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Fantasia erótica

por Thynus, em 04.07.16
O casal resolveu passar uma noite no motel. Ou melhor: foi resolvido que o casal deveria passar certa noite num motel. Resolvido não por eles, mas pelos filhos que queriam dar uma festa na casa dos pais, mas sem a presença dos coroas. E o afastamento de pai e mãe era pedido por duas razões que pareciam pertinentes: primeiro, que a festa era de jovens e o som seria da pesada; segundo, porque se armava um agito que iria até as oito da manhã.
No atual estágio de metamorfose da vida social e familiar, os filhos são acionistas do casamento. Houve tempo em que detinham 50% das ações, hoje possuem a maioria. A situação, portanto, é muito diferente daquela de antigamente, na qual filho não dava palpite na organização da empresa matrimonial. Não só se chamava pai e mãe de senhor e senhora, mas tinha-se que pedir bênção, beijar a mão e chegar em casa às 10 horas da noite.
Mas no atual estágio da globalização, também o casamento está sendo terceirizado. Por isso, os filhos desinibidamente disseram aos velhos que gostariam muito de dar uma grande festa na casa e, mais ainda, gostariam que eles passassem o fim de semana fora. E num gesto de sedução irrecusável, disseram à mãe: “Peça ao papai para te levar a um motel”.
Ora, não há mulher casada que resista a esse convite feito pelo marido. Algumas não resistem nem ao convite feito por quem não é seu marido. Durante o namoro, os casais frequentam motéis. Depois do casamento, isto praticamente acaba e toda mulher ouve com certa inveja quando uma amiga lhe diz que o marido a levou a um motel. É um trunfo. É como se dissesse: “Está vendo, não preciso de amante”.
O fato é que o casal, tanto por amor aos filhos quanto movido por fantasias arcaicas, topou a ideia. E os filhos sentiram certo orgulho daquilo. Até revelavam aos amigos o próximo paradeiro dos pais, como a dizer: “Eles são velhos, mas ainda batem uma bola legal”.
E de repente, o fato de o casal ir para o motel acabou virando uma fantasia que concorria com a fantasia da própria festa que os filhos queriam dar. Pois enquanto os filhos contavam como estavam saindo para comprar quantas e quais bebidas, a mulher discutia com que roupa iria ao motel.
Enquanto os filhos faziam lista de convidados, o casal começou a comprar revistas do tipo Playboy, para ver o endereço dos melhores motéis. Era como se estivessem fazendo licitação de obras. O marido até ligou para um amigo e disse: “Olha, Armando, descolei uma gata aí, você não conte pra ninguém, mas me diga qual o melhor motel da cidade”. O outro ficou entre intrigado e cúmplice, e mesmo depois que o marido revelou que era para levar a própria mulher, o amigo ainda disse que ia ver, consultar e depois dizia. Não queria revelar seu conhecimento nessa área.
Finalmente chegou o dia da festa, os filhos já não sabiam se prestavam mais atenção na festa que preparavam ou na preparação que os pais faziam para sua noite num jardim das delícias. Os velhos faziam alongamento, tomavam sol, passaram-se cremes, beberam sucos, se preparando como se preparam atletas para a olimpíada.
Quando a galera começou a chegar à casa da festa, a atenção se dirigia mais para o casal que ia, glorioso, sair do que para os que, eufóricos, chegavam.
E lá se foi o casal. Mas, já no carro, se deram conta de que esqueceram de olhar e escolher o endereço do motel. Então tocaram para São Conrado. Entraram naquela região do Joá com dezenas de motéis. E ele: “Mulher, você escolhe”. Mas o panorama era pouco estimulante. Parecia promoção de restaurante vendendo comida a quilo. Os preços de promoção denunciavam, tanto quanto a arquitetura, que não correspondia à fantasia do casal (e dos filhos). Chegaram a entrar num. O marido avisou: “Vou olhar primeiro, se não gostar, voltamos”. Pois foram, não gostaram e saíram logo. E ainda ficaram por ali uns vinte minutos, entrando e saindo de motel, vendo, não gostando, arriscando serem vistos e difamados.
A noite ia avançando tanto quanto não avançando ia o trânsito na Barra e no Recreio. Ao mesmo tempo, pelo celular telefonam para casa para saberem da festa. A festa queria era saber do motel. “Não, ainda estamos procurando. Os que achamos não correspondem ao que queremos.” (E isto foi repassado para todos da festa, que os coroas estavam fazendo um safári, um rali de motéis).
Finalmente acharam um motel, que parecia esplêndido. Era. Por isso havia fila aguardando vaga. O casal escolheu uma fantasiosa suíte. E enquanto aguardavam ao lado de outro carro, o marido disse: “Mulher, acho melhor começarmos a fazer alguma sacanagem aqui, senão vão achar que somos marido e mulher”. A mulher disse: “Que é isto, me respeite, sou a mãe de seus filhos”. Mas acabaram sendo chamados para a esperada suíte.
Era espetacular! Tão espetacular que a mãe não resistiu e telefonou para os filhos descrevendo o paraíso. A festa parou para ouvir a narrativa. E a mãe falava como se fosse Scherazade no apogeu das “Mil e uma noites”. A suíte era ampla e tinha uma iluminação especial para cada recanto. Luzes saíam de debaixo da cama, luzes piscavam numa pista de dança. Espelhos para todo lado, música de todo tipo e televisão com inúmeros canais estrangeiros. Junto a um jardim iluminado, um chafariz jorrava água e emoção. Havia a deliciosa banheira quente para hidromassagem. Cama giratória, sauna a vapor e sauna seca, a escolher. Piscina de água quente corrente e um teto que se movia abrindo-se para uma lua cheia. Isto, além das louças inglesas, do cardápio e do champanha que rolava.
A descrição era a de um verdadeiro filme de Cecil B. DeMille, e Nelson Rodrigues diria que naquele motel havia até cascatas com jacaré.
A garotada ouviu aquela narrativa com uma fantasiosa inveja. Eram três e meia da manhã, hora em que começavam a cair pelas tabelas. A partir daí, a festa começou a definhar-definhar, até que, do fundo de sua adolescência, um jovem saiu-se com esse suspiro.
“Quando eu virar coroa ainda vou ter uma noite como eles.”

