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O valor da Filosofia

por Thynus, em 25.10.16
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O poder se torna mais forte quando ninguém pensa.
 
Se vives de acordo com as leis da natureza, nunca serás pobre; se vives de acordo com as opiniões alheias, nunca serás rico.
Sêneca
 
Aquele que vive de combater um inimigo tem interesse em o deixar com vida.
Friedrich Nietzsche   
 
Não vivemos para comer, mas comemos para viver.
Sócrates 
 

Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.
Friedrich Nietzsche
 
Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.
Friedrich Nietzsche     

Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir.
René Descartes

 
O valor da inutilidade
 
Tendo agora chegado ao fim de nossa breve e extremamente incompleta revisão dos problemas da filosofia, será bom considerar, para concluir, qual é o valor da filosofia e por que ela deve ser estudada. É da maior necessidade considerar esta questão, tendo em vista o fato de que muitos homens, sob a influência da ciência ou dos negócios práticos, tendem a duvidar de que a filosofia seja algo mais que uma ocupação inocente, porém inútil, com distinções sutis e controvérsias sobre questões acerca das quais o conhecimento é impossível.
Esta visão da filosofia parece resultar, em parte, de uma concepção equivocada sobre os fins da vida, e, em parte, de uma concepção equivocada sobre a espécie de bens que a filosofia procura alcançar. As ciências físicas, mediante suas invenções, são úteis para inúmeras pessoas que as ignoram completamente; assim, o estudo das ciências físicas deve ser recomendado não apenas, ou principalmente, por causa dos efeitos sobre quem as estuda, mas antes por causa de seus efeitos sobre os homens em geral. Esta utilidade não pertence à filosofia. Se o estudo da filosofia tem algum valor para aqueles que não a estudam, deve ser apenas indiretamente, através de seus efeitos sobre a vida daqueles que a estudam. É em seus efeitos, portanto, que se deve primordialmente procurar o valor da filosofia, se é que ela o tem.
Mas antes de tudo, se não quisermos fracassar em nosso esforço para determinar o valor da filosofia, devemos em primeiro lugar libertar nossas mentes dos preconceitos dos que são incorretamente denominados de homens “práticos”. O homem “prático”, como esta palavra é frequentemente empregada, é alguém que reconhece apenas as necessidades materiais, que compreende que o homem deve ter alimento para o corpo, mas se esquece que é necessário procurar alimento para o espírito. Se todos os homens vivessem bem; se a pobreza e as enfermidades tivessem já sido reduzidas o máximo possível, ainda haveria muito a fazer para produzir uma sociedade verdadeiramente válida; e mesmo neste mundo os bens do espírito são pelo menos tão importantes quanto os bens materiais. É exclusivamente entre os bens do espírito que o valor da filosofia deve ser procurado; e só os que não são indiferentes a estes bens podem persuadir-se de que o estudo da filosofia não é perda de tempo.
A filosofia, como os demais estudos, visa primeiramente o conhecimento. O conhecimento que ela tem em vista é aquela espécie de conhecimento que confere unidade e organização sistemática a todo o corpo do saber científico, bem como o que resulta de um exame crítico dos fundamentos das nossas convicções, dos nossos preconceitos, e das nossas crenças. Mas não se pode dizer, no entanto, que a filosofia tenha tido algum grande êxito na sua tentativa de dar respostas definitivas à suas questões. Se perguntarmos a um matemático, a um mineralogista, a um historiador, ou a qualquer outro homem de saber, que conjunto de verdades concretas foi estabelecido pela sua ciência, sua resposta durará tanto tempo quanto estivermos dispostos a lhe dar ouvidos. Mas se fizermos essa mesma pergunta a um filósofo, terá que confessar, se for sincero, que a filosofia não alcançou resultados positivos como os que foram alcançados por outras ciências. É verdade que isso se explica, em parte, pelo fato de que, assim que se torna possível um conhecimento preciso naquilo que diz respeito a determinado assunto, este assunto deixa de ser chamado de filosofia e torna-se uma ciência especial. Todo o estudo dos corpos celestes, que hoje pertence à astronomia, incluía-se outrora na filosofia; a grande obra de Newton tem por título: Princípios matemáticos da filosofia natural. De maneira semelhante, o estudo da mente humana, que fazia parte da filosofia, está hoje separado da filosofia e tornou-se a ciência da psicologia. Deste modo, a incerteza da filosofia é, em grande medida, mais aparente que real: os problemas para os quais já se tem respostas positivas vão sendo colocados nas ciências, enquanto que aqueles para os quais não se encontrou até hoje nenhuma resposta exata, continuam a constituir esse resíduo que denominamos de filosofia.
Esta é, no entanto, apenas uma parte da verdade sobre a incerteza da filosofia. Existem muitos problemas ainda - e entre estes os que são do mais profundo interesse para a nossa vida espiritual - que, na medida do que podemos ver, deverão permanecer insolúveis para o intelecto humano, a menos que seus poderes se tornem de uma ordem inteiramente diferente daquela que é atualmente. Tem o universo alguma unidade de plano ou de propósito, ou é um concurso fortuito de átomos? É a consciência uma parte permanente do universo, dando-nos esperança de um aumento indefinido da sabedoria, ou ela não passa de um acidente transitório num pequeno planeta no qual a vida acabará por se tornar impossível? São o bem e o mal importantes para o universo ou apenas para o homem? Estes são problemas colocados pela filosofia, e respondidos de diversas maneiras por vários filósofos. Mas parece que, quer seja, ou não seja possível, descobrir de algum modo respostas, nenhuma das respostas sugeridas pela filosofia pode ser demonstrada como verdadeira. E, no entanto, por fraca que seja a esperança de vir a descobrir uma resposta, é parte do papel da filosofia continuar a examinar tais questões, tornar-nos conscientes da sua importância, examinar todas as suas abordagens, mantendo vivo o interesse especulativo pelo universo, que correríamos o risco de deixar morrer se nos limitássemos aos conhecimentos claramente verificáveis.
É verdade que muitos filósofos sustentaram que a filosofia pode estabelecer a verdade de certas respostas a tais problemas fundamentais. Supuseram que o mais importante no campo das crenças religiosas pode ser provado como verdadeiro por meio de demonstrações rigorosas. Para julgar estas tentativas, é necessário fazer uma investigação sobre o conhecimento humano, e formar uma opinião quanto a seus métodos e às suas limitações. Sobre estes assuntos é insensato nos pronunciarmos dogmaticamente. Mas se as investigações de nossos capítulos anteriores não nos induziram ao erro, seremos forçados a renunciar à esperança de descobrir provas filosóficas para as crenças religiosas. Não podemos incluir, portanto, como parte do valor da filosofia, uma série de respostas definidas a tais questões. Mais uma vez, portanto, o valor da filosofia não depende de um suposto corpo de conhecimentos definitivamente verificáveis, que possam ser adquiridos por aqueles que a estudam.
O valor da filosofia, na realidade, deve ser buscado, em grande medida, na sua própria incerteza. O homem que não tem a menor noção da filosofia caminha pela vida afora preso a preconceitos derivados do senso comum, das crenças habituais da sua época e do seu país, e das convicções que cresceram na sua mente sem a cooperação ou o consentimento deliberado de sua razão. Para tal homem o mundo tende a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele os objetos habituais não levantam problemas e as possibilidades estranhas são desdenhosamente rejeitadas. Ao contrário, quando começamos a filosofar imediatamente nos damos conta (como vimos nos primeiros capítulos deste livro) que mesmo as coisas mais vulgares levantam problemas para os quais só podemos da respostas muito incompletas. A filosofia, embora incapaz de nos dizer com certeza qual é a resposta verdadeira para as dúvidas que ela própria suscita, é capaz de sugerir diversas possibilidades que ampliam os nossos pensamentos, livrando-os da tirania do hábito. Desta maneira, embora diminua nosso sentimento de certeza sobre o que as coisas são, aumenta muito nosso conhecimento sobre o que as coisas podem ser; rejeita o dogmatismo um tanto arrogante daqueles que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora; e mantém vivo nosso sentimento de admiração, mostrando as coisas familiares num determinado aspecto não familiar.
Além de sua utilidade ao mostrar possibilidades insuspeitadas, a filosofia tem um valor - talvez seu principal valor - por causa da grandeza dos objetos que ela contempla, e da liberdade proveniente da visão rigorosa e pessoal resultante de sua contemplação. A vida do homem reduzido ao instinto encerra-se no círculo de seus interesses particulares; a família e os amigos podem estar incluídos, mas o resto do mundo para ele não conta, exceto na medida em que possa ajudar ou impedir o que surge dentro do âmbito dos desejos instintivos. Numa tal vida existe algo de febril e limitado, em comparação com a qual a vida filosófica é serena e livre. Colocado no meio de um mundo vasto e poderoso que mais cedo ou mais tarde deverá reduzir nosso mundo privado em ruínas, o mundo privado dos interesses instintivos é muito pequeno. A menos que ampliemos os nossos interesses de maneira a compreender todo o mundo exterior, estaremos na condição de uma guarnição numa praça sitiada, sabendo que o inimigo não a deixará fugir e que a capitulação final é inevitável. Não há paz em tal vida, mas uma luta contínua entre a insistência do desejo e a impotência da vontade. De uma maneira ou de outra, se pretendemos uma vida grandiosa e livre, devemos evadir-se desta prisão e desta luta.
A contemplação filosófica é uma das formas de evasão. A contemplação filosófica, na sua visão mais ampla, não divide o universo em dois campos adversos: amigos e inimigos, aliados e adversários, bons e maus; ela encara o todo imparcialmente. A contemplação filosófica, quando é pura, não visa provar que o restante do universo é semelhante ao homem. Toda a aquisição de conhecimento é um alargamento do nosso Eu, mas este alargamento é melhor alcançado quando não é procurado diretamente. Este alargamento é alcançado, quando opera exclusivamente o desejo de conhecimento, por um estudo que não deseja antecipadamente que seus objetos tenham esta ou aquela característica, mas que adapta o Eu às características que encontra em seus objetos. Este alargamento do Eu não é obtido quando, tomando o Eu como ele é, tentamos mostrar que o mundo é tão similar a este Eu que seu conhecimento é possível sem qualquer aceitação do que parece estranho. O desejo de provar isto é uma forma de autoafirmação, constitui um obstáculo ao alargamento que deseja do Eu, e do qual o Eu sabe que é capaz. A autoafirmação, na especulação filosófica como em tudo o mais, vê o mundo como um meio para seus próprios fins; assim, faz menos caso do mundo do que do Eu, e o Eu coloca limites à grandeza de seus bens. Na contemplação, pelo contrário, partimos do não-Eu e, por meio de sua grandeza os limites do Eu são ampliados; através da infinidade do universo a mente que o contempla participa um pouco da infinidade.
Por esta razão a grandeza da alma não é promovida por aquelas filosofias que assimilam o universo ao Homem. O conhecimento é uma forma de união do Eu com o não-Eu. Como toda união, ela é prejudicada pelo domínio, e, portanto, por qualquer tentativa de forçar o universo a estar em conformidade com o que descobrimos em nós mesmos. Existe uma tendência filosófica muito difundida em relação à visão que nos diz que o Homem é a medida de todas as coisas; que a verdade é uma construção humana; que o espaço e o tempo, e o mundo dos universais, são propriedades da mente, e que, se existe algo que não seja criado pela mente, é algo incognoscível e sem qualquer importância para nós. Esta visão, se nossas discussões anteriores estavam corretas, não é verdadeira; mas além de não ser verdadeira, ela tem o efeito de despojar a contemplação filosófica de tudo aquilo que lhe dá valor, visto que ela aprisiona a contemplação ao Eu. O que tal visão chama de conhecimento não é uma união com o não-Eu, mas uma série de preconceitos, hábitos e desejos, que constituem um impenetrável véu entre nós e o mundo para além de nós. O homem que se compraz numa tal teoria do conhecimento humano assemelha-se ao homem que nunca abandona seu círculo doméstico por receio de que fora dele sua palavra não seja lei.
A verdadeira contemplação filosófica, ao contrário, encontra a sua satisfação na própria ampliação do não-Eu, em tudo o que engrandece os objetos contemplados e, desse modo, o sujeito que contempla. Na contemplação, tudo aquilo que é pessoal e privado, tudo o que depende do hábito, do interesse pessoal, ou do desejo, deforma o objeto e, por isso, prejudica a união que a inteligência busca. Levantando uma barreira entre o sujeito e o objeto, as coisas pessoais e privadas tornam-se uma prisão para o intelecto. O intelecto livre deverá enxergar assim como Deus pode ver: sem um aqui e agora; sem esperança e sem medo; isento das crenças habituais e dos preconceitos tradicionais: de forma calma e desapaixonadamente, com o único e exclusivo desejo de conhecimento - um conhecimento tão impessoal, tão puramente contemplativo, quanto seja possível a um homem alcançar. Por isso, o espírito livre valorizará mais o conhecimento abstrato e universal no qual não entram os acidentes da história particular, do que o conhecimento trazido pelos sentidos, o qual depende - necessariamente - de um ponto de vista pessoal e exclusivo, e de um corpo cujos órgãos dos sentidos distorcem tanto quanto revelam.
A mente que se habituou à liberdade e imparcialidade da contemplação filosófica preservará alguma coisa dessa mesma liberdade e imparcialidade no mundo da ação e emoção. Encarará seus objetivos e desejos como partes do Todo, com o desprendimento que resulta de considerá-los como fragmentos ínfimos de um mundo em que todo o resto não é afetado pelas ações dos homens. A imparcialidade, que na contemplação é o desejo puro da verdade, é aquela mesma qualidade espiritual que no âmbito da ação é a justiça, e que no âmbito da emoção é o amor universal que pode ser dado a todos e não apenas àqueles que são considerados úteis ou admiráveis. Assim, a contemplação amplia não apenas os objetos de nossos pensamentos, mas também os objetos das nossas ações e dos nossos sentimentos: ela nos torna cidadãos do universo, e não apenas de uma cidade cercada por muros, em estado de guerra com tudo o mais. A verdadeira liberdade humana, liberta da prisão das esperanças e temores mesquinhos, consiste nesta condição de cidadãos do mundo.
Enfim, para resumir a discussão do valor da filosofia, ela deve ser estudada, não em virtude de quaisquer respostas definitivas às suas questões, uma vez que nenhuma resposta definitiva pode, via de regra, ser conhecida como verdadeira. Ela deve ser estudada por causa dos próprios problemas, porque estes problemas ampliam as concepções que temos acerca do que é possível, enriquecem a nossa imaginação intelectual e diminuem a arrogância dogmática que impede a especulação mental; mas sobretudo porque, graças à grandeza do universo que a filosofia contempla, a mente também engrandece e se torna capaz daquela união com o universo que constitui seu bem supremo.
 
(Bertrand Russel - Os Problemas da Filosofia)

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publicado às 23:55


Idealismo

por Thynus, em 25.10.16

 

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Não percebemos as coisa tal como são em si (Noumeno), mas como as captamos na nossa mente (Fenómeno)

 

A palavra “idealismo” é empregada por diferentes filósofos em sentidos um tanto diferentes. Por idealismo devemos entender a doutrina segundo a qual tudo o que existe, ou pelo menos tudo o que podemos saber que existe, deve ser em algum sentido mental. Esta doutrina, que entre os filósofos é muito amplamente mantida, tem várias formas, e é defendida com base em vários fundamentos distintos. A doutrina é tão amplamente sustentada, e tão interessante em si mesma, que mesmo a mais breve exposição filosófica deve oferecer uma ideia a seu respeito.

Aqueles que não estão acostumados com a especulação filosófica podem estar inclinados a rejeitar semelhante doutrina como obviamente absurda. Não há dúvida de que o senso comum considera as mesas e as cadeiras, o sol e a lua, e os objetos materiais em geral, como alguma coisa radicalmente diferente das mentes e dos conteúdos das mentes, e como tendo uma existência que poderia continuar se as mentes deixassem de existir. Pensamos na matéria como tendo existido muito antes que houvesse mentes, e é difícil pensá-la como um simples produto da atividade mental. Mas, verdadeiro ou falso, o idealismo não deve ser rejeitado como obviamente absurdo.

Vimos que, mesmo se os objetos físicos têm uma existência independente, eles devem diferir muito amplamente dos dados dos sentidos, e só podem ter uma correspondência com os dados dos sentidos, da mesma forma como um catálogo tem uma correspondência com as coisas catalogadas. Consequentemente, o senso comum nos deixa completamente no escuro em relação à verdadeira natureza intrínseca dos objetos físicos, e se existem boas razões para considerá- los como mentais, não poderemos legitimamente rejeitar esta opinião simplesmente porque ela nos parece estranha. A verdade sobre os objetos físicos deve ser estranha. Ela pode ser inalcançável, mas se algum filósofo acredita que a alcançou, o fato de que aquilo que ele oferece como a verdade seja estranho não deve ser considerado como um motivo para rejeitar a sua opinião.

As bases sobre as quais o idealismo é defendido são geralmente bases derivadas da teoria do conhecimento, ou seja, de uma discussão das condições que as coisas devem satisfazer a fim de que possamos ser capazes de conhecê-las. A primeira tentativa séria de estabelecer o idealismo sobre tais bases foi a do Bispo Berkeley. Ele provou, primeiramente, mediante argumentos que eram em grande medida válidos, que nossos dados dos sentidos não podem ser considerados como tendo uma existência independente de nós, mas que devem estar, pelo menos em parte, “na” mente, no sentido de que sua existência não subsistiria se não houvesse ninguém vendo, ouvindo, tocando, cheirando, sentindo ou experimentando. Até este ponto sua argumentação é quase certamente válida, mesmo que alguns de seus argumentos não sejam. Mas ele passou a argumentar que os dados dos sentidos eram as únicas coisas de cuja existência nossas percepções poderiam nos assegurar, e que ser conhecido é estar “em” uma mente, e, portanto, ser mental. Por esta razão ele concluiu que nada pode ser conhecido exceto o que está em alguma mente, e que tudo o que é conhecido sem estar na minha mente deve estar em alguma outra mente.

A fim de entender seu argumento é necessário entender o emprego que ele faz da palavra “ideia”. Ele dá o nome de “ideia” a tudo o que é imediatamente conhecido, como, por exemplo, os dados dos sentidos são conhecidos. Assim, uma cor particular que vemos é uma ideia; da mesma forma, uma voz que ouvimos, e assim por diante. Mas o termo não é inteiramente restrito aos dados dos sentidos. Existiriam também coisas lembradas ou imaginadas, pois também temos conhecimento direto imediato de tais coisas no momento de lembrar ou imaginar. Berkeley denomina todos estes dados imediatos de “ideias”.

Berkeley então continua a considerar os objetos comuns, tais como uma árvore, por exemplo. Ele mostra que tudo o que conhecemos imediatamente quando “percebemos” a árvore consiste de ideias, no sentido que ele dá ao termo, e argumenta que não há a menor base para supor que existe alguma coisa real sobre a árvore a não ser o que é percebido. Seu ser, ele diz, consiste em ser percebida: no latim dos escolásticos, seu “esse” é “percipi”. Ele admite perfeitamente que a árvore deve continuar a existir mesmo quando fechamos nossos olhos ou quando nenhum ser humano está próximo dela. Mas esta existência contínua, diz ele, deve-se ao fato de que Deus continua a percebê-la; a árvore “real”, que corresponde ao que denominamos de objeto físico, consiste de ideias na mente de Deus, ideias mais ou menos semelhantes àquelas que temos quando vemos a árvore, mas que diferem no fato de que são permanentes na mente de Deus enquanto a árvore continua a existir. Todas as nossas percepções, de acordo com ele, consistem em uma participação parcial nas percepções de Deus, e é por causa desta participação que diferentes pessoas vêem mais ou menos a mesma árvore. Assim, independentemente das mentes e suas ideias nada existe no mundo, nem é possível que alguma coisa diferente possa alguma vez ser conhecida, dado que tudo o que é conhecido é necessariamente uma ideia.

Há neste argumento algumas falácias que tiveram importância na história da filosofia, e que será bom esclarecer. Em primeiro lugar, existe uma confusão engendrada pelo emprego da palavra “ideia”. Pensamos que uma ideia é algo que existe essencialmente na mente de alguém, e, assim, quando nos é dito que uma árvore consiste inteiramente de ideias, é natural supor que, se é assim, a árvore deve estar inteiramente na mente. Mas a noção de estar “na” mente é ambígua. Dizemos que temos uma pessoa em mente, não no sentido de que a pessoa está em nossa mente, mas de que temos em nossa mente um pensamento a seu respeito. Quando alguém diz que tirou de sua mente um problema que tinha que resolver, não significa dizer que o próprio problema estava em sua mente, mas apenas que um pensamento sobre o problema estava antes em sua mente, mas depois deixou de estar nela. E, assim, quando Berkeley diz que a árvore deve estar em nossa mente se quisermos conhecê-la, tudo o que ele realmente tem o direito de dizer é que um pensamento sobre a árvore deve estar em nossa mente. Argumentar que a própria árvore deve estar em nossa mente é como argumentar que uma pessoa em quem pensamos está, ela mesma, em nossa mente. Esta confusão pode parecer demasiado grosseira para que tenha sido realmente cometida por um filósofo competente, mas várias circunstâncias concomitantes a tornaram possível. A fim de ver como ela foi possível, devemos nos aprofundar no problema da natureza das ideias.

Antes de nos dedicarmos à questão geral da natureza das ideias, devemos elucidar duas questões inteiramente distintas que surgem a respeito dos dados dos sentidos e dos objetos físicos. Vimos que, por várias razões específicas, Berkeley estava certo ao tratar os dados dos sentidos que constituem nossa percepção da árvore como mais ou menos subjetivos, no sentido que eles dependem de nós tanto quanto da árvore, e não existiriam se a árvore não estivesse sendo percebida. Mas este é um ponto inteiramente diferente daquele pelo qual Berkeley procura provar que tudo que pode ser imediatamente conhecido deve estar numa mente. Para este objetivo argumentos específicos em relação à dependência que os dados dos sentidos têm de nós são supérfluos. É necessário provar, em geral, que pelo fato de serem conhecidas, as coisas devem ser mentais. Isso é o que o próprio Berkeley acredita ter feito. É este problema, e não nosso problema anterior em relação à diferença entre dados dos sentidos e objetos físicos, que deve agora nos interessar.

Tomando a palavra “ideia” no sentido de Berkeley, existem duas coisas completamente distintas a serem consideradas sempre que uma ideia está diante da mente. Existe, por um lado, a coisa da qual estamos conscientes - a cor da minha mesa, por exemplo - e, por outro lado, a própria consciência presente, o ato mental de apreender a coisa. O ato mental é indubitavelmente mental, mas existe alguma razão para supor que a coisa apreendida é em algum sentido mental? Nossos argumentos anteriores sobre a cor não provam que ela é mental; eles somente provam que sua existência depende da relação de nossos órgãos dos sentidos com os objetos físicos - no nosso caso, a mesa. Ou seja, eles provam que uma determinada cor existirá, em uma determinada luz, se um olho normal é colocado em certo ponto em relação à mesa. Eles não provam que a cor está na mente do percipiente.

A opinião de Berkeley, que obviamente a cor deve estar na mente, parece depender, para sua plausibilidade, da confusão entre a coisa apreendida com o ato de apreensão. Estas duas coisas poderiam ser denominadas uma “ideia”; provavelmente ambas teriam sido denominadas de ideia por Berkeley. O ato está indubitavelmente na mente; portanto, quando estamos pensando no ato, prontamente admitimos a opinião de que as ideias devem estar na mente. Por conseguinte, esquecendo que isso era apenas verdadeiro quando as ideias eram tomadas como atos de apreensão, transferimos a proposição que as “ideias estão na mente” para ideias no outro sentido, isto é, para as coisas apreendidas por nossos atos de apreensão. Assim, por um equívoco inconsciente, chegamos à conclusão de que tudo o que podemos apreender deve estar em nossa mente. Esta parece ser a verdadeira análise do argumento de Berkeley, e a falácia fundamental sobre o qual ele repousa.

Esta questão da distinção entre o ato e o objeto em nossa apreensão das coisas é sumamente importante, visto que toda nossa capacidade de adquirir conhecimento apresenta-se vinculada a ela. A faculdade de ter conhecimento direto de coisas diferentes dela mesma é a principal característica de uma mente. O conhecimento direto dos objetos consiste essencialmente numa relação entre a mente e alguma coisa diferente da mente; é isso que constitui a capacidade da mente de conhecer coisas. Se dissermos que as coisas conhecidas devem estar na mente, estamos limitando indevidamente a capacidade da mente de conhecer ou estamos proferindo uma mera tautologia. Estamos proferindo uma mera tautologia se quisermos dizer por “na mente” o mesmo que por “diante da mente”, isto é, se quisermos dizer simplesmente ser apreendido pela mente. Mas se queremos dizer isso, teremos de admitir que, neste sentido, estar na mente, pode, não obstante, ser não mental. Assim, quando compreendemos a natureza do conhecimento, percebemos que o argumento de Berkeley é errado tanto em sua substância como em sua forma, e suas razões para supor que “ideias” - isto é, os objetos aprendidos - devem ser mentais, são consideradas sem qualquer validade. Por isso, suas razões a favor do idealismo podem ser rejeitadas. Resta ver se existem algumas outras razões.

Diz-se frequentemente, como se fosse um truísmo evidente por si mesmo, que não podemos saber se algo existe se não o conhecemos. Infere-se que tudo que pode de alguma maneira ser relevante para nossa experiência deve ser no mínimo suscetível de ser conhecido por nós. Segue-se, portanto, que se a matéria fosse essencialmente alguma coisa da qual não pudéssemos ter conhecimento direto, a matéria seria alguma coisa que não poderíamos saber que existe, e que não teria para nós importância alguma. Em geral está subentendido, por razões que permanecem obscuras, que o que não pode ter nenhuma importância para nós não pode ser real, e que, portanto, a matéria, se ela não é composta de mentes ou de ideias mentais, é impossível e uma mera quimera.

Não é possível, no momento, analisar profundamente este argumento, dado que ele levanta pontos que exigem uma considerável discussão preliminar; mas certas razões para rejeitar o argumento podem ser mencionadas imediatamente. Comecemos pela última: não existe razão alguma pela qual o que não pode ter qualquer importância prática para nós não deva ser real. É verdade que, se incluímos a importância teórica, tudo o que é real tem alguma importância para nós, dado que, como pessoas que desejam conhecer a verdade sobre o universo, temos algum interesse em tudo aquilo que o universo contém. Mas se incluímos este tipo de interesse, não é verdade que a matéria não tem nenhuma importância para nós, uma vez que ela existe mesmo se não podemos saber que ela existe. Podemos, evidentemente, suspeitar que ela possa existir, e perguntar se ela existe; por esta razão ela está relacionada com nosso desejo de conhecimento, e tem a importância de satisfazer ou frustrar este desejo.

