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O PESO E A LEVEZA

por Thynus, em 29.11.16
Se, em tudo o que você quer fazer, começar perguntando: “Tenho certeza de que desejo fazê-lo infinitas vezes?”, isso se tornará o centro de gravidade mais sólido para você... Eis o ensinamento de minha doutrina: “Viva de forma a ter de desejar reviver — é o dever —, pois, em todo caso, você reviverá! Aquele para quem o esforço é a alegria suprema, que se esforce! Aquele que ama antes de tudo o repouso, que repouse! Aquele que ama antes de tudo se submeter, obedecer e seguir, que obedeça! Mas que saiba para o que dirige sua preferência, e não recue diante de nenhum meio! É a eternidade que está em jogo!” Essa doutrina é suave para aqueles que nela não têm fé. Ela não tem nem inferno nem ameaças. Aquele que não tem fé não sentirá em si senão uma vida fugidia.
(Nietzsche - A Vontade de Poder) 
 
O que Nietzsche invoca com a doutrina do eterno retorno – que afirma que tudo no universo está em constante movimento, constante mudança – é uma espécie de imperativo categórico pós-teísta. Se Kant defendia que as pessoas deveriam agir somente de acordo com a máxima segundo a qual um ato deveria se tornar uma lei universal, então Nietzsche defendia que elas agissem como se aquele ato fosse se repetir eternamente. Este é o grande propósito que cabe ao homem seriamente após Deus. É o antídoto de Nietzsche para o niilismo de sua época, e é uma luz com a qual ele vislumbrou os novos territórios da experiência e da compreensão humana que viriam a ser explorados por fenomenologistas e existencialistas. Nietzsche lança as bases para a ontologia de Sartre e para os temas que ele explora em suas obras literárias. O desafio constante de Nietzsche é nos mostrar o abismo; a cada esquina, ele nos pergunta: E agora?
(Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno)


 
O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que, um dia, tudo o que se viveu se há-de repetir outra vez e que essa repetição se há-de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito! Que significado terá este mito insensato?

O mito do eterno retorno diz-nos, pela negativa, que esta vida, que há-de desaparecer de uma vez por todas para nunca mais voltar, é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso, que, de hoje em diante e para todo o sempre, se encontra morta e que, por muito atroz, por muito bela, por muito esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor não têm qualquer sentido. Não vale mais do que uma guerra qualquer do século XIV entre dois reinos africanos, embora nela tenham perecido trezentos mil negros entre suplícios indescritíveis.

Mas algo se alterará nessa guerra do século XIV entre dois reinos africanos se, no eterno retorno, se vier a repetir um número incalculável de vezes?

Sem dúvida que sim: passará a erguer-se como um bloco perdurável cuja estupidez não terá remissão.

Se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, a historiografia francesa orgulhar-se-ia com certeza menos do seu Robespierre. Mas, como se refere a algo que nunca mais voltará, esses anos sangrentos reduzem-se hoje apenas a palavras, teorias, discussões, mais leves do que penas, algo que já não aterroriza ninguém. Há uma enorme diferença entre um Robespierre que apareceu uma única vez na história e um Robespierre que eternamente voltasse para cortar a cabeça aos franceses.

Digamos, portanto, que a ideia do eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não nos aparecem como é costume, porque nos aparecem sem a circunstância atenuante da sua fugacidade. Essa circunstância atenuante impede-nos, com efeito, de pronunciar um veredicto. Poderá condenar-se o que é efémero? As nuvens alaranjadas do poente iluminam tudo com o encanto da nostalgia; mesmo a guilhotina.

Não há muito, eu próprio me defrontei com o fato: parece incrível mas, ao folhear um livro sobre Hitler, comovi-me com algumas das suas fotografias; faziam-me lembrar a minha infância passada durante a guerra; diversas pessoas da minha família morreram nos campos de concentração dos nazistas, mas o que eram essas mortes comparadas com uma fotografia de Hitler que me fazia lembrar um tempo perdido da minha vida, um tempo que nunca mais há-de voltar?

Esta minha reconciliação com Hitler deixa entrever a profunda perversão inerente ao mundo fundado essencialmente sobre a inexistência de retorno, porque nesse mundo tudo se encontra previamente perdoado e tudo é, portanto, cinicamente permitido.

Para Kundera, a leveza decorre da ausência de compromisso, enquanto o peso é a responsabilidade que da sentido e nos mantém com os pés no chão. Essa leveza às vezes é  insustentável quando contrastada com o peso do destino.
 
Se cada segundo da nossa vida tiver de se repetir um número infinito de vezes, ficamos pregados à eternidade como Jesus Cristo à cruz. Que ideia atroz! No mundo do eterno retorno, todos os gestos têm o peso de uma insustentável responsabilidade. Era o que fazia Nietzsche dizer que a ideia do eterno retorno é o fardo mais pesado (das schwerste Gewicht).

Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano de fundo, as nossas vidas podem recortar-se em toda a sua esplêndida leveza.

Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela?

O fardo mais pesado esmaga-nos, verga-nos, comprime-nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado

for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é.

Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fá-lo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes.

Que escolher, então? O peso ou a leveza?

Foi a questão com que se debateu Parménides, no século VI antes de Cristo. Para ele, o universo estava dividido em pares de contrários: luz-sombra; espesso-fino; quente-frio; ser-não ser. Considerava que um dos pólos da contradição era positivo (o claro, o quente, o fino, o ser) e o outro, negativo. Esta divisão em pólos positivos e negativos pode parecer de uma facilidade pueril. Excepto num caso: o que é positivo: o peso ou a leveza?

Parménides respondia que o leve é positivo e o pesado, negativo. Tinha razão ou não? O problema é esse. Mas uma coisa é certa: a contradição pesado-leve é a mais misteriosa e ambígua de todas as contradições.

