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Por mais vistosos ou sugestivos que fossem outros temas,  nenhum deles poderia abafar neste dia o clamor que irrompe das profundezas do mundo neste dia de Abril. Junto-me, pois, ao coro gritante que os jornais, as TV’,s e as redes sociais levantam contra o crime organizado dos malditos paraísos que um punhado de demónios escavou nos subterrâneos do planeta. E faço-o, porque me estala a consciência a palavra de ordem, tantas vezes proclamada: “Vimos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”!

Todos nós vimos, ouvimos e lemos a descoberta, talvez a maior até hoje nos “media”, do tenebroso escândalo que dá pelo nome de Panama Papers, esse memorável trabalho de jornalistas coligados, a nível internacional,  que durante quase um ano investigaram, sob sigilo comum, a orgânica dos offshores naquele país. Milhões, biliões, fortunas sem rasto, filhos de ventres incógnitos e herdeiros do sangue, suor e lágrimas dos pobres da Terra! Tudo isso trancado em, para eles, paraísos e, para nós, infernos abrasadores! Agora percebe-se aquela cruel equação que envergonha a condição humana: só 1% da humanidade detém a riqueza do mundo, à custa dos 99%  que dela carecem.

Remeto os meus amigos para a comunicação social justa e competente, por onde ficamos a saber os tais  “herdeiros–donos disso tudo”, desde reis e presidentes das nações, banqueiros, gestores, cineastas, deputados e até futebolistas super-milionários.  Tudo gente importante, gente “séria”, raça de eleitos, ladrões de smoking envernizados, a quem nos mandavam beijar as mãos e os pés.   Oxalá não apareçam sotainas de bispos e  cardeais, embaixadores do Vaticano, o velho Vaticano, aquele que antes de Francisco Papa lavava dinheiro sujo nas catacumbas de Roma…

  De um único escritório de advogados – o Mossack Fonseca – sediado no Panamá, surgiam e cresciam como cogumelos venenosos empresas ocultas sem conto, que escondiam (e escondem) em cofres  frigoríficos, tão gelados e insensíveis como a consciência dos seus detentores, os corpos e até as almas dos que mourejam de sol-a-sol, curvados sobre a terra, presos à penosa ferramenta do trabalho que (talvez, alguns não)  têm, enfim, descapitalizam o erário público e obrigam os contribuintes indefesos a pagar duros impostos. Só de Portugal saem dois milhões e meio por dia, a caminho de bancas-fantasma.

É insuportável conviver com os “jihadistas” do dinheiro. Em que difere o sofisticado  terrorismo capitalista, agora posto a nu, do bárbaro terrorismo bombista   de Paris, Bruxelas, Madrid e quejandos? É com  dinheiro dos offshores que se compram as armas assassinas. E  são eles, os financiadores sem escrúpulos,  que sadicamente e impunemente praticam o mais sangrento genocídio encapotado, em morte lenta,  de pessoas e nações inteiras. Os autores da lei são os autores do crime. Ainda por cima, alguns deles são considerados beneméritos sociais, organizam promoções comerciais, oferecem donativos a instituições… enquanto, á socapa e protegidos pela lei, furtam-se aos impostos na sua pátria, ufanam-se de pagá-los noutros países onde lhes pinga mais doce o “cacau”, enfim, outros até negoceiam drogas, recrutam combatentes e proxenetas, traficam seres humanos. Que execranda, malfadada sorte nos coube! Em pleno século XXI.

Não haverá maneira de exterminar o crime organizado, falsamente legalizado?  Vamos assistir indiferentes e enxutos a esta contradição nuclear: enquanto os miseráveis migrantes refugiados de guerra imploram uma nesga de paz na Europa, os  multifundiários da alta finança fazem vida de migrantes de luxo, saltitando de offshore em offshore conforme a avidez dos seus apetites?! 

