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Ascetismo e santidade cristãos

por Thynus, em 03.09.16
— Quanto mais certos pensadores se empenharam em ver nesses raros fenômenos da moralidade que se costuma chamar de ascetismo e santidade uma coisa milagrosa, ante a qual seria quase sacrilégio e profanação manter o lume de uma explicação racional, tanto mais forte é a tentação desse sacrilégio. Em todos os tempos, um poderoso impulso da natureza levou a protestar contra esses fenômenos; a ciência, na medida em que é, como foi dito, imitação da natureza, permite-se ao menos levantar objeção à pretendida inexplicabilidade e mesmo inacessibilidade desses fenômenos. Sem dúvida, até agora ela não teve sucesso: eles permanecem inexplicados, para grande prazer dos mencionados adoradores do moralmente milagroso. Pois, expresso em termos gerais: o inexplicado deve ser totalmente inexplicável; o inexplicável, totalmente antinatural, sobrenatural, miraculoso — assim reza a exigência da alma de todos os religiosos e metafísicos (dos artistas também, quando são ao mesmo tempo pensadores); enquanto o homem científico vê nessa exigência o "mau princípio". — A primeira probabilidade geral a que se chega, ao examinar a santidade e a ascese, é a de que sua natureza é complexa: pois em quase toda parte, tanto no mundo físico como no moral, houve sucesso em reduzir o pretensamente miraculoso ao complexo e multiplamente condicionado. Ousemos, portanto, isolar inicialmente alguns impulsos da alma dos santos e ascetas, e por fim imaginá-los intimamente entrelaçados.
*
 Existe um desafio de si mesmo, cujas expressões mais sublimadas incluem várias formas de ascese. Alguns homens têm uma necessidade tão grande de exercer seu poder e sua ânsia de domínio que, na falta de outros objetos, ou porque de outro modo sempre falharam, recorrem afinal à tiranização de partes de seu próprio ser, como que segmentos ou estágios de si mesmos. Assim, alguns pensadores defendem pontos de vista que claramente não servem para aumentar ou melhorar sua reputação; alguns chamam expressamente para si o desprezo alheio, quando lhes seria mais fácil, guardando o silêncio, permanecerem respeitados; outros renegam suas antigas opiniões e não temem ser chamados de inconseqüentes; ao contrário, empenham-se nisso e comportam-se como animosos cavaleiros, que amam o cavalo sobretudo quando ele se torna bravo, arisco e está coberto de suor. É assim que o homem escala por vias perigosas as mais altas cordilheiras, para rir de seu próprio medo e de seus joelhos trêmulos; é assim que o filósofo defende idéias de ascese, humildade e santidade, cujo brilho faz sua própria imagem parecer terrivelmente feia. Esse despedaçar de si mesmo, esse escárnio de sua própria natureza, esse spernere si sperni [responder ao desprezo com o desprezo],62 a que as religiões deram tamanha importância, é na verdade um grau bastante elevado da vaidade. Toda a moral do Sermão da Montanha está relacionada a isto: o homem tem autêntica volúpia em se violentar por meio de exigências excessivas, e depois endeusar em sua alma esse algo tirânico. Em toda moral ascética o homem venera uma parte de si como Deus, e para isso necessita demonizar a parte restante.
*
 O homem não é igualmente moral em todas as horas, isso é sabido: julgando sua moralidade segundo a capacidade de grandes decisões de sacrifício e abnegação (que, tornando-se duradoura e habitual, é santidade), então é no afeto que ele é mais moral; a excitação forte lhe oferece motivos inteiramente novos, dos quais ele, estando frio e sóbrio como de costume, talvez não acreditasse ser capaz. Como ocorre isso? Provavelmente devido à vizinhança de tudo o que é grande e que excita fortemente; levado a uma tensão extraordinária, o homem pode se decidir tanto por uma vingança terrível quanto por uma terrível refração63 de sua necessidade de vingança. Sob a influência da emoção violenta, ele quer de todo modo o que é grande, poderoso, monstruoso, e se por acaso ele nota que o sacrifício de si mesmo o satisfaz tanto ou ainda mais que o sacrifício do outro, escolhe aquele. O que realmente lhe importa, portanto, é a descarga de sua emoção; para aliviar sua tensão, pode juntar as lanças dos inimigos e enterrá-las no próprio peito. Que haja grandeza na negação de si mesmo, e não apenas na vingança, é algo que deve ter sido inculcado na humanidade por um longo período; uma divindade que sacrifica a si mesma foi o símbolo mais forte e mais eficaz dessa espécie de grandeza. Como a vitória sobre o inimigo mais difícil