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Da Ciência

por Thynus, em 18.07.17
 
Todas as coisas boas foram um dia coisas ruins; cada pecado original tornou-se uma virtude original. O casamento, por exemplo, foi por muito tempo uma ofensa aos direitos da comunidade; pagava-se uma sanção por ser tão imodesto e ter a pretensão de uma mulher só para si (daí, por exemplo, o jus primae noctis [direito da primeira noite], ainda hoje no Camboja privilégio dos sacerdotes, esses guardiões dos “bons costumes antigos”). Os sentimentos brandos, benevolentes, indulgentes, compassivos — afinal de valor tão elevado, que se tornaram quase os “valores em si” — por longo tempo tiveram contra si precisamente o autodesprezo: tinha-se vergonha da suavidade, como hoje se tem vergonha da dureza.
(F. Nietzsche - Genealogia da Moral)

 
Sou um conjunto dos possíveis e impossíveis, mas sou forjada, por que o meu aço não suporta a presença da suavidade daquele que conduz ao meu coração o aguçar dos seus suaves olhares!


Assim cantou o feiticeiro; e todos os que ali estavam caíram inadvertidamente, como pássaros, na rede de sua astuciosa e melancólica volúpia. Apenas o consciencioso do espírito não foi apanhado: ele tirou rapidamente a harpa das mãos do feiticeiro e gritou: “Ar! Deixai entrar o ar puro! Deixai que Zaratustra entre! Tornas abafada e venenosa esta caverna, ó velho feiticeiro mau!

     Com tua sedução, ó homem falso e refinado, levas a desejos e ermos desconhecidos. E ai de nós, quando alguém como tu faz tanto caso e tanto barulho em torno da verdade!

     Ai de todos os espíritos livres que não se acautelam de tais feiticeiros! Sua liberdade se foi: tu ensinas e atrais de volta às prisões. —

     — velho demônio melancólico, em teu lamento ressoa um chamariz; semelhas aqueles que, louvando a castidade, convidam secretamente às volúpias!”

     Assim falou o consciencioso; mas o velho feiticeiro olhou ao seu redor, gozou sua vitória e, assim, pôde engolir o dissabor que o consciencioso lhe causava. “Cala-te!”, disse com voz modesta, “as boas canções querem ter um bom eco; após uma boa canção, deve-se manter um longo silêncio.

     Assim fazem todos esses, os homens superiores. Mas entendeste pouco da minha canção, não foi? Não há muito espírito mágico em ti.”

     “Tu me elogias”, respondeu o consciencioso, “ao diferençar-me de ti. Muito bem! Mas vós outros, que vejo? Continuais aí sentados, com olhos lascivos —:

     Ó almas livres, onde está vossa liberdade? Sois quase, assim me parece, como aqueles que longamente contemplaram malvadas garotas nuas a dançar: vossas almas também dançam!

     Em vós, ó homens superiores, deve haver mais daquilo que o feiticeiro chama de seu maligno espírito de engano e sortilégio: — sim, devemos ser diferentes.

     E, em verdade, juntos falamos e pensamos o suficiente, antes que Zaratustra voltasse à sua caverna, para eu saber que somos diferentes.

     Nós também buscamos coisas diferentes aqui em cima, vós e eu. Eu busco mais segurança,162 por isso vim a Zaratustra. Pois ele é ainda a mais firme torre e vontade —

     — hoje, quando tudo cambaleia, quando toda a terra treme. Mas vós, quando vejo os olhos que arregalais, quase me parece que buscais mais insegurança

     — mais horrores, mais perigo, mais tremores de terra. Vós desejais, assim presumo, perdoai-me a presunção, ó homens superiores —

     — desejais a pior e mais perigosa vida, aquela que mais me assusta, a vida de animais selvagens: florestas, cavernas, montes íngremes e desfiladeiros sinuosos.

     E os guias que mais vos agradam não são os que vos conduzem para fora do perigo, mas os que vos induzem a abandonar todos os caminhos, os que seduzem. E, ainda que em vós seja real esse desejo, ele me parece impossível.

     Pois o medo — é o sentimento original e fundamental do homem; pelo medo tudo se explica, pecado original e virtude original. Do medo também nasceu a minha virtude, que se chama ‘ciência’.

     O medo dos animais selvagens — foi o que há mais tempo se inculcou no homem, inclusive o do animal que ele mesmo abriga e teme dentro de si: — Zaratustra o chama ‘o animal interior’.

     Esse velho e prolongado medo, enfim tornado sutil, espiritual, intelectual — hoje, parece-me, ele se chama ‘ciência’.” —

     Assim falou o consciencioso; mas Zaratustra, que justamente retornava à sua caverna e ouviu e compreendeu essa última fala, jogou para o consciencioso um punhado de rosas e riu de suas “verdades”. “Como?”, exclamou, “o que acabo de ouvir? Na verdade, parece-me que és um tolo, ou eu mesmo sou: e tua ‘verdade’ porei logo de cabeça para baixo.

     Pois o medo — é a nossa exceção. Mas coragem, aventura, prazer no incerto, no ainda não ousado, — coragem parece-me ser toda a pré-história do homem.

As virtudes dos mais selvagens e mais corajosos animais ele invejou e roubou: apenas assim tornou-se — homem.

     Essa coragem, enfim tornada sutil, espiritual, intelectual, essa coragem de homem com asas de águia e esperteza de cobra: ela, parece-me, chama-se hoje —”

     “Zaratustra!”, gritaram em coro todos os que estavam sentados, e deram uma grande risada; mas uma nuvem espessa como que se levantou deles. Também o feiticeiro riu e falou espertamente: “Muito bem! Ele se foi, meu mau espírito!

     Eu mesmo não vos preveni contra ele, quando afirmei que é um impostor, um espírito mendaz e enganador?

     E especialmente quando se mostra nu. Mas que faço eu contra suas perfídias? Fui eu quem o criou, a ele e ao mundo?