Além disso, não é de modo algum uma verdade incontestável, e, na realidade, é falso, que não podemos saber se algo existe se não o conhecemos. A palavra “conhecer” é aqui usada em dois sentidos diferentes. (1) Em sua primeira acepção é aplicável ao tipo de conhecimento que é oposto ao erro, no sentido de que aquilo que sabemos é verdadeiro, no sentido que se aplica às nossas crenças e convicções, isto é, ao que denominamos de juízos. Neste sentido da palavra sabemos que alguma coisa é o caso. Este tipo de conhecimento pode ser descrito como conhecimento de verdades. (2) Na segunda acepção da palavra “conhecer”, a palavra aplica-se ao nosso conhecimento de coisas, ao qual podemos chamar de conhecimento direto. Este é o sentido em que conhecemos os dados dos sentidos. (Esta distinção corresponde aproximadamente àquela que existe entre savoir e connaître em francês, ou entre wissen e kennen em alemão).

Assim, o enunciado que parecia uma verdade incontestável torna-se, quando reformulado, o seguinte: “Nunca podemos enunciar um juízo verdadeiro sobre a existência de algo se não o conhecemos diretamente”. Esta de modo algum é uma verdade incontestável, mas, ao contrário, uma evidente falsidade. Não tenho a honra conhecer diretamente o Imperador da China, mas julgo, com razão, que ele existe. Pode-se dizer, naturalmente, que julgo isso por causa do conhecimento pessoal que outras pessoas têm dele. Esta, entretanto, seria uma réplica irrelevante, pois se o princípio fosse verdadeiro, não poderia saber que outros têm um conhecimento direto dele. Mas, além disso, não existe razão alguma para que não saiba da existência de algo que ninguém tem conhecimento direto. Este ponto é importante, e requer elucidação.

Se conheço diretamente que algo existe, meu conhecimento direto me proporciona o conhecimento de que ela existe. Mas não é verdade, reciprocamente, que sempre que posso saber que algo determinado existe, eu ou alguém deve ter conhecimento direto da coisa. O que ocorre, nos casos em que enuncio um juízo verdadeiro sem ter conhecimento direto, é que a coisa é conhecida por mim por descrição, e que, em virtude de algum princípio geral, a existência de algo que satisfaz esta descrição pode ser inferida da existência de algo do qual tenho conhecimento direto. A fim de entender isso completamente será conveniente tratar, em primeiro lugar, da diferença entre conhecimento direto e conhecimento por descrição, e então considerar que o conhecimento de princípios gerais, se existe, tem o mesmo tipo de certeza que nosso conhecimento da existência de nossas próprias experiências. Estes assuntos serão tratados nos capítulos seguintes.

 

(Bertrand Russel - Os Problemas da Filosofia)

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publicado às 23:30


O que é o determinismo?

por Thynus, em 22.10.16
Não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade.
 
É determinismo, sim. Mas seguindo o próprio determinismo é que se é livre. Prisão seria seguir um destino que não fosse o meu próprio. Há uma grande liberdade em se ter um destino. Este é o nosso livre-arbítrio.
 
O oposto do determinismo é o livre arbítrio. Como já descrito acima a vontade da natureza (de deus para alguns) nos impõem um rumo. Se há uma identificação entre o que a vida lhe impõe e o seu querer não existe problemas maiores, há apenas aceitação. No entanto, além de serem raros esse tipo de caso, a aceitação pode trazer o risco da inatividade e esta, levar ao tédio. Persistir e errar, persistir e sofrer e a ausência de momentos felizes, são indícios de que os rumos impostos à vida precisam ser repensados.    
                        Nesse contexto, a persistência não deve ser indicada, a reflexão sim. E a arte de indagar (philoterapia) deve iniciar com a pergunta: por que você quer imprimir um novo rumo a sua vida? Se a resposta for o tédio, então tem-se um bom motivo para apoiar a escolha de uma nova alternativa ou estilo de vida. O tédio é o inimigo a ser combatido pelo philoterapeuta. Então o método a ser aplicado é lançar o desafio, fortalecer argumentativamente a ação e gerar o movimento.  Compete também ao philoterapeuta o papel de abrir o leque de opções demonstrando que a força da natureza nos mostra um caminho mas que este caminho pode ser trilhado de diversas formas.
                        Um das situações mais complexas em relação ao determinismo está relacionado à crença. Quando o interlocutor apenas acredita, ou tem fé em algo, ele provavelmente não terá nenhuma outra argumentação para algumas questões. Sua postura, suas respostas, redundará quase sempre nas frases: eu acredito que assim seja, deus quer assim, é destino. O determinismo leva a crença no destino, ou seja, existe um caminho traçado previamente e dele não podemos fugir. Sofro porque assim deus quer, é carma, devo ter errado muito em vidas passadas e estou pagamento o preço, é azar, assim, estamos diante da lamúria.
                        A lamúria pode ser uma espécie de desabafo, mas também é sinal de fraqueza. Para o lamuriento, o mal é uma constante na sua vida e nele não vê nenhum benefício. É certo, não se pode confundir a ausência de alguma coisa como o oposto dessa mesma coisa. A ausência do bem pode não significar o mal. No entanto, a lamúria é, para o seu praticante, uma espécie de incompreensão da origem das coisas, principalmente da origem do mal.
                        A maior parte das questões acerca da liberdade humana, no sentido cristão, foram debatidas e elucidadas pelos diversos filósofos e teólogos cristãos, mas foi sobretudo Aurélio Agostinho (354-430), dentre eles, quem delas mais se ocupou. Assim, quando o philoterapeuta estiver diante das questões de fé, é importante lembrar este teólogo e filósofo.
                        Para Agostinho o livre-arbítrio e o mal, são questões interligadas. O primeiro está intimamente ligado ao exercício da vontade, pelo menos no sentido da ação voluntária; mas a vontade pode inclinar-se para o mal, principalmente se não obtiver o auxílio de Deus. A questão, então, passa a ser a do dever e a do poder. Querer ser livre é uma coisa e, ser verdadeiramente livre e outra. O problema não é tanto o que pode fazer o homem, mas sobretudo como pode o homem usar seu livre-arbítrio para ser realmente livre. Para isso, segundo Agostinho, é preciso conhecer o verdadeiro bem, e sempre lo escolhe para si. Neste contexto, não basta, de fato, saber o que é o bem: e necessário poder efetivamente inclinar-se para ele.
                        Diz Evans (1995) ao comentar a questão da vontade:
                      Quando a vontade  volta-se para seu próprio bem individual, ou algo exterior ou inferior, ela peca, mas permanece em si um bem; também as coisas buscadas são boas em si mesmas, pois tudo que existe é bom. O mal está na aversão, no afastar-se e não na natureza da vontade e de seus objetos, uma vez que é a criação de um Deus bom. (p. 173)
                        As explicações teológicas podem apoiar o philoterapeuta na compreensão da realidade do seu interlocutor, por isso é importante conhecê-las. No entanto, não de inspirar-lhe ao aconselhamento e menos ainda a instigação da fé. A philoterapia atua no âmbito do entendimento do mundo que nos rodeia e é neste âmbito que deve atuar.
                        Ainda sobre a questão da origem do mal, cabe-nos levantar uma questão essencial exposta por Agostinho no seu Livro Livre Arbítrio (1990) que iremos citar na íntegra.
                        Nenhuma outra realidade torna a mente escrava das paixões, senão a própria vontade e o livre arbítrio. Com efeito, a mente reinante e está na posse da virtude, qualquer agente, seja-lhe igual ou superior, em razão da sua própria virtude, não a faz escrava das paixões; e, qualquer agente que seja inferior, não o faz, em razão da sua incapacidade. 
                        Com esta rápida exposição, acreditamos ter fornecido o alerta necessário para tratar as questões de fé. O assunto é longo e requererá sempre muita habilidade do philoterapeuta, pois o que sustenta as questões de fé, são axiomas e não o entendimento ou a razão, será sempre uma dura batalha. 
                        Um outro aspecto importante relacionado ao determinismo diz respeito a sua antítese, ou seja, as escolhas. Afinal, existe ou não a possibilidade da escolha? Qual o nível de responsabilidade que temos em relação a elas? O filósofo indiano Bhagwan Shree Rajneesh, mais conhecido por Osho, diz o seguinte:
    
                      “Cada escolha é definitiva, em certo sentido. Você não pode deixar de fazê-la, não pode esquecê-la, você não pode recuar. Sua escolha torna-se seu destino. Permanecerá com você e será uma parte de você; você não pode negá-la. Mas sua escolha é sempre um jogo. Cada escolha é feita no escuro porque nada é certo. Eis porque o homem sofre de ansiedade. Ele está ansioso até as suas próprias raízes. O que o atormenta, para começar é: ser ou não ser? “Fazer ou não fazer, fazer isto ou fazer aquilo” (1990, p. 10)
                         
                        No contexto acima a não escolha é uma escolha. Assim, todos são forçados, em determinados momentos, a escolher. As escolhas podem ser coletivas ou individuais e a liberdade de escolha, principalmente quando no âmbito individual, exige, como contrapartida, um maior nível de responsabilidade. Então, quanto mais individual é a escolha, maior é a responsabilidade do escolhedor porque as escolhas criam destinos. Parte do texto a seguir pertence a uma crônica que publiquei num jornal local.
 
(Sérgio Peixoto Mendes - Philoterapia, desafiando o tédio individual e organizacional)
Determinismo versus Livre-arbítrio

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publicado às 22:57


APSICANÁLISE freudiana é um tratamento para a cura da neurose e uma teoria científica sôbre a natureza do homem - e todos sabem disso. O que se sabe menos é que ela constitui também um “movimento”, com uma organização internacional de linhas rigorosamente hierárquicas, regras estritas para a inscrição e que por muitos anos foi dirigida por um comitê secreto, constituído de Freud e mais seis outros. Êsse movimento revelou, ocasionalmente e através de alguns de seus representantes, um fanatismo habitualmente só encontrado nas burocracias religiosas e políticas.

A comparação mais próxima que se pode fazer da Psicanálise com outra teoria científica, no que se relaciona com o aspecto revolucionário, é o paralelo com a teoria de Darwin, cujo impacto sôbre o pensamento moderno foi ainda mais poderoso que o da Psicanálise. Mas existe um “movimento” darwinista que determine quem se pode chamar de “darwinista”, seja rigorosamente organizado e lute fanàticamente pela pureza da doutrina de Darwin?

Desejo, primeiramente, demonstrar algumas expressões mais drásticas e infelizes dêsse espírito de “linha partidária”, em relação à biografia que Ernest Jones escreveu de Freud.(Ernest Jones, The Life and Work of Sigmund Freud (Nova York, Basic Books, Ine., 1953-1957)

Isso me parece indicado por duas razões: primeiro, o fanatismo partidário de Jones levou-o a grotescos ataques póstumos a homens que discordaram de Freud; e, segundo, muitos comentaristas do livro aceitaram seus dados sem crítica ou indagação.

A “revisão” que Jones faz da história introduz na ciência um método que até então só esperávamos encontrar na “história” stalinista. Os stalinistas chamam aos que discordaram e se rebelaram de “traidores” e “espiões” do capitalismo.

O Dr. Jones faz o mesmo no àmbito psiquiátrico, afirmando que Rank e Ferenczi, os dois homens mais ligados a Freud e que mais tarde discordaram dele sob certos aspectos, foram psicóticos durante muitos anos. A sugestão é de que sómente sua insanidade lhes explica o crime de discordarem de Freud e, no caso de Ferenczi, de que as queixas contra o tratamento áspero e intolerante que lhe deu Freud são provas, ipso facto, de psicose.

Em primeiro lugar, devemos notar que por muitos anos antes de ocorrer a “traição” de Rank ou Ferenczi houve no comitê secreto lutas e ciúmes violentos entre Abraham, Jones e, sob certo aspecto, também Eitingon, de um lado, e Rank e Ferenczi, do outro. Já em 1924, quando Rank publicou seu livro sôbre o trauma da natalidade, que Freud recebeu cordialmente na época, Abraham, “estimulado ao saber das críticas de Freud”, levantou a suspeita de que Rank seguia o caminho da “traição” de Jung.

Embora Freud recebesse com tolerância, inicialmente, as novas teorias de Rank, mais tarde, provàvelmente sob a influência das intrigas e insinuações do grupo de Jones, e também devido à recusa de Rank em modificar suas linhas teóricas, rompeu com êle. Na época Freud disse que a neurose de Rank era responsável por alguns de seus desvios, tinha origem nos cinco anos posteriores à Primeira Guerra Mundial, e que durante quinze anos “não lhe ocorrera que Rank precisava ser analisado”.

Mesmo que assim fosse, Freud falou de neurose, e não de psicose. Jones sugere que Freud reprimiu o conhecimento de que Rank sofria de “psicose maníaco-depressiva”, conhecimento que Freud supostamente tivera “anos antes”. Tendo em vista a afirmação de Freud, acima mencionada, a sugestão de Jones não parece muito convincente. (E também porque a única  referência ao suposto conhecimento de Freud está numa carta por êle escrita a Ferenczi no mesmo ano, e não anos antes.) Toda uma história é inventada para explicar a existência dessa suposta psicose. Suas bases estariam nos cinco anos posteriores à Primeira Guerra Mundial, durante os quais Rank trabalhou muito, e com êxito, na direção de uma casa editôra de livros de Psicanálise, em Viena.

Esses cinco anos, “nos quais Rank continuou nesse ritmo furioso, devem ter constituído um fator em seu colapso mental subsequente”. Para um psiquiatra, para não falar de um psicanalista, explicar uma psicose maníaco-depressiva como consequência, em parte, de excesso de trabalho é realmente surpreendente.

Em 1923 “o espírito maléfico da dissensão” havia surgido. Naquela época, Freud culpou Jones e Abraham pela desintegração do comitê central. Mas Jones acabaria superando seus rivais. “Foi sómente depois de alguns anos que as verdadeiras causas da questão se tornaram manifestas: ou seja, o colapso na integração mental de Rank e Ferenczí.” Isso nos leva à afirmação suprema. Os derrotados na luta internacional, Rank e Ferenczi, haviam abrigado o germe da psicose por muitos anos, mas tais germes só se tornaram manifestos quando os dois discordaram de Freud. Quando se recusaram a apaziguar Freud, a psicose revelou-se! Como Jones diz com uma franqueza reconfortante, a esperança de Freud, ... ao fundar o Comitê, era de que seis de nós tínhamos condições para ocupar o lugar. Verificou-se depois, porém, que sómente quatro as tinham. Dois dos membros, Rank e Ferenczi, não puderam manter-se até o fim. Rank, de modo dramático ... e Ferenczi, mais gradualmente, em fins de sua vida, revelaram manifestações psicóticas que entre outros indícios incluíam um afastamento das idéias de Freud e suas doutrinas. As sementes de uma psicose destruidora, invisível durante tanto tempo, germinaram finalmente. (Grifos meus.)

Se o que diz Jones é certo, foi realmente um descuido surpreendente da parte de Freud não ter visto a evolução psicótica de dois dos seus discípulos e amigos mais íntimos, senão quando o conflito se manifestou. Jones não procura dar provas objetivas de sua afirmação, sobre a propalada psicose maníaco-depressiva de Rank. Temos apenas a sua palavra, ou seja, a palavra de um homem que fêz intrigas contra Rank e suspeitou de sua lealdade, durante muitos anos, na luta dentro da côrte que cercava Freud. Há muitas provas em contrário. Cito apenas uma declaração do Dr. Harry Bone, psicanalista de Nova York que conheceu Rank desde 1932 e estêve em contato frequente com ele até a sua morte:

Em todas as numerosas vêzes e variadas situações em que tive a oportunidade de vê-lo em ação e em repouso, não percebi qualquer indício de psicose ou de outra anormalidade mental. (Comunicação pessoal)

Rank, por fim, rompeu abertamente com Freud, o que Ferenczi jamais fêz. É portanto ainda mais surpreendente que Ferenczi seja acusado por Jones de traição. Como no caso de Jung e Rank, a história da traição começou, ao que se supõe, com uma viagem fatal à América. Quando Ferenczi quis ir a Nova York, uma “previsão intuitiva, provavelmente baseada na sequência infeliz de visitas semelhantes por Jung e Rank”, levou Jones a aconselhar-lhe que desistisse. Não obstante, com o apoio de Freud, Ferenczi partiu para os Estados Unidos e o “resultado justificou minhas [de Jones] previsões. Ferenczi jamais voltou a ser o mesmo, depois daquela visita, embora se passassem outros quatro -ou cinco anos até que sua depressão mental se tornasse evidente a Freud”. (Grifos meus.) Nos anos seguintes, as rivalidades e intrigas fantásticas entre Jones e Ferenczi, ao que parece, continuaram. Ferenczi suspeitou que Jones mentia e ambicionava, por motivos financeiros, unir as nações anglo-saxônicas sob seu cetro. Segundo Jones, “Freud foi, por isso, influenciado negativamente em relação a mim”. Mas as fôrças anti-Ferenczi parecem ter levado a melhor, no fim. Freud escreveu a Ferenczi, em dezembro de 1929: Você afastou-se, aparentemente, de mim nos últimos anos, mas espero que não o tenha feito a ponto de que se possa esperar a criação de uma nova análise, oposta, pelo meu Paladino e Grão-Vizir secreto!

Qual a essência das dissensões teóricas entre Freud e Ferenczi? Êste último se impressionara muito pela importância da falta de bondade dos pais, e acreditava que, Para ser curado, o paciente necessitava de mais do que “interpretações”, necessitava do tipo de amor fraternal que lhe havia sido negado quando criança.

Ferenczi modificou sua atitude para com o paciente, passando de observador frio a ser humano participante e amante, e entusiasmou-se com os resultados terapêuticos da nova atitude. Freud, a princípio, pareceu receber com tolerância a inovação. Mas sua atitude modificou-se, ao que tudo indica, porque Ferenczi não se dispôs a apaziguá-lo imediatamente, e também porque as suspeitas lançadas sobre ele pela facção de Jones fizeram sentir seus efeitos.

Ferenczi viu Freud pela última vez em 1932, antes do Congresso em Wiesbaden. Essa visita foi realmente trágica. Freud resumiu suas impressões finais do homem que fora seu seguidor e amigo dedicado desde os primeiros anos do movimento, num telegrama a Eitingon: “Ferenczi inacessível, impressão insatisfatória.” Ferenczi disse à Dra. Clara Thompson,(Aluna e discípula de Ferenczi, hoje diretora do William Alanson White Institute of Psychiatry, Psychoanalysis and Psychology, em Nova York) imediatamente depois da visita, no trem que os levou de Viena à Alemanha, que o encontro fôra “terrível”, e que Freud lhe dissera que podia ler seu trabalho no congresso psicanalista em Wiesbaden, mas devia prometer que não o publicaria, Pouco depois, Ferenczi revelava os primeiros sintomas da anemia aguda que causaria sua morte, no ano seguinte.

Algum tempo antes de seu último encontro com Freud, Ferenczi dissera à Sra. Izette de ForeSt (Aluna e amiga de Ferenczi, psicanalista e autora de The Leaven of Love, que encerra uma excelente exposição das idéias de Ferenczi sôbre a técnica psicanalítica) que se sentira triste e magoado pelo tratamento sêco e agressivo que recebera de Freud. (Comunicação pessoal) Tal atitude de Freud revela uma intolerância acentuada. Não obstante, a incapacidade que êle mostrava de perdoar a um antigo amigo, que dele se afastara, evidencia-se ainda mais expressivamente no ódio e no desprezo com que se referiu a Alfred Adler, por ocasião da morte dêste:

Para um menino judeu nascido num subúrbio vienense, a morte em Aberdeen é um feito excepcional, uma prova de como conseguiu fazer carreira. O mundo realmente o recompensou generosamente pelo serviço de contradizer a Psicanálise.

No caso de Ferenczi, chamar sua atitude de “frieza”‟ ou “quase inimizade”, como lzette de Forest fêz em The Leaven of Love, é uma caracterização bastante moderada. Jones, porém, que nega haver em Freud traços de qualquer autoritarismo ou intolerância, declara simplesmente que não há nada de verdade na história dessa hostilidade, “embora seja altamente provável que o próprio Ferenczi, em seu estado de alucinação final, acreditasse nela”.

Algumas semanas antes de sua morte, Ferenczi mandou a Freud congratulações pelo seu aniversário, mas supostamente “a perturbação mental fizera progressos rápidos nos últimos meses”. Segundo Jones (que não menciona fontes), Ferenczi relatou que um de seus pacientes americanos o havia analisado e com isso o curara de todos os seus problemas, e que tal paciente lhe mandava mensagens através do Atlântico. Jones, porém, é obrigado a admitir que Ferenczi sempre acreditara firmemente na telepatia, o que elimina a “prova” de sua loucura. A única “prova” existente é “a alucinação sôbre a suposta hostilidade de Freud”. Jones supõe, aparentemente, que sómente uma mente enfêrma pode acusar Freud de autoritarismo e hostilidade.

Jones leva a história da suposta psicose de Ferenczi, cujos germes teriam existido desde muito antes, a um clímax. Quando a moléstia atingiu a espinha dorsal e o cérebro, isso, segundo Jones, sem dúvida foi “exacerbado pelas suas tendências psicóticas latentes”. Numa de suas últimas cartas a Freud, depois da ascensão de Hitler ao poder, Ferenczi lhe sugeria que fosse para a Inglaterra.

Jones interpreta esse conselho realista como indício de que “havia certo método em sua loucura”. Finalmente, já próximo do fim, ocorreram manifestações paranóicas e até mesmo homicidas, seguidas pela morte súbita a 24 de maio.” Jones não alega conhecer os detalhes pessoalmente, nem proporciona qualquer indício ou prova da psicose de Ferenczi ou das “manifestações paranóicas e até mesmo homicidas”. Em vista disso, e das afirmações seguintes, as declarações de Jones sobre a psicose de Rank e Ferenczi devem ser consideradas como inverídicas e sob a suspeita de invenção, motivada por velhos ciúmes pessoais e pelo desejo de poupar a Freud a crítica de ter sido áspero e mau para com homem profundamente dedicado a ele.

(Não pretendo acusar o Dr. jones de insinceridade consciente; mas os impulsos inconscientes podem derrotar as intenções conscientes, e é exatamente disso que se ocupa a Psicanálise.)

 

Jones não viu Ferenczi nos últimos anos de sua doença. Mas a Dra. Clara Thompson, que o acompanhou desde 1932 até o dia de sua morte, declara:

“exceto pelos sintomas de sua doença física, não havia nada de psicótico em suas reações, que eu tivesse observado. Visitei-o regularmente, e conversei com êle, e não houve um único incidente, além das dificuldades de memória, que consubstanciasse as afirmações de Jones sobre a psicose ou as inclinações homicidas de Ferenczi.

O Dr. Michael Balint, um dos discípulos mais fiéis de Ferenczi e o executor de seu legado literário, também discorda da afirmação do Dr. Jones. Diz ele: Apesar da séria condição neurológica [relacionada com a anemia aguda] sua mente permaneceu clara até o fim, e posso afirmá-lo pela experiência pessoal, pois o vi frequentemente durante os últimos meses, praticamente uma ou duas vezes por semana. (Comunicação pessoal)

A enteada de Ferenczi, a Sra. Elma Lauvrik, que também o acompanhou até a morte, escreveu-me confirmando totalmente as declarações da Dr.a Thompson e do Dr. Balint.

Fiz uma descrição tão detalhada das afirmações fantásticas do Dr. Jones, em parte para defender a memória de homens bem dotados e dedicados, que já não se podem defender, em parte para mostrar, com exemplo concreto, o espírito partidarista que se encontra em certos círculos do movimento psicanalítico. As suspeitas que se possam ter formulado antes, de que o movimento psicanalítico encerra tal espírito partidário, são confirmadas pelo trabalho de Jones, especialmente pelo tratamento dado a Rank e Ferenczi no terceiro volume.

Surge, agora, uma indagação: como pôde a Psicanálise, uma teoria e uma terapêutica, transformar-se num movimento fanático desse tipo? A resposta só pode ser encontrada pelo exame dos motivos de Freud na evolução do movimento psicanalítico.

Na verdade, visto superficialmente, Freud foi apenas o criador de um novo tratamento das doenças mentais, e a tal questão dedicou seu principal interesse e todos os seus esforços. Mas se olharmos mais de perto verificaremos que atrás desse conceito de terapêutica médica para a cura de neurose há uma intenção totalmente diferente, raramente expressa por Freud, e provavelmente nem mesmo consciente. Esse conceito oculto e implícito se ocupava primordialmente não da cura da doença mental, mas de algo transcendente ao conceito da cura e enfermidade. Que era?

Certamente não era a Medicina. Freud escreveu: Depois de quarenta anos de atividade médica, meu autoconhecimento me diz que jamais fui médico, no devido sentido. Tornei-me médico ao ser obrigado a me desviar de meu objetivo inicial, e o triunfo de minha vida está em ter, depois de uma longa e tortuosa viagem, encontrado o caminho para minha finalidade original.

Qual foi essa finalidade original que Freud reencontrou? Ele o diz claramente, no mesmo parágrafo: “Em minha juventude, senti uma necessidade esmagadora de compreender um pouco dos enigmas do mundo em que vivemos, e talvez mesmo de contribuir para a sua solução.” (Grifos meus.) Interesse pelos enigmas do mundo e desejo de contribuir para a sua solução eram intensos em Freud quando na escola secundária, especialmente durante os últimos anos, e ele próprio diz: “Sob a influência poderosa de um companheiro de escola, de um rapaz um pouco mais velho que chegou a se  destacar mais tarde na política, surgiu-me o desejo de estudar Direito, como ele, e de dedicar-me a atividades sociais.” Esse colega de escola, Heinrich Braun, tornou-se o líder do movimento socialista. Como Freud diz noutro lugar, nessa época foram nomeados pelo Imperador os primeiros ministros burgueses, o que despertou grande alegria entre a classe média liberal, particularmente entre a intelligentsia judaica. Naquela época, Freud já se tinha interessado muito pelos problemas do socialismo, pela possibilidade de ser no futuro um líder político, e pretendia estudar Direito como um primeiro passo nessa direção.

Mesmo quando trabalhou como assistente num laboratório fisiológico, sentia que se tinha de dedicar a uma causa.

Em 1881 escreveu à sua noiva:

A Filosofia, que sempre me pareceu como meu objetivo e refúgio da velhice, aumenta cada dia de atração, tal como as questões humanas em conjunto, ou qualquer causa a que possa dar minha dedicação a qualquer preço. Mas o temor da incerteza das questões políticas e locais me afasta dessa esfera.

O interesse de Freud pela política usando a palavra “interesse” num sentido bastante amplo e sua identificação com líderes que eram conquistadores ou grandes benfeitores da humanidade não surgiram apenas nos últimos anos da escola secundária. Já como rapaz tivera grande admiração por Aníbal, que o levou a uma identificação que perdurou durante toda a sua vida, como se vê facilmente pelos seus escritos. A identificação de Freud com Moisés foi talvez ainda mais profunda e perdurável. Há provas disso. Basta dizer, aqui, que Freud se identificou com Moisés, que levou uma massa ignorante a uma vida melhor, vida de razão e controle das paixões. Outro indício da mesma atitude foi o interesse de Freud, em 1910, pela Fraternidade Internacional de Ética e Cultura. Jones relata que Freud perguntou a Jung o que pensava sobre seu ingresso nessa fraternidade, e somente depois da resposta negativa abandonou a ideia. Não obstante, o Movimento Psicanalítico Internacional, fundado pouco depois, viria a ser uma continuação daquele plano.

