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Na pós-modernidade, a utopia dos mercados livres e da globalização torna-se a referência. Mas o efêmero, o vazio, o simulacro, a complexidade e a crise flutuam como nuvens escuras. Sente-se um mundo fragmentado, seu sentido se perdendo nessas fraturas, com múltiplos significados, orientações e paradoxos.

A destruição criativa é o fato essencial do capitalismo. 
Capitalismo estabilizado é uma contradição em termos”.
(Joseph Schumpeter)

O problema do capitalismo não é tanto, como pensam os ecologistas e os altermundialistas, o fato de empobrecer os pobres para enriquecer os ricos (o que é amplamente contestável), mas é que ele nos desapossa de qualquer influência sobre a história e a priva de qualquer finalidade visível. Desapossamento e absurdo são os dois termos que melhor o caracterizam — e, nesse ponto, segundo Heidegger, ele encarna perfeitamente a filosofia de Nietzsche, ou seja, um pensamento que assumiu como nenhum outro o programa da completa erradicação de todos os ideais e simultaneamente da lógica do sentido.

 
 
Ano Novo, velhos problemas

Afilosofia está morta, de acordo com o físico britânico Stephen Hawking (1942-). “Como podemos entender o mundo em que nos encontramos?”, pergunta ele em O grande projeto: novas respostas para questões definitivas da vida (2010). “O universo teve um criador?
Tradicionalmente, essas são perguntas da filosofia, mas a filosofia está morta.” No seu modo de ver, os cientistas assumiram as questões “reais” da filosofia e estão ocupados respondendo a elas. Ao fim, eles terão respostas para todas elas, não deixando nada a ser feito pela filosofia. A filosofia é um dinossauro.
Mas afirmar que a filosofia está morta é o mesmo que dizer que o pensamento está morto. Martin Heidegger (1889-1976) disse que filosofia é pensamento; e o que diz respeito à ciência é objeto de ampla reflexão por parte da filosofia. De fato, a filosofia da ciência é um campo que cresceu muito desde que R. V. Quine (1908-2000) questionou o positivismo lógico e que T. S. Kuhn (1922-96) identificou os meios pelos quais paradigmas científicos se erguem e declinam.
Na verdade, ciência e revoluções científicas nos fornecem uma comparação útil com o estado da filosofia profissional de hoje (nem todo o pensamento que forma nosso mundo é feito por filósofos, e vamos abordar esse fato daqui a pouco). Na ciência, diz Kuhn, temos um paradigma predominante, ou conceito diretivo, que cria toda uma visão de mundo que inclui a visão popular do homem de si mesmo em relação com o universo e ainda uma visão de como os cientistas “fazem” ciência. Um bom exemplo de um paradigma diretivo seria a teoria do matemático egípcio Ptolomeu (segundo século d.C.) de que o Sol se move em torno da Terra: a teoria geocêntrica do universo. Com os estudos do astrônomo polonês Copérnico (1473-1543), inverte-se o paradigma. Não, diz ele, é a Terra que gira em torno do Sol. Em princípio, há um caos e descrença. Pessoas são torturadas e queimadas na fogueira pela Igreja porque o quadro heliocêntrico parece ser contrário a Deus. Depois de um tempo, entretanto, a revolução copernicana já não parece tão revolucionária, e os cientistas voltam ao trabalho, passando a fazer o que fazem.

Ciência de laboratório
O que os cientistas fazem? Eles fazem experiências. Cientistas – centenas de milhares (se não milhões) deles ao redor do mundo – desenvolvem hipóteses e as testam experimentalmente. Quando um experimento parece funcionar – quando ele pode ser repetido por diversos pesquisadores e os resultados podem ser replicados –, então se estabelece um bloco a mais de construção do paradigma dominante. Deste modo, os cientistas seguem fazendo experiências até que um cientista revolucionário como Albert Einstein adentre o cenário e diga: “Não, não acho que seja assim que isso funciona. É mais assim.” O cientista médio, entretanto, é um experimentador do dia a dia, fazendo o que Kuhn chama de bench science(NT: literalmente, “ciência de banco”, uma alusão à ciência feita diariamente nos bancos de um laboratório). Cientistas como Einstein ou Richard Feynman (1918-88) são raros. E podem estar se tornando mais raros à medida que a ciência passa a estar mais e mais ligada a corporações.
Na filosofia, quando Immanuel Kant fez sua chamada “virada copernicana”, houve uma mudança de paradigma similar no pensamento moderno. Ele defendeu que o conhecimento humano não apenas consistia em mais do que as simples recepções de impressões do sentido, mas também que ele era diferente em espécie. Em vez de as impressões do sentido serem “escritas” em uma tabula rasa passiva (ou uma folha em branco), como filósofos de Aristóteles a John Locke considerariam, o conhecimento vem do poder da subjetividade humana no ato da percepção. Kant deu primazia ao sujeito em detrimento do objeto: foi esta a sua virada copernicana.

O progresso da filosofia
A ascendência do sujeito sobre o objeto levou quase inevitavelmente a alguém como o filósofo alemão Friedrich Nietzsche declarar que Deus estava morto. E talvez tenha sido igualmente inevitável que alguém como Ludwig Andreas von Feuerbach viesse a afirmar a divindade do homem. Depois, Karl Max buscou os valores do homem em termos de sua história e relações econômicas e materiais; Roland Barthes declarou a morte do autor; e Jacque Derrida desconstruiu a linguagem até nos acharmos nus diante dela, expostos por nossas tentativas de proferir enunciados significativos, confrontados pelo que está presente em virtude de sua ausência nas palavras que nos usam.
Portanto, os filósofos estiveram ocupados.
Mas como eles se ocuparão no século XXI? E quem serão eles? Vamos tentar responder à segunda pergunta primeiro. Os novos pensadores podem não ser mais filósofos profissionais, uma vez que pressões econômicas levam a crer que haverá menos destes. Quantos existem agora? A Associação Filosófica Americana conta com mais de 11 mil membros pagantes. Este fato evoca em mim um momento aqui-para-lá, em que me pergunto como passamos de um punhado de filósofos gregos em Mileto, 2.500 anos atrás, para 11 mil filósofos americanos hoje em dia. E este número sequer dá conta dos filósofos na Grã-Bretanha e no resto do mundo anglófono; ele omite toda a Europa, o que significa um número muito grande de filósofos. O que todos eles fazem? Morte do superstar filosófico Pode ser que nós tenhamos visto o último dos superstars da filosofia. Jacques Derrida é provavelmente o último filósofo cujo nome pode ser reconhecido pelo público em geral (embora esse público quase certamente não o tenha lido). Sartre foi um recente, assim como Bertrand Russell. Charles Darwin, Karl Marx e Sigmund Freud são gigantes perenes (e dois deles eram predominantemente cientistas). Por que motivo o passado teve mais nomes importantes entre os pensadores? Quem são os pensadores de amanhã e que estão entre nós hoje?
Em seu ensaio, O futuro da filosofia, John Searle (1932-) afirma que a era dos gigantes filosóficos terminou porque agora temos mais filósofos bem treinados que em qualquer outra época, e que eles estão ocupados resolvendo problemas filosóficos. De acordo com Searle, eles são todos tão bons no que fazem que ninguém se destaca. De determinada perspectiva, esta é uma postura muito generosa a ser assumida, um pouco como um general examinando suas divisões e alegando que cada um de seus soldados é um herói. Mas, do mesmo modo que talvez tenhamos mais equipamentos militares do que inimigos, pode ser que tenhamos mais filósofos que problemas. Como o general que deseja que o governo continue elevando o orçamento militar para proteger o seu emprego e os dos seus soldados, o professor de filosofia necessita mais financiamento para manter sua equipe de filósofos, todos eles ocupados em resolver problemas filosóficos.

Velhos problemas
Que problemas? J. L. Austin observou certa vez que os gregos haviam identificado cerca de mil problemas filosóficos e que, depois de Ludwig Wittgenstein, eles estavam prestes a serem resolvidos. A. J. Ayer afirmou que o trabalho de resolver problemas filosóficos estava quase terminado.
Por outro lado, John Searle acredita que há muito mais a fazer. “Eu estimaria que aproximadamente noventa por cento dos problemas filosóficos deixados a nós pelos gregos permanecem conosco”, diz ele, “e que ainda não encontramos um modo científico, linguístico ou matemático de responder a eles”.
Richard Rorty suspeitava que grande parte da preocupação da filosofia moderna com a linguagem era, no fundo, uma desculpa para se ocupar. Problemas são o que os filósofos dizem que eles são, e eles se resolvem quando os filósofos assim afirmam (mas somente no mundo dos jogos de linguagem que alguns filósofos compartilham com outros a quem persuadem). Rorty estava falando como um neopragmatista cujo herói era John Dewey, mas ele pode ter tido George Santayana em mente quando renunciou ao seu posto de filosofia em Princeton e trocou-o por um de humanidades na Universidade da Virgínia. Santayana abandonou seu cargo em Harvard por uma existência errante pela Europa, finalmente se fixando na Itália de Mussolini, onde ficou doente e morreu. Santayana deixou a academia cheio de desprezo por um jardim coberto pela “erva daninha do academicismo trivial e estreito”.
A abdicação de Rorty do seu cargo não significou um abandono da filosofia; o que mudou foi que ele não mais ganhava seu dinheiro trabalhando como professor.
Agora ele era um professor de humanidades e, em Stanford, ele chegou até mesmo a trabalhar no departamento de literatura (confirmando, talvez, a opinião de alguns filósofos analíticos de que alguém que flerta tanto com a filosofia continental não é um filósofo, mas sim um mero literato).

Novos problemas
No que trabalharão os pensadores à medida que o século XXI se desenrolar? Alguns darão aulas de história da filosofia e da ciência – um trabalho que precisa ser executado. Entender toda a série de perguntas sobre as quais os filósofos filosofaram – que, no caso de Aristóteles, Kant e Hegel, significa tudo – fornecerá pistas para a solução de problemas do passado e do futuro. E esses problemas não dirão respeito somente à linguagem e à matemática.
Eles incluirão ainda novos problemas que surgirão daquilo que acontece conosco no mundo atual. O terrorismo levanta questões importantes sobre crença e razão.
Como o diálogo pode ser possível entre os pontos de vista fundamentalista e pósiluminista?
Nossas respostas ao terrorismo demandam estudo e orientação filosóficos: guerra preventiva; o uso da tortura; respeito pelas fronteiras internacionais em busca daqueles que julgamos nossos inimigos. O que é um cálculo aceitável de mortes civis? O que dizer sobre prisão perpétua sem habeas corpus? A “guerra ao terror”: o que isso significa? O que é “terror”? Quem é terrorista? O Ocidente deveria usar os valores de seus inimigos na busca por eles? E, caso sim, como isso nos afeta? Os governos deveriam restringir nossas liberdades civis para lutar contra o terrorismo (para proteger nossas liberdades civis...)?
Para além da guerra, a globalização suscita questões sobre escassez para dezenas de milhões de pessoas ao redor do mundo. Será que deveríamos desafiar o ponto de vista dos que negam as mudanças climáticas? Os governos têm o dever de proteger os recursos da Terra? As corporações têm o direito de explorar esses recursos até que eles estejam esgotados?
Há muitas outras questões éticas a serem enfrentadas por filósofos, do aborto a avanços na biotecnologia. A guerra nuclear tem ameaçado a humanidade por mais de 65 anos. Alguns especialistas acreditam que, ainda durante o tempo de vida da maior parte dos leitores deste livro, algum grupo terrorista detonará um dispositivo nuclear.
Embora esses temas estejam longe de compor uma lista exaustiva das questões disponíveis à análise dos filósofos modernos, eles devem mantê-los ocupados por algum tempo.

 (Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno)
Difusão da inovação no século XXI

publicado às 22:57


OS CONSTRUTORES DE MONUMENTOS

por Thynus, em 22.03.16

UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA decente deveria ser baseada no princípio do consentimento dos governados. Essa idéia ganhou aceitação geral, mas pode ser contestada tanto por ser muito forte quanto por ser muito fraca. Muito forte, porque sugere que as pessoas devem ser governadas e controladas. Muito fraca, porque mesmo os governadores mais brutais precisam, em certa medida, do consentimento dos governados,  e geralmente o obtêm não apenas à força.

(Noam Chomsky) 

A propaganda representa para a democracia aquilo que o cacetete (isto é, a polícia política) significa para o estado totalitário.
(Noam Chomsky)   

 

 

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O “Grupo dos Trabalhadores”, tem matriz inspirativa outra, michelangiana, contudo de cunho heróico, baseado no sacrifício pessoal despendido em prol de um ideal social e coletivo

 

O que foi uma vez um pretenso ideal É agora um esqueleto esfarrapado agitando-se como um espantalho ao vento, sobre todo o mundo; mas os homens carecem de coragem para dar uma olhada para cima e descobrir a caveira com seu sorriso malicioso exposto sob os trapos ensanguentados. Este esqueleto é o socialismo.

Há cinquenta anos atrás, deve ter havido alguma desculpa (embora sem justificativa) para a crença generalizada de que o socialismo é uma teoria política motivada pela benevolência e que aspira a conquista do bem-estar dos homens. Hoje, esta crença já não pode ser considerada como um erro inocente. O socialismo foi tentado em cada continente do globo. À luz de seus resultados, está na hora de se perguntar os motivos dos defensores do socialismo.

A característica essencial do socialismo é a negação dos direitos da propriedade individual; sob este sistema, o direito à propriedade (o direito de uso e controle) é outorgado à “sociedade como um todo”, isto é, coletivamente; a produção e a distribuição são controladas peio Estado, ou seja, pelo governo.

O socialismo pode ser estabelecido pela força, como na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas — ou por voto, como na Alemanha (Nacional Socialista) Nazista. O grau de socialização pode ser total, como na Rússia — ou parcial, como na Inglaterra. Teoricamente, as diferenças são superficiais; na prática são apenas uma questão de tempo. O princípio básico, em todos os casos, é o mesmo.