     Muito bem! Vamos estar novamente bem-dispostos! E, embora Zaratustra tenha o olhar sombrio — olhai para ele, zangou-se comigo! —:

     — antes que chegue a noite ele saberá novamente me amar e louvar, ele não pode viver muito tempo sem fazer dessas tolices.

     Ele — ama seus inimigos: dessa arte ele entende melhor do que todos que conheci. Mas ele se vinga disso — em seus amigos!”

     Assim falou o velho feiticeiro, e os homens superiores o aplaudiram: de modo que Zaratustra deu a volta, apertando as mãos de seus amigos com malícia e amor — como alguém que tem algo a reparar e de que se escusar com cada um. Mas, quando chegou junto à porta de sua caverna, eis que novamente ansiou pelo bom ar lá de fora e por seus animais —, e quis escapulir.
 
 
Entre as filhas do deserto

     “Não vás embora!”, disse então o andarilho que se denominava a sombra de Zaratustra, “fica conosco, senão pode voltar a nos acometer a velha e surda aflição.

     O velho feiticeiro já nos regalou o que tem de pior, e olha: o bom e piedoso papa está com lágrimas nos olhos e novamente se lançou ao mar da melancolia.

     Esses reis podem fazer boa cara diante de nós: foram eles, de todos nós, que melhor aprenderam isso hoje! Mas, se não tivessem testemunhas, aposto que o triste jogo recomeçaria também com eles —

     — o triste jogo das nuvens errantes, da úmida melancolia, do céu carregado, dos sóis roubados, dos uivantes ventos de outono,

     — o triste jogo de nossos próprios uivos e gritos de socorro: fica conosco, ó Zaratustra! Aqui há muita miséria oculta que deseja falar, muito anoitecer, muita nuvem, muito ar abafado!

     Tu nos nutriste com forte alimento de homem e vigorosas máximas: não permitas que os moles espíritos femininos voltem a nos assaltar no fim da refeição!

     Apenas tu tornas claro e forte o ar ao teu redor! Jamais encontrei na terra um ar tão bom como em tua caverna.

     Vi muitos países diferentes, meu nariz aprendeu a examinar e avaliar muitos tipos de ar: mas é junto a ti que minhas narinas têm seu grande prazer!

     A não ser — a não ser —, oh, perdoa-me uma antiga lembrança! Perdoa-me uma velha canção pós-refeição, que certa vez compus, estando entre as filhas do deserto: —

     — pois junto a elas havia igualmente o bom ar claro do Oriente; lá eu estava o mais longe possível da nublada, úmida, melancólica Velha Europa!

     Naquele tempo eu amava essas filhas do Oriente e um outro azul reino dos céus, em que não há nuvens nem pensamentos.

     Não imaginais como ficavam airosamente sentadas quando não dançavam, profundas mas sem pensamentos, como pequeninos segredos, como enfeitados enigmas, como nozes de sobremesa —

     Coloridas e exóticas, é verdade! Mas sem nuvens: enigmas que se deixavam decifrar: para essas garotas concebi, então, um salmo de sobremesa.”

     Assim falou o andarilho e sombra; e, antes que alguém lhe respondesse, tomou a harpa do velho feiticeiro, cruzou as pernas e olhou, tranquilo e sábio, em torno de si: — mas com as narinas aspirou o ar de modo lento e inquisitivo, como alguém que, em novas terras, saboreia o ar novo e estrangeiro. Então pôs-se a cantar, com uma espécie de rugido.



     O deserto cresce: ai daquele que abriga desertos!


     Ah! Solene!

     Realmente solene!

     Um começo digno!

     Africanamente solene!

     Digno de um leão

     Ou de um rugidor macaco moralista —

     — mas nada para vós,

     Amigas graciosíssimas,

     A cujos pés, a mim,

     Um europeu sob as palmeiras,

     Pela primeira vez

     É permitido sentar. Selá.163

     Maravilhoso, em verdade!

     Eis-me aqui sentado,

     Próximo ao deserto e já

     Novamente longe do deserto,

     E em nada devastado:

     Pois engolido

     Por esse pequeno oásis: —

     — que agora mesmo abriu, bocejante,

     Sua boca encantadora,

     A mais cheirosa de todas as bocas:

     E então caí nela,

     Dentro, através — entre vós,

     Amigas graciosíssimas! Selá.

     Salve, salve aquela baleia,

     Se bem tratou

     Seu hóspede! — entendeis

     Minha erudita alusão?...

     Salve o seu ventre,

     Se ele foi

     Um ventre-oásis agradável

     Como este: algo que ponho em dúvida.

     Pois venho da Europa,

     Que é mais cética do que todas as mulheres casadas.

     Que Deus melhore isso!

     Amém.

     Eis-me aqui sentado

     Neste pequenino oásis,

     Como uma tâmara,

     Castanha, inteiramente doce, gotejante de ouro,

     Ávida da boca redonda de uma garota,

     Mais ainda, porém, de virginais

     Gélidos, brancos como neve, cortantes

     Dentes que mordem: pois deles está sedento

     O coração de todas as tâmaras quentes. Selá.

     Semelhante, por demais semelhante

     Aos ditos frutos do Sul

     Aqui me acho deitado, cercado

     De pequenos besouros alados.

    Farejando e brincando,164

     Assim como de ainda menores

     Mais bobos e pecaminosos

     Desejos e pensamentos, —

     Sitiado por vós,

     Mudas, apreensivas

     Gatas-meninas

     Dudu e Zuleika165

     — circum-esfingeado, para pôr

     Numa palavra muitos sentimentos

     (Que Deus me perdoe

     Este pecado de linguagem!)

     — aqui estou sentado, farejando o melhor ar,

     Verdadeiramente ar de paraíso,

     Ar leve e claro, listrado de ouro,

     Ar bom como jamais

     Caiu da lua —

     Terá sido por acaso

     Ou por petulância?