(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)
O peso insuportável da leveza

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publicado às 03:54


Compaixão

por Thynus, em 28.11.16
Em todas as línguas derivadas do latim, a palavra compaixão forma-se com o prefixo ''com'' e a raiz ''passio'' que, na sua origem, significa sofrimento. Noutras línguas, como, por exemplo, em checo, em polaco, em alemão, em sueco, a palavra traduz-se por um substantivo formado por um prefixo equivalente seguido da palavra ''sentimento'' (em checo: sou-cir; em polaco: wspol-czucie; em alemão: Mit-gefühl; em sueco: med-känsla).

Nas línguas derivadas do latim, a palavra compaixão significa que ninguém pode ficar indiferente ao sofrimento de outrem; ou, de outra maneira: sente-se sempre simpatia por quem sofre. Outra palavra que tem mais ou menos o mesmo sentido, e que é piedade (em inglês pitv, em italiano pierà, etc.), chega até a sugerir uma espécie de indulgência para com o ser que sofre. Ter piedade de uma mulher é sermos mais favorecidos do que ela, é inclinarmo-nos, baixarmo-nos até ela.

Por isso é que a palavra compaixão inspira geralmente uma certa desconfiança; designa um sentimento considerado como de segunda ordem e que não tem grande coisa a ver com o amor. Amar alguém por compaixão é de fato não amar essa pessoa.

Nas línguas em que a palavra compaixão não se forma com a raiz ''passio = sofrimento'' mas com o substantivo ''sentimento'', a palavra é empregue mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que designa um sentimento mau ou medíocre. A força secreta da sua etimologia banha a palavra de uma outra luz e dá-lhe um sentido mais lato: ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com o outro não só a sua infelicidade mas sentir também todos os seus outros sentimentos: alegria, angústia, felicidade, dor. Esta compaixão (no sentido de soucit, wspolrzurie, Mitgefühl, medkänsla) designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afectiva, ou seja, a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo.

Sonhando que estava a enfiar agulhas por baixo das unhas, Tereza traía-se a si própria porque revelava a Tomas que mexia às escondidas nas suas gavetas. Se fosse outra mulher, nunca mais lhe dirigiria palavra. Consciente disso, Tereza dissera-lhe: ''Põe-me na rua!'' Ora, ele não só não a tinha posto na rua como lhe pegara na mão e lhe beijara a ponta dos dedos, já que, nesse momento, sentia a mesma dor que ela por baixo das unhas, como se os dedos de Tereza estivessem directamente ligados ao seu cérebro.

Aquele que não possui o dom diabólico da compaixão (co-sentimento) não pode senão condenar friamente o comportamento de Tereza, porque a vida privada do outro é sagrada e não se devem abrir as gavetas onde ele guarda a sua correspondência pessoal. Mas como a compaixão se tornara o destino (ou a maldição) de Tomas, parecia-lhe que fora ele que se ajoelhara em frente da gaveta da secretária e ficara hipnotizado pelas frases escritas pela mão de Sabina. Compreendia Tereza e não só era incapaz de querer-lhe mal como o seu gesto o fazia amá-la ainda mais.

 (Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)

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publicado às 21:34

O debate entre aqueles que afirmam que o universo foi criado por Deus e aqueles que pensam que ninguém o criou tem como objecto algo que ultrapassa o nosso entendimento e a nossa experiência. Bem mais real é a diferença entre aqueles que contestam o ser tal como foi dado ao homem (pouca importa como e por quem) e aqueles que a ele aderem sem reservas de espécie nenhuma.

Todas as crenças europeias, sejam elas religiosas ou políticas, têm por detrás de si o primeiro capítulo do Génesis, do qual se infere que o mundo foi criado tal como devia ser, que o ser é bom e, por consequência, que procriar é uma coisa boa. Chamemos a esta crença fundamental acordo categórico com o ser.

Se, ainda recentemente, a palavra merda era substituída nos livros por três pontinhos, não era seguramente por uma questão de moral. Apesar de tudo, ninguém pode pretender que a merda seja imoral! O desacordo com a merda é metafísico. O instante da defecção é a prova quotidiana do carácter inaceitável da criação. Das duas, uma: ou a merda é aceitável (então porque é que se fecham na casa de banho?) ou a maneira como nos criaram é que é inadmissível.

Daqui se infere que o acordo categórico com o ser tem como ideal estético um mundo onde a merda é negada e onde todos se comportam como se ela não existisse. Esse ideal estético chama-se kitsch.

É uma palavra alemã que apareceu em meados do século XIX sentimental e que depois se vulgarizou em todas as línguas. Mas a sua utilização frequente fê-la perder todo o valor metafísico original: o kitsch é, por essência, a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal como no sentido figurado, o kitsch exclui do seu campo de visão tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.

(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)

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publicado às 03:08

"Então os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; em seguida entrelaçaram folhas de figueira e fizeram cintas para cobrir-se."
(Gn. 3, 7) 

São Jerónimo rejeitava categoricamente, no século IV, a possibilidade de que Adão e Eva alguma vez tivessem dormido um com o outro no Paraíso. João Escoto Erígena, ilustre teólogo do século IX, defendia precisamente o contrário. Mas, na sua opinião, Adão podia levantar o seu membro mais ou menos como nós levantamos um braço ou uma perna, ou seja, quando queria e como queria. Não tentemos descortinar por detrás desta ideia o eterno sonho do homem obcecado com o pesadelo da impotência. A ideia de Escoto Erígena tem um significado completamente diferente. Se o membro viril se levanta a uma simples ordem do cérebro, é porque a excitação é dispensável. O membro não se levanta por estar excitado, mas porque obedece a uma ordem. O que o grande teólogo julgava incompatível com o Paraíso não era o coito e a volúpia que lhe está associada. O que era incompatível com o Paraíso era a excitação. Fixemo-lo bem: no Paraíso, havia volúpia, mas excitação, não.