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Ninguém encolha os ombros, julgando-se impotente. Primeiro que tudo, é preciso saber disto, seguir a boa informação, conhecer os meandros dos terroristas financeiros. Mesmo perto de nós. Ainda está por esclarecer cabalmente  se aquele “negócio”  da chamada Zona Franca e respectivo paraíso fiscal , onde um escritório, sediado no Funchal, é susceptível de acolher ou receptar dezenas e centenas de firmas,  configurar-se-á  (ou não) com outros  Mossack Fonseca em miniatura.  Ainda está por  saber se, com  aquele empreendimento, ficaram os madeirenses a ganhar ou a perder. Estaremos nós, a troco de tostões,  dando passagem a contrabandistas que lucram milhões?  Fica no ar a grande incógnita.

Temos também outra arma contra o banditismo legalizado: peguemos nela, aquando do acto eleitoral, rejeitando os encobridores-legisladores do crime e votando naqueles que proclamam a abolição dos paraísos fiscais, à escala mundial.

“Vimos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”!

O editorial de Le Monde, pela mão de Jerôme Fanoglio, classifica de  vertige et nausée (vertigem e náusea) esta torrente de dinheiro sujo,  sem cuja proibição jamais serão credíveis os programas governativos de qualquer país. Entre nós, ocorre oportunamente recordar, para combate-los, Os vampiros que bebem o sangue fresco da manada, Comem tudo e não deixam nada, repetindo Zeca Afonso, o precursor e construtor do nosso Abril.

Contra o genocídio encapotado e lento, contra a geo-corrupção, abrir os olhos e… marchar, marchar!

           05.Abr-16

         Martins Júnior     

publicado às 18:52


O mito de Osíris

por Thynus, em 05.04.16
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Ísis, a grande mãe

Osíris era o deus que, com sua irmã-esposa Ísis, remava sobre o Egito. Ele havia ensinado aos homens a agricultura e a metalurgia e era amado por seus súditos. Seu enciumado irmão Seth (o deus do mau vento do deserto) o matou, colocou seu corpo num cofre e jogou no Nilo. Ísis procurou o cadáver do marido e o encontrou em Biblos. Ela o trouxe de volta e o escondeu em um pântano. Seth o descobriu, cortou-o em 14 pedaços e os espalhou pelo Egito. Ísis novamente foi atrás do marido, recuperou os pedaços em decomposição, com exceção do falo, e, com eles, fez uma múmia. Com a ajuda de outros deuses mais seus poderes mágicos, Ísis devolveu a vida ao marido e reconstituiu seu membro perdido. O casal gerou Hórus, que foi criado pela mãe e protegido do ambicioso Seth até chegar o momento de assumir o trono. Osíris não recuperou seu reinado terrestre, mas passou a reinar sobre os mortos. Hórus, mais tarde, tornou-se o rei do Egito. Os faraós o sucederam. Se o mito de Heliópolis pretende dar conta das questões relativas à origem dos deuses, do mundo natural e da espécie humana, o mito de Osíris parece demonstrar formas de conduta da sociedade egípcia, tais como o papel de um rei justo que é enganado pelo irmão invejoso (Seth); o assassinato do rei bom pelo irmão mau; o papel de Ísis como mulher, esposa, dedicada e leal, que procura o corpo do marido e não descansa enquanto não o encontra; o poder de magia também de Ísis e a possibilidade de ressurreição com Thot e Anúbis, que revivem Osíris e reconstituem seu falo, permitindo, assim, que Ísis gere um herdeiro (o filho Hórus). De fato, se analisarmos o mito como um todo poderemos perceber que ele trata muito mais da saga da deusa Ísis do que de Osíris. O mito tem grande importância também por estar associado ao rito funerário e à mumificação, uma vez que Osíris torna-se senhor do mundo inferior e “ressuscita” nesse local depois de mumificado. Desse modo, todo aquele que morre, passando pelo rito funerário e pelo processo da mumificação, é considerado um Osíris.