Os supostos objetivos do socialismo eram: abolição da pobreza, conquista da prosperidade geral, do progresso, da paz e da fraternidade humana. Os resultados têm sido um fracasso aterrorizante —- aterrorizante no caso da razão ser o bem-estar dos homens.

Ao invés de prosperidade, o socialismo trouxe a paralisia e/ou colapso econômico a cada país que o experimentou. O grau de socialização tem sido o grau do desastre. As consequências têm variado correspondentemente.

A Inglaterra, uma vez a nação mais livre e mais orgulhosa da Europa, foi reduzida ao status de uma potência de segunda classe e está perecendo lentamente de hemofilia, perdendo o melhor de seu sangue econômico : a classe média e os profissionais. Os homens capazes, competentes, produtivos e independentes estão partindo aos milhares, migrando para o Canadá ou Estados Unidos, na busca da liberdade. Estão fugindo do reino da mediocridade, desse desagradável lar para pobres de onde, tendo vendido seus direitos em troca de dentaduras grátis, os reclusos estão agora se queixando que preferem ser vermelhos do que mortos.

Em países mais completamente socializados, a fome foi o começo, a insígnia que anunciava o regime socialista — como na Rússia Soviética, na China Vermelha, em Cuba. Nestes países, o socialismo reduziu o povo a uma pobreza inexprimível de eras pré-industriais, à literal inanição, e manteve-os num nível estagnado de miséria.

Não, não é “apenas temporário”, como os apologistas do socialismo têm dito por meio século. Após quarenta e cinco anos de planejamento governamental, a Rússia ainda é incapaz de resolver o problema de alimentar sua população.

No que diz respeito à produtividade superior e à rapidez de progresso econômico, a pergunta de todas as comparações entre o capitalismo e o socialismo foi respondida de uma vez por todas — para qualquer pessoa honesta — pela presente diferença entre Berlim Ocidental e Oriental. Ao invés de paz, o socialismo apresentou um novo tipo de insensatez horripilante, nas relações internacionais — a “guerra fria”, que é o estado de guerra crônica com períodos não-declara-dos de paz entre invasões injustificadamente repentinas — com a Rússia apoderando-se de um terço do globo, com as tribos e nações socialistas nas gargantas uns dos outros, com a índia socialista invadindo Goa, e a China comunista invadindo a Índia socialista.

Um sinal eloquente da corrupção moral de nossa era é a complacência insensível com a qual a maioria dos socialistas e seus simpatizantes, os “liberais”, consideram as atrocidades perpetradas nos países socialistas, É como aceitam o governo pelo terror como um meio de vida — enquanto posam como defensores da “fraternidade humana”. Na década de trinta deste século, protestaram contra as atrocidades da Alemanha Nazista. Mas, aparentemente, não foi uma questão de princípios, mas apenas o protesto de uma gangue rival lutando pelo mesmo território — porque não ouvimos mais suas vozes.

Em nome da “humanidade”, eles toleram e aceitam a abolição de toda liberdade e todos os direitos, a expropriação de toda a propriedade, execuções sem julgamento, câmaras de torturas, campos de trabalho escravo, a chacina em massa de incontáveis milhões na Rússia Soviética — e o horror sangrento de Berlim Oriental, incluindo os corpos crivados de balas de crianças que tentavam escapar.

Quando se observa, como num pesadelo, esforços desesperados feitos por centenas de milhares de pessoas lutando para fugir dos países socializados da Europa, para fugir das cercas de arame farpado, sob o fogo de metralhadoras — já não se pode acreditar que o socialismo, em qualquer de suas formas, é motivado pela benevolência e pelo desejo de alcançar o bem-estar dos homens. Nenhum homem autenticamente benevolente poderia fugir ou ignorar tamanho horror em tão vasta escala.

O socialismo não é um movimento do povo. É um movimento de intelectuais, levado por eles para fora de suas torres sufocantes de marfim em direção a estes campos sangrentos da prática onde se unem com seus aliados e executores: os facínoras.

Qual é então o motivo destes intelectuais? Ânsia de poder. A ânsia de poder — como uma manifestação de desamparo, de auto-repugnância e de desejo pelo não-merecido.

O desejo pelo não-merecido tem dois aspectos: o não-merecido em matéria e o não-merecido em espírito, (Por “espírito” quero dizer: a consciência do homem.) Estes dois aspectos estão necessariamente interrelacionados, mas o desejo de um homem pode ser focalizado predominantemente em um ou em outro. O desejo pelo não-merecido em espírito é o mais destrutivo dos dois e o mais corrupto. É o desejo pela magnitude não-merecida, é expresso (mas não definido) pela escuridão nebulosa do termo “prestígio”.

Os caçadores de benefícios materiais não-merecidos são simplesmente parasitas financeiros, vagabundos, saqueadores ou criminosos, limitados demais em número e em inteligência para serem uma ameaça à civilização, até e a menos que sejam libertados e legalizados pelos caçadores da grandiosidade não-merecida.

A grandiosidade não-merecida é tão irreal, tão neurótica em conceito, que o infeliz que a procura não pode identificá-la: identificá-la é torná-la impossível. Ele precisa de slogans irracionais e indefiníveis do altruísmo e do coletivismo para dar uma forma semi-plausível ao seu impulso anônimo e ancorá-lo na realidade — para sustentar sua própria auto-decepção mais do que enganar suas vítimas. “O público”, “o interesse público”, “o serviço ao público” são os meios, as ferramentas, os pêndulos oscilantes da auto-hipnose daquele que vive a ânsia do poder.

Dado que não existe a entidade “o público”; dado que o público é simplesmente um número de indivíduos, qualquer pretensão ou conflito implícito entre “interesse público” e interesses privados significa que os interesses de alguns homens devem ser sacrificados aos interesses e desejos de outros. Já que o conceito é tão convenientemente indefinível, seu uso repousa apenas em qualquer habilidade das supostas gangues para declarar que “O público, c’est moi” — e sustentar a pretensão a ponta de faca.

Nenhuma pretensão desse tipo foi ou pôde alguma vez ser mantida sem ajuda de uma arma — isto é, sem força física, Mas, por outro lado, sem esta pretensão, os pistoleiros permaneceriam no lugar a que pertencem: no submundo, e não subiriam aos conselhos de estado para dirigir os destinos das nações.

Há duas maneiras de reclamar que “O público, c’est moi”: uma é praticada peio parasita moral bruto que clama por distribuições governamentais em nome de uma necessidade “pública” e embolsa o que não mereceu; a outra é praticada por seu líder, o parasita espiritual que tira sua ilusão de “grandiosidade” — como um receptador acolhendo produtos roubados — do poder para dispor do que não mereceu e da visão mística de si mesmo como a voz encarnada “do público”.

Dos dois, o parasita material é o psicologicamente mais saudável e mais próximo da realidade; pelo menos, come ou veste seu saque. Porém, a única fonte de satisfação aberta ao parasita espiritual, seu único meio de ganhar “prestígio” (além de dar ordens e espalhar terror), é a mais supérflua, inútil e sem sentido de todas as atividades: a construção de monumentos públicos. A grandiosidade é alcançada pelo esforço produtivo da mente de um homem na busca de objetivos racionais claramente definidos. Mas uma ilusão de grandeza pode ser realizada apenas pela mutável e indefinível quimera de um monumento público — apresentado como um presente generoso às vítimas cujo trabalho forçado e dinheiro extorquido pagaram-no — dedicado ao serviço de iodos e de ninguém, pertencente a todos e a ninguém, admirado por todos e aproveitado por ninguém.

 

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Monumento em homenagem aos "conquistadores do espaço", localizado nas proximidades no Museu Cosmonáutico, em Moscou

 

Esta é a única maneira que os dirigentes têm de aplacar sua obsessão: “prestígio”. Prestígio — aos olhos de quem? De ninguém. Aos olhos de suas vítimas torturadas, dos mendigos nas ruas de seu remado, dos aduladores de sua corte, das tribos estrangeiras e seus dirigentes. Foi para impressionar a todos estes olhos — os olhos de todos e de ninguém — que o sangue de gerações de súditos foi derramado e gasto.

Pode-se ver, em certos filmes bíblicos, uma imagem gráfica do significado da construção de um monumento público: a construção das pirâmides. Hordas de homens famintos, esfarrapados e emagrecidos fazendo um último esforço com seus músculos insuficientes à tarefa desumana de puxar as cordas que arrastam enormes pedaços de pedra, esforçando-se como bestas de carga torturadas sob as chicotadas de feitores, desfalecendo no trabalho e morrendo nas areias do deserto — para que um faraó morto possa descansar numa estrutura imponentemente sem sentido e, deste modo, ganhar o “prestígio” eterno aos olhos das futuras gerações por nascerem.

Templos e palácios são os únicos monumentos deixados pelas civilizações primitivas do gênero humano. Foram criados pelos mesmos meios e ao mesmo preço — um preço não justificado pelo fato de que os povos primitivos indubitavelmente acreditavam, enquanto morriam de fome e exaustão, que o “prestígio” de sua tribo, seus dirigentes e seus deuses era, de alguma maneira, de valor para eles. Roma caiu, falida por tributos e controles do Estado, enquanto seus imperadores estavam construindo coliseus, Luís XIV da França tributou seu povo até o estado de indigência, enquanto construía o Palácio de Versalhes para que monarcas seus contemporâneos o invejassem e para os turistas modernos visitarem. O metrô revestido de mármore em Moscou, construído pelo trabalho “voluntário” e não-pago de trabalhadores russos, incluindo mulheres, é um monumento público, assim como o é o luxo similar das recepções czaristas a caviar e champanha nas embaixadas soviéticas, necessárias — enquanto o povo fica na fila por rações insuficientes de comida — para ‘‘manter o prestígio da União Soviética”.

A grande distinção dos Estados Unidos da América, até as últimas poucas décadas, foi a modéstia de seus monumentos públicos, Estes monumentos tal como existiam eram genuínos: não eram erigidos para “prestígio”, mas eram estruturas funcionais que acolhiam eventos de grande importância histórica. Se você já viu a austera simplicidade do Independence Hall, percebeu a diferença entre uma grandeza autêntica e as pirâmides de “espírito público” dos caçadores de prestígio.

Na América, o esforço humano e os recursos materiais não foram expropriados para a construção de monumentos e projetos públicos, mas gastos do progresso do bem-estar individual, pessoal e particular de cada cidadão. A magnitude da América repousa no fato de que seus monumentos reais não são públicos.

O horizonte de Nova Iorque é um monumento de um esplendor a que nenhuma pirâmide ou palácio se igualará ou aproximar-se-á. Porém os arranha-céus não foram construídos com fundos públicos, nem com um propósito público: foram construídos pela energia, iniciativa e riqueza dos indivíduos comuns para lucro pessoal. E, ao invés do empobrecimento do povo, estes arranha-céus, assim como subiram cada vez mais altos, continuaram aumentando o padrão de vida do povo — incluindo os habitantes das favelas, que levam uma vida de luxo, comparada à dos antigos escravos egípcios ou de um trabalhador socialista moderno.

Esta é a diferença — na teoria e na prática — entre o capitalismo e o socialismo.

É impossível calcular o sofrimento humano, a degradação, as privações e o horror que constituíram o pagamento de um único dos chamativos arranha-céus de Moscou, ou das fábricas soviéticas, ou minas ou barragens, ou qualquer parte de sua “industrialização” sustentada a sangue e saques, O que de fato sabemos, entretanto, é que quarenta e cinco anos é um longo tempo: é o tempo de duas gerações; sabemos, também, que, em nome de unia prometida abundância, duas gerações de seres humanos têm vivido e morrido em pobreza sub-humana; e sabemos, também, que os defensores atuais do socialismo não são desencorajados por um fato deste tipo.

Independentemente do motivo que eles possam dar, a benevolência é algo a que já há muito perderam o direito de reivindicar.

A ideologia da socialização (numa forma neofascista) está atualmente flutuando, por negligência, através do vácuo de nossa atmosfera cultural e intelectual. Observe quão frequentemente somos questionados por “sacrifícios’5' indefinidos para propósitos não-especificados. Observe quão frequentemente a administração presente está invocando “o interesse público”. Observe que proeminência a questão do prestígio internacional repentinamente adquiriu, e que políticos grotescamente suicidas são justificados por referências a questões de “prestígio”. Observe que durante a recente crise cubana — quando a questão factual dizia respeito a mísseis e guerra nucleares — nossos diplomatas e comentaristas acharam adequado pesar seriamente em coisas como o “prestígio”, os sentimentos pessoais e o “salvar as aparências” dos diversos dirigentes socialistas envolvidos.

Não há distinção entre os princípios, as políticas e os resultados práticos do socialismo — e daqueles de qualquer tirania histórica ou pré-histórica, O socialismo é simplesmente uma monarquia absolutista democrática — isto é, um sistema de absolutismo sem um chefe fixo, aberto ao roubo de poder por todos os que se aproximam, por qualquer alpinista implacável, oportunista, aventureiro, demagogo ou facínora.

Quando você julgar o socialismo, não se engane sobre a sua natureza. Lembre-se de que não há a tal dicotomia de “direitos humanos” versus “direito de propriedade”. Nenhum direito humano pode existir sem direito â propriedade. Já que os produtos materiais são produzidos pela mente e esforço de homens individuais, e são necessários para sustentar suas vidas, se o produtor não possui o resultado de seu esforço, não possui sua própria vida. Negar os direitos de propriedade significa transformar homens em 'propriedades possuídas pelo Estado. Quem quer que reivindique o “direito” a “redistribuir” a riqueza produzida por outros, estará reivindicando o “direito” de tratar os seres humanos como um bem móvel.

