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OS QUATRO GRANDES ERROS

por Thynus, em 08.08.17

Inimigos da Verdade – Convicções são inimigos da verdade mais perigosos que as mentiras” – 
 (Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §483)
 
Morrer pela “verdade”. — Não nos deixaríamos queimar por nossas opiniões: não somos tão seguros delas; mas talvez por podermos ter e alterar nossas opiniões” – 
(Nietzsche, O andarilho e sua Sombra, §333)
 .
 
os homens se tornaram cativos de suas verdades
 
1.
 
Erro da confusão de causa e conseqüência. — Não há erro mais perigoso do que confundir a conseqüência e a causa: eu o denomino a verdadeira ruína da razão. Porém, esse erro está entre os mais antigos e mais novos hábitos da humanidade: ele é até santificado entre nós, leva o nome de “religião”, “moral”. Cada tese formulada pela religião e pela moral o contém; sacerdotes e legisladores da moral são os autores dessa corrupção da razão. — Eis um exemplo: todos conhecem o livro do famoso Cornaro,44 em que ele recomenda sua exígua dieta como receita para uma vida longa e feliz — e também virtuosa. Poucas obras foram tão lidas, ainda agora milhares de exemplares são impressos anualmente na Inglaterra. Duvido que algum livro (excetuando-se, naturalmente, a Bíblia) tenha causado tanto mal, tenha abreviado tantas vidas, como esse bem-intencionado curiosum [coisa curiosa]. Razão para isso: a confusão entre o efeito e a causa. O bom italiano via em sua dieta a causa de sua longa vida: ao passo que a precondição para uma longa vida, a extraordinária lentidão do metabolismo, o baixo consumo, era a causa de sua exígua dieta. Ele não tinha a liberdade de comer pouco ou muito, sua frugalidade não era um “livre-arbítrio”: ele ficava doente quando comia mais. Mas quem não é uma carpa45 não só faz bem em comer propriamente, mas disso tem necessidade. Um erudito de nossa época, com seu rápido consumo de energia nervosa, se destruiria com o regime de Cornaro. Crede experto [Creia no perito]. —46

 

 

2.

 

A fórmula geral que se encontra na base de toda moral e religião é: “Faça isso e aquilo, não faça isso e aquilo — assim será feliz! Caso contrário...”. Toda moral, toda religião é esse imperativo — eu o denomino o grande pecado original da razão, a desrazão imortal. Em minha boca essa fórmula se converte no seu oposto — primeiro exemplo de minha “tresvaloração de todos os valores”: um ser que vingou, um “feliz”, tem de realizar certas ações e receia instintivamente outras, ele carrega a ordem que representa fisiologicamente para suas relações com as pessoas e as coisas. Numa fórmula: sua virtude é o efeito de sua felicidade... Vida longa, prole abundante, isso não é recompensa da virtude; a virtude mesma é, isto sim, essa desaceleração do metabolismo que, entre outras coisas, tem por conseqüência uma vida longa, uma prole abundante, em suma, o cornarismo. — A Igreja e a moral dizem: “o vício e o luxo levam uma estirpe ou um povo à ruína”. Minha razão restaurada diz: se um povo se arruína, degenera fisiologicamente, seguem-se daí o vício e o luxo (ou seja, a necessidade de estímulos cada vez mais fortes e mais freqüentes, como sabe toda natureza esgotada). Um homem jovem fica prematuramente pálido e murcho. Seus amigos dizem: tal ou tal doença é responsável por isso. Eu digo: o fato de ele adoecer, de não resistir à doença, já foi conseqüência de uma vida debilitada, de um esgotamento hereditário. O leitor de jornais diz: esse partido se arruína cometendo tal erro. Minha política mais elevada diz: um partido que comete tais erros está no fim — já não tem sua segurança de instinto. Cada erro, em todo sentido, é conseqüência da degeneração do instinto, da desagregação da vontade: com isso praticamente se define o ruim. Tudo bom é instinto — e, portanto, leve, necessário, livre. O esforço é uma objeção, o deus se diferencia tipicamente do herói (na minha linguagem: pés ligeiros são o primeiro atributo da divindade).

 

 

3.

 

Erro de uma falsa causalidade. — Em todos os tempos as pessoas acreditaram saber o que é uma causa: mas de onde tiramos nosso saber, ou, mais precisamente, a crença de sabermos? Do âmbito dos famosos “fatos interiores”, dos quais nenhum, até hoje, demonstrou ser real. Acreditávamos ser nós mesmos causais no ato da vontade; aí pensávamos, ao menos, flagrar no ato a causalidade. Tampouco se duvidava que todos os antecedentia de uma ação, suas causas, deviam ser buscados na consciência e nela se achariam novamente, ao serem buscados — como “motivos”: de outro modo não se teria sido livre para fazê-la, responsável por ela. Afinal, quem discutiria que um pensamento é causado? Que o Eu causa o pensamento?... Desses três “fatos interiores”, com que parecia estar garantida a causalidade. O primeiro e mais convincente é o da vontade como causa; a concepção de uma consciência (“espírito”) como causa e, mais tarde, a do Eu (“sujeito”) como causa nasceram posteriormente, depois que a causalidade da vontade se firmou como dado, como algo empírico... Nesse meio-tempo refletimos melhor. Hoje não acreditamos em mais nenhuma palavra disso. O “mundo interior” é cheio de miragens e fogos-fátuos: a vontade é um deles. A vontade não move mais nada; portanto, também não explica mais nada — ela apenas acompanha eventos, também pode estar ausente. O que chamam de “motivo”: outro erro. Apenas um fenômeno superficial da consciência, um acessório do ato, que antes encobre os antecedentia de um ato do que os representa. E quanto ao Eu! Tornou-se uma fábula, uma ficção, um jogo de palavras: cessou inteiramente de pensar, de sentir e de querer!... Que resulta disso? Não há causas mentais absolutamente! Toda a sua suposta evidência empírica foi para o diabo! Eis o que resulta disso! — E havíamos cometido um belo abuso com essa “evidência empírica”, com base nela havíamos criado o mundo como um mundo de causas, um mundo de vontade, um mundo de espíritos. A mais antiga e mais duradoura psicologia estava atuando aqui, não fazia outra coisa: para ela, todo acontecer é um agir, todo agir é conseqüência de uma vontade, o mundo tornou-se-lhe uma multiplicidade de agentes, um agente (um “sujeito”) introduziu-se por trás de todo acontecer. O homem projetou fora de si os seus três “fatos interiores”, aquilo em que acreditava mais firmemente, a vontade, o espírito, o Eu — extraiu a noção de ser da noção de Eu, pondo as “coisas” como existentes à sua imagem, conforme sua noção do Eu como causa. É de admirar que depois encontrasse, nas coisas, apenas o que havia nelas colocado? — A coisa mesma, repetindo, a noção de coisa, [é] apenas um reflexo da crença no Eu como causa... E até mesmo o seu átomo, meus caros mecanicistas e físicos, quanto erro, quanta psicologia rudimentar permanece ainda em seu átomo! — Para não falar da “coisa em si”, do horrendum pudendum [horrível parte pudenda] dos metafísicos! O erro do espírito como causa confundido com a realidade! E tornado medida da realidade! E denominado Deus! —

 

 

4.

