo da dose; níveis moderados aumentam a libido, enquanto níveis muito altos a reduzem. Vide R. C. Gur et al., “Sex Differences in Regional Cerebral Glucose Metabolism During a Resting State”, Science 267 (1995), pp. 528–31.
12. A dopamina eleva os níveis de testosterona, assim os antidepressivos que elevam os níveis de dopamina muitas vezes elevam também a libido. See J. P. Heaton, “Central Neuropharmacological Agents and Mechanisms in Erectile Dysfunction: The Role of Dopamine”, Neuroscience and Biobehavioral Reviews 24 (2000), pp. 561–69.
 
13. A vasopressina também pode estimular a agressão. A vasopressina e a oxitocina atuam nos cérebros tanto do homem quanto da mulher: esta possivelmente energizando o lado mais assertivo da maternidade nas mulheres e a outra encorajando o lado mais suave da paternidade nos homens.
14. Este relato simplificado da neuroquímica do amor baseia-se em Panksepp, Affective Neuroscience. Panksepp observa que uma gama muito maior de substâncias químicas cerebrais entra em ação na sexualidade, mas ainda sabemos muito pouco sobre elas.
15. Vide C. S. Carter, “Oxytocin and Sexual Behavior”, Neuroscience and Behavioral Reviews 16 (1992), pp. 131–44.
16. Sobre o jovem advogado e sua noiva, vide Mark Epstein, Open to Desire (Nova York: Gotham, 2005).
17. Anne Rice falou sobre suas fantasias sexuais em Katherine Ramsland, Roquelaure Reader: A Companion to Anne Rice’s Erotica (Nova York: Plume, 1996).
18. Sobre temas comuns de fantasias, vide Harold Leitenberg e Kris Henning, “Sex Fantasy”, Psychological Bulletin 117 (1995), pp. 469–96.
19. Nem todas as fantasias sexuais envolvem uma cena elaborada; algumas são meramente pensamentos ou imagens de uma atividade romântica ou sexual. Para uma revisão do consenso atual em psicologia, vide ibid.
20. Sobre fantasias, vide Sigmund Freud, “Creative Writers and Daydreaming”, in James Strachey, org., The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, Vol. 9 (1908; Londres: Hogarth Press, 1962), p. 146.
21. Sobre sonhar acordado, vide, por exemplo, G. D. Wilson e R. J. Lang, “Sex Differences in Sexual Fantasy Patterns”, Personality and Individual Differences 2 (1981), pp. 343–46.
22. Porém, se a realidade da fantasia for imposta ao outro, sem seu consentimento, o Eu-Tu se evapora, transformando-se na realidade Eu-Isso: “Isso me excita” e não “Você me excita”. A etiqueta para navegar nessa fronteira entre consentimento e imposição aparentemente foi bem definida na subcultura da ligação e da disciplina, em que a própria natureza das fantasias em operação pode muito facilmente escorregar para o desastre interpessoal.
23. Michael J. Bader, The Secret Logic of Sexual Fantasies (Nova York: St. Martin’s Press, 2002), p. 157.
24. Sobre narcisistas e atitudes sexuais, vide Brad J. Bushman et al., “Narcissism, Sexual Refusal, and Aggression: Testing a Narcissistic Reactance Model of Sexual Coercion”, Journal of Personality and Social Psychology 48 (2003), pp. 1.027–40.
25. Sobre mulheres forçadas a sexo sob coação, vide Edward O. Laumann et al., The Social Organization of Sexuality: Sexual Practices in the United States (Chicago: University of Chicago Press, 1994).
26. E. J. Kanin, “Date Rapists: Differential Sexual Socialization and Relative Deprivation”, Archives of Sexual Behavior 14 (1985), pp. 219–31.
27. Sobre sexo sob coação como estímulo ou não-estímulo, vide Bethany Lohr et al., “Sexual Arousal to Erotic and Aggressive Stimuli in Sexually Coercive and Noncoercive Men”, Journal of Abnormal Psychology 106 (1997), pp. 230–42.
28. K. E. Dean e N. M. Malamuth, “Characteristics of Men Who Aggress Sexually and of Men Who Imagine Aggressing”, Journal of Personality and Social Psychology 72 (1997), pp. 449–55.
29. Sobre testosterona, vide Alan Booth e James Dabbs, Jr., “Testosterone and Men’s Marriages”, Social Forces 72, n. 2 (1993), pp. 463–78.
30. Sobre excitação com imagens de estupro, vide G. Hall et al., “The Role of Sexual Arousal in Sexually Aggressive Behavior: a Meta-analysis”, Journal of Clinical and Consulting Psychology 61 (1993), pp. 1.091–95.
31. Sobre a falta de empatia dos estupradores condenados, vide D. Scully, Understanding Sexual Violence (Londres: HarperCollinsAcademic, 1990).
32. Sobre estupradores e mensagens negativas, vide E. C. McDonell e R. M. McFall, “Construct Validity of Two Heterosocial Perception Skill Measures for Assessing Rape Proclivity”, Violence and Victims 6 (1991), pp. 17–30.
33. Indícios clínicos sugerem que os criminosos sexuais se masturbam regularmente com fantasias de seu cenário preferido. Algumas prisões para pedófilos, estupradores e exibicionistas tentam redu zir o índice de repetição de ofensas após a libertação dos prisioneiros oferecendo programas de tratamento. Durante muitas décadas, o tratamento girava em torno de tentar mudar as fantasias do criminoso, por exemplo, associando o cenário durante a masturbação com um odor desagradável ou usando medicação bloqueadora de hormônios para eliminar o desejo perturbador. Hoje, porém, essas abordagens em si são vistas como insuficientes se não forem acompanhadas de outra que também aumente a empatia do criminoso pelas vítimas. Assim, os tratamentos podem incluir fazer com que o criminoso conheça vítimas reais de crimes como os cometidos por ele, a fim de ouvir sua descrição da dor e do sofrimento aos quais foram submetidas. Os tratamentos abordam também a noção distorcida do criminoso de como as vítimas os vêem. Os exibicionistas, por exemplo, são confrontados com o fato de que as mulheres às quais eles se expõem normalmente os verem como patéticos, não como impressionantes. A terapia também ataca o pensamento distorcido que permite a um perpetrador racionalizar o crime como inofensivo. Por outro lado, tentar suprimir as peri gosas fantasias pode ter um efeito paradoxal: elas podem aumentar, em vez de diminuir, à medida que tentamos evitá-las. Assim, nos programas mais eficazes, os criminosos aprendem a prevenir uma recaída detectando os sinais iniciais de fantasias perigosas e podando pela raiz os hábitos que no passado os levaram a colocar tais fantasias em prática. Vide Leitenberg e Henning, “Sex Fantasy”.
34. Consulte, por exemplo, Neil Malamuth, “Predictors of Naturalistic Sexual Aggression”, Journal of Personality and Social Psychology 50 (1986), pp. 953–62.
35. Sobre desejo com empatia, vide Judith Jordan, “Clarity in Connection: Empathic Knowing, Desire, and Sexuality”, in Women’s Growth in Diversity (Nova York: Guilford, 1997). Sobre orgasmo do ego, vide, por exemplo, Masud Khan, “Ego-Orgasm in Bisexual Love”, International Review of Psycho-analysis 1 (1974), pp. 143–49.