(Pedro Paulo Funari e outros - As Religiões que o Mundo esqueceu)

publicado às 21:35


O mito da criação em Heliópolis

por Thynus, em 05.04.16
O mito era uma forma de explicação para processos naturais que estavam sem resposta no pensamento egípcio, tais como a criação do mundo, da raça humana e o pósmorte. Os mitos também passavam um tipo de moral, concepção de ordem e caos, e valores éticos que deveriam ser seguidos e ensinados às próximas gerações. Um bom exemplo é o mito de Osíris, como veremos. Assim, os mitos representavam necessidades e anseios dos homens e mulheres dessa sociedade. Um dos mitos mais importantes e antigos relativo à criação é o da cidade de Heliópolis, cujo nome em egípcio antigo é Wn, Annu ou Iunnu. Durante o Antigo Império (2.575 - 2.134 a.C.) tornou-se o principal centro religioso e sede do culto solar, sobretudo da 4ª. à 6ª. dinastias, época da construção das pirâmides de Queóps, Quéfren, Miquerinos, Unas, Pepi e Teti. O prestígio do culto solar foi tal que um dos cinco títulos básicos do faraó, de “Filho de Ra” (sa-Ra), pode ter surgido nesse período. Referências a esse mito podem ser encontradas nos Textos das Pirâmides no papiro Bremner-Rhind e no livro da Vaca celeste. Estes dois últimos talvez sejam a melhor maneira de conhecê-lo, apesar da forma truncada da narrativa. De um modo geral, podemos contar o mito da seguinte maneira:
No princípio era o Nu (Num), o oceano celestial com sua característica de imobilidade e totalmente estático - a visão do caos na concepção egípcia. Do seu interior emergiu o deus Atum autogerado (não confundir com Aton, que surgiria na 18ª. dinastia e representa o disco solar). Uma vez emerso do Num, a primeira porção de terra também emergiu para acolher o deus. Tal porção de terra era identificada por uma forma piramidal, frequentemente associada a um obelisco. Segundo George Hart, no livro Mitos egípcios, “este outeiro primitivo tornou-se formalizado como benben (bnbn), uma elevação piramidal firme para sustentar o deus Sol; as relíquias reais de pedra, talvez consideradas como o sêmen petrificado de Atum, eram citadas como sobrevivente no hewet-benben (hwt-bnbn), a Mansão do benben”, ou a Mansão da pedra benben. O benben pode ser interpretado como o raio de Sol petrificado e não necessariamente o sêmen.
Uma vez sustentado, o deus Atum inicia o processo de criação dos deuses, por atos oriundos da fala ou da boca. (Em outras variantes, essa criação foi produzida pela masturbação do deus. Há uma outra, ainda, que relata a união do deus Atum com sua sombra (kaibit). Uma vez autogerado, o deus Atum expeliu o deus Shu e cuspiu a deusa Tefnut, estabelecendo a primeira tríade. Shu representava o ar, a atmosfera entre outros atributos (esse deus pode aparecer com o atributo da luz solar segundo outros textos).Tefhut representava a umidade do céu. A partir desse ponto, o casal Shu-Tefnut continuou a criação gerando o casal Geb (terra) e Nut (céu). Atum não tomou mais parte na criação, a não ser para gerar, de suas lágrimas, a raça humana.
Representação de Geb (abaixo) e Nut (acima)
 O deus Geb possuía um caráter masculino, ao contrário de muitas sociedades antigas que estabelecem uma relação feminina com a terra — “a mãe terra”. A deusa Nut, por outro lado, representava o céu no qual estrelas, planetas e outros deuses estão presentes. A barca de Ra navegava 12 horas por dia no seu corpo e tal jornada tinha início no seu ventre, situado no leste, e terminava aparentemente na sua boca, no crepúsculo no oeste. Em seguida, uma nova fase foi levada a efeito com a geração dos quatro filhos do casal Geb e Nut: Osíris, que se tornaria rei do mundo inferior, Ísis, a senhora do trono; Seth, representando forças caóticas da natureza, e Néfits, a senhora do castelo.
Um aspecto importante nessa fase da criação é o papel de Osíris e Seth, que representavam uma certa dualidade de princípios na forma masculina. Assim, temos a terra fértil e estéril, o vale do Nilo e o deserto, luz e trevas, ordem e caos, Osíris e Seth. Ísis representa o aspecto materno, a grande maga e consorte de Osíris. Ela é a senhora do trono (trono de Osíris ou do Egito). Néftis é a senhora do castelo ou mansão — Nebt-het. Esse castelo pode ser entendido como um lugar no firmamento e a casa de Hórus. Assim, os deuses Atum (ou Ra, o deus Sol), Shu, Tefnut, Geb, Nut, Osíris, Ísis, Seth e Néftis formaram a enéada de Heliópolis. Ou seja, os nove deuses da criação. Aos deuses é agregado Hórus ou Heru, que representava o faraó ou a própria raça humana. Com o Hórus vivo deixado na terra depois da partida de Atum-Ra para o firmamento e Osíris reinando no mundo inferior, o processo da criação estava estabelecido. A criação da natureza ocorreu em algum ponto das quatro fases da criação. Assim, a espécie humana — criada a partir das lágrimas de Atum-Ra — passou por um processo diferente do mundo natural.