 

Erro das causas imaginárias. — Partindo do sonho: a uma determinada sensação, devida a um longínquo tiro de canhão, por exemplo, é atribuída posteriormente uma causa (muitas vezes todo um pequeno romance, no qual justamente o sonhador é o personagem principal). A sensação perdura, enquanto isso, numa espécie de ressonância: ela como que aguarda até que o impulso causal lhe permita passar a primeiro plano — não mais como acaso, mas como “sentido”. O tiro de canhão aparece numa maneira causal, numa aparente inversão do tempo. O ulterior, a motivação, é vivenciado primeiramente, muitas vezes com inúmeros detalhes que passam como um raio, e o tiro vem depois... Que aconteceu? As idéias produzidas por uma certa condição foram mal-entendidas como causas dela. — Na verdade, fazemos a mesma coisa acordados. A maioria de nossos sentimentos gerais — todo tipo de inibição, pressão, tensão, explosão no jogo dos órgãos, assim como, particularmente, o estado do nervus sympathicus — excita nosso impulso causal: queremos uma razão para nos acharmos assim ou assim — para nos acharmos bem ou nos acharmos mal. Nunca nos basta simplesmente constatar o fato de que nos achamos assim ou assim: só admitimos esse fato — dele nos tornamos conscientes —, ao lhe darmos algum tipo de motivação. — A recordação, que nesses casos entra em atividade sem que o saibamos, faz emergir estados anteriores da mesma espécie e as interpretações causais a eles ligadas — não a sua causalidade. Sem dúvida, a crença de que as idéias, os concomitantes processos conscientes tenham sido as causas é também trazida à tona pela recordação. Desse modo nos tornamos habituados a uma certa interpretação causal que, na verdade, inibe e até exclui uma investigação da causa.

 

 

5.

 

Explicação psicológica para isso. — Fazer remontar algo desconhecido a algo conhecido alivia, tranqüiliza, satisfaz e, além disso, proporciona um sentimento de poder. Com o desconhecido há o perigo, o desassossego, a preocupação — nosso primeiro instinto é eliminar esses estados penosos. Primeiro princípio: alguma explicação é melhor que nenhuma. Tratando-se, no fundo, apenas de um querer livrar-se de idéias opressivas, não se é muito rigoroso com os meios de livrar-se delas: a primeira idéia mediante a qual o desconhecido se declara conhecido faz tão bem que é “tida por verdadeira”. Prova do prazer (“da força”) como critério da verdade. — O impulso causal é, portanto, condicionado e provocado pelo sentimento de medo. O “por quê” deve, se possível, fornecer não tanto a causa por si mesma, mas antes uma espécie de causa — uma causa tranqüilizadora, liberadora, que produza alívio. O fato de ser estabelecido como causa algo já conhecido, vivenciado, inscrito na recordação é a primeira conseqüência desta necessidade. O novo, o não-vivenciado, o estranho é excluído como causa. — Portanto, não se busca apenas um tipo de explicações como causa, mas um tipo seleto e privilegiado de explicações, aquelas com que foi eliminado da maneira mais rápida e mais freqüente o sentimento do estranho, novo, não-vivenciado — as explicações mais habituais. — Conseqüência: um tipo de colocação de causas prepondera cada vez mais, concentra-se em forma de sistema e enfim aparece como dominante, isto é, simplesmente excluindo outras causas e explicações. — O banqueiro pensa de imediato no “negócio”, o cristão, no “pecado”, a garota, em seu amor.

 

 

6.

 

Todo o âmbito da moral e da religião se inscreve nesse conceito das causas imaginárias. — “Explicação” dos sentimentos gerais desagradáveis. Estes são determinados por seres que nos são hostis (espíritos maus: caso mais famoso — a má compreensão das histéricas como sendo bruxas). São determinados por ações que não podem ser aprovadas (o sentimento do “pecado”, da “pecaminosidade”, introduzido num mal-estar fisiológico — sempre se acha razões para estar insatisfeito consigo). São determinados como castigo, como pagamento por algo que não devíamos ter feito, que não devíamos ter sido (generalizado por Schopenhauer, de forma impudente, numa tese em que a moral aparece como o que é, como verdadeira envenenadora e caluniadora da vida: “Toda grande dor, seja física, seja espiritual, exprime o que merecemos; pois não poderia nos sobrevir se não a merecêssemos”, O mundo como vontade e representação, ii, 666).47 São determinados como conseqüências de atos irrefletidos que têm desfecho ruim (— os afetos, os sentidos colocados como causa, como “culpáveis”; crises fisiológicas interpretadas, com ajuda de outras crises, como “merecidas”). — “Explicação” dos sentimentos gerais agradáveis. Estes são determinados pela confiança em Deus. São determinados pela consciência das boas ações (a chamada “boa consciência”, um estado fisiológico que às vezes semelha uma boa digestão a ponto de ser com ela confundido). São determinados pelo desenlace feliz de um empreendimento (— ingênua falácia: o desenlace feliz de uma empresa não cria sentimentos gerais agradáveis num hipocondríaco ou num Pascal). São determinados por fé, amor, esperança — as virtudes cristãs.48 — Na verdade, todas essas supostas explicações são estados resultantes e, por assim dizer, traduções de sentimentos de prazer ou desprazer em um falso dialeto: pode-se ter esperança porque o sentimento fisiológico básico está novamente rico e forte; confia-se em Deus porque o sentimento de força e plenitude dá tranqüilidade. — A moral e a religião inscrevem-se inteiramente na psicologia do erro: em cada caso são confundidos efeito e causa; ou a verdade é confundida com o efeito do que se acredita como verdadeiro; ou um estado da consciência, com a causalidade desse estado.

