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Os três fundamentos das religiões

por Thynus, em 19.02.17
As religiões, nosso principal lembrete social da existência de Deus, têm estado conosco há milênios, desde o início das civilizações humanas. Primeiro, eram as religiões primitivas, que viam dois tipos de causas para os eventos – causas que as pessoas podiam controlar (se alguém esfregasse duas pedras, uma contra a outra, provocaria faíscas que ateariam fogo a folhas secas) e causas que pareciam fora do controle humano (desastres naturais, como terremotos, por exemplo). Nossos ancestrais primitivos atribuíam as causas incontroláveis à ação dos deuses: a causação descendente. O conceito inicial de muitos desses agentes de causação descendente acabou dando origem à ideia de um agente – Deus.

Com a passagem do tempo, observamos que o pensamento religioso foi ficando mais sofisticado. O conceito de Deus e da causação descendente ainda existe; mas há um conceito adicional e não menos importante – o conceito da alma individual, ou corpo sutil (expressão coletiva para força vital, mente e consciência). A alma é não física, feita de substâncias sutis, bem diferentes da substância física.

E finalmente veio a descoberta de que os humanos deviam almejar virtudes divinas: qualidades como bondade, caridade e justiça. Se não fizessem isso, estariam cometendo pecados e suas almas seriam punidas após sua morte.

Desenvolvimentos posteriores no pensamento religioso em muito refinaram a imagem de Deus e da causação descendente, a natureza de nossos corpos sutis e as ideias de virtude e pecado. No entanto, essas três ideias ainda são fundamentais para o pensamento religioso. Hoje, praticamente todas as religiões concordam sobre a causação descendente, corpos sutis não materiais e a ideia de ética e moralidade – a capacidade de distinguirmos entre virtude e pecado e de optarmos pela virtude. Estes são os três pilares da religião.

Digo isto antes de apresentar os dados científicos sobre a existência de Deus, pois os cientistas materialistas, em especial os ocidentais, quase sempre lutam contra um Deus de palha, o Deus “sobre-humano” do cristianismo popular, com ideias como o criacionismo, que são fáceis de se refutar (Dawkins, 2006). Porém, considerando-se a física quântica (Goswami, 1993) e inúmeros dados sobre vida após a morte (Goswami, 2001) e medicina alternativa para o corpo sutil (Goswami, 2004), é consideravelmente mais difícil refutar as ideias da causação descendente e de corpos sutis. E quem, em sã consciência, tentaria desmentir a importância das virtudes e dos valores em nossas vidas? É claro que as religiões têm uma teoria para as virtudes e os valores mais plausível do que os biólogos, para quem as virtudes e valores evoluíram da adaptação darwiniana por meio do acaso e da necessidade.

No entanto, os materialistas afirmam algo importante: que é difícil falar de Deus na ciência antes que as religiões esclareçam a questão “o que é Deus” entre elas. Se as religiões ainda brigam entre si sobre qual Deus é superior, como é possível aplicar a Deus uma abordagem monolítica como a da ciência?

Uma resposta a esse tipo de oposição ao estudo de Deus dentro da ciência é que as grandes tradições do mundo, as principais religiões, estão unidas, pelo menos em seu núcleo esotérico, em sua filosofia
não dualista de Deus. No esoterismo, existe a imagem da mente de Deus ou consciência (ou a Grande Vacuidade) como base de toda existência. Nessa base, há o conceito de corpos díspares, sutis (imateriais) e densos (materiais). Os ideais mais elevados da existência humana – bondade amorosa, por exemplo – definem a alma, que tentamos realizar. Quando o fazemos, ficamos livres, iluminados, e nossa ignorância vai embora (Schuon, 1984).

Mas o esoterismo, em si, mantém-se obscuro. O fato é que, no nível popular, a maioria das religiões, até hoje, ensina o dualismo: Deus como algo separado do mundo. E os detalhes da existência dual são bem diferentes de uma religião para outra. Portanto, o argumento suscitado pelo materialista não é válido? Que, de início as religiões concordem, e depois a ciência leve em consideração a questão de Deus.

Ensino religioso: acrta aberta ao ministro Barroso
 
Multiculturalismo

Mas esses cientistas não respeitaram a lição da antropologia cultural. Há algum tempo, os antropólogos culturais têm dito que o conceito de ciência monolítica pode não ser útil, talvez nem mesmo correto. Segundo eles, a ciência deve ser pluralista, dependente de cada cultura. Os cientistas tendem a rejeitar essa posição porque abominam a ideia do caos que surge de diferentes pontos de vista ao mesmo tempo, afirmando-se como princípios explicativos.

Creio que os antropólogos culturais têm razão no que diz respeito aos fenômenos envolvendo corpos sutis. Também acredito que a ciência multicultural não precisa ser necessariamente caótica.

Em geral, o que se percebe é que existe apenas uma física. Para corpos materiais densos, hoje a ideia de uma abordagem pluralista é desnecessária. O sucesso da abordagem reducionista da física resolveu a questão a favor de uma física monolítica de uma vez por todas. Porém, com certeza, isso não é válido para a ciência da psicologia e da medicina, e tampouco para a biologia.

Na psicologia, permanecem três forças poderosas: a psicologia comportamental-cognitiva de Alfred Adler; a psicologia profunda, baseada no conceito do inconsciente da psicanálise freudiana e da psicologia analítica junguiana; e a psicologia humanista/transpessoal com o conceito do superconsciente. Há inúmeros dados a comprovar essas abordagens. Para a psicologia cognitiva de laboratório, a abordagem comportamental está bem aplicada e costuma funcionar. Para a psicoterapia, porém, a psicologia profunda é uma necessidade. E, para a psicologia do bem-estar, a abordagem humanista/transpessoal tem seus atrativos e êxitos. Assim, a área da psicologia é um pouco caótica. Não existe uma maneira adequada de definir o domínio de cada uma dessas três forças, e nenhuma tentativa da psicologia conseguiu integrá-las em um todo coerente.

Na medicina, há duas abordagens bem-conhecidas e bem-sucedidas: a medicina alopática convencional e os diferentes paradigmas da medicina alternativa. Há muita provocação, muito caos e pouca concordância quanto à validade dos diferentes domínios e seus respectivos paradigmas. Será que estamos presos ao caos de uma abordagem pluralista?

Entre biólogos, embora exista uma concordância quase universal sobre um paradigma cujos dois pivôs são a biologia molecular e o (neo)darwinisno, ninguém conseguiu vincular este paradigma e a física, ou distinguir de forma inequívoca a vida da não vida. Mais especificamente, ninguém conseguiu explicar as lacunas nos registros fósseis da evolução. Portanto, uma abordagem da evolução envolvendo o criacionismo e o desígnio inteligente continua a ter apelo popular, até mesmo com o apoio de biólogos sérios. Existem outros pensamentos alternativos de paradigma, e estes estão ganhando força. Um baseia-se na importância do organismo como um todo e o chamamos modelo paradigma organísmico. Contudo, ninguém conseguiu fazer uma conexão entre os paradigmas materialista e organísmico, muito menos uma conexão entre essas duas abordagens e o paradigma do desígnio inteligente.

Afirmo que essas dificuldades da psicologia, da medicina e da biologia são provenientes do fato de que nessas ciências tanto o corpo material denso está envolvido quanto nossos corpos sutis. E, assim, nossas imagens dos corpos sutis ainda não foram refinadas o suficiente para desenvolvermos uma ciência monolítica útil. Agora que temos uma base, o novo paralelismo psicofísico (Figura 1.5, p. 38), para tratar o denso e o sutil com a mesma base, temos a oportunidade para uma abordagem muito necessária, como será demonstrado neste livro.

Eis, portanto, segundo acredito, a resposta à pergunta: “Por que as religiões diferem tanto em seus detalhes?” Porque, diferentemente da física monolítica, as religiões não lidam com o aspecto denso da realidade, ou matéria. Seu tema envolve aquilo que há de mais sutil, ou seja, Deus e alma.

Os materialistas se preocupam e acham que a multiplicidade de crenças religiosas sobre Deus é uma coisa ruim. Diz Sam Harris em The end of faith: religion, terror, and the future of reason: “O ideal da tolerância religiosa – nascida do conceito de que todo ser humano deveria ser livre para acreditar no que quisesse sobre Deus – é uma das principais forças que nos impelem para o abismo”. Esta preocupação surge do foco sobre as diferenças entre as religiões.

Não deveríamos nos preocupar com essas diferenças; deveríamos, na verdade, nos concentrar nas preocupações comuns a todas as religiões, ou seja, os seus três fundamentos: a causação descendente, os corpos sutis e a aquisição do estado divino. Há um núcleo comum nos conceitos religiosos sobre Deus, e é esse núcleo comum que abre espaço para uma abordagem científica.

Novos dados e perspectivas para uma abordagem integrada

Nas partes 2, 3 e 4, abordarei dados científicos a favor de todos os três fundamentos já apresentados, dentro do paradigma maior da ciência dentro da consciência definida no Capítulo 1. Anteriormente, disse que os dados são de dois tipos. Um tipo consiste nas “assinaturas quânticas do divino, escritas com tinta indelével”. O outro tipo pertence ao grupo “perguntas impossíveis exigem respostas impossíveis”, ou corpos sutis. Na verdade, em muitos dos dados atuais, as duas ideias se entrelaçam, ou seja, pertencem ao mesmo tempo aos corpos sutis e também são assinaturas quânticas do divino.

Quando incluímos em nossa ciência os corpos sutis e o pensamento quântico a seu respeito, todas as controvérsias da biologia, medicina e psicologia – o caos criado pelo pensamento “multicultural” e pluralista – dão m

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argem a um novo ponto de vista científico e integrado em cada campo. O multiculturalismo ainda tem sua utilidade, mas o domínio de cada cultura está claramente definido, e pode haver intercâmbio entre eles. Não é melhor assim?

E isto reacende a esperança em mim. Se as diversas abordagens multiculturais para essas ciências da vida podem ser integradas debaixo de um guarda-chuva, a ciência dentro da consciência, então por que as religiões também não podem? Talvez, a nova ciência baseada em Deus, explorada aqui, com todas as evidências de apoio a seu favor, estimule as grandes religiões do mundo a começarem seriamente a dialogar. Talvez, esteja próximo o dia em que teremos conceitos universais de espiritualidade, aplicáveis em benefício da humanidade, na qual cada uma das religiões atuais será um aspecto bem-definido e terá um domínio bem-definido de validade. E, dessa maneira, haverá um intercâmbio ilimitado entre as religiões.

Nos séculos XV e XVI, a religião era o grande inquisidor e a causa de muitas atrocidades cometidas na tentativa de silenciar a ciência. Hoje, porém, em uma irônica inversão de papéis, a ciência sob a influência do materialismo tornou-se o grande inquisidor, exibindo sua arrogância e declarando arbitrariamente Deus e o sutil como sobrenaturais e supérfluos. Mas, como disse antes, essa posição não levará a nada.

Como os políticos influenciados pela ciência materialista começam a forçar uma mudança excessivamente rápida das tradições mais antigas, o efeito é o oposto do esperado. Em vez de realizarem mudanças muito necessárias (como, por exemplo, um tratamento igual para homens e mulheres), participantes dessas religiões tornam-se defensivos e ultraconservadores, e pior: sob a influência materialista, os líderes dessas tradições tornam-se cínicos e abrem mão do significado e da ética, optando pelo poder. Se, em vez disso, a ciência materialista entrar em harmonia com suas próprias deficiências e aceitar o cenário mais amplo da ciência dentro da consciência, pode iniciar um novo diálogo entre materialismo e espiritualidade, duas forças gravitacionais que dividiram a humanidade ao longo de milênios. As consequências sutis desse diálogo provocarão ventos de mudança até mesmo nas antigas tradições religiosas.

(Amit Goswami - Deus não está morto,evidências científicas da existência divina)

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publicado às 00:00

 
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A Ciência da Fé
No século XVIII, o imperador Napoleão chamou o cientista Pierre Simon, marquês de Laplace, e perguntou-lhe porque ele não havia incluído Deus em seu mais recente livro sobre movimento celestial. Dizem que Laplace teria respondido desta maneira: “Majestade, não precisei dessa hipótese específica”.

Faz muito tempo que Laplace viveu mas, até hoje, a “prova” do estabelecimento científico contra a existência de Deus consiste na insistente negativa: “Não precisamos dessa hipótese específica”.

Se a cruzada do estabelecimento científico contra Deus se dirige ao Deus dualista do cristianismo popular, o poderoso imperador, sentado em um trono no espaço exterior que distribui recompensas e castigos, sou simpático a essa cruzada. Mas quando essa mesma cruzada parece incluir o desdém por todo agente causal fora do mundo material, então é chegada a hora de todas as pessoas de bem despertarem e rejeitarem essa “velha” ciência.

Este livro mostra que todas as ciências – física, biologia, psicologia e medicina – necessitam da hipótese da causação descendente, introduzida como uma escolha consciente entre os potenciais quânticos, a fim de compreender seus princípios e dados mais básicos. O agente dessa causação descendente, a consciência quântica, é aquilo que as tradições espirituais esotéricas de todo o planeta chamam Deus, apesar das visões populares.

A teoria e fatos apresentados neste livro como evidências científicas da existência de Deus falam por si sós. Assim, considere:

Não podemos encontrar uma física melhor do que a física quântica: sua teoria é sólida, seus dados comprobatórios são impecáveis.

Não podemos encontrar uma interpretação melhor da física quântica do que a interpretação baseada na consciência idealista, pois é a única interpretação livre de paradoxos.

Não podemos encontrar uma metafísica melhor do que a do primado da consciência para basear nossa ciência, pois apenas esta filosofia abrange todas as nossas experiências, “tudo que for o caso”. (Esta citação foi extraída do Tractatus logico-philosophicus de Ludwig Wittgenstein, que começa com a frase: “O mundo é tudo aquilo que for o caso”.)

Não podemos compreender a criatividade sem o conceito dos saltos quânticos de descontinuidade.

Não podemos encontrar uma explicação para as lacunas fósseis da evolução sem a ideia da causação descendente e da criatividade biológica.

Não podemos encontrar maneiras de distinguir a vida e a não vida, e o consciente e o inconsciente, sem a ideia da hierarquia entrelaçada.

Não podemos resolver os paradoxos da cisão sujeito-objeto em nossa percepção normal, sem os conceitos de causação descendente, hierarquia entrelaçada e não localidade.

Não podemos compreender os abundantes dados experimentais de nossa interconectividade sem a não localidade da consciência.

Não podemos compreender inúmeras informações sobre experiências de quase-morte e reencarnação sem o conceito dos corpos sutis não físicos.

Não podemos compreender a acupuntura e a homeopatia sem o conceito das energias vitais não físicas.

Não podemos compreender o significado e a razão pela qual nosso corpo sofre com sua distorção, contraindo doenças, sem o conceito de uma mente não física.

Não podemos compreender o motivo para a existência das leis físicas e do altruísmo, nem a razão pela qual a ética e os valores influenciam nossa consciência, ou o porquê da cura funcionar, sem o conceito de um corpo supramental não físico.

Não podemos ter uma ciência ética apropriada sem a hipótese da causação descendente e dos corpos sutis.

Não podemos compreender a cura espontânea sem conceitos como causação descendente, saltos quânticos e corpos sutis.

Não podemos nos compreender sem conhecer Deus – nosso ser causal mais profundo, nossa consciência quântica.

Não podemos conhecer nosso futuro evolucionário, e nos prepararmos para ele, sem aceitar a evolução da consciência.

Deus existe. Perceba-o. Viva-o. Ame-o. Desenvolva as energias do amor.

Parafraseando o poeta Rabindranath Tagore:

Na noite violenta
sob o impulso da morte
quando seres humanos rompem
seus limites terrenos condicionados,
será que a ilimitada glória celeste de Deus,
a inteligência supramental,
não irá se revelar?

Sim, irá. A sombria noite da alma, o interlúdio materialista, está quase terminando. Nessa noite sombria, fizemos nosso processamento criativo, algo que os indianos chamam tapasya (prática espiritual que queima impurezas), e estamos desenvolvendo uma nova ciência para nos orientarmos em nossa evolução até o supramental. Ainda falta um pouco até chegarmos, ainda precisamos esperar um pouco, a noite ainda não acabou. Mas as primeiras luzes da nova aurora estão visíveis para todos que desejem ver.

(Amit Goswami - Deus não está morto,evidências científicas da existência divina)
A Matrix enquanto hipótese metafísica

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publicado às 21:53

Jesus viu crianças sendo amamentadas. Ele disse a seus discípulos: "Esses
pequeninos que mamam são como aqueles que entram no Reino." Eles lhe disseram: Nós
também, como crianças, entraremos no Reino?" Jesus lhes disse: "Quando fizerdes do dois
um e quando fizerdes o interior como o exterior, o exterior como o interior, o acima como o
embaixo e quando fizerdes do macho e da fêmea uma só coisa, de forma que o macho não
seja mais macho nem a fêmea seja mais fêmea, e quando formardes olhos em lugar de um
olho, uma mão em lugar de uma mão, um pé em lugar de um pé e uma imagem em lugar de
uma imagem, então, entrareis (no Reino).
 
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Pintei uma cruz hipercúbica na qual o corpo de Cristo torna-se metafisicamente o nono cubo. (Dalí)

Ao dedicar este epílogo a você como cristão, espero que faça jus ao seu título como discípulo de Jesus. Você pode já ter algum mestre neste momento, pode ter tido diversos mestres em seu passado; mas Jesus tem sido sempre seu maior mestre, o que os hindus chamariam sadguru, um verdadeiro guru, um mestre cujo espírito acha-se estabilizado.

A pergunta importante para todos os cristãos é a seguinte: será que o Deus que a ciência está redescobrindo é o mesmo Deus que o cristão? Venho reassegurando isso no seguinte caso: o Deus da nova ciência é o mesmo Deus de que tem falado o cristianismo esotérico e místicos cristãos como Mestre Eckhart e Santa Teresa de Ávila. Contudo, posso demonstrar essa tese comparando os ensinamentos de Jesus com os ensinamentos da física quântica, o que deve remover qualquer dúvida. Pelo menos, é o que espero.

Jesus foi um dos maiores mestres espirituais de todos os tempos. Seus ensinamentos eram passados na forma de enigmas e paradoxos, o que demonstra uma semelhança com as lições da física quântica, que também criam enigmas e paradoxos em nossas mentes. Tanto Jesus quanto a física quântica falam da realidade, mas será que falam da realidade de maneira idêntica? Esta é a grande pergunta. Se estão falando da realidade em termos de metáforas idênticas, por mais enigmáticas e paradoxais que sejam essas metáforas para nossa mente racional, existem motivos para concluir que esses ensinamentos são convergentes. Fundamentalmente, são os mesmos. O Deus de Jesus e a consciência-Deus quântica são a mesma coisa.

O tecido básico da realidade
Ao dedicar este epílogo a você como cristão, espero que faça jus ao seu título como discípulo de Jesus. Você pode já ter algum mestre neste momento, pode ter tido diversos mestres em seu passado; mas Jesus tem sido sempre seu maior mestre, o que os hindus chamariam sadguru, um verdadeiro guru, um mestre cujo espírito acha-se estabilizado.

A pergunta importante para todos os cristãos é a seguinte: será que o Deus que a ciência está redescobrindo é o mesmo Deus que o cristão? Venho reassegurando isso no seguinte caso: o Deus da nova ciência é o mesmo Deus de que tem falado o cristianismo esotérico e místicos cristãos como Mestre Eckhart e Santa Teresa de Ávila. Contudo, posso demonstrar essa tese comparando os ensinamentos de Jesus com os ensinamentos da física quântica, o que deve remover qualquer dúvida. Pelo menos, é o que espero.

Jesus foi um dos maiores mestres espirituais de todos os tempos. Seus ensinamentos eram passados na forma de enigmas e paradoxos, o que demonstra uma semelhança com as lições da física quântica, que também criam enigmas e paradoxos em nossas mentes. Tanto Jesus quanto a física quântica falam da realidade, mas será que falam da realidade de maneira idêntica? Esta é a grande pergunta. Se estão falando da realidade em termos de metáforas idênticas, por mais enigmáticas e paradoxais que sejam essas metáforas para nossa mente racional, existem motivos para concluir que esses ensinamentos são convergentes. Fundamentalmente, são os mesmos. O Deus de Jesus e a consciência-Deus quântica são a mesma coisa.
O tecido básico da realidade

Analise a ideia do tecido básico da realidade. Os materialistas dizem que, em sua base, a realidade se reduz aos tijolos chamados partículas elementares, quarks e elétrons, por exemplo. A causação é uma causação ascendente, a partir dessa base.

Entretanto, a física quântica diz outra coisa. Na física quântica, não há objetos materiais manifestados independentes dos sujeitos – os observadores. Na física quântica, os objetos permanecem como potenciais, ondas de possibilidade, até serem manifestados pelo ato da observação. Objetos quânticos são ondas de possibilidade, mas possibilidades de quê? São possibilidades da consciência. A consciência, e não a matéria, é a base da existência, na qual a matéria existe como possibilidade. Pelo ato da mensuração ou observação quântica, a consciência converte a possibilidade em realidade (ou causa o colapso de ondas em partículas ou coisas) e, ao mesmo tempo, divide-se em um sujeito que vê e em objeto(s) visto(s).

O que Jesus tem a dizer sobre o tecido da realidade? Ele é bem inequívoco, embora um pouco sarcástico com relação aos que apoiam a supremacia material (todas as citações do Evangelho segundo Tomé referem-se ao número da página em Guillaumont et al., 1959):

Seria uma maravilha
se a carne tivesse surgido
por causa do espírito.
Mas seria a maior das maravilhas
se o espírito tivesse surgido
por causa do corpo.
(Tomé, p. 21)

Jesus diz, como um eco com a física quântica, que a carne surgiu por causa do espírito e não o contrário.

Também me agrada muito o fato de Jesus ter dito: “O Espírito é que dá a vida, a carne não serve para nada” (João 3,6; 6,63). Aqui não há apoio para as teorias materialistas da origem da vida, inclusive para a teoria da autopoiese emergente do holista. Mas a frase de Jesus ressoa plenamente com a ideia quântica de que a vida se origina da mensuração quântica em hierarquia entrelaçada, feita pela consciência. Dessa forma, sendo místico, Jesus subestima a carne, a matéria. Agora, na nova ciência, podemos explicitar o papel de contribuição da matéria: tornar possível a manifestação e fazer representações do sutil.

Não localidade e transcendência

O cristianismo popular postula que Deus e o Espírito são separados de nós; e é esse dualismo que faz com que a maioria dos cientistas considere o cristianismo não científico. Se Deus é algo realmente separado de nós, como podemos receber sua orientação e amor? Como a carne, a substância material, pode interagir com o divino não material?

A física quântica possui uma posição diferente. Deus não é separado de nós; Deus vive em nós, em nosso inconsciente. A consciência é a base de tudo, o que nos inclui. Isto repercute muito bem com a frase de Jesus: “O Pai e eu somos um”. E, se você interpretar esta frase considerando que Jesus está falando apenas de si mesmo, que apenas ele é “filho do Pai” e, portanto, idêntico a Ele, os evangelhos dizem outra coisa. Jesus diz, em todo momento, aos seus ouvintes, que todos são filhos de Deus; basta perceber isso:

Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos,
então, sereis conhecidos
e compreendereis que
sois filhos do Pai vivo.
(Tomé, p. 3)

A física quântica também ensina: “Você e eu somos um”. A consciência ou Deus causa o colapso de ondas de possibilidade similares em nossos cérebros quando estamos “correlacionados”, dando a cada um de nós a oportunidade de constatar essa ideia de unidade. Esta ideia tem sido comprovada até em laboratório. Se a consciência pode causar o colapso simultâneo de ondas de possibilidade no seu cérebro e no meu, quando estamos correlacionados, devemos estar vinculados por meio da consciência, que é não local e uma unidade para nós dois, e, por inferência, uma unidade para todos nós.

O conceito de não localidade é sutil e também implica que você e eu estamos vinculados sem quaisquer sinais pelo espaço e pelo tempo. Contudo, também somos manifestações da mesma consciência; é a consciência que é imanente em nós.

Qual a opinião de Jesus sobre esses assuntos? Vamos estudar a conhecida declaração de Jesus: “O reino de Deus está em toda parte, mas as pessoas não o vêem”. Assim, sem dúvida, Jesus conhecia e pregava sobre o Deus imanente no mundo. Mas seria esta uma visão de mundo animista? Não vamos nos apressar. Eis outra frase famosa de Jesus:

Os fariseus perguntaram a Jesus
sobre o momento em que chegaria
o reino de Deus. Jesus respondeu:
“O reino de Deus não surge ostensivamente.
Nem se pode dizer:
‘Está aqui’ ou ‘está ali’,
porque o reino de Deus
está no meio de vocês”.
(Lucas 17,20-21)

Mais uma vez, diz Jesus:
Pois bem, o reino está dentro de vós,
e também está em vosso exterior.
(Tomé, p. 3)

O reino não pode ser localizado; não podemos dizer, ele está aqui ou está em algum outro lugar. Ele está tanto fora como dentro; é tanto transcendente quanto imanente. Tudo está em ressonância com a mensagem da física quântica.

Circularidade, hierarquia entrelaçada e auto-referência

Uma das características mais interessantes da física quântica é a circularidade que existe no efeito do observador: não há colapso sem um observador, mas não há observador (manifestado) sem colapso. A circularidade é uma hierarquia entrelaçada de lógica que nos oferece a auto-referência, a cisão sujeito-objeto experimentada pelo observador. Incrível, mas Jesus já intuía isso, pois disse:

Se vos perguntarem:
“De onde vindes?”
respondei:
“Viemos da luz,
do lugar onde a luz nasceu dela mesma”.
(Tomé, p. 29)

A luz aqui se refere ao Espírito Santo, o self quântico na linguagem da física quântica. Viemos da luz, pois nossa individualidade é fruto do condicionamento. A luz se originou de si mesma, pela circularidade, pela hierarquia entrelaçada.

Jesus e o self quântico

Em páginas anteriores, eu disse que o estágio final da iluminação espiritual é atingido quando a pessoa se posiciona firmemente na consciência quântica, em Deus, sempre que está realizando um processamento inconsciente. Creio que Buda chegou a este estágio de iluminação, pois há muitas histórias sobre sua equanimidade.

Mas Jesus viveu por pouco tempo, e a maior parte do tempo em viveu está envolvida em mistérios e controvérsias. O relato que recebemos sugere que Jesus praticou ocasionalmente a meditação; mas os evangelhos estão repletos daquilo que Jesus disse e de histórias de milagres.