Quais os objetivos e qual o dogma desse movimento? Freud o expressou com clareza nesta frase: “Onde houver Id, haverá Ego.” Seu objetivo era o controle das paixões irracionais pela razão, a libertação do homem em relação à paixão dentro das possibilidades humanas.

Estudou as fontes das paixões a fim de ajudar o homem a dominá-las. Sua finalidade era a verdade, o conhecimento da realidade; para ele, esse conhecimento era a única luz orientadora do homem na terra. Esses objetivos eram tradicionais ao Racionalismo, ao Iluminismo, e à Ética puritana. Foi o génio de Freud que os ligou com uma nova compreensão psicológica da dimensão das fontes ocultas e irracionais da ação humana.

Em muitas das formulações de Freud é visível que seu interesse transcendia à cura médica em si. Ele fala do tratamento psicanalítico como a “libertação do ser humano”, e do analista como aquele que deve servir de “modelo” e agir como um “professor”. E afirmar que a “relação entre o analista e o paciente se baseia no amor da verdade, ou seja, no reconhecimento da verdade, que impede qualquer tipo de fraude ou engano”.

Que se segue de tudo isso? Embora conscientemente Freud fosse apenas um cientista e um terapeuta, inconscientemente era - e desejava ser - um dos grandes líderes ético-culturais do século XX. Queria conquistar o mundo com seu dogma racionalista e puritano, e levar o homem à única salvação - e muito limitada - de que era capaz: a conquista da paixão pelo intelecto. Para Freud, isso - e não a religião ou qualquer solução política, como o socialismo - era a única resposta válida ao problema do homem.

O movimento de Freud estava imbuído do entusiasmo do racionalismo e liberalismo dos séculos XVIII e XIX. O destino trágico de Freud foi ter esse movimento se popularizado, depois da Primeira Guerra Mundial, entre a classe média urbana e a intelligentsia, às quais faltava fé no radicalismo político ou filosófico. Assim, a Psicanálise substituiu o interesse radical filosófico ou político, tornando-se um novo credo que pouco exigia de seus adeptos, a não ser o aprendizado da nomenclatura.

Foi exatamente essa função que tornou a Psicanálise tão popular hoje. A burocracia que herdou o legado de Freud capitaliza sobre essa popularidade, mas herdou pouco de sua grandeza e de seu verdadeiro radicalismo. Seus membros lutaram entre si, com intrigas e maquinações mesquinhas, e o mito “oficial” sôbre Ferenczi e Rank serve apenas para eliminar os dois únicos discípulos de imaginação e poder criador entre o grupo original que perdurou, depois das defecções de Adler e Jung. No meu entender, porém, para que a Psicanálise desenvolva e siga as descobertas básicas de Freud, terá de rever, do ponto de vista do pensamento humanista e dialético, muitas de suas teorias concebidas dentro do espírito do materialismo fisiológico do século XIX. Essa tradução de Freud a uma nova clave deve basear-se numa interpretação dinâmica do homem, proveniente de uma compreensão das condições específicas da existência humana. As finalidades humanísticas de Freud, transcendendo a enfermidade e o tratamento, poderão então encontrar uma expressão mais nova e mais adequada, mas somente se a Psicanálise deixar de ser governada por uma burocracia estéril e reconquistar na ousadia original, na pesquisa da verdade.

 

(ERICH FROMM - O DOGMA DE CRISTO e Outros Ensaios Sobre Religião, Psicologia e Cultura) 

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publicado às 21:17


20. Como mostra a história, a consciência de ter dívidas para com a divindade não se extinguiu após o declínio da forma de organização da “comunidade” baseada nos vínculos de sangue; do mesmo modo como herdou as noções “bom” e “ruim” da nobreza de estirpe (juntamente com o seu fundamental pendor psicológico a estabelecer hierarquias), a humanidade recebeu, com a herança das divindades tribais e familiares, também o peso das dívidas ainda não pagas, e o anseio de resgatar-se. (A transição é marcada por aquelas vastas populações de escravos e servos da gleba, que se adaptaram ao culto dos deuses dos senhores, seja através da coerção, seja por servilismo e mimicry [imitação]: a partir delas esse legado se alastrou em todas as direções.) O sentimento de culpa em relação à divindade não parou de crescer durante milênios, e sempre na mesma razão em que nesse mundo cresceram e foram levados às alturas o conceito e o sentimento de Deus. (Toda a história de luta, vitória, conciliação e fusão étnica, tudo o que antecede a definitiva hierarquização de todos os elementos populares, em toda grande síntese racial, reflete-se no caos das genealogias dos deuses, nas sagas de suas lutas, vitórias e conciliações; o progresso em direção a impérios universais é também o progresso em direção a divindades universais; o despotismo, com seu triunfo sobre a nobreza independente, sempre abre o caminho para algum monoteísmo.) O advento do Deus cristão, o deus máximo até agora alcançado, trouxe também ao mundo o máximo de sentimento de culpa. Supondo que tenhamos embarcado na direção contrária, com uma certa probabilidade se poderia deduzir, considerando o irresistível declínio da fé no Deus cristão, que já agora se verifica um considerável declínio da consciência de culpa do homem; sim, não devemos inclusive rejeitar a perspectiva de que a vitória total e definitiva do ateísmo possa livrar a humanidade desse sentimento de estar em dívida com seu começo, sua causa prima [causa primeira]. O ateísmo e uma espécie de segunda inocência(Zweite Unschuld; como vimos, Schuld = culpa/dívida; de maneira correspondente, Unschuld = inocência.) são inseparáveis. —

 

21. Em linhas gerais, e de modo breve, é o que tinha momentaneamente a dizer acerca do nexo entre as noções de “culpa”, “dever”,(Pflicht: “dever” no sentido de “obrigação”. Logo adiante, a palavra Zurückschiebung foi traduzida por “afundamento”, nas duas vezes em que ocorre (schieben significa literalmente “empurrar”; zurück, “para trás”). Nas outras versões consultadas: repliegue, retirament, spostamento/il loro spostarsi indietro, refoulement, their pushing back/their being pushed back, the way [they] are pushed back/their being pushed back.) e seus pressupostos religiosos: intencionalmente deixei até agora de lado a moralização desses conceitos (seu afundamento na consciência, de maneira mais precisa, o entrelaçamento da má consciência com a noção de Deus), e no final da seção anterior falei até como se esta moralização não existisse, como se essas noções estivessem no fim, depois de acabado o seu pressuposto, a crença em nosso “credor”, em Deus. A realidade diverge disso de uma maneira terrível. Com a moralização das noções de culpa e dever, com seu afundamento na consciência, houve a tentativa de inverter a direção do desenvolvimento acima descrito, ou ao menos de deter o seu movimento: justamente a perspectiva de um resgate definitivo deve se encerrar, de modo pessimista, de uma vez por todas; o olhar deve se chocar e recuar desconsolado, ante uma impossibilidade férrea; as noções de culpa e dever devem se voltar para trás — contra quem? Não se pode duvidar: primeiramente contra o “devedor”, no qual a má consciência de tal modo se enraíza, corroendo e crescendo para todos os lados como um pólipo, que, por fim, com a impossibilidade de pagar a dívida, se concebe também a impossibilidade da penitência, a ideia de que não se pode realizá-la (o “castigo eterno”); mas finalmente se voltam até mesmo contra o “credor”: recordemos a causa prima do homem, o começo da espécie humana, o seu ancestral, que passa a ser amaldiçoado (“Adão”, “pecado original”, “privação do livre-arbítrio”), ou a natureza, em cujo seio surge o homem, e na qual passa a ser localizado o princípio mau (“demonização da natureza”), ou a própria existência, que resta como algo em si sem valor (afastamento niilista da vida, anseio do Nada, ou anseio do “contrário”, de um Ser-outro, budismo e similares) — até que subitamente nos achamos ante o expediente paradoxal e horrível no qual a humanidade atormentada encontrou um alívio momentâneo, aquele golpe de gênio do cristianismo: o próprio Deus se sacrificando pela culpa dos homens, o próprio Deus pagando a si mesmo, Deus como o único que pode redimir o homem daquilo que para o próprio homem se tornou irredimível — o credor se sacrificando por seu devedor, por amor (é de se dar crédito?), por amor a seu devedor!...

 

22. Já terão adivinhado o que realmente se passou com tudo isso, e sob tudo isso: essa vontade de se torturar, essa crueldade reprimida(“Crueldade reprimida” é também o que as versões inglesa (americana) e catalã usaram para zurückgetretene Grausamkeit. Mas não é uma tradução que satisfaça plenamente. O verbo zurücktreten significa “recuar, retroceder”. As outras versões oferecem pospuesta (esp.), rintuzzata (it.), rentrée (fr.), downtrodden (brit.)) do bicho-homem interiorizado, acuado dentro de si mesmo, aprisionado no “Estado” para fins de domesticação, que inventou a má consciência para se fazer mal, depois que a saída mais natural para esse querer-fazer-mal fora bloqueada — esse homem da má consciência se apoderou da suposição religiosa para levar seu automartírio à mais horrenda culminância. Uma dívida para com Deus: este pensamento tornou-se para ele um instrumento de suplício. Ele apreende em “Deus” as últimas antíteses que chega a encontrar para seus autênticos insuprimíveis instintos animais, ele reinterpreta esses instintos como culpa em relação a Deus (como inimizade, insurreição, rebelião contra o “Senhor”, o “Pai”, o progenitor e princípio do mundo), ele se retesa na contradição “Deus” e “Diabo”, todo o Não que diz a si, à natureza, naturalidade, realidade do seu ser, ele o projeta fora de si como um Sim, como algo existente, corpóreo, real, como Deus, como santidade de Deus, como Deus juiz, como Deus verdugo, como Além, como eternidade, como tormento sem fim, como Inferno, como incomensurabilidade do castigo e da culpa. Há uma espécie de loucura da vontade, nessa crueldade psíquica, que é simplesmente sem igual: a vontade do homem de sentir-se culpado e desprezível, até ser impossível a expiação, sua vontade de crer-se castigado, sem que o castigo possa jamais equivaler à culpa, sua vontade de infectar e envenenar todo o fundo das coisas com o problema do castigo e da culpa, para de uma vez por todas cortar para si a saída desse labirinto de “ideias fixas”, sua vontade de erigir um ideal — o do “santo Deus” — e em vista dele ter a certeza tangível de sua total indignidade. Oh, esta insana e triste besta que é o homem! Que coisas não lhe ocorrem, que desnatureza, que paroxismos do absurdo, que bestialidade da ideia não irrompe de imediato, quando é impedida, apenas um pouco, de ser besta na ação!... Tudo isso é sumamente interessante, mas também de uma negra, sombria e enervante tristeza, de modo que devemos nos proibir severamente de olhar por longo tempo esses abismos. Aqui há doença, sem qualquer dúvida, a mais terrível doença que jamais devastou o homem — e quem ainda consegue ouvir (mas hoje não há ouvidos para isso!) como nessa noite de tormenta e absurdo ressoou o grito de amor, o grito do mais sequioso êxtase, da salvação no amor, voltará as costas, tomado de horror invencível... Há tanta coisa horrível no homem!... Já por muito tempo a terra foi um hospício!...

 

23. Isto deve bastar, de uma vez por todas, acerca da origem do “santo Deus”. — Que em si a concepção de deuses não conduz necessariamente a essa depravação da fantasia que tivemos de considerar por um instante, que existem maneiras mais nobres de se utilizar a invenção de deuses, que não seja para essa violação e autocrucifixão do homem, na qual os últimos milênios europeus demonstraram sua mestria — isto se pode felizmente concluir, a todo olhar lançado aos deuses gregos, esses reflexos de homens nobres e senhores de si, nos quais o animal no homem se sentia divinizado e não se dilacerava, não se enraivecia consigo mesmo! Por muito e muito tempo, esses gregos se utilizaram dos seus deuses precisamente para manter afastada a “má consciência”, para poder continuar gozando a liberdade da alma: uso contrário, portanto, ao que o cristianismo fez do seu Deus. Nisso eles foram bem longe, essas crianças magníficas e leoninas; e uma autoridade não menor que a do próprio Zeus homérico lhes dá a entender, vez por outra, que eles tornam as coisas fáceis demais para si mesmos. “Estranho”, diz ele numa ocasião — trata-se do caso de Egisto,(Egisto: na mitologia grega, filho de Tiestes e da sua própria filha, Pelopeia. Assassinou o padrasto, Atreu, rei de Micenas, que havia matado os filhos do irmão, Tiestes; seduziu Clitemnestra, esposa de Agamênon, e depois assassinou este. Foi morto por Orestes, filho de Agamênon. Para mais detalhes, ver o Dicionário da mitologia grega e latina, de Pierre Grimal (São Paulo, Martins Fontes, 2ª ed., 1993). A citação de Homero, feita em seguida por Nietzsche, é da Odisseia, I, 32-4.) um caso bastante grave —

 


“Estranho, como se queixam dos deuses os mortais!

Apenas de nós vêm seus males, acreditam; mas são eles

Que por insensatez, e mesmo contra o destino, causam o

[infortúnio.”


 

Mas aí se pode ver e ouvir que também esse juiz e espectador olímpico está longe de se aborrecer com os homens ou deles pensar mal: “como são loucos!” é o que pensa, ao observar os malfeitos dos mortais — e “loucura”, “insensatez”, um pouco de “perturbação na cabeça”, tudo isso admitiam de si mesmos até os gregos da era mais forte e mais valente, como motivo de muita coisa ruim e funesta — loucura e não pecado! Vocês compreendem?... Mas mesmo essa perturbação era um problema — “como é possível? como pôde isto acontecer a cabeças como as nossas, nós, de ascendência aristocrática, homens afortunados, bem constituídos, da melhor sociedade, de nobreza e virtude?” — assim se perguntou durante séculos o grego nobre, em face das atrocidades e cruezas incompreensíveis com que um de seus iguais se havia maculado. “Um deus deve tê-lo enlouquecido”, dizia finalmente a si mesmo, balançando a cabeça... Esta saída é típica dos gregos... Dessa maneira os deuses serviam para, até certo ponto, justificar o homem também na ruindade; serviam como causas do mal — naquele tempo eles não tomavam a si o castigo, e sim, o que é mais nobre, a culpa...

 

(Friedrich Nietzsche - Genealogia da Moral)

Entre o Céu e o Inferno

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publicado às 14:55


O instante eterno

por Thynus, em 16.10.16

A globalização liberal está traindo uma das promessas fundamentais da democracia: aquela segundo a qual poderíamos, coletivamente, fazer nossa história ou participar dela, interferir em nosso destino para tentar dirigi-lo rumo ao melhor. Ora, o universo no qual entramos não apenas nos escapa, mas se revela desprovido de sentido, na dupla acepção do termo: simultaneamente privado de significado e de direção.

Estou certo de que você já constatou que todos os anos seu celular, seu computador, os jogos que você utiliza, e tudo o mais, mudam: as funções se multiplicam, as telas aumentam, se colorem, as conexões da internet melhoram etc. Ora, você compreende que a marca que não acompanhasse o ritmo se suicidaria. Portanto, ela é forçada a fazê-lo, quer lhe agrade ou não, quer isso tenha ou não sentido. Não é uma questão de gosto, uma escolha entre outras, mas um imperativo absoluto, uma necessidade indiscutível, caso se queira apenas sobreviver. Nesse sentido, poderíamos dizer que na competição globalizada que hoje põe todas as atividades humanas num permanente estado de concorrência, a história se move longe da vontade dos homens. Ela se torna uma espécie de fatalidade e nada indica com certeza que se oriente para o melhor. Quem pode acreditar seriamente que vamos ser mais livres e mais felizes porque no ano que vem o peso de nosso aparelho de MP3 vai diminuir pela metade, ou sua memória duplicar? Conforme o desejo de Nietzsche, os ídolos morreram: de fato, nenhum ideal inspira mais o curso do mundo, só existe a necessidade absoluta do movimento pelo movimento.

Para usar uma metáfora banal, mas significativa: assim como uma bicicleta deve avançar para não cair, ou um giroscópio rodar sem parar para se manter no eixo e não se soltar, precisamos sempre “progredir”, mas esse progresso mecanicamente induzido pela luta em vista da sobrevivência não pode mais se situar no centro de um projeto mais vasto, integrado num grande desígnio. Ainda nesse aspecto, como você vê, a transcendência dos grandes ideais humanistas de que Nietzsche zombava desapareceu mesmo — de modo que em certo sentido, como pensa Heidegger, é seu programa que o capitalismo globalizado realiza perfeitamente.

(Luc Ferry - Aprender a Viver)

 

O urgente não é mais se opor a “poderes”, a partir de agora raros, a tal ponto o curso da história tornou-se mecânico e anônimo, mas, ao contrário, fazer surgir novas ideias, ou mesmo novos ideais, a fim de se reencontrar um mínimo de poder no desenvolvimento do mundo. Pois o verdadeiro problema, na verdade, não é que ele seria secretamente guiado por alguns “poderosos”, mas, ao contrário, que ele escapa, de agora em diante, a todos nós, inclusive aos poderosos. Não é tanto o poder que incomoda, mas antes a ausência de poder — de modo que querer desconstruir ainda e sempre os ídolos, procurar pela enésima vez derrubar o “Poder”, com P maiúsculo, não é mais tanto agir em função da emancipação dos homens, mas se tornar involuntariamente cúmplice de uma globalização cega e insensata.

(Luc Ferry - Aprender a Viver)

 
 
MAFFESOLI, Michel. "O instante eterno: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas". Tradução de Rogério de Almeida e Alexandre Dias. São Paulo: Zouk, 2003.

 
E pelo espaço de um instante, o eterno e o efêmero te fizeram em mim vida.

Este é o título de um dos melhores livros que li para entender as condutas individuais e as práticas sociais da atualidade, a diferença entre a sociedade moderna e a pós-moderna, chamada de globalizada.
Mas, para o sociólogo francês Michel Maffesoli, isso é: “pura abstração, limitada à ordem econômica ou política”, que deixa entrever cada vez mais sua fragilidade. Vivemos sob o “totalitarismo do Um ou do mercado”, afirma, porém “o verdadeiro princípio de realidade é o cotidiano”. É no cotidiano que vivemos a grande transformação da pósmodernidade. Mas que transformação é esta?
A modernidade se caracterizou pelo individualismo, com sociedade contratual, centralidade da razão, educação como domesticação para a sociedade disciplinar, visando o enquadramento da juventude no mundo do trabalho e da cidadania. Mas, assim como a escola era o remédio ruim para garantir um futuro melhor, a modernidade era marcada pela esperança no futuro, fundada na crença do progresso da humanidade. Uma crença que fazia dos homens e mulheres, dos jovens e dos trabalhadores, atores da história, voltados para as grandes causas sociais, como a liberdade, a democracia, o socialismo utópico, o socialismo científico..., porque a política era entendida como ação voltada para a busca da “felicidade geral” – coisa em que hoje, nem as crianças acreditam.
Não é à toa que o subtítulo do livro é O retorno do trágico nas sociedades pós-modernas. Atualmente, em que pese o enorme progresso tecnológico, a crença no progresso da humanidade não passa de mera ideologia, de mito, de máscara que encobre o medo de enxergar o que está acontecendo sob os nossos olhos: não há razões superiores à vida nem verdades universais, nem grandes causas. Já não há mais o drama moderno, em que o homem lutava para controlar a desordem e buscar solução num futuro melhor. Mas sim tragédia pós-moderna, “intensificação da vida dos nervos”, forte presença da morte na vida, precariedade da existência, fragilidade humana, impotência do homem diante da imposição dos fatos históricos de força, violência e impiedade. Diferentemente do drama, a tragédia engendra a aceitação da fatalidade como destino e a religiosidade ambiente. Porém, diante do trágico latente, na vida cotidiana, emerge um hedonismo ardente. A intranqülidade, as incertezas, as situações efêmeras despertam a voracidade de viver, a vontade de tirar proveito de tudo, a intensidade da vida. Usando os termos de Maffesoli, vivemos numa “surrealidade societal”, com novos territórios, novos valores, onde se procura viver intensamente, aproveitando ao máximo cada momento, eternizando o instante, sob valores dionisíacos, lúdicos, pois não dá mais para adiar o gozo em nome de um projeto político ou profissional.
O historicismo finalista acabou junto com o mito do progresso e da cidadania. O que importa para entender a pós-modernidade é a passagem de um tempo linear, seguro, de projeto futuro, para um tempo policromático, essencialmente trágico e presenteísta, que escapa do utilitarismo burguês e do ascetismo, para difundir “a medida da vida sem medidas”, a consumação perceptível, a vida vivida com avidez, a explosão dos elementos dionisíacos, o carpe diem, como expressão da consciência trágica.
A “atração apaixonada” é a categoria chave para definir o espírito da pós-modernidade. Ela aparece com mais evidência nas tribos das novas gerações, mas afeta idosos e adultos, expressando-se na busca da eterna juventude, no culto ao corpo, no modo de vestir, de falar, de pensar. O homem maduro - senhor de si e da natureza, durante a modernidade - foi substituído pela criança eterna e brincalhona. Daí a pergunta do autor: “Não é possível imaginar que, em lugar do trabalho, com seu aspecto crucificador, o lúdico, com sua dimensão criativa, seja o novo paradigma cultural?”
É importante ressaltar que, na tragédia, o lúdico não se resume à brincadeira de criança, pois o descomedimento orgiástico é uma resposta do desespero, uma tentativa de ludibriá-lo, de purgar a angústia da época. Assim, sob o signo do trágico, apesar da competição desmedida e do individualismo a-social, surgem nomadismos, tribalismos – uma nova sociabilidade em que a comunidade prevalece sobre o indivíduo. Essa nova sociabilidade é complexa: o culto ao corpo tem algo de primário, as celebrações animalescas, como a do touro, não escondem a bestialidade do homem. O hard rock, a techno music, o estilo decadente das roupas, o nomadismo ambiente traduzem “o retorno dos bárbaros aos nossos muros” e apontam a fragmentação da sociedade disciplinar ordenada em mais de três séculos de modernidade. Em suma, o bárbaro já não se opõe ao civilizado, torna-se um componente da civilização.
 Michel Maffesoli aceita a transformação, sabe que ela constitui uma forma de regressão, mas uma “regressão fundadora”, que acarreta, paradoxalmente, um excedente de vida. O livro é um convite à vida em toda a sua ebulição, em meio à explosão trágica, onde o barroco reaparece na vida cotidiana, expressando a emoção, o sentimento trágico, a excitação, o desejo, que as imposições morais e econômicas não domesticaram. Em outras palavras, há um querer-viver social que a civilização não conseguiu reprimir.
O livro suscita uma questão interessante para quem trabalha com educação. Depois de quase quatro séculos de educação para a domesticação do indivíduo, as duas formas de autoridade do professor - a manifesta e a anônima - entraram em crise juntamente com a liberdade, a centralidade da razão e o progresso. O autor põe em xeque a própria idéia de formação. Enquanto Adorno, baseado em Kant, afirmava que a formação ligava-se à idéia de aprender a pensar com o pensamento do Outro, para que o indivíduo aprendesse a pensar por si próprio, atingindo, assim, a maioridade intelectual, Maffesoli retoma a noção de formação para acentuar seu aspecto de iniciação. Iniciação baseada no “fervor pela vida”, que “concede ao ser (esse) um lugar primordial, que relativiza todas as outras características: fazer, ter, raciocinar”.
Se ele estiver certo, teremos que pensar em novas formas de educação da criança, da juventude e da criança eterna que se tornou o adulto da nossa época; uma educação mais adequada ao instante eterno da tragédia pós-moderna.

(Sonia MARRACH -  Educação em Revista,Marília, 2006, v.7, n.1/2, p. 133-136)
A eternidade reside num instantes

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publicado às 15:35


Buscar mais sintonia sexual

por Thynus, em 14.10.16
O que para uma cultura ou pessoa é sexualmente satisfatório, para outra pode ser um problema. Nos casamentos atuais, em geral voltados para a realização amorosa e sexual, qualquer uma das situações abaixo tende a ser percebida de forma negativa. Talvez algumas se apliquem ao seu caso:

1. Falta desejo ou libido para procurar uma aproximação sexual;

2. Uma vez iniciada a aproximação sexual, não surge a excitação;

3. Dificuldade de manter a excitação nas preliminares ou durante o sexo;

4. Dificuldade de chegar ao orgasmo;

5. Tudo funciona, mas é mecânico e pouco emocional, mesmo o orgasmo é oco;

6. Um de vocês sofre de “distúrbios sexuais”, como ejaculação precoce, anorgasmia, vaginismo, impotência etc.;

7. A frequência de relações está abaixo do desejado por um dos parceiros, e não corresponde ao socialmente esperado na idade e no ciclo de casamento.

Qualquer uma dessas situações pode estar ligada diretamente a algum dos aspectos eróticos que já discutimos no capítulo sobre atração e vida sexual. Pode faltar química sexual entre você e seu parceiro, ou talvez vocês não se entendam nas preferências eróticas. Ou um de vocês não tem habilidade sexual. Ainda há outras possibilidades.

Algumas das sete dificuldades listadas podem derivar de inibições sexuais anteriores ao casamento, que pouco têm a ver com o parceiro.

Também é possível que você ou seu parceiro simplesmente queira mudar de cenário e trocar de objeto sexual. Ao menos por um tempo, você quer sentir outro corpo, outros cheiros, toques, ter a emoção do flerte, da conquista, sair do roteiro previsível, ter uma paixão! E por isso está sentindo menos desejo e prazer.

Os problemas sexuais podem derivar de áreas não diretamente eróticas. Por exemplo, brigas e ressentimentos fora da cama que acabam contaminando o sexo.

Há também os casos em que fatores orgânicos (disfunções hormonais, efeitos colaterais de medicação) interferem no desejo e no gozo.

Já falamos em outros capítulos de quais fatores indiretamente sexuais podem contaminar seu desejo. Neste capítulo, vamos nos concentrar nas possibilidades de atuar sobre os quatro aspectos diretamente eróticos da relação — química, habilidade, preferências e ambiente sexual. Para atuar sobre as dimensões sexuais é preciso que você se comunique sexualmente com seu parceiro. Portanto, cabe uma breve palavra sobre a comunicação na cama.
Falta de sintonia na cama é motivo para desistir de tudo?
 