     Como contam os velhos poetas.

     Mas eu, questionador, ponho isso

     Em questão, pois venho

     Da Europa,

     Que é mais cética do que todas as mulheres casadas.

     Que Deus melhore isso!

     Amém.

     Bebendo este belíssimo ar,

     Com narinas dilatadas como taças,

     Sem futuro, sem lembranças,

     Eis-me aqui sentado, graciosíssimas amigas,

     E olho a palmeira,

     Como, igual a uma dançarina,

     Ela se curva, se dobra e nos quadris se retorce

     — fazemos o mesmo, se olhamos muito tempo!

     Tal como uma dançarina que, quer-me parecer,

     Já por tempo demais, perigosamente

     Sempre se manteve apenas numa só perna?

     — esquecendo então, quer-me parecer,

     A outra perna?

     Em vão, ao menos

     Busquei a ausente

     Joia gêmea

     — isto é, a outra perna —

     Na sagrada vizinhança

     De sua graciosíssima, formosíssima

     Saia em leque, esvoaçante e brilhante.

     Sim, se quereis, belas amigas,

     Acreditar inteiramente em mim,

     Ela a perdeu!

     Foi-se!

     Foi-se para sempre!

     A outra perna!

     Oh, que pena por essa outra perna adorável!

     Onde — estará ela, chorosa e abandonada,

     A perna solitária?

     Talvez com medo de um

     Furioso monstro-leão

     De juba dourada? Ou talvez já

    Esburgada, roída —

     Lamentável! ai! ai! roída! Selá.

     Oh, não choreis,

     Corações meigos!

     Não choreis, ó

     Corações de tâmaras! Peitos de leite!

     Ó saquinhos de

     Coração de alcaçuz!

     Não chores mais,

     Pálida Dudu!

     Sê um homem, Zuleika! Coragem! Coragem!

     — Ou seria este o lugar

     De algo mais forte,

     Que fortifique o coração?

     Uma sentença consagrada?

     Uma solene exortação? —

     Ah! Arriba, dignidade!

     Dignidade virtuosa, dignidade europeia!

     Sopra, sopra de novo,

     Fole da virtude!

     Ah!

     Rugir mais uma vez,

     Rugir moralmente!

     Como leão moral

     Rugir ante as filhas do deserto!

     — Pois o bramido da virtude,

     Ó graciosíssimas garotas,

     É mais do que tudo

     Ardor de europeu, voracidade de europeu!

     E aqui estou eu,

     Como europeu

     Não posso agir de outra maneira, valha-me Deus!166

     Amém!

     O deserto cresce: ai daquele que abriga desertos!


(Friedrich Nietzsxhe - Assim falou Zaratustra)


 
NOTAS
(162) "segurança”: Sicherheit, que também significa “certeza”; da mesma forma, “insegurança”, que surge em seguida, pode ser entendida como “incerteza”. No título desse capítulo, a palavra alemã traduzida por “ciência”, Wissenschaft, tem sentido mais abrangente que o do termo português, como já se observou acima. 
(163) “Selá”: palavra hebraica que aparece com frequência nos salmos bíblicos, possivelmente uma marcação musical. Em algumas versões da Bíblia encontramos Selá (cf. a de Ferreira de Almeida); em outras, usa-se “Pausa” (cf. as das editoras Vozes e Paulinas). Como diz o tradutor Mário da Silva, Nietzsche pretendeu, ao utilizar esse termo, “acentuar o sabor de paródia de salmo”. Quanto a “Um europeu sob as palmeiras” etc., cf. Goethe, As afinidades eletivas, II, 7, a anotação de Ottilie em seu diário, sobre aqueles que viajam para terras exóticas: “Ninguém passeia impunemente sob as palmeiras”. 
 (164) “Farejando e brincando”: na edição de Colli e Montinari o primeiro verbo, umschnüffeln, foi substituído por umtänzeln, que significa “andar em volta com passos de dança”, e dois versos adiante o adjetivo sündhafteren, “mais pecaminosos”, deu lugar a boshafteren, “mais maldosos”. 
(165) Dudu é uma odalisca, personagem do D. Juan de Byron (no canto VI), uma das obras prediletas de Nietzsche na juventude. Zuleika é personagem importante do West-östlicher Diwan, ciclo de poemas de Goethe. No verso seguinte, o feio neologismo “circum-esfingeado” é apenas a tradução literal daquele cunhado por Nietzsche, umsphinxt, ou “rodeado de esfinges”; as versões consultadas também não tiveram muita opção: “esfingeado”, circumesfingeado, circosfingiato, ensphinxé, idem, ensphinxed, sphinxed round, ensphinxed. 
 (166) Palavras que Lutero teria dito na assembleia de Worms (1521), quando instado a renegar suas novas ideias; uma das citações favoritas de Nietzsche.

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publicado às 21:03


A filosofia de Nietzsche O NIILISMO

por Thynus, em 15.07.17
Quando se coloca o centro de gravidade da vida não na vida mas no "além" - no nada - tira-se da vitda o seu centro de gravidade.

“Se nada existisse, minhas irmãs?... Se tudo fosse, de qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?”
 