 (Pedro Paulo Funari e outros - As Religiões que o Mundo esqueceu) 

publicado às 21:33


Os deuses do vinho

por Thynus, em 01.04.16
Nascido no ano de 146 em Leptis Magna, colônia romana da África do Norte situada no atual Uádi Lebda, na Líbia, o imperador Septímio Severo casa-se com uma mulher de origem síria. Depois de garantir seu poder em Roma pelo terror e de combater os partas, seu reinado (de 193 a 211) é dedicado a favorecer os cultos orientais. A deusa egípcia Ísis se torna, em torno do Mediterrâneo e para além dele, mãe dos deuses e do universo. São encontrados templos de Ísis em Atenas, Pompeia, Paris e até mesmo Londres. Osíris, seu irmão-esposo, ressuscitará dos mortos para ser identificado a Dionísio e, por fim, tomar as feições do deus Baco.
Dionísio (Baco), deus do vinho
 Ísis era a mais poderosa das deusas do Antigo Egito. É provável que seu nome signifique trono ou assento. Ísis foi adorada em todo o Império Romano, onde era representada com o adorno da deusa Hathor – chifres de vaca em forma de lira envolvendo um disco solar –, com quem a divindade suprema se confundiu.
O culto a Ísis na Gália está na origem de uma lenda segundo a qual a cidade de Paris teria recebido seu nome de um jogo de palavras: “Par-Ísis” (por Ísis). Historicamente, está provado que a tribo celta dos parisii, vinda do além-Reno no século III antes da era cristã, se instalou numa ilha do Sena e deu com isso nome à futura capital francesa. Por outro lado, é certo que o emblema da cidade de Paris e sua divisa (fluctuat nec mergitur: ele – o navio parisiense – é sacudido pelas ondas, mas não afunda) lembram as viagens de Ísis em busca de seu marido e irmão Osíris.(Alguns autores, no entanto, veem a origem histórica do navio emblemático no brasão utilizado desde o século XIII pelos “mercadores da água” de Paris, descendentes dos navegadores de Lutécia.) Já a basílica de Saint Germain des Prés e as catedrais de Notre Dame de Paris e de Chartres foram construídas no local de templos dedicados a Ísis. A grande deusa também apresenta muitos traços em comum com a Virgem Maria: Ísis dando o seio a seu filho Horus prefigura a “Virgem e o menino”, e está na origem direta da tradição popular das virgens negras na Europa. A França conta com cerca de trezentas madonas de pele escura – por exemplo, Nossa Senhora de Puy, na origem uma estátua de Ísis, ou “Nossa Senhora abaixo da Terra”, na catedral de Chartres –, a Espanha abriga aproximadamente cinquenta, dezenove estão na Alemanha, trinta na Itália e outras mais são veneradas em diversos países europeus, a Polônia em particular – Nossa Senhora de Czestochowa é a representação mais conhecida.
Depois da campanha do Egito de Napoleão Bonaparte, de 1798 a 1801, e da decodificação dos hieróglifos, realizada em 1824 pelo orientalista francês Jean-François Champollion, a França intelectual é tomada pela “egiptomania”. A franco-maçonaria incorporaria essa moda e retomaria os mistérios de Ísis em sua tradição esotérica. O mito de Ísis partindo em busca de seu irmão amado e esposo Osíris, perdido nas águas do Nilo, retalhado em quatorze pedaços para por fim voltar a ser recomposto antes de ressuscitar, inspira grande número de escritos iniciáticos.(“Iniciação” vem da palavra initium em latim, isto é, início. Iniciar um homem significa, no sentido místico, desencadear nele uma espécie de marcha inicial, ponto de partida de um itinerário interior)
A franco-maçonaria, herdeira direta das antigas fraternidades iniciáticas, ensinava ao iniciado a história de Osíris, deus do mundo subterrâneo, seu despedaçamento, sua reconstituição por Ísis, e as danças simbólicas dos iniciadores revelavam os mistérios que a palavra era incapaz de traduzir.(Papus (ou também Gérard Encausse). Ce qui doit savoir un maître maçon. Paris: Librairie générale et internationale Gustave Ficker, 1910. p. 70) Sempre se atribuiu aos deuses mortais o poder não apenas de ressuscitar, mas de garantir a imortalidade a seus seguidores. “Eu sou a ressurreição e a vida” eram palavras ouvidas no ritual do deus redentor egípcio, bem como nos funerais dos faraós. As palavras mágicas pronunciadas durante a celebração do culto a Osíris talvez tenham contribuído para o sucesso religioso do cristianismo.