Essas histórias de milagres de Jesus são bastante reveladoras. Naturalmente, os milagres não são realizados no inconsciente e, por isso, não sugerem se Jesus estava firme na consciência quântica ou Deus. Mas os milagres sugerem que, nessas ocasiões, Jesus atuava a partir do self quântico, ou daquilo que no cristianismo é chamado Espírito Santo, ou simplesmente Espírito, escolhendo entre possibilidades situadas além de toda e qualquer limitação.

A ideia é que a criatividade comum – vital e mental – envolve as leis e os contextos codificados no domínio supramental da consciência. Milagres que violam leis físicas, como a conversão de água em vinho, sugerem uma criatividade no plano físico além das leis supramentais da física. Em outras palavras, a pessoa que está fazendo isso tem acesso inconsciente a possibilidades além do supramental, além da limitação das leis quânticas da física, no próprio corpo de êxtase, na consciência turiya.

Desta forma, não surpreende saber que Jesus às vezes falava a partir desse self quântico ou consciência do Espírito, criando muita confusão, como na célebre frase:

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.
Ninguém vai ao Pai senão por mim.
(João 14,6)

A Igreja cristã explorou essas palavras até a exaustão na perseguição a outras religiões e outros credos. Mas também é confuso para os orientais, quando comparam a frase de Jesus com afirmativas de sábios orientais como: “Aqueles que são iluminados não dizem, aqueles que dizem não são [iluminados]”. Uma pessoa, cuja auto-identidade superou o ego e chegou ao Espírito, não deveria ser humilde? Segundo todos os relatos, Jesus era um homem muito humilde quando estava em seu ego, agindo a partir do estado normal da consciência. As confusões nos dois grupos desaparecem se considerarmos que, quando Jesus faz esse tipo de declaração, Ele está falando do estado não comum e relativamente raro do self quântico. É o mesmo estado não comum a partir do qual realizava milagres que superavam as leis físicas.

E se você ainda tem dúvidas de que, às vezes, Jesus falava a partir do estado não comum do self quântico, entenda porque ele teria feito esta declaração: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (João 8,58). Ou algo como: “Assim vocês conhecerão, de uma vez por todas, que o Pai está presente em mim, e eu no Pai” (João 10,38). A pessoa precisa estar no estado da hierarquia entrelaçada do self quântico para perceber a circularidade que dá origem à condição humana.

Jesus e a criatividade

Os discípulos pediram a Jesus: “Diga-nos como é o reino do Céu”.
Ele lhes disse:
“Ele se assemelha a uma semente de mostarda,
a menor de todas as sementes.
Mas, quando cai em terra fértil,
produz uma grande planta
e torna-se um refúgio para as aves do céu”.
(Tomé, p.15)

O que isso significa para você? Por que Jesus enfatiza uma semente que é a menor de todas? É que um insight é um vislumbre do supramental, menor do que outras sementes, os pensamentos que habitualmente lotam nossa psique. Contudo, quando essa semente cai em terra fértil, torna-se uma grande árvore na qual as aves do céu se refugiam. No entanto, quando um insight chega para uma pessoa preparada (terra fértil), produz uma mente transformada (uma grande árvore) onde muitos dos arquétipos (aves do céu) podem ser representados (podem encontrar refúgio). Assim, Jesus conhecia os três estágios da criatividade interior, a preparação, o insight e a manifestação. Ele não mencionou o estágio do processamento inconsciente nessa frase, mas sim em outro lugar:

E Jesus continuou dizendo: “O reino de Deus
é como um homem que espalha a semente na terra.
Depois ele dorme e acorda,
noite e dia, e a semente vai
brotando e crescendo, mas o homem
não sabe como isso acontece”.
(Marcos 4,26-28)

A frase “ele não sabe como isso acontece”, mostra claramente que parte do processamento da criatividade interior, o desenvolvimento do reino do Céu em nosso interior, é inconsciente.

Jesus atingiu a perfeição, estimulando as pessoas a fazer o mesmo:

Portanto, sejam perfeitos
como é perfeito o Pai de vocês
que está no céu.
(Mateus 5,48)

E no que consiste a perfeição? Ela se situa no comando do supramental, por trás da mente – o reino das dualidades:

Jesus lhes disse:
“Quando fizerdes do dois um
e quando fizerdes o interior
como o exterior,
o exterior como o interior,
o acima como o embaixo
e quando fizerdes
do macho e da fêmea uma única coisa,
de forma que o macho não seja mais macho
nem a fêmea seja mais fêmea,
… então, entrareis (no reino)”.
(Tomé, p. 17)

Muitos autores hesitam em atribuir autenticidade ao Evangelho de Tomé. Se for esse o caso, podemos confiar na autenticidade dessas palavras? Vieram mesmo de Jesus? Na minha opinião, se essas palavras foram inseridas por outro autor no texto de Tomé, essa outra pessoa também teria de ser sábia. Deveríamos procurar por evidências históricas de sua presença. E, enquanto não encontrarmos essa pessoa, podemos muito bem atribuir essas palavras a Jesus.

Você percebe como as descobertas e conclusões da nova ciência estão sintonizadas com os ensinamentos de Jesus? Jesus disse, integre o interior e o exterior. Em geral, os místicos enfatizam o mundo interior e menosprezam o exterior. Mas não Jesus; ele sabia que Deus é ambos. Assim como o denso/exterior atrai o materialista, o sutil/interior pode parecer atraente para os conhecedores da consciência. Mas devemos resistir à tentação e fazer apenas um o exterior e o interior.

Do mesmo modo, precisamos integrar o que está acima com o que está embaixo, o transcendente e o imanente, a onda e a partícula, na linguagem quântica. Devemos evitar a tendência do religioso – abraçar o transcendente em preferência ao imanente. Do mesmo modo, devemos evitar a indulgência materialista de acatar apenas o imanente, negando o transcendente.

Por fim, o que Jesus quis dizer ao sugerir que integrássemos homem e mulher? Isso não parece ter nada a ver com a física quântica, não é? Mas penso que Jesus não está falando da integração de nossas tendências psicológicas masculinas e femininas, à maneira de Jung. Creio que ele está falando de masculino-yang e feminino-yin – no sentido da medicina chinesa, os modos criativo e condicionado com que processamos nossos corpos sutis. Os saltos quânticos criativos devem ser seguidos de manifestação. Depois é que devemos transformar – depois é que devemos entrar no reino do Céu.

Se Jesus foi transformado, por que foi tão implacável?

O filósofo Bertrand Russell escreveu:

Há, a meu ver, um defeito muito sério no caráter moral de Cristo, e isso por que Ele acreditava no inferno. Quanto a mim, não acho que qualquer pessoa que seja, na realidade, profundamente humana, possa acreditar no castigo eterno [...] Há, por certo, o texto familiar acerca do pecado contra o Espírito Santo: “Quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem neste mundo, nem no futuro” [...] Não me parece, realmente, que uma pessoa dotada de um grau adequado de bondade em sua natureza teria posto no mundo receios e terrores dessa espécie (citado em Mason, 1997, p. 186).

É uma expectativa razoável que uma pessoa transformada veria apenas o potencial de Deus em outro ser humano. Com efeito, o santo transformado Vivekananda, discípulo de Ramakrishna, disse o seguinte sobre seu guru: “Meu guru tem olhos maravilhosos, pois não consegue ver mais o mal em pessoa alguma, vê apenas o potencial divino”. Com efeito, está bem documentado o fato de Ramakrishna tratar prostitutas e brâmanes com o mesmo amor, causando muito desconforto entre estes últimos.

Mas, se Jesus era tão rancoroso, a ponto de condenar as pessoas ao inferno eterno, então por que não nos sentimos como Bertrand Russell e condescendemos Jesus? Como Russell, qualquer cristão moderno pode se sentir assim.

O autor Mark Mason (1997) tratou desse assunto com excelência e recomendo a leitura de seu livro. Mason demonstra que Jesus nunca usou a palavra “inferno” e que, tampouco, teve essa intenção. Primeiro, deve-se a erros de tradução do original grego, e também à manipulação da Igreja cristã medieval, o fato de a imagem de Jesus ter ficado manchada dessa maneira. Mason também argumenta que a palavra “perdoado”, com o significado de falar algo contra o Espírito Santo, também é um infeliz erro de tradução que não está de acordo com o contexto.

Quanto a ser implacável, se analisadas adequadamente, muitas histórias, como a parábola do bom samaritano (Lucas 10,29-37), sugerem o contrário (Mason, 1997). E quem não conhece o episódio em que ele protegeu uma mulher de ser apedrejada até a morte, dizendo: “Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra”.

Jesus foi um avatar?

Há mais uma coisa que um cristão moderno pode achar interessante analisar. Os hindus aceitam Jesus como um avatar, que é a palavra por eles utilizada para designar uma pessoa plenamente transformada. Acredita-se que os avatares encarnam na forma humana sempre que o movimento da consciência estagna (sempre que a evolução da consciência se imobiliza). Isso se enquadra com a situação de Jesus?

Na verdade, sim. Os hindus consideram avatares pessoas como Krishna, Buda, Shankara e Ramakrishna porque todos viveram em épocas nas quais a religião e a espiritualidade haviam perdido crédito na vida das pessoas, obscurecidas por forças que promoviam uma atitude não espiritual diante da vida. Esses avatares restauraram a espiritualidade às suas sociedades. De forma análoga, Jesus salvou o judaísmo de um intenso período de estagnação.

Outro paralelo é bem conhecido. Krishna diz, no Bhagavad Gita: “Sou a meta do sábio e sou o caminho”. De forma análoga, Jesus disse: “Sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.

E Jesus também disse:

Tenho também outras ovelhas que não são deste curral. Também devo conduzi-las; elas irão escutar a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.
(João 10,16)

Isso ressoa bem com a declaração de Krishna no Bhagavad Gita:

A cada era retorno
para mostrar o sagrado,
para destruir o pecado do pecador
para estabelecer a justiça.

Dessa forma, são notáveis os paralelos; assim, pergunto mais uma vez, Jesus era um avatar? O conceito de avatar é aceitável para a nova ciência de Deus e da espiritualidade que formamos aqui?

Em outro trabalho (Goswami, 2001) disse que as pessoas que estão completamente transformadas (e outra palavra para isso é “liberadas”) saem do ciclo nascimento-morte-renascimento. Podemos perguntar: o que acontece com suas mônadas quânticas quando morrem, com seus padrões de vida plenamente aperfeiçoados? De maneira científica, devemos admitir que a mônada quântica deve estar potencialmente disponível para uso futuro.

Uso futuro? Como?

Um uso seria invocar esta mônada quântica como um guia espiritual por meio de canalização, o que já é feito. Um hindu tem a opção de adotar Krishna ou Shankara como seu guia espiritual. De modo análogo, um budista tem Buda, um judeu tem Moisés, um muçulmano tem Maomé e um cristão tem Jesus.

Um segundo uso seria atender às necessidades da evolução da consciência. Sempre que a evolução estagna, a pressão evolucionária causa o renascimento da mônada quântica do avatar anterior. Foi por isso que Jesus disse: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”. Um avatar não acumula karma algum durante sua vida. Ele nasce com o condicionamento aperfeiçoado da mesma mônada quântica aperfeiçoada do avatar anterior.

Muito bem, chegamos lá. Se aquilo que apresentei aqui ajudá-lo a se orientar melhor, como cristão, para a nova ciência integrativa, então considere as palavras de Jesus: “[...] haverá um só rebanho e um só pastor”. Sem dúvida, Jesus anteviu algum tipo de integração de todas as religiões. Será a nova ciência o foco para um diálogo unificador entre todas as religiões do mundo? Cabe a você fazer isso acontecer.
Analise a ideia do tecido básico da realidade. Os materialistas dizem que, em sua base, a realidade se reduz aos tijolos chamados partículas elementares, quarks e elétrons, por exemplo. A causação é uma causação ascendente, a partir dessa base.

Entretanto, a física quântica diz outra coisa. Na física quântica, não há objetos materiais manifestados independentes dos sujeitos – os observadores. Na física quântica, os objetos permanecem como potenciais, ondas de possibilidade, até serem manifestados pelo ato da observação. Objetos quânticos são ondas de possibilidade, mas possibilidades de quê? São possibilidades da consciência. A consciência, e não a matéria, é a base da existência, na qual a matéria existe como possibilidade. Pelo ato da mensuração ou observação quântica, a consciência converte a possibilidade em realidade (ou causa o colapso de ondas em partículas ou coisas) e, ao mesmo tempo, divide-se em um sujeito que vê e em objeto(s) visto(s).

O que Jesus tem a dizer sobre o tecido da realidade? Ele é bem inequívoco, embora um pouco sarcástico com relação aos que apoiam a supremacia material (todas as citações do Evangelho segundo Tomé referem-se ao número da página em Guillaumont et al., 1959):

Seria uma maravilha
se a carne tivesse surgido
por causa do espírito.
Mas seria a maior das maravilhas
se o espírito tivesse surgido
por causa do corpo.
(Tomé, p. 21)

Jesus diz, como um eco com a física quântica, que a carne surgiu por causa do espírito e não o contrário.

Também me agrada muito o fato de Jesus ter dito: “O Espírito é que dá a vida, a carne não serve para nada” (João 3,6; 6,63). Aqui não há apoio para as teorias materialistas da origem da vida, inclusive para a teoria da autopoiese emergente do holista. Mas a frase de Jesus ressoa plenamente com a ideia quântica de que a vida se origina da mensuração quântica em hierarquia entrelaçada, feita pela consciência. Dessa forma, sendo místico, Jesus subestima a carne, a matéria. Agora, na nova ciência, podemos explicitar o papel de contribuição da matéria: tornar possível a manifestação e fazer representações do sutil.
Não localidade e transcendência

O cristianismo popular postula que Deus e o Espírito são separados de nós; e é esse dualismo que faz com que a maioria dos cientistas considere o cristianismo não científico. Se Deus é algo realmente separado de nós, como podemos receber sua orientação e amor? Como a carne, a substância material, pode interagir com o divino não material?

A física quântica possui uma posição diferente. Deus não é separado de nós; Deus vive em nós, em nosso inconsciente. A consciência é a base de tudo, o que nos inclui. Isto repercute muito bem com a frase de Jesus: “O Pai e eu somos um”. E, se você interpretar esta frase considerando que Jesus está falando apenas de si mesmo, que apenas ele é “filho do Pai” e, portanto, idêntico a Ele, os evangelhos dizem outra coisa. Jesus diz, em todo momento, aos seus ouvintes, que todos são filhos de Deus; basta perceber isso:

Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos,
então, sereis conhecidos
e compreendereis que
sois filhos do Pai vivo.
(Tomé, p. 3)

A física quântica também ensina: “Você e eu somos um”. A consciência ou Deus causa o colapso de ondas de possibilidade similares em nossos cérebros quando estamos “correlacionados”, dando a cada um de nós a oportunidade de constatar essa ideia de unidade. Esta ideia tem sido comprovada até em laboratório. Se a consciência pode causar o colapso simultâneo de ondas de possibilidade no seu cérebro e no meu, quando estamos correlacionados, devemos estar vinculados por meio da consciência, que é não local e uma unidade para nós dois, e, por inferência, uma unidade para todos nós.

O conceito de não localidade é sutil e também implica que você e eu estamos vinculados sem quaisquer sinais pelo espaço e pelo tempo. Contudo, também somos manifestações da mesma consciência; é a consciência que é imanente em nós.

Qual a opinião de Jesus sobre esses assuntos? Vamos estudar a conhecida declaração de Jesus: “O reino de Deus está em toda parte, mas as pessoas não o vêem”. Assim, sem dúvida, Jesus conhecia e pregava sobre o Deus imanente no mundo. Mas seria esta uma visão de mundo animista? Não vamos nos apressar. Eis outra frase famosa de Jesus:

Os fariseus perguntaram a Jesus
sobre o momento em que chegaria
o reino de Deus. Jesus respondeu:
“O reino de Deus não surge ostensivamente.
Nem se pode dizer:
‘Está aqui’ ou ‘está ali’,
porque o reino de Deus
está no meio de vocês”.
(Lucas 17,20-21)

Mais uma vez, diz Jesus:
Pois bem, o reino está dentro de vós,
e também está em vosso exterior.
(Tomé, p. 3)

O reino não pode ser localizado; não podemos dizer, ele está aqui ou está em algum outro lugar. Ele está tanto fora como dentro; é tanto transcendente quanto imanente. Tudo está em ressonância com a mensagem da física quântica.
Circularidade, hierarquia entrelaçada e auto-referência

Uma das características mais interessantes da física quântica é a circularidade que existe no efeito do observador: não há colapso sem um observador, mas não há observador (manifestado) sem colapso. A circularidade é uma hierarquia entrelaçada de lógica que nos oferece a auto-referência, a cisão sujeito-objeto experimentada pelo observador. Incrível, mas Jesus já intuía isso, pois disse:

Se vos perguntarem:
“De onde vindes?”
respondei:
“Viemos da luz,
do lugar onde a luz nasceu dela mesma”.
(Tomé, p. 29)

A luz aqui se refere ao Espírito Santo, o self quântico na linguagem da física quântica. Viemos da luz, pois nossa individualidade é fruto do condicionamento. A luz se originou de si mesma, pela circularidade, pela hierarquia entrelaçada.
Jesus e o self quântico

Em páginas anteriores, eu disse que o estágio final da iluminação espiritual é atingido quando a pessoa se posiciona firmemente na consciência quântica, em Deus, sempre que está realizando um processamento inconsciente. Creio que Buda chegou a este estágio de iluminação, pois há muitas histórias sobre sua equanimidade.

Mas Jesus viveu por pouco tempo, e a maior parte do tempo em viveu está envolvida em mistérios e controvérsias. O relato que recebemos sugere que Jesus praticou ocasionalmente a meditação; mas os evangelhos estão repletos daquilo que Jesus disse e de histórias de milagres.

Essas histórias de milagres de Jesus são bastante reveladoras. Naturalmente, os milagres não são realizados no inconsciente e, por isso, não sugerem se Jesus estava firme na consciência quântica ou Deus. Mas os milagres sugerem que, nessas ocasiões, Jesus atuava a partir do self quântico, ou daquilo que no cristianismo é chamado Espírito Santo, ou simplesmente Espírito, escolhendo entre possibilidades situadas além de toda e qualquer limitação.

A ideia é que a criatividade comum – vital e mental – envolve as leis e os contextos codificados no domínio supramental da consciência. Milagres que violam leis físicas, como a conversão de água em vinho, sugerem uma criatividade no plano físico além das leis supramentais da física. Em outras palavras, a pessoa que está fazendo isso tem acesso inconsciente a possibilidades além do supramental, além da limitação das leis quânticas da física, no próprio corpo de êxtase, na consciência turiya.

Desta forma, não surpreende saber que Jesus às vezes falava a partir desse self quântico ou consciência do Espírito, criando muita confusão, como na célebre frase:

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.
Ninguém vai ao Pai senão por mim.
(João 14,6)

A Igreja cristã explorou essas palavras até a exaustão na perseguição a outras religiões e outros credos. Mas também é confuso para os orientais, quando comparam a frase de Jesus com afirmativas de sábios orientais como: “Aqueles que são iluminados não dizem, aqueles que dizem não são [iluminados]”. Uma pessoa, cuja auto-identidade superou o ego e chegou ao Espírito, não deveria ser humilde? Segundo todos os relatos, Jesus era um homem muito humilde quando estava em seu ego, agindo a partir do estado normal da consciência. As confusões nos dois grupos desaparecem se considerarmos que, quando Jesus faz esse tipo de declaração, Ele está falando do estado não comum e relativamente raro do self quântico. É o mesmo estado não comum a partir do qual realizava milagres que superavam as leis físicas.

E se você ainda tem dúvidas de que, às vezes, Jesus falava a partir do estado não comum do self quântico, entenda porque ele teria feito esta declaração: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (João 8,58). Ou algo como: “Assim vocês conhecerão, de uma vez por todas, que o Pai está presente em mim, e eu no Pai” (João 10,38). A pessoa precisa estar no estado da hierarquia entrelaçada do self quântico para perceber a circularidade que dá origem à condição humana.
Jesus e a criatividade

Os discípulos pediram a Jesus: “Diga-nos como é o reino do Céu”.
Ele lhes disse:
“Ele se assemelha a uma semente de mostarda,
a menor de todas as sementes.
Mas, quando cai em terra fértil,
produz uma grande planta
e torna-se um refúgio para as aves do céu”.
(Tomé, p.15)

O que isso significa para você? Por que Jesus enfatiza uma semente que é a menor de todas? É que um insight é um vislumbre do supramental, menor do que outras sementes, os pensamentos que habitualmente lotam nossa psique. Contudo, quando essa semente cai em terra fértil, torna-se uma grande árvore na qual as aves do céu se refugiam. No entanto, quando um insight chega para uma pessoa preparada (terra fértil), produz uma mente transformada (uma grande árvore) onde muitos dos arquétipos (aves do céu) podem ser representados (podem encontrar refúgio). Assim, Jesus conhecia os três estágios da criatividade interior, a preparação, o insight e a manifestação. Ele não mencionou o estágio do processamento inconsciente nessa frase, mas sim em outro lugar:

E Jesus continuou dizendo: “O reino de Deus
é como um homem que espalha a semente na terra.
Depois ele dorme e acorda,
noite e dia, e a semente vai
brotando e crescendo, mas o homem
não sabe como isso acontece”.
(Marcos 4,26-28)

A frase “ele não sabe como isso acontece”, mostra claramente que parte do processamento da criatividade interior, o desenvolvimento do reino do Céu em nosso interior, é inconsciente.

Jesus atingiu a perfeição, estimulando as pessoas a fazer o mesmo:

Portanto, sejam perfeitos
como é perfeito o Pai de vocês
que está no céu.
(Mateus 5,48)
“Quando fizerdes do dois um
e quando fizerdes o interior
como o exterior,
o exterior como o interior,
o acima como o embaixo
e quando fizerdes
do macho e da fêmea uma única coisa,
de forma que o macho não seja mais macho
nem a fêmea seja mais fêmea,
… então, entrareis (no reino)”.
 
E no que consiste a perfeição? Ela se situa no comando do supramental, por trás da mente – o reino das dualidades:

Jesus lhes disse:
“Quando fizerdes do dois um
e quando fizerdes o interior
como o exterior,
o exterior como o interior,
o acima como o embaixo
e quando fizerdes
do macho e da fêmea uma única coisa,
de forma que o macho não seja mais macho
nem a fêmea seja mais fêmea,
… então, entrareis (no reino)”.
(Tomé, p. 17)

Muitos autores hesitam em atribuir autenticidade ao Evangelho de Tomé. Se for esse o caso, podemos confiar na autenticidade dessas palavras? Vieram mesmo de Jesus? Na minha opinião, se essas palavras foram inseridas por outro autor no texto de Tomé, essa outra pessoa também teria de ser sábia. Deveríamos procurar por evidências históricas de sua presença. E, enquanto não encontrarmos essa pessoa, podemos muito bem atribuir essas palavras a Jesus.

Você percebe como as descobertas e conclusões da nova ciência estão sintonizadas com os ensinamentos de Jesus? Jesus disse, integre o interior e o exterior. Em geral, os místicos enfatizam o mundo interior e menosprezam o exterior. Mas não Jesus; ele sabia que Deus é ambos. Assim como o denso/exterior atrai o materialista, o sutil/interior pode parecer atraente para os conhecedores da consciência. Mas devemos resistir à tentação e fazer apenas um o exterior e o interior.

Do mesmo modo, precisamos integrar o que está acima com o que está embaixo, o transcendente e o imanente, a onda e a partícula, na linguagem quântica. Devemos evitar a tendência do religioso – abraçar o transcendente em preferência ao imanente. Do mesmo modo, devemos evitar a indulgência materialista de acatar apenas o imanente, negando o transcendente.

Por fim, o que Jesus quis dizer ao sugerir que integrássemos homem e mulher? Isso não parece ter nada a ver com a física quântica, não é? Mas penso que Jesus não está falando da integração de nossas tendências psicológicas masculinas e femininas, à maneira de Jung. Creio que ele está falando de masculino-yang e feminino-yin – no sentido da medicina chinesa, os modos criativo e condicionado com que processamos nossos corpos sutis. Os saltos quânticos criativos devem ser seguidos de manifestação. Depois é que devemos transformar – depois é que devemos entrar no reino do Céu.
Se Jesus foi transformado, por que foi tão implacável?

O filósofo Bertrand Russell escreveu:

Há, a meu ver, um defeito muito sério no caráter moral de Cristo, e isso por que Ele acreditava no inferno. Quanto a mim, não acho que qualquer pessoa que seja, na realidade, profundamente humana, possa acreditar no castigo eterno [...] Há, por certo, o texto familiar acerca do pecado contra o Espírito Santo: “Quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem neste mundo, nem no futuro” [...] Não me parece, realmente, que uma pessoa dotada de um grau adequado de bondade em sua natureza teria posto no mundo receios e terrores dessa espécie (citado em Mason, 1997, p. 186).

É uma expectativa razoável que uma pessoa transformada veria apenas o potencial de Deus em outro ser humano. Com efeito, o santo transformado Vivekananda, discípulo de Ramakrishna, disse o seguinte sobre seu guru: “Meu guru tem olhos maravilhosos, pois não consegue ver mais o mal em pessoa alguma, vê apenas o potencial divino”. Com efeito, está bem documentado o fato de Ramakrishna tratar prostitutas e brâmanes com o mesmo amor, causando muito desconforto entre estes últimos.

Mas, se Jesus era tão rancoroso, a ponto de condenar as pessoas ao inferno eterno, então por que não nos sentimos como Bertrand Russell e condescendemos Jesus? Como Russell, qualquer cristão moderno pode se sentir assim.

O autor Mark Mason (1997) tratou desse assunto com excelência e recomendo a leitura de seu livro. Mason demonstra que Jesus nunca usou a palavra “inferno” e que, tampouco, teve essa intenção. Primeiro, deve-se a erros de tradução do original grego, e também à manipulação da Igreja cristã medieval, o fato de a imagem de Jesus ter ficado manchada dessa maneira. Mason também argumenta que a palavra “perdoado”, com o significado de falar algo contra o Espírito Santo, também é um infeliz erro de tradução que não está de acordo com o contexto.

Quanto a ser implacável, se analisadas adequadamente, muitas histórias, como a parábola do bom samaritano (Lucas 10,29-37), sugerem o contrário (Mason, 1997). E quem não conhece o episódio em que ele protegeu uma mulher de ser apedrejada até a morte, dizendo: “Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra”.
Jesus foi um avatar?