O raciocínio de Escoto Erígena pode constituir a chave de uma justificação teológica (ou, por outras palavras, de uma teodiceia) da  merda. Enquanto foi permitido ao homem viver no Paraíso, ou ele não defecava (tal como Jesus Cristo, segundo Valentino) ou, o que parece mais plausível, a merda não era tida como algo de repugnante. Ao expulsar o homem do Paraíso, Deus revelou-lhe tanto a sua natureza imunda como o nojo. O homem começou a esconder aquilo de que se envergonhava e quando afastava o véu quase ficava cego com o brilho de uma grande luz. Assim, logo a seguir a ter descoberto o imundo, também descobriu a excitação. Sem a merda (no sentido literal e no sentido figurado da palavra), o amor sexual não seria nunca tal como nós o conhecemos: com o coração a martelar e uma grande cegueira dos sentidos.

Na terceira parte deste romance, evoquei Sabina seminua, com o chapéu de coco na cabeça, de pé, ao lado de Tomas, todo vestido. Mas há uma coisa que ocultei. Enquanto se viam ao espelho e ela se sentia excitada com o ridículo da situação, imaginava que, tal como estava, com o chapéu de coco na cabeça, Tomas a obrigava a sentar na privada e a esvaziar os intestinos à sua frente. O coração começou a bater-lhe mais depressa, as ideias a turvarem-se-lhe; empurrou Tomas para cima da carpete; no minuto seguinte, estava a gritar de prazer.

(MIlan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)

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publicado às 02:50

Quando eu era pequeno, punha-me a olhar para uma imagem de Deus Nosso Senhor de pé, em cima de uma nuvem que havia no Antigo Testamento, contado às crianças e ilustrado com gravuras de Gustavo Doré, que costumava folhear. Era um senhor bastante velho, com olhos, nariz, uma grande barba, e eu achava que, como tinha boca, também devia comer. E, se comia, também devia ter intestinos. Mas ficava logo assustado com a ideia porque, embora a minha família fosse quase ateia, percebia bem a blasfémia que era pensar que Deus Nosso Senhor tinha intestinos.

Sem a mínima preparação teológica, com toda a espontaneidade, a criança que eu era então já compreendia, portanto, a fragilidade da tese fundamental da antropologia cristã, segundo a qual o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Das duas, uma: ou o homem foi criado à imagem de Deus e Deus tem intestinos, ou Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele.

Os gnósticos antigos sentiam-no tão claramente como eu, aos cinco anos. Para acabar de uma vez por todas com este maldito problema, Valentino, grão-mestre da Gnose do século II, afirmava que Jesus “comia, bebia, mas não defecava”.

A merda é um problema teológico mais difícil do que o mal. Deus ofereceu a liberdade ao homem e, portanto, pode admitir-se que ele não é responsável pelos crimes da humanidade. Mas a responsabilidade pela existência da merda incumbe inteiramente àquele que criou o homem, e só a ele.

(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)

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publicado às 02:31


Concluo a apresentação das dez heresias do catolicismo actual, segundo J. I. González Faus. 

 

7. "Apresentar a Igreja como objecto de fé". Que se entende por Igreja? É decisivo responder adequadamente a esta pergunta, para afastar o perigo em que caiu o Papa Pio IX, que se negava a renunciar aos Estados Pontifícios, alegando que "aqueles territórios não eram seus, mas de Cristo". A Igreja não é Deus, é comunidade de comunidades formadas por homens e mulheres que acreditam em Jesus e no Deus que Jesus revelou. Homens e mulheres que acreditam no Deus de Jesus formam a Igreja e é em Igreja que acreditam em Deus. Temos, pois, um erro quando "a Igreja se apresenta como objecto de fé, equiparando-se ao Deus trino e esquecendo que só em Deus, e em mais ninguém, é possível crer, no sentido pleno da palavra". Percebe-se também que a autoridade na Igreja só como serviço se pode compreender.

 

8. "A divinização do Papa". "Confessamos que o Papa romano tem poder para mudar a Escritura e aumentá-la ou diminuí-la de acordo com a sua vontade. Confessamos que o santíssimo Papa deve ser honrado por todos com a honra devida a Deus e com a genuflexão maior devida a Cristo." Estas "palavras incríveis" provêm da profissão de fé que os jesuítas propunham aos protestantes húngaros para passarem à Igreja Católica nos finais do século XVII. O Papa Bento XVI, quando era professor, denunciou esta profissão como "monstruosa", reconhecendo depois que o magistério nunca a condenou.

As citações nesta linha são quase infindáveis. Atribuíram-se ao Papa títulos como "Vice-Deus da humanidade", "o Verbo encarnado que se prolonga". Num livro de meditações atribuído a São João Bosco, lê-se: "O Papa é Deus na Terra. Jesus colocou o Papa no mesmo nível de Deus." Chama-se a isto culto da personalidade e idolatria. Leia-se o "incrível" texto chamado Dictatus Papae, do Papa Gregório VII, século XI: "A Igreja romana foi fundada só por Jesus Cristo. Por isso, só o Romano Pontífice é digno de ser chamado universal. Só ele é digno de usar insígnias imperiais; ele é o único homem cujos pés todos os príncipes beijam. Não existe texto jurídico algum fora da sua autoridade; a sua sentença não pode ser reformada por ninguém e ele pode reformar as de todos. Ele não pode ser julgado por ninguém. A Igreja romana nunca se equivocou e nunca poderá equivocar-se. O Romano Pontífice canonicamente ordenado é sem dúvida santo pelos méritos de São Pedro." Na famosa bula Unam sanctam, o Papa Bonifácio VIII define que "submeter-se ao Romano Pontífice é necessário para a salvação de todos os homens". O Papa Gregório XVI opôs-se à tradição que fala de uma "Igreja com necessidade constante de reforma", acusando-a de "absurda e injuriosa", porque não se pode "nem sequer pensar que a Igreja esteja sujeita a defeito ou ignorância ou a quaisquer outras imperfeições".