A ópera A flauta mágica, escrita por Mozart em 1791, também é uma iniciação aos mistérios de Ísis. Em sua obra, o compositor austríaco põe em evidência a busca da unidade perdida e as provações que levam ao conhecimento.
Esse caráter iniciático está muito presente na Grécia na cidade de Elêusis, a noroeste de Atenas, onde eram celebradas as grandes cerimônias em louvor a Deméter, deusa do trigo. Nas civilizações antigas, essencialmente agrárias, o ciclo do grão de trigo era visto como o símbolo do destino do homem.
Para o grego antigo, nada havia de mais misterioso do que a terra como celeiro da humanidade e, ao mesmo tempo, túmulo natural dos homens. As divindades que a habitavam deveriam conhecer o segredo da vida. É por isso que os homens livres e os escravos, cidadãos gregos e bárbaros(O termo “bárbaro” hoje em dia é injurioso. Para os gregos, bárbaro significava simplesmente “estrangeiro”), compareciam na primavera e no outono ao santuário de Elêusis para obter a revelação desses mistérios. Os candidatos à iniciação usavam um baco, espécie de bastão formado por varetas reunidas num feixe e presas por anéis de folhagem, que não deixava de lembrar o tirso de Dionísio. Uma das cerimônias dos mistérios de Elêusis ilustra bem a simbologia do trigo: na cena do epoptismo, o participante contempla em silêncio um grão de trigo. Através do trigo, louvava-se a Deméter e ao destino paralelo da alma e do grão, “submetidos à mesma permanência nas trevas antes de aceder à luz”.(LACARRIÈRE, J. En suivant les dieux. Paris: Philippe Lebaud, 1984. p. 186) O epoptismo é muitas vezes comparado à evocação do deus morto e ressuscitado que caracterizava os cultos dos mistérios de Osíris e de Dionísio. A iniciação, em todas as épocas, sempre quis atingir o mesmo objetivo: o de instruir o homem e, com isso, tornar o Destino impotente em seus ataques. Encontramos o deus do vinho sob os traços do Liber Pater, uma velha divindade rústica da Itália central. Tomando seu nome lídio Bakkos e também o termo pelo qual os romanos designavam a uva (baca), Liber Pater presidia a cultura da vinha e a fertilidade dos campos. O deus itálico não possuía uma mitologia própria e foi por isso assimilado a Baco, enquanto sua consorte, Líbera, foi identificada a Ceres, deusa do trigo. Essa mutação é patente naquilo que se chamou “o escândalo dos bacanais” e que Tito Lívio (v. 64 ou v. 59 – v. 10) relata com detalhes em sua História de Roma (Ab urbe condita), texto que vai da fundação da cidade, em 753 a.C., ao ano IX a.C.
Os bacanais ou mênades (do grego, “louca”) eram festas noturnas nas quais mulheres, levadas pela exaltação e pelo delírio místico, se entregavam ao excesso e aos desregramentos sexuais, em cenas orgíacas que excitaram a imaginação dos artistas (especialmente os gregos, como Eurípides na tragédia As bacantes e o escultor Escopas, que em sua Mênade petrifica uma dessas possuídas), e não deixaram de evocar as descrições da histeria feitas, em 1880, pelo médico francês Jean Martin Charcot.
Depois de um discurso virulento de Catão, censor incansável do luxo e da luxúria em Roma, bem como do testemunho acusador do jovem romano Aebutius e de sua amante Hispala, o cônsul Postumius convocou uma reunião extraordinária do Senado no ano 186 a.C. No final da sessão, um senatus consulto (De Bacchanalibus) proibiu, tanto em Roma como no resto da Itália, a celebração dos bacanais “como atentados à segurança do Estado e contrários à moral e à religião”. O texto senatorial, que foi encontrado na Calábria gravado numa placa de bronze, também prescreve “que nenhum homem frequente as bacantes”. A ordem romana cai com força sobre os “conjurados” (a repressão teria feito milhares de vítimas). Os bacanais renascerão, no entanto, na época do Império com o nome de Liberalia.
Como as orgias, foram por muito tempo desacreditados, apesar de os dois termos designarem, na origem, cerimônias religiosas lícitas.
A bebida dos deuses inspirará de maneira marcante a arte funerária dos cristãos. Cenas dionisíacas em que o deus pagão é substituído pelo Bom Pastor enfeitam os primeiros sarcófagos cristãos. O uso de temas do deus do vinho mostra que a bebida também era considerada um símbolo de imortalidade: o vinho dos cristãos é, em essência, uma bebida mística.