Há mais uma coisa que um cristão moderno pode achar interessante analisar. Os hindus aceitam Jesus como um avatar, que é a palavra por eles utilizada para designar uma pessoa plenamente transformada. Acredita-se que os avatares encarnam na forma humana sempre que o movimento da consciência estagna (sempre que a evolução da consciência se imobiliza). Isso se enquadra com a situação de Jesus?

Na verdade, sim. Os hindus consideram avatares pessoas como Krishna, Buda, Shankara e Ramakrishna porque todos viveram em épocas nas quais a religião e a espiritualidade haviam perdido crédito na vida das pessoas, obscurecidas por forças que promoviam uma atitude não espiritual diante da vida. Esses avatares restauraram a espiritualidade às suas sociedades. De forma análoga, Jesus salvou o judaísmo de um intenso período de estagnação.

Outro paralelo é bem conhecido. Krishna diz, no Bhagavad Gita: “Sou a meta do sábio e sou o caminho”. De forma análoga, Jesus disse: “Sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.

E Jesus também disse:
Tenho também outras ovelhas que não são deste curral. Também devo conduzi-las; elas irão escutar a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.
(João 10,16)

Isso ressoa bem com a declaração de Krishna no Bhagavad Gita:

A cada era retorno
para mostrar o sagrado,
para destruir o pecado do pecador
para estabelecer a justiça.

Dessa forma, são notáveis os paralelos; assim, pergunto mais uma vez, Jesus era um avatar? O conceito de avatar é aceitável para a nova ciência de Deus e da espiritualidade que formamos aqui?

Em outro trabalho (Goswami, 2001) disse que as pessoas que estão completamente transformadas (e outra palavra para isso é “liberadas”) saem do ciclo nascimento-morte-renascimento. Podemos perguntar: o que acontece com suas mônadas quânticas quando morrem, com seus padrões de vida plenamente aperfeiçoados? De maneira científica, devemos admitir que a mônada quântica deve estar potencialmente disponível para uso futuro.

Uso futuro? Como?

Um uso seria invocar esta mônada quântica como um guia espiritual por meio de canalização, o que já é feito. Um hindu tem a opção de adotar Krishna ou Shankara como seu guia espiritual. De modo análogo, um budista tem Buda, um judeu tem Moisés, um muçulmano tem Maomé e um cristão tem Jesus.

Um segundo uso seria atender às necessidades da evolução da consciência. Sempre que a evolução estagna, a pressão evolucionária causa o renascimento da mônada quântica do avatar anterior. Foi por isso que Jesus disse: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”. Um avatar não acumula karma algum durante sua vida. Ele nasce com o condicionamento aperfeiçoado da mesma mônada quântica aperfeiçoada do avatar anterior.

Muito bem, chegamos lá. Se aquilo que apresentei aqui ajudá-lo a se orientar melhor, como cristão, para a nova ciência integrativa, então considere as palavras de Jesus: “[...] haverá um só rebanho e um só pastor”. Sem dúvida, Jesus anteviu algum tipo de integração de todas as religiões. Será a nova ciência o foco para um diálogo unificador entre todas as religiões do mundo? Cabe a você fazer isso acontecer.

(Amit Goswami - Deus não está morto,evidências científicas da existência divina)

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publicado às 19:27

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O pH do CORPO HUMANO é rigidamente controlado. Basta um desvio, para cima ou para baixo, da ordem de 0,5 em relação ao pH normal de 7,4, e você… morre.
O estado de equilíbrio ácido-base do corpo é modulado por uma sintonia fina e mantido com rigidez maior do que aquela com que o Banco Central regula a taxa de juros. Graves infecções bacterianas, por exemplo, podem ser fatais porque a infecção gera subprodutos ácidos que excedem a capacidade do corpo de neutralização da carga ácida. Do mesmo modo, as doenças renais levam a complicações de saúde porque comprometem a capacidade dos rins de livrar o corpo de subprodutos ácidos.
No dia a dia, o pH do corpo é mantido em 7,4 pelo elaborado sistema de controle em funcionamento. Alguns subprodutos do metabolismo, como o ácido lático, são ácidos, e fazem cair o pH, deflagrando no corpo uma resposta do tipo pânico para reequilibrá-lo. Em sua reação, o corpo recorre a qualquer reserva alcalina disponível, desde o bicarbonato presente na corrente sanguínea até os sais alcalinos de cálcio, como o carbonato de cálcio e o fosfato de cálcio presentes nos ossos. Como é tão crucial manter um pH normal, o corpo sacrificará a saúde dos ossos para manter o pH estável. No grande sistema de triagem que é seu corpo, seus ossos vão virar mingau antes que o sistema permita que seu pH se afaste do valor correto. Quando um feliz equilíbrio alcalino for atingido, seus ossos vão gostar, suas articulações vão gostar.
Embora ambos os extremos de pH sejam perigosos, o corpo se sente melhor com uma leve tendência para o alcalino. Ela é sutil e não se reflete no pH do sangue, mas pode ser evidenciada por alguns métodos, como os que medem a presença de produtos ácidos e alcalinos na urina.
Ácidos que agridem o pH do corpo também podem chegar a ele com a dieta. Há fontes dietéticas de ácido que são óbvias, como os refrigerantes gaseificados que contêm ácido carbônico. Alguns refrigerantes, como as colas, também contêm ácido fosfórico. As enormes cargas de ácido dos refrigerantes gaseificados sobrecarregam a capacidade de seu corpo de neutralizar a acidez até que ela atinja o nível ideal. A constante retirada de cálcio dos ossos, por exemplo, está associada a um número cinco vezes maior de fraturas em alunas do ensino médio que mais consomem colas gaseificadas1.
Entretanto, certos alimentos podem ser fontes não tão óbvias de ácidos, nesse ambiente de pH estritamente controlado. Não importa qual seja a fonte, o corpo precisa neutralizar a alteração da acidez. A composição da dieta pode determinar se o efeito final é de ataque ácido ou alcalino.
As proteínas de produtos animais devem ser a principal fonte de ataque ácido na dieta humana. Carnes como frango, carne de porco e sanduíches de rosbife são, portanto, uma importante fonte de ácido na dieta norte-americana comum. Os ácidos produzidos pelas carnes, como o ácido úrico e o ácido sulfúrico (o mesmo que se encontra na bateria de seu carro e na chuva ácida), precisam ser neutralizados pelo corpo. O produto fermentado das glândulas mamárias bovinas (o queijo!) é outro grupo de alimentos altamente ácidos, especialmente os queijos de baixo teor de gorduras e ricos em proteínas. Resumindo, qualquer alimento derivado de fontes animais, seja ele fresco, fermentado, malpassado, bem passado, com ou sem aquele molho especial, gera um ataque ácido2.
Contudo, os produtos de origem animal podem não ser tão prejudiciais ao equilíbrio do pH como parece de início. Pesquisas recentes sugerem que carnes ricas em proteínas têm outros efeitos, que anulam parcialmente a sobrecarga ácida. A proteína animal exerce um efeito de fortalecimento dos ossos, por meio da estimulação do fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-1) [sigla em inglês, insulin-like growth factor], hormônio que aciona o crescimento e a mineralização dos ossos (“semelhante à insulina” refere-se à semelhança na estrutura, não no efeito). A ingestão de proteínas de origem animal, apesar de suas propriedades de geração de ácidos, promove a saúde dos ossos. Crianças, adolescentes e idosos que aumentam a ingestão de proteínas da carne apresentam um aumento do teor de cálcio nos ossos e melhoram seus resultados de densitometria óssea3.
Por outro lado, as frutas, legumes e verduras são os alimentos alcalinos dominantes na dieta. Praticamente tudo o que estiver na seção desses alimentos levará seu pH no sentido alcalino. Da couve crespa à couve-rábano, um generoso consumo de verduras e frutas é útil na neutralização da sobrecarga ácida proveniente dos produtos de origem animal.
 
QUEBRA-OSSOS
A dieta dos caçadores-coletores, composta de carnes, legumes, verduras e frutas, bem como castanhas, sementes e raízes relativamente neutras, geram um efeito final alcalino4. É claro que, com seu empenho, o caçador-coletor não buscava regular o pH do corpo, mas sim evitar as flechas de um conquistador invasor ou as lesões incontroláveis da gangrena. Por isso talvez o equilíbrio ácido-base não desempenhasse um papel importante na saúde e na longevidade dos povos primitivos, que raramente ultrapassavam os 35 anos de idade. Mesmo assim, os hábitos nutricionais de nossos antepassados prepararam o terreno bioquímico para a adaptação do homem moderno à dieta.
Cerca de 10 mil anos atrás, com a introdução dos grãos na dieta, especialmente do mais predominante deles, o trigo, o equilíbrio anteriormente alcalino da dieta humana mudou para ácido. A dieta humana moderna, com abundância de “grãos integrais saudáveis”, mas carente de legumes, verduras e frutas, é altamente sobrecarregada de ácidos, provocando um transtorno chamado acidose. Ao longo dos anos, a acidose vai causando danos a seus ossos.
Como o Banco Central, os ossos, desde o crânio até o cóccix, funcionam como um depósito, não de dinheiro, mas de sais de cálcio. O cálcio, idêntico ao encontrado em rochas e nas conchas de moluscos, mantém os ossos rígidos e fortes. Os sais de cálcio nos ossos estão em equilíbrio dinâmico com o sangue e os tecidos; e constituem uma fonte rápida de material alcalinizante para compensar algum ataque ácido. Contudo, como o dinheiro, a reserva não é infinita.
Embora passemos mais ou menos nossos primeiros 18 anos construindo e fazendo crescer o tecido ósseo, passamos o resto de nossa vida destruindo-o, um processo regulado pelo pH do corpo. A leve acidose metabólica crônica decorrente de nossa dieta tem início na adolescência, agrava-se à medida que envelhecemos e persiste durante nossa oitava década5, 6. O pH ácido retira dos ossos o carbonato de cálcio e o fosfato de cálcio para que o pH do corpo se mantenha em 7,4. O meio ácido também estimula células de reabsorção no interior dos ossos, conhecidas como osteoclastos, a trabalhar cada vez mais depressa para dissolver o tecido ósseo e liberar o precioso cálcio na corrente sanguínea.
O problema surge quando você ingere habitualmente ácidos na dieta e, então, recorre às reservas de cálcio repetidas vezes para neutralizar esses ácidos. Embora os ossos tenham uma grande quantidade de reservas de cálcio, elas não são inesgotáveis. Os ossos acabam por se desmineralizar – isto é, suas reservas de cálcio vão se esgotando. É aí que surgem a osteopenia (desmineralização leve), a osteoporose (desmineralização grave), fraqueza e fraturas7. (A fraqueza e a osteoporose costumam andar de mãos dadas, já que existe uma sintonia entre a densidade óssea e a massa muscular.) Por sinal, tomar suplementos de cálcio é tão eficaz para prevenir a perda óssea quanto seria eficaz, para construir um novo pátio, jogar aleatoriamente sacos de cimento e tijolos no seu quintal.
Uma dieta excessivamente acidificada acabará por se manifestar em fraturas de ossos. Uma análise impressionante da incidência mundial de fraturas de quadril deixou evidente uma ligação espantosa: quanto maior a proporção entre a ingestão proteica de origem vegetal em relação à ingestão proteica de origem animal, menor a ocorrência de fraturas de quadril8. A magnitude da diferença era substancial. Enquanto uma proporção de ingestão de proteína vegetal em relação à de proteína animal de 1:1 ou inferior foi associada a até duzentas fraturas do quadril por 100 mil habitantes, uma proporção de ingestão de proteína vegetal em relação à de proteína animal entre 2:1 e 5:1 foi associada a menos de 10 fraturas do quadril por 100 mil habitantes – uma redução de mais de 95%. (Nos níveis mais altos de ingestão de proteína vegetal, a incidência de fratura do quadril praticamente desapareceu.)
As fraturas que resultam de osteoporose não são exatamente o tipo de fratura causada por uma queda na escada. Elas podem também ser fraturas vertebrais causadas por um simples espirro; uma fratura do quadril por causa de um erro de cálculo da altura do meio-fio; uma fratura do antebraço ao manejar um rolo de pastel.
Os modelos alimentares modernos criam, portanto, uma acidose crônica, que por sua vez leva à osteoporose, fragilidade óssea e fraturas. Aos 50 anos de idade, 53,2% das mulheres podem contar com uma fratura no futuro, da mesma forma que 20,7% dos homens9. Compare esse dado com o risco de 10% de uma mulher de 50 anos vir a contrair câncer de mama; ou com o risco de 2,6% de ela contrair câncer do endométrio10.
Até recentemente, acreditava-se que a osteoporose fosse, em grande parte, um transtorno característico de mulheres na pós-menopausa, que perderam os efeitos protetores dos ossos proporcionados pelo estrogênio. Agora, entende-se que o declínio na densidade óssea começa anos antes da menopausa. No Canadian Multicentre Osteoporosis Study [Estudo Multicêntrico Canadense sobre Osteoporose], que contou com 9.400 participantes, as mulheres começaram a apresentar um declínio na densidade óssea no quadril, nas vértebras e no fêmur aos 25 anos, com um forte declínio que resultou em perda acelerada aos 40 anos. Os homens apresentaram um declínio menos acentuado a partir dos 40 anos11. Tanto homens como mulheres apresentaram outra fase de perda óssea acelerada aos 70 anos ou mais. Aos 80 anos, 97% das mulheres têm osteoporose12.
Portanto, nem mesmo a juventude garante uma proteção contra a perda óssea. Na realidade, com o passar do tempo a perda da resistência óssea é a regra, principalmente em decorrência da leve acidose crônica que criamos com a nossa dieta.
 
O QUE HÁ EM COMUM ENTRE A CHUVA ÁCIDA, AS BATERIAS DE AUTOMÓVEIS E O TRIGO?
Ao contrário de todos os outros alimentos de origem vegetal, os cereais geram subprodutos ácidos, e são os únicos vegetais a fazer isso. Como o trigo é, de longe, o cereal predominante na dieta da maioria dos norte-americanos, ele contribui em termos substanciais para a sobrecarga ácida de uma dieta que inclui carnes.
O trigo está entre as fontes mais poderosas de ácido sulfúrico, produzindo mais ácido sulfúrico por peso do que qualquer carne13. (O trigo é suplantado apenas pela aveia, em quantidade de ácido sulfúrico produzido.) O ácido sulfúrico é perigoso. Deixe-o tocar sua pele e ele causará uma queimadura grave. Se ele atingir seus olhos, você poderá ficar cego. (Vá dar uma olhada nos avisos dispostos em destaque na bateria de seu carro.) O ácido sulfúrico presente na chuva ácida causa erosão em monumentos de pedra, mata árvores e outras plantas e perturba o comportamento reprodutivo de animais aquáticos. O ácido sulfúrico produzido pelo consumo de trigo é, sem dúvida, pouco concentrado. Contudo, mesmo em concentrações muito reduzidas ele é um ácido avassaladoramente poderoso, que supera rapidamente os efeitos neutralizadores de bases alcalinas.
Cereais como o trigo são responsáveis por 38% da carga ácida do norte-americano médio, mais que o suficiente para provocar um desequilíbrio na acidez. Mesmo numa dieta limitada a 35% de calorias de origem animal, acrescentar o trigo altera a acidez final da dieta, que passa de alcalina para acentuadamente ácida14.
Uma forma de aferir a extração de cálcio dos ossos induzida pela acidez consiste em medir a perda de cálcio pela urina. Um estudo da Universidade de Toronto examinou o efeito do aumento do consumo de glúten do pão no nível de cálcio eliminado com a urina. Um maior consumo do glúten aumentava a perda de cálcio numa incrível proporção de 63%, associada ao aumento dos marcadores de reabsorção óssea – isto é, marcadores presentes no sangue que indicam o enfraquecimento dos ossos, o que leva a doenças ósseas, como a osteoporose15.
Então, o que acontece quando você consome uma quantidade substancial de carne e derivados mas não compensa a carga ácida com uma quantidade de produtos vegetais alcalinos como o espinafre, o repolho e os pimentões? Disso resulta uma situação de sobrecarga ácida. O que acontece se os ácidos do consumo de carne não são contrabalançados por vegetais alcalinos e o equilíbrio do pH desloca-se ainda mais para o lado ácido, em decorrência do consumo de cereais, como o trigo? É nessa hora que a coisa fica feia. A dieta passa rapidamente para a condição de elevado teor de ácidos.
Resultado: uma carga ácida crônica que corrói a saúde dos ossos.
 
TRIGO, UM TOPETE POSTIÇO E UM CONVERSÍVEL
Lembra-se de Ötzi? Ötzi era o homem de gelo do Tirol cujo corpo mumificado foi descoberto nas geleiras dos Alpes italianos, preservado desde a morte havia mais de 5 mil anos, por volta de 3300 a.C. Embora resíduos de pão ázimo, feito com trigo einkorn, tivessem sido encontrados no trato gastrointestinal de Ötzi, grande parte do bolo alimentar era de carnes e plantas. A vida e a morte de Ötzi aconteceram 4.700 anos depois de os seres humanos terem começado a incorporar cereais a sua dieta, como o einkorn, tolerante ao frio. Mas na cultura de montanheses de Ötzi, o trigo continuava a ser uma porção relativamente pequena da dieta. Ötzi era basicamente caçador-coletor a maior parte do ano. Na realidade, é provável que ele estivesse caçando, com seu arco e flecha, quando encontrou seu fim violento pelas mãos de outro caçador-coletor.
A abundância de carnes da dieta de humanos caçadores-coletores, como Ötzi, fornecia uma carga substancial de ácido. O maior consumo de carnes por Ötzi em comparação com a maioria dos humanos modernos (de 35 a 55% de calorias provenientes de produtos animais) gerava, portanto, mais ácido sulfúrico e outros ácidos orgânicos.
Apesar do consumo relativamente alto de produtos animais, a abundância de vegetais que não eram cereais na dieta dos caçadores-coletores gerava grandes quantidades de sais de potássio alcalinizantes, como o citrato de potássio e o acetato de potássio, que compensavam a sobrecarga ácida. Estima-se que a alcalinidade das dietas primitivas tenha sido de seis a nove vezes maior que a das dietas modernas, em razão da alta proporção de vegetais16. Disso resultava um pH alcalino da urina, que alcançava a faixa de 7,5 a 9, em comparação com a típica faixa ácida dos tempos modernos, de 4,4 a 717.
Entretanto, o trigo e outros grãos entraram em cena e mudaram o equilíbrio para ácido, acompanhado da perda de cálcio dos ossos. O consumo relativamente modesto de trigo einkorn por Ötzi indica que provavelmente sua dieta era alcalina a maior parte do ano. Em comparação, na fartura de nosso mundo moderno, com estoques ilimitados de alimentos baratos que contêm trigo, presentes em todos os cantos e em todas as mesas, a carga ácida inclina a balança acentuadamente para o lado correspondente à acidez.
Se o trigo e outros cereais são responsáveis por deslocar o pH no sentido da acidez, o que acontece se apenas eliminarmos o trigo da dieta moderna, substituindo as calorias perdidas por outros alimentos vegetais, como verduras, legumes, frutas, feijões e outras leguminosas e castanhas? A balança volta a se inclinar para a faixa do alcalino, simulando o que o caçador-coletor experimentava em relação ao pH18.
O trigo é, portanto, o grande perturbador. Ele é a namorada escandalosa do homem em crise da meia-idade, destruidora de uma família feliz. O trigo altera a dieta, que passa de uma que esperava produzir resultado alcalino para outra que produz resultado ácido, e acaba provocando uma constante extração de cálcio dos ossos.
A solução convencional para a dieta ácida dos “grãos integrais saudáveis” e seus efeitos promotores da osteoporose é a prescrição de medicamentos como o alendronato de sódio e o ibandronato de sódio, que pretendem reduzir o risco de fraturas decorrentes de osteoporose, especialmente as do quadril. O mercado de medicamentos para a osteoporose já ultrapassou os 10 bilhões de dólares por ano, o que é muito dinheiro, mesmo para os cofres abarrotados da indústria farmacêutica.
Mais uma vez o trigo entra em cena com seus peculiares efeitos de danos à saúde, abraçado pelo Departamento de Agricultura e fornecendo novas e generosas oportunidades de faturamento aos gigantes da indústria farmacêutica.
 
QUADRIS DE TRIGO PARA ACOMPANHAR SUA BARRIGA DE TRIGO
Você já notou que as pessoas que têm barriga de trigo quase sempre têm também artrite em uma articulação ou em mais de uma? Se não percebeu, observe com que frequência alguém que carrega o característico barrigão também manca ou se encolhe de dor no quadril, no joelho ou nas costas.
A osteoartrite é a manifestação mais frequente da artrite no mundo, mais frequente que a artrite reumatoide, a gota ou qualquer outra variedade do problema. A dolorosa perda de cartilagem entre um osso e outro resultou em artroplastias de joelho e de quadril em 773 mil norte-americanos apenas em 201019.
Não se trata de um probleminha qualquer. Mais de 46 milhões de pessoas, ou um em cada sete norte-americanos, receberam de seus médicos o diagnóstico de osteoartrite20. Muitos outros andam manquitolando por aí, sem um diagnóstico formal.
Durante anos, o senso comum foi o de que a artrite comum dos quadris e joelhos era o mero resultado do desgaste natural, como um excesso de quilometragem nos pneus de seu carro. Uma mulher de 50 quilos: joelhos e quadris com probabilidade de durar a vida inteira. Uma mulher de 100 quilos: joelhos e quadris são sacrificados e se desgastam. O excesso de peso em qualquer parte do corpo – nádegas, barriga, tórax, pernas, braços – representa um esforço mecânico que pode danificar as articulações.
A questão, porém, é mais complexa do que parece. A mesma inflamação que tem origem na gordura visceral da barriga de trigo e resulta em diabetes, doença cardíaca e câncer também gera inflamação nas articulações. Já se mostrou que mediadores hormonais inflamatórios como o fator de necrose tumoral alfa, as interleucinas e a leptina inflamam e desgastam o tecido das articulações21. A leptina, em particular, revelou efeitos destrutivos diretos sobre as articulações: quanto maior o grau de sobrepeso (isto é, IMC mais alto), maior a quantidade de leptina no líquido sinovial e maior a gravidade das lesões nas cartilagens e nas articulações22. O nível de leptina nas articulações espelha com exatidão o nível dessa substância encontrado no sangue.
O risco da artrite é, portanto, ainda maior para alguém que tenha gordura visceral do tipo barriga de trigo, como fica evidente pela probabilidade três vezes maior de artroplastia de joelho e quadril em pessoas que tenham uma circunferência maior na altura da cintura23. Também se explica por que articulações que não sofrem com o excesso de peso, como as das mãos e dos dedos, também desenvolvem artrite.
Perder peso, e com ele a gordura visceral, alivia a artrite mais do que se poderia esperar da simples redução da carga representada pelo excesso de peso24. Num estudo realizado com participantes obesos com osteoartrite, houve 10% de melhora nos sintomas e na função das articulações a cada 1% de redução da gordura corporal25.
A preponderância da artrite, as imagens comuns de pessoas massageando as mãos e joelhos doloridos, leva-nos a acreditar que a artrite é uma consequência forçosa do envelhecimento, tão inevitável quanto a morte, os impostos e as hemorroidas. Não é verdade. As articulações têm, de fato, potencial para nos servir pelas oito ou mais décadas de nossa vida… a menos que as destrocemos com agressões repetidas, como a acidez excessiva e as moléculas inflamatórias – por exemplo, a leptina – produzidas pelas células da gordura visceral.
Outro fenômeno que se soma aos ataques induzidos pelo trigo às articulações ao longo dos anos: a glicação. Você deve se lembrar que os produtos de trigo, mais que praticamente todos os outros alimentos, aumentam o nível de açúcar, isto é, de glicose, no sangue. Quanto mais produtos de trigo você consumir, mais sobem, e com maior frequência, as taxas de glicose no seu sangue, e mais glicação ocorre. A glicação representa uma modificação irreversível das proteínas na corrente sanguínea e nos tecidos do corpo, incluídas as articulações, como as dos joelhos, quadris e mãos.
A cartilagem nas articulações é particularmente suscetível à glicação, pois as células das cartilagens têm uma vida muito longa e não se reproduzem. Uma vez lesionadas, não se recuperam. Exatamente as mesmas células cartilaginosas que estão em seu joelho aos 25 anos de idade estarão aí (esperamos) quando você estiver com 80 anos. Logo, essas células são suscetíveis a todos os altos e baixos bioquímicos de sua vida, entre eles suas aventuras com a glicose no sangue. Se as proteínas das cartilagens, como o colágeno e o agrecan, se tornarem glicadas, elas ficarão anormalmente rígidas. Os danos da glicação são cumulativos, tornando a cartilagem quebradiça e inflexível, até ela acabar por se esfarelar26. Resultado: inflamação, dor e destruição das articulações, características principais da artrite.
Portanto, os altos níveis de açúcar no sangue que estimulam o crescimento de uma barriga de trigo, associados à atividade inflamatória das células da gordura visceral e à glicação da cartilagem, levam à destruição dos ossos e do tecido cartilaginoso nas articulações. Ao longo dos anos, isso resulta nos conhecidos sintomas de dor e inchaço nos quadris, joelhos e mãos.
Essa baguete pode parecer inocente, mas ela faz muito mais mal às articulações do que você imagina.
 
Homem anda depois da eliminação do trigo

Jason é um programador de computadores de 26 anos de idade, inteligente e rapidíssimo para captar ideias. Ele veio a meu consultório com sua jovem mulher porque queria ajuda para, simplesmente, ficar “saudável”.

Quando me disse que, ainda bebê, tinha sido submetido a uma complexa cirurgia para reparar um defeito congênito no coração, eu o interrompi de imediato.

– Espere aí, Jason. Acho que você está no consultório errado. Essa não é minha especialidade.

– É, eu sei. Só preciso de sua ajuda para melhorar minha saúde. Estão me dizendo que talvez eu precise fazer um transplante do coração. Estou sempre sem fôlego, e já precisei ser internado para tratar de insuficiência cardíaca. Gostaria de saber se há alguma coisa que se possa fazer para evitar o transplante ou, se eu realmente precisar fazê-lo, gostaria que me ajudasse a ter uma saúde melhor depois.

Achei que isso era razoável e fiz um gesto para Jason ir até a mesa de exames.

– Certo, entendi. Deixe-me auscultá-lo.

Jason levantou-se da cadeira devagar, encolhendo-se visivelmente, e foi se aproximando da mesa em câmara lenta, nitidamente sentindo dor.

– Qual é o problema? – perguntei. Jason sentou-se na mesa de exames e deu um suspiro.