A Igreja acabou por ser confundida com o Papa, como consta no programa do grupo La Sapinière, que o Papa São Pio X apoiou tacitamente: "Pode-se dizer que o Papa e a Igreja são uma só coisa." E, embora a palavra hierarquia (poder sagrado) nunca apareça no Novo Testamento, e, na linguagem eclesiástica, só no século V, de facto o cristianismo foi sendo reduzido a um eclesiocentrismo e este a um hierarcocentrismo: "A Igreja reduzida ao poder sagrado e o resto dos fiéis é apenas objecto deste poder, cuja única missão é "aceitar ser governado e obedecer" (e pagar), como disse o Papa Pio X. E, por fim, este hierarcocentrismo é reduzido à figura do Papa, separado do colégio episcopal pela forma como a cúria romana costuma governar."

E aí está como o Papa, cuja missão é de unidade, foi fonte de ruptura: lembrar o cisma do Oriente (1054) e a Reforma protestante (1517), e como se percebe o fascínio do Papa Francisco, porque é um papa cristão.

 

9. "Clericalismo". Tudo se concentra nesta pergunta: Deus pode ser concebido como Poder, quando Jesus o revelou como "Amor que capacita para amar"?

No Novo Testamento, "a comunidade toda de crentes é "clerical", porque foi chamada a compartilhar a herança (klêros) dos santos na luz", como se lê na Carta aos Colossenses. "Não existem, portanto, clero e laicado, mas uma comunidade, um povo afortunado que, como qualquer grupo humano, precisará de diversos serviços": ensino, direcção, coordenação. E "os responsáveis das Igrejas são chamados presbíteros, supervisores, servidores, "os que trabalham por vós"..., mas nunca sacerdotes." Só mais tarde os ministérios eclesiais se revestiram de dignidade mundana, passando-se então do "povo afortunado" para "os afortunados do povo". E aí está o clericalismo para dentro e para fora da Igreja.

 

10. "Esquecimento do Espírito Santo". A raiz de todas estas heresias: o esquecimento do Espírito do Deus de Jesus, Espírito criador, que une na diferença e renova todas as coisas.

 


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publicado às 19:40


Continuo, com J.I. González Faus, a apresentar as dezheresias do catolicismo actual. 

 

4. "Desfiguração da Ceia do Senhor." Imaginemos uma conversa entre um cristão piedoso de hoje e um cristão do século I. Aquele dirá que o centro da sua vida cristã é a "adoração eucarística" e este só lentamente entenderá que se está a referir à "fracção do pão" e também que a Missa quer dizer "a Ceia do Senhor". O que se passou?

Os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia em casas particulares, com todos à volta da mesma mesa; ali, pela primeira vez na história, escravos e senhores sentaram-se uns ao lado dos outros. De acordo com o Novo Testamento, "nem sequer era o presbítero que presidia à celebração, embora pouco a pouco se tenha imposto que o presidente da Eucaristia fosse aquele que presidia à comunidade, talvez para aprender que devia exercer a autoridade não impositivamente, mas igualitariamente, e procurando o máximo de comunhão possível".

Quando os cristãos se tornaram multidão, foram necessários locais amplos, o latim deixou de ser entendido pelo povo, os assistentes já não participavam, com o celebrante de costas e à distância e as pessoas a fazerem "outra coisa" (rezar o terço...) enquanto "estão na Missa", atentos ao momento da "consagração" e, depois, alguns vão receber a hóstia. Tudo se centrou no culto da hóstia, "totalmente separado do gesto do partir, partilhar o pão". Da refeição passou-se a um acto de culto, com uma deturpação fundamental da Eucaristia: "Separar completamente a matéria (pão e vinho) do gesto (partilhá-los)", quando "partir o pão significa compartilhar a necessidade humana (da qual o pão é símbolo primário) e passar a taça é comunicar a alegria, da qual o vinho é outro símbolo humano ancestral". O corpo e o sangue são a pessoa e a vida de Jesus vivo.

 

5. "Transformar o cristianismo numa doutrina teórica." Heresia fundamental, que consiste em desfigurar a fé cristã, "transformada numa doutrina teórica ou numa religião centrada no culto, em vez de ser uma vida e um caminho crente para a transformação do mundo". À maneira dos gnósticos, põe-se o acento no conhecimento, que pode ser passivo, em vez de no amor, que é essencialmente activo: o decisivo do cristianismo não é dizer "Senhor, Senhor", mas "fazer a vontade do Pai", que consiste em que "todos tenham vida e vida em abundância". "A glória de Deus é a vida do homem", dizia Santo Ireneu.

O que então fica resume-se, infelizmente, em duas teses: a) "Deixadas à sua própria inércia, as sociedades estruturam-se de modo anticristão, não porque se estruturem de maneira laica ou reconheçam as uniões homossexuais, mas porque se estruturam na desigualdade, que é o valor mais contrário à paternidade do único Deus e o mais característico da divindade do Dinheiro"; b) "O Dinheiro é o único Deus verdadeiro das nossas sociedades que se consideram modernas, mas também o verdadeiro "senhor" de todos nós, que ameaça levar-nos à nossa própria destruição e à destruição do planeta." E "o nosso catolicismo foi cúmplice deste processo degenerador tão contrário à sua essência".

 

6. "Negação da absoluta incompatibilidade entre Deus e o Dinheiro." Afinal, a inscrição do dólar não é "In God we trust", mas "In Gold we trust", como parodiou E. Dussel. O problema dos imensamente ricos frente aos pobres que morrem a cada dia de fome aos milhares, mais do que um escândalo moral monstruoso, é a idolatria do deus Dinheiro, sendo essa a razão de se contar no número das heresias: "Uma visão teológica que pode desfigurar nada menos que a identidade do Deus bíblico. Deus é o Deus dos pobres, conhecê-lo não é especular muito nem sequer rezar muito, mas "praticar a justiça", como disse o profeta Jeremias."