Quando você julgar a devastação global perpetrada pelo socialismo, o mar de sangue e os milhões de vítimas, lembre-se de que estas foram sacrificadas, não pelo “bem da humanidade”, nem por um “ideal nobre”, mas pela vaidade envenenada de algum brutamontes amedrontado ou alguém mediocremente pretensioso que almejou um manto de “grandeza” não-merecida — e que o monumento ao socialismo é uma pirâmide de fábricas públicas, teatros públicos e parques públicos, erigidos sobre a fundação de um cadáver humano, com a figura do dirigente posando no alto, batendo no peito e gritando sua justificativa pelo “prestígio” ao vazio sem estrelas abaixo dele.

 

(Dezembro de 1962)

(Ayn Rand - A Virtude do Egoísmo - a verdadeira ética do homem: o egoísmo nacional)

 

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Por suavez, o conjunto expressionista “O Progresso”, consistente no “Cavalo Alado”, no“Homem do Futuro” e na “Vitória”; se inspira na idealizada elevação dos povos pelo progresso social através do engenho, da visão de futuro, da ciência, da tecnologia, da ética, do trabalho, do dever-ser

publicado às 21:28


Pátria Traída

por Thynus, em 22.03.16

 

Eça de Queiroz, políticos e fraldas

 

O que é Pátria? Pátria é tudo o que existe em um território demarcado de uma nação, sua natureza, os cidadãos e cidadãs, os seres humanos acolhidos neste território, todos os monumentos, a água, a geografia, o subsolo, a plataforma continental, as tradições, os costumes, a Constituição e as leis, a idiossincrasia, a história, os ancestrais, tudo o que está relacionado com a bandeira que representa tudo isto, a Nação, que comporta a necessidade das forças armadas e das forças de segurança pública. Tudo isto, e muito mais, é a nossa Pátria.

O que é Traição à Pátria? Traição, em maior ou menor grau, é agredir a Pátria ou algo que a representa, por palavras ou ações (Emitir opinião não é traição nem sair para as ruas em manifestação contra o que se julga errado, que isso é exercer a cidadania).  Traição é prejudicar gravemente a Nação no seu interior ou no exterior. Podemos dar alguns exemplos de traição à Pátria:

  1. Em meio a uma guerra em que a Nação se defende, fugir do inimigo ou cooperar com o inimigo, ou agir em favor do inimigo.
  1. Usar de ações violentas para derrubar o patrimônio da nação quer sejam edifícios, ou meios de transporte, serviços públicos, pessoas, ou qualquer outro bem que esteja dentro das fronteiras da nação, incluindo embaixadas no exterior. Um breve ou profundo olhar pela História da humanidade pode constatar que a violência nunca, em tempo algum, resolveu de forma definitiva algum problema neste planeta.
  1. Uso indevido de verbas públicas, porque pessoas eleitas para distribuí-las de acordo com as necessidades da Nação, quer tenham instrução ou não, não podem alegar desconhecimento dessa transgressão, por se trata de falta de moral e de ética para as quais não existe diploma específico de qualquer universidade do mundo. Eleitores podem conhecer perfeitamente o que é moral e ética, e podem até saber discernir o que é ético ou não, mas não podem adivinhar se os candidatos que lhe são apresentados pelos Partidos Políticos atuam dentro da moral e da ética.
  1.  A compra de votos é uma traição à Pátria. Não pode ser apenas multada tal atividade, porque de onde veio o dinheiro para a compra, pode vir mais para pagar a multa, normalmente de baixo valor. É uma atividade que destorce, modifica, altera, a representatividade dos cidadãos. Compra de votos no Senado ou nas Câmaras, onde se decidem os destinos da Nação, é traição em primeiro grau, a mais grave de todas, só comparável à compra de votos dos cidadãos necessitados, que vendem seus votos em troca de alimento ou qualquer outro benefício que o próprio estado não lhes proporcionou e deveria proporcionar. Ministros que já foram demitidos e outros que o mereciam, como exemplo, podem atestar que é relativamente fácil tirar proveito do cargo, ou desviar verbas. A moral e a ética têm que, através de leis justas, serem separadas da capacidade de “comprar”, coisa que o Tráfico de Drogas, os desviadores de verbas públicas, e os que aumentam seus próprios salários através de leis que aprovam em conjunto, tirando partido próprio, sabem muito bem como fazer, como fazem, e como fazer.
  1. Assumir cargos em pastas sem educação específica para o cargo é traição à Pátria. Não se pode entender como justo que não seja um Economista experiente, aprovado por concurso público e por votação, a ocupar a pasta de Ministro da Economia, nem alguém que não seja militar a ocupar a pasta de Ministro das Forças Armadas, nem ministro da Saúde a alguém que não tenha curso de administração e de Medicina com experiência comprovada. A “confiança” em alguém que não esteja devidamente preparado, não é confiança: É ignorância, e não se pode ser governado por ignorantes nem por analfabetos. Analfabetos assinam qualquer coisa. Apenas com esperança e fé, se poderia eleger Maomé, Jesus, Moisés, Buda, Vishnu, ou o Rei de Jade, que eles governariam o mundo através da “inspiração divina”. Seria um absurdo. Este tempo já passou. A realidade é a realidade. Tudo o que não é real é outra coisa fora deste nosso mundo em que temos de nos governar a nós mesmos.
  1. Traição à Pátria, é alterar a Constituição através de Atos Institucionais ou Medidas Provisórias – Não se pode acreditar em Medidas Provisórias porque elas não têm prazo definido para viger, que até nisso nos mentem e nos tentam enganar. Como aceitar Medidas Provisórias se não dizem em que prazo elas serão aplicadas?  

Uma das piores traições à Pátria é manter no senado alguém que foi previamente condenado pela justiça, ainda que dependa, sua condenação, de avaliação de recursos, porque a Lei é a lei e enquanto em julgamento, a confiança, aquela que lhe deu os votos, se perde até a confirmação da pena ou de sua absolvição. Se absolvido, pode voltar ao senado. Enquanto não se esgotar o julgamento, o lugar de condenados não é certamente no Senado, uma casa que deveria honrar a Lei.

Nossa República nos trai e nos traiu, a nós, cidadãos brasileiros, de todos os partidos políticos e sem partido, muito mais nestes últimos doze anos, do que em toda a história do Brasil desde o ano de 1.500. Porquê? Porque perdemos um dos melhores períodos da História em que os paises emergentes aproveitaram para se desenvolver, e ficamos atrasados, parados,s estagnados, consumidos por inflação, desperdícios, corrupção, desvios de verbas. Nossa Nação parou no tempo por causa de vontades expressas por políticos desqualificados e sem instrução que não percebem os intricados mecanismos que regem as ciências, o conhecimento, os atos de governar. É uma vontade desqualificada, vazia, inexeqüível, que a ignorância não permite perceber. O povo percebe nos bolsos, na saúde, nos transportes, na educação, na segurança. Nada disto funciona e muito menos evolui.


© Rui Rodrigues

 

Hey seu drogado de merda no meio da rua.
Você é um vagabundo e quem paga sou eu
Tua bebida tua droga teu crack
Mas você não vai matar mais um dos meus
É comunista fodendo o país
É um puto corrupto que não sabe o que diz
É só vagabundo dizendo que "agora tá bom"
"Tá bom" é no teu cu!

Assassino, bandido estuprador
Em país de sacana é imperador
Futebol é o caralho, não vou me esquecer
Por que agora é vagabundo que vai morrer
Quem poupa o lobo sacrifica o cordeiro.
Roubo estuprou matou ficou com nosso dinheiro
O direto é de quem trabalha até escorrer o suor
E não de um vagabundo que se diz "de menor"

Eu quero dizer eu vou me orgulhar
Eu quero dizer que um dia vai dar
Eu quero dizer que não vou mais temer
Mas é só bandido puta e vagabundo pra ver
Eu quero dizer eu vou me orgulhar
Eu quero dizer que um dia vai dar
Eu quero dizer que não vou mais temer
Mas é só a bolsa esmola e futebol que eu vou ter

Eu quero dizer eu vou me orgulhar
Eu quero dizer que um dia vai dar
Eu quero dizer que não vou mais temer
Levanta brasil é lutar ou morrer
É auxilio bandido para quem quer matar
70 Por cento de imposto para quem quer trabalhar
Droga pode comprar, mas não pode vender
É lei de imbecil para você se fuder.

É aula de sexo no maternal
É menina de 15 em suruba é normal
Metaleiro de preto se achando o tal
Cheirando coca, filho da puta, achando que é mau.
Mas tem estádio novo para imbecil torcer
Mais 90 mil para de bala morrer.
Futebol é o caralho, não vou me esquecer,
Por que agora é vagabundo que vai perecer

Quem poupa o lobo sacrifica o cordeiro.
Roubo estuprou matou ficou com nosso dinheiro
O direto é de quem trabalha até escorrer o suor
E não de um vagabundo que se diz "de menor"
Eu quero dizer eu vou me orgulhar
Eu quero dizer que um dia vai dar
Eu quero dizer que não vou mais temer

Mas é só bandido puta vagabundo que eu vou ver
Eu quero dizer eu vou me orgulhar
Eu quero dizer que um dia vai dar
Eu quero dizer que não vou mais temer
Mas é a bolsa esmola e futebol é oque eu vou ver
Eu quero dizer eu vou me orgulhar
Eu quero dizer que um dia vai dar
Eu quero dizer que não vou mais temer
Levanta brasil é lutar ou morrer

Nando Moura

publicado às 03:14

Alguns estudantes do Objetivismo acham difícil entender o princípio Objetivista de que “não existem conflitos de interesse entre homens racionais”.
Uma pergunta típica é a seguinte: “Suponha que dois homens se candidatem para o mesmo emprego. Apenas um pode ser empregado. Não será este um exemplo de conflito de interesses, e não se beneficiará um deles à custa do sacrifício do outro?”.
Existem quatro considerações inter-relacionadas envolvidas na visão dos interesses de um homem racional, mas ignoradas ou evadidas na pergunta acima e em todas as abordagens parecidas da questão, Eu as designaria como: (a) “Realidade”, (b) “Contexto”, (c) “Responsabilidade”, (d) “Esforço”.

(a) Realidade. O termo “interesses” é uma ampla abstração que cobre todo o campo da ética. Inclui as questões de: valores do homem, seus desejos, metas e sua verdadeira conquista, na realidade. Os “interesses” de um homem dependem do tipo de meta que escolha buscar; sua escolha de metas depende dos seus desejos, estes dependem dos seus valores — e, para um homem racional, os valores dependem do juízo de sua razão.
Os desejos (ou sentimentos ou emoções ou vontades ou caprichos) não são armas da cognição; não são um padrão válido de valor, nem um critério válido dos interesses do homem, O mero fato de um homem desejar algo não constitui uma prova de que o objeto do seu desejo é bom, nem de que a conquista é realmente de seu interesse.
Alegar que os interesses de um homem são sacrificados toda vez que um desejo seu é frustrado, é ter uma visão subjetivista dos valores e interesses do homem, O que significa: acreditar que é adequado, moral e possível ao homem alcançar suas metas, indiferentemente de contradizerem os fatos da realidade ou não. O que significa: ter uma visão irracional ou mística da existência. O que significa: não merecer nenhuma consideração adicional.
Ao escolher suas metas (os valores específicos que visa obter e/ou manter), ura homem racional é guiado peio seu pensar (por um processo da razão) — não por seus sentimentos ou desejos, Não considera desejos como premissas irredutíveis, como aquelas dadas, que é destinado irresistivelmente a buscar, Ele não considera “porque eu o quero” ou “porque eu tenho vontade” como uma causa ou validação suficiente de seus atos, Escolhe e/ou identifica seus desejos por um processo da razão e não age para realizar um desejo até e a menos que seja capaz de racionalmente validá-lo no contexto completo do seu conhecimento e dos seus outros valores e objetivos. Ele não age até que possa dizer: “Eu quero isto porque é certo.”
A Lei de Identidade (A é A) é a consideração suprema de um homem racional no processo de determinar seus interesses. Ele sabe que o contraditório é o impossível, que uma contradição não pode ser alcançada na realidade, e que a tentativa de alcançá-la pode somente levar ao desastre e à destruição. Por conseguinte, não se permite ter valores contraditórios ou imaginar que a busca de uma contradição possa, um dia, ser de seu interesse.
Apenas um irracionalista (ou místico ou subjetivista — em cuja categoria posiciono todos aqueles que consideram a fé, os sentimentos ou desejos como o padrão de valor de um homem) vive em um perpétuo conflito de interesses, Não somente os seus supostos interesses se chocam com os de outros homens, mas também se chocam entre si.
Ninguém considera difícil descartar de uma consideração filosófica o problema de um homem que se lamenta de que a vida o colocou num conflito irreconciliável porque ele não pode comer a sobremesa e ao mesmo tempo guardá-la. Este problema não adquire validade intelectual por ser ampliado até englobar questões além de sobremesas — se for expandido para todo o universo, como nas doutrinas do Existencialismo, ou apenas para poucos caprichos e evasões eventuais, como nas visões da maior parte das pessoas a respeito dos seus interesses.
Quando uma pessoa alcança o estágio de afirmar que os interesses do homem se conflitam com a realidade, o conceito “interesses” deixa de ser significativo — e o problema deste deixa de ser filosófico e se torna psicológico.

