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TUDO QUE EXISTE

por Thynus, em 24.04.17
Se vamos pensar nas coisas, então precisamos pensar sobre quais coisas existem para serem pensadas. Sendo assim, tentaremos fazer uma lista de tudo que existe – começando com as perguntas que surgem imediatamente quando começamos a construir a tal lista.
Vamos começar de forma simples, com algumas coisas físicas comuns. Você pode, por exemplo, querer listar árvores, mas há muitos tipos diferentes de árvores. Basta apenas listar “árvores” e deixar de fora todas as diferenças, deixar de fora algo tão crucial da lista? Por um lado, não, porque “árvores” cobre todas as árvores, mas, por outro, a existência de diferentes tipos de árvores é um fato significativo sobre o mundo, algo que parece necessário para que nossa lista seja total, como deveria ser uma lista de “tudo”! E as florestas? Seria redundante listá-las depois que já listamos as árvores? Por um lado, novamente, um mundo com árvores isoladas é diferente de outro em que estão unidas em florestas, mas, por outro, o que coloca uma floresta acima de suas árvores? Não seria redundante listar as árvores e as florestas? Mas, pelo mesmo raciocínio, o que coloca uma árvore acima de seus átomos? Talvez devêssemos listar apenas as partículas básicas que os físicos dizem compor o mundo, ou talvez só “matéria”. Ou, novamente, deixar de fora da lista de tudo as diferentes coleções de matéria nos objetos seria transformá-la em algo incompleto?
E o que exatamente é um objeto? Em geral, falamos sobre um objeto listando suas propriedades. Falamos que uma maçã é redonda e vermelha, então, deveríamos dizer que a maçã, o objeto, é, de algum modo, diferente dessas propriedades, uma vez que “ele” possui “elas”? E se for assim, a maçã merece uma linha separada na nossa lista por causa de suas propriedades redonda e vermelha? Porém, o que é a maçã quando tiramos essas propriedades?
Nossa lista de tudo, infelizmente, não inclui a si mesma.
 

publicado às 22:05

As pessoas sempre me dizem para confiar nos meus sentidos, mas o filósofo em mim acha que deveríamos nos afastar ao máximo deles.
Para nos concentrarmos somente na visão, nossos olhos nos enganam o tempo todo. Uma torre quadrada pode parecer redonda ao longe, e nossos lençóis parecem perfeitos enquanto possuem mais ácaros famintos do que queremos saber. A lua parece maior no horizonte do que acima de nós, mas não é assim. Um graveto reto, na água, parece encurvado. O céu parece azul quando, na verdade, consiste somente de moléculas de gás que não são azuis. Objetos parecem se mover na tela do cinema quando tudo que estamos realmente vendo é uma rápida sequência de fotogramas. E aquela mesa de jantar pela qual pagamos o salário de um mês e que parece ter uma superfície de cerejeira sólida? Na verdade, é composta principalmente por espaços vazios dentro de seus átomos. Bandidos!
Assim, toda a ideia de que nossos olhos podem nos contar como as coisas são realmente não faz muito sentido. Nossas percepções estão constantemente variando, por um lado, sem que tenhamos qualquer base para escolher uma percepção que seja a “verdadeira”. Por exemplo, eu não deveria ter sugerido que o graveto “realmente é” reto, já que até essa informação só vem de outras percepções conflitantes. Em vez disso, deveríamos simplesmente dizer que para nossa percepção visual o graveto parece torto, ao passo que, para nossa percepção tátil debaixo da água, sentimos que ele é reto. Não há forma de falar como as coisas “realmente” são. Só podemos dizer como as coisas parecem ser em diferentes circunstâncias.
Ainda mais importante, para dizer que nossa percepção visual de uma coisa é precisa teríamos de comparar essa percepção com a coisa em si. Mas como podemos fazer isso? Sempre que olhamos para algo, tudo que temos é outra percepção dela, nunca a coisa em si!
As coisas simplesmente não são, resumindo, como os olhos as veem. Então, da próxima vez que falarem para usar seus sentidos – diga não!
 

publicado às 22:04


A MULHER DOS MEUS SONHOS

por Thynus, em 24.04.17
Todos conhecemos a experiência: estamos tendo um sonho delicioso e lindo, interrompido repentinamente e de maneira rude pelo alarme. Acordamos e começa nosso dia.
É mesmo?
Você pode ter certeza de que não está sonhando exatamente agora, que não esteve sonhando toda sua vida? Essa não é meramente uma pergunta do filósofo dorminhoco, porque, se você não tem certeza de que não está sonhando, então como pode ter certeza de que qualquer coisa na qual acredita em relação ao mundo é verdade?
Poderia dar um beliscão em si mesmo? Bem, poderia, mas então como você saberia que não está sonhando sobre o beliscão e depois estaria fazendo a transição para um sonho diferente?
Uma vez eu decidi fazer um diário de meus sonhos. Rapidamente descobri que só conseguia me lembrar dos sonhos que tive pouco antes de acordar, aí comecei a acordar durante a noite para registrá-los. Algumas noites desse sono interrompido e eu estava exausto! Então meu corpo (ou minha mente) decidiu me enganar: acordei uma manhã e descobri que meu caderno estava, na verdade, vazio. Eu tinha sonhado que havia acordado para anotar meus sonhos!
Nesse ponto, percebi que havia sido derrotado, mas também sabia que tinha um problema mais sério. Tenho certeza absoluta, 100%, de que estou acordado escrevendo isso. Também tenho certeza absoluta, 100%, de que tenho uma esposa, um corpo físico e de que os outros objetos físicos existem, porque consigo perceber todas essas coisas. No entanto, também estava completamente seguro durante minha fracassada experiência de que estava acordado e anotando os sonhos, e olhe até aonde isso me levou.
Pode ser, então, que quase tudo em que acredito sobre o mundo seja falso? Que até minha adorável esposa é, literalmente, apenas a mulher dos meus sonhos?
 