Quando se olha para a linguagem oficial da Igreja, "dá a sensação de que toda a moral se reduz ao sexo e que é aqui que é preciso levantar a voz, ao passo que se deixa o dinheiro correr pecaminosamente sem o molestar". Ao contrário de Jesus, que foi parco no tema sexual, exigente na teoria e compreensivo com as pessoas concretas, mas duro quanto à riqueza opressora. "Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro." Significativamente, os Evangelhos, escritos em grego, mantiveram a palavra aramaica Mamôn (e além disso, sem artigo, como se fosse um nome próprio) para designar a riqueza: porque vem da mesma raiz (mn) do verbo crer, acreditar. "É uma maneira de dizer, mais uma vez, que God e Gold são muito aparentados: não se pode adorar ao mesmo tempo Deus e o Dinheiro." Quando se pensa na força crescente do Dinheiro, cada vez com mais possibilidades, pois já não se trata de meros poderes pessoais, mas estruturais e anónimos, é preciso rever a sociologia da religião: afinal, ela está em aumento, o que diminui é a fé no Deus de Jesus, o Deus que criou o mundo para todos e não apenas para os ricos. "O deus dos senhores é diferente." (J.M. Arguedas).

 


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publicado às 19:39


Heresia vem do grego háiresis, com o significado de parcialidade. Ora, pode acontecer que uma parcialidade se absolutize de tal modo que já não deixa espaço para elementos imprescindíveis da identidade cristã. É neste sentido que o jesuíta J.I. González Faus, um dos teólogos vivos mais sólidos e cristãos, escreveu um livro intenso com o título em epígrafe, para desmontar as dez heresias que inconscientemente foram tomando conta da teologia e da vida, arruinando a identidade cristã. Será o nosso guia também nas duas próximas semanas.

 

1. Primeira heresia: "Negação da verdadeira humanidade de Jesus." Como reconhecer em Jesus "uma psicologia humana como a nossa: sujeita ao erro e à ignorância ou à fraqueza, à angústia, ao medo ou à sensação de fracasso"? O problema está em que já se tem uma ideia prévia de Deus e estas características parecem incompatíveis com a dignidade divina. Mas qual é a consequência? Ao exigir que, em Jesus, Deus corresponda à imagem que temos dele, acabamos por impedir que Jesus revele efectivamente Deus. São Paulo, esse, percebeu, ao escrever que o Deus que anunciamos é "loucura para os sábios e escândalo para as pessoas religiosas". Afinal, a noção de dignidade divina deve ser concebida em consonância com a ideia humana ou a partir do exemplo de Jesus? "Eu, Senhor e Mestre, dei-vos o exemplo, lavando-vos os pés.".Jesus, de condição divina, escreve São Paulo, "apresentou-se como um entre outros", "sendo rico, fez-se pobre por nós, a fim de enriquecer-nos com a sua pobreza", mostrando que a verdade de Deus é o seu amor na autenticidade e fidelidade.

 

2. Vinculada à primeira, a segunda heresia: "Negação da eminente dignidade dos pobres na Igreja.".De facto, a negação da verdadeira humanidade e humilhação do Messias leva a não preocupar-se com os humilhados, os pobres, atribulados, famintos, refugiados ou presos, embora seja com eles que Jesus em primeiro lugar se identificou. O Papa Francisco tem razão, voltando a uma Igreja pobre para os pobres.

O que lemos no capítulo 25 do Evangelho segundo São Mateus, referente ao Juízo Final? Todos são julgados pela maneira como reagiram diante do Deus presente no necessitado, no faminto, no nu, embora o não soubessem: "O que fizestes a um destes mais pequeninos foi a mim que o fizestes." Este passo do Evangelho é abissal, pois nele não temos um ensinamento em primeiro lugar ético mas teológico, um ensinamento sobre Deus, como ele se comporta e é: não é possível falar sobre Deus sem a sua relação com os seres humanos, a começar pelos mais desamparados. "É falso todo o Deus cuja glória não seja a vida do homem." Também está na Primeira Carta de São João: "Se alguém possui bens deste mundo e, vendo o seu irmão passar necessidade, não o socorre, não pode estar nele o amor de Deus."

 

3. Terceira heresia: "Falsificação da cruz de Cristo." "O que foi que condenou Jesus a uma morte tão atroz? Foi Pilatos? Foram os escribas e fariseus? Não, meus irmãos, não. Foi a Justiça divina que nunca quis dizer "basta" até que o viu expirar sob este suplício. O Salvador bondoso agonizava suspenso no ar por três cravos, derramava lágrimas de sangue, sangrava por todos os lados. Mas a Justiça divina, inexorável, dizia: "Ainda não." A sua doce mãe chorava ao pé da cruz, soluçavam as piedosas mulheres, gemiam todos os anjos e espíritos bem-aventurados diante de tão cruel espectáculo. Mas a Justiça, sem se deixar comover, repetia: "Ainda não." E não disse "já basta" enquanto o não viu exalar o último suspiro. O que dizeis então, meus irmãos? "Se a Justiça divina tratou tão severamente o Unigénito do Pai só porque havia tomado sobre si os nossos pecados, como nos tratará a nós que somos os verdadeiros pecadores?"

Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro, inexorável, que se não deixa comover, e uma teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus revelou como Abbá e Misericórdia, na parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte, daqui: estamos a um passo de uma redenção "sadomasoquista", com a perversão de uma grande verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num falso princípio: "Tudo o que custa vale." "A Cruz transformou-se assim em factor de resignação, quando na realidade é o resultado de Jesus não se ter resignado perante a injustiça estabelecida."A morte de Jesus é "uma consequência da sua vida e não uma exigência metafísica da justiça de Deus". Não morreu vítima de um Deus irado, que precisa de ser aplacado, mas vítima da maldade do mundo; morreu para ser consequente com a sua mensagem, dando testemunho até à morte do Deus que é Amor. 

 


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publicado às 19:38


A condição humana

por Thynus, em 25.11.16
A grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.
 