 

 

7.

 

Erro do livre-arbítrio. — Hoje não temos mais compaixão pelo conceito de “livre-arbítrio”: sabemos bem demais o que é — o mais famigerado artifício de teólogos que há, com o objetivo de fazer a humanidade “responsável” no sentido deles, isto é, de torná-la deles dependente... Apenas ofereço, aqui, a psicologia de todo “tornar responsável”. — Onde quer que responsabilidades sejam buscadas, costuma ser o instinto de querer julgar e punir que aí busca. O vir-a-ser é despojado de sua inocência, quando se faz remontar esse ou aquele modo de ser à vontade, a intenções, a atos de responsabilidade: a doutrina da vontade foi essencialmente inventada com o objetivo da punição, isto é, de querer achar culpado. Toda a velha psicologia, a psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores, os sacerdotes à frente das velhas comunidades, quiseram criar para si o direito de impor castigos — ou criar para Deus esse direito... Os homens foram considerados “livres” para poderem ser julgados, ser punidos — ser culpados: em conseqüência, toda ação teve de ser considerada como querida, e a origem de toda ação, localizada na consciência (— assim, a mais fundamental falsificação de moeda in psychologicis [em questões psicológicas] transformou-se em princípio da psicologia mesma...). Hoje, quando encetamos o movimento inverso, quando nós, imoralistas, buscamos com toda a energia retirar novamente do mundo o conceito de culpa e o conceito de castigo, e deles purificar a psicologia, a história, a natureza, as sanções e instituições sociais, não existem, a nossos olhos, adversários mais radicais do que os teólogos, que, mediante o conceito de “ordem moral do mundo”, continuam a empestear a inocência do vir-a-ser com “culpa” e “castigo”. O cristianismo é uma metafísica do carrasco...

 

 

8.

 

Qual pode ser a nossa doutrina? — Que ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele próprio (— o contra-senso dessa última idéia rejeitada foi ensinado, como “liberdade inteligível”, por Kant, e talvez já por Platão).49 Ninguém é responsável pelo fato de existir, por ser assim ou assado, por se achar nessas circunstâncias, nesse ambiente. A fatalidade do seu ser não pode ser destrinchada da fatalidade de tudo o que foi e será. Ele não é conseqüência de uma intenção, uma vontade, uma finalidade próprias, com ele não se faz a tentativa de alcançar um “ideal de ser humano” ou um “ideal de felicidade” ou um “ideal de moralidade” — é absurdo querer empurrar o seu ser para uma finalidade qualquer.50 Nós é que inventamos o conceito de “finalidade”: na realidade não se encontra finalidade... Cada um é necessário, é um pedaço de destino, pertence ao todo, está no todo — não há nada que possa julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isto significaria julgar, medir, comparar, condenar o todo... Mas não existe nada fora do todo! — O fato de que ninguém mais é feito responsável, de que o modo do ser não pode ser remontado a uma causa prima, de que o mundo não é uma unidade nem como sensorium nem como “espírito”, apenas isto é a grande libertação — somente com isso é novamente estabelecida a inocência do vir-a-ser... O conceito de “Deus” foi, até agora, a maior objeção à existência... Nós negamos Deus, nós negamos a responsabilidade em Deus: apenas assim redimimos o mundo. —
 
 
(Friedrich Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos)
 
Notas:
44. Lodovico Cornaro (1467-1566): escritor veneziano, autor de Discorsi della vita sobria (1588), obra bastante lida na época e traduzida para o alemão com o título de A arte de alcançar uma idade avançada e sadia.
45. “não é uma carpa”: isto é, não tem dentes.
46. Crede experto: citação de um poema épico sobre a segunda guerra contra Cartago (Punica, viii, 395), do poeta romano Silius Italicus (c. 25-101 d. C.).
47. Nietzsche cita a página da edição Frauenstädt de O mundo como vontade e representação. A citação se acha no capítulo 46 do segundo volume.
48. “as virtudes cristãs”: cf. Epístola de são Paulo aos coríntios i, 13, 13; Blaise Pascal (1623-62): matemático e filósofo francês que, depois de uma forte experiência mística, tornou-se um dos maiores defensores da fé cristã.
49. Cf. Humano, demasiado humano (São Paulo, Companhia das Letras, 2000), seção 39, “A fábula da liberdade inteligível”, e nota correspondente; cf. Platão, Timeu, 68e.
50. sein Wesen [...] abwälzen: “empurrar o seu ser” — nas outras versões: “deslocar o seu ser”, “fazer rolar sua existência”, echar a rodar su ser, far rotolare la sua natura, faire dévier son être, to devolve ones essence, to hand over his nature, to discharge ones being.

publicado às 17:16

 
 
 

Verdadeiro, falso e construção de sentido em Nietzsche e Deleuze
1.

 

O mundo verdadeiro, alcançável para o sábio, o devoto, o virtuoso — ele vive nele, ele é ele.

(A mais velha forma da idéia, relativamente sagaz, simples, convincente. Paráfrase da tese: “Eu, Platão, sou a verdade”.)

 

 

2.

 

O verdadeiro mundo, inalcançável no momento, mas prometido para o sábio, o devoto, o virtuoso (“para o pecador que faz penitência”).

(Progresso da idéia: ela se torna mais sutil, mais ardilosa, mais inapreensível — ela se torna mulher, torna-se cristã...)

 

 

3.

 

O mundo verdadeiro, inalcançável, indemonstrável, impossível de ser prometido, mas, já enquanto pensamento, um consolo, uma obrigação, um imperativo.

(O velho sol, no fundo, mas através de neblina e ceticismo; a idéia tornada sublime, pálida, nórdica, königsberguiana.)37

 

 

4.

 

O mundo verdadeiro — alcançável? De todo modo, inalcançado. E, enquanto não alcançado, também desconhecido. Logo, tampouco salvador, consolador, obrigatório: a que poderia nos obrigar algo desconhecido?...

(Manhã cinzenta. Primeiro bocejo da razão. Canto de galo do positivismo.)

 

 

5.

 

O “mundo verdadeiro” — uma idéia que para nada mais serve, não mais obriga a nada —, idéia tornada inútil, logo refutada: vamos eliminá-la!