 
(Andrew Pessin - Filosofia em 60 segundos : expanda sua mente com um minuto por dia!)

publicado às 22:03


NÃO EXISTE MOMENTO COMO O PRESENTE

por Thynus, em 24.04.17

Sei que horas é agora. Só não sei o que é o tempo em si.
Ele parece ser composto de passado mais presente mais futuro. Mas o passado não existe – se existisse, seria o presente! E o futuro não existe ainda, nesse caso, ele não existe agora. Então, se o tempo existe, só existe como o presente.
Mas o que é o presente?
O presente é um momento sem duração, porque, se tivesse duração (um dia, uma hora, um milissegundo etc.), nem toda aquela duração estaria presente de uma vez. E enquanto um dia é composto de horas, as horas de minutos, e assim por diante, o presente não é como esses intervalos temporais: não é composto de qualquer intervalo ou parte menor, porque se fosse nem todas essas partes estariam juntas ao mesmo tempo. Em vez disso, o presente é composto, literalmente, de nada.
Mas algo composto de nada deve ser, em si mesmo, também nada.
Da mesma maneira, pense em objetos físicos comuns. Todos são compostos de coisas menores que, por sua vez, são compostos de coisas menores ainda. No final, entretanto, você chega ao nível mais elementar. Atualmente, os cientistas pensam que os menores objetos físicos são coisas como elétrons e quarks, talvez o que eles chamam de “corda”.
Mas o tempo não é assim. Não existe ponto menor. Não importa quão pequeno seja um intervalo temporal sobre o qual estamos falando (microssegundo, nanossegundo etc.), sempre há um menor. E se não existe fim, não pode existir momentos sem duração – porque tais momentos seriam o fim ao serem indivisíveis.
O presente, em outras palavras, não existe.
Assim, quando as pessoas dizem que não têm tempo para algo, não percebem como estão certas.
Porque não existe tempo. Ponto.
 
 
(Andrew Pessin - Filosofia em 60 segundos : expanda sua mente com um minuto por dia!)

publicado às 22:02


A PASSAGEM DO TEMPO

por Thynus, em 24.04.17

Nada é mais familiar do que a passagem do tempo. “Aproveite seu dia!”, dizem, pois “o que está aqui hoje vai acabar amanhã”. Apesar de realmente parecer para nós que o tempo se move para a frente, não está claro como isso acontece, porque o tempo não é um objeto físico ou uma coisa: ele não existe primeiro em um lugar, depois em outro. Mas, então, em que sentido, exatamente, ele se move?

Na verdade, se estivesse realmente se movendo, poderíamos ter a capacidade de dizer a que velocidade. Você pode pensar que os relógios medem esse ritmo, mas não é bem assim.

O que o relógio mede, na verdade, não é o tempo, mas como algumas coisas físicas estão correlacionadas com outras coisas físicas. Você olha para o relógio e vê que ele marca 13h13, depois olha novamente e vê 13h15. Essas duas olhadas estão correlacionadas com as duas leituras, aparentemente medindo dois minutos de tempo. Mas agora, imagine que entre essas duas olhadas tudo no Universo acelerou ao mesmo tempo, incluindo sua atividade cerebral, seus pensamentos e suas sensações, além dos mecanismos do relógio. Essas duas olhadas ainda estariam correlacionadas com as duas leituras, mas menos de dois minutos teriam se passado – e você nunca notaria a diferença. Então, o relógio não estaria medindo realmente o tempo!

Se quisermos na verdade imaginar o tempo se movendo, diferente de todas as coisas físicas, devemos imaginar o universo inteiramente vazio de todas as coisas físicas e nos perguntar se o tempo ainda fluiria. Novamente, é tentador responder que sim, mas lembre-se, então, que é um universo vazio, ou seja, não há nada nele. Mas se realmente não há nada, então nada pode estar acontecendo, nada pode estar ocorrendo e nada pode se mover.

“O tempo voa”, dizem, “quando estamos nos divertindo”. Sou a favor de diversão, mas divertir-se não pode fazer que o tempo passe mais rápido, se o tempo não está passando de jeito algum.