 
 
Niilismo e decadência

O termo “niilismo”, que já se encontra em Jacobi, Ivan Turguêniev, Dostoiévski, os anarquistas russos, e que Nietzsche toma a Paul Bourget, serve para designar, em Nietzsche, a essência da crise mortal que acomete o mundo moderno: a desvaloração universal dos valores, que mergulha a humanidade na angústia do absurdo, impondo-lhe a certeza desesperadora de que nada mais tem sentido.
O niilismo é uma posição filosófica que nega os dogmas

     O niilismo corrobora a generalização de um fenômeno mórbido, a decadência. Enquanto está restrita a certas camadas sociais e em certas regiões do globo, a decadência não põe em risco a civilização humana, mas ela se torna um terrível flagelo quando invade – como hoje, segundo Nietzsche – a totalidade das classes, das instituições e dos povos, para se confundir finalmente com a própria ideia de humanidade (Vontade de potência II). Ao falar de “decadência”, Nietzsche tenta de alguma maneira situar e agrupar as condições existenciais que, a seus olhos, prepararam a irrupção do niilismo. Essa formulação tem a vantagem de nos proteger contra a acepção biológica ou médica demasiado estreita em que seríamos levados a entender a palavra decadência, se a tratássemos como simples sinônimo de doença. Pois mesmo quando Nietzsche vê na decadência uma espécie de doença social, analisando seus sintomas com um vocabulário clínico, é sempre de acordo com sua concepção filosófica da vida como vontade de potência que ele apresenta seu diagnóstico e prescreve remédios. Quando, portanto, para explicar a generalização da própria decadência alemã, ele denuncia o domínio cada vez maior dos fracos sobre os fortes, é preciso restituir a esses qualificativos a significação filosófica que eles guardam para Nietzsche, isto é, vinculá-los à vontade de potência, onde correspondem justamente às suas duas tendências fundamentais e antagônicas. O paradoxo expresso numa tal inversão dos poderes, e que faz da decadência o “mal-estar da civilização” que também preocupará Freud (mas de outro ponto de vista), confirma que, para Nietzsche, aqui se trata realmente de uma catástrofe relativa à interpretação filosófica da vida em sua natureza mais secreta.

     A decadência se caracteriza em primeiro lugar pelo desregramento dos instintos. Para tentar restabelecer um equilíbrio, o decadente recorre à razão, erigindo-a em déspota sob a capa do imperativo moral e da crença dogmática na lógica. Esse remédio não impede que o decadente continue um ser fundamentalmente “reativo”. Pois a decadência provoca a desagregação das formas, a perda das capacidades de assimilação e de síntese, a debilitação da vontade, o desencadeamento caótico das paixões: em vez de agir, o decadente rumina infindavelmente as lembranças dolorosas e, vítima de sua excessiva irritabilidade, busca a embriaguez do esquecimento em estimulantes artificiais; é o homem cujas motivações provêm da vontade de vingança. Pois “quem sofre prescreve contra seu sofrimento o mel da vingança” (Crepúsculo dos ídolos). Assim, a noção de justiça se encontra pervertida pelo ressentimento dos decadentes: “Quando eles dizem: ‘Sou justo’, tem-se sempre a impressão de ouvir: ‘Estou vingado’” (Assim falou Zaratustra).

     Mas como os fracos conseguiram contaminar os fortes, de tal modo que a decadência se tornou a doença de toda a civilização humana? Foram empregados vários meios, sendo o mais eficaz o controle do ensino; com essa artimanha, a decadência se tornou propriamente a escola da doença. Essa pedagogia da decadência, camuflada sob a bandeira de um “aperfeiçoamento” moral do homem, na verdade trabalha para domesticá-lo; em outras palavras, para transformar as naturezas enérgicas e apaixonadas em animais de carga laboriosos, dóceis e medíocres. Foi a casta sacerdotal que se incumbiu dessa domesticação sistemática. Não dispõe ela, com sua ideologia do pecado, do instrumental psicológico indispensável? Com certeza. Pois “o homem tornado inofensivo, fraco para consigo e para com os outros, afundado na humildade e na modéstia, consciente de sua fraqueza, o ‘pecador’ – tal é o tipo desejável, o qual também pode ser produzido graças a alguma cirurgia da alma” (Vontade de potência I)

A morte de Deus

     A irrupção do niilismo marca o desmoronamento da ideologia sobre a qual a decadência erguera seu reinado. O niilismo significa que “Deus morreu”; isto é, o conjunto dos ideais e dos valores que garantiam a dominação da decadência traiu o nada que era seu fundamento oculto.

     Vê-se que a morte de Deus não corresponde absolutamente a uma simples constatação psicossociológica dos avanços do ateísmo no mundo moderno; menos ainda designa a retomada do tema cristão da morte e da ressurreição de Deus, tema elaborado por Hegel ao gosto dialético. Quando Nietzsche proclama a morte de Deus pela boca de seu Zaratustra, ele pretende resumir numa fórmula de impacto o conjunto das reflexões que lhe revelaram o sentido e a gênese da ideologia cuja nulidade radical é experimentada pela modernidade, numa crise mundial.

     A angústia moderna, assim, é uma angústia perante o abismo de uma vida que, agora privada de seus fins e de seus valores, aparece fatalmente absurda: “Os valores superiores se depreciam. Os fins não existem; não há resposta à pergunta ‘Para quê?’” (Vontade de potência II). Ora, precisamente, o sentimento de absurdo é a prova afetiva imediata daquilo que o filósofo reconhece e pensa como desvelamento do nada: “Se um filósofo pudesse ser niilista, declara Nietzsche, sê-lo-ia porque encontra o nada por trás de todos os ideais” (Crepúsculo dos ídolos). Mas atenção! Esse nada não é um absoluto de negatividade opondo-se ao Ser, é um nada de valor que remete à normatividade da interpretação vital. Assim Nietzsche se apressa em acrescentar: “E nem mesmo o nada – mas apenas o que é fútil, absurdo, doentio, fatigado, toda espécie de borra no copo vazio de sua existência” (Crepúsculo dos ídolos).

     Por conseguinte, uma tal crise não nos encerra no irremediável. Ao contrário, ela nos obriga a sondar as origens da ideologia que garantiu a promoção da decadência, para que depois possamos inventar os valores que celebrarão a vida autenticamente criadora: “De início haverá de parecer que o mundo perdeu em valor, pelo menos teremos esse sentimento; neste sentido, mas apenas neste sentido, somos pessimistas, com a vontade de admitirmos sem reticência essa transvaloração, ao invés de salmodiar, ao velho estilo, um consolo ilusório qualquer. Neste próprio fato encontraremos a emoção que nos levará a criar valores novos” (Vontade de potência II).