de vencer, a dominação repentina de um afeto — é assim que aparece essa negação; e nisso é tida como o ápice da moral. O que sucede, na verdade, é a substituição de uma idéia pela outra, enquanto o ânimo mantém sua mesma altura, seu mesmo nível. Estando novamente sóbrios, recuperados do afeto, os homens não mais compreendem a moralidade daqueles momentos, mas a admiração de todos aqueles que também os viveram os sustenta; o orgulho é seu consolo, quando o afeto e a compreensão de seu ato se debilitam. Ou seja: no fundo, tampouco são morais aqueles atos de abnegação, na medida em que não são feitos estritamente pelos outros; ocorre, isto sim, que o outro dá ao ânimo em alta tensão apenas uma oportunidade de se aliviar através da abnegação.
*
Em muitos aspectos, também o asceta procura tornar leve a sua vida, geralmente por meio da completa subordinação a uma vontade alheia, ou a uma lei e um ritual abrangentes; mais ou menos como um brâmane não deixa nada à sua própria determinação e a cada minuto é guiado por um preceito sagrado. Esta subordinação é um meio poderoso para se tornar senhor de si mesmo; o indivíduo está ocupado, portanto não se entedia, e não experimenta qualquer estímulo da vontade e da paixão; após a ação realizada, não há sentimento de responsabilidade, nem a tortura do arrependimento. De uma vez por todas se renunciou à própria vontade, e isso é mais fácil do que renunciar ocasionalmente; assim como é mais fácil renunciar de todo a um desejo do que mantê-lo moderado. Se nos lembrarmos da posição atual do homem em relação ao Estado, achamos aí também que a obediência incondicional é mais cômoda que a condicionada. Logo, o santo facilita a própria vida pelo completo abandono da personalidade, e é um engano admirar nesse fenômeno o supremo heroísmo da moralidade. Em todo caso, é mais difícil afirmar a personalidade sem hesitação e sem obscuridade do que dela se libertar de tal modo; além disso, requer muito mais espírito e reflexão.
*
Depois que encontrei, em muitas das ações mais difíceis de explicar, expressões daquele prazer na emoção em si, gostaria de reconhecer também no autodesprezo, que se inclui entre as características da santidade, e igualmente nos atos de tortura de si mesmo (jejum e açoitamento, deslocação dos membros, simulação da loucura), um meio pelo qual essas naturezas lutam contra a fadiga geral de sua vontade de viver (de seus nervos): elas se servem dos estímulos e crueldades mais dolorosos, para ao menos temporariamente emergir do torpor e do tédio em que sua grande indolência espiritual e a mencionada subordinação a uma vontade alheia as fazem cair com tanta freqüência.
*
O meio mais comumente empregado pelo santo e asceta, para tornar a própria vida ainda suportável e interessante, consiste na guerra ocasional e na alternância de vitória e derrota. Para isso precisa de um adversário, e o encontra no chamado "inimigo interior". Pois ele utiliza sua própria tendência à vaidade, a sede de glória e domínio, e também seus apetites sensuais, para poder considerar sua vida uma contínua batalha e a si mesmo um campo de batalha, no qual lutam, com êxito variado, bons e maus espíritos. Sabe-se que a fantasia sensual é moderada ou quase suprimida pela regularidade das relações sexuais, e inversamente se torna desenfreada e dissoluta com a abstinência ou a desordem nessas relações. A fantasia de muitos santos cristãos foi incomumente obscena; graças à teoria de que esses apetites eram verdadeiros demônios que lhes assolavam o íntimo, não se sentiam muito responsáveis por eles; a este sentimento devemos a franqueza tão instrutiva de suas confissões. Era de seu interesse que tal luta sempre fosse entretida em algum nível, pois era ela, como disse, que entretinha suas vidas desoladas. Mas, a fim de que a luta parecesse importante o bastante para suscitar nos não-santos uma simpatia e uma admiração permanentes, a sensualidade teve de ser cada vez mais difamada e estigmatizada, e mesmo o perigo de uma danação eterna foi ligado tão estreitamente a essas coisas, que é bem provável que durante épocas inteiras os cristãos tenham gerado filhos de má consciência; o que certamente fez um grande mal à humanidade. E, no entanto, aqui a verdade está de cabeça para baixo: o que para ela é especialmente indecoroso. Sem dúvida o cristianismo afirmou que todo homem é concebido e gerado em pecado, e no insuportável cristianismo superlativo de Calderón essa idéia foi mais uma vez atada e entrançada, de modo que ele ousou o mais estapafúrdio paradoxo nestes versos conhecidos:

    a maior culpa do homem
    é a de ter nascido
64
O cristianismo reduziu a moralidade à moralidade sexual
Em todas as religiões pessimistas, o ato da procriação é experimentado como ruim em si, mas esse não é de modo algum um sentimento universal humano, e nem o juízo de todos os pessimistas é igual neste ponto. Empédocles, por exemplo, nada conhece de vergonhoso, diabólico ou pecaminoso nas coisas eróticas; ele vê, no grande prado do infortúnio, uma única aparição que traz salvação e esperança: Afrodite; esta é, para ele, a garantia de que a discórdia não dominará eternamente, mas um dia entregará o cetro a um demônio mais suave. Os pessimistas cristãos praticantes tinham, como afirmei, interesse em que outra opinião predominasse; para a solidão e o deserto espiritual de suas vidas precisavam de um inimigo sempre vivo; e também reconhecido por todos, de modo que, combatendo e vencendo-o, eles continuamente se apresentassem aos não-santos como seres um tanto incompreensíveis, sobrenaturais. Quando afinal, em conseqüência de seu modo de vida e de sua saúde destruída, esse inimigo fugiu para sempre, eles imediatamente souberam ver seu íntimo povoado por novos demônios. A subida e a descida dos pratos da balança, Orgulho e Humildade, entretinha suas cabeças ruminadoras tanto quanto a alternância de desejo e serenidade. Naquele tempo a psicologia servia não só para tornar suspeito tudo o que é humano, mas também para difamá-lo, açoitá-lo, crucificá-lo; as pessoas queriam se achar tão más e perversas quanto possível, procuravam o temor pela salvação da alma, o desespero em relação à própria força. Toda coisa natural a que o homem associa a idéia de mau, de pecaminoso (como até hoje costuma fazer em relação ao erótico, por exemplo), incomoda, obscurece a imaginação, dá um olhar medroso, faz o homem brigar consigo mesmo e o torna inseguro e desconfiado; até os seus sonhos adquirem um ressaibo de consciência atormentada. No entanto, esse sofrimento pelo que é natural é, na realidade das coisas, totalmente infundado: é apenas conseqüência de opiniões acerca das coisas. É fácil ver como os homens se tornam piores por qualificarem de mau o que é inevitavelmente natural e depois o sentirem sempre como tal. É artifício da religião, e dos metafísicos que querem o homem mau e pecador por natureza, suspeitar-lhe a natureza e assim torná-lo ele mesmo ruim: pois assim ele aprende a se perceber como ruim, já que não pode se despir do hábito da natureza. Aos poucos, no curso de uma longa vida no interior do natural, ele se sente tão oprimido por esse fardo de pecados, que são necessários poderes sobrenaturais para lhe tirar esse fardo; e com isto surge em cena a já referida necessidade de redenção, que não corresponde em absoluto a uma pecaminosidade real, e sim a uma imaginária. Examinando uma a uma as teses morais dos documentos do cristianismo, veremos que os requisitos são exagerados, de modo que o homem não possa satisfazê-los; a intenção não é que ele se torne mais moral, mas que se sinta o mais possível pecador. Se este sentimento não tivesse sido agradável ao homem — para que teria produzido ele tal noção e aderido a ela por tanto tempo? Assim como no mundo antigo foi empregada uma incomensurável força de espírito e engenho para aumentar a alegria de viver mediante cultos festivos, no tempo do cristianismo um incomensurável montante de espírito foi sacrificado em outra aspiração: de toda maneira o homem deveria se sentir pecador e com isso ser estimulado, vivificado, animado. Estimular, vivificar, animar a qualquer preço — não é esta a divisa de uma época amolecida, demasiado madura e cultivada? O ciclo de todas as sensações naturais fora percorrido uma centena de vezes, a alma se fatigara com isso; então o santo e o asceta inventaram um novo gênero de estímulos para a vida. Expunham-se ao olhar de todos, não propriamente para que muitos os imitassem, mas como um espetáculo terrível e ao mesmo tempo encantador, representado nos limites entre o mundo e o supramundo, onde cada pessoa acreditava vislumbrar ora raios de luz celestiais ora sinistras línguas de fogo a brotar da profundeza. O olhar do santo, dirigido ao significado, terrível em todo aspecto, da breve existência terrena, à proximidade da decisão final sobre infinitos espaços de novas vidas, esse olhar em brasa, num corpo semi-aniquilado, fazia tremer os homens antigos em todas as profundezas; olhar, desviar o olhar com horror, de novo sentir o encanto do espetáculo, abandonar-se a ele, saciar-se com ele até a alma estremecer em ardor e calafrio — este foi o último prazer que a Antigüidade inventou, após ter se tornado insensível até mesmo à visão das lutas entre homens e animais.