 (Sant’anna, Affonso Romano de - Que presente te dar)

publicado às 19:03


Receita para mal de amor

por Thynus, em 04.07.16
.
Não despertes o desgosto adormecido, de Michal Barteczko
Meu amigo tem um amigo que está apaixonado.
Está amando e pedindo socorro, porque ao mesmo tempo em que se sente luminosamente dono do mundo, sabe-se a mais frágil das criaturas. Está meio desorientado. Às vezes até acha que está enfermo. O seu dia a dia não é mais o mesmo. Por isso, pede um remédio. Pediu-me, como se pede ao farmacêutico na esquina, que lhe indicasse alguns poemas, única poção capaz de minorar seu mal de amor.
Eu teria que fazer um diagnóstico mais acurado. Encontrar-me com o paciente, fazer-lhe umas quantas perguntas, devido à responsabilidade da profissão. Mas não foi possível marcar hora, tomar o pulso, a pressão, ver como anda seu abalado coração. Como o pediatra acordado alta noite por mães aflitas, a receita vai ter que ir por telefone, ou crônica, e aguardar que a dor passe. Sugeri ao amigo: seria melhor que o amante sofredor se internasse para ler os poemas de amor de Camões, Drummond, Shakespeare, Vinicius, Paul Éluard e Neruda. Mas reconheci que nem sempre os planos de saúde garantem isto. E nem todos têm uma portentosa farmácia em casa. Então, perguntei: “Que idade tem o paciente?” “Já é um homem maduro”, respondeu.
Nesse caso é mais grave, pensei. Então leia, de Drummond, o poema “Campo de flores”, que começa assim: “Deus me deu um amor no tempo de madureza,/ quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme./ Deus — ou foi talvez o Diabo — deu-me este amor maduro,/ e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.” E por aí o paciente vai sentir que as antigas manhãs voltaram a sorrir para ele, que ele acha que merece mesmo esse autor, apesar da angústia que lhe traz. E há de concordar. “Mas, porque me tocou um amor crepuscular/ há que amar diferente”.
Contudo, o meu amigo preocupado me adverte: “Olha, o caso dele é meio grave, porque está pensando até em se matar”. Bem, nesse caso, digo, o remédio drummoniano tem que ser outro, é o poema. “Não se mate”, que ironicamente começa assim: “Carlos, sossegue, o amor/ é isso que você está vendo:/ hoje beija, amanhã não beija,/ depois de amanhã é domingo/ e segunda-feira ninguém sabe/ o que será./ Inútil você resistir/ ou mesmo suicidar-se./ Não se mate, oh não se mate,/ reservese todo para/ as bodas que ninguém sabe/ quando virão,/ se é que virão”.
A seguir, diz-me que seu amigo depois que se apaixonou ficou meio esquisito. Não está nem aí. Fala-se com ele uma coisa, ele responde outra. Não há visita do Papa nem eleição que lhe interesse. Esclareço que isso é normal em tais casos. Camões diz: “...fico perguntando aos ventos amorosos, que respiram da parte donde estais, por vós, Senhora;/ às aves que ali voam, se vos viram/ que fazíeis, que estáveis praticando/ onde, como, com quem, que dia e hora?”