– Dói tudo. Todas as minhas articulações doem. Mal consigo andar. Às vezes, mal consigo sair da cama.

– Você já consultou um reumatologista? – perguntei.

– Já. Três. Nenhum deles conseguiu descobrir o que havia de errado comigo, por isso eles só prescreveram anti-inflamatórios e analgésicos.

– Você já pensou em modificar sua dieta? – perguntei-lhe. – Já vi muita gente conseguir alívio com a simples eliminação do trigo da dieta.

– Trigo? Quer dizer, pão e macarrão? – perguntou Jason, confuso.

– É, trigo: pão branco, pão integral, pão multigrãos, bagels, bolinhos, pretzels, bolachas, cereais matinais, macarrão, panquecas e waffles. Apesar de parecer que isso é a maior parte do que você come, pode confiar em mim, ainda sobra muita coisa para você comer. – Entreguei-lhe um folheto com detalhes de como orientar sua dieta sem o trigo.

– Faça uma experiência. Elimine todo o trigo por apenas quatro semanas. Se você se sentir melhor, já terá sua resposta. Se não sentir nada de diferente, talvez essa não seja a solução para seu caso.

Jason voltou a meu consultório três meses depois. O que me surpreendeu foi o fato de ele entrar na sala com agilidade, sem nenhum sinal de dor nas articulações.

A melhora experimentada por ele tinha sido profunda e quase imediata.

– Depois de cinco dias, eu não conseguia acreditar. Não sentia absolutamente nenhuma dor. Não acreditei que fosse verdade. Tinha de ser uma coincidência. Então comi um sanduíche. Em cinco minutos, quase 80% da dor tinha voltado. Agora, aprendi a lição.

Além disso, outro fato que me impressionou foi que, quando o examinei pela primeira vez, Jason na realidade apresentava uma leve insuficiência cardíaca. Nessa segunda visita ele já não mostrava o menor sinal de insuficiência cardíaca. Com o alívio das dores articulares, ele me disse, também sua respiração melhorara a ponto de ele conseguir correr distâncias curtas e até mesmo jogar uma partida de basquete de baixa intensidade, coisas que não fazia havia anos. Agora, começamos a reduzir gradativamente as medicações que ele estava tomando para a insuficiência cardíaca.

É óbvio que sou um grande defensor de uma vida sem trigo. Mas, quando se assiste a experiências de reviravolta na vida como a de Jason, ainda fico arrepiado de saber que existia uma solução tão simples para problemas de saúde que tinham deixado um homem jovem praticamente inválido.
 
AS DOBRAS DA BARRIGA ESTÃO RELACIONADAS À ARTICULAÇÃO DO QUADRIL
Como aconteceu no caso da perda de peso e do sistema nervoso central, os portadores de doença celíaca podem nos ensinar algumas coisas acerca dos efeitos do trigo sobre os ossos e as articulações.
A osteopenia e a osteoporose são comuns em pessoas que têm doença celíaca e podem estar presentes ainda que não haja sintomas intestinais, afetando até 70% dos portadores de anticorpos celíacos27, 28. Pelo fato de a osteoporose ser tão comum entre os pacientes celíacos, alguns pesquisadores defendem a ideia de que qualquer pessoa com osteoporose deveria se submeter a exames para verificar a presença da doença celíaca. Um estudo da Clínica de Ortopedia da Universidade de Washington encontrou a doença celíaca não diagnosticada em 3,4% dos participantes com osteoporose, em comparação com 0,2% daqueles que não tinham osteoporose29. A eliminação do glúten da dieta de participantes celíacos que tinham osteoporose produziu uma rápida melhora nos valores da densidade óssea – sem o uso de medicamentos para osteoporose.
As razões para a baixa densidade óssea incluem a absorção deficiente de nutrientes, em especial da vitamina D e do cálcio, além do aumento da inflamação que aciona a liberação de citocinas, como as interleucinas, que atuam na desmineralização dos ossos30. A eliminação do trigo da dieta, portanto, não só reduziu a inflamação, como também permitiu uma melhor absorção de nutrientes.
A gravidade das consequências do enfraquecimento dos ossos é realçada por histórias de horror como a da mulher que sofreu dez fraturas da coluna e das extremidades ao longo de 21 anos, a partir dos 57 anos de idade, todas de ocorrência espontânea. Quando ela se tornou inválida em consequência das fraturas, finalmente foi diagnosticada como celíaca31. Em comparação com pessoas que não têm a doença celíaca, os pacientes celíacos têm um risco três vezes maior de sofrer fraturas32.
A questão espinhosa de indivíduos sem sintomas intestinais que apresentam resultados positivos nos exames para anticorpos antigliadina aplica-se também à osteoporose. Num estudo, 12% das pessoas que tinham osteoporose apresentaram resultado positivo nos testes de detecção do anticorpo antigliadina, embora não tivessem nenhum sintoma ou sinal da doença celíaca, ou seja, intolerância ao trigo ou doença celíaca “silenciosa”33.
O trigo pode manifestar-se em transtornos inflamatórios dos ossos, além da osteoporose e das fraturas. Portadores de artrite reumatoide, uma artrite dolorosa e incapacitante que pode deformar as articulações das mãos e dos joelhos, quadris, cotovelos e ombros, podem apresentar sensibilidade ao trigo associada a essa condição. Em um estudo em que pacientes que sofriam de artrite reumatoide, nenhum deles celíaco, submeteram-se a uma dieta vegetariana, sem glúten, foram observados sinais de melhora da artrite em 40% deles, bem como níveis reduzidos de anticorpos antigliadina34. Talvez seja exagero sugerir que o glúten do trigo foi a causa inicial, o estimulador da artrite, mas ele pode, sim, exercer efeitos inflamatórios exacerbados nas articulações tornadas suscetíveis por outras doenças, como a artrite reumatoide.
Segundo minha experiência, a artrite não acompanhada por anticorpos da doença celíaca costuma responder bem à eliminação do trigo da dieta. Algumas das mais impressionantes reviravoltas que já presenciei em saúde dizem respeito à obtenção de alívio de dores articulares incapacitantes. Como os exames convencionais para detecção de anticorpos para doença celíaca deixam de identificar a maioria dessas pessoas, é difícil quantificar e comprovar esse fato, indo além da melhora que as pessoas alegam sentir. Mas isso pode ser uma pista para fenômenos que se mostram mais promissores para o alívio da artrite.
Será que o risco fora do comum para a osteoporose e as doenças inflamatórias das articulações em pacientes celíacos corresponde a uma exacerbação da situação em consumidores de trigo não celíacos e que não apresentam anticorpos ao glúten? Minha suspeita é de que sim, qualquer ser humano que consuma trigo sofre seus efeitos diretos e indiretos de destruição de ossos e articulações, efeitos que apenas se expressam com mais vigor nos celíacos e nos que apresentam resultados positivos para anticorpos ao glúten.
E se, em vez de uma artroplastia total de quadril ou joelho, aos 62 anos de idade, você optasse por substituir totalmente o trigo de sua dieta?
Os efeitos de maior abrangência da perturbação do equilíbrio ácido-base sobre a saúde estão apenas começando a ser avaliados. Qualquer um que tenha assistido a aulas de química elementar entende que o pH é um fator poderoso na determinação de como reações químicas se desenvolverão. Uma pequena mudança no pH pode ter uma influência profunda no equilíbrio de uma reação. O mesmo vale para o corpo humano.
“Grãos integrais saudáveis”, como o trigo, são a causa de grande parte da natureza altamente ácida da dieta moderna. Além da saúde dos ossos, experiências recentes sugerem que uma dieta que privilegie alimentos alcalinos tem o potencial de reduzir o desgaste muscular relacionado à idade, os cálculos renais, a hipertensão sensível ao sal, a infertilidade e doenças renais.
Remova o trigo e experimente uma redução da inflamação nas articulações, uma menor ocorrência de “picos” de glicose no sangue, que provocam a glicação das cartilagens, e desloque o equilíbrio do pH para alcalino. Sem dúvida é melhor que tomar rofecoxib.
 
(WILLIAM DAVIS - BARRIGA DE TRIGO, LIVRE-SE DO TRIGO, LIVRE-SE DOS QUILOS A MAIS E DESCUBRA SEU CAMINHO DE VOLTA PARA A SAÚDE)  
NOTAS:
  1.  Wyshak, G. “Teenaged Girls, Carbonated Beverage Consumption, and Bone Fractures”. Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine, jun. 2000; 154(6):610-3.
  2.  Remer, T., Manz, F. “Potential Renal Acid Load of Foods and its Influence on Urine pH”. Journal of the American Dietetic Association, 1995; 95:791-7.
  3.  Alexy, U.; Remer, T.; Manz, F. et al. “Long-Term Protein Intake and Dietary Potential Renal Acid Load Are Associated with Bone Modeling and Remodeling at the Proximal Radius in Healthy Children”. American Journal of Clinical Nutrition, nov. 2005; 82(5):1107-14.
  4.  Sebastian, A.; Frassetto, L. A.; Sellmeyer, D. E. et al. “Estimation of the Net Acid Load of the Diet of Ancestral Preagricultural Homo sapiens and their Hominid Ancestors”. American Journal of Clinical Nutrition, 2002; 76:1308-16.
  5.  Kurtz, I.; Maher, T.; Hulter, H. N. et al. “Effect of Diet on Plasma Acid-Base Composition in Normal Humans”. Kidney International, 1983; 24:670-80.
  6.  Frassetto, L.; Morris, R. C.; Sellmeyer, D. E. et al. “Diet, Evolution and Aging”. European Journal of Nutrition, 2001; 40:200-13.
  7.  Ibid.
  8.  Frassetto, L. A.; Todd, K. M.; Morris Jr., R. C.; Sebastian, A. “Worldwide Incidence of Hip Fracture in Elderly Women: Relation to Consumption of Animal and Vegetable Foods”. Journals of Gerontology Series A: Biological Sciences and Medical Sciences, 2000; 55:M585-92.
  9.  Van Staa, T. P.; Dennison, E. M.; Leufkens, H. G. et al. “Epidemiology of Fractures in England and Wales”. Bone, 2001; 29:517-22.
10.  Grady, D.; Rubin, S. M.; Petitti, D. B. et al. “Hormone Therapy to Prevent Disease and Prolong Life in Postmenopausal Women”. Annals of Internal Medicine, 1992; 117:1016-37.
11.  Dennison, E.; Mohamed, M. A.; Cooper, C. “Epidemiology of Osteoporosis”. Rheumatic Disease Clinics of North America, 2006; 32:617-29.
12.  Berger, C.; Langsetmo, L.; Joseph, L. et al. “Change in Bone Mineral Density as a Function of Age in Women and Men and Association with the Use of Antiresorptive Agents”. Canadian Medical Association Journal, 2008; 178:1660-8.
13.  Massey, L. K. “Dietary Animal and Plant Protein and Human Bone Health: a Whole Foods Approach”. Journal of Nutrition, 133:862S-5S.
14.  Sebastian et al. American Journal of Clinical Nutrition, 2002; 76:1308-16.
15.  Jenkins, D. J.; Kendall, C. W.; Vidgen, E. et al. “Effect of High Vegetable Protein Diets on Urinary Calcium Loss in Middle-Aged Men and Women”. European Journal of Clinical Nutrition, fev. 2003; 57(2):376-82.
16.  Sebastian et al. American Journal of Clinical Nutrition, 2002; 76:1308-16.
17.  Denton, D. The Hunger for Salt. Nova York: Springer-Verlag, 1962.
18.  Sebastian et al. American Journal of Clinical Nutrition, 2002; 76:1308-16.
19.  American Association of Orthopedic Surgeons. “Facts on Hip Replacements”, em http://www.aaos.org/research/stats/Hip_Facts.pdf.
20.  Sacks, J. J.; Luo, Y. H.; Helmick, C. G. “Prevalence of Specific Types of Arthritis and other Rheumatic Conditions in the Ambulatory Health Care System in the United States, 2001-2005”. Arthritis Care and Research, abr. 2010; 62(4):460-4.
21.  Katz, J. D.; Agrawal, S.; Velasquez, M. “Getting to the Heart of the Matter: Osteoarthritis Takes its Place as Part of the Metabolic Syndrome”. Current Opinion in Rheumatology, 28 jun. 2010. (Publicação eletrônica anterior à impressa).
22.  Dumond, H.; Presle, N.; Terlain, B. et al. “Evidence for a Key Role of Leptin in Osteoarthritis”. Arthritis & Rheumatism, nov. 2003; 48(11):3118-29.
23.  Wang, Y.; Simpson, J. A.; Wluka, A. E. et al. “Relationship between Body Adiposity Measures and Risk of Primary Knee and Hip Replacement for Osteoarthritis: a Prospective Cohort Study”. Arthritis Research & Therapy, 2009; 11:R31.
24.  Toda, Y.; Toda, T.; Takemura, S. et al. “Change in Body Fat, but not Body Weight or Metabolic Correlates of Obesity, is Related to Symptomatic Relief of Obese Patients with Knee Osteoarthritis After a Weight Control Program”. Journal of Rheumatology, nov. 1998; 25(11):2181-6.
25.  Christensen, R.; Astrup, A.; Bliddal, H. et al. “Weight Loss: the Treatment of Choice for Knee Osteoarthritis? A Randomized Trial.” Osteoarthritis and Cartilage, jan. 2005; 13(1):20-7.
26.  Anderson, A. S.; Loeser, R. F. “Why is Osteoarthritis an Age-Related Disease?” Best Practice & Research: Clinical Rheumatology, 2010; 24:15-26.
27.  Meyer, D.; Stavropolous, S.; Diamond, B. et al. “Osteoporosis in a North American Adult Population with Celiac Disease”. American Journal of Gastroenterology, 2001; 96:112-9.
28.  Mazure, R.; Vazquez, H.; Gonzalez, D. et al. “Bone Mineral Affection in Asymptomatic Adult Patients with Celiac Disease”. American Journal of Gastroenterology, dez. 1994; 89(12):2130-4.
29.  Stenson, W. F.; Newberry, R.; Lorenz, R. et al. “Increased Prevalence of Celiac Disease and Need for Routine Screening among Patients with Osteoporosis”. Archives of Internal Medicine, 28 fev. 2005; 165(4):393-9.
30.  Bianchi, M. L.; Bardella, M. T. “Bone in Celiac Disease”. Osteoporosis International, 2008; 19:1705-16.
31.  Fritzsch, J.; Hennicke, G.; Tannapfel, A. “Ten Fractures in 21 Years”. Unfallchirurg, nov. 2005; 108(11):994-7.
32.  Vasquez, H.; Mazure, R.; Gonzalez, D. et al. “Risk of Fractures in Celiac Disease Patients: a Cross-Sectional, Case Control Study”. American Journal of Gastroenterology, jan. 2000; 95(1):183-9.
33.  Lindh, E.; Ljunghall, S.; Larsson, K.; Lavö, B. “Screening for Antibodies Against Gliadin in Patients with Osteoporosis”. Journal of Internal Medicine, 1992; 231:403-6.
34.  Hafström, I.; Ringertz, B.; Spångberg, A. et al. “A Vegan Diet Free of Gluten Improves the Signs and Symptoms of Rheumatoid Arthritis: the Effects on Arthritis Correlate with a Reduction in Antibodies to Food Antigens.” Rheumatology, 2001; 1175-9

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publicado às 13:20

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TUDO BEM. QUER DIZER QUE O TRIGO ATRAPALHA seu intestino, estimula excessivamente seu apetite e faz de você o alvo de piadas por causa da barriga de cerveja. Mas será que ele é assim tão nocivo?
Os efeitos do trigo chegam ao cérebro na forma de peptídeos opioides. Mas essas exorfinas polipeptídicas responsáveis por aqueles efeitos entram no cérebro e saem dele, dissipando-se com o tempo. As exorfinas fazem com que seu cérebro lhe passe instruções para comer mais, aumentar o consumo de calorias e raspar, em desespero, as bolachas velhas no fundo do pacote, quando não houver mais nada à mão.
No entanto, todos esses efeitos são reversíveis. Pare de comer trigo e os sintomas desaparecem, o cérebro se recupera e você se sente novamente disposto a ajudar seu filho adolescente a encarar equações de segundo grau.
Mas os efeitos do trigo sobre o sistema nervoso não param por aí. Entre os mais perturbadores efeitos do trigo estão os que ele exerce sobre o próprio tecido cerebral – não “simplesmente” sobre pensamentos e comportamento, mas sobre o próprio cérebro, sobre o cerebelo e sobre outras estruturas do sistema nervoso, com consequências que vão desde a falta de coordenação até a incontinência, de convulsões a demência. E, ao contrário dos fenômenos de dependência, esses efeitos não são totalmente reversíveis.
 
CUIDADO ONDE PISA: O TRIGO E A SAÚDE DO CEREBELO
Imagine que eu coloque uma venda sobre os seus olhos e o solte num quarto desconhecido, cheio de ângulos e cantos estranhos, com objetos dispostos de modo aleatório para você tropeçar. Com alguns passos, é provável que você se descubra batendo de cara na sapateira. Dificuldades desse tipo são enfrentadas por portadores de um transtorno conhecido como ataxia cerebelar. Só que essas pessoas enfrentam problemas como esse estando de olhos abertos.
São aquelas pessoas que você costuma ver usando bengalas e andadores, ou tropeçando numa rachadura na calçada, o que resulta na fratura de uma perna ou do quadril. Alguma coisa prejudicou a capacidade delas de se orientar no mundo, fazendo com que perdessem o controle sobre o equilíbrio e a coordenação, funções centralizadas numa região do sistema nervoso central denominada cerebelo.
A maioria das pessoas que sofrem de ataxia cerebelar consulta um neurologista, e muitas vezes seu transtorno é diagnosticado como idiopático, isto é, uma moléstia espontânea sem causa conhecida. Nenhum tratamento é prescrito, nem foi desenvolvido nenhum tratamento. O neurologista simplesmente sugere um andador, recomenda que sejam removidos potenciais riscos para tropeços em casa e examina a possibilidade de uso de fraldas para adultos devido à incontinência urinária, que acabará por se desenvolver. A ataxia cerebelar é progressiva, agravando-se a cada ano que passa, até o paciente tornar-se incapaz de pentear o cabelo, escovar os dentes ou ir ao banheiro sozinho. Finalmente, mesmo as atividades mais básicas de cuidados pessoais precisarão ser realizadas por outra pessoa. A essa altura, o paciente está próximo da morte, pois uma debilitação tão extrema acelera complicações como a pneumonia e escaras infectadas.
Entre 10 e 22,5% dos celíacos têm envolvimento do sistema nervoso1, 2. De todas as formas de ataxia já diagnosticadas, 20% apresentam anticorpos para o glúten. Entre pessoas com ataxia inexplicada – ou seja, em que nenhuma outra causa possa ser identificada – 50% têm anticorpos para o glúten no sangue3.
O problema: a maioria das pessoas que sofre de ataxia deflagrada pelo glúten do trigo não apresenta sinais nem sintomas de doença intestinal, nenhuma advertência do tipo celíaco que indique a ocorrência de sensibilidade ao trigo.
A resposta imunológica destrutiva responsável pela diarreia e pelas cólicas abdominais da doença celíaca também pode ser direcionada contra o tecido cerebral. Embora desde 1966 já se suspeitasse que a relação entre o glúten e o cérebro estava por trás do comprometimento neurológico, acreditava-se que ele fosse decorrente das deficiências nutricionais que acompanham a doença celíaca4. Mais recentemente, tornou-se claro que o envolvimento do cérebro e de outras partes do sistema nervoso resulta de um ataque imunológico direto às células nervosas. Os anticorpos antigliadina deflagrados pelo glúten podem unir-se às células nervosas conhecidas como células de Purkinje, exclusivas do cerebelo5. O tecido nervoso, nesse caso as células de Purkinje, não tem a capacidade de se regenerar. Uma vez lesionadas, as células de Purkinje cerebelares estão destruídas… para sempre.
Além da falta de equilíbrio e de coordenação, na ataxia cerebelar induzida pelo trigo podem se manifestar fenômenos tão estranhos como, no linguajar hermético da neurologia, o nistagmo (movimento lateral involuntário do globo ocular), a mioclonia (contrações musculares involuntárias) e a coreia (movimentos involuntários caóticos e rápidos dos membros). Um estudo de 104 pessoas com ataxia cerebelar também revelou dificuldades com a memória e com a capacidade verbal, sugerindo que a destruição induzida pelo trigo também pode atingir o tecido cerebral, isto é, o tecido nervoso que constitui o cérebro, sede do raciocínio e da memória6.
A faixa de idade típica para a manifestação de sintomas de ataxia cerebelar induzida pelo trigo é entre os 48 e os 53 anos. Em exames de ressonância magnética do cérebro, 60% dos afetados revelam atrofia do cerebelo, refletindo a destruição irreversível de células de Purkinje7.
Quando da eliminação do glúten do trigo, ocorre somente uma recuperação limitada das funções neurológicas, em razão da baixa capacidade de regeneração do tecido nervoso. A maioria das pessoas simplesmente deixa de piorar assim que cessa o fluxo de glúten8.
O primeiro obstáculo no diagnóstico da ataxia provocada pela exposição ao trigo consiste em encontrar um médico que chegue a levar em conta a possibilidade desse diagnóstico. Esse pode ser o pior dos obstáculos, já que grande parte da comunidade médica continua a abraçar a ideia de que o trigo faz bem à saúde. Uma vez que ele seja levado em consideração, porém, o diagnóstico é um pouco mais difícil que o simples diagnóstico da doença celíaca intestinal, especialmente porque alguns anticorpos (a forma IgA, em particular) não estão envolvidos na doença do sistema nervoso induzida pelo trigo. Some-se a isso um pequeno problema: a maioria das pessoas faz séria objeção a uma biópsia de cérebro; além disso, será necessário um neurologista bem informado para fazer o diagnóstico. O diagnóstico pode se apoiar em uma combinação de fatores, como a suspeita do problema e a presença de marcadores positivos de HLA DQ, além da observação de melhora ou estabilização quando da eliminação do trigo e do glúten da dieta9.
A dolorosa realidade da ataxia cerebelar é que, na grande maioria dos casos, você só sabe que está com o problema quando começa a tropeçar sozinho, a colidir com paredes ou a molhar as calças. Uma vez que o transtorno se manifeste, é provável que seu cerebelo já esteja encolhido e danificado. Interromper totalmente a ingestão de trigo e glúten a essa altura talvez apenas consiga mantê-lo fora da casa de repouso.
Tudo isso se deve aos bolinhos e bagels pelos quais você é louco.
 
DA CABEÇA AOS PÉS: O TRIGO E A NEUROPATIA PERIFÉRICA
Enquanto a ataxia cerebelar se deve às reações imunológicas deflagradas pelo trigo no cerebelo, um transtorno paralelo ocorre nos nervos das pernas, da pelve e de outros órgãos. Chama-se neuropatia periférica.
Uma causa comum da neuropatia periférica é o diabetes. A repetição, ao longo de anos, das elevadas taxas de glicose no sangue provoca lesões nos nervos das pernas, o que causa a redução da sensibilidade (permitindo assim que um diabético pise numa tachinha sem perceber), a diminuição do controle sobre a pressão sanguínea e os batimentos cardíacos, bem como a lentidão no esvaziamento do estômago (gastroparesia diabética), entre outras manifestações de um sistema nervoso desorientado.
Um grau semelhante de caos no sistema nervoso ocorre com a exposição ao trigo. A média de idade da manifestação da neuropatia periférica induzida pelo trigo é 55 anos. Como ocorre no caso da ataxia cerebelar, a maioria dos pacientes não apresenta sintomas intestinais que sugiram a doença celíaca10.
Diferentemente das células de Purkinje, que são incapazes de se regenerar, os nervos periféricos possuem certa capacidade de regeneração, ainda que limitada, uma vez que sejam removidos da dieta o trigo e o glúten; nesse caso, a maioria das pessoas tem pelo menos uma reversão parcial da neuropatia. Num estudo com 35 pacientes afetados por neuropatia periférica e sensíveis ao glúten, com resultados positivos para o anticorpo antigliadina, os 25 participantes que adotaram uma dieta sem trigo e sem glúten melhoraram ao longo de um ano, enquanto os dez participantes do grupo de controle, que não retiraram o trigo e o glúten da dieta, tiveram sua situação agravada11. Foram realizados também estudos sistemáticos da condução nervosa, que revelaram melhora da condução nervosa no grupo de pacientes que deixou de consumir trigo e glúten, bem como deterioração dessa função no grupo que continuou a consumi-los.
Como o sistema nervoso humano é uma teia complexa de células e redes nervosas, a neuropatia periférica deflagrada pela exposição ao glúten do trigo pode se manifestar numa variedade de formas, conforme os grupos de nervos afetados. A perda de sensibilidade nas duas pernas, associada ao baixo controle sobre os músculos desses membros, denominada neuropatia periférica axonal sensitivo-motora, é a forma mais comum do transtorno. Com menor frequência, pode ser afetado apenas um lado do corpo (neuropatia assimétrica); ou pode ser afetado o sistema nervoso autônomo, a parte do sistema nervoso responsável por funções automáticas, como a pressão sanguínea, a pulsação cardíaca e o controle do intestino e da bexiga12. Se o sistema nervoso autônomo for afetado, podem resultar fenômenos como a perda de consciência e a sensação de tontura quando se está em pé, decorrentes do controle falho da pressão sanguínea, a incapacidade de esvaziar a bexiga ou o intestino e uma pulsação cardíaca inadequadamente rápida.
A neuropatia periférica, não importa como se manifeste, é progressiva e irá se agravar cada vez mais, a menos que sejam totalmente removidos da dieta o trigo e o glúten.
 