 


 


(Andrew Pessin - Filosofia em 60 segundos : expanda sua mente com um minuto por dia!)


publicado às 22:00


ESTE NÃO É O FIM

por Thynus, em 20.04.17
 
Muitas coisas nunca terminam. Espaço. Tempo. Números. As perguntas que fazem as crianças.
E a filosofia.
Você tenta convencer alguém – ou a si mesmo – de algo oferecendo razões para acreditar naquilo. Mas sua crença só é válida de acordo com suas razões, então apresenta razões para aceitar suas razões. Mas essas razões precisam de razões mais profundas, e aí você desiste. Como resultado, parece com frequência que não existe nenhuma resposta às questões filosóficas: há somente mais argumentos, mais objeções, mais respostas. E pode facilmente parecer que nem vale a pena começar. Por que se importar? Você nunca vai terminar. Dá na mesma tentar contar todos os números.
Mas existe outra maneira de pensar nisso.
Mergulhei pela primeira vez há pouco tempo. Foi uma experiência incrível. Existe todo um mundo debaixo da água que eu não conhecia. Esse mundo está povoado com incontáveis criaturas, com todos os tipos de relações complexas naquele ecossistema emaranhado. Na verdade, cada coisa está conectada a todas as outras: este é comida do outro, que expele compostos químicos usados pelo outro, que expele produtos usados por outros, e por aí vai. Incrível, fascinante e absoluto, profundamente lindo. Esteve ali o tempo todo, só esperando que eu mergulhasse.
Se você me contasse agora que aquele oceano vai existir para sempre, cheio de criaturas mais incríveis em relacionamentos mais impressionantes – eu não diria: “Bem, então, para que vou perder tempo entrando aí?”. Em vez disso, diria: “Onde posso conseguir um traje de mergulho?”.
Assim é a filosofia. Está cheia de incontáveis ideias, conceitos e seres incríveis, que existem em todos os tipos de relacionamentos lógicos complexos uns com os outros. E, ao contrário do oceano real, este é infinitamente profundo: por onde você entrar é possível continuar sem parar. O que você deveria pensar, não é: “Por que entrar?”. Na verdade, é: obrigado, muito obrigado.
Mas, claro, este mundo é só este mundo, dentro do qual você está. Vai descobrir que já está neste grande oceano o que pode estar procurando. Só precisa começar a pensar nele. A primeira gota naquele balde é uma onda até o infinito.
Este é o começo.
 
CAPÍTULO RELACIONADO: O FILÓSOFO DENTRO DE VOCÊ

(Andrew Pessin - Filosofia em 60 segundos : expanda sua mente com um minuto por dia!)

publicado às 13:51


O FILÓSOFO DENTRO DE VOCÊ

por Thynus, em 20.04.17
 
Existe a lenda do peixe que nadava por aí fazendo a seguinte pergunta a toda criatura do mar que encontrava: “Onde fica o grande oceano de que tanto falam?”. Uma pequena lenda, claro – mas com grande mensagem.
Somos parecidos com esse peixe.
Para começar, é difícil olhar um recém-nascido sem pensar: que milagre incrível! Mas quando foi a última vez que você olhou para um adulto e pensou o mesmo? E por que não? Todo adulto foi um bebê; se esse é um milagre, então podemos falar o mesmo do outro. Mas nunca nos ocorreu pensar dessa maneira por uma simples razão: estamos tão acostumados a ver pessoas que paramos de refletir sobre elas.
Ou quando você derruba alguma coisa, por exemplo, uma colher, e ela cai no chão. Mas por quê? Não poderia, em tese, ficar flutuando no ar ou subir? E como exatamente ela cai no chão, pela “gravidade”? Não existem fios conectando a Terra com a colher, então como a Terra pode puxar algo a distância, algo com o qual não está nem ligada? Por que não fazemos uma pausa sempre que algo cai e falamos: que incrível milagre!
As coisas mais comuns contêm muitas perguntas, o problema é nos lembrarmos de perguntá-las.
As crianças sabem como fazer essas perguntas, e qualquer resposta que você der para um de seus “porquês” acaba gerando outra pergunta. Mas já fomos crianças, portanto o que precisamos fazer agora é deixar que a criança que ainda existe dentro de nós – o filósofo dentro de nós – ressurja. O que precisamos são poucos segundos fora dos nossos hábitos conceituais comuns. Precisamos dar um mergulho gelado no grande oceano profundo do pensamento.
Está na hora de começar a pensar.
CAPÍTULO RELACIONADO: ESTE NÃO É O FIM

(Andrew Pessin - Filosofia em 60 segundos : expanda sua mente com um minuto por dia!)

publicado às 13:50


Pit stop

por Thynus, em 17.04.17
 
você
cresceu ouvindo
que suas pernas são
um pit stop para homens que
procuram um lugar para repousar
um corpo vazio desocupado o bastante
para receber hóspedes mas
nenhum nunca chega
disposto a
ficar
(Rupi Kaur - outros jeitos de usar a boca)

publicado às 12:20


O MAIOR PERIGO, O ESTADO

por Thynus, em 08.04.17
Em algum lugar há ainda povos e rebanhos, mas não entre nós, meus irmãos: aqui há Estados.
Estado? O que é isso? Pois bem! Agora abri-me vossos ouvidos, pois agora vos direi minha palavra da morte dos povos.
Estado chama-se o mais frio de todos os monstros frios. Friamente também ele mente: e esta mentira rasteja de sua boca: "Eu, o Estado, sou o povo".