(Dia claro; café-da-manhã; retorno do bon sens [bom senso] e da jovialidade; rubor de Platão; algazarra infernal de todos os espíritos livres.)

 

 

6.

 

Abolimos o mundo verdadeiro: que mundo restou? o aparente, talvez?... Não! Com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente!

(Meio-dia; momento da sombra mais breve; fim do longo erro; apogeu da humanidade; incipit zaratustra [começa Zaratustra].)38
 

(Friedrich Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos)

Notas:
37 -  “königsberguiana”: alusão a Kant, natural e habitante da cidade de Königsberg, na então Prússia (atualmente Kaliningrado, na Rússia). O “imperativo” do item anterior diz respeito, então, ao “imperativo categórico” de Kant.
38 -  “incipit zaratustra”: ou seja, começa a nova era inaugurada por ele. O livro Assim falou Zaratustra começa com uma passagem publicada originalmente no final da primeira edição de A gaia ciência (seção 342), intitulada “Incipit tragoedia” (“Começa a tragédia”), e termina com Zaratustra exclamando: “Esta é a minha manhã, alça-se o meu dia; sobe nesse instante, sobe, ó grande Meio-Dia!”.

publicado às 17:14


Nossa Senhora do Silêncio

por Thynus, em 06.08.17

 

 

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Nossa Senhora do Silêncio

Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser’ o pensar nos meus sonhos, folheio-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ler mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas antigas visões demoradas de paisagens outras e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um Sonho que eu sonhe?

Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? O teu perfil? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque sei, ainda que não saiba que o sei. O teu corpo? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada?

A minha vida é tão triste, e eu nem penso em chorá-la; as minhas horas tão falsas, e eu nem sonho o gesto de parti-las.

Como não te sonhar? Como não te sonhar? Senhora das Horas que passam, Madona das águas estagnadas e das algas mortas, Deusa Tutelar dos desertos abertos e das paisagens negras de rochedos estéreis — livra-me da minha mocidade.

Consoladora dos que não têm consolação, Lágrima dos que nunca choram, Hora que nunca soa — livra-me da alegria e da felicidade.

Ópio de todos os silêncios, Lira para não se tanger, Vitral de lonjura e de abandono — faz com que eu seja odiado pelos homens e escarnecido pelas mulheres.

Címbalo de Extrema-Unção, Carícia sem gesto, Pomba morta à sombra, Óleo de horas passadas a sonhar  — livra-me da religião, porque é suave; e da descrença porque é forte.

Lírio fanando à tarde, Cofre de rosas murchas, silêncio entre prece e prece . Enche-me de nojo de viver, de ódio de ser são, de desprezo por ser jovem.

Torna-me inútil e estéril, ó Acolhedora de todos os sonhos vagos; faz-me puro sem razão para o ser, e falso sem amor a sê-lo, ó Água Corrente das Tristezas Vividas; que a minha boca seja uma paisagem de gelos, os meus olhos dois lagos mortos, os meus gestos um esfolhar lento de árvores velhinhas – ó Ladainha de Desassossegos, ó Missa-Roxa de Cansaços, ó Corola, ó Fluido, ó Ascensão!...

Que pena eu ter de te rezar como a uma mulher, e não te querer  como a um homem, e não te poder erguer os olhos do meu sonho como Aurora-ao-contrário do sexo irreal dos anjos que nunca entraram no céu!

 

***

 

Rezo a ti o meu amor porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amada, nem te ergo ante mim como santa.

Que os teus actos sejam a estátua da renúncia, os teus gestos o pedestal da indiferença, as tuas palavras os vitrais da negação.

 

***

 

Esplendor do nada, nome do abismo, sossego do Além...

Virgem eterna antes dos deuses e dos pais dos deuses, e dos pais dos pais dos deuses, infecunda de todos os mundos, estéril de todas as almas...

A ti são oferecidos os dias e os seres; os astros são votos no teu templo, e o cansaço dos deuses volta ao teu regaço como a ave ao ninho que não sabe como fez.

Que do auge da angústia se aviste o dia, e, se nenhum dia se aviste, que seja esse o dia que se aviste!

Esplende, ausência de sol; brilha, luar que cessas...

Só tu, sol que não brilhas, iluminas as cavernas, porque as cavernas são tuas filhas. Só tu, lua que não há, dás às grutas, porque as grutas

Tu és do sexo das formas sonhadas, do sexo nulo das figuras . Mero perfil às vezes, mera atitude outras vezes, outras gesto lento apenas — és momentos, atitudes, espiritualizadas em minhas.

Nenhum fascínio do sexo se subentende no meu sonhar-te, sob a tua veste vaga de madona dos silêncios interiores. Os teus seios não são dos que se pudesse pensar em beijar-se. O teu corpo é todo ele carne-alma, mas não é alma é corpo. A matéria da tua carne, não é espiritual mas é espírito . És a mulher anterior à Queda, escultura ainda daquele barro que  paraíso.

O meu horror às mulheres reais que têm sexo é a estrada por onde eu fui ao teu encontro. As da terra, que para serem têm de suportar o peso movediço de um homem — quem as pode amar, que não se lhe desfolhe o amor na antevisão do prazer que serve o sexo ...? Quem pode respeitar a Esposa sem ter de pensar que ela é uma mulher noutra posição de cópula... Quem não se enoja de ter mãe por ter sido tão vulvar na sua origem, tão nojentamente parido? Que nojo de nós não punge a ideia da origem carnal da nossa alma — daquele inquieto corpóreo de onde a nossa carne nasce e, por bela que seja, se desfeia da origem e se nos enoja de nata.

Os idealistas falsos da vida real fazem versos à Esposa, ajoelham à ideia de Mãe... O seu idealismo é uma veste que tapa, não é um sonho que crie.

Pura só tu, Senhora dos Sonhos, que eu posso conceber amante sem conceber mácula porque és irreal. A ti posso-te conceber mãe, adorando-o, porque nunca te manchaste nem do horror de seres fecundada, nem do horror de parires.

Como não te adorar, se só tu és adorável? Como não te amar se só tu és digna do amor?

Quem sabe se sonhando-te eu não te crio, real noutra realidade; se não serás minha ali, num outro e puro mundo, onde sem corpo táctil nos amemos, com outro jeito de abraços e outras atitudes essenciais de posse? Quem sabe mesmo se não existias já e não te criei nem te vi apenas, com outra visão, interior e pura, num outro e perfeito mundo? Quem sabe se o meu sonhar-te não foi o encontrar-te simplesmente, se o meu amar-te não foi o pensar-em-ti se o meu desprezo pela carne e o meu nojo pelo amor não foram a obscura ânsia com que, ignorando-te, te esperava, e a vaga aspiração com que, desconhecendo-te, te queria?