Comunicações sexuais

com ou sem palavras



1. Falando sobre sexo sem usar palavras

Conversar sobre preferências sexuais de cada um ou sobre a eventual falta de habilidades sexuais do parceiro pode ser bastante difícil. Há pessoas muito tímidas ou desajeitadas — e há culturas que não favorecem esse tipo de diálogo. Na cultura norte-americana, falar sobre as preferências sexuais ou sobre habilidade nas manobras sexuais é mais fácil do que na brasileira, que enxerga esse tipo de conversa como pouco romântica ou como uma “fraqueza do macho” e “devassidão da mulher”. Na cultura tradicional japonesa ou muçulmana, esse tipo de conversa nem sequer tem espaço para ocorrer. Se para vocês for difícil falar de sexo, há formas de tentar se comunicar por vias não verbais.

Por exemplo, você pode ensinar seu parceiro não só sobre suas necessidades pessoais no sexo, como também sobre as necessidades sexuais de seu gênero, mostrando e fazendo coisas, em vez de falar a respeito delas. Para isso, tem de ser suficientemente desinibido para autorizar a si mesmo e ao parceiro a explorar a sexualidade, tateando, fazendo e observando as reações do outro. Você precisa aprender a observar sinais, iniciativas e respostas, e também a sinalizar de modo adequado o que o agrada ou não.

Se você for muito tímido, tente ir aos poucos, avance a cada semana. Pode experimentar conduzir as mãos, os genitais ou outras partes do corpo do parceiro, ou indicar um ritmo diferente. Para os tímidos, é mais fácil tentar fazê-lo de modo progressivo, ao longo de vários dias ou semanas. O pior que pode acontecer é que o parceiro diga “não” ou sinalize que não quer — nesse caso, você simplesmente volta ao padrão anterior.

O mesmo vale para a sinalização que você der ao parceiro a respeito de como está recebendo as ações dele. Se você não é desinibido, tente se comunicar por meio de sonorização sexual, ritmo ou colaborando e intensificando fisicamente a manobra do parceiro. Dessa forma você pode confirmar que a postura dele o está agradando ou, ao contrário, pode gentilmente se recolher. Mesmo que for tímido, tente ser suficientemente expressivo. Você pode afastar áreas de seu corpo ou do corpo do parceiro, alterar o ritmo ou até verbalizar um gentil “prefiro do outro modo” ou “assim está desconfortável para mim”.

Cuidado para não reprimir o parceiro com um ar escandalizado ou com uma atitude veemente ou brusca. Respeite as necessidades e fantasias de cada um, entre em conexão com a história dessa necessidade, com a intensidade dela, compreenda o desejo do corpo e da mente de seu parceiro. Respeite as diferenças e, se não quiser sequer experimentar, ao menos seja cuidadoso ao recusar.

Se quiser desenvolver sua habilidade sexual e introduzir eventuais fantasias e preferências sexuais, seu desafio será ter a coragem de testar essas novas possibilidades. Use seu bom gosto e senso de oportunidade para levar para a relação as novas práticas que você quer tentar, de forma a não ficar estranho ou bizarro. Mas não deixe de tentar!

Em minha experiência de vinte anos com casais, nunca vi uma tentativa de inovação sexual de um parceiro tímido causar problemas de relacionamento. Ao contrário, vejo — com frequência — cônjuges surpresos com a reação positiva de seu parceiro, que antes ele imaginava cheio de tabus, mas que, na verdade, estava havia anos só esperando que o outro tivesse coragem de ousar.

Claro que há práticas — como levar o parceiro para um swing de casais ou usar um vibrador — que dificilmente poderão ser tentadas em silêncio e paulatinamente. Nesse caso, você terá de conversar. Aos poucos, você pode ir explorando a visão do parceiro sobre o assunto, tateando as respostas e compartilhando suas fantasias


2. Comunicando-se — com palavras — sobre habilidades e preferências sexuais

Entraves típicos a uma conversa aberta sobre sexo são:

I. A inibição cultural em falar de sexo. Há diversos preconceitos, como considerar sexo algo “sujo” ou achar que falar de aspectos “técnicos” acaba com a graça e a magia.

II. Medo de que, ao falar de sexo, você abale a autoestima do parceiro. Será que, se você disser ao parceiro que ele não o está agradando, ele irá se ver como um amante incompetente?

Vencer esses dois entraves pode ser difícil para pessoas tímidas ou sexualmente inibidas, mas talvez você possa pensar que falar de sexo é necessário para a maioria dos casais que gostaria de se ajustar nessa área. Vocês provavelmente não são telepatas, e uma sintonia sexual mágica e natural é algo raro.

Pessoas mais tímidas preferem esperar por uma “ocasião natural” para falar sobre o assunto, mas isso pode levar semanas, meses ou anos. Em geral, em todas as áreas problemáticas do casamento, é melhor você aprender a abordar o assunto de modo proativo, sabendo escolher um momento adequado e uma forma respeitosa. Para falar de sexo vale o mesmo: escolha um momento calmo e íntimo para ativamente puxar o assunto, usando de tato e carinho. Crie você mesmo as ocasiões e empregue o diálogo em conexão (capítulo 13).

Nem sempre a conversa sobre sexo tem de ser profunda e se constituir como um diálogo extenso. Para falar de suas preferências e ajustar manobras “técnicas”, há casos em que se pode ser mais direto. Como a tímida Juliana experimentou.


Agora vou lhe mostrar algo

André beijava Juliana de um modo que não a agradava. Para ela, o beijo era muito molhado, com uma língua muito invasiva, e demorado demais, sufocando-a. Em certa ocasião, antes de começarem a se beijar, ela experimentou ir sussurrando, de modo sensual e sedutor, algo como: “Hoje eu vou conduzi-lo, deixe-me mostrar como eu adoraria que você me beijasse”. Funcionou e evoluiu para diversas comunicações sexuais divertidas ao longo do mês a respeito de outras manobras sexuais.


Para tratar de situações mais complexas, é melhor você seguir os cinco passos do diálogo em conexão. Juliana, por exemplo, se incomodava quando o marido, durante o ato sexual, lhe perguntava diversas vezes se ela estava gostando ou se tinha gozado. Ao “cobrá-la”, ele a deixava ansiosa. E pior: prolongava além do razoável o ato sexual, insistindo em extrair dela um orgasmo.

Ela decidiu ter um diálogo em conexão sobre o tema. No passo 1, elogiou o empenho dele em agradá-la. No passo 2, explorou como ele via essa questão do orgasmo dela. Depois, no passo 3, empatizou. Finalmente, no passo 4, compartilhou com ele algo como: “Adoro que você queira me dar prazer e que não seja egoísta, mas para nós, mulheres, chegar ao orgasmo tem outro significado do que para vocês. Uma minoria de mulheres tem orgasmo tão facilmente. Mas há atos sexuais sem orgasmo que são muito prazerosos. Fico aflita se você pensa que preciso sempre ter um orgasmo e que você tenha de me proporcionar isso. Sinto-me cobrada e vejo você se cobrando. Queria tranquilizá-lo e dizer que, quando eu achar que você deve me esperar, avisarei. Quando eu não disser nada, você pode seguir em frente e chegar você ao orgasmo. Isso para mim também é delicioso”.

Há muitos outros modos de iniciar e conduzir uma conversa sobre sexo. Você pode casualmente investigar o que seu parceiro sente sobre a vida sexual de vocês, ou ser mais direto e explicar que você sente que poderiam incrementar alguns aspectos e que gostaria de falar sobre isso. Pedro, o marido que se tornou dono de casa, tinha um problema oposto ao de Juliana. Ele não era nada tímido, ao contrário, insistia de modo invasivo e grosseiro em instruir a esposa, Silvana, sobre as manobras sexuais que desejava. Também ele aprendeu a falar de modo mais sintonizado sobre o fato de que queria mais sexo e sobre as fantasias que queria realizar. Em vez de acusá-la, queixar-se e dar-lhe “aulas”, ele mudou o padrão.


Pedro, o fofo

“Notei que nossa frequência sexual de seis meses para cá tem sido menor e tenho pensado em como será que você se sente na cama comigo. Também tenho pensado se eu posso ser sexualmente mais instigante para você e gostaria de lhe dizer que tenho algumas necessidades sexuais que adoraria que você soubesse.” Silvana lhe contou que estava satisfeita, mas que as expectativas altas dele a deixavam aflita. Depois disso, puderam conversar mais calmamente sobre as necessidades e fantasias de cada um.

Se for tímido ou agressivo demais, achar o tom certo exige que você aos poucos experimente qual o melhor estilo para abordar o assunto. Se tiver dificuldade, um terapeuta pode ajudá-lo a superar constrangimentos e a desenvolver seu modo de abordar e conduzir a conversa. Mas não deixe de se comunicar sexualmente com seu parceiro. Muitos casais passam a vida sem fazê-lo e perdem muitas possibilidades de entendimento e sintonia.

Uma vez que você tenha conseguido abordar claramente a existência de problemas nas questões “técnicas” e na falta de sintonia, vocês terão outro desafio: vencer o constrangimento de conversar sobre como instruirão o parceiro sobre as maneiras que apreciam fazer sexo.

Ao conseguir falar sobre suas necessidades, cabe a você e a seu parceiro combinarem como seria mais confortável um instruir o outro sobre como fazer sexo. Por exemplo, sugerindo que durante o sexo irão mostrar ao parceiro como determinadas manobras podem agradá-lo mais. Uma vez havendo essa abertura, você pode, durante o próprio momento sexual, conduzir o corpo do parceiro e mostrar didática e amorosamente como gostaria que as coisas fossem feitas. Sem pressão de tempo e sem pressa de logo conseguir mudar tudo.

Se não estiver muito à vontade, tente começar pelo mais fácil, que é falar sobre o que dói ou incomoda e como é mais agradável ser tocado. Depois que tiver instalado uma abertura para esse tipo de comunicação, você pode tentar um passo a mais: alinhar as preferências sexuais, ou seja, pedir ao parceiro para realizar certas fantasias, bem como dizer a ele que você está disposto a tentar fazer o que o agrada.

Ainda que isso possa ser difícil, lembre-se que não há como sintonizar ritmos e experimentar fantasias sem comunicação! Do contrário, você e seu parceiro correm o risco de passar toda uma vida sem usufruir do potencial sexual de vocês. Já foi mencionado que uma boa cumplicidade sexual pode indenizar a perda do frisson sexual da juventude, substituindo o sexo apaixonado pelo recreativo e divertido — além de prolongar a vida erótica até a idade avançada!

Falemos agora sobre como você pode incrementar os quatro aspectos da vida sexual: química, habilidades, fantasias e ambiente.


I. Sobre a falta de química sexual

Como já discutido no capítulo 4, a química sexual se refere à atração por aspectos como pigmentação, cheiro, motricidade, textura, tônus, trejeitos e características psicológicas, aspectos que, em geral, são inconscientes.

Mas os aspectos da química não existem isoladamente; eles se mesclam com a habilidade sexual e com as preferências erótico-sexuais. Por exemplo, o prazer no beijar está ligado a aspectos sensoriais muito arraigados e pessoais: se os lábios são carnudos, finos, úmidos ou secos; o cheiro e a textura das mucosas orais; mas também à habilidade de beijar e às preferências de tipo de beijo (bruto, delicado, curto, longo etc.).

Ainda assim podemos tentar por um momento separar as coisas. Se você tem um problema de química sexual com o parceiro, talvez ocorram alguns dos seguintes sinais:

1. Você só faz sexo com o parceiro por necessidade de manter as aparências, não por atração;

2. Só quando você ovula ou acumula testosterona sente um tesão inerente e, por falta de opção, faz sexo com o parceiro;

3. Você só sente atração em ocasiões em que se comove ou fica grato ao parceiro, ou quando você se droga ou bebe;

4. Também é possível que você até sinta uma atração, mas muito pouca (incomparável à intensidade que sentiu com a maioria dos outros parceiros);

5. Ou a falta de química é tão contundente que você sente ojeriza física, tem repulsa ou nojo por certos aspectos do parceiro.

Esses cinco sinais indicam uma falta de química de pele importante.

Em alguns poucos casos, é possível amenizar a ojeriza ou a falta de atração de pele. Por exemplo, quando ocorreram traumas. Tive uma paciente que, na infância, sofreu abuso de um dentista careca. Nesse caso, uma vez tratado o trauma, ela conseguiu superar sua ojeriza e repulsa a carecas. O que ela tinha era mais uma fobia do que falta de química.

Também há casos em que um dos parceiros tem valores estéticos fúteis ligados à inexperiência. Há pessoas que sentem nojo de certas características, como pelos ou secreções sexuais, porque ainda são sexualmente infantis.

Finalmente, há casos de idealizações estéticas ingênuas. Seu parceiro pode ter se fixado em características sexuais de ídolos de cinema ou fotos de modelos em revistas que dificilmente encontrará na vida real. Esses três tópicos podem, em tese, ser trabalhados.

Mas, em geral, a falta de química não muda. Está ligada a fatores como sua biologia ou a impressões arcaicas, já arraigadas. De toda forma, vale ao menos testar as possibilidades de alterar essas sensações. É muito difícil fazê-lo sem a ajuda de um terapeuta.

Se você tiver problemas desse tipo, tente separar o que é da química de pele e o que está ligado aos outros três aspectos (habilidade, preferências e ambiente).



Juliana confundia ojeriza à pele com ojeriza ao jeito

Ao se queixar do beijo de André, na verdade Juliana descobriu que o problema era o modo como ele a beijava — achava o beijo demorado demais, a língua dele a invadia de modo incômodo, a ela parecia uma “limpeza dentária”, o beijo era demasiado molhado, ela sentia-se cuspida. São aspectos que André poderia mudar, diferentemente das queixas de Jayme, que achava os lábios de Catarina muito finos, não gostava do cheiro dela e achava o gosto do beijo desagradável.

Um terapeuta pode ajudá-lo a localizar exatamente o que o incomoda: a pele (a textura, a pigmentação, os pelos), o cheiro do corpo, o hálito, o cheiro da genitália, o cabelo, os trejeitos, isto é, os gestos, o andar, as expressões, a entonação de voz, o modo de olhá-lo, a maneira de gozar e assim por diante. Às vezes pode ser difícil destrinchar os elementos em jogo. Alguns aspectos são muito sutis, mas se quiser trabalhar o assunto é preciso fazê-lo. Não misture o jeito de o parceiro fazer sexo (habilidades e preferências) com características fisiológicas e psicomotoras. Muitas vezes, superados entraves nas outras três dimensões, a repulsa diminui e você descobre que não tinha uma falta de química de pele, havia apenas uma dissintonia sexual.

Quando se trata de uma genuína falta na química entre vocês, não há muito o que fazer a respeito. Não se condene. Mesmo que seu parceiro seja uma pessoa adorável e perfeita em todos os outros itens da Equação, uma ojeriza ou pobreza na química sexual pode ser insuperável. Se realmente não gosta de sabores amargos, há limites para o quanto você poderá se forçar a gostar ou a ignorar o amargo. O mesmo em relação ao sexo.

Na melhor das hipóteses, você pode procurar enfatizar outras qualidades do parceiro ou pode melhorar as condições afrodisíacas (ambientes estimulantes, drogas excitantes etc.), mas isso só funcionará a curto e médio prazo. A longo prazo, só se o sexo não for importante no casamento de vocês.

Na verdade, são raros os casamentos em que desde o início houve uma verdadeira repulsa ao corpo do parceiro, que o sujeito ignorou e suprimiu, forçando-se a aceitá-lo sexualmente — como no caso de Jayme, que desenvolveu uma severa alergia no pênis às secreções vaginais de Catarina.

O habitual é que as pessoas tenham uma química “média” que se deteriora com o desgaste da relação. Nesse caso, se a química sexual entre você e seu parceiro não for ruim, considere que é muito comum que pessoas com as quais tenhamos uma experiência de química excepcional, e que sejam sexualmente muito habilidosas e sensuais, não sirvam como parceiros de vida.

Como discutido no capítulo 4, é raro encontrar alguém que, além de ser excepcionalmente sensual e sexualmente carismático, também atenda a todas as nossas outras necessidades em cada uma das dimensões da Equação do Casamento. Por isso algumas pessoas, mesmo encontrando parceiros sexuais incrivelmente estimulantes, muitas vezes optam por outros parceiros para se casar. Ainda que eles sejam menos interessantes sexualmente, podem ser mais confiáveis, melhores provedores, pais mais vocacionados, mais cultos ou mais equilibrados.

Não quero desestimulá-lo a procurar alguém que, além de ser sua alma gêmea, consiga satisfazer suas expectativas de química sexual inebriante, mas isso não é só uma questão de competência e persistência. É também uma questão de sorte — e não precisa ser o único padrão de felicidade sexual.

Para muitas pessoas, é possível estar sexualmente satisfeito sem estar com sua alma gêmea e sem uma química sexual mágica (embora uma química ruim costume inviabilizar a relação). Se a química for ao menos razoável, as pessoas podem ir se ajustando no aspecto sexual, tornando o convívio extremamente prazeroso na cama e fora dela, sobretudo se ajustarem as preferências eróticas e trabalharem na habilidade sexual e no ambiente erótico-sensual, temas dos próximos tópicos.


II. Ajustando as preferências eróticas

O QUE FAZER COM OS IMPASSES NAS PREFERÊNCIAS ERÓTICAS?

Muitas vezes, mesmo casais que conversam abertamente e sem constrangimento chegam a certos impasses sexuais sobre o que cada um prefere sexualmente. Alguns dos conflitos comuns são gostar ou não de manter preliminares mais longas, diferenças sobre a frequência sexual desejada, sobre a duração do ato, sobre gostar ou não de sexo anal, oral, de sexo a três ou em grupo, de aceitar ou não fazer sexo fora de hora ou em lugares ousados. Também fazer ou não sexo em casa, ter sexo mais bruto ou mais carinhoso são temas comuns.

Sobretudo para os homens, as frustrações nas preferências sexuais costumam minar ao longo do tempo toda a relação matrimonial. Mulheres, embora decepcionadas, geralmente têm mais tolerância nesse quesito, e menos para frustrações com o ambiente erótico e com a falta de habilidade sexual do parceiro. Se você for mulher, não subestime a importância de ajustar essa dimensão com seu parceiro!

Diferente da química, das habilidades e do ambiente, no âmbito das preferências há algum espaço para negociação. E como em qualquer negociação, também no sexo é importante entender a magnitude da resistência (o quanto um parceiro não quer) e da necessidade (o quanto o outro quer).

Abordarei a seguir os limites dos pedidos e das resistências sexuais. Comecemos pelos pedidos.


Os pedidos sexuais

No campo dos pedidos, considere três graus de intensidade:

1. Uma preferência sexual — por exemplo, vontade de fazer sexo no mar;

2. Uma necessidade sexual — sempre precisar de preliminares mais longas;

3. Uma obsessão sexual, ou fetiche — por exemplo, o caso de Alfredo: ficar profundamente infeliz e às vezes brochar se não puder se travestir de mulher durante o ato sexual.

Chamo aqui de “preferência sexual” algo que enriquece sua vida sexual, mas que, se for insuportável para seu parceiro, você pode abrir mão. Em geral, é algo ocasional, variado e lúdico.

Utilizo o termo “necessidade sexual” para descrever uma vontade cujo não atendimento tornaria sua vida sexual tão esvaziada que, sem ela, há uma redução significativa de seu prazer e interesse (mas não a ponto de inviabilizar a relação). As necessidades sexuais masculinas mais comuns se referem a práticas e modalidades de sexo; as femininas, em geral se referem ao estilo, ritmo e atmosfera erótica. Por exemplo: Pedro gostaria de fazer — com frequência — sexo a três e, na ausência disso, pensa muito no tema e sente uma grande falta. Ainda assim, diferente de outros pacientes que já tive, consegue ter prazer com Silvana, mesmo sem terceiros na cama, e aceita viver sem essa dimensão.

Já a “obsessão sexual” refere-se a de uma condição essencial para o funcionamento sexual. Dependendo da intensidade e estranheza que cause, pode ser percebida como problemática e inviabilizar a vida do casal. Mulheres não costumam ter fetiches ou obsessões sexuais, mas têm preferências e necessidades sexuais que podem variar conforme o parceiro e a fase. Obsessões sexuais são mais frequentes em homens. O que para a mulher pode ser uma fantasia excitante com um parceiro, pode não ser com outro. Muitos homens têm fetiches, não apenas fantasias eróticas. Fetiches são comportamentos estereotipados, repetitivos e condição para o gozo. Se, nesse sentido, você é fetichista, é possível que a atividade ou o objeto sexual passe a ser mais importante que o parceiro. Até certo ponto, pouco lhe importa quem é o parceiro; o importante é que ele tope realizar o fetiche.

Nem sempre essas fronteiras são tão nítidas, mas servem de baliza para entrar em conexão com o parceiro e consigo mesmo.

Se o que você sente é mais do que uma preferência, é uma necessidade sexual, vale a pena abordar esse tema com o parceiro. Se ele tiver total clareza da importância que isso tem para você, talvez se disponha a acolher sua demanda. Mas é comum que, mesmo que você chegue a falar claramente tudo, o parceiro do sexo oposto simplesmente não consiga perceber quão importante seria atendê-lo. Como Ricardo, que não percebia a importância que Penélope dava às preliminares — para ele, “meras implicâncias”.

Se você tiver mais que uma necessidade, tiver uma obsessão sexual e ela não for aceita, terá escolhas difíceis pela frente: viver muito abaixo de seu potencial de prazer ou separar-se (a não ser que seja uma opção viver o fetiche fora do casamento, de modo consentido ou não). Fetiches dificilmente mudam ou são “tratáveis”. Na melhor das hipóteses, o sujeito aprende a suportar não vivenciá-los.

Seja uma preferência sexual, uma necessidade ou uma obsessão, nem sempre o parceiro tem coragem ou desinibição de lhe revelar seus desejos, ou às vezes o menciona marginalmente, não expressando com clareza a importância que isso tem para ele. Talvez você tenda a ignorar ou não valorizar as discretas insinuações do parceiro. Às vezes, mesmo que tais pedidos sejam mais insistentes ou repetitivos, podem lhe parecer ser só caprichos que não precisam ser acolhidos. Não despreze eventuais preferências sexuais e eróticas, sobretudo necessidades do parceiro. Isso rebaixa de modo relevante a qualidade do prazer e o interesse, vai tornando o casamento chocho e abre espaço para experiências extraconjugais (que, de qualquer modo, são uma tentação para a maioria das pessoas).

Quanto às obsessões sexuais, muitas vezes é difícil lidar com elas. Talvez vocês tenham sorte e os fetiches de seu parceiro coincidam com suas preferências. Ou você pode não apreciar o fetiche, mas aceitar praticá-lo porque se sente compensado em outros aspectos da sexualidade e do casamento. Mas fetiches tendem a ser mais problemáticos porque não são tão ocasionais, e talvez sejam muito repetitivos, rígidos ou chocantes. Uma vez que tenha clareza sobre o grau de relevância dos pedidos sexuais do parceiro (e dos seus próprios), é importante saber lidar com eventuais resistências.


A resistência aos pedidos sexuais

Se você reage de modo alérgico, intolerante e nem sequer aceita ouvir a demanda do parceiro, tente entender o que se passa com você. Talvez estejam em jogo:

1. Inibições sexuais — por exemplo, envergonhar-se e não deixar que o outro faça sexo oral;

2. Tabus — como, por exemplo, não fazer sexo a três por achar moralmente errado;

3. Repulsa fisiológica — algum tipo de nojo sensorial;

4. Egoísmo ou Alienação — você não percebe a importância que o outro confere à lingerie sensual ou a preliminares mais longas porque não são sua preferência.


Também nesse caso as fronteiras entre as intensidades não são tão nítidas.
Como já foi dito, homens têm mais dificuldade de abdicar de suas necessidades sexuais do que mulheres. Por isso, é comum que ela imagine que, se está abrindo mão de certas necessidades ou preferências, o marido também pode perfeitamente fazê-lo. Às vezes, ela acha que ele deve abdicar dos desejos dele em nome de não forçar a barra e ferir a etiqueta, ou simplesmente por respeito. Ela pode se indignar com a incompreensível insistência dele. Na verdade, muitas mulheres interpretam todas as fantasias masculinas como meras preferências sexuais e se irritam se eles insistem demais no tema.

Mais tarde, muitas dessas mulheres se mostram surpresas e chocadas por nunca terem se dado conta da frustração e do grau de importância que seus maridos conferiam a certas atividades sexuais. O mesmo acontece com os homens, que se sentiam incomodados com os comentários e as insistências femininas sobre o ambiente, o ritmo e a importância em sair da rotina doméstica, e, mais tarde, se espantam com a real relevância e intensidade dos pedidos de sua esposa. Não se davam conta de que eram necessidades sexuais femininas.

Se perceber que está diante de uma preferência e sobretudo de uma necessidade ou obsessão sexual do parceiro, verifique até que ponto você quer e consegue superar suas resistências.

1. Explorando os limites de suas inibições sexuais

Se seu parceiro sugerir algo diferente e você sentir vergonha ou que é “demais” para você, talvez esteja diante de uma inibição. Ficar nu, adotar certas posições sexuais, tocar e ser tocado em certas partes do corpo, ultrapassar certo nível de intimidade, ser objeto de um olhar que o desnuda ou ser intensamente desejado pode inibi-lo. Há mulheres que não toleram que o marido faça sexo oral, por medo de que ele não goste do cheiro da vagina, ou sentem-se invadidas e desnudadas na intimidade, ou ficam aflitas pela intensidade do contato da boca e língua dele na genitália dela. Há homens que não toleram uma mulher com muita volúpia e iniciativa, entram em ansiedade de desempenho, chegando a ficar impotentes.

Se for de seu interesse explorar seus limites, um modo de tentar superar as suas inibições é ir aos poucos, tentar se acostumar por aproximação paulatina. Há diversos manuais e livros de autoajuda sobre esse tema. Se não puder discutir isso abertamente com seu parceiro, busque ajuda terapêutica. Existem inibições superficiais mais fáceis de superar, há diversas técnicas eficazes em psicoterapia, que trabalham com os princípios da aproximação gradual e da eliminação da ansiedade por desempenho.

Eliminar a obrigação de desempenho é importante, pois ela o livra de ter de cumprir uma meta sexual que o deixa tenso: não obrigar-se a ter uma ereção, não ter de penetrar, não ter de chegar a um orgasmo, não precisar ficar com a vagina umedecida. As metas de desempenho são substituídas pela atividade lúdica de explorar e conhecer melhor o corpo e as reações.

Mas há inibições mais complexas, que se enraízam em experiências psicológicas mais profundas — traumas, repressões. Por exemplo, se você não aguenta ser olhado com desejo e precisa fazer sexo no escuro, quem sabe tenha questões sérias de autoestima, uma história traumática na infância ou adolescência, ou tenha tido uma mãe cheia de tabus. Às vezes a superação de inibições não dispensa um trabalho terapêutico mais profundo. Mas mesmo inibições enraizadas em experiências traumáticas muitas vezes são superáveis.