*
Para resumir o que foi dito: aquele estado de alma de que goza o santo ou o aspirante à santidade compõe-se de elementos que nós todos conhecemos muito bem, mas que sob a influência de idéias não religiosas se mostram em cores diversas e costumam experimentar a censura dos homens, tanto quanto podem contar, adornados de religião e de sentido último da existência, com admiração e mesmo adoração — ao menos podiam contar com isso em tempos passados. Num momento o santo pratica o desafio de si mesmo, que é um parente próximo da ânsia de domínio e que mesmo ao homem mais solitário dá a sensação do poder; noutro, seu sentimento inflado salta do desejo de dar rédea livre a suas paixões para o desejo de fazê-las sucumbir como cavalos selvagens, sob a pressão potente de uma alma orgulhosa; ora deseja uma cessação completa de todos os sentimentos que o perturbam, torturam e excitam, um sono desperto, um descansar duradouro no seio de uma pesada indolência de animal e planta; ora procura a luta e a desperta em si mesmo, porque o tédio lhe mostra o seu rosto bocejante: ele flagela seu auto-endeusamento com autodesprezo e crueldade, se alegra com o selvagem tumulto de seus apetites, com a dor aguda do pecado e mesmo com a idéia da perdição, sabe armar ciladas para o seu afeto, para o extremo anseio de domínio, por exemplo, de modo que ele passe a extrema humilhação, e sua alma atiçada é subvertida por esse contraste; por fim, quando anseia por visões, diálogos com os mortos ou seres divinos, o que no fundo deseja é uma espécie rara de volúpia, talvez aquela volúpia na qual todas as outras se acham atadas como num feixe. Novalis, uma autoridade em questões de santidade, por experiência e por instinto, expressou todo o segredo com ingênua alegria: "É espantoso que a associação de volúpia, religião e crueldade já não tenha há muito chamado a atenção dos homens para seu íntimo parentesco e tendência comum".65
*
O que dá ao santo valor histórico-universal não é aquilo que ele é, mas o que significa aos olhos dos não-santos. Porque nos enganamos a seu respeito, porque interpretamos erradamente seus estados de alma e o separamos o máximo possível de nós, como algo inteiramente incomparável, de natureza estranha e sobre-humana: por isso é que ele alcançou a força extraordinária com que pôde dominar a imaginação de povos e épocas inteiras. Ele mesmo não se conhecia; ele mesmo entendia a escrita de suas disposições, tendências e ações conforme uma arte de interpretações que era tão exagerada e artificial quanto a interpretação pneumática da Bíblia. O excêntrico e doentio de sua natureza, com sua junção de pobreza espiritual, saber precário, saúde arruinada, nervos superexcitados, permanecia oculto tanto a seu olhar como ao de seu espectador. Não era um homem particularmente bom, menos ainda um homem particularmente sábio: mas significava algo que ultrapassava a medida humana em bondade e sabedoria. A crença nele sustentava a crença no divino e miraculoso, num sentido religioso de toda a existência, num iminente Juízo Final. No esplendor vespertino do sol de fim de mundo que iluminava os povos cristãos, a sombra do santo cresceu monstruosamente; e atingiu altura tal que mesmo em nosso tempo, que não mais crê em Deus, ainda existem pensadores que crêem nos santos.
*
Claro que a esse retrato do santo, esboçado segundo a média de toda a espécie, pode-se contrapor vários outros retratos, que despertariam sentimentos mais agradáveis. Há exceções que se destacam na espécie, seja por uma imensa brandura e simpatia com os homens, seja pelo encanto de uma energia incomum; outras são atraentes em altíssimo grau, porque certos delírios lançam torrentes de luz sobre todo o seu ser: é o caso do célebre fundador do cristianismo, que acreditava ser o filho de Deus, e portanto isento de pecado; de modo que através de uma ilusão — que não devemos julgar duramente, pois em toda a Antigüidade pululam filhos de Deus — ele alcançou o mesmo objetivo, o sentimento da completa isenção de pecado, da plena irresponsabilidade, que hoje qualquer homem pode adquirir através da ciência. — Igualmente não considerei os santos hindus, que se acham num nível intermediário entre o santo cristão e o filósofo grego, e portanto não representam um tipo puro: o conhecimento, a ciência — na medida em que existia —, a elevação acima dos demais homens pela disciplina e educação lógica do pensamento, eram exigidos como sinal de santidade entre os budistas, enquanto os mesmos atributos, no mundo cristão, são rejeitados e denegridos como sinal de impiedade.