(b) Contexto. Assim como um homem racional não possui nenhuma convicção fora de contexto — ou seja: sem relacioná-la com o resto do seu conhecimento e resolver quaisquer possíveis contradições —, também não possui ou busca nenhum desejo fora de contexto. E não julga o que é ou não é de seu interesse fora de contexto.
Esquecer o contexto é uma das principais armas psicológicas de evasão. Com relação aos desejos do indivíduo, há duas formas de abandonar o contexto: as questões de alcance e de meios. Um homem racional vê seus interesses em termos de toda uma vida e seleciona as suas diretrizes de acordo, isto não significa que tenha de ser onisciente, infalível ou clarividente. Significa que ele não vive sua vida a curto prazo e não vagueia como um beberrão impulsionado pelo imprevisto.
Significa que não considera nenhum momento como separado do contexto do resto de sua vida, e que não permite conflitos ou contradições entre os seus interesses de curto ou longo prazos, Ele não se torna seu próprio destruidor buscando um desejo, hoje, que destruirá todos os seus valores, amanhã. Um homem racional não se permite melancólicos desejos dirigidos a fins divorciados dos meios de que dispõe. Não se apega a um desejo sem saber (ou aprender) e considerar os meios pelos quais consegui-lo. Dado que sabe que a natureza não provê o homem de satisfação automática dos seus desejos; que as metas e valores de um homem devem ser conquistados pelo seu próprio esforço; que as vidas e esforços de outros homens não são sua propriedade e não estão lá para servir aos seus desejos — um homem racional não tem um desejo ou busca um objetivo que não possa ser alcançado direta ou indiretamente por seu próprio esforço.
É com um entendimento adequado deste “indiretamente” que a questão social decisiva inicia-se. Viver em uma sociedade, ao invés de numa ilha deserta, não alivia o homem de sua responsabilidade de sustentar sua própria vida. A única diferença é que ele sustenta a sua vida comercializam« do os seus produtos ou serviços pelos produtos ou serviços de outros, E, neste processo de comércio, um homem racional não procura ou deseja nada mais ou nada menos do que seu próprio esforço possa ganhar. O que determina seus ganhos? O mercado livre, isto é: a escolha e julgamento voluntários dos homens que estão prontos a comercializar com ele seus próprios esforços.
Quando um homem negocia com outros, está contando — explícita ou implicitamente — com a racionalidade deles, ou seja; com a habilidade destes de reconhecerem o valor objetivo do seu trabalho. (Um negócio baseado em qualquer outra premissa é um jogo de truques ou uma fraude.) Deste modo, quando um homem racional busca uma meta em unia sociedade livre, não se coloca à mercê dos caprichos, favores ou preconceitos de outros; depende somente do seu próprio esforço: diretamente, fazendo trabalho objetivamente de valor — indiretamente, através da avaliação objetiva do seu trabalho por outros.
É neste sentido que um homem racional nunca mantém um desejo ou busca um objetivo que não possa ser alcançado por seu próprio esforço. Ele comercializa valor por valor. Nunca procura ou deseja o imerecido. Se decide alcançar um objetivo que requer a cooperação de muitas pessoas, nunca conta com nada mais do que a sua própria habilidade de persuadi-las, bem como a concordância voluntária delas.
É desnecessário dizer que um homem racional nunca distorce ou corrompe seus próprios critérios e juízo para apelar à irracionalidade, estupidez e desonestidade de outros. Ele sabe que este rumo é suicida. Sabe que a única chance prática de se alcançar qualquer grau de sucesso ou qualquer coisa humanamente desejável repousa em negociar com aqueles que são racionais, indiferentemente de serem muitos ou poucos. Se, em qualquer circunstância dada, é possível obter vitória, somente a razão: pode lográ-la. E, em uma sociedade livre, indiferentemente de quão difícil seja a luta, a razão é que, por final, vence.
Dado que nunca abandona o contexto das questões com as quais lida, um homem racional aceita aquela luta como de seu interesse — porque sabe que a liberdade é de seu interesse. Sabe que a luta para alcançar seus valores inclui a possibilidade de derrota. Também sabe que não há nenhuma alternativa e nenhuma garantia automática de sucesso pelo esforço humano, nem ao lidar com a natureza, nem com outros homens. Então ele não julga os seus interesses por nenhum fracasso específico, nem pelo alcance de nenhum momento em particular. Vive e julga a longo prazo. E assume a completa responsabilidade de saber que condições são necessárias para a conquista dos seus objetivos.

(c) Responsabilidade. Esta última é a forma particular da responsabilidade intelectual da qual a maioria das pessoas foge. Essa fuga é a causa majoritária de suas frustrações e fracassos. A maior parte das pessoas tem desejos fora de qualquer contexto, como se fossem metas suspensas em um vácuo nebuloso, a névoa escondendo qualquer conceito sobre os meios para atingilas. Elas se despertam mentalmente apenas o tempo suficiente para proferir um “eu desejo” e param aí, e esperam, como se o resto dependesse de alguma força desconhecida.
Elas fogem é da responsabilidade de julgar o mundo social. Consideram o mundo como dado. “Um mundo que eu nunca construí” é a essência mais profunda de sua atitude — e procuram apenas se ajustar sem criticas aos requisitos incompreensíveis daqueles incognoscíveis outros que, estes sim, construíram o mundo, quem quer que tenham sido.
Mas humildade e presunção são dois lados da mesma moeda psicológica. Na disposição de se entregar cegamente à mercê de outros, existe o privilégio implícito de fazer demandas cegas aos seus mestres.
Existem inúmeras maneiras para este tipo de “humildade metafísica” se revelar. Por exemplo, há o homem que deseja ser rico, mas jamais pensa em descobrir que meios, ações e condições são necessários para alcançar a riqueza. Quem é ele para julgar? Nunca construiu o mundo — e “ninguém lhe deu uma oportunidade”.
Existe a garota que deseja ser amada, mas nunca pensa em descobrir o que é o amor, que valores este requer, e se ela possui alguma virtude pela qual possa ser amada. Quem é ela para julgar? O amor, sente ela, é um benefício inexplicável — então simplesmente o almeja, sentindo que alguém a privou da sua quota na distribuição de benefícios.
Há os país que sofrem profunda e genuinamente porque o seu filho (ou filha) não os ama, e que, simultaneamente, ignoram, se opõem a ou tentam destruir tudo que sabem das convicções, valores e diretrizes de seu filho, nunca pensando na conexão entre estes dois fatos, nunca fazendo uma tentativa de entender seu filho. O mundo que nunca construíram e que não ousam desafiar, disse-lhes que as crianças amam seus pais automaticamente.
Existe o homem que quer um emprego, mas jamais pensa em descobrir que qualificações este requer, ou de que se constituí o fazer um bom trabalho, Quem é ele para julgar? Nunca construiu o mundo. Alguém lhe deve uma vida. Como? De alguma maneira.
Um arquiteto europeu meu conhecido estava falando, um dia, da sua viagem para Porto Rico. Descreveu — muito indignado em relação ao universo como um todo — a sordidez das condições de vida dos porto-riquenhos. Então descreveu as maravilhas que a habitação moderna poderia fazer para eles, as quais havia sonhado em detalhes, incluindo refrigeradores elétricos e banheiros azulejados. Eu perguntei: “Quem pagaria por isto?” Ele respondeu, num tom de voz levemente ofendido, quase irado: “Ah, isto não cabe a mim me preocupar. A incumbência de um arquiteto é somente projetar o que deveria ser feito. Deixe que outra pessoa pense no dinheiro”. Esta é a psicologia de onde partiram todas as “reformas sociais” ou “serviços sociais” ou “experiências nobres” ou a destruição do mundo.
Ao reduzir a responsabilidade pelos próprios interesses e pela própria vida, se reduz a responsabilidade de alguma vez ter de considerar os interesses e vida de outros — daqueles outros que devem, de alguma maneira, proporcionar a satisfação dos nossos próprios desejos. Quem quer que permita um “de alguma maneira” dentro de sua visão dos meios pelos quais seus desejos devem ser alcançados, é culpado daquela “humildade metafísica” que, psicologicamente, é a premissa de um parasita, Como apontou Nathaniel Branden em uma palestra, “de alguma maneira” sempre significa “alguém”.

(d) Esforço. Uma vez que um homem racional sabe que deve conquistar suas metas por seu próprio esforço, sabe que nem a riqueza nem empregos nem quaisquer valores humanos existem em uma quantidade dada, limitada, estática, aguardando ser dividida. Ele sabe que todos os benefícios têm de ser produzidos, que o ganho de um homem não representa a perda de outro s que a realização de um homem não é obtida à custa daqueles que não a alcançaram.
Portanto, ele nunca imagina ter algum tipo de direito a reivindicar o imerecido, unilateral, a qualquer ser humano - e nunca deixa os seus interesses à mercê de qualquer outra pessoa ou de uma ideia concreta, específica, Pode precisar de clientes, mas não de um cliente em particular — pode precisar de fregueses, mas não de um freguês em particular — pode precisar de um emprego, mas não de um emprego em particular.
Se encontra competição, ou a enfrenta, ou escolhe um outro tipo de trabalho. Não existe um emprego tão baixo em que seu melhor e mais habilidoso desempenho passe desapercebido e não apreciado: não em uma sociedade livre. Pergunte a qualquer gerente de empresa.
Somente abúlicos, parasitas da escola da “metafísica da humildade”, veem todo competidor como uma ameaça, porque o pensamento de ganhar uma posição por mérito pessoal não faz parte de sua visão de vida, Eles consideram a si mesmos como mediocridades substituíveis que nada têm a oferecer e que lutam em um universo “estático”, peio benefício sem causa de alguém.
Um homem racional sabe que não se vive por meio de “sorte”, “chances” ou favores, que não existe algo como uma “única chance” ou uma única oportunidade, e que isto é garantido precisamente pela existência da competição. Ele não considera nenhuma meta específica e concreta ou valor como insubstituível. Sabe que apenas pessoas são insubstituíveis — apenas aquelas que se ama.
Sabe, também, que não há conflitos de interesses entre homens racionais, nem mesmo na questão do amor, Assim como qualquer outro valor, o amor não é uma quantidade estática a ser dividida, mas uma resposta ilimitada a ser ganha. O amor por um amigo não é uma ameaça ao amor por outro, e nem o é o amor pelos vários membros de uma família, admitindo-se que eles o ganharam. A forma mais exclusiva — o amor romântico — não é uma questão de competição. Se dois homens estão apaixonados pela mesma mulher, o que ela sente por qualquer um deles não é determinado pelo que sente pelo outro e nem tampouco é tirado dele. Se ela escolhe um, o “perdedor” não poderia ter tido o que o “vencedor” ganhou.
E somente entre pessoas irracionais, motivadas emocionalmente, cujo amor está divorciado de quaisquer critérios de valor, que rivalidades ocasionais, conflitos acidentais e escolhas cegas prevalecem. Mas então, quem quer que vença não vence totalmente. Entre os movidos-a-emoção, nem o amor nem qualquer outra emoção tem qualquer significado.
Essas são, em breve essência, as quatro considerações majoritárias envolvidas na visão de um homem racional sobre os seus interesses.

Agora retornemos â pergunta feita originalmente —- sobre os dois homens se candidatando ao mesmo emprego — e observemos de que maneira ela ignora ou opõe estas quatro considerações.

(a) Realidade. O mero fato de que dois homens desejem o mesmo emprego não constituí prova de que qualquer um deles esteja qualificado para ele ou o mereça e de que seus interesses sejam prejudicados, se não o obtiver.

(b) Contexto. Ambos devem saber que, se desejam o mesmo emprego, sua meta só se torna possível pela existência de um interesse empresarial capaz de prover emprego — que este interesse empresarial requer a disponibilidade de mais de um candidato para qualquer emprego — que se existisse somente um candidato, ele não conseguiria o emprego, porque o interesse empresarial teria que fechar as suas portas — e que sua competição para o mesmo emprego é de seu interesse, muito embora um deles perca naquele conflito específico.

(c) Responsabilidade. Nenhum homem tem o direito moral de declarar que não quer considerar todas estas coisas, apenas quer um emprego. Não lhe é dado o direito a nenhum desejo ou “interesse” sem o conhecimento do que é requisitado para tornar sua execução possível.

(d) Esforço. Quem quer que pegue o emprego, o ganhou (pressupondo-se que a escolha do empregador seja racional). Este benefício se deve ao seu próprio mérito — não ao “sacrifício” do outro homem, que nunca teve nenhum direito adquirido sobre o emprego. O fracasso em dar a um homem o que nunca lhe pertenceu dificilmente pode ser descrito como “sacrificar seus interesses”. Toda a discussão acima somente se aplica a relacionamentos entre homens racionais e não mais do que a uma sociedade livre. Nesta, não se tem de tratar com os que são irracionais. Um indivíduo é livre para evitá-los.

Em uma sociedade carente de liberdade não existe, para ninguém, a possibilidade de buscar interesse algum; nada é possível, exceto a destruição gradual e geral.