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publicado às 20:11


As Origens da Empatia

por Thynus, em 20.02.18
Voltemos a Gary, o brilhante mas alexitímico médico que tanto perturbava a noiva, Ellen, por ignorar não apenas seus próprios sentimentos, mas também os dela. Como a maioria dos alexitímicos, faltava-lhe não só empatia, mas também intuição. Se Ellen se dizia deprimida, ele não demonstrava entender os seus sentimentos; se ela falava de amor, ele mudava de assunto. Gary fazia críticas “construtivas” a coisas que Ellen fazia, sem compreender que ela se sentia agredida, e não ajudada.
A empatia é alimentada pelo autoconhecimento; quanto mais consciente estivermos acerca de nossas próprias emoções, mais facilmente poderemos entender o sentimento alheio.1 Alexitímicos como Gary, que não têm idéia do que eles próprios sentem, ficam completamente perdidos quando se trata de saber o que as pessoas à sua volta estão sentindo. Não têm ouvido emocional. As notas e os acordes emocionais que são entoados nas palavras e ações das pessoas — um tom revelador ou mudança de postura, o silêncio eloqüente ou o tremor que trai — passam despercebidos.
Confusos acerca de seus próprios sentimentos, os alexitímicos ficam igualmente perplexos quando outras pessoas falam do que estão sentindo. Essa incapacidade de registrar os sentimentos de outrem significa que existe um grande déficit de inteligência emocional e uma trágica falha no entendimento do que significa ser humano. Pois todo relacionamento, que é a raiz do envolvimento, vem de uma sintonia emocional, da capacidade de empatia.
Essa capacidade — de saber como o outro se sente — entra em jogo em vários aspectos da vida, quer nas práticas comerciais, na administração, no namoro e na paternidade, no sermos piedosos e na ação política. A falta de empatia é também reveladora. Nota-se em criminosos psicopatas, estupradores e molestadores de crianças.
As emoções das pessoas raramente são postas em palavras; com muito mais freqüência, são expressas sob outras formas. A chave para que possamos entender os sentimentos dos outros está em nossa capacidade de interpretar canais não-verbais: o tom da voz, gestos, expressão facial e outros sinais. Talvez a mais ampla pesquisa acerca da capacidade que têm as pessoas de detectar mensagens não-verbais seja a de Robert Rosenthal, psicólogo de Harvard, e seus alunos. Ele idealizou um teste de aferição de empatia, o PONS — Profile of Nonverbal Sensitivity,[1] que consiste na exibição de uma série de videoteipes em que uma jovem manifesta sentimentos que vão da antipatia ao amor materno.2 As cenas percorrem todo um espectro de emoções, desde um acesso de ciúmes até um pedido de perdão, de uma demonstração de gratidão a uma sedução. O vídeo foi editado de forma que, em cada um desses estados, fossem sistematicamente apagados um ou mais canais de comunicação não-verbal; além do som, por exemplo, em algumas cenas todos os outros sinais são bloqueados, sendo mantida apenas a expressão facial. Em outras, somente são exibidos os movimentos do corpo, e assim por diante, passando pelos principais canais não-verbais de comunicação, para que os espectadores possam detectar a emoção a partir de uma ou outra indicação não-verbal.
Em testes feitos com mais de 7 mil pessoas nos Estados Unidos e em outros 18 países, as vantagens de poder interpretar sentimentos a partir de indicações não-verbais incluíam um melhor ajustamento emocional, maior popularidade, mais abertura e — talvez o que seja mais surpreendente — maior sensibilidade. Em geral, as mulheres são melhores que os homens nesse tipo de empatia. E as pessoas cujo desempenho melhorou no decorrer do teste, que durou 45 minutos — um indicador de que aquelas pessoas têm talento para adquirir aptidões de empatia —, também se relacionavam melhor com o sexo oposto. A empatia, não é nenhuma surpresa, ajuda na vida romântica.
Conforme constatações sobre outros elementos de inteligência emocional, havia apenas uma relação incidental entre as contagens nessa medição de acuidade e os resultados do SAT, QI ou dos testes de desempenho escolares. A independência da empatia em relação à inteligência acadêmica também foi constatada em testagens com uma versão do PONS destinada a crianças. Em testes feitos em 1.011 crianças, aquelas que mostraram aptidão para interpretar sentimentos não-verbalizados eram consideradas as mais queridas na escola, eram as mais emocionalmente estáveis.3 Além disso, tinham melhor desempenho acadêmico embora, na média, não tivessem QI superior ao de outras crianças menos capacitadas para interpretar mensagens não-verbais — o que sugere que o domínio dessa capacidade empática abre o caminho para a eficiência na sala de aula (ou simplesmente faz com que os professores gostem mais delas).
Assim como a forma de expressão da mente racional é a palavra, a das emoções é não-verbal. Na verdade, quando as palavras de alguém entram em desacordo com o que é transmitido por seu tom de voz, gestos ou outros canais não-verbais, a verdade emocional está mais no como ele diz alguma coisa do que no que ele diz. Uma regra elementar usada na pesquisa de comunicações é que 90% ou mais de uma mensagem emocional são não-verbais. E essas mensagens — ansiedade no tom de voz de alguém, irritação na rapidez de um gesto — são quase sempre aceitas inconscientemente, sem que se dê uma atenção especial ao conteúdo da mensagem, mas apenas recebendo-a e respondendo-a tacitamente. As aptidões que nos permitem fazer isso bem ou mal são também, na maioria das vezes, inferidas.
 
Faça valer o poder da empatia
Como se Desenvolve a Empatia
Assim que Hope, de apenas nove meses, viu outro bebê levar um tombo, ficou com os olhos cheios d’água e engatinhou até sua mãe, procurando consolo, embora não fosse ela que tivesse levado o tombo. E Michael, com um ano e três meses, foi buscar seu ursinho de pelúcia para entregá-lo ao amigo Paul, que chorava; como Paul continuasse chorando, Michael se agarrou no cobertorzinho “de segurança” do amigo. Esses pequenos atos de simpatia e solidariedade foram observados por mães treinadas para registrar tais incidentes de demonstração de empatia.4 Os resultados do estudo sugerem que as origens da empatia podem ser identificadas já na infância. Praticamente desde o dia em que nascem, os bebês ficam perturbados quando ouvem outro bebê chorando — uma reação que alguns encaram como o primeiro indicador da empatia que se desenvolverá até a idade adulta.5
Psicólogos do desenvolvimento infantil descobriram que os bebês são solidários diante da angústia de outrem, mesmo antes de adquirirem a percepção de sua individualidade. Mesmo poucos meses após o nascimento, os bebês reagem a uma perturbação sentida por aqueles que estão em torno deles, como se esse incômodo estivesse acontecendo neles próprios, chorando ao verem que outra criança está chorando. Em torno de um ano, começam a compreender que o sofrimento não é deles, mas de outro, embora ainda pareçam confusos sobre o que fazer. Numa pesquisa feita por Martin L. Hoffmann, da Universidade de Nova York, por exemplo, uma criança de um ano trouxe a própria mãe para consolar um amigo que chorava, ignorando que a mãe do amigo também estava no recinto. Essa confusão se vê também quando crianças de um ano imitam a angústia de outras, possivelmente para melhor compreender o que elas estão sentindo; por exemplo, se outro bebê machuca os dedos, um bebê de um ano põe os seus dedos na boca, para ver se também doem. Ao ver a mãe chorar, um bebê enxugou os próprios olhos, embora não tivessem lágrimas.

Essa mímica motora, como é denominada, é o significado técnico original da palavra empatia, como pela primeira vez foi usada, na década de 1920, por E. B. Titchener, psicólogo americano. Esse sentido é um pouco diferente de sua introdução original em inglês, do grego empátheia, “entrar no sentimento”, termo inicialmente usado por teóricos da estética para designar a capacidade de perceber a experiência subjetiva de outra pessoa. A tese de Titchener era de que a empatia vinha de uma espécie de imitação física da angústia de outra pessoa, que então evoca os mesmos sentimentos em nós. Ele procurou uma palavra distinta de simpatia, algo que sentimos pelo que o outro está vivenciando, sem, contudo, sentir o que esse outro está sentindo.
A mímica motora desaparece do repertório dos bebês por volta dos dois anos e meio, quando eles percebem que o sofrimento de outra pessoa é diferente do deles, e então podem melhor consolá-los. Um incidente típico, extraído do diário de uma mãe:
O bebê de um vizinho chora... e Jenny se aproxima e tenta dar-lhe biscoito. Segue-o por toda parte e começa a choramingar. Então, tenta alisar os cabelos dele, mas ele se afasta... Ele se acalma, mas Jenny continua preocupada. Continua a trazer-lhe brinquedos e a dar-lhe tapinhas na cabeça e nos ombros.6
Nessa altura de seu desenvolvimento, os bebês começam a se diferenciar na sensibilidade geral às perturbações emocionais de outras pessoas, com alguns, como Jenny, sendo agudamente conscientes e outros desligando-se. Uma série de estudos feitos por Marian Radke-Yarrow e Carolyn Zahn-Waxler, do Instituto Nacional de Saúde Mental, mostrou que grande parte dessa diferença em interesse empático tinha a ver com a maneira como os pais educavam seus filhos. Elas constataram que as crianças eram mais empáticas quando a educação incluía chamar fortemente a atenção para a aflição que o mau comportamento delas causava nos outros: “Veja como você a deixou triste” em vez de “Isso foi malfeito”. Também descobriram que a empatia das crianças é igualmente moldada por verem como os outros reagem quando alguém mais está aflito; imitando o que vêem, as crianças desenvolvem um repertório de reação empática, sobretudo na ajuda a outras pessoas angustiadas.
 