     Nietzsche traça aqui um duplo programa: primeiro, criticar o Idealismo, enquanto responsável pelo niilismo moderno, e portanto “superar a metafísica”; a seguir, operar a transmutação de todos os valores, para substituir a humanidade decadente pelo super-homem: “‘Todos os deuses morreram, o que agora queremos é que viva o Super-Humano’; um dia, em pleno meio-dia, esta será nossa vontade suprema” (Assim falou Zaratustra).

As etapas do niilismo

     No entanto, não é possível sair de um salto do niilismo. É preciso percorrer pacientemente suas diversas etapas, até o instante crucial em que a iminência do desastre absoluto há de desencadear – se a filosofia soube preparar as condições para tal – a superação salvadora. Eis como Nietzsche nos narra a história do niilismo.

     O niilismo tem como prelúdio o pessimismo, mistura de desgosto, nervosismo, nostalgia, onde também assoma o spleen romântico e encontra sua justificação especulativa privilegiada na filosofia de Schopenhauer. Esta recorre à dor para proclamar, em teoria, a superioridade do não-ser em relação ao ser e assim exortar, na prática, à destruição do Querer-Viver por meio de uma ascese calcada no ensinamento budista. Nisso ela mostra sua cumplicidade com as tendências mais perniciosas da própria decadência, pois, retruca Nietzsche, “o simples fato de perguntar se o não-ser não vale mais que o ser é, por si só, uma doença, um sinal de decadência” (Vontade de potência II).

     O pessimismo não propõe um enfrentamento leal do nada, favorecendo antes a busca de escapatórias. É por isso que ele desemboca no “niilismo incompleto”, o qual reconhece a queda dos antigos valores, mas se recusa a pôr em dúvida o fundamento ideal deles. O niilismo incompleto substitui Deus pelo culto dos ídolos.

     A acuidade da visão crítica de Nietzsche então lhe permite prever o caráter nocivo de uma modernidade cujos danos hoje sofremos cruelmente: fanatismo, sectarismo, totalitarismo, esses três tipos de fugas para o niilismo incompleto!

     Nietzsche aponta duas fontes de purulência. A primeira é a luta entre a tradição religiosa e os “livres pensadores”. Esses livres pensadores, longe de serem os ateus íntegros e corajosos que seriam necessários para repelir a mentira da religião, não passam de cristãos laicizados; eles não eliminaram o Deus do cristianismo senão para conservar mais piedosamente ainda a moral cristã. Portanto, Nietzsche os trata como inimigos na medida em que esses livres pensadores ameaçam se contrapor à sua estratégia “imoralista”. Pois, repete ele, “quando se renuncia a Deus, os indivíduos se agarram ainda mais firmemente à moral” (Vontade de potência II) – o dever kantiano substitui o Deus morto. A outra ameaça, segundo Nietzsche, são as doutrinas socialistas. Nietzsche certamente nunca leu Marx, não teve nenhum contato com os escritos marxistas nem com o movimento operário europeu; seus juízos sobre o socialismo, portanto, devem ser passados pelo mais rigoroso crivo. Isso não impede que esses mesmos juízos, na medida em que derivam de uma reflexão admiravelmente pertinente sobre o niilismo, sejam dos mais eficazes para libertar o socialismo de suas concessões à lógica da modernidade e, assim, livrá-lo dos desvios e becos sem saída em que se extraviou. Nietzsche enxergou especialmente bem os riscos da sacralização (niilista) da História e do Progresso, bem como do moralismo revolucionário, aqui disfarçado em apologia da felicidade coletivista e obrigatória.

     O niilismo incompleto é apenas uma transição. O avanço do nada é irresistível. Breve se impõe o “niilismo passivo”. Agora, a falta de fundamento se tornou uma evidência central e universal, e todos os antigos valores são tragados por esse abismo. Mas a lucidez da inteligência vem acompanhada por uma abdicação completa da vontade. Em vez de mobilizar a vontade para criar valores novos, renuncia-se; tem-se prazer no espetáculo da inanidade universal; ressurge um idealismo que serve para preparar a extinção do desejo. “O olho do niilista idealista en laid, ele é infiel a suas lembranças; deixa que caiam, que se desfolhem; não as protege contra essa descoloração pálida que a fraqueza espalha sobre as coisas distantes e passadas. E o que ele faz consigo mesmo, também o faz com todo o passado do homem: deixa-o cair” (Vontade de potência II).

     Mas esporadicamente subsiste energia suficiente para que, ao lado da indolência desabusada do niilismo passivo, erga-se a revolta deliberadamente destruidora do “niilismo ativo”. Os decadentes mais ferozes e, ao mesmo tempo, mais clarividentes exigem uma derrocada universal dos valores; não se contentam mais em assistir à ruína dos antigos ideais e eles mesmos se tornam os incendiários. A festa da aniquilação, a fúria do terrorismo é sua última oportunidade. “A variedade humana mais malsã da Europa (em todas as classes) é o terreno de cultura desse niilismo [...] Esses homens não querem apenas se extinguir passivamente, e sim extinguir voluntariamente tudo o que nesta altura está privado de sentido e de finalidade, mesmo que seja apenas uma convulsão, um furor cego” (Vontade de potência II).

     Até aqui, todas as formas do niilismo apresentadas tinham como característica comum o fato de ser uma capitulação diante do nada revelado pela morte de Deus. Mas eis que, com a última fase, desenha-se a esperança de uma autêntica superação do próprio niilismo. Agora entra em jogo a vontade de potência afirmativa, aquela que, optando pela vida contra o nada, decide criar valores em vez de se lamentar servilmente pela morte de Deus. Visto deste ângulo, o conjunto do niilismo aparece como a inevitável contrapartida de um novo e vigoroso avanço da Humanidade. É preciso saber que tal vontade afirmativa necessita ser despertada, educada, sustentada pela mais severa seleção. Estamos, pois, diante de um “niilismo clássico” ou “extático”, em que o rigor das exigências será a pedra de toque para distinguir entre os decadentes e os criadores e, com essa pedagogia da seleção trágica, produzirá “homens que terão todas as qualidades da alma moderna, mas que terão a força de transformá-las em saúde” (Vontade de potência II). Em suma, é preciso “comandar a humanidade para obrigá-la a se superar. Conseguir que ela se supere, por meio de doutrinas que a farão perecer, exceto aquelas que as sustentarão” (Vontade de potência II).