Não sei mesmo já se não te amei já, num vago onde cuja saudade este meu tédio perene talvez seja. Talvez sejas uma saudade minha, corpo de ausência, presença de Distância, fêmea talvez por outras razões que não as de sê-lo.

Posso pensar-te virgem e também mãe porque não és deste mundo. A criança que tens nos braços nunca foi mais nova para que houvesses de a sujar de a ter no ventre. Nunca foste outra do que és e como não seres virgem portanto? Posso amar-te e também adorar-te porque o meu amor não te possui e a minha adoração não te afasta.

Sê o Dia Eterno e que os meus poentes sejam raios do teu sol possuídos em ti.

Sê o Crepúsculo Invisível e que as minhas ânsias e desassossegos sejam as tintas da tua indecisão, as sombras da tua incerteza.

Sê a Noite Total, torna-te a Noite Única e que todo eu me perca e me esqueça em ti, e que os meus sonhos brilhem, estrelas, no teu corpo de distância e negação...

Seja eu as dobras do teu manto, as joias da tua tiara, e o ouro outro dos anéis dos teus dedos.

Cinza na tua lareira, que importa que eu seja pó? Janela no teu quarto, que importa que eu seja espaço? Hora na tua clepsidra, que importa que eu passe, se por ser teu ficarei, que eu morra se por ser teu não morrer, que eu te perca se o perder-te é encontrar-te?

Realizadora dos absurdos, Seguidora de frases sem nexo . Que o teu silêncio me embale, que a tua me adormeça, que o teu mero-ser me acaricie e me amacie e me conforte, ó heráldica do Além, ó imperial de Ausência; Virgem -Mãe de todos os silêncios, Lareira das almas que têm frio, Anjo da Guarda dos abandonados, Paisagem humana e irreal de triste e eterna Perfeição.

Tu não és mulher. Nem mesmo dentro de mim evocas qualquer coisa que eu possa sentir feminina. É quando falo de ti que as palavras te chamam fêmea, e as expressões te contornam de mulher. Porque tenho de te falar com ternura e amoroso sonho, as palavras encontram voz para isso apenas em te tratar como feminina.

Mas tu, na tua vaga essência, não és nada. Não tens realidade, nem mesmo uma realidade só tua. Propriamente, não te vejo, nem mesmo te sinto. És como que um sentimento que fosse o seu próprio objeto e pertencesse todo ao íntimo de si próprio. És sempre a paisagem que eu estive quase para poder ver, a orla da veste que por pouco eu não pude ver, perdida num eterno Agora para além da curva do caminho. O teu perfil é não seres nada, e o contorno do teu corpo irreal desata em pérolas separadas o colar da ideia de contorno. Já passaste, e já foste e já te amei – o sentir-te presente é sentir isto.

Ocupas o intervalo dos meus pensamentos e os interstícios das minhas sensações. Por isso eu não te penso nem te sinto, mas os meus pensamentos são ogivais de te sentir, e os meus sentimentos góticos de evocar-te.

Lua de memórias perdidas sobre a negra paisagem nítida de vazio  da minha imperfeição compreendendo-se. O meu ser sente-te vagamente, como se fosse um cinto teu que te sentisse. Debruço-me sobre o teu rosto branco nas águas noturnas do meu desassossego, no meu saber que és lua no meu céu para que o causes, ou estranha lua submarina para que, não sei como, o finjas.

Quem pudesse criar o Novo Olhar com que te visse, os Novos Pensamentos e Sentimentos que houvessem de te poder pensar e sentir!

Ao querer tocar no teu manto as minhas expressões cansam o esforço estendido dos gestos das suas mãos, e um cansaço rígido e doloroso gela-se nas minhas palavras. Por isso, curva um voo de ave, que parece que se aproxima e nunca chega, em torno ao que eu quereria dizer de ti, mas a matéria das minhas frases não sabe imitar a substância ou do som dos teus passos ou do rasto dos teus olhares, ou da cor triste e vazia da curva dos gestos que não fizeste nunca.

 

***

 

E se acaso falo com alguém longínquo, e se, hoje nuvem de possível, amanhã caíres, chuva de real sobre a terra, não te esqueças nunca da tua divindade original de sonho meu. Sê sempre na vida aquilo que possa ser o sonho de um isolado e nunca o abrigo de um amoroso. Faz o teu dever de mera taça. Cumpre o teu mister de ânfora inútil . Ninguém diga de ti o que a alma do rio pode dizer das margens, que existem para o limitar. Antes não correr na vida, antes secar de sonhar.

Que o teu génio seja o ser supérflua, e a tua vida a arte de olhares para ela, de seres a olhada, a nunca idêntica. Não sejas nunca mais nada.

Hoje és apenas o perfil criado deste livro, uma hora carnalizada e separada das outras horas. Se eu tivesse a certeza de que o eras, ergueria uma religião sobre o sonho de amar-te. És o que falta a tudo. És o que a cada coisa falta para a podermos amar sempre. Chave perdida das portas do Templo, caminho encoberto do Palácio, Ilha longínqua que a bruma nunca deixa ver...

 

(Fernando Pessoa - O Livro do Desassossego) 

 

 

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História de Nossa Senhora do Silêncio

publicado às 20:11

A vida  
é um prematuro sonho.  
Só morre  
quem nunca viveu.
(Mia Couto - Vagas e Lumes) 
 

Não há entre os seres humanos,
banalidade maior do que a morte;
em segundo lugar vem o nascimento,
pois nem todos os que morrem chegaram a nascer;
depois vem o matrimónio
(F. Nietzsche - 100 Aforismos sobre o amor, .n.° 87)
 
 
 
 

EM TESE, VIVER É O QUE TODOS NÓS FAZEMOS antes que a morte chegue. Porém, o significado de “viver” varia enormemente de uma pessoa para outra, a ponto de, segundo a filosofia de Oscar Wilde, reduzir-se, para algumas, a um mero “existir”.
Se uma pessoa apenas trabalha, paga as contas e vê os dias passarem, um após o outro, ela flutua nas águas da existência, mas não mergulha nas profundezas da vida.
No livro Un haiku para Alicia (Um haicai para Alicia, numa tradução livre), de Francesc Miralles, a jovem do título pergunta:
Alguma vez você teve a tentação de VIVER? Não digo viver como quem afirma “a vida é assim”; refiro-me a VIVER em letras maiúsculas, mais do que a rotina de “o que se pode fazer?”. Não quero passar pelo mundo na ponta dos pés – manhã, tarde, noite, manhã; de segunda a sexta-feira, com festa no sábado; comer, beber, trabalhar e dormir. [...] Se você quiser me acompanhar, repetirei a pergunta: Alguma vez você teve a tentação de VIVER?
Este livro começa com uma pergunta, caro leitor. Antigamente, para iniciar uma conversa, as pessoas diziam: “Você estuda ou trabalha?” Oscar Wilde nos apresenta uma questão muito mais profunda: VOCÊ EXISTE OU VIVE?