(Fridrich Nietzsche - Humano, Demasiado Humano)

NOTAS:
(62) Hildelberto de Lavardius (1056-1133), Carmina miscellanea, 124 (a elucidação desta referência se acha apenas na nova edição americana dos Complete works of Friedrich Nietzsche, iniciada pela Stanford University Press; nem mesmo no volume de notas de Colli e Montinari ela foi encontrada).
(63) "refração": Brechung — "quebra", aniquilamiento, rottura, anéantissement, écrasement, to break himseelf of, to make [...] a break, to break. Devido ao significado mais comum de brechen ("quebrar") as traduções geralmente deixam escapar o sentido especial pretendido por Nietzsche, a metáfora retirada da física. Cf. o verbete "refratar", no Dicionário Melhoramentos da língua portuguesa (4a ed., São Paulo, 1980): "Causar refração a, desviar ou quebrar a direção de (raios luminosos, caloríficos ou sonoros)".
(64) Traduzido da citação de Nietzsche em alemão: die größte Schuld des Menschen/ ist, daß er geboren ward. No original espanhol se lê: Pues el delito mayor/ del hombre es haber nacido (Calderón de la Barca, La vida es sueño, ato I, cena 3).
(65) Novalis, Schriften (Escritos), citado pela edição de Tieck e Schlegel, 1815, vol. 2, p. 250