Fantasmas do passado

No caso de Juliana, algumas de suas inibições estavam enraizadas em experiências negativas com o olhar que seu padrasto lhe lançava quando era pequena e com uma primeira experiência negativa de sexo oral com o namorado de escola. Também havia questões quanto à aceitação da própria feminilidade. Apesar de conseguir se soltar em diversos aspectos sexuais, nem todas as inibições puderam ser superadas, como sua aflição com sexo oral. Essa questão também se ligava à sensação de desconforto com excesso de intimidade, aflição com questões de higiene, traumas infantis com manuseio de sua genitália e aparentemente a uma hipersensibilidade do clitóris. Mas além dos entraves psicológicos existe também o gosto de cada um, e talvez Juliana simplesmente não gostasse desse tipo de carícia.


2. Testando os limites de seus tabus e preconceitos

Há diversas inibições que se mesclam a tabus. Se seu parceiro gostar muito de fazer sexo a três e você sentir vergonha, é uma reação de inibição. Talvez você sinta também indignação moral, e nesse caso trata-se de preconceitos ou tabus que foram ativados — os desejos do parceiro, por exemplo, evocam fantasmas de uma homossexualidade que você condena ou teme.

O termo tabu, na acepção que estou usando aqui, refere-se ao “certo e errado” para você. Mas, desde os anos 1960, nosso discurso cultural vigente tem sido de que tudo que seja consensual e não afete a integridade física e a saúde deveria ser permitido! Nesse sentido, no casamento paritário atual você poderia sentir-se inibido, mas não precisaria ficar moralmente indignado. Como Letícia, que ao lidar com as obsessões sexuais de Alfredo, foi percebendo que nas relações atuais nada é proibido, tudo pode ser negociado e eventualmente aceito. Claro que mesmo que não tenha nem inibições nem tabus, você pode simplesmente não gostar de determinadas fantasias, mas deixemos a questão do gosto para mais adiante. Falemos ainda um pouco de tabus e preconceitos.

Bons costumes
Letícia precisou rever suas inibições e tabus ao se confrontar com o fato de que Alfredo precisava praticar sexo travestido de mulher e queria ser penetrado por ela utilizando um consolo. Isso não era do gosto de Letícia, não lhe dava prazer nem era uma fantasia que a excitava, mas não havia por que ficar moralmente indignada e condenar eticamente o marido. Ao parar de condená-lo por isso e se debruçar sobre suas próprias inibições, nojos fisiológicos e sobre o quanto estava (ou não) sendo egoísta, ela pôde adquirir segurança a respeito de até onde podia ir e sobre o que simplesmente não lhe dava prazer. No final, concluiu que podia fazê-lo ocasionalmente. Mas ao longo da terapia de casal ficou claro para ela que essa fantasia tão vital para Alfredo se ligava a uma moderada transexualidade do marido. Durante um tempo isso a deixou insegura sobre ser desejada ou ser uma mera figurante no cenário sexual que ele fantasiava.

Talvez você precise rever profundamente seus valores. Diversos casais conseguem avançar na sintonia sexual quando se despem de seus preconceitos moralistas. Experimentando a partir de exercícios mentais de visualização, assistindo a filmes ou conversando abertamente com pessoas que adotam tais práticas sexuais, você talvez se abra para considerar mais seriamente as demandas de seu parceiro. Alguns dos seus valores talvez sejam imutáveis, outros às vezes mudem surpreendentemente. Algumas pessoas bebem ou se drogam para se soltar e passar por novas experiências, mas se você se abrir para o novo, poderá experimentar avançar além dos seus horizontes sexuais habituais sem ter de se dopar.


3. Testando os limites da repulsa fisiológica e do nojo sensorial

Mas, além de ser um tabu, talvez a demanda de seu parceiro provoque uma repulsa fisiológica. Digamos que você seja mulher e além do nojo moral de praticar sexo oral no marido, sinta um nojo fisiológico do cheiro do sêmen ou nojo fisiológico de fazer sexo anal e lidar com as misturas de cheiros e secreções. Se você for homem, talvez tenha nojo do suor ou dos pelos púbicos da esposa.

O nojo é em parte genético, em parte aprendido. Na infância e adolescência, vinculamos certos cheiros, texturas, sensações táteis e aparências a algo agradável ou desagradável, e isso tende a ser impresso de modo bastante intenso em nossa memória sensorial, estética e afetiva. Existe plasticidade nessas memórias, mas não é fácil mudá-las. É possível que de fato determinada atividade sexual ou situação erótica lhe cause uma genuína repulsa fisiológica.

Em geral, repulsas fisiológicas só podem ser mudadas com ajuda profissional e, ainda assim, pode não funcionar. Uma vez tendo a repulsa fisiológica, a sua tendência será não de buscar ajuda para superá-la, mas de persuadir o parceiro a abdicar do desejo dele! Isso nos leva à questão de seu eventual egoísmo e até onde você deveria, em nome da parceria e cumplicidade, se forçar a tentar vencer suas resistências a atender a demandas que sejam realmente importantes para o parceiro.



4. Flexibilizando seu egoísmo ou alienação (uma questão de ética sexual)

Você não é obrigado a se aviltar e a fazer o que não quer ou não pode, mas isso é diferente de ser egoísta ou leviano. Inibições talvez possam ser superadas; o mesmo vale para tabus. Repulsas fisiológicas, mais raramente. Mas a recusa em se esforçar para tentar algo diferente pode se dever ao fato de você não ter percebido a importância que isso tem para seu parceiro. Você pode estar alienado, achando ingenuamente que se trata de mera preferência onde talvez haja necessidades ou obsessões sexuais.

Nem pedindo por favor

Penélope precisa de preliminares mais prolongadas, mas, apesar de pedir sempre para Ricardo, ele não a atende. Assim como, por preguiça, Penélope não masturba Ricardo como ele solicita. Ignoram mutuamente as preferências e necessidades sexuais um do outro, empobrecendo o potencial erótico. Embora isso seja mais um tema para as eternas brigas entre eles, os dois têm uma vida sexual satisfatória porque sentem boa química e forte desejo, além de boa habilidade sexual e facilidade de se sintonizarem.

Se seu desejo sexual for apenas um capricho, mas provocar em seu parceiro profundo incômodo, é fácil perceber quem deveria ceder. Mais difícil é decidir o que fazer quando há empate entre o profundo desejo de um (ou seja, uma necessidade ou uma obsessão sexual) e a resistência intensa do outro.

Alguns casais só se motivam a superar as resistências e a tocar nesses temas a partir de uma situação de dificuldades sexuais que ameaça o próprio casamento. Às vezes, pode ser tarde demais. Por isso o ideal é manter desde o início uma ética sexual e um canal aberto e amoroso sobre pedidos e resistências.


III. Melhorando sua habilidade sexual

No capítulo 4, discutimos que a maioria dos homens até os quarenta anos depende menos da habilidade sexual feminina para se satisfazer. Para eles, as preferências erótico-sexuais e a excitação da parceira podem ser mais importantes. Já para as mulheres, desde sempre a habilidade sexual masculina costuma ser importante para a satisfação sexual.

Ambos os gêneros se beneficiam de parceiros com habilidade sexual. Portanto, certa educação sexual de gênero pode ser necessária. As questões “técnicas” ligadas a inabilidades e desajustes de ritmos são relativamente simples de aprender. Experiência com os modos de manobrar (velocidade, intensidade, profundidade, pressão, ângulos etc.) estão ao alcance das pessoas que desejam progredir nesse quesito.

Sobre as diferenças sexuais de gênero, pode valer a pena buscar apoio em livros ou em especialistas em sexualidade. Há também o recurso de buscar conhecimento sobre como realizar certas manobras sexuais e como agradar o sexo oposto em cursos, sites ou com terapeutas sexuais que podem ajudá-lo a encontrar alguns atalhos. Mas seu parceiro pode não corresponder aos estereótipos de homem e de mulher, por isso é preciso aprender a observar e a experimentar.

Em certos casos, paradoxalmente, experiências extraconjugais podem incrementar a qualidade da vida sexual, pois o parceiro “infiel” às vezes se desinibe, aprende muito com o amante e, ao retomar a relação, traz novos estilos e modos de lidar com sexo. Em nossa cultura, essa certamente não é uma maneira recomendável de incrementar sua vida sexual. De forma geral, é melhor não enveredar por esse caminho. Se perceber que não estão conseguindo se entender pela comunicação não verbal, e se aprender mais sobre técnicas sexuais não estiver funcionando, provavelmente será melhor se preparar para conversarem sobre a vida sexual de vocês.


IV. Trabalhando na construção de um

ambiente erótico-sensual


Já sabemos que tudo no projeto de casamento conspira contra o erotismo: hábito, rotina, previsibilidade, filhos, envelhecimento, conflitos, frustrações, monogamia e ambiente doméstico.

Mulheres se queixam de homens monótonos, pouco criativos, pouco românticos, afeitos à rotina e que só se empenham romanticamente na iminência de levá-las para cama. Homens se queixam de mulheres que são pouco sexy, que se comportam como matronas cobradoras, obsessivamente concentradas na manutenção doméstica, que não sabem se divertir.

Nem todas as pessoas são sensuais por natureza; algumas são menos vitalizadas, mais acomodadas, menos criativas, gostam da rotina caseira. A outras falta autoestima, autoconfiança ou têm pouco desejo e necessidade de sexo. Muitas estão cansadas ou estressadas.

Se você e seu parceiro não estiverem desgastados por conflitos matrimoniais relevantes (dentro ou fora da esfera sexual) e se não estiverem enfrentando problemas externos graves, você pode conseguir bons avanços no ambiente erótico-sensual. Claro que há limites na sensualidade de cada um, e muitas vezes o desgaste do cotidiano não pode ser removido. Ainda assim, como sugiro a seguir, simples iniciativas e mudanças de hábito podem ajudar. Mas, antes disso, algumas palavras sobre conflitos matrimoniais e sobrecarga de trabalho.



Ressentimentos e conflitos

Algumas pessoas têm dificuldade de se empenhar sexualmente por estarem ainda ressentidas com antigas mágoas. Se você de fato quer incrementar o relacionamento, reveja seu lado emburrado, ressentido e justiceiro. O capítulo 8, sobre como explorar e desativar botões vermelhos, pode lhe ser útil. Também o capítulo 13, sobre o resgate do casamento. Para trabalhar na melhora do ambiente erótico, é preciso que você esteja genuinamente disposto a investir na relação.



Sobrecargas de obrigações

Às vezes, em determinado momento, é impossível se dedicar a cultivar o romance e o prazer. Homens tendem a alegar a sobrecarga de tarefas e estresse do trabalho; mulheres incluem nessa lista também as zeladorias domésticas e os filhos. Tente, por dois ou três meses, avaliar realisticamente se isso é mesmo provisório ou se é uma situação mais prolongada.

Se for algo que irá demorar, considere que mais de quatro meses, em geral, é um período excessivamente longo para o sistema nervoso lidar com o estresse. Portanto, sobrecargas assim não deveriam ser tratadas como se fossem algo “só por mais um tempinho”.

Talvez você tenha estruturado sua vida em função de projetos de longo prazo, que lhe exigem um fôlego intenso que só se suporta por um curto prazo. E talvez seu parceiro não aguente.

Talvez você precise recalibrar o ritmo, pois se a atmosfera sensual de seu casamento estiver destroçada e a vida de casal tiver se transformado em uma maratona forçada, na qual tudo se submete ao tour de force profissional ou a cuidar de filhos, é possível que seu parceiro não resista e comece a se distanciar de você. Muitos casamentos acabam por essa via.

Na iminência de perder o parceiro, mesmo os mais viciados em trabalho (em geral homens) podem começar a enxergar o descaso com que estavam tratando a relação.


POR ONDE COMEÇAR?

Se você por anos ficou sem cultivar a dimensão erótica, talvez se sinta inibido para iniciar a mudança. Tem medo que seu parceiro estranhe, o ache bobo ou desajeitado. Você teme ser rejeitado e se decepcionar com as respostas desanimadoras dele.

No caso de Rogério, cuja esposa Marcela se queixava da mesmice e da indiferença do marido, havia uma dificuldade em começar a mudar as coisas. Sobretudo porque ele era tímido e tinha pouco traquejo social. Mas a não ser que você faça algo bizarro, exagerado, vai descobrir que pequenas melhorias e ousadias no grau de atenção e investimento no ambiente erótico tendem a agradar. E ainda que seu parceiro se espante com essas mudanças ou zombe um pouco delas, nada impede que você lhe explique que, mesmo que ele ache estranho, você agiu assim simplesmente porque sentiu vontade de fazer algo diferente.


Trocar o pijamão pela sunga?

Durante dez anos, Rogério e Marcela falaram de problemas domésticos e viviam entre irritados e ocupados, mal se lembrando de que eram também homem e mulher. Ele não se cuidava fisicamente, não se arrumava para ela e não cultivava nenhuma dimensão sensual. Ela, aos poucos, foi se transformando numa “Rogéria”, sem empenho algum em cultivar o prazer a dois. Até mesmo quando queria sexo, Rogério era incapaz de criar um clima. Deitado na cama, roçava desajeitadamente com o dedão do pé a nádega da esposa.

Ao se dar conta de que Marcela não suportava mais essa tumba matrimonial e que cabia sobretudo a ele mudar, Rogério não fazia ideia de como começar. Poderia ser realmente estranho ele passar a recebê-la no quarto de sunga sensual e levá-la nos braços à banheira cheia de espuma. Antes de tudo, ele se achava gordo e peludo demais para usar roupas mais sensuais. Também achava que seria esquisito enviar mensagens de texto eróticos durante o dia, ou elogiá-la e agradá-la de forma mais galante, trazendo-lhe uma lembrancinha. Também convidá-la semanalmente para um jantar em um restaurante romântico seria excêntrico (e caro).

Ele decidiu então que poderia, uma vez por semana, comprar queijos e um bom vinho para apreciarem em casa, e sugerir que jantassem com a mesa bem-posta. Empenhou-se em mudar o padrão de conversa habitual e contar de modo mais interessante algo pitoresco que ocorrera no seu dia, perguntar sobre o dela e evitar falar de cortes de despesas domésticas. Também conseguiu comprar um pijama mais elegante e, em vez de sinalizar que queria sexo roçando o dedão nas nádegas, passou a beijá-la no pescoço. No dia a dia, passou a se comunicar mais com ela, compartilhando algo que leu ou dizendo que se lembrou dela ao ver ou ouvir tal coisa. Passou também a elogiar mais os aspectos femininos dela e tentou ser mais cavalheiro. Não se transformou num fulgurante amante latino, mas sua esposa notou a diferença, e a vida sexual do casal se reacendeu.

No início, Marcela zombava dele, alegava que ele estava cumprindo ordens do terapeuta. Ele aprendeu logo a não se constranger com isso e a seguir em frente. Ela estava claramente apreciando e aceitando as mudanças. Durante alguns anos a vida sexual foi retomada e mais tarde, quando se separaram, essas aquisições de conexão sensual serviram a Rogério para novos relacionamentos.


Se na sua Equação do Casamento o ambiente erótico-sensual for pobre, mas os outros fatores estiverem razoavelmente satisfatórios, há ao menos algumas coisas que você pode introduzir no seu dia a dia para beneficiar a atmosfera geral.

Há cônjuges que, em diferentes momentos, praticam gestos que adoçam o convívio: pequenas “provocações eróticas” (elogios eróticos, manifestações de atração, toques), manifestações de desejo e algumas surpresas, como surpreender o outro com pequenas lembrancinhas, flores, doces, sugestões de programas inesperados.

O mesmo pode ocorrer com a agenda semanal. Alguns incluem uma “noite do casal”, na qual farão algo de que gostem, como ir ao cinema, jantar, frequentar o teatro ou fazer sexo. Esse momento da semana fica como um espaço sagrado em que celulares, filhos, familiares, trabalho, amigos etc. não terão espaço — a não ser que filhos ou amigos sejam o programa que o casal queira genuinamente fazer. Outros criam no mês um espaço tal como um fim de semana só do casal. No semestre ou no ano, pode-se também abrir um espaço de semanas para ficar junto fazendo coisas de que gostam e tendo o prazer do convívio de um com o outro.

Para que essas atividades não sejam protocolares, é preciso que cada um mostre estar interessado, que haja alguma intensidade nessas demonstrações, que está conectado com o parceiro. Pouco ajudará ter esses momentos especiais e, em seguida, voltar à rotina massacrante. Você anulará todo o efeito dessas ocasiões mensais e semestrais se não mantiver o compromisso. Portanto, trata-se de mudar profundamente de atitude. De entender que cultivar a relação é dedicar-se a ela. E que isso custa empenho, tempo, dinheiro, boa vontade, paciência — e que pode ser muito gratificante. Relações de grande amizade, atração pelo charme, gratidão, sintonia, são benesses na vida, mas não acontecem de graça ou por magia.

Se tiver pouco tempo para tanto investimento no ambiente sensual e tiver de optar, prefira os pequenos momentos diários e semanais aos grandes gestos mensais e semestrais. É ótimo viajar a dois, reeditar uma lua de mel, mas é o cotidiano que sustenta a vida real. De pouco adianta vez por outra ter grandes gestos românticos de “reconexão” para posteriormente voltar à mesmice do cotidiano.

Mas não há receitas prontas. Há muitos modos de entrar em conexão com o outro, de mostrar interesse e entrar em sintonia. Se você se empenhar, encontrará seu estilo.


Uma palavra final

Como foi discutido ao longo de todo o livro, no casamento atual temos elevadas ambições de fruição e prazer. Em parte é preciso diminuí-las, “cair na real” e cobrar menos do parceiro, da vida e de si mesmo. Mas essas ambições de fruição fazem parte de nossa mentalidade atual. Por isso, neste e no capítulo anterior, sugeri modos de tentar atender às expectativas mais diretamente ligadas à vibração de estar junto com seu parceiro. Espero que tenha ficado claro que — moderadamente — podemos incrementar esses aspectos, desde que não se transforme num ônus de “ser feliz e gozar” a todo custo.


(Luiz Hanns - A Equação do Casamento, O que pode (ou não) ser mudado na sua relação)

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publicado às 21:38


Atração e vida sexual

por Thynus, em 14.10.16
Erotismo é aquilo que o excita e pode levá-lo ao orgasmo. É o que lhe “dá tesão”. Mas os erotismos femininos e masculinos em muitos aspectos não se complementam. Quantas vezes parceiros de cama parecem estar tão próximos e, de repente, pequenos e grandes mal-entendidos eróticos interferem na felicidade sexual. Por isso, antes de discutir sexo no casamento e abordar a Química sexual, as Preferências eróticas, a Habilidade sexual e o Ambiente erótico-sensual, tratarei das diferenças nos Erotismos e das possibilidades de você se conectar com o tesão do seu parceiro.
Química sexual: cheiro e sensibilidade
 

EROTISMOS

Você possui uma camada primitiva em seu erotismo. Ela pode, por exemplo, ser ativada por toques físicos, num mecanismo arco-reflexo de excitação. Também brota como um “tesão espontâneo”, por exemplo, quando a mulher ovula ou quando o homem, de manhã, acumula testosterona, e você se excita com a própria excitação. Pode também ser ativada por sinais visuais ou olfativos (a visão de uma parte do corpo, um odor). Ou ser provocada por sensações afrodisíacas, roupas leves, vento, água do mar.

Mas também existe uma camada de tesão que se excita com determinadas situações. Por exemplo, há pessoas que se excitam com a ideia de fazer sexo em grupo, ou têm prazer em ser tratadas de forma bruta. Esse tipo de excitação aparece muito em nossas fantasias sexuais.

E você também tem uma camada erótica que depende das relações com a pessoa desejada. O tesão que ela demonstra por você, os elogios, as afinidades, a gratidão, a rejeição, o estresse, a admiração, tudo pode excitá-lo. Ou brochá-lo.

Além das diferentes camadas de erotismo, há diferenças entre homens e mulheres. Embora ninguém seja nem anatômica, nem psiquicamente 100% masculino ou feminino, tratarei do tema diferenciando homens e mulheres.

Se você for mulher, talvez reconheça nos homens com quem conviveu (ou convive) diversas características descritas a seguir sobre o erotismo primário. Essas camadas primitivas são poderosas e podem se manifestar não em todos, mas na maioria dos homens até cerca dos quarenta anos, quando costuma haver maior queda de testosterona.


Relações com os orifícios

Desde pequenos, homens têm ereções involuntárias diurnas e noturnas que provocam excitação. Intumescido, o pênis produz sensações prazerosas, mesmo sem um objeto de desejo que o estimule. Na adolescência, precisam regularmente descarregar o sêmen acumulado. Ou por meio das poluções noturnas e diurnas, ou masturbando-se. Essa disposição sexual surge diariamente e se impõe de modo imperativo à percepção masculina do mundo.

E logo os meninos descobrem os orifícios, com os quais estabelecem uma relação masturbatória. Antigamente, na zona rural, muitos meninos iniciavam-se sexualmente com galinhas ou animais domésticos. Em centros urbanos praticavam jogos de “troca-troca”, alternando-se na função ativa e passiva, cada um tolerando ser penetrado para ter sua vez de penetrar. Os estupros ilustram de forma bruta essa dimensão pênis-orifício. Numa forma extrema, essa tendência de descarregar suas necessidades em orifícios pode se manifestar em homens adultos que, sob anonimato — e numa total desconsideração em relação aos desejos da outra pessoa —, praticam estupros coletivos, como lamentavelmente vemos acontecer até hoje em diversos casos de tropas militares que tomam cidades inimigas. A essa disposição masturbatória se acrescenta, muitas vezes, tendências sádicas.

Mas, apesar de um grande número de homens tender a tratar o objeto sexual como “coisa”, se, desde a infância há um convívio em família, em sociedade, e há uma educação afetiva e ética, as tendências brutas costumam se atrofiar. Elas se transformam em fantasias e encenações mais sutis que podem servir de jogos sexuais com a companheira.

Na paixão, os orifícios da amada se tornam objeto de culto. Como Sérgio, de quem ainda falaremos, que cultuava a vagina, o ânus e a boca de sua sensual esposa Rita, tomando-os por orifícios sagrados de sua “deusa do sexo”. Para a mulher, as coisas se dão de outro modo; a vivência sexual envolve muito mais sentidos e se distribui por diversas atividades. O pênis e a penetração terão seu valor em dado momento, mas não é em torno do pênis que se organiza a experiência sexual feminina. Portanto, diferente da fantasia masculina, não há uma fêmea sempre ávida pelo pênis poderoso para levá-la ao gozo radical (tema clássico de filmes pornôs).

As sensações sexuais femininas não se concentram de modo tão exclusivo na genitália, se distribuem de modo mais uniforme pelo corpo. A vagina e o clitóris estão embutidos, não se apresentam à consciência várias vezes ao dia, chamando a mulher ao sexo, embora haja ciclos de disposição sexual, ligados à ovulação e aos hormônios.

Outra diferença é que uma vez excitado, o menino ainda imaturo quer logo gozar. Não há preliminares, sutilezas. Só com o tempo descobre que pode estender o prazer por meio de masturbações prolongadas acompanhadas de fantasias eróticas. Depois descobre a necessidade de seduzir e aprende a ter mais calma, a transitar por curvas, picos e vales, embora possa, por toda a vida, continuar a enxergar a corte, o namoro e as preliminares como um contratempo muito incômodo. É verdade que há homens que passam até a usufruir do flerte, das conversas e da sedução, mas a maioria continua a enxergar a sedução como um trabalho penoso e, no casamento, se sente à vontade para encurtar os rituais de sedução. Sendo assim, o ritmo sexual é algo que na maioria dos casos precisa ser ajustado entre os gêneros, já que ambos despertam para o sexo por vias diferentes.

Não só o amor, mas também a timidez e a ansiedade mitigam os ímpetos brutos masculinos. A maioria dos homens já foi um menino tímido. Muitos continuam a sê-lo. Como abordar uma mulher? Como chegar do flerte ao sexo? Vou brochar com uma mulher tão sexy? E meu pênis, será demasiado pequeno? Inseguro, depende das respostas da parceira. A mulher que deixá-lo seguro terá preferência sobre outras mais atraentes. Ao menos por um tempo.



Gatilhos e fantasias sexuais

A visão da genitália feminina em filmes pornôs pode gerar ereções, mesmo que o “roteiro” seja ruim. Em culturas repressoras basta que o homem veja elementos associados ao proibido, tornozelo, cabelos ou lábios. Também cegos têm seus gatilhos sexuais: tato, olfato ou audição. Em geral, o ponto de entrada para a paixão masculina está nos gatilhos eróticos. Para Ricardo,
os seios e os lábios carnudos de Penélope; para Armando, o work-
aholic, as ancas “de potranca” de Thais. Como num arco-reflexo os meros gatilhos podem inundar o homem de volúpia, que se manifestará como um intenso desejo de penetrar a mulher.


Você é um grosso

Ricardo comparece ao encontro com Penélope sentindo “necessidade sexual”. A primeira coisa que notou em sua futura esposa foram os seios fartos e os lábios carnudos! Logo desejou intensamente possuí-la. E impaciente segue o ritual anterior ao sexo: levar para jantar, conversar, criar um clima, dançar, então propor um motel. Enquanto conversam no restaurante sobre viagens, sobre a família dela e sobre esporte, ele enxerga o decote, os contornos do corpo e a desnuda na fantasia. Não se incomoda que ela seja inculta e vote em partidos de seu desagrado. Só quer “comê-la”. Penélope também não estava procurando um grande romance. Só queira se divertir, mas preferia que o percurso do jantar à cama tivesse sido outro. Em vez de buscá-la em casa, Ricardo pediu que viesse de táxi e quis pagar a corrida. Como se fosse uma prostituta! E o cheiro do prato de bacalhau que ele pediu a incomoda. Sua camisa social não combina com o blazer, e ele é rude com o garçom. Tampouco os temas de conversa a interessam, sobretudo a insistência em falar das eleições! Mas ela está carente, deixa-se convencer a ir a um motel. Lá, uma estranha mancha no lençol derruba em definitivo seu ânimo. Ricardo insiste que cubram o lençol com uma toalha trazida às pressas do banheiro. Propõe-lhe sexo no sofá, na banheira, ou irem a outro motel. Mas para ela passou o momento, talvez outro dia, sobretudo se não for pressionada. Não entende por que Ricardo faz tanta questão. Ele se indigna. Dane-se o lençol, não é possível que ela recuse sexo por motivos tão fúteis! Imaginava uma Penélope “molhada”, louca para ser penetrada, mas encontrou uma mulher decepcionada porque ele não a buscou, incomodada com uma mancha e irritada com um comentário machista dele a caminho do motel. Penélope esperava flertar, divertir-se e ter uma noite instigante, mas Ricardo estava obcecado em “comê-la”. Após colocá-la num táxi, ele saiu com uma prostituta. Até hoje ela se queixa das grosserias dele naquela noite.


O interesse erótico feminino é mais variado: a mulher sente-se atraída por nádegas, mãos ou pele. Também a voz e o conteúdo da fala podem excitá-la. E sobretudo o olhar dele pode fazer a diferença, um olhar de desejo que não a desnude de modo constrangedor, mas a provoque e convide a uma cumplicidade erótica, sem uma palavra ser dita. Ela pode se excitar porque se comove com a gentileza ou a fragilidade do parceiro. Ou porque admira a inteligência, o carisma. Até tristeza ou raiva podem se transmutar em excitação. Também praias, cenários relaxantes, situações aventurosas, luxuosas, podem excitá-la.