(Jean-François Gautier - Vinho)

publicado às 15:33


CARÍCIAS

por Thynus, em 01.04.16
 

Ao contrário das fotos, quando recebemos carícias, essas nunca serão apagadas.

Swami Paatra Shankara

 
Carícias, alimento emocional e psicológico
Uma criança sem alimentos, por mais afeto que receba de seus pais, não terá um desenvolvimento normal. A maior preocupação dos pais e médicos sempre foi a de que a criança recebesse alimentos e que seu corpo estivesse bem protegido quanto às intempéries (principalmente do frio) e também da sujeira. É impressionante como um grande número de mães envolve os filhos em panos, quando estão doentes, mesmo no mais forte verão.
Então, em caso de uma doença, o tratamento resume-se geralmente à matéria médica, com indicações de remédios e repouso. Contudo, todos nós conhecemos algum caso de pessoa doente, tratada por um ótimo médico e tomando os melhores remédios, que permanece enferma (isso pode, inclusive, estar acontecendo com você, neste momento).
Spitz estudou os efeitos nefastos da falta de contato físico em casos de tratamento de doenças. Uma criança sem carinho – contato físico apesar de todo o tratamento orgânico, pode não sarar por estar mantendo uma doença oriunda da falta de afagos. A criança necessita ser tocada; beijada, olhada, percebida! O leite materno, quentinho em sua boca, estômago satisfeito, é um TOQUE! O corpo quente é um TOQUE!
Os estímulos são tão importantes para a saúde como o são os alimentos!
Muitos pais formam idéias errôneas sobre as crianças ou sobre a sua educação, como por exemplo: 'Não vou pegar no colo para não acostumar mal', 'Não vou dar muita atenção porque quero que ele aprenda a ser independente'.
O berço da criança acaba sendo uma cela solitária ... da qual o prisioneiro fará tudo para sair.
Vai chorar alto ... e pode ser que alguém diga: 'É manha; acabou de mamar!' Poderá ficar levemente enfermo e dirão: 'Não sei o que acontece com ele, que está sempre doente'.
Poderá ficar gravemente enfermo ... e dirão: 'Meu Deus, é melhor não tirá-lo do berço'.
Poderá, em caso extremo, vir a morrer (e existe uma série enorme de experimentos mostrando como isso é verdadeiro).
O reconhecimento da existência é, basicamente, o que motiva a humanidade. 'Papai, olha, aqui estou eu' (Presidente dos EEUU) ou 'Papai, olha, aqui estou eu' (sentado na cadeira elétrica). Essas idéias são para introduzirmos o conceito de CARÍCIAS e sua IMPORTÂNCIA.
CARÍCIA (toque, afago, estímulo) é a unidade de reconhecimento humano.
Começa no nascimento, com o toque físico. Depois passa para palavras, olhares, gestos e aceitação.
Sem dúvida o toque físico é o mais potente meio de reconhecimento ...
Com o passar dos anos, o toque físico pode, razoavelmente, ser substituído pelo toque verbal. Então, um acariciamento no rosto da esposa pode ser substituído por um 'Que bom que você veio!' Todos nós queremos ser reconhecidos!