A aproximação do Último Homem

     Quando Zaratustra, o porta-voz de Nietzsche, resolve sair de seu retiro para falar ao povo, seu discurso pretende justamente provocar aquele despertar da vontade que, para além do niilismo, permitirá alcançar o super-homem. Tal discurso ilustra bem essa educação da vontade de potência afirmativa que, espera Nietzsche, forjará as armas do “niilismo extático”. Zaratustra procura despertar a vocação criadora espicaçando entre os ouvintes o orgulho do desprezo. Não é o desprezo o estimulante mais eficaz da criatividade, pois obriga o indivíduo a superar a si mesmo, pelo receio de se assemelhar ao que é vergonhoso e medíocre? Ora, ensina Zaratustra, “o que há de mais desprezível no mundo” é “o Último Homem” – o homem aviltado, sem fibra e subjugado que, frente à catástrofe da morte de Deus, escolhe se atolar no pântano da “felicidade”; em suma, o homem que se julga “esperto” porque prefere fruir mesquinhamente em vez de combater heroicamente: “A terra então se tornará pequena, e se verá saltitar o Último Homem, que apequena todas as coisas. Sua laia é indestrutível como a do pulgão; o Último Homem é aquele que viverá mais tempo” (Assim falou Zaratustra). Adivinha-se a receita dessa felicidade: a eliminação engenhosamente programada de tudo o que, na realidade, é fonte de conflitos, de lutas, de tensão – e, portanto, de superação. Trata-se de reduzir a existência humana a uma sonolência prazerosa e ininterrupta, a uma irresponsabilidade contente. Reconhece-se aí o ideal da “sociedade de consumo” moderna, versão técnica e publicitária do niilismo passivo.

     Ora, Zaratustra se apercebe consternado que o povo, longe de desprezar o niilismo hedonista do Último Homem, reivindica-o a altos brados e mostra apenas indiferença pelo projeto do super-homem!

     Sutil prova da perspicácia de Nietzsche. Pois Nietzsche nos adverte, com essa fábula, que a tarefa de vencer o niilismo será não só mal interpretada, mas abertamente sabotada pela modernidade, cujo princípio é a sacralização da felicidade de massa, a idolatria do “prestígio social”.

     A “luta final” não será a que previa Marx; ela oporá o filósofo trágico ao niilismo da massificação planetária.

(JEAN GRANIER - NIETZCHE)

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publicado às 03:21


A Imago Dei de Fernando Pessoa

por Thynus, em 10.07.17
Fernando Pessoa era uma alma inquieta, um ser criativo, uma personalidade multifacetada.
Fernando Pessoa era uma pessoa que mergulhava nas profundezas de si mesmo.
Como seria Deus para uma pessoa assim?
Vamos descobrir pelas palavras do próprio autor.
A Imago Dei de Fernando Pessoa

Mas antes, o que é Imago Dei?
Palavras de outro ser que mergulhava nas profundezas de si mesmo:
Carl Gustav Jung (Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo, § 116) diz que “[…] como individualidade, o si-mesmo é único e singular, mas como símbolo arquetípico é uma imagem divina e, consequentemente, também universal e ‘eterno’”.
O dito por Jung possibilita não só uma relação entre o Deus teológico que também é divino, universal e eterno; com o Self que, como símbolo arquetípico, apresenta as mesmas características.
Porém, apesar da característica de universalidade, a concepção psíquica de Deus e a singularidade do Self têm representações particulares na psique de cada ser humano, pois cada um concebe Deus e vivencia seu Self dentro da configuração de sua própria individualidade psíquica.
A representação de Deus dentro da configuração da individualidade psíquica de cada um é a imagem particular de Deus.
Esta imagem pessoal de Deus é a Imago Dei do indivíduo.
 
Conheçamos agora um pouco da Imago Dei de Fernando Pessoa.

A Imago Dei de Fernando Pessoa

A Imago Dei de Fernando Pessoa


Goethe diz, com verdade, que o Deus de cada homem é como esse homem; não será então o Deus do maior homem o maior Deus?

Haja ou não deuses, deles somos servos.

Desde o momento em que nos sentimos consciência-criadora-do-universo, sentimo-nos Deus.

Deus é racionalista, porque Deus é mesmo Razão.

Deus, Deus, Deus? disse o anarquista. Há séculos que Deus morreu; mas tem levado tanto tempo a fazer-lhe o caixão que já infesta o ar de seu apodrecimento.

Não haver deuses é um deus também.

Somos o não-ser de Deus.
Plurais, não existimos; compostos, estamos mortos.

Age como se não houvesse Deus, lembrando-te porém que Ele existe.

Deus é um conceito econômico.
À sua sombra fazem a sua burocracia metafísica os padres das religiões todas.

Para cada filósofo, Deus é da sua opinião.

O Deus do idealista alarga-se para além da definição e da mais absoluta convertibilidade.

Os Deuses são a encarnação do que nunca poderemos ser.

Prouvera aos deuses, meu coração triste, que o Destino tivesse um sentido!
Prouvera antes ao Destino que os deuses o tivessem!

Tudo é a história de um motivo e fala de Deus por um momento.

A diferença entre Deus e nós deve ser não de atributos, mas da própria essência do ser.
Ora tudo é o que é.
Portanto Deus é não só o que é mas também o que não é.
Confunde-nos de Si com isso.