(...) São demasiado muitos os que nascem: para os supérfluos foi criado o Estado!
(F. Nietzsche - Assim Falou Zaratustra)

O maior perigo que hoje ameaça a civilização é a estadualização da vida, o
intervencionismo do Estado, a absorção de toda a espontaneidade social pelo Estado
(Otega y Gasset).
O fracasso de Ortega y Gasset
 
Numa boa ordenação das coisas públicas, a massa é o que não atua por si mesma. Tal é a sua missão. Veio ao mundo para ser dirigida, influída, representada, organizada — até para deixar de ser massa, ou, pelo menos, aspirar a isso. Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si. Necessita referir sua vida à instância superior, constituída pelas minorias excelentes. Discuta-se quanto se queira quem são os homens excelentes; mas que sem eles — sejam uns ou outros — a humanidade não existiria no que tem de mais essencial, é coisa sobre a qual convém que não haja dúvida alguma, embora leve a Europa todo um século metendo a cabeça debaixo da asa, ao modo dos avestruzes, para ver se consegue não ver tão radiante evidência. Porque não se trata de uma opinião fundada em fatos mais ou menos frequentes e prováveis, mas numa lei da "física" social, muito mais incomovível que as leis da física de Newton. No dia em que volte a imperar na Europa uma autêntica filosofia (66) — única coisa que pode salvá-la —, compreender-se-á que o homem é, tenha ou não vontade disso, um ser constitutivamente forçado a procurar uma instância superior. Se consegue por si mesmo encontrá-la, é que é um homem excelente; senão, é que é um homem-massa e necessita recebê-la daquele.
Pretender a massa atuar por si mesma é, pois, rebelar-se contra seu próprio destino, e como isso é o que faz agora, falo eu da rebelião das massas. Porque no final das contas a única coisa que substancialmente e com verdade pode chamar-se é a que consiste em não aceitar cada qual seu destino, em rebelar-se contra si mesmo. A rigor, a rebelião do arcanjo Luzbel não o houvera sido menos se em vez de empenhar-se em ser Deus — o que não era seu destino — se houvesse obstinado em ser o mais ínfimo dos anjos, que tampouco o era. (Se Luzbel tivesse sido russo, como Tolstoi, teria talvez preferido este último estilo de rebeldia, que não é mais nem menos contra Deus que o outro tão famoso).
Quando a massa atua por si mesma, fá-lo só de uma maneira, porque não tem outra: lincha. Não é completamente casual que a lei de Lynch seja americana, já que a América é de certo modo o paraíso das massas. Nem muito menos poderá estranhar que agora, quando as massas triunfam, triunfe a violência e se faça dela a única ratio, a única doutrina. Há muito tempo que eu fazia notar este comércio da violência como norma (67), Hoje chegou a seu máximo desenvolvimento, e isso é um bom sintoma, porque significa que automaticamente vai iniciar-se seu descenso. Hoje é já a violência a retórica do tempo; os retóricos, os inanes, a fazem sua. Quando uma realidade humana cumpriu sua história, naufragou e morreu, as ondas a cospem nas costas da retórica, onde, cadáver, pervive largamente. A retórica é o cemitério das realidades humanas; no mínimo, seu hospital de inválidos. À realidade sobrevive seu nome que, ainda sendo sua palavra, é, afinal de contas, nada menos que palavra e conserva sempre algo de seu poder mágico.
Mas ainda quando não seja impossível que tenha começado a minguar o prestígio da violência como norma cinicamente estabelecida, continuaremos sob seu regime, bem que em outra forma.
Refiro-me ao perigo maior que hoje ameaça a civilização europeia. Como todos os demais perigos que ameaçam esta civilização, também este nasceu dela. Mais ainda: constitui uma de suas glórias; é o Estado contemporâneo. Encontramo-nos, pois, com uma réplica do que no capítulo anterior se disse sobre a ciência: a fecundidade de seus princípios a propelem a um fabuloso progresso; mas este impõe inexoravelmente a especialização, e a especialização ameaça afogar a ciência.
A mesma coisa acontece com o Estado.
Rememore-se o que era o Estado nos fins do século XVIII em todas as nações europeias. Bem pouca coisa! O primeiro capitalismo e suas organizações industriais, onde pela primeira vez triunfa a técnica, a nova técnica, a racionalizada, haviam produzido um primeiro crescimento da sociedade. Uma nova classe social apareceu, mais poderosa em número e potência que as preexistentes: a burguesia. Esta burguesia sem mérito possuía, antes de tudo e sobretudo uma coisa: talento, talento prático. Sabia organizar, disciplinar, dar continuidade e articulação ao esforço. No meio dela, como num oceano, navegava ao azar a "nave do Estado". A nave do Estado é uma metáfora reinventada pela burguesia, que se sentia a si mesma oceânica, onipotente e grávida de tormentas. Aquela nave era coisa de nada ou pouco mais: apenas tinha soldados, apenas tinha burocratas, apenas tinha dinheiro. Havia sido fabricada na Idade Média por uma classe de homens muito diferentes dos burgueses: os nobres, gente admirável por sua coragem, por seu