(Agosto de 1962)
(Ayn Rand - A Virtude do Egoísmo - a verdadeira ética do homem: o egoísmo nacional)

publicado às 02:47

Os resultados psicológicos do altruísmo podem ser observados no fato de que uma enorme quantidade de pessoas aborda o assunto da ética fazendo perguntas corno: "Deve alguém arriscar a sua vida para ajudar um homem que está: a) se afogando, b) encurralado no meio do fogo, c) caminhando em direção à um caminhão que vem em alta velocidade, d) agarrado pelas unhas à beira de um abismo?”
Considere as implicações de tal abordagem. Se um homem aceita a ética do altruísmo, sofre as seguintes consequências (na proporção do grau de aceitação):
1. Falta de autoestima — uma vez que sua preocupação primeira no domínio dos valores não é como viver sua vida, mas como sacrificá-la.
2. Falta de respeito pelos outros — uma vez que considera o gênero humano como um bando de mendigos condenados implorando peia ajuda de alguém.
3. Uma visão de pesadelo da existência — uma vez que crê que os homens estão encurralados em um “universo malevolente’% onde desastres são a preocupação primária e constante de suas vidas.
4. E, de fato, uma indiferença letárgica à ética, uma amor alidade desesperançosamente cínica — uma vez que as suas perguntas envolvem situações que provavelmente nunca encontrará, que não trazem nenhuma relação com os verdadeiros problemas de sua própria vida e assim deixam-no viver sem princípios morais, quaisquer que sejam.
Elevando a questão de ajudar aos outros à condição central e básica da ética, o altruísmo destruiu o conceito de qualquer benevolência ou boa vontade autêntica entre os homens, Ele doutrinou os homens com a ideia de que valorizar outro ser humano é um aio de abnegação, desta forma implicando que um homem não pode ter nenhum interesse pessoal nos outros — que valorizar o próximo significa sacrificar a si mesmo — que qualquer amor, respeito ou admiração que um homem possa sentir pelos outros não é e não pode ser uma fonte de seu próprio prazer, mas sim uma ameaça à sua existência, um cheque em branco de sacrifício assinado para os seus amados. Os homens que aceitam esta dicotomia, mas que escolhem o seu outro lado, os produtos últimos da influência altruísta desumanizadora, são aqueles psicopatas que não desafiam a premissa básica do altruísmo, mas proclamam sua rebelião contra o auto sacrifício anunciando que são totalmente indiferentes a qualquer coisa viva, e que não ergueriam uma palha para ajudai" um homem ou um cachorro deixado mutilado por um motorista que fugiu (geralmente um do tipo deles).
A maioria dos homens não aceita e nem pratica nenhum dos lados da dicotomia viciosamente falsa do altruísmo, mas o resultado dela é um completo caos intelectual na questão dos relacionamentos humanos adequados e em questões como a natureza, propósito ou extensão da ajuda que se pode dar aos outros. Atualmente, uma grande quantidade de homens sensatos e bem intencionados não sabe identificar ou conceituar os princípios morais que motivam o seu amor, afeição ou boa vontade, e não consegue encontrar nenhuma orientação no campo de ética, dominada pelos chavões gastos do altruísmo.
Sobre a questão de por que o homem não é um animal de sacrifício e por que ajudar os outros não é sua obrigação moral, encaminho ao A Revolta de Atlas. A presente discussão é concernente aos princípios pelos quais alguém identifica e avalia os exemplos que envolvem a ajuda não-sacrificada de um homem aos outros.
“Sacrifício” é a rendição de um valor maior em favor de um menor ou carente de valor. Assim, o altruísmo gradua a virtude de um homem pelo grau a que ele rende, renuncia ou traí os seus valores (uma vez que a ajuda a um estranho ou inimigo é considerada como mais virtuosa, menos “egoísta” do que a ajuda àqueles que se ama), O princípio racional de conduta é exatamente o oposto: sempre age de acordo com a hierarquia dos seus valores, e nunca sacrifica um valor maior a um menor. Isto se aplica a todas as escolhas, incluindo as ações de um homem para com outro, Requer que se possua uma hierarquia definida de valores racionais (valores escolhidos e validados por um padrão racional). Sem tal hierarquização, não são possíveis nem uma conduta racional, nem juízos de valores e nem escolhas morais.
O amor e a amizade são valores profundamente pessoais e egoístas: o amor é uma expressão e asserção da autoestima, uma resposta aos valores pessoais em outra pessoa. Ganha-se uma felicidade profundamente pessoal, egoísta, pela mera existência da pessoa que se ama. É a própria felicidade pessoal e egoísta que se busca, ganha e colhe do amor.
Um amor “abnegado”, “desinteressado” é uma contradição, em termos: significa que se é indiferente ao que se valoriza.
A preocupação pelo bem-estar daqueles que se ama é uma parte racional dos interesses egoístas de alguém. Se um homem que está perdidamente apaixonado por sua esposa gasta uma fortuna para curá-la de uma doença perigosa, seria absurdo afirmar que o faz como um “sacrifício” por ela, não por ele mesmo, e que não faz nenhuma diferença para ele, pessoal e egoisticamente, o fato de ela viver ou morrer.
Qualquer ato que um homem empreende em benefício daqueles que ama não é um sacrifício, se, na hierarquia de seus valores, no contexto total das escolhas abertas a ele, é conquistado aquilo de maior importância pessoal (e racional) para ele. No exemplo acima, a sobrevivência da esposa é de maior valor para o marido do que qualquer outra coisa que o dinheiro dele possa comprar, é da maior importância para sua própria felicidade, e, por conseguinte, seu ato não é um sacrifício. Mas suponha que a deixasse morrer para gastar o seu dinheiro com o salvamento das vidas de dez outras mulheres, das quais nenhuma significasse nada para ele — como a ética do altruísmo requereria. Isto seria um sacrifício. Aqui a diferença entre Objetivismo e altruísmo pode ser vista mais claramente: se o sacrifício é o princípio moral da ação, então aquele marido deveria sacrificar a sua esposa pelas dez outras mulheres. O que distingue a esposa das outras dez? Nada exceto o seu valor para o marido, que tem de fazer a escolha — nada exceto o fato de que a felicidade dele requer a sobrevivência dela.
A ética Objetivista dir-lhe-ia: o seu propósito moral mais alto é a conquista da própria felicidade, o dinheiro é seu, use-o para salvar a sua esposa, este é o seu direito moral e a sua escolha racional, moral.
Considere a alma do moralista altruísta que estaria preparado para dizer ao marido o oposto. (E então pergunte a si mesmo se o altruísmo é motivado pela benevolência.)
O método adequado de julgar quando ou se alguém deve ajudar uma outra pessoa é pela referência ao seu próprio auto-interesse racional e à sua própria hierarquia de valores: o tempo, o dinheiro ou esforço que se dá ou o risco que se corre deve ser proporcional ao valor da pessoa em relação à sua própria felicidade.
Para ilustrar isto no exemplo favorito dos altruístas: a questão de salvar uma pessoa que está se afogando. Se a pessoa a ser salva é um estranho, é moralmente adequado salvá-la apenas quando o perigo para a sua própria vida é mínimo; quando o perigo é grande, é imoral tentar: somente a falta de autoestima pode permitir que alguém não valorize mais a sua vida do que a de um estranho qualquer. E, opostamente, se alguém está se afogando, não pode esperar que um estranho arrisque a sua vida por causa dele, lembrando que a vida dele não pode ser tão valiosa para este estranho quanto a própria vida deste.).
Se a pessoa a ser salva não é um estranho, então o risco que se deveria estar pronto a correr é maior em proporção à importância do valor da pessoa para aquele que salva. Se é o homem ou mulher que se ama, então se deve estar pronto para dar a própria vida para salvá-lo(a) — pela razão egoísta de que a vida sem a pessoa amada poderia ser insuportável.
Em oposição a isto, se um homem é capaz de nadar e salvar sua esposa que se afoga, mas se entra em pânico ou se entrega a ura medo irracional e não-justificado — não o chamariam de “egoísta”; condená-lo-iam moralmente pela sua traição a si mesmo e a seus próprios valores, ou seja: seu fracasso em lutar pela preservação de um valor crucial para sua própria felicidade. Lembre-se de que valores são aqueles pelos quais alguém age para obtê-los e/ou conservá-los, e que a felicidade de alguém deve ser conquistada pelo próprio esforço pessoal, Uma vez que a sua própria felicidade é o propósito moral de sua vida, o homem que fracassa em alcançá-la por razão de sua própria negligência, por causa de seu fracasso em lutar por ela, é moralmente culpado.
A virtude envolvida em ajudar aqueles que se ama não é “abnegação” ou “sacrifício” mas integridade. Integridade é lealdade para com as convicções e valores que se tem. É a política de agir de acordo com os seus valores, de expressá-los, sustentá-los e traduzi-los na realidade prática. Se um homem professa amar uma mulher e ainda assim seus atos são indiferentes, desfavoráveis ou prejudiciais a ela, é a sua falta de integridade que o torna imoral.
O mesmo princípio se aplica a relacionamentos entre amigos. Se o amigo de alguém está com problemas, este alguém deve agir por quaisquer meios — que não sejam de sacrifício — apropriados para ajudá-lo. Por exemplo, se o amigo está morrendo de fome, não é um sacrifício, mas um ato de integridade dar-lhe dinheiro para comida preferivelmente a comprar alguma engenhoca insignificante para si mesmo, porque o bem-estar do amigo é importante na escala de valores pessoais deste alguém. Se a engenhoca significa mais do que o sofrimento do amigo, então este alguém não tinha o direito de fingir ser amigo daquele.
A implementação prática da amizade, afeição e amor consiste em incorporar o bem-estar (o bemestar racional) da pessoa envolvida, a própria hierarquia de valores de alguém, e então agir de acordo.
Mas esta é uma recompensa que os homens têm de ganhar através de suas virtudes e que não pode ser concedida a meros conhecidos ou estranhos.
O que, afinal, dever-se-ia adequadamente conceder a estranhos? O respeito generalizado e a boa vontade que se deve conceder a um ser humano em nome do valor potencial que ele representa — até ou a menos que os perca por alguma razão.
O homem racional não esquece que a vida é a fonte de todos os valores e, como tal, um vínculo comum entre os seres vivos (em oposição à matéria inanimada) e que outros homens são potencialmente capazes de conquistar as mesmas virtudes como suas próprias e assim serem de enorme valor para ele. Isto não significa que considere as outras vidas humanas intercambiáveis com a sua própria. Ele reconhece O fato de que a sua própria vida é a fonte, não apenas de todos os seus valores, mas da sua capacidade de valorar. Por conseguinte, o valor que concede a outros é somente uma consequência, uma extensão, uma projeção secundária do valor primário que é ele mesmo. “O respeito e a boa vontade que homens de autoestima sentem em relação a outros seres humanos são profundamente egoístas; eles sentem, de fato: ‘Outros homens têm valor porque eles são da mesma espécie que eu/ Ao reverenciar entidades vivas, estão reverenciando suas próprias vidas. Esta é a base psicológica de qualquer emoção de solidariedade e qualquer sentimento de solidariedade de espécie [Nathaniel Branden, "Benevolence versus altruism", The Objectivist Newsletter. julho de 1962] .”
Visto que os homens nascem carentes de dados ou padrões, quer cognitivos, quer morais, um homem racional julga estranhos como inocentes até que se provem culpados, e lhes concede aquela boa vontade inicial em nome de seu potencial humano. Depois, ele os julga de acordo com o caráter moral que demonstram, Se ele os achar culpados por males importantes, sua boa vontade será substituída por desprezo e condenação moral. (Se se valoriza a vida humana, não se pode valorizar os seus destruidores.) Se ele os achar virtuosos, lhes concederá valor pessoal e individual e reconhecimento, na proporção de suas virtudes.
É no terreno desta boa vontade e respeito generalizados pelo valor da vida humana que se ajudam estranhos em uma situação de emergência — e apenas em uma situação de emergência, É importante diferenciar entre as regras de conduta em uma situação emergencial e as regras de conduta nas condições normais da existência humana. Isto não significa um padrão duplo de moralidade: o padrão e os princípios básicos permanecem os mesmos, mas a aplicação deles a cada caso requer definições precisas.
Uma emergência é um evento não escolhido, não esperado, limitado no tempo, que cria condições sob as quais a sobrevivência humana é impossível — como uma enchente, terremoto, incêndio, naufrágio, Numa situação de emergência, o objetivo primeiro dos homens é combater o desastre, escapar do perigo e restaurar as condições normais (alcançar a terra firme, apagar o incêndio, etc.).
Por condições “normais” eu quero dizer normais metafisicamente, normais na natureza das coisas e apropriadas à existência humana. Os homens podem viver em terra, mas não na água ou sob um incêndio violento. Uma vez que os homens não são onipotentes, é metafisicamente possível que desastres imprevisíveis os peguem de surpresa, caso em que sua única tarefa é retornar àquelas condições sob as quais suas vidas podem continuar. Por sua natureza, uma situação de emergência é temporária; se durasse, os homens pereceriam.
Somente em situações de emergência deve-se ser voluntário para ajudar estranhos, se isto está ao nosso alcance. Por exemplo, um homem que valoriza a vida humana e se vê em um naufrágio, deve ajudar a salvar seus companheiros de viagem (embora não à custa de sua própria vida). Mas isto não significa que após todos eles chegarem à praia, ele deva devotar os seus esforços para salvar seus companheiros de viagem da pobreza, ignorância, neurose, ou quaisquer que sejam os problemas que possam ter. Tampouco significa que deva passar a sua vida navegando os sete mares a procura de vítimas de naufrágio a serem salvas.
Ou, tomando um exemplo que pode ocorrer no dia a dia: suponhamos que se ouça dizer que o vizinho da porta ao lado está doente e sem dinheiro. Doença e pobreza não são emergências metafísicas, são parte dos riscos normais da existência; mas como o homem está temporariamente desamparado, pode-se trazer a ele comida e medicamentos. Se se tem condições financeiras (como um ato de boa vontade, não de obrigação) pode-se conseguir dinheiro entre os vizinhos para ajudálo. Mas isto não significa que se deva sustentá-lo dai em diante, nem que se se deva passar a vida procurando por homens famintos para ajudar.
Nas condições normais da existência, o homem tem de escolher as suas metas, projetá-las no tempo, buscá-las e alcançá-las por seu próprio esforço. Ele não poderá fazer isto, se suas metas estiverem à mercê de e tiverem de ser sacrificadas a qualquer infortúnio que aconteça a outros. Ele não pode viver a sua vida através da orientação de regras aplicáveis apenas às condições sob as quais a sobrevivência humana é impossível.
O princípio de que se deve ajudar aos homens em uma situação de emergência não pode ser estendido até considerar todo o sofrimento humano como uma emergência e a transformar o infortúnio de alguns em uma hipoteca sobre as vidas de outros.
Pobreza, ignorância, doença e outros problemas deste tipo não são emergências metafísicas. Pela natureza metafísica do homem e da existência, aquele tem de manter a sua vida peio seu próprio esforço; os valores de que precisa — como riqueza ou conhecimento — não lhe são dados automaticamente, como um presente da natureza, mas têm de ser descobertos e conquistados por seu próprio pensamento e trabalho. A única obrigação que se tem em relação aos outros, a este respeito, é manter um sistema social que deixe os homens livres para conquistarem, ganharem e manterem os seus valores.
Todo código de ética é baseado e derivado da metafísica, ou seja: de uma teoria sobre a natureza fundamental do universo no qual o homem vive e age, A ética altruísta é baseada em uma metafísica de “universo malevolente” na teoria de que o homem, por sua natureza própria, é desamparado e condenado — que sucesso, felicidade, conquista são impossíveis para ele — que emergências, desastres, catástrofes são a norma de sua vida, e que sua meta primordial é combatê-los.
Como a refutação empírica mais simples daquela metafísica — enquanto prova do fato de que o universo material não é desfavorável ao homem, e que catástrofes são a exceção, não a regra de sua existência — observe as fortunas feitas por companhias de seguro.
Observe também que os defensores do altruísmo não são capazes de basear a sua ética em quaisquer fatos de existência normal e que eles sempre oferecem situações tipo “bote salva-vidas” como exemplos a partir dos quais tirar regras de conduta moral. (“O que você deve fazer se você e outro homem estiverem em um barco salva-vidas que só tenha capacidade para um?”, etc.) O fato é que os homens não vivem em barcos salva-vidas —. e um barco salva-vidas não é o lugar em que se deve basear a metafísica.
O propósito moral da vida de um homem é a conquista de sua própria felicidade. Isto não significa que ele seja indiferente a todos, que a vida humana não tenha nenhum valor para ele e que não tenha motivo para ajudar outros em uma emergência, Mas significa, isto sim, que não subordina a sua vida ao bem-estar de outros; não se sacrifica pelas necessidades deles; que o alívio do sofrimento deles não é sua preocupação prioritária; que qualquer ajuda que ele dê é uma exceção, não uma regra, um ato de generosidade, não de obrigação moral; que tudo isto é marginal e incidental — assim como os desastres são marginais e incidentais no curso da existência humana — e que valores, não desastres, são a meta, a primeira preocupação e a força motivadora de sua vida.