E acrescento que não se desespere mais do que o necessário, porque o amor, segundo outra fórmula da farmacopeia amorosa de Camões, “é um fogo que arde sem ver,/ é ferida que dói e não se sente/ é um contentamento descontente/ é dor que desatina sem doer,/ é um querer mais que bem querer,/ é um andar solitário por entre gente,/ é um nunca contentar-se de contente,/ é um cuidar que ganha em se perder,/ é querer estar preso por vontade,/ é servir a quem vence, o vencedor,/ é ter com quem mata lealdade./ Mas como causar pode seu favor/ nos corações humanos amizade/ se tão contrário a si é mesmo o amor?”
No caso de o apaixonado sentir que o destino lhe foi atroz, porque não permitiu que conhecesse sua amada há mais tempo, quando era jovem, então não estará só. Um poeta mineiro — pouco conhecido —, Emílio Moura, tem apaziguantes pomadas para tal situação: “Por que me roubaram tanto tempo? Por que não te conheci menina?/ Por que não te conheci quando ias para o colégio?/ Por que não te conheci no momento terrível da revelação da vida?”
Isso de querer voltar à infância dos sentimentos é legítimo, quando se ama. Bandeira também considera isto em “O impossível carinho”: “Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo./ Quero apenas contar-te a minha ternura/ Ah se em troca de tanta felicidade que me dás/ Eu te pudesse repor/ — Eu soubesse repor—/ No coração despedaçado/ As mais puras alegrias de sua infância!”
Pode dar-se que o amante tenha ímpetos de escrever à sua amada. E tenha vergonha de lhe mandar os versos. Nesse caso, pode mandá-los anonimamente, ou simplesmente copiar aquele soneto de Felix Arvers, que antigamente se sabia, no qual o tímido poeta dizia: “Tenho n’alma um segredo e um mistério na vida,/ um amor eterno, que num minuto aflora/ uma infeliz paixão que urge escondida/ e que a própria mulher, que me inspirou ignora.” E porque teme que ela descubra quem ele é, resigna-se a imaginar que a amada, “a um tempo honesta e bela/ dirá por certo ao ler meus versos cheios dela./ — Que mulher será esta? — e não compreenderá”.
Nesse ponto, o amigo do amigo apaixonado me pergunta: “E você, poeta, nunca amou?” Eu, pundonoroso, respondo que tenho lido muito a respeito. A rigor não amo melhor nem pior do que ninguém. Do meu jeito amo. Ora esquisito, ora fogoso, às vezes aflito ou ensandecido de gozo. Já amei até com nojo. Coisas fabulosas acontecem-me no leito. Nem sempre de mim dependem, confesso. O corpo do outro é que é sempre surpreendente.
Mas, de qualquer jeito, concluo que o amor é sempre um mistério. E o mistério começa do joelho para cima.
O mistério começa do umbigo para baixo, e nunca termina. E terminei dizendo: “Diga ao seu amigo que aproveite e sofra de amor o mais que puder, porque, como dizia um espanhol renascentista chamado Juan de Encina; ‘Más vale trocar placer por dolores, que estar sin amores’”.

(Sant’anna, Affonso Romano de - Que presente te dar)
Más vale trocar placer por dolores

publicado às 18:45


A corrupção nossa e alheia

por Thynus, em 04.07.16
A corrupção é um crime sem rosto.
 
Políticos no Brasil não são eleitos pelas pessoas que leem jornais, 
mas pelas quais se limpam com ele.
Conde Von Noble  
 
A corrupção não é uma invenção brasileira.
Mas ainda não inventamos como botar na cadeia os corruptos.