Tesão por cetim preto

Desde a lua de mel Letícia estranhou a excitação de Alfredo por roupa de cama de cetim preto. No terceiro mês de casamento, um sex-shop despertou grande entusiasmo nele. Nos meses seguintes começou a lhe trazer roupas e acessórios eróticos. Passados dois anos, ela se via solicitada a se paramentar com tantos apetrechos — meias, botas, ligas, cintas, acessórios de couro — que sonhava com um homem que a desejasse em pelo, nua. Ele também insistia em penetrá-la analmente com um vibrador. Dois anos mais tarde, depois de tomarem ecstasy em uma festa, ela acordou de madrugada e se percebeu nua, ao lado o marido, que vestia sua lingerie. Daí em diante, passaram a fazer sexo em duas rodadas: a segunda com ele usando roupas dela. Depois, ele pede que ela o penetre analmente com o vibrador. No primeiro round ele faz sexo convencional para agradá-la, e no segundo, ele goza loucamente. Ela não consegue lhe impor um limite. Foi preciso que tratasse deste e de outros temas em terapia de casal para que chegassem a um acordo sexual.

Para Letícia, os apetrechos e as atividades “diferentes” são estímulos recreativos, não condição sine qua non para o gozo. As fantasias femininas variam conforme o parceiro e o momento. Hoje a esposa quer ser prostituta, amanhã dominadora, e depois mulher de estivador. Agora quer carinho; outro dia, sexo bruto sem beijos.

Para o homem, passada a intensidade juvenil do erotismo primário (quando a excitação é autônoma e fácil), as fantasias passam a ser um grande incrementador da vida sexual no casamento. Mas a maioria das fantasias masculinas não é complexa como a de Alfredo. Muitas já estão padronizadas em sites pornôs e fazem parte da oferta padrão na prostituição. Sexo oral, lingeries, sexo anal, sexo com duas mulheres, swing de casais. Muitos homens se constrangem em revelar suas fantasias, alguns optam por vivê-las fora do casamento com prostitutas, amantes ou virtualmente. Outros, como Alfredo, vão tateando e propondo à parceira certas práticas. Se ela se escandaliza ou zomba, eles recuam.


Erotismos primários femininos

Mulheres podem ter comportamentos análogos ao erotismo primário masculino.


O jardineiro gostoso

Glaucia, 42, que se separou de Claudio, o marido “sem sal”, ficava inebriada ao observar o jardineiro da casa de seus pais, o porte, os braços, as mãos, as nádegas, o rosto clássico... Ela pensava: “Seja apenas belo e deixe que eu o possua”. Foram nove meses de encontros que até hoje a perseguem em sonhos.


A sensual Rita

Rita, 34, casada com Sérgio, sempre foi fascinada pelos homens e sua diversidade. Gostava de seduzir e de sexo recreativo. Ao longo da juventude formou vínculos eróticos com dois homens, cuja química sexual e entendimento na cama eram mágicos. Depois de se casar, reduziu os encontros com ambos a poucas ocasiões por ano. Mas há dez meses tem um amante fixo, Carlos. Embora continue a encontrar seus dois outros “amigos”, está sexualmente envolvida com Carlos, que é ousado, desbocado e cheio de vontades sexuais, como ela.


Muitas mulheres, sentem em algum momento um forte erotismo primário, que prescinde de sintonias delicadas. Vão “direto ao ponto”, como fazem tantos homens. Mas para entrar nesse estado de “caça sexual” algumas condições são necessárias. Que tenham autoestima quanto à sua aparência e atratividade sexual. Que não temam ser condenadas moralmente e se autorizem para o prazer. Que tenham tomado para si o controle das condições de gozo para suprir as inépcias sexuais masculinas. E que possam separar o prazer sexual da relação amorosa.

Muitas mulheres só preenchem essas condições após certa maturidade. Além disso, a plena adaptação física à penetração pode exigir anos de experiência. É comum mulheres jovens terem mais prazer em seduzir e na farra, do que efetivamente no sexo.

Mas ainda não abordei a assimetria erótica responsável pela maioria dos desencontros, sobretudo em relações longas: a diferença entre Gozo ativo e gozo passivo.


Gozo ativo

Como mulher você pode ter uma experiência de gozo ativo ao estourar plásticos bolha, apertar tubos de tinta, morder o talo crocante da alface ou amassar argila. No gozo ativo você utiliza seu próprio corpo (dedos, dentes) ou uma extensão dele (varetas, chicotes) para manipular objetos, deformá-los e obter um alívio ou gozo.

Também no sexo você tem gozos ativos parciais. Quando beija, morde, aperta ou monta em cima do parceiro. É como se houvesse uma comichão se acumulando em seus músculos, nervos, e uma vontade de descarregar o excesso de energia acumulada.

Por meio do contato com objetos que absorvem essa energia, você pode remover a sobrecarga que tensiona seu corpo e sua mente. Exerce então um domínio sobre o objeto, que pode ser furado, amassado e até destruído.

Há algo de sádico no gozo ativo, mesmo que não haja toque físico. Por exemplo, ao lançar um olhar que devassa, afeta, constrange ou excita o objeto. Você está no controle e manipula o objeto a seu bel-prazer. E usufrui disso.

Homens e mulheres têm gozo ativo. Mas homens costumam enfatizá-lo. Anatomicamente, a vagina “come” o pênis, mas subjetivamente o pênis penetra, agride e domina a vagina. Descrevemos ações sexuais masculinas como “tomar”, “pegar” e “possuir”. Embora sejam encenações eróticas, em que, autorizado por ela, ele encena e ambos se excitam, no gozo ativo a mulher é um objeto (talvez um plástico bolha).

Essa coisificação do objeto sexual, inerente ao gozo ativo, facilita o gozo e favorece a promiscuidade. Muitos homens “pegam” duas, três parceiras na mesma noite ou buscam sexo grupal, ou ainda prostitutas. Se você for mulher, pode ser que tenha algumas relações em paralelo. Mas mesmo tendo vários parceiros, a maioria das mulheres prefere reeditar as relações mais prazerosas do que a cada noite ter um novo homem desconhecido. O erotismo feminino é mais complexo, é mais difícil de se encaixar sexualmente com um parceiro.


Gozo passivo

Como homem, você pode vislumbrar o gozo passivo imaginando que seu corpo serve de meta sexual e que você necessita de outro corpo (ou objeto) que manipule e remova a tensão prazerosa acumulada em você, promovendo alívio e prazer. Homens e mulheres têm pequenos gozos passivos parciais ao serem acariciados, beijados, tocados, olhados com volúpia; enfim, nas atividades em que sejam objetos. Mas o gozo passivo pleno é mais complexo. Ocorre em etapas. Alterna-se entre a camada do erotismo primário e secundário, como ilustra o exemplo a seguir.

Se você for um homem, imagine-se com uma tensão nas costas, precisando de massagem. À porta da clínica de massagem você nota que o local é malcuidado, não inspira confiança. Tenso, você se afasta, procura outra clínica. Mas imaginemos que isso não ocorreu. A estética externa e interna são condizentes com sua expectativa. Você então contrata a massagem, porém na sala de massagem encontra um massagista que fala errado e usa roupa amarrotada. Você se tensiona, talvez desista. Mas deixemos que tudo corra bem e o massagista seja adequado. Então, em vez de uma música relaxante, ele põe um rock no máximo volume. De novo, você se tensiona, e com os músculos contraídos, não há como massageá-lo. Mas imagine que nada disso ocorreu, a música é relaxante, e enfim dá-se o início da massagem. O massagista o aperta com força demais, ou, ao contrário, o toca de modo muito débil, ou faz movimentos muito rápidos. Nessa esfera sutil, qualquer excesso ou falta, bem como mudanças no ritmo, fazem diferença. Seu prazer e relaxamento dependem de uma sintonia fina nas manobras. Mas imagine que a massagem seja perfeita. Você está feliz, relaxado. Subitamente escuta o choro estridente de um bebê da vizinhança. Você se contrai. Porém digamos que não houve choro algum e você esteja relaxado, tendo prazer... até que se lembrou de um processo tributário que poderá levá-lo a perder seu patrimônio! A tensão varre seu corpo, não consegue mais se entregar. Afinal, sua vida é um todo, interligado, e a reunião com os advogados hoje à tarde o preocupa. As manobras físicas sobre seu corpo agora o incomodam, até irritam. Você decide interromper e ir embora.

O gozo passivo depende de balanceamentos. Uma das chaves é relaxar. E para isso é preciso confiar. Também a estética e o conforto importam. E necessária uma sintonia fina de ritmos. Não há uma predeterminação de um trem-bala que quer apenas penetrar e gozar. Foi algo que André teve de entender a respeito de Juliana, a esposa tensa e perfeccionista.


Sexo: só longe de casa

Juliana não gosta dos pelos que crescem na orelha dele nem da caspa. O jeito como ele a toca é hesitante. Queria uma pegada mais forte, “de homem”. O beijo é demasiado molhado. Na cama, ele prolonga o ato em demasia, faz movimentos lerdos demais e, pior de tudo, fica perguntando se ela está para ter, está tendo ou terá um orgasmo! Ele insiste em sexo oral, anal e variações sexuais que a deixam ansiosa. Ela tem dificuldade de relaxar em casa, pensa nos problemas com a faxineira, na sogra infernal. Só longe da família, das obrigações, quando sai de férias com André, se solta e deseja transar.


Lembra-se do mal-entendido descrito na introdução deste livro? De como muitos homens se casam para ter um “lar”, enquanto suas mulheres querem construir uma relação a dois?

Também no campo erótico homens e mulheres têm erotismos assimétricos e tendem — equivocadamente — a imaginar que o erotismo de seu parceiro é semelhante ao seu. Pensam que os desejos se complementam, se encaixam. Quantas vezes mulheres acham que o erotismo primário masculino é um desvio ou defeito de certos homens, e não uma característica de gênero? Elas não percebem que mesmo homens mais sensíveis e sintonizados também têm essas camadas brutas (elas estão apenas calibradas pela empatia, pela educação e pelo amor).

E quantas vezes homens atribuem equivocadamente às esposas desinteresse por sexo, sem perceber que a chave que as excita não é a mesma que a deles?

Homens e mulheres, mesmo quando conseguem seduzir o parceiro, muitas vezes não sabem como o fizeram. Pensam que foi devido a algo que, na verdade, nem é tão importante. Arrisco dizer que em muitos dos bons encontros eróticos ambos miraram num alvo e acertaram em outro, tendo sucesso sem saber por quê. Assim, no início do relacionamento, o encontro erótico foi um delicioso mal-entendido que não se esclareceu, mas que, ao longo do tempo, pode se tornar problemático. Na Parte III discutiremos possibilidades de atuar nessa área.


Tantas diferenças próprias de gênero e ainda nem falamos das diferenças eróticas entre os tipos psicológicos! Obsessivos, histéricos, fóbicos, narcisistas, distraídos... cada “tipo” tem um estilo erótico. Para lidar com todas essas diferenças numa relação de longo prazo, é importante dar atenção à Química sexual, às Preferências eróticas, à Habilidade sexual e ao Ambiente erótico-sensual, temas de que trato a seguir.


SEXO NO CASAMENTO

Você já deve saber — ou ter descoberto por conta própria — que rotina, hábito, estresse doméstico e profissional, envelhecimento, intimidade, previsibilidade, segurança, dependência e cobranças são verdadeiros assassinos do desejo e do tesão. Sentimos frisson diante do novo, da aventura, do desconhecido e do arriscado, talvez diante do proibido. Nesse sentido, casamento e tesão simplesmente não rimam.

Mas, como veremos, é possível que ousadia sexual, somados a uma boa química, habilidade sexual, sensualidade e fantasias permitam indenizar a perda do frisson no casamento e trocá-lo por sexo recreativo e divertido. Mas isso não significa que todos casais necessitem de muito sexo ou de frisson. Alguns valorizam mais as outras dimensões da Equação do Casamento. E outros até preferem se aconchegar num sexo acolhedor e “fofinho” do que em sexo ousado. Outros, dependendo do ciclo de vida, passam por diferentes fases, ora necessitando de aventura, ora de aconchego. Na Parte III discutiremos essas questões detalhadamente. Por ora, vale abordar cada um dos quatro aspectos da vida sexual.


Química sexual

Ninguém sabe por que você se sente sexualmente atraído por alguém. Homens e mulheres relatam muitas vezes sentir uma química sexual irresistível por “pessoas nem tão bonitas assim”. Especula-se que preferências e repulsas eróticas sejam influenciadas por uma combinação de fatores biológicos — como a complementaridade imunológica, hormônios sexuais e um programa genético da espécie — com fatores psicológicos, como vivências infantis e adolescentes e as primeiras experiências sexuais.


Alergia sexual

Jayme, 33 anos, queria se casar com Catarina, mas não gostava de seu cheiro, nem da textura da pele (que segundo ele tinha “uma penugem sobre uma pele rugosa”), tampouco das sardas, das cores pálidas e dos cabelos crespos e loiros. Também achava os seios dela pequenos e murchos. Mesmo assim pensava que Catarina era a mulher certa para fazê-lo feliz, e queria saber de mim se poderia aprender a desejá-la sexualmente, ou ao menos se acostumar. Já eram noivos, queria apenas que eu confirmasse sua escolha. Depois de dois anos, com um filho recém-nascido, voltou a me procurar: havia desenvolvido uma grave alergia no pênis às secreções vaginais de sua esposa. Mas esse era um dos raros casos em que mesmo assim parecia fazer sentido continuarem juntos. Ele tinha tantas dificuldades em seu funcionamento psicológico individual, e Catarina cobria tão bem as áreas em que ele era deficitário, que por estranho que possa parecer permanecerem juntos o deixava melhor do que se separarem (o que ele tentou por quatro meses). No final, o pouco sexo que tinham passou a ser feito com preservativo. Algumas vezes por ano ele buscava experiências fora do casamento. Para Catarina também parecia fazer sentido ficar com Jayme. Ele se inseria no mundo dela e não a desafiava em seus fantasmas (medo de lidar com a própria feminilidade e de enfrentar divergências interpessoais). Não há receitas de como deve ser seu arranjo de casamento.


Mas casos como o de Jayme e Catarina são raros. Uma radical falta de química sexual tende a ser restritiva, com o tempo mina toda relação. Por outro lado, ter uma boa química pode não bastar para sustentar o desejo sexual, como mostra o caso de Denise, que, antes de se casar com Ronaldo, teve uma inesquecível experiência erótica.


Deus grego

Denise, 32, era editora e convivia com uma elite cultural e financeira onde tinha muitas amizades e casos ocasionais. Conheceu então na praia, durante um fim de semana no Rio de Janeiro, um homem de quarenta anos. Ao vê-lo sair do mar, pareceu-lhe estar diante de “um deus grego”. De início um caso de férias sem maiores pretensões. Sentia por ele uma química de pele inigualável, e encaixavam-se tão bem! Embora notasse sua inteligência mediana e suas limitações financeiras, a química, o entendimento na cama, o charme e a beleza falavam alto. Continuou o caso para além das férias. Percebeu-se numa fissura sexual. Foram meses de ponte aérea. Sentia desejo nos momentos mais impróprios (em reuniões de trabalho, em jantares familiares). Mas ele queria aprofundar a relação e constituir família. Ela não poderia apresentá-lo a seu meio social e tampouco queria conviver com suas restrições financeiras e intelectuais. Foi perdendo o tesão. Decidiu então encerrar a história e, apesar de passar meses deprimida, não se arrependeu da decisão. Três anos depois encontrou um homem por quem sentia uma química sexual mediana, mas que a completava em outros quesitos: seu marido, Ronaldo.



Com frequência não casamos com quem tivemos a química sexual mais inebriante. Pessoas com grande carisma sexual podem não ser parceiros confiáveis ou não ter competências suficientes em outras áreas. Os outros três aspectos da vida sexual, discutidos a seguir, costumam ser ainda mais relevantes em relações de longo prazo.


Preferências eróticas

Como mencionado, sobretudo os homens tendem a conferir excepcional importância às preferências eróticas.


Sacanagens telefônicas

Pedro, 43, o dono de casa, acha que Silvana, quarenta, executiva, é “uma chata na cama”. Nas últimas semanas, buscando esquentar a vida sexual, ele adotou a tática de ligar logo de manhã sussurrando-lhe as fantasias de como pretende ter sexo com ela à noite. Sexo de pé, contra a parede, ela de joelhos na posição missionária, ou fazer sexo oral nela. Em sessão, para surpresa dele, ela diz odiar esses telefonemas matinais, eles a deixam em pânico. Enquanto ele passa o dia antevendo uma noite com uma mulher sedenta de sexo, ela passa o dia pensando em como escapar da noitada.


As fantasias e preferências nem sempre são tão vitais (como eram para Alfredo, obcecado por usar lingerie e consolos). Mas mesmo Pedro, André e Armando, que não conseguiram convencer as esposas a aceitar fantasias mais modestas, como sexo oral e anal, acabaram realizando-as com prostitutas ou em casos ocasionais.

Mulheres muitas vezes não entendem e não aceitam a insistência do marido em determinada fantasia, pois elas próprias tendem a ser mais flexíveis e a tolerar melhor que os maridos as frustrem nas suas preferências sexuais.


Habilidade sexual

A área sexual de maior potencial de mudança é a competência “técnica” na cama. Isso se marido e mulher não estiverem travados ou constrangidos por tabus. Com uma genuína disposição de se entender na cama, ambos podem aprender a interpretar e tocar melhor o parceiro.


Pedro continua insatisfeito

Além de topar “no máximo duas vezes por semana”, Silvana era displicente na cama. Havia meses, Pedro procurava instruí-la a respeito de técnicas sexuais enviando-lhe por internet cenas de sexo explícito e vídeos “didáticos” de como fazer sexo oral e masturbação. Ele era habilidoso em fazer a esposa gozar e se queixava da falta de reciprocidade. A única explicação que ele conseguia imaginar era que talvez ela não gostasse de sexo ou não o amasse.


Embora Pedro fosse o queixoso, já vimos que o gozo passivo depende muito da perícia do parceiro, daí ser mais comum as esposas se queixarem da inépcia masculina nos ritmos e manobras sexuais. Após anos, muitas relatam que o parceiro ainda faz carinhos inábeis que machucam ou incomodam. E é comum homens e mulheres não terem coragem de conversar e instruir o parceiro de como tocá-los de modo prazeroso.

Mas além de inexperiência, timidez e tabus, a falta de habilidade no sexo pode também estar ligada a dificuldades psicossexuais, como ejaculação precoce, vaginismo, anorgasmia, entre outras. Embora muitos deixem de procurar ajuda por constrangimento, terapia sexual, de casal e medicação costumam ser muito eficazes para tratar certas dificuldades.


Ambiente erótico-sensual

Essa é uma demanda mais feminina, e muitos maridos não estão à altura das necessidades eróticas da esposa fora da cama. Ainda que na cama eles se entendam, fora dela não se sentem ligados eroticamente. Esquecem-se de que, como mencionado, rotina e previsibilidade são verdadeiros assassinos, e que testemunhar diariamente os aspectos menos glamorosos da fisiologia e psicologia do parceiro também não ajuda. Sem contar que o estresse cotidiano (filhos, obrigações, desentendimentos) nos torna todos mais irritadiços e distantes.


Fofinho
Na primeira sessão, Rogério, 59, veio com Marcela, quarenta, para que ela “explicasse” o problema. Marcela há cinco anos “desistiu de lutar” por Rogério. Acha que ele não lhe dá atenção, que parece ausente e que faz sexo de modo mecânico. Cansou-se de reclamar, ele nem ao menos lhe responde, fica em silêncio, encarando-a, atônito. Rogério é um tipo acomodado, introvertido, tímido, pouco criativo e afeito a rotinas. Nem sequer entende o pedido dela para que “resgatem a época do namoro”. Tudo que percebe é que tem uma mulher ressentida e que pode perdê-la. Mas apesar de seu jeito travado, aos poucos Rogério passa a ser mais “fofinho” e a demonstrar que a nota. Propõe programas que interessam a ambos, também entendeu que sexo em casa não era estimulante para ela, e se organizou com a babá para “escapar” com Marcela uma vez por semana. Passados dois meses, Marcela está mais carinhosa e eles retomaram as relações sexuais.


Para algumas esposas basta sentir certo enlace romântico, algo como “sinto saudades”, “te amo”, ou uma pequena lembrança comprada a caminho de casa. Marcela tinha horizontes sensuais mais modestos, e não foi difícil para Rogério corresponder. Outras necessitam de algo menos “fofo”, mais apimentado — no estilo de Carlos, o amante da sensual Rita, que a instigava eroticamente. Diferente do marido Sérgio, que embora adorasse as “surpresas” de sua mulher, não era capaz de promover algo análogo por conta própria. No máximo abordava Rita de pijama, com um estranho gesto desajeitado (como que a galope, segurando rédeas, donde ela depreendia que seria a égua).

Criar espaços inusitados, divertidos, momentos a dois, tende a ser percebido, sobretudo pelas esposas, como estimulante, seja você “fofo”, sensual ou instigante. O capítulo 16 é inteiramente dedicado ao tema “buscar mais sintonia sexual”. Como você pode depreender do que já leu, se há pouco a ser incrementado a respeito de química sexual, muito pode ser feito nos outros três aspectos (habilidades, preferências e ambiente), sobretudo se desenvolverem uma conexão com as diferenças de erotismo entre vocês.


(Luiz Hanns - A Equação do Casamento, O que pode (ou não) ser mudado na sua relação)

LUIZ HANNS graduou-se em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP). Possui mestrado e doutorado em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e atua como terapeuta de casais há mais de vinte anos. É autor de Dicionário comentado do alemão de Freud (Imago, 1996), entre outros.