(Fevereiro de 1963)
 (Ayn Rand - A Virtude do Egoísmo - a verdadeira ética do homem: o egoísmo nacional)

publicado às 00:11


A PSICOLOGIA DO PRAZER

por Thynus, em 17.03.16
Eu acho que você já percebeu na sua vida que tem horas que você está voando baixo, está bem, está ligado. Em compensação, tem horas que você está bem borococho. Que você está deprimido, indisposto.
Então eu espero que você tenha percebido que existe uma energia que te anima. E esta energia oscila. Tem horas que você está com a energia em alta e horas em baixa.
A esta energia cada pensador chama de um jeito. Hobbes chamava de conatus, Spinoza de potência de agir, Nietzche de vontade de potência, Bergson de elan vital, Clóvis (o palestrante) de tesão pela vida.
Tesão pela vida é isso - potência de agir. Tem horas que sobe e horas que desce..
 
(Professor Clóvis de Barroa Filho)

 
Magia do Caos
Prazer, para o homem, não é um luxo, mas uma necessidade psicológica profunda.
Prazer (no sentido mais amplo do termo) é uma concomitante metafísica da vida, a recompensa e a consequência da ação bem-sucedida — assim como a dor é a insígnia do fracasso, destruição e morte.
Através do estado de alegria, o homem experiência o valor da vida, o sentido de que a vida vale a pena ser vivida, de que vale a pena lutar para mantê-la. Para que viva, o homem deve agir a fim de conquistar valores. Prazer ou alegria é, ao mesmo tempo, uma recompensa emocional por um ato bem-sucedido e um incentivo para continuar agindo.
Além disso, devido ao significado metafísico do prazer para o homem, o estado de alegria lhe dá uma experiência direta de sua própria eficácia, de sua competência em lidar com os fatos da realidade, de alcançar seus valores, de viver. Implicitamente contido na experiência do prazer está o sentimento: “Estou no controle de minha, “existência” — assim como implicitamente contido na experiência da dor está o sentimento: “Estou indefeso”. Como o prazer emocionalmente acarreta um sentido de eficácia, então a dor emocional acarreta um sentimento de impotência.
Deste modo, ao permitir que o homem experimente, em sua própria pessoa, o sentido de que a vida é um valor, e que ele é um valor, o prazer serve como combustível emocional da existência do homem.
Assim como o mecanismo prazer-dor do corpo do homem funciona como um barômetro de saúde ou doença, o mecanismo prazer-dor de sua consciência funciona pelo mesmo princípio, agindo como barômetro do que é a favor ou contra si, do que é benéfico ou prejudicial a sua vida. Mas o homem é um ser de consciência volitiva, não possui ideias inatas nem conhecimento infalível ou automático a respeito do que depende sua sobrevivência. Ele tem de escolher os valores que devem guiar os seus atos e determinar suas diretrizes. Seu mecanismo emocional trabalha de acordo com o tipo de valores que escolhe, São os seus- valores que determinam o que o homem sente ser a seu favor ou contra si; são os seus valores que determinam o que procura por prazer,
Se um homem cometer um erro em sua escolha de valores, seu mecanismo emocional não o corrigirá: este não possui vontade própria. Se os valores de um homem forem tais que deseje coisas que, de fato e na realidade, o levem à destruição, seu mecanismo emocional não o salvará, mas, ao invés disso, o incitará em direção à destruição: ele terá de o colocar ao contrário, contra si mesmo e contra os fatos da realidade, contra sua própria vida. O mecanismo emocional é como um computador eletrônico: o homem tem o poder de programá-lo, mas não, absolutamente, de mudar sua natureza — de modo que, se fizer a programação errada, não será capaz de escapar do fato da maioria dos desejos destrutivos terem, para ele, a intensidade emocional e a urgência de atos que salvam a vida. Ele possui, é claro, o poder de mudar a programação — mas apenas pela mudança de seus valores.
Os valores básicos de um homem refletem sua visão consciente e subconsciente de si mesmo e da existência. Eles são a expressão da (a) natureza e grau de sua autoestima ou falta dela, e (b) extensão do que considera o universo aberto ou fechado à sua compreensão e ação — isto é, a extensão até onde sustenta uma visão benevolente ou maléfica da existência. Deste modo, as coisas que um homem procura por prazer ou alegria são profundamente reveladoras do ponto de vista psicológico; são o índice de seu caráter e alma. (Por “alma” quero dizer: a consciência de um homem e seus valores motivadores básicos.).
Há, claramente, cinco áreas (interconectadas) que permitem ao homem experienciar a alegria da vida: trabalho produtivo, relacionamento humano, recreação, arte e sexo.
Trabalho produtivo é a mais fundamental delas: através do trabalho, o homem ganha o seu sentido básico de controle sobre a existência — seu sentido de eficácia —, que é a fundação necessária da habilidade de aproveitar qualquer outro valor, O homem era cuja vida falta direção ou propósito, o homem que não possui um objetivo criativo, necessariamente sente-se abandonado e fora de controle; o homem que se sente abandonado e fora de controle, sente-se inadequado e impróprio para a existência; e o homem que se sente impróprio para a existência, é incapaz de aproveitá-la.
Uma das marcas distintivas de um homem que sente autoestima, que considera o universo aberto ao seu esforço, é o profundo prazer que experimenta no trabalho produtivo de sua mente; sua alegria de vida é alimentada por seu interesse constante em crescer em conhecimento e habilidade — pensar, alcançar, mover-se para frente, encontrar novos desafios e ultrapassá-los — de ficar orgulhoso de uma eficácia em constante expansão.
Um tipo diferente de alma é revelada peio homem que, predominantemente, tira prazer em trabalhar somente na rotina e naquilo que lhe é familiar, que está inclinado a aproveitar o trabalho em um estado de semi-atordoamento, que vê felicidade na ausência de desafios ou de lutas ou esforços: a alma de um homem profundamente deficiente em autoestima, para quem o universo surge como desconhecido e vagamente ameaçador; o homem cujo impulso motivador central é a ambição por segurança, não a segurança obtida pela eficiência, mas a de um mundo no qual a eficiência não é exigida.
Ainda um tipo diferente de alma é revelado pelo homem que acha inconcebível que o trabalho — qualquer forma de trabalho — possa ser agradável, que considera o esforço de ganhar a subsistência como um mal necessário, que sonha somente com os prazeres que começam quando o dia de trabalho termina, o prazer de afogar sua mente em álcool ou televisão ou bilhar ou mulheres, o prazer de não ser consciente: a alma de um homem sem um fiapo de autoestima, que nunca esperou que o universo fosse compreensível e toma seu pavor letárgico por ele como algo certo, e cuja única forma de alívio e única noção de alegria são breves faíscas de prazer produzidas por sensações que não demandam esforço algum.
Ainda um outro tipo de alma é revelado pelo homem que tem prazer, não em realizações, mas em destruição, cuja ação é dirigida, não a atingir a eficiência, mas a dominar aqueles que a atingiram: a alma de um homem tão miseravelmente desprovido de autovalor e tão dominado pelo terror da existência, que sua forma única de auto realização é desencadear seu ressentimento e ódio contra aqueles que não partilham seu estado, aqueles que estão aptos para viver — como se, pela destruição do confiante, do forte e do saudável, pudesse converter impotência em eficiência.
Um homem racional e autoconfiante é motivado por um amor por valores e por um desejo de alcançá-los, Um neurótico é motivado pelo medo e pelo desejo de escapar dele. Esta diferença em motivação é refletida, não apenas nas coisas que cada tipo de homem procura por prazer, mas na natureza do prazer que experimenta.
A qualidade emocional do prazer experimentado pelos quatro homens descritos acima, por exemplo, não é a mesma. A qualidade de qualquer prazer depende de processos mentais que lhe dão origem e acompanham, e da natureza dos valores envolvidos. O prazer de utilizar a consciência do indivíduo adequadamente e o “prazer” de ser inconsciente não são os mesmos — assim como o prazer de alcançar valores reais, de ganhar um sentimento autêntico de eficiência, e o “prazer” de diminuição temporária do sentido do indivíduo de medo e abandono, não são os mesmos. O homem que sente autoestima experimenta a alegria pura e não-adulterada de utilizar suas faculdades adequadamente e de alcançar, na realidade, valores verdadeiros — um prazer do qual os outros três homens podem não ter noção, bem como ele não tem noção do estado confuso e sombrio que eles chamam de “prazer”.
Este mesmo princípio aplica-se a todas as formas de alegria. Deste modo, no domínio das relações humanas, uma forma diferente de prazer é experimentada, um tipo diferente de motivação é envolvido e um tipo diferente de caráter é revelado pelo homem que procura por alegria a companhia de seres humanos com inteligência, integridade e autoestima, que divide seus critérios rigorosos e pelo homem que está apto a divertir-se apenas com seres humanos que não possuem critérios, quaisquer que sejam, e com quem, e por conseguinte sente-se livre para ser ele mesmo — ou pelo homem que encontra prazer somente na companhia de pessoas que despreza, que pode comparar consigo mesmo favoravelmente — ou pelo homem que encontra prazer apenas entre pessoas que pode enganar e manipular, de quem ele tira o mais baixo substituto neurótico para um sentido de genuína eficiência: um sentido de poder.
Para um homem racional, psicologicamente saudável, o desejo pelo prazer é o desejo de comemorar seu controle sobre a realidade. Para o neurótico, o desejo por prazer é a desejo de escapar da realidade.
Agora considere a esfera da recreação. Por exemplo, uma festa. Um homem racional desfruta uma festa como uma recompensa emocional de uma realização, e pode tirar prazer dela apenas se, de fato, envolve atividades agradáveis, como ver pessoas de que gosta, encontrar pessoas novas que acha interessantes, participar de conversas nas quais algo que valha a pena dizer e ouvir esteja sendo dito e ouvido. Mas um neurótico pode “desfrutar” uma festa por razões não relacionadas a atividades reais, que estão acontecendo: pode odiar ou desprezar ou temer todas as pessoas presentes, pode agir como um bobo espalhafatoso e sentir-se secretamente envergonhado disto — mas sentirá que está aproveitando tudo porque as pessoas estão emitindo as vibrações de aprovação, ou porque é uma distinção social ter sido convidado para essa festa, ou porque outras pessoas manifestam estar alegres, ou porque a festa já o dispensou, pela duração de uma noite, do terror de estar sozinho. O “prazer" de estar bêbado é obviamente o prazer de escapar da responsabilidade da consciência. E assim o são reuniões sociais realizadas com nenhum outro propósito senão a expressão do caos histérico, onde os convidados vagueiam num torpor alcoólico, tagarelando ruidosa e insensatamente e desfrutando a ilusão de um universo onde não se é sobrecarregado com propósito, lógica, realidade ou consciência.
Observe, nesta sequência lógica, os beatnicks modernos — por exemplo, sua maneira de dançar. O que se vê não são sorrisos de alegria autêntica, mas de olhos fixos, vagos, movimentos desorganizados, convulsivos, corpos que parecem corpos descentralizados, todos trabalhando muito — com um tipo de histeria determinada — para projetar um ar de despropósito, sem sentido, sem memória, Este é o “prazer” da inconsciência.
Ou considere o tipo mais calmo dos “prazeres” que preenche a vida de muitas pessoas: piqueniques familiares, chás de damas ou happy hours, bazares de caridade, férias vegetativas — todas as ocasiões de tédio sossegado que a todos interessam, nas quais o tédio é o valor. Tédio, para tais pessoas, significa segurança, o conhecido, o habitual, a rotina — a ausência do novo, do excitante, do não-familiar, do exigente.
O que é um prazer exigente? Um prazer que exige a utilização da mente do indivíduo; não no sentido de resolver problemas, mas de exercitar o discernimento, o julgamento, a consciência. Um dos principais prazeres da vida e oferecido ao homem pelas obras de arte. A arte, em seu mais alto potencial, como a projeção das coisas “como elas podem e ‘devem ser’” pode prover o homem de um combustível emocional inestimável. Mas, de novo, o tipo de obra de arte a que o indivíduo responde, depende de seus valores e premissas mais profundas.
Um homem pode procurar a projeção de heroico, inteligente, eficiente, dramático, resoluto, com estilo, engenhoso, desafiante; ele pode procurar o prazer da admiração, de estar em busca de grandes valores. Ou pode procurar a satisfação de contemplar as variantes da coluna de fofocas dos colegas vizinhos, com nada a exigir de si, nem em pensamento, nem em critérios de valor; pode sentir-se prazerosamente aquecido pelas projeções do conhecido e familiar, procurando sentir-se um pouco menos “estranho e amedrontado num mundo de que nunca participou”. Ou sua alma pode vibrar afirmativamente a projeções de horror e degradação humana, pode sentir-se gratificado peio pensamento de que não é tão ruim quanto o anão viciado em drogas ou a lésbica aleijada de que leu a respeito; ele pode saborear uma arte que lhe diz que o homem é mau, que a realidade é incognoscível, que a existência é intolerável, que ninguém pode ajudar em nada, que seu terror secreto é normal.
A arte projeta uma visão implícita da existência — e é a própria visão do indivíduo da existência que determina a arte à qual responde, A alma do homem cuia peca favorita é Cyrano de Bergerac é radicalmente diferente da alma daquele que prefere Esperando Godot.
Dos vários prazeres que o homem pode oferecer a si mesmo, o maior é o orgulho — o prazer que consegue em suas próprias realizações e na criação de seu próprio caráter. O prazer que consegue no caráter e realizações de outro ser humano é a admiração. A expressão maior da união mais intensa destas duas respostas — orgulho e admiração — é o amor romântico. Sua celebração é o sexo. É nesta esfera, acima de tudo — em respostas romântico-sexuais de um homem —, que sua visão de si mesmo e da existência permanece eloquentemente revelada. Um homem se apaixona e sexualmente deseja a pessoa que reflete seus próprios valores mais profundos.
As respostas romântico-sexuais de um homem são psicologicamente reveladoras em dois aspectos cruciais: na sua escolha da parceira — e no significado, para ele, do ato sexual. Um homem de autoestima, um homem apaixonado por si mesmo "e pela vida, sente uma necessidade intensa de encontrar seres Humanos a quem possa admirar — encontrar um igual espiritual a quem possa amar. A qualidade que mais o atrai é a autoestima — autoestima e um sentido não-nebuloso do valor da existência. Para este homem, o sexo é um ato de celebração, seu significado é um tributo a si mesmo e à mulher que escolheu a forma última de experimentar concretamente e em sua própria pessoa o valor e a alegria de estar vivo.
A necessidade de tal experiência é inerente à natureza do homem. Mas se um homem carece de autoestima para obtê-la, tenta falsificá-la — e escolhe sua parceira (subconscientemente) pelo padrão de sua habilidade em ajudá-lo a disfarçar esta necessidade, dando-lhe a ilusão de autovalor que não possui e de uma felicidade que não sente.
Assim, se um homem sentir-se atraído por uma mulher de inteligência, confiança e força, se sentir-se atraído por uma heroína, revelará um tipo de alma; se, ao invés, sentir-se atraído por uma irresponsável, indefesa e distraída, cuja fraqueza o permita sentir-se masculino, revelará outro tipo de alma; se sentir-se atraído por uma desmazelada assustada cuja falta de julgamento e critérios permitam-lhe sentir-se livre de reprovação, revelará outro tipo de alma, ainda.
O mesmo princípio, é claro, aplica-se às escolhas romântico-sexuais da mulher.
O ato sexual tem um significado diferente para a pessoa cujo desejo é alimentado pelo orgulho e admiração, a quem a auto-experiência prazerosa que proporciona é um fim em si mesma — e para a pessoa que procura no sexo a prova de masculinidade ou (feminilidade), ou o alívio do desespero, ou a defesa contra a ansiedade, ou uma fuga do tédio.
Paradoxalmente, estão os assim chamados caçadores-de-prazer — os homens que aparentemente vivem apenas pela sensação do momento, que estão apenas preocupados em “divertir-se” — que são psicologicamente incapazes de aproveitar o prazer como um fim em si mesmo. O neurótico caçador de prazer imagina que ao passar pelos movimentos de urna celebração, está apto a fazer a si mesmo sentir que possui algo para celebrar.== Uma das marcas de autenticidade do homem que carece de autoestima — e a punição real de sua omissão moral e psicológica — é o fato de que todos os seus prazeres são prazeres de fuga dos dois perseguidores a quem ele traiu e de que não há escapatória: sua própria mente.== Já que a função do prazer e proporcionar ao homem um sentido de sua própria eficiência, o neurótico é apanhado num conflito mortal: é compelido, por sua natureza de homem, a sentir uma necessidade desesperada por prazer, enquanto uma confirmação e expressão de seu controle sobre a realidade — mas pode encontrar prazer apenas numa fuga da realidade. Esta é a razão por que seus prazeres não funcionam, por que lhe trazem, não uma sensação de orgulho, realização, inspiração, mas de culpa, frustração, desesperança e vergonha. O efeito, do prazer num homem que sente autoestima é o de uma recompensa ou confirmação. O efeito do prazer num homem que carece de autoestima é de uma ameaça — uma ameaça de ansiedade, o tremor de uma fundação precária de seu pseudo-autovalor, o aguçamento de um medo sempre-presente de que a estrutura entre em colapso, e ele encontre-se frente a uma realidade imperdoável, desconhecida, absoluta e austera.
Uma das reclamações mais comuns dos pacientes que procuram a psicoterapia é que nada possui o poder de dar-lhes prazer, a alegria autêntica lhes parece impossível. Este é o beco sem saída da política do prazer-como-escape.
Preservar uma clara capacidade para desfrutar a vida é uma realização moral e psicológica in comum. Ao contrário da crença popular, esta capacidade é a prerrogativa, não a irresponsabilidade ou a inflexão, consistente numa devoção irrenunciável ao ato de perceber a realidade, e de uma integridade intelectual escrupulosa. É a recompensa da autoestima.