dom de mando, por seu sentido de responsabilidade. Sem eles não existiriam as nações da Europa. Mas com todas essas virtudes do coração, os nobres andavam, sempre andaram, mal de cabeça. Viviam da outra víscera. De inteligência muito limitada, sentimentais, instintivos, intuitivos; em suma, "irracionais". Por isso não puderam desenvolver nenhuma técnica, coisa que obriga à racionalização. Não inventaram a pólvora. Entediaram-se. Incapazes de inventar novas armas, deixaram que os burgueses — tomando-as do Oriente ou outro lugar — utilizassem a pólvora, e com isso, automaticamente, ganharam a batalha ao guerreiro nobre, ao "cavalheiro", coberto estupidamente de ferro, que apenas podia mover-se na lida, e a quem não ocorrera que o segredo eterno da guerra não consiste tanto nos meios de defesa como nos de agressão (segredo que Napoleão redescobriria). (68)
Como o Estado é uma técnica — de ordem pública e de administração —, o "antigo regime" chega aos fins do século XVIII com um Estado fraquíssimo, açoitado de todos os lados por uma ampla e revolta sociedade. A desproporção entre o poder do Estado e o poder social é tal nesse momento, que comparando a situação com a vigente em tempo de Carlos Magno, aparece o Estado do século XVIII como uma degeneração. O Estado carolíngio era, está claro, muito menos poderoso que o de Luís XVI, mas, em compensação, a sociedade que o rodeava não tinha força nenhuma (69). O enorme desnível entre a força social e a do poder público tornou possível a Revolução, as revoluções (até 1848).
Mas com a Revolução apossou-se do Poder público a burguesia e aplicou ao Estado suas inegáveis virtudes, e em pouco mais de uma geração criou um Estado poderoso, que acabou com as revoluções. Desde 1848, quer dizer, desde que começa a segunda geração de governos burgueses não há na Europa verdadeiras revoluções. E não certamente porque não houvesse motivos para elas, mas porque não havia meios. Nivelou-se o Poder público com o poder social. Adeus revoluções para sempre! Já não cabe na Europa mais que o contrário: o golpe de Estado. E tudo que com posterioridade pode dar-se ares de revolução, não foi mais que um golpe de Estado com máscara.
Em nosso tempo, o Estado chegou a ser máquina formidável que funciona prodigiosamente, de uma maravilhosa eficiência pela quantidade e precisão dos seus meios. Plantada no meio da sociedade, basta tocar uma mola para que atuem suas enormes alavancas e operem fulminantes sobre qualquer parte do corpo social.
O Estado contemporâneo é o produto mais visível e notório da civilização. E é muito interessante, é revelador, precatar-se da atitude que ante ele adota o homem-massa. Este o vê, admira-o, sabe que está aí, garantindo sua vida; mas não tem consciência de que é uma criação humana inventada por certos homens e mantida por certas virtudes e por certo que houve ontem nos homens e que pode evaporar-se amanhã. Por outra parte, o homem-massa vê no Estado um poder anônimo, e como ele se sente a si mesmo anônimo vulgo —, crê que o Estado é coisa sua. Imagine-se que sobrevem na vida pública de um país qualquer dificuldade, conflito ou problema: o homem-massa tenderá a exigir que imediatamente o assuma o Estado, que se encarregue diretamente de resolvê-lo com seus gigantescos e incontrastáveis meios.
Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatificação da vida, o intervencionismo do Estado, a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado; quer dizer, a anulação da espontaneidade histórica, que em definitivo sustenta, nutre e impele os destinos humanos. Quando a massa sente uma desventura, ou simplesmente algum forte apetite, é uma grande tentação para ela essa permanente e segura possibilidade de conseguir tudo — sem esforço, luta, dúvida nem risco — apenas ao premir a mola e fazer funcionar a portentosa máquina. A massa diz a si mesma: "o Estado sou eu", o que é um perfeito erro. O Estado é a massa só no sentido em que se pode dizer de dois homens que são idênticos porque nenhum dos dois se chama João. Estado contemporâneo e massa coincidem só em ser anônimos. Mas o caso é que o homem-massa crê, com efeito, que ele é o Estado, e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto, a esmagar com ele toda minoria criadora que o perturbe — que o perturbe em qualquer ordem: em política, em ideias, em indústria.
O resultado desta tendência será fatal. A espontaneidade social ficará violentada uma vez e outra pela intervenção do Estado; nenhuma nova semente poderá frutificar. A sociedade terá de viver para o Estado; o homem, para a máquina do Governo. E como no final das contas não é senão uma máquina cuja existência e manutenção dependem da vitalidade circundante que a mantenha, o Estado, depois de sugar a medula da sociedade, ficará héctico, esquelético, morto com essa morte ferrugenta da máquina, muito mais cadavérica que a do organismo vivo.