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publicado às 15:58


Erich Fromm: SEXO E CARÁTER

por Thynus, em 11.10.16
A TESE da existência de diferenças inatas entre os dois sexos, que resultam necessàriamente em diferenças de caráter, é muito antiga. O Velho Testamento estabelece, como peculiaridade e maldição da mulher, que seu “desejo seja apenas para teu marido e êle te dominará”, e do homem que terá de trabalhar em suor e sofrimento. Mas até mesmo a afirmativa bíblica encerra, virtualmente, a tese oposta: o homem foi criado à semelhança de Deus, e sómente como punição pela desobediência original - homens e mulheres foram criados como iguais, em relação à sua responsabilidade moral - recebeu a maldição do conflito mútuo e da diferença eterna. Os dois aspectos, o da diferença básica e o da identidade básica, foram repetidos através dos séculos - certas épocas ou escolas filosóficas ressaltam uma tese, outras a tese oposta.
O problema assumiu maior significação nas discussões filosóficas e políticas dos séculos XVIII e XIX. Representantes da filosofia do Iluminismo afirmaram não haver distinções inatas entre os sexos (l'âme n'a pas de sexe) ; que as diferenças porventura existentes eram condicionadas pela educação, eram - como hoje diríamos - diferenças culturais. Os filósofos românticos de princípios do século XIX, por sua vez, ressaltavam o ponto oposto. Analisaram a diversidade de caráter entre homens e mulheres, e disseram que esta era, fundamentalmente, conseqüência de diferenças biológicas e fisiológicas inatas.
Afirmaram que tais diferenças de caráter existiriam em qualquer cultura concebível.
A despeito dos méritos das respectivas argumentações e a análise dos românticos teve, frequentemente, profundidade - ambos encerravam uma implicação política. Os filósofos do Iluminismo, particularmente os franceses, queriam ressaltar a igualdade social, e até certo ponto também política, entre homem e mulher. Acentuaram a falta de diferenças inatas como argumento a seu favor. Os românticos, que eram reacionários políticos, usaram a análise da essência (Wesen) da natureza do homem como prova da necessidade da desigualdade política e social. Embora atribuíssem qualidades muito admiráveis “à mulher”, insistiam em que suas características a tornavam incapaz de participar na vida social e política em pé de igualdade com os homens.
A luta política pela igualdade feminina não terminou no século XIX, nem se concluiu então a discussão teórica sôbre o caráter inato ou o caráter cultural dessas diferenças. Na Psicologia moderna, Freud tornou-se o representante mais destacado do ponto de vista dos românticos. Enquanto o argumento dêstes fôra elaborado em linguagem filosófica, o de Freud se baseava na observação científica dos pacientes pela Psicanálise. Supunha êle que as diferenças anatômicas entre os sexos era a causa de diferenças de caráter inalteráveis. “A anatomia é a sua desgraça”, diz êle da mulher, parafraseando uma afirmação de Napoleão. Segundo Freud, a menina, ao descobrir que não tem o órgão genital masculino, fica profundamente chocada e impressionada, sentindo que lhe falta alguma coisa, e inveja o homem por ter algo que o destino lhe negou, e, ainda, que no curso normal de sua evolução ela tentará superar o sentimento de inferioridade e inveja substituindo o órgão genital masculino por outras coisas - marido, filhos, bens. No caso de uma evolução neurótica, ela não conseguirá realizar essas substituições satisfatórias. Continua invejando o homem, não abandona o desejo de ser homem, torna-se homossexual ou odeia os homens, ou busca compensações culturalmente admitidas. Até mesmo no caso de evolução normal, a qualidade trágica da sorte feminina jamais desaparece totalmente -persegue-a o desejo de obter algo que permanece inalcançável por tôda a vida.
Embora os psicanalistas ortodoxos conservassem essa teoria de Freud como uma das pedras fundamentais de seu sistema psicológico, outro grupo de analistas, culturalmente orientados,
discutiu as descobertas de Freud. Mostrou os erros, tanto clínicos como teóricos, do raciocínio freudiano, assinalando as experiências culturais e pessoais das mulheres na sociedade moderna, que provocaram os traços de caráter explicados por êle em têrmos biológicos. A opinião dêsse grupo de psicanalistas teve confirmação nas descobertas dos antropólogos.
Não obstante, existe o perigo de que certos adeptos das teorias antropológica progressista e psicanalítica recuem a ponto de negar totalmente que as diferenças biológicas tenham qualquer efeito na estrutura do caráter. Podem ser levados a isso pela mesma motivação encontrada nos representantes do Iluminismo francês. Como a ênfase sôbre as diferenças inatas é usada como argumento pelos inimigos da igualdade da mulher, parece necessário provar que há apenas causas culturais para qualquer diferença que se possa observar empiricamente.
É importante reconhecer que nessa controvérsia existe uma importante questão filosófica. A tendência para negar qualquer diferença de caráter entre os sexos pode ser provocada pela aceitação implícita de uma das premissas da filosofia antiigualitária: a fim de pretender a igualdade, é necessário provar que não há diferenças de caráter entre os sexos, exceto as provocadas pelas condições sociais existentes. Um dos grupos fala de diferenças, ao passo que os reacionários realmente pretendem dizer deficiências e, mais especificamente, as deficiências que tornam impossível partilhar da plena igualdade com o grupo dominante. Assim, a pretensa inteligência limitada e a falta de faculdade de organização e de juízo crítico ou abstrato das mulheres foram alegadas como razões para impedir sua plena igualdade com os homens. Uma escola de pensamento afirmava que elas possuem intuição, amor, ete., mas que essas qualidades não pareciam torná-las mais capazes de enfrentar as tarefas da sociedade moderna. O mesmo se diz, com freqüência, das minorias como a dos negros ou judeus. Dessa forma, o psicólogo e o antropólogo foram levados à necessidade de demonstrar que entre os sexos ou grupos raciais não havia diferenças fundamentais capazes de impedir-lhes a participar da Plena igualdade. Devido a essa posição, os pensadores liberais se inclinaram a reduzir ao mínimo a existência de quaisquer distinções.
Embora os liberais provassem que não existem diferenças capazes de justificar a desigualdade política, econômica e social, deixaram-se levar a uma posição defensiva estratègicamente desfavorável. Para provar o fato de que não existem diferenças socialmente prejudiciais não é necessário sustentar a inexistência de diferenças. A questão será, então, adequadamente, a seguinte: qual a utilização dada às diferenças, reais ou súpostas, e a que finalidades políticas servem? Admitindo que as mulheres tenham certas distinções de caráter em relação aos homens, que significa isso?
Nossa tese é a de que certas distinções biológicas provocam outras distinções de caráter; que tais diferenças se fundem com as provocadas diretamente pelos fatôres sociais; que êstes são muito mais fortes em seu efeito e podem aumentar, eliminar ou inverter diferenças de origem biológica; e que, finalmente, as diferenças de caráter entre os sexos, quando não determinadas diretamente pela cultura, jamais constituem diferenças de valor. Em outras palavras, o caráter tipico dos homens e das mulheres na cultura ocidental é determinado pelos seus respectivos papéis sociais, mas há uma coloração nesse caráter que resulta das diferenças de sexo. Tal coloração é insignificante, em relação às diferenças de origem social, mas não deve ser ignorada.
A suposição implícita em grande parte do pensamento reacionário é a de que a igualdade pressupõe uma ausência de diferenças entre pessoas e grupos sociais.
Elas evidentemente existem, em relação a quase tudo o que importa na vida, e por isso a conclusão é que não pode haver igualdade. Quando, inversamente, os liberais negam o fato de haver grandes diferenças nos dons mentais e físicos, e condições acidentais de personalidade favoráveis ou desfavoráveis apenas contribuem para que seus adversários aparentem ter, aos olhos do homem comum, razão. O conceito de igualdade, tal como se desenvolveu na tradição judaico-cristã e na tradição progressista moderna, significa que todos os homens são iguais na capacidade humana que se relaciona com o gozo da liberdade e felicidade. Significa, ainda, que como conseqüência política dessa igualdade básica nenhum homem será usado como meio para as finalidades de outro homem, e nenhum grupo será meio para as finalidades de outro grupo. Todo homem é um universo em si, e sómente para seus objetivos. Sua finalidade é a realização de seu ser, incluindo as peculiaridades mesmas que o caracterizam e distinguem dos outros. Assim, a igualdade é a base do pleno desenvolvimento das diferenças, e resulta no desenvolvimento da individualidade.
Embora existam várias diferenças biológicas cuja importância para as diferenças de caráter entre homem e mulher bem poderíamos examinar, êste ensaio apenas se ocupará principalmente de uma delas. Nosso objetivo, aqui, não é tanto examinar a totalidade do problema das diferenças de caráter entre os sexos mas ilustrar a tese geral. Vamos focalizar principalmente os papéis do homem e da mulher nas relações sexuais e procurar mostrar que essa diferença resulta em certas diferenças de caráter - que apenas dão côr às principais distinções provocadas pelos papéis sociais diversos do homem e da mulher.
A fim de funcionar sexualmente, o homem precisa de ereção e de ser capaz de conservá-la durante a relação até atingir o orgasmo. A fim de satisfazer a mulher, deve ser capaz de conservar a ereção por um período suficientemente prolongado para que também ela tenha o orgasmo. Isso significa que para satisfazer sexualmente a mulher o homem tem de demonstrar sua capacidade de ter e manter a ereção. A mulher, por sua vez, para satisfazer sexualmente o homem nada precisa demonstrar. Na verdade, sua excitação pode aumentar o prazer masculino. Certas alterações físicas nos seus órgãos sexuais podem tornar mais fáceis as relações. Como só levamos em conta as reações puramente sexuais e não as sutis reações psíquicas de personalidades distintas, a realidade é que o homem precisa da ereção para satisfazer a mulher; a mulher de nada precisa para satisfazer o homem, a não ser certa boa-vontade. E, falando de boa-vontade, é importante notar que a capacidade que tem a mulher de satisfazer sexualmente o homem depende da sua vontade - é uma decisão consciente que pode tomar no momento que desejar. A capacidade masculina, porém, não é simplesmente uma função de sua vontade. Na realidade, êle pode ter desejo sexual e ereção contra a vontade, e pode ser impotente apesar de um ardente desejo em contrário. Além disso, da parte do homem a inabilidade de funcionar é um fato que não pode ser disfarçado. A falta de reação total ou parcial na mulher, embora freqüentemente percebida pelo homem, não é tão evidente, permitindo uma grande margem de disfarce. Se a mulher o consente, o homem pode ter certeza de satisfazer-se sempre que desejar. Mas a situação da mulher é totalmente diferente; o mais ardente desejo sexual de sua parte não levará à satisfação, a menos que o homem tenha também por ela um desejo suficiente para provocar a ereção. E, mesmo durante o ato sexual, a mulher depende, para sua plena satisfação, da capacidade masculina de levá-la ao orgasmo. Assim, para satisfazer sua companheira o homem tem de provar alguma coisa; a mulher, não.
Dessa diferença nos respectivos papéis sexuais segue-se uma outra - a diferença nas suas ansiedades específicas em relação à função sexual. A ansiedade está localizada no ponto mesmo em que as posições do homem e da mulher são vulneráveis. A posição do homem é vulnerável na medida em que tem de provar alguma coisa, ou seja, na medida em que é potencialmente capaz de falhar.
Para êle, as relações sexuais têm sempre a côr de uma prova, de um exame. Sua ansiedade específica é a de falhar. Mêdo da castração é o caso extremo - mêdo de tornar-se orgânicamente, e portanto permanentemente, incapaz de funcionar.
A vulnerabilidade da mulher, por sua vez, está na dependência do homem; o elemento de insegurança relacionado com suas funções sexuais está não em falhar, mas em não se realizar, em se frustrar, em não ter contrôle completo do processo que leva à satísfação sexual. Não é de surpreender, assim, que as ansiedades do homem e da mulher se refiram a esferas diferentes - a do homem ao seu ego, seu prestígio, seu valor aos olhos da mulher; a da mulher, à sua satisfação e prazer sexual.(Distinção semelhante, em relação às diferenças nos temores sexuais das crianças, é estabelecida por Karen Horney, “Die Angst vor der Frau”, Zeitschr.f. Psychoanal. XIII (1932), 1-18)
O leitor poderá indagar: não são essas ansiedades características apenas das personalidades neuróticas? Não tem o homem normal certeza de sua potência? Não tem a mulher normal confiança em seu companheiro? Não se trata, no caso, do homem moderno, altamente nervoso e sexualmente inseguro? Não estariam o homem e a mulher das cavernas, com sua sexualidade primitiva e não estragada, livres dessas dúvidas e ansiedades?
À primeira vista, assim poderia parecer. O homem que se preocupa constantemente com sua potência representa certo tipo de personalidade neurótica, tal como a mulher que está constantemente temerosa de ficar insatisfeita, ou que sofre com a sua dependência. Como ocorre freqüentemente, no caso a diferença entre o “neurótico” e o “normal” é freqüentemente de grau e consciencia, e não de essência. O que no neurótico é uma ansiedade consciente e permanente, no chamado homem normal é uma ansiedade relativamente ignorada e quantitativamente insignificante. O mesmo ocorre na mulher. Além disso, nos indivíduos normais, a ansiedade não é despertada por certos incidentes que sempre provocam ansiedade manifesta nos neuróticos. O homem normal não tem dúvida de sua potência. A mulher normal não tem mêdo de ser sexualmente frustrada pelo homem que escolheu para companheiro. A escolha de um homem em quem possa confiar sexualmente é parte essencial de seu instinto sexual sadio. Mas isso não altera o fato de que potencialmente o homem pode falhar, e a mulher, jamais. A mulher depende do desejo do homem, e não o homem do desejo feminino.
Há ainda outro elemento significativo, para determinar a presença de ansiedade, e de ansiedades diferentes, no homem e na mulher normais.
A diferença entre sexos é a base da mais antiga e elementar divisão da humanidade em grupos separados. Homens e mulheres precisam uns dos outros para a manutenção da raça e da família, bem como para a satisfação de seus desejos sexuais. Mas em qualquer situação na qual os dois grupos diferentes se necessitam, haverá não só elementos de harmonia, cooperação e satisfação mútua, mas também de luta e desarmonia.
A relação sexual entre os sexos dificilmente poderia estar lívre de antagonismo e de hostilidade potenciais. Os homens e as mulheres têm, juntamente com a capacidade de amar-se, uma capacidade semelhante de odiar. Em qualquer relação entre homem e mulher, o elemento de antagonismo é uma potencialidade, e dessa potencialidade mesma o elemento de ansiedade surge por vêzes. O ser amado pode transformar-se em inimigo, e nesse caso os pontos vulneráveis do homem e da mulher, respectivamente, são ameaçados.
O tipo de ansiedade e ameaça, porém, é diferente no homem e na mulher. Se a principal ansiedade do homem é a de falhar, de não executar o que dêle se espera, o impulso destinado a protegê-lo dessa ansiedade é o desejo de prestígio.
O homem está profundamente imbuído do anseio de provar constantemente, a si e à mulher que ama, a tôdas as outras mulheres e a todos os outros homens, que corresponde a qualquer expectativa que se mantenha em relação a êle. Procura proteção contra o mêdo de falhar sexualmente, competindo em tôdas as outras esferas da vida nas quais o poder, a fôrça física e a inteligência são úteis para assegurar o êxito. Intimamente relacionada com êsse desejo de prestígio está a sua atitude de competição em relação aos outros homens. Tendo mêdo de um possível fracasso, êle tende a provar que é melhor do que qualquer outro homem. O Dom Juan o faz diretamente no âmbito sexual, o homem médio o faz indiretamente - matando maior número de inimigos, caçando maior número de búfalos, ganhando mais dinheiro ou tendo maior êxito em outros setores do que seus concorrentes.
O moderno sistema social e econômico baseia-se nos princípios da concorrência e do êxito. As ideologias louvam-lhe o valor, e por essas e outras circunstâncias o anseio de prestígio e competição está firmemente implantado no ser humano médio que vive na cultura ocidental. Mesmo que não houvesse diferenças nos respectivos papéis sexuais, essas ansiedades existiriam nos homens e nas mulheres, devido aos fatôres sociais. O impacto dessas fontes sociais é tão grande que podemos duvidar se, em têrmos quantitativos, há qualquer predomínio acentuado do anseio de prestígio no homem, em conseqüência dos fatôres sexuais que focalizamos. A questão de primordial importância, porém, não são as proporções em que a concorrência é aumentada pelas fontes sexuais, mas sim a necessidade de reconhecer-se a presença de outros fatôres, além do social, no estímulo à competição.
A busca masculina de prestígio lança alguma luz sôbre a qualidade específica da vaidade do homem. Afirma-se, geralmente, ser a mulher mais vaidosa do que o homem. Embora o inverso possa ser verdade, o que importa não é a diferença em quantidade, mas sim na natureza da vaidade. A característica essencial da vaidade masculina é o exibicionismo, a demonstração do bom
“executor” que êle é. O homem anseia por afirmar que não tem mêdo de falhar.
Sua vaidade parece colorir tôda a sua atividade. Provàvelmente não haverá nenhuma realização do homem, desde o ato do amor até o ato mais corajoso numa batalha ou no pensamento, que não esteja permeado, em proporções diferentes, dessa vaidade típica masculina.
Outro aspecto do anseio que tem o homem de prestígio é sua sensibilidade ao ridículo.Até mesmo o covarde pode tornar-se herói pelo mêdo de ser ridicularizado pelas mulheres, e o receio de perder a vida pode ser menor do que o mêdo ao ridículo. Na verdade, isso é típico da essência do heroísmo masculino, e que não é maior do que o heroísmo de que são capazes as mulheres, mas sim diferente, por estar impregnado da vaidade masculina.
Outro resultado da precária posição do homem em relação à mulher e seu mêdo do ridículo feminino é o ódio potencial que experimenta por ela. Êsse ódio contribui para um anseio que tem também uma função defensiva: dominar a mulher, ter poder sôbre ela, fazê-la sentir-se fraca e inferior. Se o homem consegue isso, não precisa ter mêdo dela. Se ela tiver mêdo dêle; mêdo de ser morta, espancada, ou passar fome - não poderá ridicularizá-lo. O poder sôbre uma pessoa não depende da intensidade da paixão experimentada nem do funcionamento da produtividade sexual e emocional. O poder depende de fatôres mantidos com tal segurança que jamais possa surgir uma dúvida sôbre a capacidade ou a competência. Incidentalmente, a promessa de poder sôbre a mulher é o conforto que o mito bíblico, de tendências patriarcais, oferece ao homem, ainda quando Deus o amaldiçoa.
Voltando ao problema da vaidade, afirmamos que a vaidade feminina difere, qualitativamente, da vaidade masculina. 
Esta se resume em mostrar o que o homem pode fazer, em provar que jamais falha; a vaidade da mulher é caracterizada essencialmente pela necessidade de atrair e de provar a si mesma que é capaz de atrair. Na verdade, o homem precisa exercer atração, sexualmente, sôbre a mulher, a fim de conquistá-la.
Isso é particularmente exato numa cultura em que gostos e sentimentos distintos estão implícitos na atração sexual. Mas há outras formas pelas quais o homem pode conquistar a mulher e levá-la a ser sua companheira sexual: simples fôrça física ou, o que é mais significativo, poder social e riqueza. Suas oportunidades de satisfação sexual não dependem exclusivamente da capacidade de exercer atração sexual. Nem a fôrça nem as promessas podem dar potência sexual a um homem. O esfôrço feminino para atrair é uma exigência do seu papel sexual, e sua vaidade ou preocupação com a aparência resulta disso.
O mêdo feminino da dependência, ou frustração, de um papel que a obriga a esperar freqüentemente leva a um desejo que Freud acentuou bastante: o de ter o órgão genital masculino.(Cf. Clara Thompson, “What is Penis Envy?”, e a discussão que se segue, por Janet Rioch, Proceedings of the Assoemition for the Advancement of Psychoanalysis, Boston Meeting, 1942) A raiz disso, porém, não está em sentir a mulher, primordialmente, que lhe falta alguma coisa, que ela é inferior ao homem por falta de um pênis. Embora em muitos casos haja outras razões, o desejo feminino de ter um penis surge freqüentemente do anseio de não ser dependente, de não ter suas atividades limitadas, de não ficar exposta ao perigo da frustração. Tal como o desejo masculino de ser mulher pode resultar dessa vontade de se ver livre do pêso da prova, o desejo feminino de ter um pênis pode resultar do anseio de superar a própria dependência. E também, em circunstâncias especiais, mas não raras, não sómente o pênis serve como um símbolo de independência, mas, na satisfação das tendências sádico-agressivas, também simboliza uma arma com a qual ferir os homens ou as outras mulheres.(Na homossexualidade feminina, um aspecto significativo do quadro parece ser a combinação da tendência a ser ativa, em contraste com o papel dependente passivo, juntamente com as tendências destruidoras)
Se a principal arma do homem contra a mulher é seu poder físico e social sôbre ela, então a principal arma da mulher é a possibilidade de ridicularizar o homem. A forma mais radical disso é tornar o homem impotente. Há muitas formas, sutis e cruas, pelas quais a mulher faz isso. Tais formas vão de uma expectativa explícita ou implícita de um fracasso até a frieza e a uma espécie de espasmo vaginal que torna a cópula fisicamente impossível. O desejo de castrar o homem não parece desempenhar o papel sumamente importante que Freud lhe atribui. A castração é, na verdade, uma forma de tornar o homem impotente e surge freqüentemente quando as tendências destruidoras e sádicas são acentuadas. Mas o principal objetivo da hostilidade feminina parece ser não o dano fisico, mas funcional, a interferência na capacidade masculina de realizar o ato. A hostilidade específica do homem é sobrepor-se pela fôrça física, pela fôrça política ou econômica; a da mulher é solapar, pelo ridículo e pelo desprêzo.
A mulher pode ter filhos, o homem não. Dêsse ponto de vista patriarcal, Freud supõe, caracteristicamente, que a mulher inveja o órgão masculino, sem observar a possibilidade de que os homens sintam inveja da capacidade feminina de ter filhos. Essa interpretação unilateral não vem apenas da premissa masculina de que os homens são superiores, mas também resulta da atitude de uma civilização altamente técnica e industrial, na qual a produtividade natural não é muito valorizada. Não obstante, se considerarmos os períodos iniciais da história humana, quando a vida dependia essencialmente da produtividade na Natureza, e não da produtividade técnica, o fato de partilharem as mulheres êsse dom com a terra e com as fêmeas dos animais deve ter sido extremamente impressionante. O homem é estéril, em têrmos puramente naturalistas. Numa cultura em que a principal ênfase recai sôbre a produtividade natural, seria de supor que o homem se sentisse inferior à mulher, especialmente quando seu papel na produção dos filhos não era compreendido. Podemos supor que os homens admiravam as mulheres por essa capacidade que lhes faltava, que estavam maravilhados com ela e a invejavam. O homem não podia produzir, podia apenas matar animais e comê-los, ou matar inimigos para ter segurança, ou assimilar-lhes a fôrça através de algum processo mágico. 
Sem discutir a situação dêsses fatôres nas comunidades exclusivamente agrárias, examinaremos ràpidamente os efeitos de algumas importantes transformações históricas. Um dêsses feitos mais significativos foi a crescente aplicação da técnica à produção. A inteligência foi usada, cada vez mais, para aperfeiçoar e aumentar os vários meios de vida que originalmente dependiam apenas das dádivas da Natureza. Embora as mulheres tivessem um dom original que as tornava superiores aos homens, êstes a princípio compensaram tal falta usando sua habilidade na destruição, e mais tarde empregando seu intelecto como base da produtividade técnica. Em suas fases iniciais, isso se relacionava intimamente com a mágica; mais tarde, o homem, pela fôrça de seu pensamento, produziu coisas materiais. Sua capacidade de produção técnica superou com o tempo a dependência da produção natural.
Ao invés de desenvolvermos mais êsse ponto, remetemos o leitor simplesmente aos escritos de Bachofen, Morgan e Briffault, que reuniram e analisaram brilhantemente o material antropológico que, embora não lhes comprove as teses, sugere fortemente que em várias fases da história primitiva existiram certas culturas nas quais a organização social se centralizava em tôrno da mãe, e nas quais as deusas maternais, identificadas com a produtividade da Natureza, eram o centro das idéias religiosas do homem.(Ver também Frieda Fromm-Reichmann, “Notes on the Mother Role in the Family Group”, Bulletin of the Menninger Clinic, IV (1940), 132-148)
Uma ilustração bastará. O mito babilônico da criação começa com a existência de uma deusa-mãe - Tiamate - que governa o universo. Seu domínio, porém, é ameaçado pelos seus filhos, que planejam rebelar-se e derrubá-la. Como líder dessa luta buscam alguém que possa igualá-la em fôrça. Chegam, finalmente, a um acôrdo em relação a Marduque, mas antes da escolha definitiva exigem que se submeta a uma prova. Qual prova? Apresentara-lhe um pano, que tem de, “com o poder de sua bôca”, fazer desaparecer e reaparecer de nôvo, com uma palavra. Com uma palavra o líder escolhido destrói o pano e com uma palavra o cria novamente. Sua liderança é confirmada. Derrota a deusa-mãe e com seu corpo cria o céu e a terra.
Qual o sentido dessa prova? Para que o deus masculino iguale a fôrça da deusa, necessita da qualidade que a faz superior - o poder de criar. A prova destina-se a confirmar que êle tem êsse poder, bem como o poder caracteristicamente masculino de destruir, a forma pela qual o homem tradicionalmente modificou a Natureza. Êle primeiro destrói, depois recria, um objeto material - mas o faz com sua palavra e não, como a mulher, com o seu ventre. A produtividade natural é substituída pela mágica do pensamento e dos processos verbais.
O mito da criação bíblico começa onde o mito babilônico termina. Quase todos os traços da supremacia da deusa já estão eliminados. A criação começa com a mágica de Deus, a mágica da criação pela palavra. Repete-se o tema da criação masculina, e, contràriamente à realidade, o homem não nasce da mulher, e sim a mulher é feita do homem.(Compara-se o mito grego de Atena nascendo da cabeça de Zeus, e a interpretação dêsse mito, bem como dos remanescentes da religião matriarcal na mitologia grega, feita por Bachofen e Otto) O mito bíblico é uma ode ao triunfo do homem, negando que as mulheres façam nascer os homens, e invertendo as relações naturais. Na maldição de Deus, temos novamente a afirmação da supremacia do homem. A função criadora da mulher é reconhecida, mas terá de ser exercida em sofrimento. O homem destina-se ao trabalho, ou seja, à produção, e assim substitui a produtividade original da mulher, mesmo que isso também tenha de ser feito com suor e lágrimas.
Examinamos, com alguma minúcia, o fenômeno dos remanescentes matriarcais na história da religião para ilustrar um ponto importante neste contexto - o fato de que a mulher tem a capacidade da produção natural que falta ao homem, estéril nesse nível. Em certos períodos da história essa superioridade da mulher é admitida conscientemente; em outros tôda a ênfase recai sôbre a produtividade mágica e técnica do homem. Não obstante, parece que inconscientemente, ainda hoje, essa diferença não perdeu totalmente o sentido; no recôndito do homem existe uma admiração pela mulher, por essa capacidade que falta a êle, e que inveja e teme. Em seu caráter há a necessidade de um esfôrço permanente de compensação dessa falta; e, no recôndito da mulher, há um sentimento de superioridade em relação ao homem, pela sua “esterilidade”.
Até agora, tratamos certas distinções de caráter entre homens e mulheres, resultantes de suas diferenças sexuais. Significa isso que os traços como a dependência excessiva, de um lado, e o anseio de prestígio e competição, de outro, sejam causados essencialmente pelas diferenças de sexo? Devem “o” homem e “a” mulher exibir êsses traços, de forma que, se tiverem traços característicos do outro sexo, isso se deva explicar pela presença de um componente homossexual?
Não admitimos essas conclusões. A diferença sexual influi na personalidade do homem e da mulher médios, e essa influência pode ser comparada à clave ou tom em que uma melodia é escrita, e não à própria melodia. Além disso, refere-se sómente ao homem e à mulher médios, e varia em cada pessoa.
Essas diferenças “naturais” fundem-se com as diferenças provocadas pela cultura específica em que vive a pessoa. Hoje, por exemplo, o anseio de prestígio e sucesso pelo homem tem muito menos relação com os papéis sexuais do que com os papéis sociais. A sociedade é organizada de modo que necessàriamente produz tais anseios, tenham êles ou não suas raízes em peculiaridades masculinas ou femininas específicas. O anseio de prestígio, que encontramos no homem moderno desde o fim da Idade Média, é condicionado principalmente pelo sistema social e econômico, e não por seu papel sexual. O mesmo ocorre em relação à dependência das mulheres. Ocorre que os padrões culturais e formas sociais podem criar tendências ideológicas que correm paralelas a tendências idênticas enraizadas em fontes totalmente outras, como as diferenças sexuais. Se tal fôr o caso, as tendências paralelas se fundem numa só, como se idênticas fôssem as suas fontes.
Os anseios de prestígio e dependência, embora produtos da cultura, determinam a totalidade da personalidade. A personalidade individual fica, assim, reduzida a um segmento da totalidade da gama das potencialidades humanas. Mas as diferenças de caráter, embora tenham raízes em diferenças naturais, não são dêsse tipo. A razão disso está no fato de que mais profunda do que a diferença é a igualdade dos sexos, o fato de que homens e mulheres são, acima de tudo, sêres humanos partilhando das mesmas potencialidades, dos mesmos desejos e mesmos temores. O que existe nêles de diverso, decorrente de diferenças naturais, não representa uma diferença fundamental. Dá às suas personalidades, fundamentalmente semelhantes, pequenas diferenças de ênfase numa ou noutra tendência, surgidas empiricamente como um colorido. As distinções provocadas pelas diferenças sexuais não constituem base para atribuir ao homem e à mulher papéis diferentes em nenhuma sociedade.
É evidente hoje que quaisquer diferenças existentes entre os sexos são relativamente insignificantes em relação às diferenças de caráter que encontramos entre pessoas do mesmo sexo.
As diferenças sexuais não influenciam a capacidade de fazer trabalhos de qualquer espécie. É certo que realizações extremamente diversas podem ser coloridas, em sua qualidade, pelas características sexuais - um sexo pode ser mais bem dotado para determinado tipo de trabalho -, mas o mesmo ocorre quando os extrovertidos são comparados aos introvertidos, ou os tipos pícnicos aos tipos astênicos. Seria um êrro fatal julgar as distinções sociais, econômicas e políticas segundo essas características.
Em comparação com as influências sociais gerais que formam os padrões masculinos ou femininos, é claro que as experiências individuais e, do ponto de vista social, acidentais são altamente significativas. Essas experiências pessoais, por sua vez, se fundem com os padrões culturais, reforçando - e por vêzes também reduzindo - seus efeitos. A influência dos fatôres sociais e pessoais excede em fôrça a dos fatôres “naturais” que examinamos aqui.
Constitui uma triste ilustração dos tempos a necessidade que experimentamos de assinalar que as diferenças provocadas pelo papel masculino ou feminino não se prestam a qualquer julgamento de valor, do ponto de vista social ou moral. Em si, não são boas nem más, desejáveis ou desagradáveis. O mesmo traço surgirá como uma característica positiva numa personalidade quando certas condições existirem, e como característica negativa noutra personalidade, sob condições diferentes. 
Assim, as formas negativas nas quais o temor masculino de falhar e sua necessidade de prestígio se podem manifestar são óbvias: vaidade, falta de seriedade, presunção, inconstância. Mas parece igualmente óbvio que os mesmos traços podem resultar em traços muito positivos: iniciativa, atividade, coragem. O mesmo se aplica às características femininas que descrevemos, e que podem resultar, como freqüentemente resultam, em sua incapacidade de “viver por si mesma” emocionalmente, pràticamente, intelectualmente. Mas que, em outras condições, podem fazer dela a fonte de paciência, intensidade de amor, encanto erótico, constância.
O resultado positivo ou negativo de uma ou outra característica depende da estrutura do caráter, como um todo, da pessoa em questão. Entre os fatôres de personalidade que levam a um resultado positivo ou negativo estão, por exemplo, a ansiedade e a autoconfiança, a inclinação a destruir ou a construir.
Mas não basta assinalar um ou dois dos traços mais isolados; sómente o todo da estrutura do caráter determina se uma das características masculinas ou femininas será um traço negativo ou positivo. Êsse princípio é idêntico ao que Klages introduziu em seu sistema grafológico. Qualquer traço isolado na escrita pode ter um sentido positivo ou negativo, de acôrdo com o que êle chama de forminiveau (nível da forma), da personalidade total. Se o caráter de uma pessoa pode ser considerado como “ordeiro”, isso pode significar uma de duas coisas: indica algo positivo, como seja, a pessoa não é desordenada, é capaz de organizar sua vida; ou indica algo negativo, ou seja, que a pessoa é pedante, estéril, sem iniciativa. Evidentemente, o traço de “ordeiro” está na raiz de ambas as conseqüências positivas ou negativas, mas o resultado é determinado por vários outros fatôres da personalidade total. Êstes, por sua vez, dependem das condições externas que tendem a restringir a vida ou a contribuir para um desenvolvimento generoso
 
(ERICH FROMM - O DOGMA DE CRISTO e Outros Ensaios Sôbre Religião, Psicologia e Cultura)

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Adultério

por Thynus, em 10.10.16
Em latim, adultério quer dizer alteração, adulteração, colocar uma coisa em lugar de outra, crime de falsidade, uso de chaves falsas, contrato falso. Daí o nome adultério dado a quem profana o leito conjugal, como chave falsa introduzida em fechadura alheia.
 