Deus é o existirmos e isto não ser tudo.

Quem tem as flores não precisa de Deus.

A natureza é a diferença entre a alma e Deus.

Pertenço a uma geração — supondo que essa geração seja mais pessoas que eu — que perdeu por igual a fé nos deuses das religiões antigas e a fé nos deuses das irreligiões modernas.
Não posso aceitar Jeová, nem a humanidade.
Cristo e o progresso são para mim mitos do mesmo mundo.
Não creio na Virgem Maria nem na eletricidade.

Deus é o Seu melhor gracejo.

O milagre é a preguiça de Deus, ou, antes, a preguiça que Lhe atribuímos, inventando o milagre.

Não criou Deus ao mundo, senão só ao mundo que criou.

A realidade é o gesto visível das mãos invisíveis de Deus.
 


 

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publicado às 01:31

Nada neste mundo consome mais rapidamente um homem que a paixão do ressentimento.

Friedrich Nietzsche
 
Nietzsche ironizou o fato de Dante Alighieri ter colocado no portal do “Inferno” de sua “Divina Comédia” a inscrição: “Também a mim criou o eterno amor”. Quando o mais justificável era cogitar em: “Também a mim criou o eterno ódio”.
 
Já alguma vez viu uma flor infeliz ou algum carvalho com #stresse? Conhece algum golfinho deprimido, alguma rã com problemas de auto-estima, algum gato que não relaxe, ou algum pássaro que sinta #ódio e #ressentimento? Os únicos animais que ocasionalmente poderão sentir algo parecido com negatividade ou mostrar sinais de comportamento neurótico são os que vivem em contacto íntimo com os seres humanos e se ligam desse modo à mente humana e à sua insensatez.
(Eckhart Tolle)
 

Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra.



Que a religião já causou incontáveis mortes e torturas ninguém discute. De fato, se tem alguém que nunca ligou para o “não matarás” foi a igreja, não é mesmo? Ao longo da história, ela sempre tratou de perseguir os mais sábios, de calar os mais inteligentes.
Nunca interessou às igrejas, gente que contestasse sua doutrina, que fugisse da máxima divina do: “não pense, creia!”. Na esteira dessa filosofia, incontáveis foram trucidados. Afinal, o placebo psicológico precisa ser entregue e as pessoas comuns tem de ser mantidas quietas a qualquer preço.
Nada tem obtido mais sucesso nessa seara do que a religião. Só que a promessa de salvação não é suficiente. Criou-se outra genial invenção: a AMEAÇA da danação eterna… O inferno.
Se é para inventar, que se invente bem não é verdade? Não importa se é injusto, ou desproporcional. Não importa se a punição será infinita para crimes finitos. O que importa é que mantenha os apedeutas calmos e produtivos. Algo que gere tamanho pavor, que faça o povo parar de se preocupar com a vida de que tem e viver para uma vida que se diga que terão. Assim, sobra mais para quem criou e se beneficia da mitologia. Essa é a ideia toda e ela é maquiavélica, mas é genial!
Ocorre que para isso funcionar, é preciso que se insira na mente desses pobres coitados, a patologia de que são constantemente ameaçados. De que são vigiados dia e noite, de maneira tão vil, que até mesmo sonhos pecaminosos podem condená-los. É preciso aprisioná-los de tal forma, que não possam determinar sequer, o que fazem com seus corpos. Mas e quanto à alma? A alma que se dane, ela nunca interessou de fato à igreja. O alvo sempre foi o que as “ovelhas” fazem com seus corpos.
O religioso ao longo do tempo se acostumou com as ameaças e com o medo. Isso passou a fazer parte da vida de todos eles, desde quando entregam seu dízimo em uma vã tentativa de comprar seu ingresso para a vida eterna, até o momento em que colocam suas cabecinhas de vento entupidas de culpas judaicas-cristãs em seu travesseiro.
 
O que move de fato a indústria da religião é o mesmo que lota os “recamiers” dos psicanalistas: a culpa. A maldita culpa. Culpa que de forma tão competente, foi inserida no livro mágico bem no começo, com Adão e Eva. A doutrina cristã conseguiu através dessa mesma mentalidade, instituir o imponderável, a falácia de que o prazer é um pecado e de que o sofrimento é uma virtude. Quão baixo pode-se ir?
E porque está cheio de culpa e medo, o religioso quando confrontado em suas ilusórias crenças medievais, faz aquilo que aprendeu desde criança, para proteger suas superstições: ameaça. Esse é o seu habitat. Essa é a sua praia…ele está em casa. Já se acostumou a viver com medo. Convive com essa sensação desde muito menino, quando sentado em sua carteirinha na escola dominical, ouvia sobre Satanás, que aparecia de forma tão rotineira quanto o salvador palestino. Medo de deus, medo do diabo, medo de sua sexualidade, medo da vida. E ela assusta mesmo, mas é preciso vivê-la. A questão é: como vivê-la? Como encarar a fragilidade humana? Como encarar a mortalidade? Como encarar o fato de que para cá viemos sozinhos e iremos sozinhos? Respondo: do único jeito possível! De frente! Sem paliativos, sem anestesias, sem promessas de outra vida da qual ninguém voltou. Há que se viver essa plenamente, afinal é a que temos. Quando chegar a hora…que venha. Olharei para trás e pelo menos saberei que vivi. Com erros e acertos…mas vivi.
Sendo assim, aos religiosos que nos lêem e, principalmente aos evangélicos em sua homilética doentia, por favor compreendam algo: ameaça é crime! Ameaça é covardia! Ameaça é fraqueza!
Poupem seu tempo e o nosso! O embate deve ser saudável, intelectual, filosófico, analítico. E aí vale tudo. Tudo mesmo! Mandem o que tiverem de melhor. Seus melhores argumentos, seus versículos campeões. Bring it on!!!!
Nunca recusamos a discussão, não desprezamos a retórica, mesmo a mais néscia. Claro que quem fala o que quer, ouve o que não quer, mas faz parte do jogo. Se não sabe brincar, não desça para o “play”. Mas façam o obséquio de não nos ameaçar fisicamente! É cafona, improfícuo…não é “cristão”.
Lembrem que vivemos em uma democracia, em um estado laico onde a igreja é constitucionalmente separada do estado. Lembrem que a inquisição já acabou e não deixou saudades, só covas rasas. Lembrem que foi justamente a individualidade de mulheres corajosas, como a Andrea, que vocês agora ameaçam, que garante suas liberdades, mesmo as de falarem as piores asneiras, seus idiotas! É ela que garante através de sua militância que vocês religiosos não sejam os próximos da fila. Foram mulheres assim que sofreram para que hoje todas as outras pudessem votar. Que morreram queimadas porque exerceram sua sexualidade. Que foram presas para que deixassem de serem tratadas como meros utensílios domésticos, assim como o foram na sua amada Bíblia. E se do outro lado do mundo ainda existem mulheres que não podem dirigir, não podem se vestir como gostariam ou não podem mostrar seus rostos, agradeçam a religião. Portanto, se ainda assim querem ameaçar, pelo menos o façam com direção e competência.
Não ameacem também gays por buscarem a felicidade. É direito inconsútil de cada um perquiri-la, desde que não prejudiquem quem está ao lado. Prestem atenção para o fato cristalino de que essa agressividade homofóbica, além de ser mais afeta ao nazismo do que ao cristianismo, psicanaliticamente falando, é o mesmo que passar um baita recibo de frustração e “viadagem”. Quem se preocuparia com o fato de que o próximo está transando com outra pessoa do mesmo sexo senão alguém que deseja enormemente fazê-lo? A Bíblia é só a desculpa. A mesma neblina utilizada para disfarçar o preconceito e como corolário, subjugar as mulheres, perseguir ateus e condenar a ciência.