Este foi o signo lamentável da civilização antiga. Não há dúvida que o Estado imperial criado pelos Júlios e os Cláudios foi uma máquina admirável, incomparavelmente superior como artefato ao velho Estado republicano das famílias patrícias. Mas, curiosa coincidência, apenas chegou a seu pleno desenvolvimento, começa a decair o corpo social. Já nos tempos dos Antoninos (século II) o Estado gravita com uma antivital supremacia sobre a sociedade. Esta começa a ser escravizada, a não poder viver mais que em serviço do Estado. A vida toda se burocratiza. Que acontece? A burocratização da vida produz sua diminuição absoluta — em todas as ordens. A riqueza diminui e as mulheres parem pouco. Então o Estado, para subvencionar suas próprias necessidades, força mais a burocratização da existência humana. Esta burocratização em segunda potência é a militarização da sociedade. A urgência maior do Estado é seu aparato bélico, seu exército. O Estado é, antes de tudo, produtor de segurança (a segurança de que nasce o homem-massa, não se esqueça). Por isso é, antes de tudo, exército. Os Severos, de origem africana, militarizam o mundo. Faina vã! A miséria aumenta, as matrizes são cada vez menos fecundas. Faltam até soldados. Depois dos Severos, o exército tem de ser recrutado entre estrangeiros.
Adverte-se qual é o processo paradoxal e trágico do estatismo? A sociedade, para viver melhor, cria, como um utensílio, o Estado. Depois, o Estado se sobrepõe, e a sociedade tem de começar a viver para o Estado (70). Mas, no final das contas, o Estado se compõe ainda dos homens daquela sociedade. Entretanto, estes não bastam para sustentar o Estado e é preciso chamar estrangeiros: primeiro, dálmatas; depois, germanos. Os estrangeiros tornaram-se donos do Estado, e os restos da sociedade, do povo inicial, têm de viver escravo deles, de gente com a qual não tem nada que ver. A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina que é o Estado. O esqueleto come a carne que o rodeia. O andaime se torna proprietário e inquilino da casa.
Quando se sabe disso, sobressalta um pouco ouvir que Mussolini apregoa com exemplar petulância, como um prodigioso descobrimento feito agora na Itália, a fórmula Tudo pelo Estado; nada fora do Estado; nada contra o Estado. Bastaria isso para descobrir no fascismo um típico movimento de homens-massa. Mussolini encontrou um Estado admiravelmente construído — não por ele, mas precisamente pelas forças e ideias que ele combate: pela democracia liberal. Ele se limita a usá-lo incontinentemente; e, sem que eu me permita agora julgar os detalhes de sua obra, é indiscutível que os resultados obtidos até o presente não podem ser comparados aos obtidos na função política e administrativa pelo Estado liberal. Se algo conseguiu, é tão miúdo, pouco visível e nada substantivo, que dificilmente equilibra a acumulação de poderes anormais que lhe consentem empregar aquela máquina em forma extrema.
O estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação direta constituídas em normas. Através e por meio do Estado, máquina anônima, as massas atuam por si mesmas.
As nações europeias têm diante de si uma etapa de grande dificuldade em sua vida interior, problemas econômicos, jurídicos e de ordem pública sobremodo árduos. Como não temer que sob o império das massas se encarregue o Estado de esmagar a independência do indivíduo, do grupo, e extinguir assim definitivamente o porvir?
Um exemplo concreto deste mecanismo achamo-lo num dos fenômenos mais alarmantes destes últimos trinta anos: o aumento enorme em todos os países das forças de Polícia. O crescimento social obrigou iniludivelmente a isso. Por muito habitual que nos seja, não deve perder seu terrível paradoxismo ante nosso espírito o fato de que a população de uma grande urbe atual, para caminhar pacificamente e atender a seus negócios, necessita, sem remédio, uma Polícia que regule a circulação. Mas é uma inocência das pessoas de "ordem" pensar que essas "forças de ordem pública", criadas para a ordem, vão contentar-se com impor sempre o que aquelas queiram. O inevitável é que acabem por definir e decidir elas a ordem que vão impor — e que será, naturalmente, o que lhes convenha.
Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma ou outra sociedade. Quando, em 1800, a nova indústria começa a criar um tipo de homem — o operário industrial — mais criminoso que os tradicionais, a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. Em 1810 surge na Inglaterra, pelas mesmas causas, um aumento da criminalidade, e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. Governam os conservadores. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. Preferem aguentar, até onde se possa, o crime. "As pessoas conformam-se em se adaptar à desordem, considerando-a como resgate da liberdade". "Em Paris — escreve John William Ward — têm uma Polícia admirável, mas pagam caro suas vantagens. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road, a estar submetido a visitas domiciliárias, à espionagem e a todas as maquinações de Fouché." (71) São duas ideias diferentes do Estado. O inglês quer que o Estado tenha limites.
 