A Criança Bem Sintonizada
Sarah tinha 25 anos quando deu à luz dois gêmeos, Mark e Fred. Achou que Mark se parecia mais com ela; Fred, mais com o pai. Essa percepção pode ter sido a semente de uma reveladora mas sutil diferença na maneira como ela lidou com cada um dos meninos. Quando eles tinham apenas três meses, Sarah muitas vezes tentava atrair o olhar de Fred, e quando ele virava o rosto, ela tentava de novo; Fred reagia dando-lhe mais enfaticamente as costas. Assim que ela olhava para outro lado, ele tornava a olhar para ela, e o esconde-esconde recomeçava — muitas vezes deixando Fred em prantos. Mas, com Mark, Sarah nunca tentava estabelecer contato ocular como fazia com Fred. Ao contrário, Mark podia romper esse contato quando quisesse, que ela não insistia.
Um ato pequeno, mas revelador. Um ano depois, Fred era visivelmente mais medroso e dependente do que Mark; uma das maneiras como demonstrava esse medo era evitando olhar nos olhos de outras pessoas, como fizera com a mãe aos três meses, baixando e desviando o rosto. Mark, por outro lado, olhava direto nos olhos dos outros; quando queria romper o contato, virava ligeiramente a cabeça para cima e para o lado, com um sorriso cativante.
Os gêmeos e a mãe foram minuciosamente observados quando participaram da pesquisa de Daniel Stern, um psiquiatra então na Faculdade de Medicina da Universidade Cornell.7 Stern é fascinado com os pequenos e repetidos
intercâmbios que ocorrem entre pais e filhos; acredita que as lições mais elementares da vida emocional se dão nesses momentos íntimos. Desses momentos, os mais críticos são os que informam à criança que seus sentimentos encontram empatia, são aceitos e retribuídos, num processo que Stern chama de sintonia. A mãe dos gêmeos estava sintonizada com Mark, mas emocionalmente dessincronizada com Fred. Stern afirma que os incontáveis momentos de sintonia ou não sintonia entre pais e filhos moldam as expectativas emocionais que, quando adultos, levarão para seus relacionamentos — talvez muito mais do que os mais dramáticos acontecimentos da infância.
A sintonia ocorre tacitamente, como parte do ritmo de relacionamento. Stern estudou-a com precisão microscópica, em horas de gravação em vídeo de mães com seus bebês. Ele constata que, pela sintonização, as mães informam aos bebês que compreendem o que eles estão sentindo. O bebê grita de prazer, por exemplo, e a mãe atesta esse prazer balançando-o de forma delicada, arrulhando ou imitando o guincho dele. Ou o bebê sacode o chocalho, e ela responde, balançando-o. Nessa interação, a mensagem de afirmação está no fato de a mãe se igualar mais ou menos no nível de excitação do bebê. Essas pequenas sintonizações dão ao bebê a tranqüilizadora sensação de estar emocionalmente ligado, uma mensagem que Stern constata que as mães enviam cerca de uma vez a cada minuto quando interagem com seus bebês.
A sintonização é muito diferente da simples imitação.
— Se você apenas imita um bebê — disse-me Stern —, isso apenas mostra que sabe o que ele fez, mas não como se sentiu. Para que ele saiba que você sente como ele se sente, é preciso reproduzir os sentimentos íntimos dele de outra forma. Aí o bebê sabe que foi entendido.
O amor físico é talvez a coisa mais próxima, na vida adulta, dessa íntima sintonização entre o bebê e a mãe. O amor físico, escreve Stern, “envolve a experiência de sentir o estado subjetivo do outro: desejo partilhado, intenções alinhadas e mútuos estados de excitação simultaneamente mutáveis”, com os amantes respondendo um ao outro numa sincronia que exprime, de forma tácita, o significado de profunda relação.8 O amor físico é, no que tem de melhor, um ato de mútua empatia; no pior, falta-lhe toda essa mutualidade emocional.
 
Quanto Custa a Falta de Sintonia
Stern afirma que, com essas repetidas sintonizações, o bebê começa a desenvolver o sentimento de que outras pessoas podem partilhar e partilham de seus sentimentos. Esse sentido parece surgir por volta dos 8 meses, quando os bebês começam a compreender que não estão em simbiose com as outras pessoas, e continua a ser moldado por relacionamentos íntimos durante toda a vida. Quando os pais não estão em sintonia com um filho, isso é profundamente perturbador. Num experimento, Stern fez com que as mães deliberadamente respondessem com mais e com menos intensidade a seus bebês, em vez de se igualarem de modo sintonizado; os bebês reagiram com imediata consternação e angústia.
Uma prolongada ausência de sintonia entre pai e filho impõe um tremendo tributo emocional à criança. Quando um pai repetidamente não entra em empatia com uma determinada gama de emoções da criança — alegria, lágrimas, necessidade de aconchego —, a criança começa a evitar expressar, e talvez mesmo a sentir, esses tipos de emoção. Dessa forma, presume-se, séries inteiras de emoção para relacionamentos íntimos podem começar a ser apagadas do repertório, sobretudo se durante a infância esses sentimentos continuarem a ser tácita ou expressamente desestimulados.
Da mesma forma, as crianças podem vir a preferir uma infeliz gama de emoção, dependendo dos estados de espírito que lhes foram retribuídos. Mesmo os bebês “captam” estados de espírito: bebês de 3 meses cujas mães estão deprimidas, por exemplo, refletiam esse mesmo estado de espírito quando brincavam com elas, exibindo mais sentimentos de ira e tristeza, e muito menos curiosidade e interesse espontâneos, em comparação com bebês cujas mães não estavam deprimidas.9
Uma mãe, no estudo de Stern, sempre reagia com pouca intensidade ao nível de atividade de seu bebê; o bebê acabou aprendendo a ser passivo.
— Um bebê tratado desse modo aprende: quando eu fico excitado, minha mãe não fica igualmente excitada, logo, talvez seja melhor nem tentar — afirma Stern. Mas há esperanças nos “relacionamentos reparadores”. — Os relacionamentos de toda a vida — com amigos ou parentes, por exemplo, ou na psicoterapia — remodelam continuamente nosso modo funcional de tê-los. Um desequilíbrio num ponto pode ser corrigido depois; é um processo contínuo, de uma vida inteira.
Na verdade, várias teorias da psicanálise vêem a relação que se estabelece entre analista e analisando como proporcionando exatamente esse ajustamento emocional, uma experiência reparadora de sintonização. Espelhar é o termo empregado por alguns pensadores psicanalíticos para designar o fato de o terapeuta ser, para o paciente, o reflexo de seu estado interior, como faz uma mãe sintonizada com o seu bebê. A sincronia emocional é tácita e fora da consciência, embora o paciente possa extrair um grande prazer da sensação de que está sendo profundamente reconhecido e entendido.
Os custos emocionais, para toda uma vida, decorrentes da falta de sintonização na infância podem ser grandes — e não só para a criança. Um estudo sobre criminosos que praticaram os crimes mais cruéis e violentos constatou que o que lhes caracterizava e os distinguia de outros criminosos é que, na infância, tinham sido mandados de uma casa de adoção para outra, ou criados em orfanatos — históricos de vida que sugerem abandono emocional e pouca oportunidade de sintonização.10
Enquanto o abandono emocional parece embotar a empatia, há um resultado paradoxal quando ocorre abuso emocional intenso e constante, incluindo ameaças cruéis e sádicas, humilhações e maldade pura e simples. As crianças que sofrem tais abusos podem tornar-se hiperalertas para as emoções daqueles que as cercam, o que é equivalente a uma vigilância pós-traumática para detectar indícios que anunciem ameaça. Essa preocupação obsessiva com os sentimentos dos outros é típica de crianças psicologicamente maltratadas e que, na idade adulta, sofrem os mercuriais altos e baixos às vezes diagnosticados como “distúrbio limite de personalidade”. Muitas dessas pessoas têm o dom de sentir o que sentem os que as cercam, e é muito comum relatarem que sofreram abusos emocionais na infância.11
 