Todos nós necessitamos de carícias! (Tanto quanto precisamos de comida).
Chamamos de "CARÍCIAS" porque CARÍCIAS são o que o bebê necessita quando nasce.
E, nesse sentido, apesar de adultos, necessitamos de CARÍCIAS, TOQUES, CARINHO. Tudo isso compõe o ALIMENTO IDEAL para o desenvolvimento do ser humano. Sem isso ele pode apresentar um quadro de retardamento mental (oriundo da carência de toques na infância), fechar-se em seu mundo e tornar-se, até, um psicótico. Nenhuma criança (ou adulto) agüenta a indiferença dos pais! Um beijo é melhor que um tapa. Mas, um tapa é melhor do que a indiferença...! E, por não agüentar a indiferença, a criança vai experimentar condutas diferentes para chamar a atenção, até encontrar algumas que funcionem .
Para receber ESTÍMULOS, se não tem afeto, qualquer coisa pode servir: um tapa dos pais, gritos, beliscões, olhares de raiva ou desprezo! Tudo isso são exemplos de CARÍCIAS NEGATIVAS. Elas satisfazem a necessidade de atenção da criança, ainda que produzindo a dor e sentimentos de rejeição.
A qualidade das caricias que a criança recebe dá uma idéia primitiva de como fazer para ser reconhecido ou aceito. A carícia é o combustível do comportamento humano.
Nossas condutas são induzidas por nossa necessidade de reconhecimento. Algumas, de maneira imediata: 'hei, por que você não me cumprimentou?'. Outras, a longo prazo: 'Com essa descoberta, vou ganhar o prêmio Nobel'. Ou: 'Eles ainda me pagam...!' Ou ainda: 'Vou ganhar muito dinheiro para dar em casa para os meus pais'. Muitas vezes, toda uma série de acontecimentos é motivada por um simples gesto de atenção (lembram das loucas histórias de paixão de adolescentes'?).
A vida dos seres humanos, na maioria das vezes, é orientada para a pessoa receber do pai um abraço que não conseguiu quando criança, de modo incondicional, simplesmente pelo fato de ser um filho, de existir.
Muitas vezes, carreiras que poderiam ter sido brilhantes, vão desmoronando por falta de estímulos. Muitas vezes, os seres humanos funcionam como burros que caminham motivados por uma cenoura colocada suspensa em uma vara, na frente. Caminham o tempo todo e, freqüentemente, nem chegam a comer a cenoura ... (andando atrás de um vislumbre de reconhecimento).
São pessoas que colocam um objetivo lá na frente, sem valorizar o prazer de viver. Esse objetivo pode ser uma situação na qual vai receber uma tonelada de carícias, por ter atingido o alvo. Outras vezes, não conseguem atingir esse objetivo e receber as carícias por não terem conseguido realizá-lo.
É importante na nossa vida que cuidemos de procurar as carícias das quais necessitamos, ao mesmo tempo em que, a cada momento, desfrutemos o fato de estar vivos.

 (ROBERTO SHINYASHIKI - A CARÍCIA ESSENCIAL)

publicado às 02:59

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