 
(José Ortega y Gasset - A Rebelião das Massas)
 
NOTAS
(66) Para que a filosofia impere, não é mister que os filósofos imperem — como Platão quis primeiro —, nem sequer que os imperadores filosofem — como quis, mais modestamente, depois. Ambas as coisas são, a rigor, funestíssimas. Para que a filosofia impere, basta que haja filosofia, quer dizer, basta que os filósofos sejam filósofos. Há quase uma centúria os filósofos são tudo, menos isso — são políticos, são pedagogos, são literatos ou são homens de ciência.
 
(67) Veja-se Espana invertebrada, 1a. edição, 1921. (Veja-se pag. 35 do tomo III das Obras Completas).
 
(68) Esta imagem simples da grande mudança histórica em que se substitui a supremacia dos nobres pelo predomínio dos burgueses deve-se a Ranke; mas claro é que sua verdade simbólica e esquemática requer não poucos aditamentos para ser completamente verdadeira. A pólvora é conhecida de tempo imemorial. A invenção da carga num tubo deveu-se a alguém da Lombardia. Ainda assim, não foi eficaz até que se inventou a bala fundida. Os "nobres" usaram em pequenas doses a arma de fogo mas era demasiado cara. Só os exércitos burgueses, melhor organizados economicamente, puderam empregá-la em grande escala. Fica, não obstante, como literalmente certo que os nobres foram derrotados de maneira definitiva pelo novo exército, não representados pelo exército de tipo medieval dos borguinhãos, profissional, mas de burgueses, que formaram os suíços. Sua força primária consistiu na nova disciplina e na nova racionalização da tática.

(69) Mereceria a pena insistir sobre este ponto e fazer notarque a época das Monarquias absolutas europeias operou com Estados muito débeis. Como se explica isto? Já a sociedade em torno começava a crescer. Por que, se o Estado tudo podia — era "absoluto" —, não se fazia mais forte? Uma das causas é a apontada: incapacidade técnica, racionalizadora, burocrática, das aristocracias de sangue. Mas não basta isso. Além disso aconteceu no Estado absoluto que aquelas aristocracias não quiseram ampliar o Estado à custa da sociedade. Contra o que se crê, o Estado absoluto respeita instintivamente a sociedade muito mais que o nosso Estado democrático, mais inteligente, mas com menos sentido da responsabilidade histórica.
 
(70) Recordem-se as últimas palavras de Septimio Severo a seus filhos: Permanecei unidos, pagai ao soldado e desprezai o resto.
 
(71) Veja-se Elie Halévy: Histoire du peuple anglais au XIXe. siècle (tomo 1, pág. 40, 1912).

publicado às 16:58


A ADÚLTERA

por Thynus, em 04.04.17

“Não se abandona uma adúltera.”
(Nelson Rodrigues, em Perdoa-me por me traíres)
 