A Neurologia da Empatia
Como tantas vezes acontece na neurologia, os relatos de casos peculiares e bizarros estão entre os primeiros indícios de que há um componente cerebral na empatia. Um trabalho de 1957, por exemplo, examinava vários casos em que os pacientes com certas lesões na área direita dos lobos frontais tinham um déficit curioso: não eram capazes de entender a mensagem emocional através do tom de voz das pessoas, embora fossem perfeitamente capazes de entender as palavras. Os “muito obrigado” sarcásticos, agradecidos ou furiosos tinham, todos, o mesmo sentido neutro para eles. Em contraste, um trabalho de 1979 falava de pacientes com danos em outras partes do hemisfério direito que tinham uma falha bastante diferente na percepção emocional. Estes eram incapazes de expressar suas emoções através do tom de voz ou gestos. Sabiam o que sentiam, mas simplesmente não eram capazes de transmiti-lo. Todas essas regiões corticais do cérebro, observaram os vários autores, tinham fortes ligações com o sistema límbico.
Esses estudos serviram como pano de fundo de um trabalho para um seminário de Leslie Brothers, psiquiatra do Instituto de Tecnologia da Califórnia, sobre a biologia da empatia.12 Examinando relatos neurológicos, Brothers aponta as amígdalas corticais e suas ligações com a área de associação do córtex visual como parte dos circuitos-chave do cérebro que estão por trás da empatia.
Grande parte da importante pesquisa neurológica vem do trabalho com animais, sobretudo primatas não-humanos. O fato de que esses animais demonstram empatia — ou “comunicação emocional”, como Brothers prefere chamar — fica evidenciado não apenas pelas histórias que são relatadas, mas também por estudos como o seguinte: primeiro, treinaram-se macacos Rhesus para terem medo de um determinado som, fazendo-se com que o ouvissem enquanto recebiam um choque. Depois, eles aprenderam a evitar o choque empurrando uma alavanca sempre que ouviam o som. Em seguida, pares desses macacos foram postos em jaulas separadas, tendo como única comunicação entre si um circuito fechado de TV, que lhes permitia ver as feições um do outro. O primeiro macaco, mas não o segundo, ouvia então o som temido, que trazia uma expressão de pânico à sua cara. Nesse momento, o segundo macaco, vendo o medo na fisionomia do primeiro, empurrava a alavanca que impedia o choque — um ato de empatia, senão de altruísmo.
Havendo estabelecido que os primatas não-humanos de fato são capazes de captar emoções a partir da expressão facial de seus iguais, os pesquisadores inseriram delicadamente longos eletrodos pontiagudos no cérebro dos macacos. Esses eletrodos permitiam a gravação da atividade num único neurônio. Os eletrodos que monitoravam neurônios no córtex visual e nas amígdalas mostraram que, quando um macaco via a cara do outro, essa informação levava ao disparo de um neurônio, primeiro, no córtex visual, e depois, nas amígdalas corticais. Esse caminho, claro, é uma rota-padrão da informação emocionalmente estimulante. Mas o que surpreende nos resultados desses estudos é que também identificaram neurônios no córtex visual que parecem disparar somente em resposta a expressões faciais ou gestos específicos, como um ameaçador abrir a boca, uma careta terrível ou um dócil agachamento. Esses neurônios são distintos de outros na mesma região que reconhecem rostos familiares. Isso poderia significar que o cérebro se destina desde o princípio a responder a expressões emocionais específicas — ou seja, que a empatia é um dado da biologia.
Outra linha de indícios para o papel-chave do caminho amígdala-córtex na leitura e resposta de emoções, sugere Brothers, é a pesquisa na qual foram cortadas as ligações entre amígdalas e córtex de macacos selvagens. Quando os soltaram de volta a seu habitat, esses macacos podiam praticar tarefas comuns como alimentar-se e subir em árvores. Mas os infelizes animais tinham perdido qualquer noção de como reagir emocionalmente aos outros. Mesmo quando um deles fazia uma abordagem amistosa, os outros fugiam, e eles acabaram se isolando, evitando contato com o grupo a que pertenciam.
Brothers observa que as mesmas regiões do córtex onde se concentram os neurônios específicos da emoção são também as de mais densa ligação com as amígdalas; a interpretação de emoções envolve os circuitos amígdala-córtex, que têm um papel-chave na organização das respostas adequadas.
— O valor para a sobrevivência desse sistema é óbvio — observa Brothers. — A percepção da aproximação de outro indivíduo deveria determinar um certo padrão [de resposta fisiológica] — e muito rapidamente — que fosse apropriado à intenção de morder, de entrar numa gostosa sessão de cafuné ou copular.13
Uma base fisiológica semelhante da empatia em nós humanos é sugerida numa pesquisa realizada por Robert Levenson, psicólogo da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que estudou casais em que cada cônjuge tentava adivinhar o que o outro estava pensando durante uma acalorada discussão que mantinham.14 O método dele é simples: o casal é filmado em vídeo e suas respostas fisiológicas vão sendo medidas enquanto eles discutem um problema importante no casamento deles — educação das crianças, hábitos de despesa e coisas assim. Depois, cada um deles vê o filme e descreve o que sentia, momento a momento. O outro cônjuge revê a fita, desta vez tentando interpretar os sentimentos do outro.
A mais precisa acuidade empática ocorreu nos maridos e esposas cuja própria fisiologia identificava a do cônjuge que eles estavam vendo. Quer dizer, quando um suava mais, o outro também; quando um sofria uma queda nos batimentos cardíacos, o mesmo acontecia com o outro. Em suma, o corpo de um imitava as mais sutis reações físicas do outro. Se aquele que estivesse vendo o filme repetisse o mesmo comportamento fisiológico que tivera na situação ao vivo, este dado era apontado como um indicador de que ele não era capaz de entender o sentimento do outro. Só quando o corpo de um entrava em sintonia com o corpo do outro é que ocorria a empatia.
Isso sugere que quando o cérebro emocional dirige o corpo com uma forte emoção — o calor da fúria, digamos —, há pouca ou nenhuma empatia. Empatia exige bastante calma e receptividade para que os sutis sinais de sentimento de uma pessoa sejam recebidos e imitados pelo cérebro emocional da outra pessoa.
 
Empatia e Ética: As Raízes do Altruísmo
“Nunca pergunte por quem dobra o sino; ele dobra por ti” é um dos versos mais famosos da literatura inglesa. O sentimento de John Donne fala ao cerne da ligação entre empatia e envolvimento: a dor do outro é nossa. Sentir com o outro é envolver-se. Neste sentido, o oposto de empatia é antipatia. A atitude empática empenha-se interminavelmente em julgamentos morais, pois os dilemas morais envolvem vítimas potenciais. Deve-se mentir para evitar ferir os sentimentos de um amigo? Deve-se manter o compromisso de visita a um amigo doente ou, ao contrário, aceitar um convite de última hora para um jantar? Até quando devem ser mantidos ligados os aparelhos hospitalares que mantêm a vida de alguém?
Essas questões morais são colocadas pelo pesquisador de empatia Martin Hoffman, que afirma que as raízes da ética estão na empatia, pois é o sentir empatia com as vítimas potenciais — alguém que sofre, que está em perigo, ou que passa privação, digamos — e, portanto, partilhar da sua aflição que leva as pessoas a agirem para ajudá-las.15 Além dessa ligação imediata entre empatia e altruísmo nos encontros pessoais, Hoffman sugere que a própria capacidade de afeto empático, de colocar-se no lugar de outra pessoa, leva as pessoas a seguir certos princípios morais.
Hoffman vê um desenvolvimento natural na empatia a partir da infância. Como vimos, com um ano de idade, a criança se sente aflita quando vê outra cair e começar a chorar; sua relação é tão forte e imediata que ela põe o polegar na boca e enterra a cabeça no colo da mãe, como se fosse ela a machucada. Depois do primeiro ano, quando os bebês se tornam mais conscientes de que são distintos dos outros, tentam ativamente consolar um outro que chora, oferecendo-lhe ursinhos de pelúcia, por exemplo. Já aos 2 anos as crianças começam a perceber que os sentimentos dos outros não são os seus e, com isso, se tornam mais sensíveis a indícios que revelam o que o outro de fato sente; nessa altura, podem, por exemplo, reconhecer que o orgulho de outra criança pode significar que a melhor maneira de ajudá-la a lidar com suas lágrimas é não chamar indevida atenção para elas.
No fim da infância, surgem os mais elevados níveis de empatia, pois as crianças são capazes de entender a aflição que está além de um acontecimento específico e constatar que a condição ou posição de alguém na vida pode ser um motivo de aflição permanente. Nesse ponto, as crianças podem perceber as circunstâncias de todo um grupo, como os pobres, os oprimidos, os marginalizados. Essa compreensão, na adolescência, pode reforçar convicções morais centradas na vontade de aliviar o infortúnio e a injustiça.
A empatia é o suporte de muitas facetas de julgamento e ação morais. Uma delas é a “raiva empática”, que John Stuart Mill descreveu como “o sentimento natural de retaliação (...) tornado pelo intelecto e a simpatia aplicável (...) aos sofrimentos que nos ferem por ferir outros”; Mill chamou isso de “guardião da justiça”. Outro exemplo em que a empatia conduz à ação moral é quando um circunstante é levado a intervir em favor de uma vítima; a pesquisa mostra que, quanto mais empatia ele sentir pela vítima, maior a probabilidade de vir a intervir. Há algum indício de que o nível de empatia que as pessoas sentem também afeta seus julgamentos morais. Por exemplo, estudos na Alemanha e nos Estados Unidos constataram que, quanto mais empáticas as pessoas, mais fica fortalecido, para elas, o princípio moral segundo o qual a riqueza deva ser distribuída conforme a necessidade de cada um.16
 