 


Fernando Pessoa nos ensina com a habitual propriedade: “todo mal do mundo advém de nos preocuparmos uns com os outros.” É de clareza meridiana que ele se referia à enorme capacidade que o ser humano tem de projetar no próximo, suas falhas e frustrações, a mania vagabunda que as pessoas tem de se incomodar com a felicidade alheia.
Portanto, antes que nos ameacem com perigos metafísicos em detrimento dos físicos, lembro que neste blog, estamos conscientes da “ameaça divina” e da tola “aposta de Pascal”. Como blasfemos, hereges e apóstatas, sabemos o que está escrito na Bíblia. Mas gostaria de informar, só para poupar tempo, de que não poderíamos ligar menos para essas bobagens. Negamos o Espírito Santo sem problemas e se Jeová quiser nos punir, deve, em sua onisciência, saber onde nos encontrar. Aliás, seria até bom, pois teria algumas perguntinhas para ele. Mas galera…na boa…tem que ser ele, tá bom? Não adianta mandar recado do pastor não, valeu?
Destarte, quero terminar lembrando a aqueles evangélicos que adoram a suástica ao invés do crucifixo, que ameaças nunca levaram ninguém a lugar nenhum. Que se funcionassem, os movimentos de minoria ao longo da história teriam falhado, quando o que se viu, foi justamente o contrário. Por derradeiro, ressalto ainda que, para vocês evangélicos que clamam por “respeito” às suas crenças, saibam que, assim como Cristo ensinou, o respeito não brota do medo…mas sim, da compaixão.
 
(Humberto P. Charles)
 

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publicado às 22:31

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.
 


AO LONGO DE TODA A HISTÓRIA do pensamento, os intelectuais se sentiram tentados a nos dar sua receita de felicidade. Na filosofia moderna, Schopenhauer expôs suas ideias a esse respeito no livro A arte de ser feliz e Bertrand Russell, em A conquista da felicidade.
A fórmula da felicidade é pessoal e só você poderá descobri-la.
 
   Um século antes de Nietzsche, Goethe já tinha estabelecido seus oito requisitos para se ter uma vida plena:

1. Saúde o bastante para trabalhar com prazer.

   2. Força para lutar contra as dificuldades e superá-las.

   3. Capacidade de admitir os próprios erros e se perdoar.

   4. Paciência para perseverar até atingir o objetivo.

   5. Caridade para ver algo bom no próximo.

   6. Amor para ser útil às pessoas.

   7. Fé para transformar em realidade as coisas divinas.

   8. Esperança para afastar os temores acerca do futuro.

   A melhor maneira de começar o dia é se comprometer a fazer feliz ao menos uma pessoa antes de o sol se pôr.


(Allan Percy - Nietzsche para estressados)  

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publicado às 21:35

O menor desvio inicial da verdade multiplica-se ao infinito à medida que avança.
 
Se A é o sucesso, então A é igual a X mais Y mais Z. O trabalho é X; Y é o lazer; e Z é manter a boca fechada.
 


NIETZSCHE AFIRMAVA QUE  “são poucos os que não revelam os segredos mais importantes de um amigo”.

   Em outras palavras, somos donos do que calamos e escravos do que dizemos. Por isso mesmo devemos tomar cuidado com o que contamos e a quem contamos, pois uma informação que para nós já não é relevante poderá ressurgir no momento menos oportuno.
Qual será o benefício da fofoca?
 
   É preciso ter cuidado especial com as pessoas que assumem o papel de interrogadoras para roubar nossa energia, segundo a teoria do escritor James Redfi eld: Quem interroga analisa o mundo do outro com a intenção específica de encontrar algo censurável. Quando encontra, critica esse aspecto da vida do outro. (...) Depois, este se sente inibido e intimidado, e presta atenção no que o interrogador faz e pensa, tentando não fazer nada de errado que possa ser notado. Essa deferência psíquica fornece ao interrogador a energia que ele tanto deseja.

(Allan Percy - Nietzsche para estressados)  

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publicado às 21:04

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