As raízes sociais da corrupção

 A corrupção não é uma invenção brasileira.
Essa é a conclusão (tola e científica) a que cheguei depois de ler dezenas de livros sobre o assunto. O que talvez seja brasileira neste assunto é a incompetência no seu combate. Por exemplo: os três governos mais corruptos dos Estados Unidos foram os de Grant, Harding e Truman. No tempo de Grant, como disse o senador Paul Douglas, “as ferrovias do país compravam legisladores como se fossem gado”. E o próprio secretário do presidente participava da “quadrilha do uísque”. Já o presidente Harding, como lembram alguns historiadores, morreu por causa dos escândalos na sua administração. Para fugir à atmosfera desses escândalos, embarcou numa viagem para o Alasca. E para distrair-se, começou a jogar pôquer desvairadamente. O trem seguia e ele seguia jogando por até 15 horas consecutivas. Os assistentes se revezando na mesa de jogo, em turmas que descansavam de três em três horas. Quando a comitiva presidencial chegou em São Francisco, o presidente teve um ataque cardíaco.
Mas Truman teve uma administração ainda mais corrupta. “Nunca houve tanta corrupção praticada por tantos funcionários públicos, em tantos lugares. A máquina arrecadadora de impostos da nação estava infestada de alto a baixo de suborno”. Como diz Francisco Bilac Pinto, “Harry Truman, longe de tomar medidas efetivas para aniquilar a corrupção, em alguns casos protegia os culpados, em outros permanecia indiferente ou empregava a máquina da administração para bloquear e desviar os investigadores da corrupção. As fraudes foram reveladas, não por causa da administração, mas apesar dela”.
E tem mais. O governo Eisenhower teve inúmeros casos na mesma linha. E o santo Abraham Lincoln, como relata em sua biografia Carl Sandburg, também usou práticas corruptoras, ainda que para conseguir resultados louváveis, como a libertação dos escravos em Nevada. E para quem não sabia, o governo Reagan já processou 113 membros e assessores, alguns dos quais foram para a cadeia.
E aí é que está o busílis da questão. A corrupção não é uma invenção brasileira. Mas ainda não inventamos como botar na cadeia os corruptos. Esse desalento que sentimos é o mesmo do senador Fullbright, que sobre os escândalos da era Truman, disse: “Escândalos no governo não constituem fenômeno novo. O que parece ser novidade, a respeito desses escândalos, é a insensibilidade ou a apatia com que aqueles que exercem posições de responsabilidade se conformam com as práticas que os fatos comprovam. É sumamente lamentável ter a corrupção no nosso meio, mas o mais grave é perdoá-la ou aceitá-la como inevitável”.
Segundo os historiadores, há dois séculos “a Grã-Bretanha era uma cloaca de corrupção”. Muitas famílias finíssimas se estabeleceram a partir daí e algumas deram até primeiro-ministro. Alguns dizem que a moralização se deve à Rainha Vitória; outros, à religião metodista criada por John Wesley. O fato é que, orgulhosamente, Paul Douglas diz: “A vida política inglesa hoje é exercida em nível moral relativamente alto. Os servidores civis que fazem andar a administração dos negócios públicos são quase incorruptíveis e as eleições para o Parlamento são conduzidas com um mínimo de suborno, calúnias e afrontas”.
E na Rússia?
Quem quiser saber que leia “A kleptocracia — A corrupção na União Soviética”, de Patrick Meney, onde há até a tabela de “taxas de corrupção”. Autores como Jean-François Revel e Fred Riggs estudam a corrupção nos países do Terceiro Mundo e no universo sindical. E outros, como Michael Johnston, consideram o “custo e benefícios da corrupção” e nos ensinam a “viver com a fera”.
Parece, portanto, que todos estão acordes em que a corrupção existe em qualquer época e regime. O que se quer é o “mínimo de suborno”. Ou seja: em vez de deixar a fera solta devorando indistintamente tudo e todos, colocá-la na jaula. Mantê-la sob dieta. E no Brasil?
Aquele entrevero entre o Presidente Sarney e Dom Luciano Mendes deixou uma série de ambiguidades no ar. Existe ou não existe corrupção? Existem ou não meios de combatê-la? Um ministro chegou a dizer que era muito difícil, porque os corruptos não deixam pista. Será que nossos corruptos são mais hábeis do que os de outros países? Ou será que nossas leis são mal elaboradas? Lei é que não falta. Acabo de descobrir uma ótima: Lei n. 3.502, de Bilac Pinto, que “regula o sequestro e o perdimento de bens nos casos de enriquecimento ilícito, por influência ou abuso de cargo ou função”. É de 1958. E gostaria de saber o que fizeram com ela. Por que será que esta lei não “pegou”?

(Sant’anna, Affonso Romano de - Que presente te dar)
Não é a corrupção o grande mal do Brasil, mas a hipocrisia

publicado às 00:52


O surgimento da beleza

por Thynus, em 03.07.16
Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece.
 
O belo é o esplendor da ordem.
 