A Vida sem Empatia: A Mente do Molestador, a Moral do Sociopata
Eric Eckardt envolveu-se num crime infame: guarda-costas da patinadora Tonya Harding, mandou vagabundos agredirem Nancy Kerrigan, arqui-rival de Tonya pela medalha de ouro de patinação feminina nas Olimpíadas de 1994. No ataque, o joelho de Tonya foi machucado, deixando-a de fora da competição durante meses de cruciais exercícios. Mas, quando Eckardt a viu chorando na televisão, teve uma súbita onda de remorso e procurou um amigo para revelar seu segredo, iniciando a seqüência que levou à prisão dos atacantes. Tal é o poder da empatia.
Mas ela está em geral, e tragicamente, ausente naqueles que cometem os crimes mais hediondos. Uma falha psicológica é comum em estupradores, molestadores de crianças e muitos perpetradores de violência familiar: são incapazes de empatia. Essa incapacidade de sentir a dor das vítimas lhes permite dizer a si mesmos mentiras que justificam o seu crime. Para os estupradores, a mentira inclui “As mulheres querem mais é ser estupradas” ou “Se ela resiste, é só pra bancar a difícil”; para os molestadores: “Não estou machucando a criança, só demonstrando amor” ou “Esta é apenas mais uma forma de afeto”; para os pais violentos: “Isso é pra aprender.” Todas essas autojustificações foram coletadas a partir do que pessoas em tratamento relatam terem dito a si mesmas quando brutalizavam suas vítimas, ou quando estavam em vias de fazê-lo.
A ausência da empatia no momento em que essas pessoas infligem dano às vítimas é quase sempre parte de um ciclo emocional que precipita seus atos cruéis. É só ver a seqüência emocional que, normalmente, leva a um crime sexual como, por exemplo, molestar crianças.17 O ciclo começa com o molestador sentindo-se perturbado: irado, deprimido, solitário. Esses sentimentos podem ser provocados, digamos, vendo casais felizes na TV, e depois sentindo-se deprimido por estar só. O molestador, então, busca consolo numa fantasia de sua preferência, em geral sobre uma cálida amizade com uma criança; a fantasia torna-se sexual e acaba em masturbação. Depois, o molestador sente um alívio temporário da tristeza, mas esse alívio tem vida breve; a depressão e a solidão retornam com mais intensidade. O molestador começa a pensar em transformar a fantasia em realidade, dando a si mesmo justificativas do tipo “Não estou fazendo nenhum mal de fato se a criança não for psicologicamente atingida” e “Se uma criança não quisesse mesmo fazer sexo comigo, ela pararia”.
Nessa altura, o molestador está vendo a criança pela lente da fantasia pervertida, sem empatia pelo que uma criança de fato sentiria na situação. Esse desligamento emocional caracteriza tudo que vem a seguir, desde o resultante plano de pegar a criança sozinha até o cuidadoso ensaio do que vai acontecer e a execução do plano. Tudo se segue como se a criança envolvida não tivesse sentimentos próprios; ao contrário, o molestador projeta nela a atitude cooperativa da criança de sua fantasia. Os sentimentos dela — repulsa, medo, nojo — não são registrados. Se fossem, “estragariam” tudo para o molestador.
Essa absoluta falta de empatia pelas vítimas é um dos principais focos de novos tratamentos, em vias de elaboração, para molestadores de crianças e outros criminosos do gênero. Num dos mais promissores programas de tratamento, os criminosos lêem dilacerantes histórias de crimes semelhantes aos que praticaram, contadas da perspectiva da vítima. Também vêem videoteipes de vítimas contando, em lágrimas, o que é ser molestado. Os criminosos então escrevem sobre seu próprio crime do ponto de vista da vítima, imaginando o que ela sentiu. Lêem essa história para um grupo de terapia e tentam responder às perguntas sobre o ataque do ponto de vista da vítima. Finalmente, o criminoso passa por uma reencenação simulada do crime, desta vez fazendo o papel da vítima.
William Pithers, psicólogo da prisão de Vermont que desenvolveu essa terapia de adoção da perspectiva da vítima, me disse:
— A empatia com a vítima muda a percepção de tal modo que é difícil a negação da dor, mesmo em nossas fantasias.
Isso reforça a motivação dos homens que desejam controlar seus impulsos sexuais perversos. Os criminosos sexuais que passaram pelo programa na prisão tiveram apenas metade da taxa de crimes posteriores após a libertação, comparados com os que não foram submetidos a esse tratamento. Sem essa motivação inicial inspirada pela empatia, nada do resto do tratamento dará certo.
Embora possa haver uma leve esperança de se instilar um sentimento de empatia em criminosos como os molestadores de crianças, há muito menos para outro tipo criminoso, o psicopata (mais recentemente chamado de sociopata na diagnose psiquiátrica). Os psicopatas são notórios por serem ao mesmo tempo encantadores e completamente desprovidos de remorso, mesmo em relação aos atos mais cruéis e impiedosos. A psicopatia, incapacidade de sentir qualquer tipo de empatia ou piedade, ou o mínimo problema de consciência, é um dos defeitos emocionais mais intrigantes. O núcleo da frieza do psicopata parece estar na incapacidade de ir além das mais tênues ligações emocionais. Os mais cruéis dos criminosos, como os sádicos assassinos em série, que se deliciam com o sofrimento de suas vítimas antes de elas morrerem, são exemplos clássicos da psicopatia.18
Os psicopatas são também deslavados mentirosos, prontos a dizer qualquer coisa para conseguir o que querem, e manipulam as emoções das vítimas com o mesmo cinismo. Vejam o desempenho de Faro, garoto de 17 anos e membro de uma gangue de Los Angeles que aleijou uma mãe e seu bebê atirando-os de um carro em movimento, o que ele descreveu mais com orgulho do que com remorso. Num carro com Leon Bing, que escrevia um livro sobre as gangues Crips e Blocks, de Los Angeles, Faro quer se exibir. Diz a Bing que “vai dar uma de doido” com os “dois panacas” no carro ao lado. Bing conta o ocorrido:
O motorista, sentindo que alguém o está observando, dá uma olhada no meu carro. Seus olhos encontram os de Faro e arregalam-se por um instante. Depois ele desfaz o contato, baixa os olhos, desvia os olhos. E não tenho a menor sombra de dúvida sobre o que vi ali nos olhos dele. Era medo.
Faro repete o olhar que lançou ao carro ao lado para Bing:
Ele olha direto para mim e tudo em seu rosto muda e se transforma, como por um truque de fotografia de tempo. Torna-se uma cara de pesadelo, apavorante de se ver. Diz à gente que se a gente retribuir o olhar dele, se desafiar esse garoto, é melhor poder se garantir. O olhar dele diz que ele não está dando a mínima para coisa alguma, nem para a vida da gente nem para a dele.19
É evidente que, num comportamento tão complexo quanto o crime, há muitas explicações plausíveis que não evocam base biológica. Uma delas seria a de que uma espécie de aptidão emocional perversa — intimidar os outros — é importante, em bairros violentos, para a sobrevivência, como seria voltar-se para o crime; nesses casos, empatia demais poderia ser contraproducente. Na verdade, uma oportunística falta de empatia pode ser uma “virtude” em muitos papéis na vida, do interrogador policial “barra pesada” ao invasor de empresas. Homens que trabalharam como torturadores para Estados terroristas, por exemplo, descrevem como aprenderam a se dissociar dos sentimentos das vítimas para fazer seu “serviço”. Há muitos caminhos para a manipulação.
Uma das mais sinistras formas em que a ausência de empatia pode mostrar-se foi descoberta por acaso num estudo sobre os mais perversos espancadores de esposa. A pesquisa revelou uma anomalia fisiológica entre muitos dos maridos mais violentos, aqueles que batem regularmente na mulher ou as ameaçam com facas e revólveres: eles fazem isso mais em estado de calma, de forma calculada, do que quando arrebatados pelo calor da fúria.20 À medida que aumenta a sua cólera, surge a anomalia: os batimentos cardíacos caem, em vez de elevarem-se, como acontece comumente na fúria em ascensão. Isso significa que estão ficando fisiologicamente mais calmos, no próprio momento em que se tornam mais beligerantes e abusivos. A violência deles parece ser um ato de terrorismo calculado, um método de controlar as esposas pela instilação do medo.
Esses maridos friamente brutais são uma raça à parte da maioria dos outros homens que espancam as esposas. Entre outras coisas, é mais provável que sejam também violentos fora do casamento, metendo-se em brigas de bar e entrando em luta corporal com colegas de trabalho e com outros membros da família. E, enquanto a maioria dos outros homens que ficam violentos com as esposas faz isso impulsivamente, com raiva por se sentirem rejeitados ou por ciúmes, ou por medo de serem abandonados, esses espancadores calculistas batem nas mulheres sem nenhum motivo aparente — e, uma vez que começam, nada que elas façam, incluindo tentar ir embora, parece conter a violência deles.
Alguns pesquisadores que estudam criminosos psicopatas suspeitam que a fria manipulatividade deles, essa ausência de empattia ou envolvimento, às vezes tem origem numa anomalia neural.[2] Uma possível base fisiológica para a psicopatologia cruel foi demonstrada de duas formas, ambas sugerindo o envolvimento de caminhos neurais para o cérebro límbico. Numa, as ondas cerebrais das pessoas são medidas quando tentam decifrar palavras embaralhadas. As palavras são exibidas muito rapidamente, por apenas cerca de um décimo de segundo. A maioria das pessoas reage de um modo diferente a palavras como matar do que a palavras neutras como cadeira; decide mais rapidamente se a palavra emocional foi embaralhada, mas não as neutras. Os psicopatas, no entanto, não têm nenhuma dessas reações: o cérebro deles não mostra o padrão distintivo em resposta às palavras emocionais, e eles não reagem com mais rapidez a elas, o que sugere uma perturbação nos circuitos entre o córtex verbal, que reconhece a palavra, e o cérebro límbico, que lhe atribui sentido.
Robert Hare, psicólogo da Universidade de Colúmbia que fez essa pesquisa, interpreta esses resultados como significando que os psicopatas têm uma tênue compreensão de palavras de cunho emocional, um reflexo da tenuidade mais genérica no campo afetivo. Hare acredita que a insensibilidade dos psicopatas se baseia parcialmente em outro padrão psicológico identificado em pesquisa anterior, e que também sugere uma anomalia no funcionamento das amígdalas e circuitos relacionados: os psicopatas que vão tomar um choque elétrico não demonstram qualquer sinal de medo, como normalmente ocorre em pessoas que vão sentir dor.21 Como a perspectiva de dor não provoca uma onda de ansiedade, Hare afirma que os psicopatas não se preocupam com punições futuras pelos atos que praticam. E como eles próprios não sentem medo, não há lugar para a empatia — ou piedade — em relação ao medo e à dor de suas vítimas.

 
[1] Perfil de Sensibilidade Não-Verbal. (N. do T.)
[2] Uma nota de advertência. Se há padrões biológicos em jogo em alguns tipos de criminalidade — como um defeito neural na empatia —, isso não quer dizer que todos os criminosos são biologicamente anômalos, ou que existe uma determinante biológica para o crime. Há uma tremenda controvérsia sobre essa questão, e o melhor consenso a que podemos chegar é o de que não há essa determinante biológica, e certamente nenhum “gene criminoso”. Mesmo que haja, em alguns casos, uma base biológica que justifique a ausência de empatia, isso não é determinante para a prática de atos criminosos; não acontece com a maioria das pessoas. A falta de empatia é apenas um fator, entre outras forças psicológicas, econômicas e sociais, que contribui para um vetor em direção à criminalidade.
 