(Allan Percy - Oscar Wilde para Inquietos)

publicado às 16:47


Nietzsche e as IDEIAS PERIGOSAS

por Thynus, em 04.08.17
“…em quase toda parte, é a loucura que abre alas para a nova ideia, que quebra o encanto de um uso e uma superstição venerados…”
 (Nietzsche) 

A moralidade é a melhor de todas as regras para orientar a humanidade.
Friedrich Nietzsche

Todos os meios pelos quais, até hoje, quis-se tornar moral a humanidade foram fundamentalmente imorais.
Friedrich Wilhelm Nietzsche
.
 
Em uma das reflexões mais interessantes de “Aurora”, em que se propõe a pensar sobre a “gênese da moral”, Nietzsche investiga os “imensos períodos” em que a humanidade viveu sob o jugo da “moralidade do costume”. Ele considera os milênios “que precederam a história mundial (que, no fundo, é apenas ruído acerca das últimas novidades)” como a “verdadeira e decisiva história que determinou o caráter da humanidade” .

Na remota história das primeiras civilizações, Nietzsche aponta que “a moralidade não é outra coisa do que obediência a costumes”, uma obediência “à maneira tradicional de agir e avaliar” . É julgado como moral ou “bom” aquela pessoa que adere aos comportamentos prescritos pelas autoridades da comunidade, “aquele que observa mais frequentemente a lei: que, tal como o brâmane, a toda parte e em cada instante carrega a consciência da lei, de modo que é sempre inventivo em oportunidades de observá-la… o mais moral é aquele que mais sacrifica ao costume.” Ademais, o costume é frequentemente tido como indiscutível e santo, ordenado pelos deuses, inscrito de uma vez para sempre na natureza das coisas.
Em contraste, será considerada imoral toda ação que “não foi realizada em obediência à tradição”, todo comportamento que destoe da regra exigida e sugira uma mudança ou revolução nos costumes, toda pessoa que se destaque da mediania do rebanho e se afaste da comunidade. Os bons são os conformistas; os maus, as ovelhas negras. Nietzsche alega, portanto, que a comunidade julga ser mais “moral” aquele que mais se conforma às regras sociais costumeiras e tradicionais, aquele que mais se prontifica a sacrificar-se por elas; já o indivíduo rotulado de “imoral” ou “mau” é aquele cujas ações ou pensamentos portam a marca do individual, do singular, do inusitado, do imprevisível. Encontramos um exemplo interessante deste procedimento de rotulação do indivíduo destoante como imoral na peça de Ibsen, “O Inimigo do Povo”. Os inovadores e renovadores, portanto, não teriam necessariamente que parecer “imorais” àqueles que julgam a moralidade como conformidade ao rebanho?
BOSCH, "A Nau dos Loucos" 
 
NIETZSCHE: “Cada ação individual, cada modo de pensar individual provoca horror; é impossível calcular o que justamente os espíritos mais raros, mais seletos, mais originais da história devem ter sofrido pelo fato de serem percebidos como maus e perigosos, por perceberem a si próprios assim. Sob o domínio da moralidade do costume, toda espécie de originalidade adquiriu má consciência; até hoje, o horizonte dos melhores tornou-se ainda mais sombrio do que deveria ser.” (NIETZSCHE. Aurora. Livro I, #9)
Algumas páginas à frente, Nietzsche explicita ainda mais o que têm em mente quando fala do “horizonte sombrio” daqueles que, “apesar da terrível pressão da moralidade do costume”, ousaram enveredar por caminhos próprios e solitários. O aforismo #14, “significação da loucura na história da humanidade”, diz que “sempre irromperam ideias, valorações, instintos novos e divergentes”, mas que “isso ocorreu em horripilante companhia: em quase toda parte, é a loucura que abre alas para a nova ideia, que quebra o encanto de um uso e uma superstição venerados. (…) Todos os homens superiores, que eram irresistivelmente levados a romper o jugo de uma moralidade e instaurar novas leis, não tiveram alternativa, caso não fossem realmente loucos, senão tornar-se ou fazer-se de loucos – e isto vale para os inovadores em todos os campos…” (Pg. 22). De maneira semelhante, no aforismo #20, Nietzsche, refletindo sobre os que são chamados de criminosos, diz: “Todo aquele que subverteu a lei do costume existente foi tido inicialmente como homem mau.”
Nietzsche enfatiza que o processo de “moralização” de uma criança recém-chegada ao mundo, sua inserção numa cultura específica, o processo pelo qual lhe são impingidas condutas e valores, se dá através de instituições como a Família, o Estado, o Clero. Por exemplo: “Os pais fazem dos filhos, involuntariamente, algo semelhante a eles – a isso denominam ‘educação’ – nenhuma mãe duvida, no fundo do coração, que ao ter seu filho pariu uma propriedade; nenhum pai discute o direito de submeter o filho aos seus conceitos e valorações. (…) E assim como o pai, também a classe, o padre, o professor e o príncipe continuam vendo, em toda nova criatura, a cômoda oportunidade de uma nova posse.” (Além de Bem e Mal, #192)
Não há valores inatos, pois, mas somente valores culturalmente transmitidos. Somente através da educação, com a indispensável dose de coerção nela inclusa, que puderam ser transmitidos às sucessivas gerações que foram nascendo as regras de conduta que as autoridades instituídas julgaram que deviam ser obedecidas. Nietzsche aponta que a tendência gregária do ser humano é acompanhada quase universalmente por uma cisão entre os que mandam e os que obedecem: “sempre, desde que existem homens, houve também rebanhos de homens (clãs, comunidades, tribos, Estados, Igrejas), e sempre muitos que obedeceram, em relação ao pequeno número dos que mandaram… obediência foi até agora a coisa mais longamente exercitada e cultivada entre os homens.” (ABM, #199)
A “moralização” do homem, portanto, só se torna inteligível se levarmos em conta esta tendência do “homem de rebanho” a “aceitar de modo pouco seletivo o que qualquer mandante – pais, mestres, leis, preconceitos de classe, opiniões públicas – lhe grita no ouvido.”
 