Livre-se do trigo sem esforço
Quando conheci Meredith, ela soluçava. Tinha vindo me consultar em razão de uma questão cardíaca sem importância (uma variação no eletrocardiograma que se revelou benigna).
– Dói tudo. Principalmente meus pés – disse-me ela. – Já me receitaram todos os tipos de medicação. E eu detesto esses remédios, porque tive uma porção de efeitos colaterais. O que comecei a tomar há apenas dois meses me deixa com tanta fome que não consigo parar de comer. Já engordei 7 quilos!
Meredith descreveu o que estava acontecendo em seu trabalho como professora: ela mal conseguia ficar em pé diante da turma por causa da dor nos pés. Mais recentemente, também tinha começado a duvidar de sua capacidade para andar, já que estava começando um pouco de falta de equilíbrio e coordenação. O simples ato de se vestir de manhã estava tomando cada vez mais tempo por causa da dor, assim como o fato de ela estar cada vez mais desajeitada, o que atrapalhava atividades banais como vestir uma calça. Embora estivesse com somente 56 anos, ela era forçada a usar uma bengala.
Perguntei-lhe se seu neurologista tinha alguma explicação para suas incapacidades.
– Nenhuma. Todos eles dizem que não há justificativa para isso. E que a única coisa que posso fazer é me adaptar. Eles podem me dar medicamentos para a dor, mas é provável que a situação piore. – Foi nesse momento que ela se descontrolou e desatou a chorar de novo.
Só de olhar para Meredith, suspeitei que houvesse algum problema com o trigo. Além da dificuldade evidente que ela teve para entrar no consultório, seu rosto estava inchado e vermelho. Ela descreveu sua luta com o refluxo gastroesofágico, as cólicas e a distensão abdominal, diagnosticadas como síndrome do intestino irritável. Estava com quase 30 quilos de excesso de peso e apresentava um volume discreto de edema (retenção de água) nas panturrilhas e tornozelos.
Por isso sugeri a Meredith que enveredasse pelo caminho sem trigo. Àquela altura, ela estava tão desesperada por qualquer conselho positivo que concordou em tentar. Também assumi o risco de marcar para ela um teste de esforço, que exigiria que ela andasse em ritmo moderado numa esteira com elevação.
Meredith voltou duas semanas depois. Perguntei-lhe se achava que conseguiria fazer o teste de esforço.
– Tranquilamente! Parei com todo o trigo de imediato, assim que saí da consulta. Levou uma semana, mas a dor começou a diminuir. Neste instante, estou com mais ou menos 10% da dor que eu sentia duas semanas atrás. Eu diria que ela quase sumiu. Já parei com um dos remédios para dor e acho que vou parar o outro ainda nesta semana. – Também estava claro que ela já não precisava da bengala.
Ela relatou que o refluxo gastroesofágico e os sintomas do intestino irritável também tinham desaparecido totalmente. E que ela havia perdido 4 quilos no período de duas semanas.
Meredith encarou a esteira sem dificuldade, conseguindo chegar, sem esforço, a 6 quilômetros por hora com uma elevação de 14%.
 
CÉREBRO DE GRÃOS INTEGRAIS
Acho que todos nós estamos de acordo a este respeito: as funções cerebrais “superiores”, como o pensamento, o aprendizado e a memória, deveriam ficar fora do alcance de intrusos. Nossa mente é profundamente pessoal, representando a soma de tudo o que é cada um e suas experiências. Quem vai querer que vizinhos enxeridos ou vendedores agressivos ganhem acesso ao domínio privado da mente? Embora seja fascinante pensar na noção de telepatia, é também realmente assustador imaginar que alguém possa ler nossos pensamentos.
Para o trigo, nada é sagrado. Nem seu cerebelo, nem seu córtex cerebral. Apesar de não conseguir ler seus pensamentos, ele sem dúvida consegue influir no que acontece em sua mente.
O efeito do trigo sobre o sistema nervoso vai além de uma simples influência sobre o humor, a energia e o sono. É possível ocorrer lesão real ao tecido nervoso, como vimos na ataxia cerebelar. Entretanto, o córtex cerebral, o centro da memória e do raciocínio, onde estão armazenados quem você é, sua personalidade e suas lembranças, a “massa cinzenta” do cérebro, também pode ser atraído para a batalha imunológica contra o trigo, resultando em encefalopatia, ou doença do cérebro.
A encefalopatia por glúten manifesta-se na forma de enxaquecas e sintomas semelhantes aos de derrames cerebrais, como a perda de controle sobre um braço ou uma perna, a dificuldade para falar ou dificuldades visuais13, 14. No exame de ressonância magnética do cérebro, aparecem evidências características de lesões no tecido cerebral em torno de vasos sanguíneos. A encefalopatia por glúten também provoca muitos dos sintomas relacionados ao equilíbrio e à coordenação que ocorrem na ataxia cerebelar.
Num estudo particularmente perturbador da Clínica Mayo com 13 pacientes recém-diagnosticados com doença celíaca, também foi diagnosticada demência. Dessas 13 pessoas, nem a biópsia do lobo frontal (isso mesmo, biópsia do cérebro) nem o exame necroscópico do tecido nervoso identificaram alguma outra patologia além da que está associada à exposição ao glúten do trigo15. Antes da morte ou da biópsia, os sintomas mais comuns eram perda de memória, incapacidade para fazer cálculos aritméticos simples, confusão e alteração da personalidade. Dos 13 pacientes, 9 morreram em decorrência de comprometimento progressivo da função cerebral. Isso mesmo: demência fatal decorrente do consumo de trigo.
Em que proporção a deterioração da mente e da memória desses pacientes pode ser atribuída ao trigo? Essa pergunta ainda não foi respondida a contento. No entanto, um grupo de pesquisa britânico dedicado à investigação dessa questão diagnosticou até o momento 61 casos de encefalopatia, aí incluída a demência, decorrentes do glúten do trigo16.
O trigo, portanto, com o desencadeamento de uma resposta imunológica que se infiltra e atinge a memória e a mente, está associado à demência e à disfunção cerebral. A pesquisa que investiga a relação entre o trigo, o glúten e as lesões ao tecido nervoso mal começou, e ainda há muitas perguntas sem resposta, mas o que já sabemos é extremamente perturbador. Tremo só de pensar no que ainda podemos descobrir.
A sensibilidade ao glúten pode também se manifestar na forma de convulsões. As convulsões que surgem em resposta ao trigo costumam ocorrer em jovens, com frequência em adolescentes. Essas convulsões costumam ser do tipo do lobo temporal – isto é, originadas no lobo temporal do cérebro, a região desse órgão localizada na altura das têmporas. As pessoas que sofrem convulsões do lobo temporal sofrem alucinações do olfato e do paladar, experimentam sentimentos emocionais estranhos e inadequados como um medo avassalador sem nenhum motivo e comportamentos repetitivos, como estalar os lábios ou movimentar as mãos. Uma síndrome peculiar de convulsões do lobo temporal, que não reage a medicações para convulsões e é deflagrada pela acumulação de cálcio numa região do lobo temporal denominada hipocampo (responsável pela formação de memórias recentes) foi associada tanto à doença celíaca como à sensibilidade ao glúten (resultado positivo para anticorpos antigliadina e marcadores HLA sem doença intestinal)17.
Pode-se esperar que de 1 a 5,5% dos pacientes celíacos também apresentem diagnóstico de convulsões18, 19. As convulsões do lobo temporal deflagradas pelo glúten do trigo são atenuadas depois da eliminação do glúten da dieta20, 21. Um estudo revelou que epilépticos que sofrem de convulsões generalizadas, muito mais graves (grande mal), tinham uma probabilidade duas vezes maior (19,6% em comparação com 10,6%) de apresentar sensibilidade ao glúten, sem a doença celíaca, na forma de níveis mais elevados de anticorpos antigliadina22.
É preocupante a ideia de que o trigo é capaz de penetrar no sistema nervoso humano e causar alterações mentais, comportamentais e estruturais, chegando, de vez em quando, a provocar convulsões.
 
É O TRIGO OU É O GLÚTEN?
O glúten é o componente do trigo associado decisivamente à deflagração de fenômenos imunológicos destrutivos, quer estes se expressem como doença celíaca, como ataxia cerebelar ou como demência. Contudo, muitos efeitos do trigo sobre a saúde, entre eles os exercidos sobre o cérebro e outros órgãos do sistema nervoso, não têm nada que ver com fenômenos imunológicos desencadeados pelo glúten. As propriedades do trigo de gerar dependência, por exemplo, que se expressam como obsessão e tentação avassaladora e podem ser obstruídas por medicação de bloqueio de opiáceos, não decorrem diretamente do glúten, mas das exorfinas, produto da digestão do glúten. Embora ainda não tenha sido identificado o componente do trigo responsável por desvios comportamentais em portadores de esquizofrenia e em crianças que sofrem de autismo ou TDA/H, é provável que esses fenômenos também sejam decorrentes das exorfinas do trigo, e não de uma resposta imunológica deflagrada pelo glúten. Diferentemente da sensibilidade ao glúten, que em geral pode ser diagnosticada por meio de exames para detectação de anticorpos, ainda não se conhece nenhum marcador que possa ser medido para avaliação dos efeitos das exorfinas.
Os efeitos que não resultam do glúten podem somar-se aos efeitos do glúten. A influência psicológica das exorfinas do trigo sobre o apetite e o impulso, os efeitos do trigo sobre o ciclo da glicose e da insulina e talvez outros efeitos desse cereal que ainda estão por ser descritos podem ocorrer independentemente ou em associação com efeitos imunológicos. Alguém que esteja sofrendo de doença celíaca intestinal não diagnosticada pode ter um estranho e insaciável desejo pelo alimento que provoca lesões em seu intestino delgado, mas também pode manifestar, com o consumo do trigo, taxas de glicose no sangue típicas de diabéticos, além de grandes alterações do humor. Outra pessoa, que não tenha a doença celíaca, pode acumular gordura visceral e apresentar comprometimento neurológico decorrente do consumo do trigo. Outros podem se tornar diabéticos, adquirir sobrepeso, sentir-se irremediavelmente cansados, mesmo sem os efeitos imunológicos intestinais do glúten do trigo ou aqueles que atingem o sistema nervoso. O emaranhado de consequências para a saúde decorrentes do consumo do trigo é realmente impressionante.
A tremenda variedade de formas com que os efeitos neurológicos do trigo podem se manifestar complica a obtenção do “diagnóstico”. Efeitos imunológicos em potencial podem ser aferidos com exames de sangue para detecção de anticorpos. Contudo, efeitos não imunológicos não são revelados por nenhum exame de sangue e são, portanto, mais difíceis de identificar e quantificar.
O mundo do “cérebro de trigo” acaba de abrir uma brecha para a entrada de luz. Quanto maior a intensidade da luz, mais feia se apresenta a situação.

(WILLIAM DAVIS - BARRIGA DE TRIGO, LIVRE-SE DO TRIGO, LIVRE-SE DOS QUILOS A MAIS E DESCUBRA SEU CAMINHO DE VOLTA PARA A SAÚDE)

NOTAS:
  1.  Hadjivassiliou, M.; Sanders, D. S.; Grünewald, R. A. et al. “Gluten Sensitivity: from Gut to Brain”. Lancet, mar. 2010; 9:318-30.
  2.  Holmes, G. K. “Neurological and Psychiatric Complications in Coeliac Disease”. In: Gobbi, G., Anderman, F.; Naccarato, S. et al. (orgs.): Epilepsy and other Neurological Disorders in Celiac Disease. Londres: John Libbey; 1997:251-64.
  3.  Hadjivassiliou, M.; Grünewald, R. A.; Sharrack, B. et al. “Gluten Ataxia in Perspective: Epidemiology, Genetic Susceptibility and Clinical Characteristics”. Brain, 2003; 126:685-91.
  4.  Cooke, W.; Smith, W. “Neurological Disorders Associated with Adult Celiac Disease”. Brain, 1966; 89:683-722.
  5.  Hadjivassiliou, M.; Boscolo, S.; Davies-Jones, G. A. et al. “The Humoral Response in the Pathogenesis of Gluten Ataxia”. Neurology, 23 abr. 2002; 58(8):1221-6.
  6.  Bürk, K.; Bosch, S.; Müller, C. A. et al. “Sporadic Cerebellar Ataxia Associated with Gluten Sensitivity”. Brain, 2001; 124:1013-9.
  7.  Wilkinson, I. D.; Hadjivassiliou, M.; Dickson, J. M. et al. “Cerebellar Abnormalities on Proton MR Spectroscopy in Gluten Ataxia”. Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry, 2005; 76:1011-3.
  8.  Hadjivassiliou, M.; Davies-Jones, G.; Sanders, D. S.; Grünewald, R. A. “Dietary Treatment of Gluten Ataxia”. Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry, 2003; 74:1221-4.
  9.  Hadjivassiliou et al. Brain, 2003; 126:685-91.
10.  Ibid.
11.  Hadjivassiliou, M.; Kandler, R. H.; Chattopadhyay, A. K. et al. “Dietary Treatment of Gluten Neuropathy”. MuscleNerve, dez. 2006; 34(6):762-6.
12.  Bushara, K. O. “Neurologic Presentation of Celiac Disease”. Gastroenterology, 2005; 128:S92-7.
13.  Hadjivassiliou et al. Lancet, mar. 2010; 9:318-30.
14.  Hu, W. T.; Murray, J. A.; Greenway, M. C. et al. “Cognitive Impairment and Celiac Disease”. Archives of Neurology, 2006; 63:1440-6.
15.  Ibid.
16.  Hadjivassiliou et al. Lancet, mar. 2010; 9:318-30
17.  Peltola, M.; Kaukinen, K.; Dastidar, P. et al. “Hippocampal Sclerosis in Refractory Temporal Lobe Epilepsy is Associated with Gluten Sensitivity”. Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry, jun. 2009; 80(6):626-30.
18.  Cronin, C. C.; Jackson, L. M.; Feighery, C. et al. “Celiac Disease and Epilepsy”. Quartely Journal of Medicine, 1998; 91:303-8.
19.  Chapman, R. W.; Laidlow, J. M.; Colin-Jones, D. et al. “Increased Prevalence of Epilepsy in Celiac Disease”. British Medical Journal, 1978; 2:250-1.
20.  Mavroudi, A.; Karatza, E.; Papastravrou, T. et al. “Successful Treatment of Epilepsy and Celiac Disease with a Gluten-Free Diet”. Pediatric Neurology, 2005; 33:292-5
21.  Harper, E.; Moses, H.; Lagrange, A. “Occult Celiac Disease Presenting as Epilepsy and MRI Changes that Responded to Gluten-Free Diet”. Neurology, 2007; 68:533.
22.  Ranua, J.; Luoma, K.; Auvinen, A. et al. “Celiac Disease-Related Antibodies in an Epilepsy Cohort and Matched Reference Population”. Epilepsy & Behavior, maio 2005; 6(3):388-92.

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publicado às 14:51


QUE BARRIGA?

por Thynus, em 13.02.17
O médico que tem conhecimento científico acolhe bem o estabelecimento de um padrão de pão de forma feito em conformidade com as melhores evidências da ciência. […] Tal produto pode ser incluído em dietas tanto para pessoas enfermas como para pessoas saudáveis, com uma nítida compreensão dos efeitos que ele pode ter sobre a digestão e o crescimento.
(Doutor Morris Fishbein, editor Journal of the American Medical Association, 1932)
 
EM SÉCULOS PASSADOS, uma barriga proeminente era uma característica dos privilegiados, um sinal de prosperidade e sucesso, um símbolo de que a pessoa não precisava limpar seus estábulos ou arar suas terras. No século atual, não é preciso arar a própria terra. Hoje, a obesidade foi democratizada. Todo o mundo pode ter um barrigão. Seu pai chamava a dele, uma barriga ainda incipiente de meados do século XX, de “barriga de cerveja”. Mas por que a “barriga de cerveja” também é vista em mães assoberbadas de afazeres, em crianças e na metade de seus amigos e vizinhos que não bebem cerveja?
Eu a chamo de “barriga de trigo”, embora também pudesse chamar esse problema de “cabeça de pretzel”, “intestino de rosquinha” ou “cara de bolacha”, já que não há um sistema no organismo que não seja afetado pelo trigo. No entanto, o impacto do trigo na cintura das pessoas é sua característica mais visível e determinante, uma expressão externa das grotescas deformações sofridas pelos seres humanos com o consumo desse cereal.
Uma “barriga de trigo” representa a deposição de gordura resultante de anos de ingestão de alimentos que acionam a insulina, hormônio responsável pelo armazenamento de gordura. Enquanto algumas pessoas armazenam a gordura no traseiro e nas coxas, a maioria acumula uma gordura deselegante em torno da cintura. Essa gordura “central” ou “visceral” tem características exclusivas. Diferentemente da gordura acumulada em outras áreas do corpo, ela provoca processos inflamatórios, altera as respostas insulínicas e emite sinais metabólicos anormais para o resto do corpo. No homem que tem “barriga de trigo” e não se dá conta disso, a gordura visceral também produz estrogênio, que provoca o desenvolvimento de “seios”.
As consequências do consumo de trigo, porém, não se manifestam apenas na superfície do corpo. O trigo também pode atingir profundamente quase todos os órgãos do corpo, como os intestinos, o fígado, o coração, a glândula tireoide e até mesmo órgãos do sistema nervoso. Na realidade, praticamente não existe nenhum órgão que não seja afetado pelo trigo de algum modo potencialmente prejudicial.
 
OFEGANDO E TRANSPIRANDO NO CORAÇÃO DO PAÍS
Pratico cardiologia preventiva em Milwaukee. Como muitas outras cidades do Meio Oeste, Milwaukee é um bom lugar para morar e criar uma família. Os serviços municipais funcionam bastante bem, as bibliotecas são de primeira qualidade, meus filhos frequentam boas escolas públicas e a população é grande o suficiente para dispor de atrações culturais de cidade grande, como uma excelente orquestra sinfônica e um museu de belas-artes. As pessoas que vivem aqui são bastante simpáticas. Mas… são gordas.
Não quero dizer que são gordinhas. Estou dizendo que são gordas, de verdade. Estou falando de pessoas tão gordas que ficam ofegantes e transpiram ao subir apenas um lance de escadas. De mulheres com apenas 18 anos e quase 110 quilos, de picapes com forte inclinação para o lado do motorista, de cadeiras de rodas de largura dupla, de equipamentos hospitalares inadequados para atender pacientes que levam o ponteiro da balança aos 160 quilos ou mais. (Não é só o fato de eles não caberem no aparelho para tomografia computadorizada ou outro dispositivo para obter imagens, o problema é que, ainda que coubessem, ninguém conseguiria enxergar nada. Seria como tentar determinar se um vulto no oceano turvo é um linguado ou um tubarão.)
Foi-se o tempo em que um indivíduo de 110 quilos ou mais era uma raridade. Hoje é algo comum entre os homens e mulheres que passeiam pelo shopping, algo tão corriqueiro quanto a venda de jeans na Gap. Aposentados têm sobrepeso ou estão obesos, assim como adultos de meia-idade, adultos jovens, adolescentes e até mesmo crianças. Funcionários de escritórios são gordos. Trabalhadores braçais são gordos. Sedentários são gordos, e atletas também. Brancos são gordos, assim como os negros, os hispânicos e os asiáticos. Quem come carne é gordo, e quem é vegetariano também. O povo norte-americano foi contaminado pela obesidade num grau jamais visto na experiência humana. Nenhum perfil demográfico escapou à crise do ganho de peso.
Pergunte ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos ou ao departamento encarregado da saúde pública, e eles lhe dirão que os norte-americanos são gordos porque consomem muito refrigerante e batata frita, tomam muita cerveja e não fazem exercícios. E tudo isso pode mesmo ser verdade. Mas está longe de ser toda a verdade.
Muitas pessoas com sobrepeso estão, de fato, bastante preocupadas com a própria saúde. Pergunte a qualquer um que esteja fazendo a balança chegar aos 110 quilos o que ele acha que aconteceu que justifique um ganho de peso tão incrível. Você pode ficar surpreso com a quantidade de pessoas que não vão dizer: “Eu tomo copos gigantes de refrigerante, como biscoitos recheados e vejo televisão o dia inteiro.” A maioria delas vai dizer alguma coisa do tipo “Não consigo entender. Faço exercícios cinco vezes por semana. Cortei o consumo de gorduras e aumentei o de grãos integrais saudáveis. Mesmo assim parece que não paro de ganhar peso!”
 
COMO CHEGAMOS AQUI?
A tendência nacional para a redução na ingestão de gorduras e colesterol e o aumento na de carboidratos calóricos gerou uma situação singular, na qual produtos feitos com trigo não só ampliaram sua presença em nossa dieta, como também passaram a dominá-la. Para a maioria dos norte-americanos, todas as refeições e lanches incluem alimentos que contêm farinha de trigo. Pode ser o prato principal, o acompanhamento ou a sobremesa – mas é provável que sejam todos eles.
O trigo tornou-se o símbolo nacional da saúde: “Comam mais grãos integrais, é mais saudável”, é o que nos dizem; e a indústria alimentícia adotou a ideia com prazer, criando versões “boas para o coração”, repletas de grãos integrais, de todos os produtos de trigo de que mais gostamos.
A triste verdade é que a proliferação de produtos feitos de trigo na dieta norte-americana corresponde à expansão de nossa cintura. A recomendação de que se reduzisse a ingestão de gorduras e colesterol e se repusessem essas calorias pelo consumo de grãos integrais, feita pelo National Heart, Lung, and Blood Institute [Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue] por intermédio de seu National Cholesterol Education Program [Programa Nacional de Educação sobre o Colesterol], em 1985, coincide exatamente com o início de uma acentuada curva ascendente do peso corporal de homens e mulheres. Por ironia, foi também em 1985 que os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) [Centros para Controle e Prevenção de Doenças] começaram a rastrear estatísticas de peso corporal, documentando organizadamente a explosão de obesidade e diabetes que começou naquele mesmo ano.
De todos os grãos que participam da dieta humana, por que escolher o trigo? Porque, em nossa dieta, o trigo é, de longe, a principal fonte da mistura de proteínas conhecida como glúten. A menos que sejam como Euell Gibbons (Euell Gibbons é um norte-americano que se tornou referência por divulgar plantas invasoras e espécies silvestres como comestíveis), a maioria das pessoas não come muito centeio, cevada, espelta, triticale, os trigos bulgur e kamut ou outras fontes menos comuns de glúten. O consumo de trigo supera o de outros grãos que contêm glúten numa proporção de mais de cem para um. O trigo também tem atributos especiais que esses outros grãos não possuem e que o tornam especialmente destrutivo para nossa saúde; falarei sobre eles em capítulos posteriores. No entanto, concentro minha atenção no trigo porque, na grande maioria das dietas norte-americanas, as expressões “exposição ao glúten” e “exposição ao trigo” podem ser usadas uma pela outra. Por esse motivo, costumo usar a palavra “trigo” para referir-me a todos os grãos que contêm glúten.
O impacto do Triticum aestivum, o trigo comum de panificação, e de seus irmãos genéticos sobre a saúde tem amplo alcance, provocando estranhos efeitos desde a boca até o ânus, do sistema nervoso ao pâncreas, afetando desde a dona de casa nos Apalaches até o arbitrador de Wall Street.
Se tudo isso parece loucura, tenha paciência. Faço essas afirmações com a consciência limpa, livre de trigo.
 
EXAGEROS NUTRICIONAIS
Como a maioria das crianças de minha geração, nascidas em meados do século XX e criadas à base de pão de forma branco e bolos de chocolate recheados com chantili, tenho um longo e íntimo relacionamento com o trigo. Minhas irmãs e eu éramos verdadeiros especialistas em cereais matinais, preparávamos nossas próprias misturas individuais das marcas Trix, Lucky Charms e Froot Loops, e bebíamos avidamente o leite doce, em tom pastel, que ficava no fundo da tigela. É claro que a Grande Experiência com os Alimentos Industrializados não terminava com o café da manhã. Para a merenda na escola, minha mãe geralmente preparava sanduíches de manteiga de amendoim ou de uma mortadela do tipo bolonha, um prenúncio dos minirrocamboles de chocolate e creme e tortinhas semelhantes a alfajores embalados em celofane. Às vezes, ela acrescentava também alguns biscoitos de baunilha ou de chocolate recheados com creme. Na hora do jantar, adorávamos as refeições prontas, que vinham embaladas em recipientes individuais de alumínio e permitiam que comêssemos nosso frango empanado, os bolinhos de milho e o crumble de maçãs enquanto assistíamos ao Agente 86.
Em meu primeiro ano na faculdade, de posse de um vale-refeição que me permitia comer tudo o que eu quisesse, empanturrava-me de waffles e panquecas no café da manhã, fettuccine Alfredo na hora do almoço, massa com pão italiano no jantar. Bolinho com sementes de papoula ou bolo de claras na sobremesa? Isso mesmo! Eu não só ganhei um bom pneu em torno da cintura, aos 19 anos de idade, como também me sentia exausto o tempo todo. Nos vinte anos que se seguiram, tentei combater esse efeito bebendo litros de café, esforçando-me para me livrar da espécie de estupor difuso, que persistia, não importava quantas horas eu dormisse por noite.
Entretanto, nada disso chegou realmente a me afetar até eu dar com uma foto que minha mulher tinha tirado de mim, em umas férias com nossos filhos, na época com 10, 8 e 4 anos de idade, em Marco Island, na Flórida. Era o ano de 1999.
Na fotografia, eu estava dormindo na areia, com meu abdome flácido espalhado para cada um dos lados do corpo, minha papada pousada nos braços flácidos, cruzados sobre o peito.
Naquele instante recebi um golpe: eu não precisava perder só uns quilinhos. Estava com, no mínimo, 15 quilos de peso acumulado em torno da cintura. O que meus pacientes deviam pensar, quando eu lhes dava conselhos sobre dieta? Eu não era melhor do que os médicos da década de 1960, que, enquanto recomendavam aos pacientes que levassem uma vida mais saudável, tragavam seus cigarros.
Por que eu estava com aqueles quilos a mais? Afinal de contas, eu corria de cinco a oito quilômetros todos os dias, seguia uma dieta razoável e balanceada, que não incluía quantidades excessivas de carnes ou gorduras, evitava fazer lanchinhos ou comer junk food, preferindo consumir uma boa quantidade dos saudáveis grãos integrais. O que estava acontecendo no meu caso?
É claro que eu tinha minhas suspeitas. Não pude deixar de perceber que nos dias em que comia torradas, waffles ou bagels (Bagel é um pão de massa pré-cozida, posteriormente assado, que tem a forma de uma rosca de uns 15 centímetros de diâmetro e pode ser doce ou salgado) no café da manhã, passava algumas horas sentindo sonolência e letargia. Mas se comesse uma omelete de queijo feita com três ovos, eu me sentia bem. Alguns exames básicos de laboratório, no entanto, realmente me surpreenderam. Triglicerídeos: 350 mg/dL; colesterol HDL (colesterol “bom”): 27 mg/dL. E eu estava diabético, com uma taxa de açúcar em jejum de 161 mg/dL. Corria quase todos os dias, mas estava com sobrepeso e diabético? Devia haver alguma coisa muito errada em minha alimentação. De todas as mudanças que eu fizera nela, em nome da saúde, aumentar minha ingestão de grãos integrais saudáveis fora a mais significativa. Será que os grãos estariam, de fato, me engordando?
Aquele instante em que me dei conta de minha flacidez foi o início de uma viagem, acompanhando o rastro das migalhas, de volta ao momento em que comecei a ter sobrepeso e todos os problemas de saúde que o acompanharam. Contudo, foi quando observei efeitos ainda mais extensos, numa escala maior, além de minha experiência pessoal, que eu me convenci de que, realmente, alguma coisa estranha estava acontecendo.
 