(Goleman, Daniel - Inteligência emocional)
 
 
Notas:  
 
1. Autoconsciência e empatia: ver, por exemplo, John Mayer e Melissa Kirkpatrick, “Hot Information-Processing Becomes More Accurate With Open Emotional Experience”, Universidade de New Hampshire, manuscrito inédito (outubro de 1994); Rand Larsen e outros, “Cognitive Operations Associated With Individual Differences in Affect Intensity”, Journal of Personality and Social Psychology 53 (1987).
 
2. Rober Rosenthal e outros. “The PONS Test: Measuring Sensitivity to Nonverbal Cues”, em P. Reynolds, ed., Advances in Psychological Assessment (São Francisco: Jossey-Bass, 1977).
   
3. Stephen e Marshall Duke, “A Measure of Nonverbal Social Processing Ability in
Children Between the Ages of 6 and 10”, trabalho apresentado no encontro da Sociedade Psicológica Americana (1989).
 
4. As mães que agiram como pesquisadoras foram treinadas por Marian Radke-Yarrow e Carolyn Zan-Waxler, no Laboratório de Psicologia Desenvolvimentista, Instituto Nacional de Saúde Mental.
 
5. Escrevi sobre empatia, suas raízes desenvolvimentistas e sua neurologia em The New York Times (28 de março de 1989).
 
6. Incutindo empatia nas crianças: Marian Radke-Yarrow e Carolyn Zahn-Waxler, “Roots, Motives and Patterns in Children’s Prosocial Behavior”, em Ervin Staub e outros (eds.), Development and Maintenance of Prosocial Behavior (Nova York: Plenum, 1984).
 
7. Daniel Stern, The Interpersonal World of the Infant (Nova York: Basic Books, 1987), p. 30.
 
8. Stern, op. cit.
 
9. Os bebês deprimidos são descritos em Jefey Pickens e Tiffany Field, “Facial Expressivity in Infants of Depressed Mothers”, Developmental Psychology 29, 6 (1993).
 
10. O estudo da infância de estupradores violentos foi feito por Robert Prentky, psicólogo de Filadélfia.
 
11. A empatia em pacientes limite: “Giftedness and Psychological Abuse in Borderline PersonaJity Disorder: Their Relevance to Genesis and Treatment”, Journal of Personality Disorders 6 (1992).
 
12. Leslie Brothers, “A Biological Perspective on Empathy”, American Journal of Psychiatry 146, 1 (1989).
 
13. Brothers, “A Biological Perspective”, p. 16.
 
14. Fisiologia da empatia: Robert Levenson e Anna Ruef, “Empathy: A Physiological Substrate”, Journal of Personality and Social Psychology 63, 2 (1992).
 
15. Martin L. Hoffman, “Empathy, Social Cognition, and Moral Action”, em W. Kurtines e J. Gerwitz, eds., Moral Behavior and Development: Advances in Theory, Research, and Applications (Nova York: John Wiley and Sons, 1984).
 
16. Os estudos da ligação entre empatia e ética estão em Hoffman, “Empathy, Social Cognition, and Moral Action”.
 
17. Escrevi sobre o ciclo emocional que culmina em crimes sexuais em The New York Times (14 de abril de 1992). A fonte é William Pithers, psicólogo do Departamento Correcional de Vermont.
 
18. A natureza da psicopatia é descrita com mais detalhes num artigo que escrevi no The New York Times de 7 de julho de 1987. Grande parte do que escrevo aqui vem de Robert Hare, psicólogo da Universidade da Colúmbia Britânica, especialista em psicopatas.
 
19. Leon Bing, Do or Die (Nova York: HarperCollins, 1991).
 
20. Espancadores de esposas: Neil S. Jacobson e outros, “Affect, Verbal Content and Psychophysiology in the Arguments of Couples With a Violent Husband”. Journal of Clinical and Consulting Psychology (julho de 1994).
 
21. Os psicopatas não têm medo — o efeito é visto quando criminosos psicopatas vão receber um choque. Uma das mais recentes réplicas do efeito está em Christopher Patrick e outros, “Emotion in the Criminal Psychopath: Fear Image Processing”, Journal of Abnormal Psychology 103 (1994).
Empatia - Vita Alere

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publicado às 19:40


A fabulosa origem do mundo

por Thynus, em 20.02.18
 
Corria o ano de 1866, nem eu era nascido ainda, mas todo ser humano que perambulava pelo planeta na época tinha vindo à luz, sem exceção, depois de transitar por uma vagina. Deve ter sido por isso que Gustave Courbet, o pintor realista francês, chamou de A origem do mundo sua pequena obra-prima executada naquele ano, uma xota pentelhuda em voluptuoso close. Conhece o quadro? Ele pode ser apreciado ao vivo no Museu D’Orsay, em Paris, ou em ótimas reproduções na tela do seu computador. A imagem oferecida pelo site do museu é das melhores e você a encontra com facilidade. Aquilo enche a vista de um vivente: um apetitoso e piloso baixo-ventre feminino visto da perspectiva de alguém que se aproximasse daquela maravilha anatômica com intenções cunilinguais. A imagem, de fato, parece um convite à minette.
A origem do mundo foi uma encomenda feita a Courbet por um diplomata otomano milionário lotado em Paris, Khalil-Bey, que tinha escolhido servir na capital francesa para se tratar de uma sífilis, segundo se dizia. O turco libidinoso, que colecionava quadros de mulheres nuas, cavalos de corrida e amantes, teve a curiosa ideia de instalar a icônica buceta no banheiro de sua mansão, coberta, porém, por uma cortina verde, cor do islã, sua fé religiosa.
Dá pra imaginar o conviva de uma das requintadas festas que o diplomata dava em Paris indo ao banheiro dar sua mijadinha ou cagadinha e, movido por natural curiosidade, resolvendo correr o cortinado pra ver o que ele escondia. Quão grata não devia ser a surpresa dessa pessoa, sobretudo se homem hétero, ao se deparar com o sexo desinibido da mulher anônima em primeiro plano, sem cara mas com um delicado peitinho de róseo mamilo visível no quadro. E quase posso ver as filas que deviam se formar diante desse banheiro, assim que a notícia se espalhava na festa, com gente batendo na porta para apressar o ocupante da vez, o qual, diante do quadro atrás da cortina, na certa se esbaldava num frenesi masturbatório. Eu, se fosse o diplomata turco, ainda poria um aviso no pé da tela: “Favor não ejacular no quadro.”
Especula-se que a modelo daquele pictórico monte de Vênus teria sido uma das amantes de Khalil-Bey, uma francesa gostosérrima chamada Jeanne de Tourbay, das mais requisitadas cocotes parisienses. Outros afirmavam que a exuberante perereca pertencia a uma irlandesa ruiva, Joanna Hiffernan, amante do próprio Courbet e de outros pintores, como o inglês Whistler. De minha parte, mesmo sem ter sido convidado pras festanças do nababo otomano, nem tampouco deitado e rolado com Jeanne ou Joanna, eu apostaria que a famosa perseguida tá mais pra francesa que pra irlandesa, se considerarmos que os pelos púbicos de uma mulher tendem a ser da mesma cor de seus cabelos. Ora, como miss Hiffernan era um incêndio de ruiva (veja o quadro A garota branca, do Whistler, que a retrata vestida com sua cabelama vermelha), e a xana d’A origem do mundo apresenta um pentelhal moreno ou castanho-escuro, creio que eu ganharia fácil tal aposta.
Em todo caso, a vocação do quadro de Courbet para objeto itinerante do desejo iria ter início quando Khalil-Bey, atolado em dívidas de jogo, resolveu vender sua coleção de arte. A Origem foi parar, então, nos domínios de um marchand parisiense que, por pudicícia ou temor de um escândalo, o ocultou atrás de outra tela do mesmo Courbet representando uma inocente igrejinha num campo nevado. A ideia subliminar aqui talvez fosse a de que atrás da fé religiosa, e sufocada por ela, borbulha um vasto e animalesco tesão. Tinha sido assim com o cortinado da cor do islã que encobria o quadro na casa do turco milionário, era assim agora com o inocente quadro da igrejinha mocozando o bucetão.
O escritor francês Edmond de Goncourt foi um dos poucos privilegiados a quem o marchand mostrou o quadro, em 1889. Goncourt escreveu sobre a sua emoção ao ver a já mítica precheca surgir por detrás da igrejinha: “Esse ventre é belo como a carne de um Correggio”, referindo-se às telas com rechonchudas damas peladas do sensual mestre da Renascença italiana.
A partir daí, a aveludada bacurinha deu uns rolês por locais ignorados, até ser localizada em Budapeste, às margens do rio Danúbio, no castelo dum nobre húngaro, o barão Havatny, já em 1913. A nova residência da Origem, junto a um rio, parecia apropriada. Afinal, o sexo das cocotes, a exemplo dos rios, canaliza não poucos fluidos e corrimentos, e costuma ser intensamente navegado. O barão, pelo que consta, continuou mantendo a Origem oculta atrás da igrejinha.
Eis que, nos anos 1940, a tão resguardada ximbica se vê sob a ameaça das tropas nazistas que invadem a Hungria, e Havatny, que tinha ancestrais judeus, se manda rapidinho de seu castelo, não sem antes depositar a tela do Courbet no cofre-forte de um banco. Claro que isso não impediu os alemães de rapinarem os tesouros guardados nesse banco, como faziam em toda parte por onde passavam, mas não se interessaram pela bucólica igrejinha do Courbet, ignorando o tesouro escondido na sacristia, por assim dizer. Quem descobriu isso foi um oficial do exército vermelho que, por sua vez, invadiu a Hungria poucos anos depois, dando um chute no rabo dos nazis. E lá se foi a ilustre racha peluda pra Moscou comunista, onde com absoluta certeza encontrou quem a apreciasse com o devido fervor, aos goles de vodca estatal e ao som da balalaica oficial.
Finda a guerra, o rico barão Havatny teve a sorte de localizar sua prenda na Rússia e, mediante um suborno pago a um oficial vermelho, conseguiu reaver A origem do mundo e levá-la de volta, não para a Hungria, comunista agora, mas para a França, escondida numa mala diplomática. Finalmente, a boa filha à casa tornava, depois de passar de mão em mão, destino de não poucas de suas congêneres carnais pelo mundo afora.
Morto o barão, a pictórica periquita encontrou abrigo na galeria de outro marchand, até que, em 1955, foi arrematada por um colecionador muito especial, o psicanalista parisiense Jacques Lacan, que a levou pra sua casa de campo. Na psicanálise, como sabemos, o falo é que é considerado pau pra toda obra, sem embargo do nefando trocadalho. O próprio Lacan chegou a escrever que “a mulher não existe”, pois carece do cetro ontológico, o pênis. Mesmo assim, Lacan se apaixonou perdidamente pela sedutora taturana, convidando apenas seus amigos mais íntimos a visitá-la na campagne, entre os quais um com nome mais do que adequado à imagem na tela: Picasso.
Em sua nova morada, por insistência de Sylvia, mulher do Lacan, o belo ventre ficou mais uma vez escondido sob outra obra, só que não mais a igrejinha, substituída por outra pintura encomendada expressamente para esse fim ao pintor André Masson, cunhado de Sylvia. A tela-disfarce de Masson, espécie de comentário modernoso à Origem, funcionava como portinhola que se abria com facilidade, para deliciada surpresa dos amigos do casal “Lacancan”.
Por fim, em 1995, com Lacan e Sylvia já mortos, A origem do mundo é entregue aos cuidados do Estado francês, a título de imposto sobre a herança do casal. E o Estado, com a típica liberalidade francesa, decide pendurar a honorável xavasca no então recém-inaugurado Museu d’Orsay, de novo às margens de um rio — o Sena agora —, às vistas de seja lá quem passe pela frente do quadro. A origem do mundo é agora de todo mundo. Bom proveito!