 
Os prazeres do adultério
I.
É improvável que consigamos apreender esse famigerado assunto se primeiro não nos permitirmos reconhecer o quanto o adultério pode ser tentador e estimulante, especialmente depois de alguns anos de casamento e vários filhos. Antes de começarmos a afirmar que é “errado”, temos de reconhecer o quanto ele pode ser profundamente excitante – pelo menos por algum tempo.
Portanto vamos imaginar mais uma situação. Nosso homem, Jim, está no escritório, entrevistando candidatos para um trabalho temporário de design gráfico. Ele já passou algumas horas entrevistando uma sucessão de jovens de cavanhaque, quando chega a candidata final. Seu nome é Rachel, tem 25 anos (ele tem quase 40 e está bastante consciente da morte) e está usando jeans, tênis e uma blusa verde-escuro com decote em V sobre, aparentemente, não muita coisa mais, provocando a imaginação em torno da andrógina parte superior de seu corpo. Eles falam sobre custos de impressão, margens, gramatura de papel e fontes – mas, claro, os pensamentos de Jim estão longe. Teríamos de temer pelo estado mental de um homem que não reagisse a essa figura de juventude, saúde e energia.
Rachel não tem nem um pouco da arrogância das supermodelos, do ressentimento contra a aparência que a beleza às vezes cria em mulheres jovens, ambiciosas e inteligentes que se ofendem com o fato de a maior parte do mundo estar mais interessada no seu físico do que em suas ideias. Ela tem o entusiasmo inocente e ingênuo de uma pessoa que foi criada numa fazenda distante, por pais amorosos e idosos, que nunca assistiu à televisão ou frequentou o ensino médio.
Descrever o que Jim quer como “sexo” é realmente reduzir as raízes de sua empolgação. O antigo sinônimo para sexo geralmente se aplica nesse caso, pois, em essência, Rachel está provocando em Jim o desejo de conhecê-la. Conhecer suas coxas, seus tornozelos e seu pescoço, naturalmente, mas também o guarda-roupa, os livros que ela tem na estante, o cheiro de seu cabelo depois do banho, seu temperamento quando era uma garotinha e as confidências que ela troca com as amigas.
Nessa ocasião, como em poucas outras na vida de Jim, o destino dá uma reviravolta incomum. Vários meses após o fim do projeto de Rachel com sua empresa, ele é convidado a ir a Bristol para participar de uma cerimônia de premiação no Holiday Inn, fora do perímetro do M4, com um de seus clientes – e descobre no saguão verde-limão, no início da noite, que Rachel também está lá. Ela já o esqueceu completamente, mas, após umas poucas dicas, retoma a habitual efusividade, e rapidamente aceita sua sugestão para que se encontrem no bar após a cerimônia. Como um assassino de primeira viagem, que intuitivamente sabe como distribuir as pedras no saco que contém o corpo, Jim manda um e-mail para sua esposa desejando boa-noite a ela e seus dois filhos e especificando que talvez não ligue para ela mais tarde – como geralmente faz nessas circunstâncias – porque a noite ameaça se prolongar.
Eles tomam uma taça de vinho no bar vazio por volta da meia-noite. Seu flerte é preciso e direto ao ponto. Sua audácia de homem de meia-idade, casado, tentando seduzir mulheres não deve ser confundida com confiança: é apenas o medo da morte, uma aterrorizada consciência dos poucos momentos como esse que ele terá oportunidade de experimentar novamente. É isso que dá a Jim a energia para prosseguir de maneiras que ele jamais ousaria fazer quando a vida parecia ter uma extensão ilimitada em que ele ainda podia se dar ao luxo de se sentir tímido e inseguro.
Eles trocam o primeiro beijo no corredor que conduz aos elevadores. Ele a pressiona contra a parede ao lado de um cartaz que anuncia uma taxa promocional para hospedagem familiar, com café da manhã grátis para as crianças no domingo. A língua dela acolhe a dele ansiosamente e seu corpo empurra ritmicamente o dele. Este logo se torna um dos melhores momentos da vida de Jim.
 
2.
Ele volta para casa e tudo continua como antes. Ele e Daisy colocam as crianças na cama, saem para jantar, discutem a necessidade de comprar um fogão novo, brigam e não fazem muito sexo.
Jim, é claro, mente sobre tudo que aconteceu. Vivemos numa época moralista. Nossa era permite que muitas coisas aconteçam antes do casamento; mas não aceita muito depois dele. Os jornais trazem uma sucessão de histórias sobre indiscrições sexuais de jogadores de futebol e políticos, e o tom dos comentários dos leitores mostra o tipo de reação que o deslize de Jim provocaria no cidadão comum. Ele seria rotulado de traidor, desprezível, cachorro e rato.
Esses rótulos são assustadores para Jim, mas ao mesmo tempo ele se pergunta se deveria sucumbir a esses moralismos fáceis. Vamos acompanhá-lo em seu ceticismo. Ao menos consideremos a ideia de que o que Jim fez com Rachel não foi exatamente errado. Na verdade, vamos mais fundo, sugerindo que – contrariamente à opinião pública – o verdadeiro erro está em outra parte: estranho seria não ter nenhum desejo de cometer adultério. Isso poderia ser considerado não apenas estranho, mas errado no sentido mais profundo da palavra, pois é irracional e contra a natureza. A completa recusa das possibilidades adúlteras representa um tremendo fracasso da imaginação, uma corrompida imperturbabilidade diante do espaço de tempo tragicamente curto que nos foi concedido sobre a terra, uma negligente consideração pela gloriosa realidade da nossa natureza, uma negação do poder que devem ter sobre o nosso ser racional gatilhos eróticos como o sedutor enlaçar de dedos durante encontros e o dissimulado pressionar de joelhos ao fim de refeições no restaurante, pelos sapatos altos e camisas azuis, por lingeries de algodão cinza e cuecas de lycra, por coxas macias e panturrilhas musculosas – pontos sensoriais tão dignos de reverência quanto os ladrilhos de Alhambra e a Missa em Si menor, de Bach. Será possível confiar em alguém que sinceramente não tenha mostrado nenhum interesse em ser infiel?
 
3.
A sociedade acredita que as pessoas casadas que descobrem que seus parceiros têm um caso têm todo o direito de ficar furiosas, de expulsá-los de casa, de cortar suas roupas e massacrar sua reputação ante os amigos. O adultério é motivo para que uma pessoa se sinta indignada e ultrajada e que o traidor precise pedir desculpas de formas extremas por suas horríveis ações.
Mas podemos propor que, por mais magoado que alguém esteja, a fúria diante da notícia da infidelidade do parceiro não é, realmente, garantida. O fato de o cônjuge ter a temeridade de imaginar, que dirá pôr em prática, que talvez fosse interessante enfiar a mão dentro de calças ou saias desconhecidas não deve ser tão surpreendente assim após uma década ou mais de casamento. Deveria mesmo haver a necessidade de pedir desculpas por um desejo que não poderia ser mais compreensível ou comum?
Ao invés de pedir que o “traidor” se desculpe, o “traído” deveria começar a pedir desculpas – desculpas por serem quem são, desculpas por envelhecerem, desculpas por às vezes serem entediantes, por forçarem o “traidor” a mentir porque a barreira da confiabilidade foi colocada proibitivamente alta e (já que entramos no assunto) por serem humanos. Com muita facilidade parece que o parceiro adúltero fez tudo errado, e o sexualmente puro não fez nada. Mas este é um entendimento restrito do que “errado” significa. Certamente o adultério vira manchete, mas há maneiras menores, embora não menos poderosas, de trair uma pessoa, por exemplo, não conversando com ela o bastante, parecendo distraído, ficando de mau humor – ou apenas deixando de evoluir e encantar.
 
4.
A pessoa que fica brava por ter sido “traída” está fugindo de uma verdade básica e trágica: não podemos ser tudo para outra pessoa. Mas, em vez de aceitar este pensamento horrível com honrada graça e melancolia, ela pode ser encorajada a acusar o “traidor” de estar moralmente em erro por encontrar falhas nela. No entanto o problema do adultério está nas loucas ambições do casamento moderno, com sua insana ideia de que uma pessoa poderia esperar, plausivelmente, oferecer uma solução sexual e emocional eterna para a vida de alguém.
Dando um passo atrás, o que torna o casamento moderno diferente de seus precedentes históricos é seu princípio fundamental de unir amor, sexo e família durante toda uma vida com uma mesma pessoa. Nenhuma outra sociedade foi tão rigorosa, tão esperançosa – e portanto tão desapontada – com o casamento.
No passado, essas três necessidades distintas – amor, sexo e família – eram sabiamente diferenciadas e separadas umas das outras. Os trovadores da Provença do século XII eram especialistas no amor romântico. Eram versados na dor inspirada pela visão de uma figura graciosa, na insônia ante a perspectiva de um encontro, no poder de umas poucas palavras ou olhares para provocar um elevado estado de espírito. Mas esses cortesãos não expressaram nenhum desejo de associar essas valorizadas emoções a intenções paralelas práticas, como criar uma família ou mesmo dormir com aqueles a quem amavam ardentemente.
Os libertinos da Paris do princípio do século XVIII eram comparavelmente devotados ao sexo: eles reverenciavam o prazer de desabotoar as vestes de uma pessoa pela primeira vez, a excitação de explorarem-se uns aos outros lentamente à luz de velas, a emoção subversiva de seduzir alguém secretamente durante uma missa. Mas esses aventureiros eróticos também compreendiam que seus prazeres pouco tinham a ver com o estabelecimento de um ambiente para o amor e a criação de uma casa cheia de filhos.
Quanto ao impulso de criar uma família, este projeto é conhecido da maior parte da humanidade desde os nossos primórdios na África Oriental. No entanto, em todo esse tempo, ele muito raramente levou as pessoas a pensar que precisaria estar associado a um constante desejo sexual ou a frequentes sensações de desejo romântico ante a visão do outro pai à mesa do café da manhã.
A independência, se não a incompatibilidade, de nossos lados sexuais, românticos e familiares foi considerada um aspecto natural e universal da vida adulta até que, na metade do século XVIII, nos países mais prósperos da Europa, um novo e excepcional ideal começou a se formar num segmento particular da sociedade. Esse ideal propunha que as pessoas casadas deveriam, daí para a frente, não apenas se tolerarem umas às outras pelo bem dos filhos; elas também deveriam se amar e desejar. Deveriam manifestar em seus relacionamentos o mesmo tipo de energia romântica dos trovadores e o mesmo entusiasmo sexual dos libertinos. O novo ideal colocou assim diante do mundo a persuasiva noção de que nossas necessidades seriam resolvidas de uma só vez, com a ajuda de uma só pessoa.
Não foi por coincidência que o novo ideal de casamento foi opressivamente criado e sustentado por uma classe econômica específica: os burgueses, cujo equilíbrio entre liberdade e restrição ele estranhamente espelhou. Numa economia que se expandia rapidamente graças a desenvolvimentos tecnológicos e comerciais, essa classe recentemente encorajada já não precisava aceitar as restritas expectativas das ordens inferiores. Com algum dinheiro sobrando para lhes prover relaxamento, advogados e mercadores burgueses poderiam elevar suas expectativas e esperar mais de uma parceira do que apenas alguém com quem sobreviver ao próximo inverno. Ao mesmo tempo, seus recursos não eram ilimitados. Não tinham o ilimitado lazer dos trovadores, cuja riqueza herdada lhes permitia passar, sem dificuldade, três semanas escrevendo uma carta celebrando a testa de suas amadas. Havia negócios e armazéns a administrar. A burguesia também não podia se permitir a arrogância social dos libertinos aristocráticos, cujo poder e status haviam criado neles uma confiança indiferente para partir o coração das pessoas e abalar suas famílias – bem como os meios para enxugar quaisquer consequências desagradáveis que suas excentricidades pudessem criar.
A burguesia, portanto, não estava nem esmagada demais a ponto de não acreditar no amor romântico nem isenta de necessidades para ser capaz de perseguir, sem limite, os envolvimentos eróticos e emocionais. O desejo de realização por meio do investimento em uma única pessoa em um contrato legal e eterno representava uma solução frágil para o equilíbrio entre necessidade emocional e restrição prática.
O ideal burgês produziu uma série de comportamentos-tabu que anteriormente teriam sido tolerados, se é que não completamente ignorados ou, pelo menos, não vistos como causa da destruição de um casamento ou de uma família. Uma amizade mórbida entre a esposa, o adultério ou a impotência – todos agora ganharam uma importância nova e de grande significado. A ideia de começar um casamento sem amor ou indiferente era tão ridícula para um burguês quanto o conceito de não ter amantes fora do casamento seria para um libertino.
O progresso da ambição romântica burguesa pode ser identificado na ficção. Os romances de Jane Austen ainda parecem reconhecidamente modernos porque suas aspirações para seus personagens espelham, e ajudaram a moldar, aquelas que nós mesmos temos. Como Elizabeth Bennet em Orgulho e preconceito ou Fanny Price em Mansfield Park, também ansiamos por conciliar nosso desejo de ter uma família segura com sentimentos sinceros por nossos cônjuges. Mas a história do romance também aponta para aspectos mais sombrios do ideal romântico. Os sem dúvidas dois maiores romances da Europa do século XIX, Madame Bovary e Anna Karenina, nos confrontam com duas mulheres que, como era típico de sua época e de suas posições sociais, anseiam por um complexo conjunto de qualidades em seus parceiros: elas querem que eles sejam ao mesmo tempo maridos, trovadores e libertinos. Mas no caso tanto de Emma quanto no de Anna, a vida lhes dá apenas o primeiro dos três. Elas estão presas em casamentos economicamente seguros e sem amor que, em épocas anteriores, seriam motivo de inveja e comemoração, mas que agora parece intolerável. Ao mesmo tempo, elas habitam um mundo burguês que não pode aprovar suas tentativas de ter relacionamentos amorosos fora do casamento. O suicídio final de ambas ilustra a irreconciliável natureza do novo modelo de amor.
 
5.
O ideal burguês não é totalmente uma ilusão. Existem, claro, casamentos que juntam as três vertentes de ouro da realização – romântica, erótica e familiar – e que jamais serão abalados pelo adultério. Não podemos dizer, como os cínicos às vezes se veem tentados a fazer, que casamento feliz é um mito. É infinitamente mais angustiante que isso: é uma possibilidade, só que muito, muito rara. Não há uma razão metafísica pela qual um casamento não possa honrar todas as nossas esperanças, só que as probabilidades estão esmagadoramente contra nós. Uma verdade trágica que deveríamos enfrentar calmamente, antes que a vida nos ensine do seu jeito brutal e a seu tempo.
 
 
A estupidez do adultério
I.
Mas vamos mudar de lado novamente: se considerar o casamento a resposta perfeita a todas as nossas esperanças de amor, sexo e família é ingênuo e equivocado, considerar o adultério uma resposta às frustrações do casamento o é tanto quanto.
O que está essencialmente “errado” na ideia de adultério, assim como com certa ideia de casamento, é seu idealismo. Embora possa parecer à primeira vista uma atividade cínica e desanimadora com a qual se envolver, o adultério na verdade sugere uma convicção que talvez possamos reorganizar magicamente as deficiências do casamento com uma aventura paralela. No entanto, dar crédito a essa noção é não entender as condições que a vida impõe sobre nós. É impossível dormir com alguém fora do casamento sem estragar as coisas que se valorizam dentro dele – assim como é impossível manter a fidelidade no casamento e não perder alguns dos maiores e mais importantes prazeres sensoriais ao longo do caminho.
 
2.
Não existe uma resposta para as tensões do casamento, se com “resposta” queremos implicar um acordo no qual não haja perda, e no qual todo elemento positivo importante para nós puder coexistir com todos os outros sem se prejudicarem.
As três coisas que queremos nesta esfera – amor, sexo e família – prejudicam-se e afetam-se umas às outras de maneiras diabólicas. Amar uma pessoa põe em risco nossa capacidade de fazer sexo com ele ou ela. Ter um encontro secreto com uma pessoa a quem não amamos, mas que consideramos atraente, põe em risco o relacionamento com a pessoa que amamos, mas que já não nos excita. Ter filhos põe em risco tanto o amor quanto o sexo e, no entanto, negligenciar as crianças para nos concentrarmos em nosso relacionamento e nossas emoções sexuais significa colocar em risco a saúde e a estabilidade mental da próxima geração.
A frustração gera, periodicamente, o impulso de buscar uma solução utópica para essa confusão. Talvez um casamento aberto funcione, pensamos. Ou uma política de segredos. Ou uma renegociação anual de nosso contrato. Ou mais tempo de creche. Tudo isso está fadado a fracassar, porque a perda está inscrita nas regras da situação. Se dormirmos com outras pessoas, ameaçaremos nosso amor e a saúde psicológica de nossos filhos. Se não fizemos isso, ficaremos insípidos e perderemos as excitações de novos relacionamentos. Se mantivermos um caso em segredo, ele nos corroerá por dentro e tolherá nossa capacidade de receber o amor do outro. Se contarmos a verdade, nosso parceiro entrará em pânico e jamais conseguirá superar nossas aventuras sexuais (mesmo que elas nada signifiquem para nós). Se concentrarmos tudo em nossos filhos, eles acabarão por seguir suas próprias vidas, deixando-nos infelizes e solitários. Mas se ignorarmos nossos filhos por causa de buscas românticas enquanto casal, os marcaremos, e eles se ressentirão para sempre. Como um lençol curto, ao buscarmos aperfeiçoar ou melhorar um lado de nossa vida conjugal, apenas descobriremos e atrapalharemos todos os outros.
 
3.
Ao entrar em um casamento, qual deveria ser a mentalidade realista de uma pessoa? Que votos poderíamos fazer ao parceiro que permitiria uma chance sincera de fidelidade? Certamente, algo bem mais cauteloso e pessimista do que as usuais platitudes, por exemplo: “Eu prometo me desapontar com você, e somente com você. Prometo fazer de você o único recipiente do meu arrependimento, em vez de experimentar os arrependimentos que acompanhariam os múltiplos casos e uma vida de Don Juan. Investiguei as diferentes opções de infelicidade, e foi com você que decidi me comprometer.” Estas seriam as generosas e delicadas promessas não românticas que os casais deveriam fazer uns aos outros no altar.
Consequentemente, um caso extraconjugal seria uma traição não da esperança irrealista, mas de nossos votos de nos decepcionarmos de uma determinada maneira. O parceiro traído não se queixaria, furiosamente, de que esperava que o outro fosse feliz com ele ou ela por si. Ele poderia, mais pungente e legitimamente, chorar: “Eu esperava que você fosse fiel ao tipo específico de desapontamento que eu represento.”
 
4.
Quando a ideia de um casamento baseado em amor emergiu no século XVIII, ela substituiu uma razão mais prosaica e mais antiga para o noivado: que uma pessoa deveria se casar porque tinha chegado à idade certa para isso, porque tinha identificado alguém cuja visão ela poderia suportar, porque não queria ofender seus pais e vizinhos, porque tinha alguns bens a proteger e porque desejava criar uma família.
De acordo com a nova filosofia do casamento, no entanto, somente uma razão para o casamento era considerada legítima: amor profundo. Entendia-se que essa condição implicava uma variedade de sentimentos e sensações obscuras, mas totêmicas – que a pessoa não suportaria ficar longe da vista da amada, que seria fisicamente atraída por sua aparência, que estaria afinada com cada movimento de sua mente, que desejaria ler poesia com ela ao luar, e que estaria pronta para fundir sua alma com a dela.
Em outras palavras, o casamento deixou de ser uma instituição para se tornar a consagração de um sentimento; passou de rito de passagem sancionado externamente para se tornar uma resposta internamente motivada a um estado emocional.
O que justificava a mudança, aos olhos de seus modernos defensores, era um novo e intenso medo da “inautenticidade”, um fenômeno psicológico no qual os sentimentos internos de uma pessoa diferiam dos que eram esperados dele ou dela pelo mundo exterior. O que a antiga escola chamaria respeitosamente de “encenação” foi agora recategorizado como “mentira” – enquanto “fingir que as coisas eram civilizadas” foi agora mais melodramaticamente recaracterizado como “trair a si mesmo”. Esta ênfase em alcançar a congruência entre o eu interno e o externo criou qualificações novas e rígidas do que um casamento decente deveria implicar. Sentir apenas uma afeição intermitente pelo companheiro, fazer um sexo medíocre seis vezes ao ano, manter um casamento pelo bem-estar dos filhos – tais compromissos eram considerados abdicações do fato de se ser completamente humano.
 
5.
Quando jovens adultos, a maioria de nós tem um respeito intuitivo pela visão de um casamento baseado no amor. Dificilmente conseguiremos evitar isso, dada nossa cultura voltada para ele, e, no entanto, com os anos, uma pessoa normalmente começa a questionar se esta não é uma fantasia sonhada por um grupo de autores e poetas ingênuos e imaturos, algumas centenas de anos atrás – e se não se deveria dar lugar àquela antiga visão de instituição que serviu muito bem à humanidade durante a maior parte de sua história.
Esta reavaliação baseia-se na percepção de quanto nossos sentimentos podem ser caóticos e enganadores. Podemos, por exemplo, ver um rosto atraente quando atravessamos a rua e querer mudar a vida de ponta-cabeça. Quando uma pessoa tentadora com quem conversamos eroticamente num chat na internet sugere um encontro num hotel de aeroporto, podemos nos sentir tentados a mandar nossa vida pelos ares em troca de algumas horas de prazer. Há momentos em que nos sentimos tão irritados com nosso parceiro que gostaríamos de vê-lo atropelado por um carro. Mas dez minutos depois, lembramos que preferiríamos morrer a ficar sozinho. Durante o tédio dos fins de semana, podemos ficar desesperados para que nossos filhos cresçam, percam a vontade de pular do trampolim e nos deixem em paz para sempre para que possamos ler uma revista e curtir uma sala de estar arrumada – e então, um dia depois, no escritório, queremos gritar de angústia porque uma reunião parece que vai demorar mais do que o previsto e não poderemos botá-los na cama.
Os defensores da visão do casamento baseado no sentimento veneram as emoções por sua sinceridade e autenticidade, mas só conseguem fazer isso porque deixaram de olhar atentamente para o que efetivamente passa pelo caleidoscópio emocional da maioria dos seres humanos de qualquer época: todas as forças contraditórias, insanas, sentimentais e hormonais que nos puxam para centenas de direções enlouquecidas e inconclusivas. Honrar cada uma dessas emoções seria anular qualquer chance de uma vida coerente. Não poderíamos nos sentir realizados se não fôssemos inautênticos em parte do tempo, ou talvez em grande parte dele – inautênticos em relação a um desejo passageiro de esganar os filhos, de envenenar a esposa ou de terminar o casamento por causa de uma discussão sobre a troca de uma lâmpada.
O romantismo chamou a atenção para os perigos da inautenticidade, porém os perigos não serão menores se tentarmos sempre alinhar nossa vida externa com nossas emoções. Damos aos nossos sentimentos um peso grande demais quando queremos que eles sejam nossos guias nos importantes projetos de nossa vida. Somos proposições químicas caóticas, em urgente necessidade de princípios básicos aos quais possamos nos referir durante nossos breves períodos racionais. Deveríamos nos sentir agradecidos e seguros pelo conhecimento de nossas circunstâncias externas estarem frequentemente desalinhadas com o que sentimos; é sinal de que provavelmente estamos no rumo certo.
 
6.
Podemos acolher o casamento como uma instituição que resiste, a cada dia, sem parecer ter muito respeito pelo que seus participantes estão sentindo. Essa benigna negligência pode refletir melhor os desejos de longo prazo de seus participantes do que um sistema que a cada hora toma seu pulso emocional e ajusta sua condição em conformidade com ele.
O casamento também é melhor para as crianças. Ele as poupa da ansiedade diante das consequências das discussões de seus pais: podem tomar como certo que seus pais gostam suficientemente um do outro mesmo brigando e lutando todos os dias, como as crianças fazem no parquinho.
Em um casamento considerado bom, os dois cônjuges não deveriam se culpar por suas infidelidades; deveriam se sentir orgulhosos, essencialmente, por terem conseguido permanecer comprometidos com sua união. Os relacionamentos frequentemente começam com uma ênfase moral no lugar errado, como se a ânsia de se afastar fosse repugnante e impensável. Mas, na realidade, o que é maravilhoso e digno de honra é a habilidade de ficar, e, no entanto, isso geralmente é tomado como certo, como o estado normal das coisas. Assistir à vida passar de dentro da gaiola do casamento sem pôr em prática os impulsos sexuais é um milagre da civilização e da bondade, algo pelo qual ambos deveriam agradecer todos os dias.
Os casais fiéis deveriam reconhecer o tamanho do sacrifício que estão fazendo pelo amor e pelos filhos – e deveriam poder sentir orgulho de seu valor. Não há nada de normal ou particularmente agradável na renúncia sexual. A fidelidade merece ser considerada uma façanha e ser constantemente elogiada – de preferência com algumas medalhas e aclamação pública, em vez de ser considerada uma regra corriqueira, que deixaria o outro enraivecido se alguma vez fosse quebrada por um caso. Um casamento leal deveria sempre manter dentro de si a consciência da imensa paciência e generosidade que as duas partes estão mostrando uma à outra ao conseguirem não dormir por aí (e, aliás, ao evitarem de matar uma à outra). Elas não deveriam se enfurecer ao descobrirem um adultério, mas se sentirem admiradas e abençoadas pelos períodos de fidelidade e calma que, contra todas as probabilidades, conseguiram manter em outras ocasiões.
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(Alain de Botton - Como pensar mais sobre sexo)

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