LIÇÕES DE UM EXPERIMENTO SEM TRIGO
Um fato interessante: o pão de trigo integral (cujo índice glicêmico é 72) aumenta a taxa de açúcar no sangue tanto ou mais que o açúcar comum, a sacarose (cujo índice glicêmico é 59). (Atribui-se o valor 100 ao aumento da taxa de açúcar no sangue provocado pela glicose; assim, considera-se que o índice glicêmico da glicose é igual a 100. A capacidade de um alimento específico de aumentar a taxa de açúcar no sangue, em relação à glicose, determina o índice glicêmico desse alimento.) Então, quando eu estava criando uma estratégia para ajudar meus pacientes com sobrepeso e propensos ao diabetes a reduzir a taxa de açúcar no sangue de modo mais eficaz, ficou claro para mim que a maneira mais rápida e simples de obter resultados seria a eliminação de alimentos que causavam um aumento mais acentuado da taxa de açúcar no sangue. Em outras palavras, não o açúcar, mas o trigo. Produzi um folheto simples em que detalhava como substituir alimentos que tinham o trigo como principal ingrediente por alimentos integrais de baixo índice glicêmico, para criar uma dieta saudável.
Três meses depois, meus pacientes fizeram novos exames de sangue. De fato, como eu previra, com apenas raras exceções, a taxa de glicose no sangue (glicemia) tinha, com frequência, passado da faixa correspondente ao diabetes (126 mg/dL ou mais) para índices normais. Sim, diabéticos tinham deixado de ser diabéticos. É isso mesmo: o diabetes, em muitos casos, pode ser curado – não apenas controlado – pela remoção de carboidratos, especialmente o trigo, da dieta. Muitos de meus pacientes tinham também perdido 10, 15, até mesmo 20 quilos.
Todavia, foi o que eu não esperava que me deixou pasmo.
Os pacientes relataram que sintomas de refluxo gástrico tinham desaparecido e que as periódicas cólicas e diarreias da síndrome do intestino irritável haviam acabado. Eles tinham recuperado a energia; conseguiam se concentrar melhor; o sono era mais profundo. Erupções cutâneas tinham desaparecido, até mesmo as que estavam presentes havia anos. A dor causada pela artrite reumatoide se abrandara ou desaparecera, permitindo-lhes reduzir e até mesmo eliminar os medicamentos desagradáveis usados no tratamento do problema. Os sintomas de asma tinham se amenizado ou desaparecido por completo, fazendo com que muitos se desfizessem de seus aparelhos de inalação. Os atletas relataram um desempenho mais uniforme.
Mais magros. Com mais energia. Com o pensamento mais claro. Com os intestinos, as articulações e os pulmões mais saudáveis. Repetidas vezes. Sem dúvida, esses resultados eram razão suficiente para abandonar o trigo.
O que me convenceu ainda mais foram os muitos exemplos de pessoas que eliminaram o trigo da dieta e depois se permitiram consumi-lo como um pequeno prazer: dois pretzels ou um canapé num coquetel. Em questão de minutos, muitos tiveram diarreia, dor e inchaço nas articulações ou experimentaram chiados na respiração. Como se tivesse sido acionado por um interruptor, o fenômeno se repetia.
O que começara como uma simples experiência para tentar reduzir a taxa de açúcar no sangue das pessoas culminou com um insight sobre múltiplos problemas de saúde e perda de peso, que ainda hoje me deixa assombrado.
 
UMA TRIGOTOMIA RADICAL
Para muitos, a ideia de remover o trigo da dieta é, pelo menos psicologicamente, tão dolorosa quanto um tratamento de canal sem anestesia. Para alguns, o processo pode até apresentar efeitos colaterais desconfortáveis, semelhantes ao da privação de cigarros ou do álcool. Mas esse procedimento deve ser seguido para permitir que o paciente se recupere.
Barriga de trigo investiga a seguinte proposição: os problemas de saúde dos norte-americanos, da fadiga à artrite, do desconforto gastrointestinal à obesidade, têm como origem o bolinho de farelo ou a rosca de passas e canela, de aparência inocente, que cada um consome com o café todas as manhãs.
A boa notícia: existe cura para essa condição chamada “barriga de trigo” – ou, se preferirem, “cabeça de pretzel”, “intestino de rosquinha” ou “cara de bolacha”.
O ponto essencial: a eliminação desse alimento, que participa da cultura humana há mais séculos do que Larry King esteve no ar, vai deixá-lo mais esguio, mais esperto, mais ágil e mais feliz. A perda de peso, em particular, pode ocorrer a uma velocidade que não se acreditava possível. E você poderá perder, de modo seletivo, a gordura mais visível, que prejudica a ação da insulina, gera o diabetes, propicia inflamações e causa constrangimento: a gordura da barriga. É um processo que se conclui praticamente sem fome ou privação e que traz uma ampla gama de benefícios para a saúde.
Por que então eliminar o trigo em vez do açúcar, digamos, ou todos os grãos em geral? O próximo capítulo explicará por que o trigo não tem paralelo entre os grãos modernos em sua capacidade de se converter rapidamente em glicose no sangue. Além disso, ainda são pouco compreendidas e mal estudadas a composição genética do trigo e suas propriedades viciantes, causadoras de dependência, que realmente fazem com que comamos ainda mais. O trigo foi associado a literalmente dezenas de enfermidades debilitantes, além daquelas decorrentes do sobrepeso, e se infiltrou em quase todos os aspectos de nossa dieta. Sem dúvida é provável que eliminar o açúcar refinado seja uma boa ideia, já que ele tem pouco ou nenhum valor nutritivo e também influi negativamente em nossa glicemia. No entanto, para obter os melhores resultados por seu esforço, eliminar o trigo é a medida mais fácil e eficaz que você pode tomar para proteger sua saúde e reduzir sua cintura.
 
(WILLIAM DAVIS - BARRIGA DE TRIGO, LIVRE-SE DO TRIGO, LIVRE-SE DOS QUILOS A MAIS E DESCUBRA SEU CAMINHO DE VOLTA PARA A SAÚDE)

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publicado às 23:00


PSICOLOGIA OU MEDICINA?

por Thynus, em 13.02.17
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Orientador profissional esclarece
Quando fui fazer Psicologia, tinha a ilusão de encontrar uma ciência exata. Foi um enorme desaponto perceber o quão obscuras e divergentes eram as teorias apresentadas sobre a natureza humana. Eu até ficava contente com algumas explicações sobre o funcionamento dos neurotransmissores do cérebro, mas não enxergava onde aquilo somava com um entendimento maior do funcionamento do corpo. Então por que não fiz Medicina, já que meu pai é médico e poderia até me ajudar abrindo caminhos na hora de exercer a profissão? Na verdade, essa ideia de fazer Medicina passava pela minha cabeça, mas, quando pensava no tanto que teria que estudar para passar no vestibular, logo a abandonava. Acho que eu não queria tanto assim.
Eu também achava que a medicina ocidental era muito fragmentada.Ela também não tinha a “exatidão” que eu buscava.
As especialidades pareciam brotar em uma curva ascendente sem fim. Conhecemos cada vez mais as partes da máquina, mas não conhecemos o templo grandioso que é o corpo com toda a sua complexidade, com todos os outros níveis corpóreos de densidades mais sutis, como o corpo mental e o emocional.
Os pacientes têm que ir de especialidade em especialidade, pulando de galho em galho, porque o sintoma físico vai mudando de posição, de órgão, de localização, buscando encontrar algum equilíbrio torto. De fato, muitas vezes a raiz do problema está longe de ser descoberta. Hoje entendo que, como todos os outros temas do conhecimento, nada está concluído.
O conhecimento vai evoluindo e as ideias vão se aprimorando, as partes se juntando, as conexões se formando.
Mas uma coisa ainda me incomoda: não damos o valor e o poder que os pensamentos e os sentimentos merecem. Não damos a eles a dimensão e o impacto que exercem em nossa vida diária, em nossas escolhas e qualidade de vida.
Segundo a Psicossomática, a doença é, muitas vezes, um sintoma. A doença física pode representar um pensamento estragado, uma crença errada, um conflito inconsciente. Muito do que acontece com o corpo começou emoutro lugar. O corpo é nossa parte mais densa. É a única peça que conseguimos enxergar e a última impactada por nossos pensamentos.
As doenças começam nas emoções destrutivas não liberadas, não aceitas, não elaboradas.
Quando será que a ciência se fundirá com a espiritualidade? Sem esoterismo, a ciência (se é que isso já não acontece) irá desvendar aos poucos muito mais do que se sabe hoje.Como a tecnologia, que revelou para nós um mundo inteiramente novo, mesmo que já existisse antes. Acredito que a ciência poderá fazer a mesma coisa com a espiritualidade. Poderemos entender muito mais as relações entre mente, emoção e corpo,sem charlatanismo, sem exageros, generalizações, mas com maturidade de raciocínio. E por que não investigarmos mais esse tema? Por que não investirmos em pesquisas sérias? Acho triste a quantidade de dinheiro investida para se fazer descobertas espaciais. Bilhões de dólares...
Leio matérias sobre terem descoberto água em outros planetas e fico chocada. Tem gente que ainda pensa que somos os únicos no universo? Essas pessoas não têm ideia do tamanho desse negócio ainda? Por queseríamos os únicos? Por que não se despende esse dinheiro com coisas melhores? Educação, por exemplo? Por que não aprendemos na escola alguns conhecimentos colocando-os em prática, conhecendo nossas habilidades? Trocando o chuveiro, trocando pneu de carro, fazendo uma comida?
Não aprendemos nada sobre nutrição e nos alimentamos porcamente. Por que não ensinar sobre as emoções? Como se relacionar da melhor forma? Como se comunicar com os outros? Nosso currículo é antigo e não atende às necessidades do mundo de hoje. Por isso talvez eu não tenha me interessado pela matéria de Psicologia Escolar, que na época focava mais em como tentar “consertar” alunos “problemáticos”. Enquanto tivermos este sistema de ensino, enquanto a escola não oferecer um trabalho intenso para os pais, enquanto os pais colocarem a responsabilidade sobre a educação de seus filhos nas escolas, teremos cada vez mais problemas.
Hoje no Brasil, crianças especiais devem ser inseridas na escola comum. Mas, como, se elas tem necessidades especiais? Como, se para que elas se desenvolvam precisam de atenção especializada? Acredito que essa medida traz mais problemas do que soluções. Mas para mim é fácil falar, eu não vivo essas questões no meu dia a dia. Apenas escuto versões de colegas, pacientes e amigos.

(Graziela Bergamini - Viagens de uma Psicóloga em Crise) 

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publicado às 14:18


PRIMEIRO DESASTRE AMOROSO

por Thynus, em 13.02.17
 
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Você é um sucesso ou um desastre na sua vida amorosa?
Houve mais um motivo para eu ter viajado para a Índia.
Eu estava infeliz com meus relacionamentos amorosos. Tinha tido vários “rolos” bestas e nenhum relacionamento sério, nenhum namorado. Sentia-me como uma senhora de sessenta anos solteira, sem esperanças. Como se o tempo já tivesse acabado. Eu já tinha me dado por incompetente nessa área. Com 21 anos...
 Ir para Índia então também era um teste para ver se eu seria boa em alguma coisa. Se eu aguentaria me colocar em uma situação difícil e sair dela ilesa. Eu precisava me valorizar e me sentia valente no que se refere a viagens. Já tinha passado nove meses enclausurada em Dakota do Norte, nos Estados Unidos, quando tinha quinze anos, em um intercâmbio. Terminei a bravíssima tarefa de me manter lá sem ter crises de choro e voltar para o colo da mamãe.Ou melhor: tendo muitas crises de choro, mas aguentando sem mamãe. Voltando ao tema relacionamentos. Ai que difícil...
Sempre fui tímida com meninos, ou melhor, nos primórdios da minha vidinha, eu era mais confiante. Acho que só depois fui “aprendendo” a ser tímida e me esconder. Aos três anos de idade, eu me apaixonei por um garoto de doze.
Era um feriado e fomos para uma fazenda de uns amigos dos meus pais.Lembro de uma cena dele balançando em uma rede branca rendada e eu, apenas de longe, contemplando a paisagem.
Minha mãe conta, que depois que voltamos para casa, eu implorei para que ela telefonasse para o jovem galã por mim, mas ela resistiu. Afinal, o que uma menina de três anos iria falar para um moleque de doze? Enfim, ela acabou cedendo e ligou para ele.Quando me passou o telefone, recebi do outro lado uma voz desdenhosa: – O que você quer,hein,Grá? Devo ter ficado tão desapontada que desliguei. Eu tinha três anos! Meu Deus, o que aconteceu com essa menina ousada?
Com onze anos, eu me apaixonei por um menino em umas férias na praia, mas era incapaz de dar um sorrisinho que fosse para ele. O que eu mais sabia era “dar foras”, trocar soquinhos e jogar pingue-pongue. Criada no meio de meninos, isso é que era legal. Ser menininha era chato e sem graça. Apesarde ser assim, eu não era masculina. Eu devia ser feminina porque me chamavam muito de... argh... bonequinha.
Para mim era como um xingamento. Era como chamarem o Michael J. Fox no filme De volta para o futuro de covarde. Esta era a palavra inimiga: bonequinha. Para mim queria dizer fraquinha, bobinha– e isso eu não podia ser.
 O primeiro caso amoroso que eu teria tido foi com esse menino aos onze anos de idade. Um dia, muito inesperadamente, já de volta em casa depois de longas férias, recebi um bilhete de uma pomba-correio, grande amiga minha, com a seguinte pergunta dele :
 “Grá, você quer namorar comigo? Marque x: Sim Não
 1000000000000000 beijos”.
 Respondi prontamente que sim e entreguei a carta para minha amiga, que era da classe dele.
Depois de uma semana, houve uma festa e eu sabia que iria encontrar“meu namorado”.Assim que cheguei,logo vi onde ele estava e fui direto para o canto mais longe dele possível. Ele veio atrás de mim calmo e confiante. Eu queria morrer de tanta vergonha... Fugi mais uma vez.
“Meu namorado” persistiu indo atrás de mim devagar até que não teve jeito:ele chegou muito mais perto do que eu gostaria e perguntou:
“ Então,Grá, você quer namorar comigo?”
Eu afirmei que sim com a cabeça e os olhos fixados no chão.
– Então, então...
Ele foi chegando mais perto ainda e eu, em um ataque de pânico, virei as costas e disse, indo embora: –Então, tá...
 Mais tarde, na mesma festa, o momento mais triste da minha vida de adolescente. Minha amiga chegou perto de mim e falou:
 –Grá, ele disse para você não levar a mal, mas está tudo acabado.
Fui embora arrasada. Fim da história. Nunca mais o vi.
Tudo bem que eu ainda era bem jovem, mas o medo da proximidade já estava instalado. É claro que se a ausência de medo permitisse, eu não iria além de beijinhos inocentes e seguradas suadas de mãos. Mas estava muito, muito longe, até disso. Fugi do monstro do prazer “como o diabo foge da cruz”.
Esta parte de mim ainda vive e aparece de vez em quando. Medo da sensualidade, sexualidade, libido, vida, movimento, paixão – não só em relação a outro homem, mas também em relação à vida. Então, a partir dos onze anos de idade, repeti esse mesmo padrão de fugir de meninos e, depois, dos homens. Os que não me atraíam eram camaradas; os que me atraíam eram perigosos. Na presença deles, eu não era eu. Criança com a mente em formação tira muitas conclusões erradas sobre a vida e as carrega até o túmulo. Algumas das minhas milhares de conclusões sem sentido foram:
Conclusão número 1: Eu não podia ser natural, feminina, porque significava fraqueza, humilhação. Conclusão número 2: Homens são perigosos, superiores, distantes, poderosos.
Conclusão número 3: Eu sou mulher, sou pequena, sou diferente da família toda, portanto não pertenço ao grupo – deve haver algo errado comigo.
Todas estas conclusões absurdas para um adulto mas lógicas para uma criança foram se fortalecendo com o passar do tempo, tomando mais forma e reafirmando sua falsa validade. Minha percepção, por mais que a realidade se apresentasse diferente, se adequava para se encaixar nessa visão pré-moldada. Foram anos de conflitos internos porque,afinal,outra parte minha queria um relacionamento, queria ser feminina, queria se entregar, sem me sentir humilhada. E ainda, eu me apaixonava com certa facilidade; sempre tinha alguém especial ocupando meu coração.

(Graziela Bergamini - Viagens de uma Psicóloga em Crise)

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publicado às 01:42

Eu e Sande vamos ao Caruso, um restaurante aqui em Tucson [cidade do Estado norte-americano do Arizona], há quase quarenta anos. Apesar disso, a única coisa que já comi lá foi lasanha.

Isso deixa Sande maluca.

— Por que você não pede o frango à caçadora? — ela me perguntou certa vez.

— Porque eu não gosto de frango à caçadora!

— Mas se você pedisse o frango à caçadora, eu poderia provar um pedaço.

— Ouça, querida, se você quer um pedaço do frango à caçadora, vou pedir um frango à caçadora para você.

— Mas assim não vou comer o frango à Giovanni! Você sempre pede lasanha aqui!

Lasanha me satisfaz. Por que me arriscar?

Mas, aí é que está: por mais que eu ame lasanha, não quero comer isso todas as noites. Uma vez por semana, talvez. Duas vezes? Provavelmente não. Por mais que adore aquela massa macia, aquele queijo grudento e um molho de tomate escorrendo, não conseguiria comer tanto.



PREPARE ALGUMAS PEQUENAS SURPRESAS...

Você provavelmente já sabe onde quero chegar. A posição “papai e mamãe” é uma maneira maravilhosa de alinhar dois corpos. Não consigo pensar em uma melhor. É íntima, terna e os resultados são comprovados há muitas gerações. Provavelmente três quartos do mundo foram concebidos dessa maneira, e quem sabe quantos orgasmos de enlouquecer foram alcançados assim?

Mas se vocês vão fazer amor duas vezes por semana ou mais, até mesmo a posição mais comum vai cansar um pouco. Neste capítulo, vamos fazer algumas experimentações. Esteja ciente de uma coisa: um ou outro exercício podem melindrar alguns de vocês, mas tudo bem. Se alguma coisa não fizer seu motor funcionar, não se dirija à saída. Siga em frente e veja a porta seguinte.

Mas se seu cônjuge estiver curioso, talvez, em uma noite especial, você possa preparar uma pequena surpresa...



 

 
 

Quase nua

“Por que devo gastar cinquenta reais numa lingerie nova? Ele nunca me deixa usá-la por mais do que cinco minutos!”

A reclamação de Márcia faz sentido — para uma mulher. Mas qualquer homem poderá dizer que aqueles cinco minutos são bastante especiais. A verdade é que a maioria dos homens quer que sua esposa vá para a cama vestida, e não nua.

“Por quê?”, você deve estar perguntando.

Para que possa despi-la.

Sou um forte defensor da monogamia — duas pessoas que, por toda a vida, nunca compartilham relações com qualquer pessoa que não seja seu cônjuge. Mas vamos encarar o seguinte: as pessoas gostam de variar. A lingerie prepara o terreno para a variedade. Homens diferentes desejam estilos diferentes. Alguns gostam de laços, outros, de transparência; alguns apreciam cetim, outros, couro; alguns gostam de cores vivas, a maioria provavelmente gosta de preto. A escolha que você faz da lingerie pode estabelecer o clima — clássica, “maliciosa”, vitoriana. Varie um pouco, deixe seu homem tentando adivinhar, e você vai fazê-lo feliz.

Além disso, o uso de lingerie vai demonstrar a seu marido que você pensou naquele encontro sexual antes que ele acontecesse — e isso vai excitá-lo de fato. Ele vai perceber que você decidiu ir a uma loja de lingeries, procurou nas prateleiras, comprou uma peça que achava que ele iria gostar e, então, planejou uma noite para exibi-la. O que eu não daria por uma câmera que pudesse lhe mostrar o que essa atitude faz um homem sentir por dentro. Se você pudesse ver a reação dele, faria isso o tempo todo. As pessoas da loja de lingeries passariam a conhecê-la pelo primeiro nome.



Acenda o meu fogo

Isto pode soar vulgar para algumas pessoas, mas experimente para ver. Algumas lojas vendem lâmpadas semelhantes a vitrais coloridos que lançam uma luz diferenciada no ambiente. Ou você pode tentar usar um abajur que crie o mesmo efeito. Isso pode ser interessante para ocasiões especiais.

Na minha opinião, a melhor maneira de variar a iluminação é com o uso de velas; o número e até mesmo a cor das velas pode influir na ambientação. De qualquer modo, o que vocês estão fazendo é modificar o local — ou pelo menos a aparência do local — onde fazem amor. Fazer isso por menos de cinco dólares é um bom negócio.



Perfumes e odores

O perfume é outra maneira de manter as coisas novas e frescas na cama. Portanto, esposa, experimente um perfume novo. Use um novo gel de banho. Seu objetivo é que, assim que você subir na cama, o nariz de seu marido seja agradavelmente atingido por uma fragrância que ele nunca sentiu antes. Isso vai despertá-lo de uma maneira tal que você poderá ficar surpresa.

Marido, apenas por brincadeira, você talvez queira saber que os pesquisadores de fato estudaram quais são os odores mais atraentes para as mulheres:



Pesquisadores da Fundação de Tratamento e Pesquisa do Olfato e Paladar de Chicago [...] descobriram que uma combinação de doce de alcaçuz, pepino, talco de bebê, lavanda e torta de abóbora causou o maior incremento na excitação sexual feminina. Alcaçuz com pepino foi o odor mais excitante; cereja foi o mais inibidor [...]. Os pesquisadores descobriram que colônias masculinas na verdade reduzem os níveis de excitação.[1]



Pepino...?? Oh, bem, eles são pesquisadores.

Em outras palavras, rapaz, prepare uma salada de pepino, espalhe talco de bebê no peito, coma um pedaço de torta de abóbora e uma barra de doce de alcaçuz, jogue algumas borrifadas de lavanda no quarto e sua esposa estará prontinha!

Aqui vai uma sugestão esperta para a esposa: diga a seu marido que você “escondeu” seu perfume em alguma parte do seu corpo e quer que ele descubra onde foi. Ele gostará da busca tanto quanto você!



Troque os lençóis

Marido, aqui está uma maneira de realmente agradar sua esposa. Lençóis de linho, algodão e seda têm cada um seu toque particular. Uma vez que as mulheres gostam tanto do aspecto sensual do sexo, pode ser um verdadeiro prazer surpreendê-la com um novo jogo de cama. Os lençóis tocam mais o corpo de sua esposa do que você mesmo, de modo que peças novas podem realmente fazer diferença no modo de perceber o ato de amor.

Mas, aqui vai uma dica: dar a sua esposa um novo jogo de lençóis ainda dentro da embalagem não é uma coisa particularmente sexy a se fazer. Troque a cama você mesmo e surpreenda sua mulher quando puxar a colcha.

O tipo de lençol que você escolher pode determinar o ritmo de sua sessão de amor. O algodão é a escolha mais apropriada para o sexo longo e lento. A seda pode aumentar a intensidade. E se você realmente quiser ficar fogoso, considere a ideia de usar uma cobertura plástica (ou uma cortina de banho) e um frasco de óleo de bebê — essa é uma sensação completamente nova!

Outra coisa que o homem pode fazer além de usar lençóis totalmente novos é colocar algo sobre eles. Fiquei hospedado em um hotel certa vez e percebi que, quando puxei as cobertas, logo atrás da cabeceira, no chão acarpetado, havia uma quantidade de pétalas equivalente a uma dúzia de rosas. Algum marido atencioso deve ter criado uma cama de pétalas de rosa para sua esposa numa viagem anterior. Que ideia maravilhosa!

Qualquer flor delicada serve — simplesmente arranque as pétalas e jogue-as por cima da cama. Elas criarão uma sensação nova assim que vocês se deitarem sobre elas, e você também pode usá-las para acariciar sua parceira. Talvez você queira apanhar um punhado e jogar sobre sua esposa antes de se colocar por cima dela. A fragrância e a sensação fornecerão uma experiência original e muito prazerosa.

No século XV já se fazia depilação total por questões de higiene e claro, evitar piolhos e criaturas afins.
 

O corte ousado

A jovem esposa pega o marido cansado no aeroporto e segue pela rodovia.

— Estou ansiosa para que você veja meu novo corte de cabelo.

— Perdão, querida — desculpa-se ele. — Não percebi.

— É claro que não — provoca ela. — Não estou falando da minha cabeça.

Uau! Agora ela conseguiu a atenção dele!

Você pode ter um pouco de receio de cortar os pelos “lá embaixo”, uma vez que pode ser desconfortável, mas algumas mulheres usam depiladores, o que significa que não haverá coceira quando os pelos crescerem novamente. Uma simples acertada nos pelos também pode fazer maravilhas.

Pense nisto: você gasta centenas ou até milhares de reais por ano para arrumar o cabelo da sua cabeça, e muitas mulheres gastam pelo menos trinta minutos por dia arrumando as madeixas antes de sair de casa. Que tal oferecer um tratamento especial a seu marido ao arrumar outros “cabelos” que crescem em seu corpo?

A questão do desconforto (especialmente à medida que os pelos voltam a crescer) provavelmente impedirá muitas esposas de transformarem isso num estilo de vida, mas naquelas ocasiões especiais, uau! Lembre-se: para o seu homem, o novo é quase sempre mais excitante.



O sexo termina na cozinha

Muitos leitores devem estar familiarizados com meu livro O sexo começa na cozinha, no qual falo sobre como um marido precisa enxergar a ajuda com a louça como sendo uma preliminar — mas por que reservar a cozinha apenas para a preliminar? Se as crianças estiverem fora, vocês podem ter uma experiência gourmet sexual completa na cozinha!

Sejam criativos. O rolo para massas, se usado com delicadeza, pode oferecer uma massagem revigorante. A peneira para açúcar pode ser usada para algo além do bolo — criando uma “doce” experiência sexual para ambos. Canudos comuns podem promover brincadeiras tentadoras nas mãos de um cônjuge criativo. Soprar o ar de leve em várias partes do corpo de seu amante cria sensações maravilhosas.

Dê uma olhada na geladeira ou no freezer. Sabe aqueles cubos de gelo? Encontre maneiras criativas de fazê-los derreter. E aquelas raspas de gelo... Hummm. O que podemos fazer com aquilo? Ah, olhe — há um pouco de cobertura de chocolate, mel, talvez um pouco de chantili.