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publicado às 03:50


O livro quase tornado gente

por Thynus, em 02.09.16
— Para todo escritor é sempre uma surpresa o fato de que o livro tenha uma vida própria, quando se desprende dele; é como se parte de um inseto se destacasse e tomasse um caminho próprio. Talvez ele se esqueça do livro quase totalmente, talvez se eleve acima das opiniões que nele registrou, talvez até não o compreenda mais, e tenha perdido as asas em que voava ao concebê-lo: enquanto isso o livro busca seus leitores, inflama vidas, alegra, assusta, engendra novas obras, torna-se a alma de projetos e ações — em suma: vive como um ser dotado de espírito e alma, e contudo não é humano. — A sorte maior será a do autor que, na velhice, puder dizer que tudo o que nele eram pensamentos e sentimentos fecundantes, animadores, edificantes, esclarecedores, continua a viver em seus escritos, e que ele próprio já não representa senão a cinza, enquanto o fogo se salvou e em toda parte é levado adiante. — Se considerarmos que toda ação de um homem, não apenas um livro, de alguma maneira vai ocasionar outras ações, decisões e pensamentos, que tudo o que ocorre se liga indissoluvelmente ao que vai ocorrer, perceberemos a verdadeira imortalidade, que é a do movimento: o que uma vez se moveu está encerrado e eternizado na cadeia total do que existe, como um inseto no âmbar.

(Fridrich Nietzsche - Humano, Demasiado Humano)

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publicado às 13:36


A esperança

por Thynus, em 01.09.16
Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — “Vem!

Quer para a bem-aventurança
Leves de um mundo espiritual
A minha essência, onde a esperança
Pôs o seu hálito vital;

Quer no mistério que te esconde,
Tu sejas, tão-somente, o fim:
— Olvido, imperturbável, onde
Não restará nada de mim!”

Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.

Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.

E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.

A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
 
 
 
— Pandora trouxe o vaso(1) que continha os males e o abriu. Era o presente dos deuses aos homens, exteriormente um presente belo e sedutor, denominado "vaso da felicidade". E todos os males, seres vivos alados, escaparam voando: desde então vagueiam e prejudicam os homens dia e noite. Um único mal ainda não saíra do recipiente; então, seguindo a vontade de Zeus, Pandora repôs a tampa, e ele permaneceu dentro. O homem tem agora para sempre o vaso da felicidade, e pensa maravilhas do tesouro que nele possui; este se acha à sua disposição: ele o abre quando quer; pois não sabe que Pandora lhe trouxe o recipiente dos males, e para ele o mal que restou é o maior dos bens — é a esperança. — Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens.

(Fridrich Nietzsche - Humano, Demasiado Humano)
"A esperança é muito mais estimulante que a sorte" (Nietzsche)
 

NOTAS:
(1) "vaso": Faß, no original. Habitualmente se fala em "caixa de Pandora", mas a consulta a uma edição bilíngüe de Os trabalhos e os dias, de Hesíodo (trad. Mary de Camargo Neves Lafer, São Paulo, Iluminuras, Biblioteca Pólen, 1990, p. 28), revela que o termo grego original é pithos, que corresponde a "vaso, recipiente, jarro" (esta a opção da tradutora), em português, e a Faß, em alemão. O comentário de Nietzsche sobre o mito de Pandora, nesta seção, tem afinidade com um belo poema de Manuel Bandeira, intitulado "A vida assim nos afeiçoa".

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