 

publicado às 23:58

Duas grandes ideias sobressaem da conferência sobre as "Origens do Cristianismo", realizada na sexta-feira passada, em Macedo de Cavaleiros: "a revolução que constituiu para a humanidade o momento em que a partir do terceiro dia, após a morte de Jesus, se difundiu a ideia da sua ressurreição e a expansão (e fundação) do cristianismo através de Paulo". Assinalada foi ainda a ideia de que "grande valor para o cristianismo é o Homem, assente no princípio de que não é o homem por causa do sábado, mas o sábado por causa do homem".
O debate sobre as origens do cristianismo, incluído no ciclo de conferências "2000 anos de cristianismo", organizadas no âmbito da Agenda Cultural da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, realizado na sexta-feira passada no auditório do Instituto Jean Piaget, constituiu mais um êxito, a avaliar, não só pela afluência de público (cerca de 200 pessoas), mas também pela sua origem (de alguns concelhos do distrito, e não só).
Frei Geraldo Amadeu Coelho Dias
 
A maior curiosidade recaiu sobre a intervenção de frei Geraldo Coelho Dias, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, docente da cadeira de História das Religiões, cuja prática nestas lides ficou expressa logo na introdução que fez citando o "chocante" título do livro "Deus morreu em Jesus Cristo", da autoria de um escritor francês contemporâneo, para marcar o sinal de contradição que para alguns revela "tal mistério".
Frei Geraldo, cuja prática de vida comunitária diz professar, contribuindo com o seu ordenado de professor universitário, baseou a sua intervenção na "centralidade da personalidade de Jesus", cuja doutrina, "sem pretender escandalizar ninguém", está entre os católicos portugueses, numa "situação de conhecimento ao nível da escolaridade primária". A sua abordagem "evangelho de Jesus sobre o evangelho de Jesus" merece, por isso, a explicação de que, "antes dos evangelistas (Lucas, Mateus, Marcos e João), houve, "de facto", o evangelho pregado por Jesus". Considera o professor que "o processo genético sobre os evangelhos é um processo vivo e comunitário, uma espécie de selecção de factos e pregações" onde se revela "a teologia pessoal de cada evangelista tendo em conta a variedade de comunidades para quem eram dirigidos" os textos.

"Estamos no ano 2006"
Segundo Coelho Dias, "não existe uma biografia de Jesus. O que há é "quatro narrativas paralelas escritas por homens de fé, para pessoas de fé, pois Jesus, antes de ser reconhecido como Deus, foi reconhecido como Messias", fundamentando esta tese na asserção de que "o Novo Testamento está latente no Antigo, tal como este está no Novo". É nesta perspectiva que encara a fidelidade de "Jesus ao Antigo Testamento", como forma de "alimentar o espírito messiânico no Novo". Aliás, "o ambiente da época era escatológico, como que se adivinhando o que se iria passar", não lhe parecendo ser por acaso que "Jesus é apresentado por Mateus como Moisés, no sermão da montanha, primeiro sinal da passagem da lei de Talião (dente por dente), para a lei da caridade, pregada por Jesus".
"Jesus da História e o Cristo da fé" é, segundo o conferencista, um tema que tem interessado as várias gerações dos dois últimos milénios", pois é reconhecido desde os filósofos do iluminismo até aos do racionalismo que "Cristo não é um mito, nem uma invenção. É uma figura histórica". Para esta conclusão, não falta sequer, na perspectiva do professor, "o contributo de um escritor judeu do ano 70" que o refere como "homem extraordinário, se é que homem se lhe pode chamar".
Pretendendo situar a vida pública de Jesus, de acordo com os evangelhos, frei Geraldo é de opinião que "não estamos no ano 2001, mas certamente estaremos no ano 2006", pois segundo alguns evangelistas, "a vida pública de Jesus durou um ano, enquanto João (dos primeiros discípulos a seguir Jesus) diz que foram três".

A religião de Paulo
Outro tema controverso é o do rumo que levou a igreja, a partir do ano 70 ("da igreja pregada por Jesus até à igreja cristã"). Por isso é que o conferencista disse que "Jesus nunca quis fundar uma religião" e alega que "a igreja é um movimento e não uma religião". Para o frade, esta "nasce a partir de Paulo", considerando-o mesmo "o grande arauto da religião", a ponto de alguns considerarem que esta até poderia ter adoptado "o nome de paulianismo, em vez de cristianismo". Saulo que era "um intelectual da diáspora dos judeus" transformou-se no "apóstolo dos gentios", a partir da "sua conversão às portas de Damasco".
A história do "projecto de expansão" do cristianismo, levado por Paulo a Chipre, Grécia e "provavelmente até à Península Ibérica", foi o tema da intervenção do segundo orador, Armando Martins, professor da Universidade Clássica de Lisboa, natural de Vale Benfeito (Macedo de Cavaleiros). As convulsões, as crises e o modo como a igreja as ultrapassou, nos primeiros séculos de cristianização, foram os aspectos dominantes do seu discurso. Na sua perspectiva, a cristianização de Portugal fez-se de sul para norte, sendo certo que só a partir do século IV é que começaram a aparecer as primeiras literaturas sobre esse processo.

"O socialismo utópico do princípio"
No debate que se seguiu, José Brinquete, dirigente do PCP, de Bragança, observou que o segundo orador prescindiu dos evangelhos e baseou-se mais na narrativa histórica, concluindo daí que "o cristianismo do primeiro orador não é o mesmo do do segundo". Respondendo, já em jeito de conclusão, frei Geraldo esclareceu que "o cristianismo não pode ser dominador", devendo, pelo contrário "ser a semente da mostarda". Na sua perspectiva, "o império caiu mas a igreja também se imperializou", residindo neste facto "o grande perigo". Para ele "não é só acreditar que Jesus é Deus incarnado, mas também que ele é homem". Por isso, não acredita "na igreja poder", mas sim "na igreja sacrifício", até porque "o ambiente primitivo da comunidade cristã é pobre". "Foi o socialismo utópico do princípio descrito nos Actos dos Apóstolos", conclui.