(Fevereiro de 1964)
Nathaniel Branden
 (Ayn Rand - A Virtude do Egoísmo - a verdadeira ética do homem: o egoísmo nacional)
Psicologia do Prazer

publicado às 15:22


A Religião dos Gregos Clássicos

por Thynus, em 13.03.16
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Zeus, O líder e o mais poderoso deus do Olimpo
Os gregos concebiam o mundo como parte de um relato, o mito. Os mitos tratavam do surgimento do mundo, do seu funcionamento e da sorte dos humanos. Imortais e mortais amavam, sentiam paixões, cometiam erros, vingavam-se. Sua diferença não ia muito além do poder e da eternidade dos deuses diante da fraqueza e da finitude radical dos seres humanos. As forças do amor e do desejo aparecem como componentes da religiosidade. Os gregos da Antiguidade nunca foram muito unidos. Falavam dialetos variados, viviam em diferentes regimes políticos e sociais, variadas eram suas origens étnicas. Embora sua religião fosse também local e particularizada, havia tanto características compartilhadas como especificidades que nos permitem falar em religiosidades gregas antigas. Neste capítulo, essa diversidade religiosa será explorada, para mostrar o quanto dela ainda nos diz respeito. Mesmo quando completamente estranha para nós — ou baseada em outros valores —, essas experiências continuam a inspirar as gerações posteriores. Ou a causar espanto e admiração ao mesmo tempo. Talvez se possa afirmar que a religião grega, ou seus aspectos e mitos, constitua o fundamento mais sólido da maneira como nós pensamos o nosso próprio mundo moderno. Mais do que qualquer outra religião que o mundo esqueceu, ela surge no nosso cotidiano, tanto em conceitos elaborados (por exemplo, o “complexo de Édipo” da psicanálise), quanto em expressões populares (como “bacanal”, que descreve uma festa meio desregrada). O que significavam para os gregos? Como chegaram até nós? O que nos dizem, ainda hoje?

Quem praticava a religião grega, e desde quando?
Os gregos nunca constituíram um estado, com fronteiras delimitadas, uma língua nacional, uma capital. Eram definidos, por si mesmos, como os helenos: aqueles que falavam dialetos aparentados e cultuavam mais ou menos os mesmos deuses. Isso significa que, onde houvesse gregos, havia uma certa religiosidade grega. Quando pensamos na Grécia antiga, logo nos vem à mente a Cidade-Estado, conhecida por seu nome original: polis. A polis, contudo, é tardia, tendo surgido nos inícios do primeiro milênio a.C.; muitos gregos viviam em assentamentos humanos que não eram cidades, como os povoamentos ou etnias (ethné). Suas origens, também, são mais longínquas no tempo e variadas do que se pode supor. Desde o início do segundo milênio a.C., existem civilizações que foram as precursoras da Grécia antiga: os minoicos e os micênicos. Estes últimos, em particular, são mais bem conhecidos, tendo nos deixado escritos, em um grego arcaico, que foram decifrados no século xx. Em meados do primeiro milênio a.C., no Peloponeso, floresceu uma civilização centrada em palácios. Nos documentos decifrados, foram encontrados os nomes de algumas das principais divindades gregas clássicas: Zeus, Hera, Posidão, Ártemis, Atena, Hermes, Ares, Dioniso, entre outros. Também, encontraram-se vestígios de templos e referências a sacerdotes e sacerdotisas, chamados com os mesmos nomes que teriam posteriormente (ijereu, que daria hieros, prefixo que chegou até nós: “hierarquia”, poder sagrado).
Na verdade, não sabemos muito sobre a religiosidade nesses séculos. Com o fim da civilização micênica, no final do primeiro milênio a.C., os gregos tardarão alguns séculos a voltar a escrever (1200 - 800 a.C.). Nesse período, houve a chegada de povos vindos do norte e do leste, que contribuíram para a formação do que seria a Grécia antiga. Os dórios chegam por volta de 1200 a.C. Nos primeiros séculos do primeiro milênio a.C., surgem as cidades (poleis), em sociedades aristocráticas e guerreiras, e o início dos jogos olímpicos, em 776 a.C., segundo a tradição, marca a presença da religião como base cultural dos helenos. Essas competições eram reuniões de caráter religioso. A religiosidade grega que conhecemos é essa das Cidades-Estados, desde o século VIII a.C., que atinge seu apogeu nos séculos seguintes, mas que continuará até a instituição do cristianismo como religião oficial em 380 d.C.
A religião grega, com suas origens no Mediterrâneo oriental, expandiu-se junto com os colonos gregos no sul da Itália, Sicília e costas da França e da Espanha. A partir das conquistas de Alexandre, o Grande (356 - 323 a.C), a religião grega, adaptada por inúmeros povos, atingiu povos do Oriente e do Ocidente. Os romanos adotaram, em particular, muitos mitos gregos, ao seu gosto e maneira. Está na hora de vermos quais as especificidades da religiosidade grega e por que exerce tanto fascínio ainda hoje.
Hades, irrmão de Zeus e deus do mundo subterrâneo
 
O que era a religião grega?
Religião sem livro sagrado, a vivência espiritual dos gregos baseava-se em algumas crenças que, em grande parte, eram vistas como especulações do ser humano diante do que não sabia explicar. Não havia textos ou sacerdotes que pudessem definir, sem direito a contestação, dogmas. Por isso mesmo, as explicações e os mitos variavam de um lugar a outro, de uma época a outra e mesmo de um indivíduo a outro. As divergências entre as versões dos mitos, que podem parecer ilógicas, resultam, justamente, da crença de que nada está certo de forma segura sobre o mundo dos deuses. Heródoto (século V a.C.) afirma em suas Histórias (2, 53):
Penso que Hesíodo (século VIII a.C.) e Homero (século VIII a.C.) são mais antigos do que quatrocentos anos e que foram eles que criaram a genealogia dos deuses para os gregos, dando um epíteto a cada deus, distribuindo suas funções e suas características, assim como suas aparências.
Dois poetas tudo criaram! Sem ter certeza de nada. Não por acaso, uma premissa básica da religião grega era: “conhece-te a ti mesmo”. Isso significava: saiba da sua ignorância e mortalidade (esta a grande certeza).
Chegamos, aqui, a um segundo aspecto essencial: a mortalidade humana e imortalidade divina. Essa divisão era, em princípio, essencial e intransponível. Mas na prática havia dúvida se um humano poderia tornar-se divino ou qual a porção de divino que um homem poderia alcançar. Os heróis eram humanos que, mortos e enterrados, recebiam culto e, de alguma forma (mas só parcialmente), eram deuses. Alguns poucos heróis foram considerados quase deuses de verdade, como Héracles (Hércules) e Asclépio (Esculápio), protetor da saúde. Os deuses tudo podiam, os homens, nada, daí a importância do culto.
A morte levaria a uma situação miserável, como está na Odisseia (11, 488-91): Não tente falar-me com subterfúgio da morte, glorioso Odisseu. Preferia, se pudesse viver na terra, servir como servo de outra pessoa, como escravo de um sem-terra de poucos recursos, do que ser um grande senhor de todos os mortos que já pereceram. No dia a dia, as lápides funerárias mostram que era apenas lembrança entre os vivos o que se esperava haver após a morte:
Se tivesses alcançado a maturidade, pela graça da fortuna, todos antevíamos em ti Macareus, um grande homem, um mestre da arte trágica entre os gregos. Mas, agora, o que permanece é a tua reputação de temperança e virtude. (Inscriptiones Graecae, II, 2, 6626.)