Em nome de interesses pessoais, muitos abdicam do pensamento crítico, engolem abusos e sorriem para quem desprezam. Abdicar de pensar também é crime.
Hannah Arendt   

"Visto que a autoridade sempre exige obediência, ela é comumente confundida com alguma forma de poder ou violência. Contudo, a autoridade exclui a utilização de meios externos de coerção; onde a força é usada, a autoridade em si mesma fracassou. A autoridade, por outro lado, é incompatível com a persuasão, a qual pressupõe igualdade e opera mediante um processo de argumentação. Onde se utilizam argumentos, a autoridade é colocada em suspenso. Contra a ordem igualitária da persuasão ergue-se a ordem autoritária, que é sempre hierárquica. Se a autoridade deve ser definida de alguma forma, deve sê-lo, então, tanto em contraposição à coerção pela força como à persuasão através de argumentos. (...) A autoridade implica uma obediência na qual os homens retêm sua liberdade”.
(Entre o passado e o futuro - Hannah Arendt )
 


O Filho de Deus nascido, 1896, Munique
 
 

“De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?” Concebidos em suprema simplicidade por Paul Gauguin na tela de sua obra-prima taitiana, esses são de fato os problemas centrais da religião e da filosofia. Seremos capazes de resolvê-los um dia? Às vezes parece que não. Mas talvez sejamos.

A humanidade hoje é como um sonâmbulo, imprensada entre as fantasias do sono e o caos do mundo real. A mente procura mas não consegue achar o lugar e a hora precisos. Criamos uma civilização de Guerra nas estrelas, com emoções da Idade da Pedra, instituições medievais e tecnologia divina. Nós nos debatemos. Ficamos perplexos com o mero fato de nossa existência, e nos tornamos um perigo para nós e para o resto dos seres vivos.

A religião jamais resolverá esse grande enigma. Desde o Paleolítico, cada tribo — as quais têm se multiplicado aos milhares e milhares — inventou seu próprio mito da criação. Durante esse longo tempo do sonho de nossos ancestrais, seres sobrenaturais falaram com xamãs e profetas. Identificaram-se aos mortais alternadamente como Deus, uma tribo de deuses, uma família divina, o Grande Espírito, o Sol, espíritos dos ancestrais, serpentes supremas, híbridos de diversos animais, quimeras em parte humanas, em parte animais, aranhas celestes onipotentes — qualquer coisa que pudesse ser evocada pelos sonhos, por alucinógenos e pela imaginação fértil dos líderes espirituais. Foram moldados em parte pelos ambientes de seus inventores. Na Polinésia, os deuses separaram o céu do solo e do mar, e a criação da vida e da humanidade se sucedeu. Nos patriarcados do judaísmo, do cristianismo e do islamismo que habitavam o deserto, não surpreende que os profetas concebessem um patriarca divino, todo-poderoso, que fala com seu povo através da escritura sagrada.

As histórias da criação davam aos membros de cada tribo uma explicação de sua existência. Faziam com que se sentissem amados e protegidos acima de todas as outras tribos. Em troca, os deuses exigiam crença e obediência absolutas. E com razão. O mito da criação era o elo essencial que mantinha a tribo unida. Ele fornecia aos seus crentes uma identidade singular, exigia sua fidelidade, fortalecia a ordem, garantia o cumprimento da lei, encorajava a bravura e o sacrifício e dava sentido aos ciclos de vida e morte. Nenhuma tribo conseguia sobreviver por muito tempo sem que o sentido de sua existência fosse definido por uma história da criação. A opção era enfraquecer, dissolver-se e morrer. Na história inicial de cada tribo o mito, portanto, se tornou uma verdade absoluta.

O mito da criação é um dispositivo darwiniano para a sobrevivência. O conflito tribal, contrapondo os crentes de dentro aos infiéis de fora, foi uma importante força propulsora que moldou a natureza humana biológica. A verdade de cada mito vivia no coração, não na mente racional. A criação de mitos, sozinha, jamais conseguiu descobrir a origem e o sentido da humanidade. Mas a ordem inversa é possível. A descoberta da origem e do sentido da humanidade poderia explicar a origem e o sentido dos mitos, e, portanto, o núcleo da religião organizada.

Essas duas visões de mundo poderão se reconciliar? A resposta, em termos sinceros e simples, é não. Elas são irreconciliáveis. Sua oposição define a diferença entre ciência e religião, entre confiança no empirismo e crença no sobrenatural.

Se o grande enigma da condição humana não pode ser resolvido pelo recurso à base mítica da religião, tampouco será resolvido pela introspecção. A investigação racional pura não consegue conceber seu próprio processo. A maioria das atividades do cérebro sequer é percebida pela mente consciente. O cérebro é a cidadela, como disse certa vez Darwin, que não pode ser conquistada pelo ataque direto.

Pensar sobre o pensamento é o processo central das artes criativas, mas é algo que nos diz muito pouco sobre como pensamos assim, e nada nos informa sobre por que as artes criativas se originaram. A consciência, tendo evoluído por milhões de anos de luta de vida ou morte, e sobretudo devido a essa luta, não foi projetada para o autoexame. Ela foi projetada para sobrevivência e reprodução. O pensamento consciente é movido pela emoção, estando totalmente comprometido com o propósito de sobrevivência e reprodução. As distorções intricadas da mente podem ser transmitidas pelas artes criativas em detalhes refinados, mas são construídas como se a natureza humana jamais tivesse uma história evolutiva. Suas metáforas contundentes não nos aproximaram da solução do enigma mais do que o teatro e a literatura da Grécia antiga.

Os cientistas, examinando os contornos da cidadela, buscam brechas potenciais em suas muralhas. Com tecnologia projetada para esse propósito, penetraram-na e agora leem os códigos e rastreiam as vias de bilhões de células nervosas. Dentro de uma geração, provavelmente teremos progredido o suficiente para explicar a base física da consciência.