 
“Aquele que não tem Pecado, atire a primeira pedra”…
Já disse várias vezes que o segredo do mundo se encontra entre as pernas das mulheres. Claro, exagero. Mas nem tanto assim. Para quem gosta de mulher, parte da vida se resume aos seus movimentos pélvicos e sua saliva. E seus tédios. Mas, ainda assim, se visitarmos a mais radical visão evolucionária da pré-história humana, veremos que grande parte da vida em bando, seus afetos (base da relação entre moral e religião, porque base fisiológica e psicológica de ambas), suas guerras, suas festas e protoinstituições encontram sua ancestralidade funcional no calor úmido entre as pernas das mulheres. O afeto feminino é úmido e quente. No entanto, pra mim, esse fundamento científico pouco importa, não faço ciência aqui e quase nunca.
Onde nascem os famosos sistemas de parentesco, de que falam os antropólogos, se não entre as pernas das mulheres? Dirão que sou sexista porque, afinal, as mulheres não geram parentesco por elas mesmas, mas com os homens. Pode ser, mas os homens pouco me importam, talvez porque desde muito cedo percebi que as mulheres são deliciosas e cheirosas, e tudo que penso nasce de sensações.
Desejo é escravidão e temperamento é destino. Como diria o cético escocês David Hume no século XVIII, “knowledge is felling” (conhecimento é sentimento). Com o tempo, o temperamento se transforma em caráter. Faço filosofia sobre o que está entre as pernas das mulheres porque gosto de estar entre as pernas das mulheres, e não por alguma razão histórica defensável, apesar de que, como disse acima acerca da teoria evolucionária, acho possível sustentar minha máxima “o segredo do mundo se encontra entre as pernas das mulheres” com alguma cientificidade, apesar de desprezar esse tipo de fundamentação. Minha simpatia pelo darwinismo é antes de tudo devido ao seu caráter dramático, e não científico. Ou melhor, seu caráter estético. O fato de ele ser científico, para mim, apenas aprofunda sua natureza operística.
Posso me perder imaginando uma bela mulher que pertence a outro homem, de joelhos, sendo uma amante infiel. Pedindo pelo amor de Deus para não levá-la a fazer o que ela quer, mas sentindo-se culpada por querer. Talvez chore e trema, como de costume, quando a culpa segue sua fisiologia.
A culpa e o pecado são os maiores aliados do desejo que existem, e nesse sentido Nelson está muito além da estupidez contemporânea que pensa, erroneamente, que “sexo livre” dá tesão. É da natureza feminina desejar o que “dói”. E também, como dizia Nelson, a prostituta não é a primeira profissão do mundo, mas a sua vocação mais antiga. E essa vocação é a de desejar ser objeto do homem que a possui, seu dono (mesmo que simbolicamente e por algum tempo). Mas essa vocação não significa ausência de sofrimento ou de contradição: pelo contrário. É a contradição que a deixa tão desejável em sua incapacidade de controlar seu ímpeto de infidelidade. E se tornar uma adúltera. Essa contradição assume a forma de suor líquido, gosto, cheiro, gesto, gemidos, restos, enfim, tudo aquilo que constitui o segredo da vida entre as pernas das mulheres. E o desejo escorre pelas pernas. A adúltera revela o fracasso de toda moral porque a interdição apaixona. Tornar-se objeto, coisa que se deixa mandar.
Mas a adúltera na obra de Nelson é mais do que isso. Ela é um de seus arquétipos essenciais para representar a condição humana. Aliás, Nelson também via as mulheres como objeto intenso de desejo e reflexão. Não é por acaso que, quando Nelson fala de suicídios, homicídios e enterros, diz que, quando o morto era uma mulher, tudo era mais dramático, interessante e intenso para ele. Suspeito que uma das razões para esse fato é ser ele um heterossexual, e por isso mesmo alguém que via parte do mundo e da vida mediado pelo que há entre as pernas das mulheres.
Sexo é destino, apesar de alguns quererem brincar dizendo que não, porque querem ter o sexo do outro. Mas, ainda assim, é o sexo que é destino, neste caso, o sexo errado.
Pensar através da adúltera é, antes de tudo, uma confissão de desejo pela mulher na sua condição de filha de Eva, aquela primeira infiel.
Os ensaios deste livro foram escritos sob o signo da adúltera: são as confissões de um desgraçado que luta constantemente para não se perder no próprio desejo e em suas inconsistências. A filosofia selvagem brota desse combate e do medo que me acompanha o tempo todo.
Por que não se abandona uma adúltera?
Em Perdoa-me por me traíres, o marido, que afirma que não se abandona uma adúltera, representa a clássica posição de Nelson de que sexo demais é falta de amor. A tese supõe que a mulher trai porque não é amada. Será verdade? Acho que não. Essa hipótese de Nelson fala de sua idealização do amor. Ela, a adúltera, seria vítima, e não culpada, por isso o marido pede perdão a ela por ela o ter traído, invertendo a lógica da frase.
Não há dúvida de que, para Nelson, somos seres capturados numa armadilha interior: desejamos um amor ideal, mas ele não existe. Como não existe, caímos em desgraça inevitavelmente, daí decorre tudo o mais. Uma das piores formas dessa idealização do amor é seu mal infinito: queremos sempre mais e, quanto mais queremos, mais dependentes e inseguros ficamos. Ciúmes, delírios de traição, impotência de controlar o outro. Por isso, a adúltera representa o necessário fracasso de um animal atormentado por um desejo de amor sempre impossível. O pecado moral nasce dessa vontade esmagada.
Não importa o que você fizer: quanto mais amar, menos “bem resolvido” será. Mas a indiferença apodrece. Por conta disso, sem o tormento do amor, você apodrece – por isso só os neuróticos verão a Deus. Ou nos angustiamos ou apodrecemos, dizia Nelson.
O amor só se resolve quando morre ou quando vira amizade. Esse núcleo básico, que é dramático em sentido dramatúrgico e dramático nos sentidos filosófico e psicológico (porque descreve uma natureza humana em contínuo conflito consigo mesma, o que aproxima Nelson de Freud) inviabiliza qualquer noção de afetos corretos. Nossa era, tomada pela crença idiota na solução política e ideológica de tudo, parece não entender esta aporia – doença que ele identificou no Brasil nos final dos anos 1960 e, por isso, dentre outras razões, foi chamado de reacionário. Há uma desordem afetiva no ser humano que todo mundo experimenta e, por isso, é necessário mentir, muitas vezes como ato de misericórdia. “Mintam, pelo amor de Deus”, porque a verdade é insuportável.
O autoconhecimento é uma forma de tormento. A tradição espiritual cristã é marcada pela consciência de que conhecer a si mesmo é, antes de tudo, um ato de autoimolação. Nossa fragilidade ontológica pede a mentira como modo de sociabilidade e sensibilidade pedagógica. Mas o que no plano da convivência é uma necessidade, no plano do pensamento é uma traição, por isso Nelson se dizia ex-covarde. Há que dizer a verdade, pelo menos como forma de reconhecimento de nossa miséria e abandono.
Já em sua infância Nelson conheceu uma adúltera. Uma vizinha. Conta ele como a viu num desfile de carnaval ao lado do marido traído. Dois infelizes. O rosto dela carregava a marca do fracasso e da vergonha. Linda como uma morta. O rosto dele trazia o peso do homem que não consegue deixar de amar sua adúltera, e que também é punido por todos. Noutro relato Nelson conta como uma jovem belíssima e recém-casada foi chamada à casa de um vizinho milionário, mais velho, que tenta seduzi-la com um colar de pérolas. Ela recusa, ofendida, e reafirma sua fidelidade ao marido. Quando o marido chega em casa, ela conta a ele o ocorrido. Ele, pra surpresa da infeliz, condena seu ato ingênuo de fidelidade e diz a ela que não se recusa um colar de pérolas assim. As vizinhas todas concordam com ele. Ela, então, volta à casa do milionário e traz o colar de pérolas, e o joga na cara do marido, que fica paralisado. As vizinhas todas, com a certeza tranquila do bando, gritam: “cachorra, adúltera”.
 
(Luiz Felipe Pondé - A Filosofia da Adúltera: ensaios selvagens)

publicado às 14:21



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