O surgimento da beleza paralisa tudo.
A respiração se modifica, os olhos se completam numa outra luz e o corpo inteiro se alça da pequenez do instante.
E aquela mulher ali na praia, em pé dentro d’água, não pediu licença alguma, mas invadiu minha vida e a de quantos a contemplam em pura epifania e devoção.
Paro de caminhar. Sou um contemplador do instante. Todos nos concentramos naquelas formas onde a harmonia se condensou em pernas, braços e cabelos ao vento. A beleza tem isto: quando irrompe, alicia a todos. E ali estamos conferindo nos olhos uns dos outros a mesma admiração. Estamos todos coniventes diante da beleza que surgiu no mar.
A tirania da beleza industrial e o reviralho
 Mas a beleza, quando surge, mais do que imprevista, é imperiosa e exige dedicação. Se aquela mulher virasse para o seu público e dissesse: “Matem-se por amor a mim!”, todos nos atiraríamos na eternidade. Se dissesse: “Escalem o Himalaia!”, subiríamos voando como querubins.
Por isto, é muito perigoso o encontro com a beleza. A alguns ela devora docemente. A outros ela desarma totalmente e petrifica. Ela não pede nada e, no entanto, parece o tempo todo ordenar. Deve ser por isto que os gregos queriam vinculá-la à Verdade e ao Bem. A beleza perversa seria o nosso fim. Olhei um girassol no meu terraço outro dia no exato momento de sua maior glória. O que ele me oferecia naquele instante era de uma eternidade penetrante. Examinei-lhe a geometria luminosa, que nenhum Vassarely jamais conseguiria reproduzir em seus painéis, apesar do computador. O girassol, tanto quanto eu, sabia que aquele era o seu instante de beleza aguda e se oferecia a mim extasiado em sua doçura, como só se extasia nele a perdida abelha.
Há dias que saio pelas ruas e festas faminto de beleza. Abro livros procurando certas passagens, leio poemas que sei de cor, de novo ouço uma flauta, um oboé, procuro aquele movimento de cordas de um determinado concerto. Eu sei onde encontrar a beleza. Vivo com ela. Tenho seu endereço secreto e a frequento amiúde na montanha ou beira-mar.
Um dia surpreendi-a numa pracinha medieval em Antibes, outro numa ruazinha barroca em Minas. Ela me foi servida em alguns museus, a reconheci em alguns objetos e se eu olhar bem firme nos olhos do semelhante, às vezes, a posso achar.
Aquela mulher ali na praia, por exemplo, não sabe que iluminou meu dia para sempre. Ao seu lado está sua amiga. Seu corpo é correto, sadio e humano. Mas não passa de uma sombra junto ao Sol. Em vão agita os braços nas águas, fala alto. Não adianta. A bela mulher ao seu lado sequestrou para sempre a atenção de todos nós.
É assim com o bailarino ou bailarina que irrompe em pleno palco. À passagem de seu corpo, os outros se obscurecem consentidamente. Há um pacto entre o belo e o menos belo. Um pacto entre o ser e o contemplar.
Mas a beleza não é só mulher. Ela é andrógina. Se assim não fosse, como explicar que também os homens se extasiassem ante outros homens? E há homens tão potentemente belos que podem submeter exércitos só com o olhar.
Porém, se a beleza é assim tão urgente e relevante, por que nos aparece tão raramente? Se é assim tão necessária e pungente, por que é de natureza tão avara? Se dela carecemos tanto, por que nos deixa nesse exílio e incompletude?
A ausência da beleza é uma condenação. É um lapso. É a não história. Tudo que os homens fazem é por ela. Fazem excursões à Europa, vão à Grécia, constroem estradas, lançam passarelas entre as estrelas e inventaram a arte para apreendê-la. Tivéssemos que viver constantemente em contemplação do belo, no entanto, e ninguém trabalharia. Seríamos estátuas petrificadas na admiração. O mundo não careceria de mais nada. Viveríamos num orgasmo luminoso e contemplativo, e aqui se instalaria de vez a eternidade.
A ausência da beleza é quando o tempo se inaugura. E o tempo é falha e ruptura. A ausência de beleza é o erro, o pecado. A beleza é alegria e o avesso do que é triste. A beleza é notícia de que Deus existe.

(Sant’anna, Affonso Romano de - Que presente te dar)
A tirania da beleza
 
 
 

publicado às 17:19


É Brando o Dia, Brando o Vento

por Thynus, em 01.07.16
Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.




É brando o dia, brando o vento
É brando o sol e brando o céu.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!

Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...
Ser eu assim ser eu assim!

Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!

(Fernando Pessoa, in "Cancioneiro")

publicado às 14:27

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