(Reinaldo Moraes - O cheirinho do amor, Crônicas safadas)
"Thérèse Dreaming"

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publicado às 00:47


O pênis, esse glorioso factótum

por Thynus, em 19.02.18

 

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Coloquei o teu retrato

no meu relógio, querida:

- Faz, agora, o que quiseres

das horas da minha vida.

 

Um belo dia, lá pelo final da meninice, você acorda de pau duro. Muito bem. Voilá o mandrová ereto a pedir que você tome uma providência a respeito. Não é nada além de sangue injetado pelo tesão nos canais cavernosos do seu pênis, mas vai dar muito trabalho pela vida afora lidar com aquilo. Namoros, ciúmes, casamento, filhos, carência, rolos mil. Tudo por causa de uma simples ereção. No princípio, você mesmo pode dar conta do fenômeno, tipo do it yourself. Mas você logo descobre que se uma mulher te ajudar a lidar com o impaciente objeto tudo fica bem mais prazeroso. E complicado, ao fim e ao cabo, mas c’est la vie, como diria Brigitte Bardot e a minha prima Valéria que estudava francês na Alliance Française e em quem, num dos confusos dias da nossa adolescência, dei uns beijos num cinema. Não lembro que filme passava. Nem lembro se eu tinha mesmo uma prima chamada Valéria. Mas lembro dos beijos e da ereção envergonhada que eles me provocaram dentro de uma imitação barata da cueca Zorba que mais parecia uma sacola de supermercado com furinhos na bunda.

Pois então, o fato é que a primeira ereção consciente, fremente, latejante, urgente e ejaculante a gente nunca esquece. Pro homem, é o ato fundante da sua identidade masculina. O equivalente, na mulher, à primeira menstruação. O Cogito ergo sum cartesiano, na era pós-freudiana, virou “Pênis, logo existo”. E, acredite, digo isso sem a menor jactância machista. É só uma constatação banal. Tão banal quanto uma ereção adolescente.
O assunto é antigo. Japoneses e hindus, por exemplo, idolatram há milênios esse ícone da fertilidade e do prazer que é o pirilau teso. Se você for a Kawasaki, província de Kanagawa, no Japão, no primeiro domingo de abril, vai topar com desfiles de alegres japas carregando andores onde repousam enormes estátuas de pênis eretos apontados pro céu. Trata-se do Kanamara Matsuri, ou Festival do Falo de Aço, denominação que remonta à lenda de um demônio sacana que se escondia na vagina das jovens da aldeia para castrar às dentadas os incautos caralhos que se intrometiam por ali. Até que um ferreiro veio com a ideia de forjar um falo de aço para trincar os dentes do demônio.
E aqui vai uma importante dica socioturística: se você for conferir in loco o Kanamara Matsuri e vier a se engraçar por uma guria local, a ponto de se ver na cama com ela, convém fazer-se preceder por um dildo de aço antes de introduzir nela o seu ちんこ. Como se pronuncia? Pirôka.
Não, não, tô zoando. É chinko, uma gíria leve e não muito chula. Existem também as variantes chinbo, chinboko e chinchin. Sei que na hora de chamar a moça na chincha, digo, no chinchin, ela vai estranhar um pouco você tirar de algum lugar o falo metálico demonstrando séria intenção de meter aquilo nela antes de fazer uso do seu próprio instrumento de carne e sangue. De qualquer maneira, escolha um modelo um pouco menor que o seu pau, que é pra causar boa impressão quando você substituir o falso pelo verdadeiro. À falta de um mandrová auxiliar, de aço ou qualquer outro material menos agressivo, comece os trabalhos com uma boa e funda dedada. Se a dentuça do demo entrar em ação, melhor perder uma ou duas falanges que o ちんこ, né!
Entre os hindus, é muito popular o culto ao lingam, ou falo, símbolo da potência criadora, da fertilidade e, cá entre nós, da velha e boa sacanagem. Existe até uma seita por lá, dos lingavantha, cujos adeptos trazem um ícone em forma de lingam pendurado no pescoço. Já ouvi em algum lugar a tese de que a gravata ocidental seria uma adaptação evolutiva desse lingam de pescoço. Não poria meu lingam no fogo pela veracidade dessa tese, mas, de qualquer forma, pensar nisso na hora de dar o nó na gravata pode gerar certo incômodo cognitivo nos temperamentos mais sugestionáveis.
Não muito tempo atrás, a velhice, certas doenças cardiovasculares e a prostactomia radical arrolavam-se entre as grandes inimigas do orgulho peniano. Ou da rôla, já que de arrolar se trata. A farra acabava ali. Mas, hoje em dia, a desfrutável fase genital da sexualidade masculina só termina, a rigor, com a morte do cisne, ou melhor, do ganso — ou, mais precisamente, de seu dono. Digo isso pensando não somente no livre acesso às modernas substâncias paudurogênicas, como sildenafila, tadalafila e vardenafila, presentes nos remédios antidisfunção erétil à disposição dos lingans recalcitrantes, e mesmo dos mais serelepes. Falo também da nova geração de antigas drogas injetáveis que cumprem sua missão com incrível rapidez e eficiência, mesmo que o cidadão esteja fazendo seu imposto de renda ou assistindo um vídeo sobre a vida dos pinguins imperadores na Antártida.
É o caso da papaverina, da fentolamina e da admirável mandrová auxiliar, de aço ou qualquer outro material menos agressivo, comece os trabalhos com uma boa e funda dedada. Se a dentuça do demo entrar em ação, melhor perder uma ou duas falanges que o ちんこ, né! Entre os hindus, é muito popular o culto ao lingam, ou falo, símbolo da potência criadora, da fertilidade e, cá entre nós, da velha e boa sacanagem. Existe até uma seita por lá, dos lingavantha, cujos adeptos trazem um ícone em forma de lingam pendurado no pescoço. Já ouvi em algum lugar a tese de que a gravata ocidental seria uma adaptação evolutiva desse lingam de pescoço. Não poria meu lingam no fogo pela veracidade dessa tese, mas, de qualquer forma, pensar nisso na hora de dar o nó na gravata pode gerar certo incômodo cognitivo nos temperamentos mais sugestionáveis.
Não muito tempo atrás, a velhice, certas doenças cardiovasculares e a prostactomia radical arrolavam-se entre as grandes inimigas do orgulho peniano. Ou da rôla, já que de arrolar se trata. A farra acabava ali. Mas, hoje em dia, a desfrutável fase genital da sexualidade masculina só termina, a rigor, com a morte do cisne, ou melhor, do ganso — ou, mais precisamente, de seu dono. Digo isso pensando não somente no livre acesso às modernas substâncias paudurogênicas, como sildenafila, tadalafila e vardenafila, presentes nos remédios antidisfunção erétil à disposição dos lingans recalcitrantes, e mesmo dos mais serelepes. Falo também da nova geração de antigas drogas injetáveis que cumprem sua missão com incrível rapidez e eficiência, mesmo que o cidadão esteja fazendo seu imposto de renda ou assistindo um vídeo sobre a vida dos pinguins imperadores na Antártida.
É o caso da papaverina, da fentolamina e da admirável prostaglandina, drogas já bastante conhecidas e receitadas, mas que se apresentam hoje com formulações novas e mais seguras. Aplicadas diretamente na base da glande, elas são capazes de fazer Tutankamon levantar do sarcófago, de cetro real em riste. E a agulha é tão fina que você mal sente que algo te pica a pica, dizem os aficionados.
Um amigo meu, setentão, que teve de deixar a próstata no lixo hospitalar e ainda pagar por isso, usa um bagulho injetável desses e me mostrou a seringuinha com as ampolas acondicionadas num estojo de isopor. “Você nem sente a picada”, garante o trêfego geronte. “Você só precisa arranjar uma boa desculpa para se trancar por alguns minutos no banheiro, antes de fazer sua gloriosa entrada em cena de lança em riste.”
Enfim — e aqui chego ao ponto onde imagino que pretendia chegar —, vamos combinar que, com ou sem drogas pró-priápicas, é verdadeiramente enorme, quase massacrante, a carga de responsabilidade depositada nesse mítico apêndice masculino. E com a agravante de que o homem tem de arcar com essa responsa praticamente até o fim de seus dias na Terra. Esse mesmo velho amigo meu lamenta, às vezes, sua longevidade sexual que o faz abanar o lingam pra qualquer rabo de saia que passe por perto, a ponto de ter engravidado tardiamente um desses rabos numa quadra da vida em que muito neguinho já pendurou as chuteiras, as bolas do saco e o velho e ensebado chinboko. Seu caçula temporão tem hoje treze anos, o que inspira no meu amigo uma reflexão preocupante: “Vou ter que pagar colégio pro Tiaguinho até quase os noventa anos”, ele se lamenta. “Ou mais, se o moleque cursar uma faculdade paga e ainda resolver fazer uma pós.” Ou seja, por causa de seu pau duro, meu amigo sacou que não poderá se dar ao luxo de morrer antes dos noventa anos. Faço votos pra que não morra mesmo. E também pra que não abuse daquela seringa, de modo a não fabricar mais dois ou três Tiaguinhos até lá.
Agora, vai perguntar pro meu septuagenário cumpadre se, ao invés de namorar e trepar, ele não preferia ter passado a última década a jogar bocha ou dominó, e a praticar tai chi chuan no parque do Ibirapuera. Não precisa perguntar, eu sei a resposta: “Nem fodendo!” Ou seja, nem fodendo ele teria preferido ficar sem foder, com o perdão pelo meu francês.
E haja pílulas e seringas. E, sobretudo, tesão. A mulher pode até ter a tal da “inveja do pênis”, diagnosticada pelo dr. Freud, mas pelo menos não tem que carregar esse piano todo, nem quando jovem, nem ao envelhecer. Como bem observou a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade ­(ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, “O pênis reúne os conceitos de procriação, prazer, virilidade e paternidade. Na mulher, eles estão separados entre o clitóris (prazer), útero (procriação), vagina (gênero) e seios (maternidade)”.
Quer dizer, é muita responsa prum ちんこ só. Não é à toa que o carregam em triunfo pelas ruas de Kawasaki uma vez por ano.
Hay!