(Diário de Trás-os-Montes)
O “Cristianismo” é um ente histórico poluído e pervertido demais para ter qualquer poder de influencia de sal na terra.
 

publicado às 23:56


Nietzsche e as IDEIAS PERIGOSAS

por Thynus, em 04.08.17
“…em quase toda parte, é a loucura que abre alas para a nova ideia, que quebra o encanto de um uso e uma superstição venerados…”
 (Nietzsche) 

A moralidade é a melhor de todas as regras para orientar a humanidade.
Friedrich Nietzsche

Todos os meios pelos quais, até hoje, quis-se tornar moral a humanidade foram fundamentalmente imorais.
Friedrich Wilhelm Nietzsche
.
 
Em uma das reflexões mais interessantes de “Aurora”, em que se propõe a pensar sobre a “gênese da moral”, Nietzsche investiga os “imensos períodos” em que a humanidade viveu sob o jugo da “moralidade do costume”. Ele considera os milênios “que precederam a história mundial (que, no fundo, é apenas ruído acerca das últimas novidades)” como a “verdadeira e decisiva história que determinou o caráter da humanidade” .

Na remota história das primeiras civilizações, Nietzsche aponta que “a moralidade não é outra coisa do que obediência a costumes”, uma obediência “à maneira tradicional de agir e avaliar” . É julgado como moral ou “bom” aquela pessoa que adere aos comportamentos prescritos pelas autoridades da comunidade, “aquele que observa mais frequentemente a lei: que, tal como o brâmane, a toda parte e em cada instante carrega a consciência da lei, de modo que é sempre inventivo em oportunidades de observá-la… o mais moral é aquele que mais sacrifica ao costume.” Ademais, o costume é frequentemente tido como indiscutível e santo, ordenado pelos deuses, inscrito de uma vez para sempre na natureza das coisas.
Em contraste, será considerada imoral toda ação que “não foi realizada em obediência à tradição”, todo comportamento que destoe da regra exigida e sugira uma mudança ou revolução nos costumes, toda pessoa que se destaque da mediania do rebanho e se afaste da comunidade. Os bons são os conformistas; os maus, as ovelhas negras. Nietzsche alega, portanto, que a comunidade julga ser mais “moral” aquele que mais se conforma às regras sociais costumeiras e tradicionais, aquele que mais se prontifica a sacrificar-se por elas; já o indivíduo rotulado de “imoral” ou “mau” é aquele cujas ações ou pensamentos portam a marca do individual, do singular, do inusitado, do imprevisível. Encontramos um exemplo interessante deste procedimento de rotulação do indivíduo destoante como imoral na peça de Ibsen, “O Inimigo do Povo”. Os inovadores e renovadores, portanto, não teriam necessariamente que parecer “imorais” àqueles que julgam a moralidade como conformidade ao rebanho?
BOSCH, "A Nau dos Loucos" 
 
NIETZSCHE: “Cada ação individual, cada modo de pensar individual provoca horror; é impossível calcular o que justamente os espíritos mais raros, mais seletos, mais originais da história devem ter sofrido pelo fato de serem percebidos como maus e perigosos, por perceberem a si próprios assim. Sob o domínio da moralidade do costume, toda espécie de originalidade adquiriu má consciência; até hoje, o horizonte dos melhores tornou-se ainda mais sombrio do que deveria ser.” (NIETZSCHE. Aurora. Livro I, #9)
Algumas páginas à frente, Nietzsche explicita ainda mais o que têm em mente quando fala do “horizonte sombrio” daqueles que, “apesar da terrível pressão da moralidade do costume”, ousaram enveredar por caminhos próprios e solitários. O aforismo #14, “significação da loucura na história da humanidade”, diz que “sempre irromperam ideias, valorações, instintos novos e divergentes”, mas que “isso ocorreu em horripilante companhia: em quase toda parte, é a loucura que abre alas para a nova ideia, que quebra o encanto de um uso e uma superstição venerados. (…) Todos os homens superiores, que eram irresistivelmente levados a romper o jugo de uma moralidade e instaurar novas leis, não tiveram alternativa, caso não fossem realmente loucos, senão tornar-se ou fazer-se de loucos – e isto vale para os inovadores em todos os campos…” (Pg. 22). De maneira semelhante, no aforismo #20, Nietzsche, refletindo sobre os que são chamados de criminosos, diz: “Todo aquele que subverteu a lei do costume existente foi tido inicialmente como homem mau.”
Nietzsche enfatiza que o processo de “moralização” de uma criança recém-chegada ao mundo, sua inserção numa cultura específica, o processo pelo qual lhe são impingidas condutas e valores, se dá através de instituições como a Família, o Estado, o Clero. Por exemplo: “Os pais fazem dos filhos, involuntariamente, algo semelhante a eles – a isso denominam ‘educação’ – nenhuma mãe duvida, no fundo do coração, que ao ter seu filho pariu uma propriedade; nenhum pai discute o direito de submeter o filho aos seus conceitos e valorações. (…) E assim como o pai, também a classe, o padre, o professor e o príncipe continuam vendo, em toda nova criatura, a cômoda oportunidade de uma nova posse.” (Além de Bem e Mal, #192)
Não há valores inatos, pois, mas somente valores culturalmente transmitidos. Somente através da educação, com a indispensável dose de coerção nela inclusa, que puderam ser transmitidos às sucessivas gerações que foram nascendo as regras de conduta que as autoridades instituídas julgaram que deviam ser obedecidas. Nietzsche aponta que a tendência gregária do ser humano é acompanhada quase universalmente por uma cisão entre os que mandam e os que obedecem: “sempre, desde que existem homens, houve também rebanhos de homens (clãs, comunidades, tribos, Estados, Igrejas), e sempre muitos que obedeceram, em relação ao pequeno número dos que mandaram… obediência foi até agora a coisa mais longamente exercitada e cultivada entre os homens.” (ABM, #199)
A “moralização” do homem, portanto, só se torna inteligível se levarmos em conta esta tendência do “homem de rebanho” a “aceitar de modo pouco seletivo o que qualquer mandante – pais, mestres, leis, preconceitos de classe, opiniões públicas – lhe grita no ouvido.”
 
 

publicado às 17:57

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