Mas quando a natureza da consciência for solucionada, saberemos então o que somos e de onde viemos? Não, não saberemos. Entender as operações físicas do cérebro até seus fundamentos nos aproxima do Graal. Para achá-lo, porém, precisamos de muito mais conhecimentos coletados da ciência e das humanidades. Precisamos entender como o cérebro evoluiu da maneira que evoluiu, e por quê.

Além disso, buscamos em vão na filosofia a resposta ao grande enigma. Apesar de seus nobres propósito e história, a filosofia pura há muito abandonou as perguntas básicas sobre a existência humana. Essa própria investigação é uma assassina de reputações. Tornou-se uma Górgona para os filósofos, cujo semblante até os melhores pensadores temem olhar. Eles têm boas razões para sua aversão. A maior parte da história da filosofia consiste em modelos fracassados da mente. O campo do discurso está coalhado dos destroços de teorias da consciência. Após o declínio do positivismo lógico, em meados do século xx, e das tentativas desse movimento de fundir ciência e lógica num sistema fechado, os filósofos profissionais se dispersaram em uma diáspora intelectual. Eles emigraram para as disciplinas menos espinhosas ainda não colonizadas pela ciência — história intelectual, semântica, lógica, fundamentos da matemática, ética, teologia e, mais lucrativamente, problemas de ajuste na vida pessoal.

Os filósofos florescem nesses vários empreendimentos, mas, ao menos por enquanto, e por um processo de eliminação, a solução do enigma ficou a cargo da ciência. O que a ciência promete, e já ofereceu em parte, é o seguinte: existe uma história da criação real da humanidade, e somente uma, e não é um mito. Ela vem sendo elaborada, testada, enriquecida e fortalecida, passo a passo.

Sustentarei que os avanços científicos, especialmente aqueles das duas últimas décadas, são agora suficientes para abordarmos, de forma coerente, as questões sobre de onde viemos e o que somos. Para isso, porém, precisamos de respostas a duas questões ainda mais fundamentais levantadas pela investigação. A primeira é por que a vida social avançada chegou a existir e tem ocorrido tão raramente na história da vida. A segunda se refere à identidade das forças propulsoras que a fizeram surgir.

Esses problemas podem ser resolvidos reunindo-se informações de várias disciplinas, variando entre genética molecular, neurociência e biologia evolutiva e arqueologia, ecologia, psicologia social e história.

Para testar qualquer dessas teorias de processo complexo convém apresentar outros conquistadores da Terra, com estrutura social altamente desenvolvida, formigas, abelhas, vespas e cupins, o que farei. Eles são necessários para fornecer uma perspectiva ao desenvolvimento da teoria da evolução social. Creio que posso ser facilmente mal interpretado ao colocar insetos junto das pessoas. Já bastam os macacos, você poderia alegar, mas insetos? Na biologia humana, é sempre bom fazer essas justaposições. Existem precedentes em comparar os menores com os maiores. Os biólogos voltaram-se com grande sucesso às bactérias e leveduras para aprender os princípios da genética molecular humana. Eles dependeram de nematódeos e moluscos para aprender a base da nossa organização neural e da nossa memória. E as drosófilas nos ensinaram muito sobre o desenvolvimento dos embriões humanos. Também com os insetos sociais temos bastante a aprender, nesse caso para esclarecer com mais precisão a origem e o sentido da humanidade.


(Edward O. Wilson - A Conquista Social da Terra)

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publicado às 18:52

Não existe Graal mais fugidio ou precioso na vida da mente que a chave da compreensão da condição humana. Aqueles que a buscam sempre tiveram por costume explorar o labirinto dos mitos: na religião, os mitos da criação e os sonhos dos profetas; no caso dos filósofos, os vislumbres da introspecção e os raciocínios neles baseados; nas artes criativas, relatos baseados na ação dos sentidos.

A grande arte visual em particular é a expressão da jornada de uma pessoa, uma evocação de sentimentos que não podem ser expressos em palavras. Talvez naquilo até aqui oculto resida um sentido mais profundo, mais essencial. Paul Gauguin, caçador de segredos e famoso Criador de Mitos (como tem sido chamado), fez essa tentativa. Sua história é um pano de fundo válido para a resposta moderna a ser oferecida nesta obra.

No final de 1897, em Punaauia, a quase cinco quilômetros do porto taitiano de Papeete, Gauguin sentou-se para pôr na tela sua maior e mais importante pintura. Estava debilitado pela sífilis e por uma série de ataques cardíacos. Seus recursos estavam quase esgotados, e a notícia de que sua filha Aline havia morrido de pneumonia pouco antes na França o deprimia.

Gauguin sabia que seu tempo estava se esgotando. Pretendia que aquela fosse sua última pintura. Assim, ao terminá-la, subiu nas montanhas de Papeete para se suicidar. Carregava consigo um frasco de arsênico que havia guardado, talvez ignorando quão dolorosa pode ser a morte por esse veneno. Pretendia se esconder antes de tomá-lo, para que seu corpo não fosse logo encontrado, sendo antes devorado pelas formigas.

Mas então ele se arrependeu e retornou a Punaauia. Embora restasse pouca coisa em sua vida, decidiu continuar lutando. Para sobreviver, aceitou um emprego de seis francos diários em Papee­te como funcionário no Escritório de Obras Públicas e Topografia. Em 1901 se isolou ainda mais, mudando-se para a ilhota de Hiva Oa, no distante arquipélago das Marquesas. Dois anos depois, envolvido em problemas legais, Paul Gauguin morreu de insuficiência cardíaca sifilítica e foi enterrado no cemitério católico da ilha.

“Sou um selvagem”, ele escreveu a um magistrado poucos dias antes de partir. “E as pessoas civilizadas suspeitam disso, pois nas minhas obras não há nada mais surpreendente e desconcertante que esse aspecto ‘selvagem apesar de mim’.”

Gauguin fora à Polinésia francesa, a esse quase inatingível fim de mundo (somente as Ilhas Pitcairn e a Ilha da Páscoa são mais remotas), para encontrar paz e uma nova fronteira de expressão artística. Alcançou esse segundo objetivo, mas jamais o primeiro.