Por que vocês nunca usaram esse cômodo antes?



Luzes!

Certo, imagine a cena: o quarto está totalmente escuro. Vocês dois estão debaixo das cobertas, tão nus quanto vieram ao mundo, a não ser pelas alianças. De repente, seu cônjuge pega uma lanterna pequena e começa a explorar seu corpo, que parece quase novo sob a escuridão; a luz destaca partes prazerosas que ele ou ela talvez nunca tenha apreciado antes — pelo menos não assim!



Adequadamente divertido

Esposa, se você tem alguma peça de roupa íntima que está prestes a ser descartada, não a jogue no lixo. Em vez disso, choque seu marido colocando-se na frente dele usando apenas aquela peça e diga: “Se você conseguir tirá-la de mim, sou toda sua”.

Resista um pouco, mas não muito. Você pode até mesmo balançar uma tesoura na frente dele.

Eu sei, a ideia de seu marido cortar aquela peça de roupa íntima pode parecer tola, mas a grande maioria dos homens vai achar que é bastante provocante.

Acredite em mim.



Espelho, espelho e parede

Existe um hotel de luxo na cidade de Buffalo, no estado norte-americano de Nova York, chamado The Garden Suite, que aprendeu como manter o romance vivo em muitos casamentos. Um dos quartos de luxo tem uma banheira de hidromassagem que é grande o bastante para duas pessoas, mas uma banheira grande não é assim tão especial. O que a torna um pouco diferente são os dois espelhos de parede inteira ao lado dela.

Esposa, seu marido é despertado pela visão. Não estou falando aqui de pôster de meio de revista. Acredito que a pornografia pode destruir um casamento. Você não precisa ter a aparência de Pamela Anderson[2] para atrair seu esposo. Ele quer vê-la.

Aqui está o truque: olhar para você num espelho cria uma sensação completamente diferente. Uau, ele adora isso!

Deixe que ele tire sua roupa — na frente de um espelho. Se precisar diminuir as luzes para não se sentir tão destacada, que assim seja. Em vez disso, talvez você queira usar luz de velas. Mas permita a seu marido fascinar-se por seu corpo. Você não quer que ele leia a Playboy ou que vá a uma boate de striptease — e se ele for um marido amoroso, também não desejará nada disso — por isso deixe-o olhar para você.

Se você quiser partir para a ousadia, deixe-o fazer amor com você na frente do espelho. Deixe-o encher os olhos. Quando fizer isso, criará nele um desejo ainda maior por você. O coração dele se elevará e, como resultado, ele se sentirá extraordinariamente próximo de você.

A não ser que possuam um espelho móvel por perto, talvez vocês precisem encontrar um hotel que tenha um espelho que sirva. Se ele estiver mal posicionado, alguma coisa do outro lado do quarto parecerá muito distante (como se você estivesse olhando pelo lado errado de um telescópio) e estragará completamente o efeito. Se você e seu marido tiverem de entortar os olhos para ter uma ideia do que está acontecendo, terminarão desvirtuando o propósito da coisa.

Considere a ideia de colocar uma manta ou lençol ao lado de um espelho. Se vocês conseguirem encontrar um lugar onde existam espelhos em duas paredes diferentes, poderão incrementar o efeito. Para algumas pessoas, ver o que estão fazendo será muito estimulante; é algo que acho que todo casal deveria experimentar pelo menos uma vez.



Deleites da tarde

Já li a Bíblia inteira. Em nenhum lugar está escrito que você precisa esperar até que escureça para fazer sexo. Muitos casais casados — especialmente aqueles com filhos — caem na armadilha de esperar até que todas as coisas estejam arrumadas antes de até mesmo pensar em fazer sexo. As crianças precisam estar na cama, os tapetes devem estar aspirados, a louça do jantar tem de estar lavada e guardada etc. Então, e só então, a hipótese do sexo é considerada. Infelizmente, a essa hora, um dos dois — ou ambos — provavelmente estará dormindo.

Que casal já não enfrentou esse dilema? Vocês levantam pensando em sexo e até mesmo se envolvem numa pequena e leve preliminar. Talvez estejam com pressa — é hora de ir para o trabalho ou as crianças devem estar prontas a tempo de pegarem o transporte escolar — de modo que vocês prometem um ao outro que a paixão vai voar como um caça a jato mais tarde, naquela noite. Durante toda a manhã, os dois pensam no que vão fazer um ao outro mais tarde; de tarde, vocês imaginam como as coisas serão. Às 18 horas, vocês estão apressados. O jantar ainda não está na mesa e Melissa está demorando muito para fazer o dever de casa. Finalmente, às 19h05, algo semelhante a um jantar está diante da família. Às 20h30, todos estão alimentados e a louça está a meio caminho.

Enquanto isso, Jonas começou a encher a banheira, foi procurar seu brinquedo favorito e se esqueceu da água, até que a irmã grita dizendo que há um rio saindo por baixo da porta do banheiro. Melissa, a irmã mais velha, está pedindo mais ajuda com aquela lição de matemática. E vocês dois estão para lá de cansados.

Às 22h30, a última criança está finalmente na cama e, de repente, o sexo parece mais uma obrigação do que um prazer. Como uma coisa que parecia tão maravilhosa apenas dez horas atrás pôde se transformar agora em algo mais parecido com um trabalho?

Não deixe que o sexo se transforme no último item de uma longa lista de coisas a fazer.

Fisiologicamente, o corpo do homem está pronto para se envolver com o sexo como a primeira coisa a ser feita pela manhã. A maioria dos encontros amorosos dos romances no trabalho acontece durante a hora de almoço. E muitos casais enamorados descobrem que quando marcam um encontro durante um jantar, o jantar é a última coisa em sua mente. Então, por que apenas casais casados parecem adiar o sexo para ser a última coisa do dia?

Eu sei, eu sei, vocês são muito ocupados. Falaremos mais sobre isso em outro capítulo. Se tiverem condições, contratem uma babá, reservem um quarto em um hotel próximo e desfrutem do potencial do sexo para salvar casamentos, bem no meio do dia. Vocês terão uma cama arrumada e não precisarão arrumá-la ao sair. Pode não ser barato, mas o divórcio é muito mais caro no longo prazo.



Mantenha seu cônjuge na expectativa

Uma das maiores reclamações que ouço de esposas é que o marido parece estar seguindo algum mapa predeterminado: “Ele me beija três vezes, passa noventa segundos beijando e acariciando meu mamilo direito, trinta segundos no esquerdo, coloca a mão entre minhas pernas por três minutos e, então, está dentro de mim”.

Tanto para homens quanto para mulheres, uma das chaves para a satisfação sexual é manter o cônjuge na expectativa. Uma esposa que aconselhei era muito condescendente, mas também pouco imaginativa. Ela estava sempre disposta, mas seu marido queria mais do que disposição — queria vigor. Certa noite, ela praticamente abalou o mundo dele. Ele estava por cima dela, nas preliminares, quando, de repente, ela assumiu as rédeas, colocando-o de costas, agindo como se estivesse com pressa, como se mal pudesse esperar pela penetração. Então ela subiu em cima dele com entusiasmo, como se precisasse daquilo. Ele era um dos maridos mais felizes que já vi enquanto descrevia o que havia acontecido.

O ponto principal é manter seu cônjuge na dúvida. É claro que você não pode fazer isso toda semana, ou talvez nem mesmo uma vez por mês — mas, de tempos em tempos, é vital que você realmente surpreenda seu cônjuge. Deixe que ela fique pensando no que poderá vir em seguida. Se você é um daqueles caras que sempre começam “no andar de cima”, então inicie “no andar de baixo” e a surpreenda! Comece passando cinco minutos acariciando os pés dela, talvez passando alguma loção, talvez até mesmo beijando-os, e então comece a subir. Ou talvez deixe-a deitada de bruços e descubra algumas coisas para fazer nas costas dela.

Se você é uma mulher que normalmente se veste de maneira conservadora, por que não comprar um vestido que você jamais usaria em público — mas que vai usar para receber seu marido quando ele chegar em casa? Ou considere a ideia de fazer que ele tire toda a roupa enquanto você permanece vestida!



Barulho, barulho, barulho

O silêncio não é de ouro — pelo menos não no quarto. Marido, quando você murmura ou verbaliza sua aprovação, sua esposa se sentirá maravilhosa. Todo mundo quer ser bom na cama, mas sua esposa talvez não saiba quanto o faz sentir-se bem até que você lhe diga.

Esposa, duplique ou triplique sua atividade verbal. Muitas mulheres não percebem que podem levar um homem ao orgasmo simplesmente dizendo as palavras certas. Lembre-se: o entusiasmo sexual de uma esposa é o excitador número um para os homens. Quanto mais barulhenta você for, mais ele vai gostar. Use palavras, gemidos, murmúrios, rom-rons, até mesmo grunhidos ou gritos. Seu marido vai adorar.

O ruído mais íntimo, é claro, é ouvir seu próprio nome falado no ardor da paixão — talvez o maior excitador que existe. Diga o nome do seu cônjuge. Em vez de dizer “Você me excita”, diga “Você me excita, Roberto. Não acredito no quanto quero você”. Os homens poderiam dizer: “Ah, Andrea, você é tão bonita. Adoro o seu jeito”.

Se a conversa sexual é difícil para vocês, tente isto: usem uma venda na próxima vez em que fizerem amor. Eliminar o visual pode ajudá-los a enfatizar o verbal. Descrevam o que estão fazendo ou o que querem que seja feito. Comuniquem-se apenas por meio de palavras de modo que, com o tempo, a “carícia verbal” se torne uma parte natural do jogo de amor.

Já sei o que alguns estão pensando: “Mas, dr. Leman, temos crianças dormindo no quarto ao lado!”.

Não ter de se preocupar com o barulho é um dos prazeres do sexo no hotel. Mas mesmo quando estiverem em casa, vocês podem transformar o quarto num ambiente à prova de som ligando um ventilador barulhento, o aparelho de ar-condicionado ou colocando uma música suave. Vocês também podem considerar a ideia de fazer um isolamento acústico no quarto. Existem opções que não são tão caras quanto se imagina e, se isso faz que o casal tenha menos inibição no quarto, é um investimento que vale a pena.

Enquanto isso, se você sussurrar algo bem erótico direto no ouvido de seu marido, não existe a menor chance de seus filhos ouvirem — ou de seu marido esquecer!



De tirar o fôlego

Quer dar a sua esposa um tratamento especial? Na próxima vez em que estiver beijando os seios dela, afaste-se o suficiente para poder soprar sobre eles. Se estiver próximo, o ar sairá quente. Depois, afaste-se alguns centímetros a mais e sopre gentilmente — isso fará que o ar esfrie. É uma sensação deliciosa.

Mulher, você também podem fazer o mesmo no pênis de seu marido durante o sexo oral. Mas, marido, você precisa ser cuidadoso: soprar na vagina de sua esposa durante a gravidez é perigoso.



BRINCADEIRA SEXUAL

Nesta seção, quero olhar para o lado mais leve do sexo. Embora eu creia que o sexo seja um ato bastante significativo e espiritual, vamos encarar uma verdade: ele também pode ser muito divertido! Veja a seguir apenas algumas ideias para juntar riso e sexo.



Concentração

Se vocês estiverem a fim de uma forma mais leve de sexo, tentem isto: um dos cônjuges escolhe um desafio enquanto estão deitados na cama. Veja um exemplo: “Aposto que consigo citar mais estados que começam com a letra M do que você”.

À primeira vista, esse jogo parece simples e chato, mas deixei de fora alguns detalhes. Primeiro, nenhum dos dois está usando roupa. Segundo, o cônjuge que faz a pergunta está completamente livre para fazer qualquer coisa que quiser no corpo do outro cônjuge para “distraí-lo”. Lamber é permitido. Da mesma forma, beijar, soprar ar quente ou qualquer outra distração criativa.



Pebolim erótico

Alguns garotos pré-adolescentes provavelmente ficariam bravos e envergonhados se soubessem quanto seus pais estão se divertindo com seu presente de Natal favorito. Veja você, uma noite a esposa decidiu desafiar para um jogo o marido que só ficava diante da televisão. Ele não estava nem um pouco interessado até que ela disse: “E se a cada ponto o perdedor tiver de tirar uma peça de roupa?”.

Em menos de três segundos, o marido estava no jogo. A esposa ficou surpresa — ele já a vira sem roupas sabe-se lá quantas vezes, mas ainda existe algo de excitante em ver isso acontecer a cada preciosa peça.

Talvez você não tenha uma mesa de pebolim (também chamado de totó). Que tal usar um tabuleiro, um jogo simples ou um antigo jogo de cartas (strip pôquer)? Você não gosta da ideia do strip pôquer? Tudo bem; então que tal um strip paciência?



Comida e sexo

— Então, a qual restaurante você vai levar minha filha? — perguntei ao rapaz, adorando vê-lo embaraçado.

— Ao Bar das Ostras do Joe — responde ele.

— Esse é um restaurante de frutos do mar, não é? — perguntei. De repente, a temperatura na sala começa a subir cerca de dez graus por minuto. O restaurante do Joe é famoso, obviamente, por suas ostras. E ostras são conhecidas por serem afrodisíacas — exatamente o tipo de jantar planejado para diminuir as inibições naturais de uma jovem.

— Sim, é — disse ele, com uma cascata de suor escorrendo pela testa e pingando pelo nariz.

— Muito cheio às noites de sexta-feira, não acha?

— Já fiz reservas, senhor.

— Reservas? Então você já planejou tudo, hein?

— Creio que sim. Pensei que sua filha...

— Olha, quer saber? O Bar do Hambúrguer do Bob é mais barato. Minha filha adora um bom hambúrguer.

— Com certeza, estava mesmo pensando que talvez pudéssemos ter uma noite um pouco informal. Vou cancelar a reserva.

— Puxa, veja só; por acaso tenho um telefone bem aqui...

Aquele rapaz e eu sabíamos o que estava de fato sendo discutido. Ostras, M&M’s verdes, morangos com chantili, você escolhe — alguém já tentou atribuir poderes afrodisíacos a todas essas coisas. Embora a ciência não comprove essa associação, o sexo é tanto mental quanto físico. Portanto, se você achar que uma comida é sexy e excitante, ela se torna afrodisíaca.

Juntar comida e sexo é uma maneira popular de desfrutar de dois passatempos preferidos. Como duas escritoras observaram:



Um grande número de mulheres nos disse que compartilhar chocolate com o parceiro é algo especialmente erótico: chocolate na banheira, chocolate com champanhe, chocolate na cama. Se você acha que seu parceiro está aberto a esse prazer em particular, mantenha uma caixa de chocolates especiais por perto.[3]



Ainda que a ciência esteja longe de considerar o chocolate um genuíno afrodisíaco, é verdade que ele aumenta o nível de serotonina no cérebro, o que, sem afetar diretamente a libido, de fato tende a criar uma sensação feliz e agradável.

Há um hotel nos Estados Unidos, o Hotel Hershey, em Hershey, Pensilvânia, que oferece um serviço de imersão em chocolate a seus hóspedes. É possível pedir o “banho de chocolate espumante” diretamente no The Hershey Spa,[4] ou criar a própria versão, adicionando três colheres de sopa de chocolate em pó, uma colher de leite em pó, muita água quente, uma banheira que ninguém se importa de sujar um pouco e dois corpos nus. Algumas pessoas gostam de adicionar chantili ao seu “chocolate quente” — o lugar onde o creme é aplicado depende totalmente do casal.

Você também pode usar a comida para estabelecer o clima, fazendo dela um convite. Não existe um homem neste planeta que não saberia a intenção da esposa se abrisse sua pasta e encontrasse um pacote de M&M’s verdes com um bilhete dizendo: “Coma bastante disso e venha do trabalho direto para casa!”. A maioria das esposas entenderia instantaneamente se o marido entrasse no quarto com alguns morangos e chantili.

Naturalmente, não é apenas o que você come que pode estabelecer o clima, mas como você come. Reduzir as luzes pode ser uma experiência maravilhosamente sedutora. Se as crianças não estiverem em casa, ou se vocês estiverem jantando no quarto do hotel, diminuam as luzes e comam sem roupa! Uma esposa deu a seu marido um tratamento especial ao chamá-lo no celular, exatamente na hora em que sabia que ele estava no pior trecho da volta para casa.

— Querido, tenho más notícias — disse ela.

— O que foi?

— O dia foi muito difícil e não há um prato limpo na casa. Isso nos dá duas opções.

— Quais são elas?

— Bom, podemos comer fora, ou você poderia correr para casa e usar minha barriga nua como prato.

Não preciso dizer que o rapaz chegou em casa em tempo recorde!

Vestidos ou não, dar comida um ao outro é uma experiência bastante sensual, uma vez que ambos estão comendo do mesmo prato. Existe algo de bastante íntimo em compartilhar a mesma comida. Vocês precisam se sentar bem próximos, e o processo de colocar comida na boca de seu cônjuge é um poderoso ato de intimidade que pode dar início a todo tipo de paixões deliciosas e até mais voluptuosas.

Um rapaz com quem trabalhei me contou sobre quando levou sua esposa a um restaurante que atende pessoas que querem jantar com tranquilidade. Não há pressa, as baias são até certo ponto isoladas, e a atmosfera é mais que romântica. Lembro-me de ouvi-lo contar como alimentava sua esposa, colocando comida gentilmente em sua boca, quando ela o chocou quando disse “da próxima vez, coloque o dedo na minha boca”.

— E aí? — disse eu.

— Kevin, você não faz ideia de como aquilo foi excitante.

Realmente há algo de sensual em comer.



PERGUNTAS MAIS COMUNS

Embora eu seja um grande fã da variedade, com certeza é verdade que casais podem ir longe demais em algumas coisas. A Bíblia é maravilhosamente irrestrita naquilo que permite e até mesmo no que encoraja um casal a fazer na cama, mas a tecnologia moderna fornece algumas opções em relação às quais alguns cônjuges se sentem compreensivelmente cautelosos. Veja a seguir algumas das perguntas mais comuns a esse respeito.



O que dizer sobre o uso de “brinquedos” sexuais, incluindo vibradores?

Não há nada na Bíblia que proíba o uso de tais complementos conjugais, desde que não sejam degradantes ou indesejados pelos parceiros. Como uma maneira de prover variedade dentro do casamento, o uso ocasional de brinquedos pode ser uma ideia muito boa. De forma geral, porém, a maioria das mulheres achará esse tipo de orgasmo menos satisfatório em termos emocionais do que o que resulta do contato corpo a corpo. Falando como psicólogo, creio que vocês descobrirão que materiais de apoio como esse são ocasionalmente divertidos, mas não são o tipo de coisa que produz intimidade duradoura.



E quanto ao sexo anal?

Estou surpreso com a frequência com que essa pergunta surge. Não sei onde os homens estão pegando essa ideia, mas, cada vez mais, até mesmo entre casais cristãos, isso está se tornando uma questão importante, em geral, com o homem desejando realizá-lo e até pedindo, e a mulher demonstrando forte relutância.

Penso que parte da atração se deve ao fato de que, para alguns homens, o sexo anal parece “malicioso”, e eles acham que seria um bom tempero para o casamento. Contudo, Deus planejou a vagina para receber o pênis; ela foi projetada especificamente para o ato sexual. O ânus, sinceramente, não foi feito para isso. O sexo anal vai doer. Sim, algumas mulheres relaxam essa área para gradativamente receber o marido, mas existem outras questões — higiênicas e de outra ordem — que colocam essa prática sob questionamento. A área retal de uma mulher pode se romper facilmente, resultando em problemas de saúde dolorosos e embaraçosos — e como ela vai explicar isso a um médico? E quando você lança a questão das hemorroidas (que 70% das pessoas enfrentarão em algum ponto da vida) e coisas semelhantes, é melhor deixar essa prática de lado. Por acaso falei tudo isso de maneira muito leve? Se o fiz, peço desculpas. É pervertido, e creio que é errado!

Essa é uma área sobre a qual digo aos homens que eles precisam deixar de lado e se livrar de qualquer tipo de expectativa ou fantasia. É razoável e compreensível que uma esposa diga: “Quero experimentar e manter a variedade em nosso casamento, mas isso é algo que eu simplesmente não quero fazer”.



E quanto aos casais que assistem a filmes pornográficos juntos?

Uma das coisas que sabemos sobre as compulsões hoje — e temos aprendido muito sobre elas — é que uma das mais poderosas compulsões da humanidade é ao vício na pornografia. São os homens que, na grande maioria, alugam pornografia, mas, no fim das contas, muitos casais decidem alugar um filme picante apenas para “apimentar as coisas”.

Acredito que esse é um ato bastante perigoso. Para começar, por que o marido não consegue se satisfazer apenas com a esposa? Por que um homem gostaria de olhar para outra mulher nua? Sou um homem com uma libido alta, mas não preciso de nada além de Sande para ficar excitado. Na verdade, consigo ficar excitado ao ver minha esposa com mais de 50 anos colocar louça na máquina de lavar!

Depois, falando como psicólogo, assistir a pornografia pode ser um caminho escorregadio. Se está casada com um homem cuja mentalidade é “Vale tudo, incluindo sacanagem, se isso nos excitar”, você acabará participando de algumas práticas bastante questionáveis. Por quê? Porque a pornografia, de modo geral, é viciante para o homem. Ela provavelmente não será viciante para você, mulher, mas não é com você que estou preocupado. Muitas esposas me confessam que assistir a pornografia de fato as coloca “no clima”, mas pergunto a elas: no longo prazo, isso é bom ou prejudicial para seu casamento? Aqui vai uma dica: assistir a pornografia não fará que seu marido a trate melhor, que passe mais tempo com as crianças ou que esteja mais presente em casa... Justamente as coisas que fazem a maioria das esposas desejar mais o marido.

Uma das minhas breves teorias sobre criar filhos é que os pais não devem cultivar hábitos os quais não desejam que os filhos tenham na época da graduação. A pornografia é um hábito que se tornará ainda mais exigente e provavelmente mais insensato.

Acrescente-se a isso o fato natural de que a esposa começará a se comparar às mulheres que vê no filme ou nas páginas da revista. Isso é simplesmente humano da parte dela. Nesse caso, em que medida uma mulher vai se sentir querida e amada? Ela se sente admirada ou pensa em segredo: “Quando fechou os olhos, ele estava fantasiando fazer isso com ela?”.

Outra coisa que realmente me preocupa em relação à pornografia é a indústria que você está apoiando ao consumi-la. Pense nisto: não é a organização Focus on the Family [Foco na Família] que publica esse material! Você está apoiando pessoas que, de modo geral, são hostis à religião, à fé e à família. Elas ganham dinheiro explorando mulheres jovens e levam muitos homens a compulsões que durarão a vida inteira. A verdade é que aqueles atores são adúlteros! No meu modo de pensar, esse não é o tipo de gente a quem quero dar o meu dinheiro.

A maioria dos casais puros que entram nisso terminam sentindo o que eu chamo de fenômeno “oh-oh” — aquela agitação interna que sinaliza que alguma coisa simplesmente não está certa. É melhor prestar muita atenção a esse mal-estar, pois, em geral, é a nossa consciência tentando nos proteger.



MUITO É MUITO MESMO

A sexualidade matrimonial fornece uma sólida base para a máxima intimidade sexual. Pelo fato de ambos estarem comprometidos um com o outro até que a morte os separe, vocês nunca estão sob julgamento. Não precisam temer se uma “grande ideia” para a diversão sexual aparecer, nem precisam se preocupar se um ou outro vai partir caso, durante uma determinada época, a intensidade sexual esfrie um pouco.

Vocês também não precisam se desculpar se simplesmente quiserem a boa e velha posição sexual papai e mamãe com mais frequência do que qualquer outra. É utópico esperar que toda e qualquer experiência sexual vá fornecer orgasmos memoráveis que mandam vocês à lua e depois os trazem de volta. A intimidade sexual é construída em torno de momentos divertidos de amor; longos, lentos e sensuais momentos de amor; amor excitante e ousado; e também amor rápido e apaixonado.

Por favor, não se sintam na obrigação de ter de variar todas as vezes em que pulam na cama juntos. Há uma razão para que tenham suas posições favoritas: vocês gostam delas! Desfrute do sexo rotineiro, do sexo excitante, do sexo rápido, do sexo lento e do sexo inesperado. Aceitem tudo, apreciem tudo e deixem que se forme entre vocês a intimidade que Deus planejou.


(Kevin Leman - Entre Lençóis)

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publicado às 19:22


Apenas para mulheres

por Thynus, em 12.02.17
Uma mulher que conheço decidiu aplicar alguns dos princípios sobre os quais falo neste livro para realmente surpreender seu marido. Ela queria fazer algo chocante. E, uma vez que seu marido estivera fora um mês inteiro numa viagem de negócios, ela teve a grande ideia de recompensá-lo por sua fidelidade.

Para entrar no clima, ela tomou um longo e agradável banho de espuma. Depilou as pernas, passou o perfume preferido de seu marido e, então, colocou uma cinta-liga, meias finas, um casaco longo — e nada mais. Depois, dirigiu-se ao aeroporto, estacionou o carro e entrou no saguão, na esperança de encontrar seu marido no portão de desembarque.

Mas ela se esqueceu da segurança. Assim que passou pela máquina, ouviu o apito: Biiip!

Foi então que ela se lembrou do metal na cinta-liga que estava usando.

Seu rosto ficou mais branco que os lençóis que ela havia acabado de colocar na cama. Ela olhou para trás e viu um casal de idosos, um jovem executivo e uma família impaciente esperando para passar. O que poderia fazer?

O segurança ainda tentou ajudar.

— Tenho certeza de que é apenas o cinto do seu casaco, senhora. Por que a senhora simplesmente não tira o casaco e o coloca na esteira para passar pela máquina?

— Tirar meu casaco? — perguntou ela, em pânico.

— Ou pelo menos o cinto.

Naquele momento, todo o sangue de seu corpo havia saído da cabeça. Suas mãos estavam dormentes e frias enquanto ela tirava o cinto e prendia o casaco com força, orando tão intensamente como jamais havia feito para que o metal da cinta-liga não fizesse disparar o alarme outra vez.

Ela passou novamente pela máquina, pronta para morrer de vergonha. Nunca o som do silêncio foi tão maravilhoso para uma jovem esposa. Depressa ela apanhou o cinto do casaco, colocou em volta da cintura e encontrou-se com seu marido no portão.

Naturalmente, ele achou a história engraçadíssima — e apreciou a atitude ainda mais do que aquela mulher pudesse imaginar. Mesmo assim, ela avisou: “Nunca mais espere uma surpresa como essa outra vez!”.



POR QUE NÃO?