(Reinaldo Moraes - O cheirinho do amor, Crônicas safadas)

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publicado às 19:07


A lei do celibato dos padres

por Thynus, em 19.02.18
1 Escreveu-se imenso sobre um padre da Madeira que assumiu a paternidade de uma menina. Também me perguntaram o que é que eu penso.
Desconheço a situação concreta, mas, em princípio, ter assumido a paternidade é um acto que honra o padre. Está, aliás, na linha do recente documento da Conferência Episcopal Irlandesa, que Francisco quer estender a toda a Igreja, estabelecendo que os padres devem, como qualquer outro pai, assumir as suas responsabilidades, colocando os interesses da criança em primeiro lugar, com todas as consequências: afectivas, legais, morais, financeiras. É inaceitável que os filhos dos padres continuem a ser "sobrinhos" ou "afilhados". As crianças têm direito à sua identidade e a mãe não pode ficar sozinha e excluída. Se a Igreja prega os direitos humanos aos outros, tem de praticá-los em primeiro lugar no seu próprio seio.
Ter sido pai não deve implicar automaticamente o abandono do sacerdócio. A questão deve ser dialogada entre o padre, o bispo, a mãe e a comunidade a que o padre preside. Se quiser casar-se, deverá seguir o seu caminho, abandonando.
 
2 Mas este caso obriga a reflectir sobre a lei do celibato obrigatório para os padres e como é essencial pôr fim a essa lei, tornando o celibato opcional. Aliás, a abolição dessa lei é uma questão de tempo. Jesus e São Paulo foram celibatários, mas não obrigaram ninguém ao celibato. Mas, já a partir do século IV, houve tentativas de impô-lo aos clérigos. Razões? Quis-se imitar o modelo dos monges (monaquismo), que, evidentemente, eram celibatários; a interpretação sacrificial da Eucaristia, com a consequente necessidade da pureza ritual, foi fundamental; exigia-se pôr travão ao nepotismo e à dispersão e fuga dos bens da Igreja; a concentração de poderes, o domínio e a maior disponibilidade do clero às ordens dos bispos também pesaram; a misoginia foi outro motivo, que se impôs juntamente com a lenta formação de uma casta sacerdotal privilegiada e distanciada do povo, como prova a terminologia utilizada para o caso de um padre que é dispensado do sacerdócio e das suas obrigações: secularização e "redução ao estado laical", mostrando bem em que consideração são tidos os leigos. Aliás, houve em muitas filosofias, concretamente na filosofia grega - pense-se em Platão, no neoplatonismo, na gnose, no maniqueísmo... -, concepções que levavam ao desprezo da matéria, do corpo e do prazer.
Foi o Sínodo de Latrão de 1059 que determinou a proibição do casamento aos padres, mais seguida na França do que na Itália. O clero revoltou-se sobretudo na Alemanha e, como resume Hans Küng, alegou: o papa não leu o que está no Evangelho de São Mateus 19, 12: "quem puder compreender compreenda"; o papa, ao querer impor violentamente que se viva como anjos, opõe-se à natureza e favorece a luxúria; parece que o papa só quer anjos para o serviço da Igreja. Mas o papa Gregório VII em 1074 confirmou a proibição, suspendendo os padres casados e mobilizando os leigos para não aceitarem as suas funções sacerdotais, observando Küng: "Isto constituía uma novidade: um boicote do clero pelos leigos encenado pelo próprio papa!" De facto, do ponto de vista jurídico, foi o Concílio de Latrão II (1139) que radicalizou a situação: o casamento dos padres, que era proibido mas juridicamente válido, foi declarado inválido: as mulheres tornaram-se concubinas e os filhos, escravos e bens da Igreja.
De qualquer forma, até ao tempo da Reforma, houve uma lei do celibato obrigatório que nem sempre era praticada. Evidentemente, com o celibato foi-se impondo a clericalização da Igreja e o centralismo romano e, como explica Celso Alcaina, "foi no Concílio de Trento, no século XVI, que se ratificou o celibato obrigatório. Mas nem sequer o Concílio de Trento foi um ponto de chegada à universalização do celibato obrigatório do clero. Sabemos que alguns decretos levaram séculos a ser aplicados". O facto é que o celibato, com a tolerância de muitos bispos e a compreensão do povo - este sempre tolerou mais facilmente as quedas da castidade do clero do que a sua ganância do dinheiro -, não se impôs totalmente.
Hoje, há cada vez mais vozes autorizadas a reclamar o seu fim, tendo sido a do cardeal Carlo Martini uma das mais claras. Paulo VI fez grandes esforços nesse sentido. O próprio papa João Paulo II previa que terminaria, declarando quanto à sua abolição: "Sinto que acontecerá, mas que eu não a veja." É sabido que nas Igrejas orientais unidas a Roma o celibato é opcional. Bento XVI recebeu na Igreja o clero anglicano casado. O Papa Francisco disse que a lei do celibato não é nenhum dogma e o cardeal Reinhard Marx, que preside à Conferência Episcopal Alemã, declarou recentemente que a possibilidade de ordenar homens casados está na mesa de trabalho do Papa. Pessoalmente, estou convicto de que essa possibilidade em breve será realidade, inclusivamente porque, por exemplo, na Amazónia as comunidades cristãs, sem padres, também têm direito à celebração da Eucaristia.
 
3 Neste contexto, também me perguntam se o celibato obrigatório é a causa da pedofilia do clero. Não há uma relação de causa-efeito entre celibato e pedofilia. De facto - e é preciso também dizê-lo -, a maior parte dos casos de pedofilia dá-se na família, incluindo amigos próximos. Mas é bem possível que a educação dada nos Seminários e o celibato obrigatório levem a uma sexualidade por vezes imatura e distorcida. Seja como for, o celibato deve ser opcional, pois a Igreja não pode impor como lei o que Jesus entregou à liberdade. Também se não entende como é que a Igreja continua a abandonar quem poderia dar uma ajuda prestimosa: mais de cem mil padres casados.
 
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico
 
(Anselmo Borges)

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publicado às 19:04


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