A jornada de Gauguin, de corpo e mente, foi singular entre os grandes artistas de sua época. Nascido em Paris em 1848, foi criado em Lima e depois Orléans pela mãe, de origem peruana. Essa mistura étnica deu uma pista do que estava por vir. Quando jovem, ingressou na Marinha Mercante francesa e viajou ao redor do mundo por seis anos. Durante esse período, em 1870-1, combateu na Guerra Franco-Prussiana, no Mediterrâneo e no mar do Norte. De volta a Paris, de início não deu muita importância para a arte, tornando-se corretor de ações sob a orientação de seu abastado protetor Gustave Arosa. Seu interesse pela arte foi despertado e sustentado por Arosa, dono de grande coleção de obras de arte francesa, incluindo as últimas obras dos impressionistas. Quando o mercado de ações despencou em janeiro de 1882 e seu próprio banco faliu, Gauguin voltou-se para a pintura e começou a desenvolver seu notável talento. Apresentado ao impressionismo por pintores de grandeza indubitável — Pissarro, Cézanne, Van Gogh, Manet, Seurat, Degas —, procurou aderir a suas fileiras. Ao longo de suas viagens, de Pontoise a Rouen, de Pont-Aven a Paris, criou retratos, naturezas-mortas, paisagens, numa obra cada vez mais fantasmagórica, prenunciando o Gauguin que estava por emergir.

Mas Gauguin se desapontou com o resultado e permaneceu apenas pouco tempo na companhia de seus fascinantes contemporâneos. Não se tornara rico e famoso por seus próprios esforços, embora, como mais tarde declarou, soubesse que era um grande artista. Sonhava com uma vida mais simples e fácil para encontrar seu destino. Paris, ele escreveu em 1886, “é um deserto para um homem pobre. [...] Vou ao Panamá viver a vida de um nativo. [...] Levarei minhas tintas e pincéis e me revigorarei longe da companhia dos homens”.

Não foi apenas a pobreza que afastou Gauguin da civilização. No fundo, era uma alma inquieta, um aventureiro, sempre ansioso por descobrir o que jazia além do local onde vivia. Na arte, foi igualmente um experimentalista. Em suas perambulações foi atraído pelo exotismo das culturas não ocidentais, e desejou mergulhar nelas em busca de novos modos de expressão vi­sual. Passou algum tempo no Panamá, e depois na Martinica. De volta ao lar, candidatou-se a um emprego na província de Tonkin, governada pela França, agora no norte do Vietnã. Negado seu pedido, recorreu enfim à Polinésia francesa, seu derradeiro paraíso.

Em 9 de junho de 1891, Gauguin chegou em Papeete e imergiu na cultura indígena. Acabou se tornando um defensor dos direitos dos nativos e, portanto, um criador de problemas aos olhos das autoridades coloniais. Muito mais importante foi seu pioneirismo em um estilo novo chamado primitivismo: simplório, pastoral, amiúde violentamente colorido, simples e direto, e autêntico.

No entanto, não podemos escapar à conclusão de que Gauguin buscava mais do que apenas esse novo estilo. Estava também profundamente interessado na condição humana, no que realmente é e em como retratá-la. Os locais da França metropolitana, especialmente Paris, eram um domínio de mil vozes clamando por atenção, onde a vida intelectual e artística era regida por autoridades reconhecidas, cada uma enraizada em seu próprio feudo de conhecimentos. Ninguém, ele achava, poderia criar uma nova unidade a partir daquela dissonância.

Aquilo poderia ser feito, porém, no mundo bem mais simples, mas ainda totalmente funcional, do Taiti. Ali alguém talvez pudesse descer à base da condição humana. Nesse aspecto Gauguin tinha afinidade com Henry David Thoreau, que anteriormente havia se retirado para sua minúscula cabana na margem do lago Walden para “enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se poderia aprender tudo o que ela tinha para ensinar. [...] viver com tanto vigor que conseguisse aniquilar tudo o que não fosse vida, empurrar a vida contra uma esquina, reduzi-la aos seus termos mais humildes”.

Essa percepção é mais bem expressa por Gauguin em sua obra-prima de 3,7 metros de largura. Observe de perto seus detalhes. Ela contém uma sucessão de figuras dispostas diante de uma mistura frouxa de paisagens taitianas, montanha e mar. A maioria das figuras são mulheres (o que é típico do Gauguin taitiano). Alternadamente realistas e surreais, representam o ciclo da vida humana. O artista pretende que examinemos o quadro da direita para a esquerda. Um bebê na extrema direita representa o nascimento. Um adulto de sexo ambíguo foi colocado no centro, braços elevados, um símbolo do autorreconhecimento individual. Ao lado, à esquerda, um casal jovem colhendo e comendo maçãs é o arquétipo de Adão e Eva, em busca do conhecimento. Na extrema esquerda, representando a morte, uma velha acocorada em angústia e desespero (supostamente inspirada na gravura Melancolia, de Albrecht Dürer, de 1514).

Um ídolo pintado de azul nos contempla do fundo à esquerda, braços elevados ritualisticamente, talvez benigno ou talvez maligno. O próprio Gauguin descreveu seu sentido com uma ambiguidade poética reveladora.



O ídolo está ali não como uma explicação literária, mas como uma estátua, menos estátua talvez do que as figuras de animais; menos animal também, unindo-se em meu sonho, diante de minha cabana, ao resto da natureza, dominando nossa alma primitiva, a consolação imaginária de nossos sofrimentos e o que eles contêm do valor e do incompreensível diante do mistério de nossas origens e de nosso futuro. (grifo de Gauguin)
De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?
 
No canto superior esquerdo da tela, ele escreveu o famoso título:

D’où venons nous/ Que sommes nous/ Où allons nous [De onde viemos/ O que somos/ Para onde vamos].

A pintura não é uma resposta. É uma pergunta.


(Edward O. Wilson - A Conquista Social da Terra)

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