Receber e realizar gestos espontâneos como o citado é algo que pode fazer maravilhas por seu casamento. Na verdade, a essência do que quero tratar neste capítulo é: Por que não agora, e por que não aqui?

Seu marido já apareceu por trás de você, apalpando seus seios enquanto você passava maquiagem nos olhos, e levou um tapa na mão acompanhado de um curto e grosso “Agora não!”?

Por que não agora?

Quanto tempo leva uma carícia nos seios? Dez segundos? Vinte segundos? Será que você realmente não pode dar ao seu marido esse tempo?

Sei o que está pensando: “Você não entende, dr. Leman. Se eu deixar que ele toque meus seios, em dez segundos estarei de costas olhando para o teto. Minhas roupas serão arrancadas e espalhadas pelo chão, meu cabelo ficará um bagunça e terei de refazer toda a maquiagem. Aí, chegarei atrasada ao trabalho”.

Às vezes é possível que aconteça isso mesmo. Como um evento raro, posso até dizer que chegar atrasada ao trabalho uma ou duas vezes por ano pode ser exatamente do que seu casamento esteja precisando! Mas muitas vezes seu marido quer apenas uma sensação breve. Portanto, da próxima vez, surpreenda-o ao virar-se e dar a ele uma sensação breve espontaneamente.

Existe uma enorme diferença entre a esposa que dá um tapa na mão do marido e o afasta e a que dá um sorriso maroto, se envolve em carícias leves por um minuto ou dois e sussurra no ouvido dele: “Isso é tão bom, mas infelizmente preciso mesmo me arrumar para o trabalho. Vamos deixar para hoje à noite, quando você vai conseguir tudo o que quiser e um pouco mais”. A segunda mulher terá satisfeito seu marido, e ainda permanecerá vestida e com o cabelo arrumado. A primeira esposa terá frustrado seu marido e desprezado sua masculinidade, tudo por causa de sessenta ou noventa segundos.

Esse é um minuto caro.



POR QUE NÃO AGORA?

Os homens são mais frágeis do que a maioria das mulheres pensa. Eles querem agradar e seus sentimentos são feridos muito mais facilmente do que muitas mulheres poderão ao menos imaginar. Os homens não pensam apenas em futebol e carros — de fato, a razão de parecerem tão obcecados por essas coisas é que com frequência eles não se sentem amados em casa e, assim, procuram refugiar-se em coisas externas.

Você quer dar a seu marido um tratamento especial? Da próxima vez que ele vier por trás de você e gentilmente tocar um seio com a mão, esperando que você lhe dê um tapa, deixe-o assim por alguns segundos. Quando ele finalmente se afastar, vire-se diga, com voz enérgica: “Ei!”.

Quando tiver obtido a atenção dele, diga: “Você se esqueceu do outro”.

Minha fiel leitora, se você fizer isso, essa será uma conversa da qual seu marido talvez nunca se esqueça.

Quero ajudá-la a entender como um homem pensa. Quando vejo Sande curvada para retirar a louça da máquina de lavar, digo algo mais ou menos assim:

— Você quer saber no que estou pensando neste exato momento?

— Não, Lemey, eu não quero saber o que você está pensando; vá procurar o que fazer.

É comum as mulheres não entenderem que a simples visão delas se curvando pode provocar reações profundas em um homem. Somos criaturas visuais, e recebemos estímulos visuais o dia inteiro. Combinado com a testosterona que corre por nosso corpo, isso faz que muitos de nós vivam num estado elevado de alerta sexual.

Agora, veja outra cena. Se eu disser a mesma coisa para Sande quando ela estiver curvada sobre a lava-louças, ela pode responder: “Lemey, o Sr. Feliz tem mania de ficar todo excitado em momentos em que não há a menor chance de ele ter sorte. Mas vou lhe dizer uma coisa: o Sr. Feliz vai ter bastante trabalho hoje à noite. Estou ansiosa por isso. De fato, não há nada que eu queira mais”.

Quando Sande age assim, é ainda melhor do que quando ela cede imediatamente! Sabe por quê? Ela está usando o poder da antecipação, e antecipação é melhor que participação, em termos emocionais, para um homem.

Isso a surpreende? Pense nisto. Quanto dura a participação? Dez minutos para uma rapidinha? Vinte minutos na média? Quarenta e cinco a sessenta minutos quando vocês realmente estão com tempo?

Mas a esposa que diz “Hoje à noite é a noite!” dá ao marido um dia inteiro de prazer. Dificilmente se passarão vinte minutos sem que ele pense nela, imagine-a e a deseje. Isso não lhe parece maravilhoso? Fazer o marido ter pensamentos amorosos e afetuosos sobre você o dia inteiro?

As palavras que você escolhe são realmente importantes. Você estará na cabeça de seu marido o dia inteiro, se, quando ele estiver prestes a sair de casa e for dar-lhe um beijo superficial, você o surpreender com um beijo de verdade — praticamente limpando os pré-molares dele no processo — e disser: “Tenho planos para você mais tarde, companheiro; portanto, volte logo do trabalho”.



POR QUE NÃO AQUI?

Outra frase famosa que as mulheres despejam sobre o marido é: “Aqui não”.

Por que não aqui? Quem disse que fazer amor é algo adequado apenas para o quarto? Por que não ter um pouco de aventura?

Não estou sugerindo que vocês façam amor no meio do shopping ou no jantar de formatura de sua filha, mas, ei, se seu marido começar com travessuras na cozinha e ninguém mais estiver em casa, existem, de fato, em praticamente todas as cozinhas, alguns itens bastante interessantes que podem ser usados no corpo no lugar do pão.

Pense nisso!

Eu participava de uma noite de autógrafos em uma livraria que também havia convidado o falecido comediante Steve Allen. Nós dois conversávamos com as pessoas enquanto autografávamos. O livro que eu estava assinando era O sexo começa na cozinha.

Steve e eu vimos um casal de idosos passar por ali, de braços dados, obviamente apaixonados um pelo outro, mas também obviamente na casa dos 80 anos. A mulher, de cabelos brancos como a neve e óculos de vovó, olhou para o exemplar do meu livro em exposição que proclamava audaciosamente que o sexo começa na cozinha. Ela se voltou para o marido e disse: “Não na nossa casa; há janelas demais!”.

Eu e Steve caímos na gargalhada diante dessa tirada, pois foi muito engraçada.

Sabe, não estou pedindo que você seja sem vergonha, e certamente não estou sugerindo que faça alguma coisa pela qual possa ser presa. Mas se os filhos estiverem fora e se seu quintal tiver privacidade, ou se as cortinas da sala estiverem fechadas e seu marido estiver de repente atrás de você — bem, nesses casos, apenas pergunte a si mesma: “Por que não aqui?”. Se não conseguir pensar numa boa razão para não fazer, talvez você deva dar o primeiro passo!



CONFORTÁVEL COM O SR. FELIZ

Afirmei em outro livro que o melhor amigo do homem não é um cachorro — e essa amizade começa cedo.

História real: uma jovem mãe estava dando banho no filho de três anos quando ele olhou para cima e disse:

— Mamãe, amo meu pênis.

Confusa, a jovem mãe começou uma lição de anatomia.

— Sabe, querido, Deus nos fez assim, e nos deu cotovelos, dedos, joelhos, orelhas e pés — e todas as partes são tão importantes quanto qualquer outra.

O menino não falou uma palavra, mas ouviu pacientemente a lição de sua mãe sobre as maravilhas do corpo humano. Quando ela terminou, ele disse:

— Mas, mamãe, ainda gosto mais do meu pênis.[1]

O “Sr. Feliz” — como prefiro chamá-lo — é alguém com quem você precisará se sentir confortável se quiser agradar seu marido. Isso não deve ser tão difícil; afinal de contas, há muito tempo sou da opinião de que o Sr. Feliz é adorável (embora minha esposa nem sempre concorde). Por favor, não diga o que já ouvi algumas esposas dizerem quando viram os genitais do marido pela primeira vez: “Essa é a coisa mais feia que já vi em toda minha vida!”. Ainda que seja verdade, é melhor você guardar isso para si.

Se seu marido é jovem, na casa dos 20 anos ou início dos 30, você pode fazer o esforço mínimo, dando apenas uma piscadinha para o Sr. Feliz, que ele vai continuar respeitosamente cumprindo seu dever e batendo continência. Mas à medida que seu marido ficar mais velho, você precisará aprender a arte de estimular o pênis. Uma vez que pouquíssimas mulheres recebem instrução sexual efetiva, apresento a seguir uma rápida cartilha sobre como agradar o membro mais querido de seu marido.

Para começar, normalmente a cabeça e a parte de baixo do pênis são as regiões mais sensíveis dos genitais masculinos. Dê particular atenção ao sulco na base da cabeça. Existe um pequeno entalhe nesse sulco que é hipersensível. A língua ou uma lambida leve ali e seu marido pode chegar ao teto.
 
O pênis está cercado por muitos sensores diferentes. Acariciar a parte debaixo do pênis cria uma sensação, e normalmente é uma boa maneira de levar um homem à ereção. Concentrar-se na cabeça, mais sensível, é mais intenso e costuma ser o lugar propício para gerar um orgasmo. Com o tempo, você aprenderá como fazer seu marido se excitar sem levá-lo ao “ponto sem volta”. É realmente uma amante habilidosa a mulher que é capaz de levar seu parceiro ao pico do êxtase sexual, mas que, então, sabe se afastar para prolongar o prazer e, em seguida, levá-lo de volta ao topo da montanha. Toques diferentes, diversos lugares para tocar, carícias especiais (algumas leves, outras firmes; algumas rápidas, outras lentas), todas elas criam experiências incomuns para seu marido. Em certos momentos do ato sexual, você notará que seu marido precisa de estimulação mais enérgica e direta; em outros, perceberá que a estimulação direta vai levá-lo diretamente ao orgasmo.

Especialize-se em conhecer seu marido, explorando de fato todo o corpo dele. Não são apenas as mulheres que gostam de carinho nos pés, nas costas e na cabeça. Os homens também gostam (só não fale sobre isso na frente dos amigos com quem ele joga futebol).

Algumas mulheres me perguntam se os homens possuem um ponto G. Alguns pesquisadores já foram bastante específicos, mas quando uma mulher me pergunta sobre isso, assumo uma abordagem diferente.

— Você quer conhecer o ponto G do seu marido?

— Sim.

— Certo, pense num leopardo cheio de manchas.

— Está bem.

— Está com a imagem na cabeça?

— Sim.

— Entendeu a comparação?

Os homens gostam de ser tocados, e todos os pontos funcionam muito bem. Apenas toque-os e eles vão reagir.



SEMPRE PRONTO

Para desgosto de muitas esposas, o Sr. Feliz não segue uma agenda. De fato, o Sr. Feliz nem mesmo sabe o que é uma agenda. Ele também tem uma memória muito curta.

Suponha, por exemplo, que você e seu marido tenham protagonizado uma agradável, longa e prazerosa sessão de amor na noite passada. No dia seguinte, seu marido a vê se esticando para colocar um livro na prateleira. É manhã de sábado, e você está arrumando a casa, de modo que não se preocupou em colocar o sutiã. Quando você se estica, seus seios se movem de modo provocante debaixo da camiseta.

Ora, como mulher, você deve estar pensando: “Fizemos sexo na noite passada, ainda não tomei banho e estou usando roupas horríveis. Numa escala de 1 a 10, o fator de sedução deve estar em 1”.

Contudo, você percebe que, em alguns segundos, seu marido se levanta para lhe dar um abraço por trás e, de repente, fica muito, muito consciente de que o Sr. Feliz não está exatamente “descansando”.

Você pensa: “O que há de errado aqui? Acabamos de fazer sexo na noite passada!”.

Sinto muito, mas isso é um relacionamento: não há marcação de pontos ou competição. O fato pode ser particularmente difícil para minhas leitoras primogênitas, que tendem a querer que tudo funcione de acordo com uma programação preestabelecida. Boa sorte na tentativa de colocar o Sr. Feliz dentro de uma agenda!

Se você conversar com casais satisfeitos, ouvirá a palavra espontaneidade. Uma vez que homens são movidos pelo que veem, uma rápida olhada numa mulher só com as roupas de baixo ou saindo do chuveiro pode ser suficiente para disparar um gatilho — especialmente se o sexo ocorreu já faz alguns dias. Em tais situações, seu marido pode não se importar se o culto da igreja começará daqui a quinze minutos ou se ele tem uma reunião importante no escritório. Uma das cenas de cinema mais famosas (a que não assisti, mas sobre a qual já li muito) é a de um dos primeiros filmes de Sharon Stone no qual ela aparentemente leva um tempo extra cruzando as pernas. Os homens por todo o país ficaram hipnotizados; tenho certeza de que as mulheres que assistiram à cena [de Instinto selvagem] pensaram: “O que há de tão importante nisso? Ela cruzou as pernas. Acabou antes de você perceber o que estava acontecendo”.

Confie em mim, esposa: um vislumbre é mais do que suficiente.

Não é apenas a visão que nos atrai. Uma mulher pode fazer muitas cabeças virarem apenas escolhendo o perfume certo. Os homens se transformam em cachorrinhos, totalmente conquistados por certos aromas.

— Quer se casar comigo?

— Mas eu nem conheço você!

— Isso não importa; se você sempre cheira bem assim, quero ser seu marido.

Lembro-me de uma vez, alguns anos depois de casados, em que Sande me disse: “Certamente não é preciso muita coisa para fazer que você fique ligado, Leman”. A mulher inexperiente pode pensar: “Onde é que eu fui me meter?”. Converso o tempo todo com esposas jovens que ficam realmente chocadas diante da frequência e da duração do interesse sexual de seu marido. Algumas me disseram que achavam que se elas simplesmente cedessem e fizessem sexo por seis dias seguidos, seu marido ficaria “curado”. Sem chance. Ele pode estar sorrindo nesta semana, mas na semana que vem, ele ainda estará interessado.

Essa mentalidade masculina “sempre ligada” não é uma conspiração; é a maneira como Deus nos criou. Tenha em mente o seguinte: “Deus criou meu marido assim”. Deus acha importante que seu marido se sinta quimicamente atraído por você e motivado a estar próximo de você de modo físico com regularidade e constância.

Não sei quantas mulheres já repreendi gentilmente dizendo: “Por favor, não culpe seu marido por ele ser homem”.

— O que você quer dizer com isso?

— Se queria alguém que adora conversar sobre as mesmas coisas que você faz e adorasse fazê-las também, deveria ter ficado solteira e cultivado amizades femininas. Mas você se casou com um homem que tem gostos diferentes e necessidades diferentes, entre as quais está o sexo.



NOVA ATITUDE

Mais importante que o tamanho de seus seios, que a medida de sua cintura, que o comprimento de suas pernas, é a sua atitude. A imensa maioria dos homens escolheria ter uma esposa de medidas menores, mas que tivesse uma atitude de disposição sexual, em vez de ter uma linda mulher fria, que trata o marido com desprezo, deixando-o constantemente na geladeira.

Uma atitude positiva também significa admirar e respeitar seu marido. É isso o que os homens querem. Infelizmente, tornou-se culturalmente aceitável atacar os homens e transformar os machos em criaturas de mente limitada que só pensam com o pênis. Isso não é verdade; homens sexualmente satisfeitos pensam em sexo muito menos do que homens sexualmente frustrados! Se seu marido é obcecado por sexo, talvez isso aconteça porque ele sente que não tem o suficiente!

A mulher precisa estar disposta a defender seu marido, mesmo nas conversas com suas amigas. Não há nada que deixe um homem mais orgulhoso e mais apaixonado por sua esposa do que saber que ela se colocou a favor dele e de sua espécie durante uma conversa acalorada entre mulheres. A propósito, as chances de isso chegar até ele são muito boas; é tão raro uma esposa respeitar seu marido dessa maneira que as pessoas quase que invariavelmente falam sobre isso.



SEXO FALADO — TRÊS MIL QUILÔMETROS DE DISTÂNCIA

Se você vive numa cidade grande, abra um jornal local e poderá encontrar (dependendo da legislação vigente) dezenas de anúncios de “disque-sexo”. Nos Estados Unidos os homens chegam a pagar três dólares ou mais por minuto nas ligações para esses números especiais para ouvir uma mulher lhes falar coisas obscenas.

Não há nenhuma dúvida de que isso é algo pervertido. Mas para que essa indústria prospere dessa forma, deve haver algo por trás dela. Nunca liguei para esses números, embora tenha sido tentado a fazê-lo com base em uma perspectiva psicológica, apenas para ver do que se trata. Quando ouvi falar disso pela primeira vez, não pude acreditar que um homem seria capaz de pagar tanto dinheiro por algo que parece um serviço tão estúpido.

Mas você sabe o que os fornecedores desse serviço pornográfico por telefone descobriram? O poder das palavras. Quando uma mulher diz algo que um homem consegue visualizar, essas palavras vívidas podem levá-lo direto ao orgasmo. Garanto a você que esses homens não estão ligando para ter uma conversa informal. Se não houvesse uma compensação, por assim dizer, eles não pagariam tanto dinheiro.

O que aquelas mulheres estão de fato dizendo (de uma maneira falsa e doentia)? “Quero você.” “Preciso de você.” “Se eu estivesse com você neste exato momento, você poderia fazer qualquer coisa que quisesse.” Tenho certeza de que é tão vulgar quanto pode ser, mas é um negócio próspero que movimenta muitos milhões de dólares.

Sabe qual é o tipo de marido que liga para esse serviço? Aquele que recebe uma dose constante de “Agora não”, “Aqui não”, “Você vai acordar as crianças” e “É só nisso que você pensa?”.

Já pensou em usar uma linguagem criativa com seu marido? Falaremos mais sobre isso em um capítulo mais adiante, mas quero plantar a ideia em sua mente agora mesmo.

“Mas, dr. Leman! O senhor não quer que eu fale como se fosse uma atendente do disque-sexo, não é?”

Não exatamente, mas considere o seguinte: imagine uma menina de 15 anos tendo um filho. É um pensamento triste, não? Você sabe que o pai provavelmente não estará por perto, e não há uma menina de 15 anos neste planeta que seja madura o bastante para cuidar sozinha de uma criança.

Agora imagine uma moça de 25 anos, casada há três, dando à luz. Você pensa nos avós felizes, no quarto arrumado, na alegria no rosto do casal.

O mesmo evento está acontecendo — o nascimento de uma criança — mas um é bastante certo, enquanto que o outro parece bem errado.

A brincadeira sexual pode ser assim. Não estou pedindo que você seja grosseira, rude e ofensiva. Mas quero que entenda que as palavras que você usa na cama são mais do que apenas ouvidas; elas são saboreadas, examinadas e celebradas. Se você lançar uma frase ou duas que pareça inadequada do lado de fora do quarto, pode se surpreender com a excitação que ela provoca em seu marido dentro do quarto.



SÓ PORQUE É GROSSEIRO NÃO SIGNIFICA QUE NÃO SEJA REAL

Muitas mulheres já ouviram o clichê grosseiro de que a abstinência sexual é fisicamente dolorosa para o homem devido à não liberação de esperma acumulado. Valendo-se disso, o namorado ou noivo tenta envolver a mulher numa relação sexual para que a condição dele seja aliviada. Você já sabe o que penso sobre isso.

Mas numa situação conjugal, a esposa precisa entender que existe um tanto de verdade nesse clichê. Em algumas ocasiões o marido vai acordar num estado de plena ereção. Ele pode se aproximar de sua esposa e ser rejeitado, mas a recusa não diminuirá o desejo dele.

Como posso colocar essa questão de uma maneira que não venha a ofender as leitoras mais sensíveis? Deixe-me dizer da seguinte forma: essa situação realmente pode machucar! Seu marido não está mentindo para você. Há momentos em que o alívio sexual é muito semelhante a uma necessidade urgente do homem. Serei honesto com você: se existe algo pior do que essa sensação, eu ainda não descobri. (Exceto, talvez, levar um chute ali.)

A mulher precisa entender que se o homem começa a ficar animadinho, ela pode dispensá-lo bem depressa dizendo “Ai, você está sempre excitado”, e esquecer totalmente o assunto. Mas o homem ainda estará literalmente dolorido. A arma está carregada, a última bala foi colocada no tambor, o alvo foi avistado e o gatilho está se movendo para trás. Portanto, ser jogado para o lado com toda naturalidade quando se está tão perto é demasiado frustrante.

“Eu jamais atiçaria meu marido para depois pular fora”, poderiam dizer algumas esposas, mas não estou falando disso. Às vezes o marido acorda desse jeito. Às vezes ele volta para casa, vindo do trabalho, vê a esposa se despir e fica assim. Você talvez não perceba quanto ele foi longe na escala de excitação porque seu corpo trabalha de modo diferente — mas é como se ele estivesse praticamente morrendo para ter intimidade.

O que isso tem a ver com você? Aquelas rapidinhas e os trabalhos manuais sobre os quais conversamos podem ser algo muito prático e bastante amoroso que uma esposa pode fazer. Seu marido não está querendo levá-la na conversa. Ele está pedindo que você o ajude; ao responder de maneira generosa, você fará que ele se sinta amado.



TORNE-SE MAIS SEXUAL

Um número muito grande das minhas clientes presume que o interesse sexual existe ou não existe. Elas acreditam que a presença de excitação é algo que tem vida própria. Ela vem e vai; não há nada que se possa fazer para aumentá-la ou mantê-la.

Isso simplesmente não é verdadeiro. Talvez você não pense naturalmente em sexo com tanta frequência quanto seu marido gostaria, mas, por amor a ele, você pode cultivar um interesse maior pelo sexo, e eu a incentivo a fazer isso.

O dr. Douglas Rosenau tem uma maravilhosa lista de dez coisas que você pode fazer para “manter o ato sexual como prioridade máxima em seu casamento”:[2]



1. Coloque em seu orçamento e invista algum dinheiro por mês em sua vida sexual, com coisas como lingerie, lençóis novos e noites ou finais de semana a serem passados juntos.

2. De vez em quando, use uma peça de lingerie sexy o dia inteiro e permita que essa sensação incomum a lembre constantemente do sexo.

3. Vá a um encontro social sem a roupa de baixo e diga a seu marido como está vestida assim que vocês saírem. Você o deixará louco e, ao mesmo tempo, ficará excitada.

4. Planeje uma surpresa sexual pelo menos uma vez por mês, na qual você tente surpreender seu marido de maneira sexualmente provocante.

5. Mantenha um lembrete mental e, apesar do cansaço ou do baixo interesse, inicie o sexo pelo menos uma vez por semana.

6. Brinque com a excitação sexual visual de seu marido, e exponha seu corpo nu em momentos incomuns, simplesmente para apreciar as reações dele.

7. Tome um banho de espuma e entregue-se a alguns deleites sensuais no final de um dia cansativo — é um grande afrodisíaco e a coloca em sintonia com seu próprio corpo.

8. Crie fantasias sexuais românticas sobre sua vida amorosa enquanto dirige e compartilhe-as com seu parceiro no final do dia.

9. Use um perfume especial que você associou em sua mente com o ato de fazer amor, e use-o na noite ou no dia em que você espera ter atividade sexual.

10. Pratique os exercícios Kegel (dos quais tratamos no capítulo 6).



E se você quisesse que seu marido conversasse mais e ele apenas dissesse: “Sinto muito, conversar simplesmente não me interessa tanto quanto interessa a você”? Você ficaria sentida, não é? De fato, é provável que algumas mulheres tenham maridos que disseram algo bastante semelhante. Ou se seu marido fosse habitualmente preguiçoso, recusando-se a ajudar, dizendo que trabalhar na casa não lhe desperta nenhum interesse, você logo se cansaria de seu desinteresse e desejaria que ele mudasse, certo?

Quando diz a seu marido que simplesmente não tem nenhum interesse em sexo, você está fazendo a mesma coisa. Na verdade, é pior. Você sempre consegue ligar para uma amiga para conversar ou contratar alguém para consertar alguma coisa na casa, mas seu marido não tem outro lugar aonde ir para expressar intimidade sexual.

O interesse sexual pode ser cultivado e mantido. Você pode precisar fazer algumas mudanças conscientes, mas elas podem acontecer — e se isso for o necessário para que você ame mais seu marido, então é isso o que deve acontecer.



SALMÃO MORTO

Outra questão que surge constantemente no consultório de aconselhamento se refere ao que acontece depois do sexo. Logo que me casei, fui surpreendido ao descobrir que quando o ato estava consumado, Sande queria que eu acariciasse suas mãos e continuasse mexendo nos braços dela por meia hora ou mais. Quando converso com homens, tento enfatizar para eles a importância da atenção após o sexo, mas, agora que estou falando para mulheres, deixe-me ser advogado dos homens.

Tenho um amigo que vive na região da costa noroeste do Pacífico, nos Estados Unidos. Todo mês de dezembro ou janeiro, ele e sua família fazem uma longa caminhada ao longo do rio Nooksack para ver as águias-de-cabeça-branca. Esses grandes pássaros se reúnem às dezenas, sendo que, às vezes, oito ou nove águias se sentam na mesma árvore.

O que leva essas águias-de-cabeça-branca para a costa noroeste do Pacífico? Salmões mortos ou moribundos. Sabe aqueles peixes pelos quais você paga bem caro no supermercado? Em dezembro ou janeiro é praticamente possível atravessar o rio Nooksack a pé, pisando em salmões mortos. Assim que desovam, eles viram de lado e morrem.

Depois de fazer sexo, o homem se sente como um salmão. É uma realidade biológica — deitamos de lado e damos um último suspiro antes de cair no sono. Pode parecer descaso para com a mulher, mas não é a nossa intenção. Temos que lutar conscientemente para não cair direto num profundo relaxamento ou sono.

Por favor, tente ser compreensiva. Seu marido está pensando: “Linda, eu acabei de lhe dar toda a atenção que tenho e um pouco mais, e você quer mais coisa?”. Maridos atenciosos tentarão superar isso, mas, às vezes, todos nós sucumbiremos ao “grande sono”.

Portanto, a escolha é sua: com sua disposição, atitude e palavras, você pode fazer seu marido se sentir o homem mais sortudo da face da terra; ou, com suas negativas repetidas, comentários mordazes e ressentimento, você pode castrá-lo e fazer que ele se sinta miserável. Isso é muito poder! Mas nosso Criador deve ter achado que você poderia lidar com esse poder, uma vez que planejou homens e mulheres dessa maneira. Se Deus fosse medir sua bondade e generosidade apenas pela maneira como você trata seu marido nessa área, o que acha que ele diria?


(Kevin Leman - Entre Lençóis)

NOTAS:
[1] Kevin Leman, Making Sense of the Men in Your Life, p. 43-44.

[2]A Celebration of Sex, p. 193.

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publicado às 15:52



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