Teogonia
A mais consistente descrição das origens dos deuses foi a do poeta Hesíodo (século VIII a.C.). Tudo se inicia com o surgimento espontâneo do Caos, seguido da Terra (Gaia), lugar dos deuses e dos homens, do lugar e deus inferior Tártaro e de Eros (Amor ou Desejo), que permitirá a união de machos e fêmeas (deuses e humanos). Do Caos, nascem o Escuro e a Noite, de cuja união nasce o Brilho e a Luz. Da Terra, surgem o Céu, a Montanha e o Mar. Do cruzamento do Céu e da Terra, nascem doze Titãs, três Ciclopes e três hecatônquiros. Diversos desses personagens representam forças como a Justiça Divina (Têmis) e a Memória (Mnemosine).
O Céu, temeroso de que um dos filhos o fosse destronar, prendeu-os na Terra, o que a incomodava. Ela pediu aos filhos que punissem o pai, mas apenas Cronos teve coragem e, quando o Céu veio para dormir com a mãe-Terra, ele o castrou. O sangue derramado gerou as deusas da vingança (Eríneas ou Fúrias) e dos testículos surgiu a deusa do amor, Afrodite (Vênus). Da noite, por concepção virginal, nascem diversos filhos, como a Morte e o Sono, assim como de Éris nascem a Dor, as Lutas, as Desordens e até mesmo as Narrativas. A Terra cruza com Pontos (o Mar) e gera os antepassados dos seres do mar, como as ninfas do mar (Nereides). A Terra e Tártaro produzem seres como a Hidra e Cérbero. Na família dos Titãs são gerados, entre outros, o Sol, a Lua, a Alvorada, assim como os ventos (Zéfiro, Bóreas, Notos). As origens são, assim, atribuídas a gerações espontâneas ou a casamentos divinos, de modo a explicar o mundo como um todo, do céu à terra, dos ventos aos impulsos humanos.
A Ritualidade
Em qualquer tradição religiosa, a maioria das pessoas tem pouco ou nenhum conhecimento dos preceitos teológicos e mesmo os relatos sagrados podem ser apenas parcialmente conhecidos. Os ritos, contudo, constituem a vivência, aquilo que torna vivo o sentimento religioso. Isso era tanto mais verdadeiro para os gregos antigos, pois acreditavam que dos rituais dependesse a sorte dos humanos. Em geral, os ritos existentes levaram os gregos a propor mitos que os explicassem. Daí que os rituais precediam os deuses, o que já nos diz muito sobre sua importância. Tudo girava em torno do altar de sacrifícios (bomos), a tal ponto que havia altares sem edifícios, mas nunca o contrário. Os gregos distinguiam três partes mais ou menos sagradas. No centro, havia o lugar sagrado, hieron, onde estava o altar de sacrifícios, bomos. Em seguida, estava o edifício que recobria bomos e hieron, chamado de naos. Englobando altar e edifício, havia uma área cercada, que delimitava o campo sagrado, temenos, o terreiro. Este estava marcado por muros ou limites do sagrado, horoi, recortando e separando o sagrado do profano. Temenos significa “recortado”. O centro de tudo era o altar. Assim, havia altares sem construções, mas não tinha sentido um edifício sem altar: não seria sagrado, não seria um templo.
Para os deuses celestes, o sacrificador ficava sobre uma plataforma, onde se cortava o pescoço do animal. Uma parte da carne era queimada para que o odor agradasse ao deus, sendo o restante da vítima consumida. Para os deuses subterrâneos, havia um buraco para se verter o sangue do animal e queimava-se toda a vítima. Os sacrifícios para os deuses e a morte estão contaminados, impuros, como um miasma a ser eliminado, daí que tudo fosse posto ao fogo. Sacrifícios humanos também existiam: um casal de inimigos podia ser morto, como remédio mágico (pharmacoi) para os males da coletividade. A exceção do deus infernal Hades, todos os cultos podiam ser celestes ou infernais (urânios e ctônicos, em grego).

O rito é uma festa
A palavra grega para denominar o sacrifício significa também festa religiosa (thysia). Quase todas eram de caráter local, ainda que ligadas a eventos do calendário agrícola, como as festas de renascimento da vida e da vegetação, que marcam o fim do inverno e o inicio do ano agrícola. Os sacrifícios, parte essencial do culto e das festas, são acompanhados de cânticos, música, de caráter mágico, assim como danças, movimentos ritmados. A pureza ritual podia exigir a abstinência sexual, assim como morrer ou nascer eram considerados tabus e deviam ser evitados. Os nascimentos e mortes infringiam a pureza ritual. Caso houvesse um nascimento ou morte, apesar das precauções, era necessário um ritual de purificação.
A maior parte das festas nos santuários incluía jogos ou competições, o que chamavam de uma disputa (agon).Eram artísticas (canto coral de crianças e adultos, de instrumentos musicais), de ginástica e atléticas. Os jogos em honra a Zeus em Olímpia, de todos os gregos, davam-se em volta do templo do deus. Pausânias (século II d.C.) diz-nos que: O altar de Zeus Olímpios é constituído das cinzas dos restos das vítimas sacrificadas para o deus. A circunferência na base atinge 38,1 metros, sendo ao alto 9.7 metros, com altura total de 6,7 metros. As vítimas são sacrificadas no nível inferior, mas as partes a serem queimadas são levadas para o topo. Os degraus que levam ao primeiro nível são de pedra e dali até o topo são feitos de cinzas, como o próprio altar. Mulheres e garotas, quando não são excluídas de Olímpia, podem chegar ao primeiro nível, mas apenas varões podem subir ao topo. Mesmo quando o festival não está sendo celebrado, sacrifício é oferecido ao deus por indivíduos e, todo dia, pelos habitantes da cidade de Elea. (Pausânias, Descrição da Grécia 5, 13, 8-11, adaptado.)
Não apenas os jogos eram religiosos, mas também as representações teatrais, tragédia e comédia, tinham esse caráter ritualístico. Dioniso era o deus do êxtase, que significa “estar (stasy) fora (ec) de si”. Era o deus das vinhas e das moças tomadas pelo êxtase: as Mênades. Estava aí a origem das representações teatrais. A saga de Dioniso, retratada tão bem nas Bacantes, de Eurípides (século V a.C.), revela bastante sobre a relação dos gregos com seus deuses. Em uma palavra, o deus, tendo sido rejeitado, é apresentado, ao mesmo tempo, como o mais terrível e o mais gentil para a humanidade. Terrível, se não for satisfeito. Gentil, se for cultuado. Como dizem suas devotas, em coro: “abençoado aquele que, feliz, conhece os ritos dos deuses, puro em sua vida, junta-se aos grupos de dança dionisíacos, aquele que celebra os ritos báquicos nas montanhas” (Bacantes 72-76, adaptado).

O poder
Os gregos mantinham uma relação ambígua no que se refere ao poder, e o faziam a partir de um questionamento religioso do mundo. Os deuses tudo podem, já o homem está sempre diante da possibilidade de extrapolar, de ser arrogante, descontrolado, desmedido. Chamavam-na de hybris (soberba). Para o ser humano, deixar-se levar pela soberba era “não se conhecer a si mesmo”, não reconhecer as limitações do humano, à diferença do divino. Édipo é um bom exemplo disso. Laio, rei de Tebas, consulta um oráculo que prediz que ele será morto por seu filho. Com a concordância da esposa Jocasta, seus tornozelos são perfurados (o que lhe resultará em pés inchados: este o significado do seu nome Édipo), e o bebê é exposto às feras. Um pastor escravo de Laio fica com pena, salva o menino e o dá para criar a um pastor de Corinto, que o presenteia ao rei sem filhos, Polibo. Dezoito anos depois, alguém lhe conta que é bastardo, o que o leva ao oráculo de Delfos para saber se era filho legítimo. Ali, ao ser informado de que mataria o pai e casaria com a mãe, decide não retornar a Corinto e dirige-se a Tebas. No caminho, encontra um senhor, tem uma discussão na estrada e o mata. Ao chegar a Tebas, encontra-a tomada de terror pela esfinge que mata todos que não resolvem seus enigmas. Questionado pela esfinge sobre “qual o animal que tem dois, três ou quatro pés, sendo mais lento com três?”, ele acerta a resposta: o homem, que usa uma bengala na velhice. Dão-lhe o trono e a viúva Jocasta como esposa. Tem quatro filhos, mas pragas caem sobre Tebas por uma impureza religiosa. Édipo manda que perguntem em Delfos qual a causa e a resposta é que o assassino de Laio está impune. Édipo amaldiçoa o culpado, quem quer se seja. Jocasta diz a Édipo que não ligue para oráculos. É informado que Polibo morreu e, ao afirmar que não irá a Corinto enquanto a mãe estiver viva, o mensageiro conta que não há problema, pois ela não era sua mãe, visto que ele era adotado. Jocasta percebe o que se passa e se mata. O pastor que testemunhara o assassinato e que sabia que Édipo havia matado o pai volta e, sob ameaça, revela a verdade a Édipo, que vai ao encontro de Jocasta, já morta, retira os fechos da sua roupa e se cega.
Esse mito mostra como as relações de poder estavam no cerne da religiosidade grega. Aparecem a incerteza (moira) e o acaso (tykhe) — ambos forças mágicas —, mas o tema central é o poder ilimitado e sua punição. O que causa a perdição de Édipo é sua pretensão:

 (Pedro Paulo Funari e outros - As Religiões que o Mundo esqueceu)
Eros – Deus do amor e filho de Afrodite

publicado às 04:13


AS RELIGIÕES E AS CIÊNCIAS

por Thynus, em 12.03.16
 
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No início do século XX, começaram a se realizar pesquisas entre cientistas, principalmente físicos e biológos, a fim de se revelar a existência de Deus e a imortalidade do homem. Não se especificou nas perguntas se o interêsse nas respostas era desta ou daquela religião monoteista. Estas representaram cêrca de 50% em cada uma das perguntas. No fim do século se questionou, nos Estados Unidos, separadamente, as mesmas perguntas, com cêrca de 1.800 membros da Academia Nacional de Ciências. O resultado foi bem diferente, pois apenas 10% deles responderam afirmativamente, quanto à crença numa vida após a morte biológica ou num Deus em comunicação intelectual e afetiva com o homem, denunciando, com isso, serem ateus ou agnósticos. Isso confirma aquilo que em todos os tempos sempre disse o homem mais culto: “Quanto maior a cultura, menor a Fé dos homens”.
No entanto, sabe-se que a grande maioria leiga acredita em Deus, em qualquer parte do mundo. Surgiram já grandes debates em torno do assunto. O presidente de uma Associação de Antropólogos declarou que muitos cientistas são ateus ou agnósticos, porque acreditam que o mundo natural que estudam é tudo o que existe e, sendo humanos, a ciência lhes dá apoio contra a religião, vista como oposta à liberdade individual e, portanto, como inimiga da verdade.
Os biólogos modernos já afirmaram, também, que, no nível do DNA (código genético), ao qual já chegaram, é possível entender a vida em toda a sua complexidade e, portanto, Deus não seria mais necessário para explicá-la. Segundo êles, não é possível acreditar-se em coisas sobrenaturais. Por outro lado, é tão retrógrada a resistência dos que acreditam que Deus criou os animais e o homem, que já criou o condão de afastar os biólogos da religião. Por fim, acrescentaram: Como podemos dizer que Deus existe com toda a maldade e crueldade que existe no mundo?
É a controvérsia da teoria da evolução de Darwin que tem alimentado a discussão sôbre a existência ou não de Deus. Também Newton estabelecera ideias fundamentais, como fôrça e inércia e sôbre o movimento dos corpos, além da sua “Lei da Gravidade”, que marcou o fim da ideia de que havia áreas do conhecimento vetadas aos seres humanos, por pertencerem à esfera do divino.
Os físicos e matemáticos, por sua vez, percebem uma tal ordem e beleza em seus trabalhos que só uma divindade poderia criar. Se a natureza é perfeita, sòmente um Sêr sumamente inteligente deve tê-la feito assim.
Para Ernest Mayr, ateu e grande biólogo da Universidade de Harvard, a maioria dos cientistas combina sempre dois argumentos: a existência de Deus e o sentimento, mas acaba concluindo ser impossível acreditar em Deus.
Se existe um universo físico, não se pode deixar de conceber um universo espiritual. Mas a ciência não pode responder à questão da origem e do destino ou finalidade do universo. Pode explicar até os comportamentos humanos em têrmos de processos bioquímicos do cérebro, mas não pode determinar o que seja comportamento ético. Mais recentemente, disse Einstein que o mundo seria mais um “vasto pensamento do que uma grande máquina”.
Para êle, Einstein, todas as ações e todas as imaginações humanas têm em vista satisfazerem as necessidades dos homens e trazer lenitivo às suas dores. Experimentar e desejar constituem os impulsos primários do sêr, antes mesmo de se considerar a majestosa criação do mundo. O que os leva, então, a crer ou a pensar em religião? No primitivo, era o temor e a necessidade de ver mitigado o medo das feras, das doenças, da morte e da fome. Se as relações causais são limitadas, o espírito humano tende a inventar sêres mais ou menos à sua imagem, transferindo para a vontade e o poder deles as experiências dolorosas e trágicas de suas vidas. Segundo a imaginação humana, êsse Deus-Providencia tem conceito moral e social, ama e favorece a tribo, a humanidade e a vida, consola na adversidade e protege os mortos.
No arsenal da teologia clássica existem três chamadas grandes provas da existência de Deus: 1) a cosmológica, ativada pela idéia do “big-bang”, no sentido de que, se o mundo não existiu sempre, é preciso que êle tenha sido criado e, portanto, deve ter existido um criador de fora do mundo, isto é, um Deus todo-poderoso; 2) a fisicoteológica, que considera o mundo como uma ordem maravilhosa, uma organização perfeita, tão bem calculada que bastaria modificar o menor parâmetro em sua origem para que nada tivesse ocorrido, como a vida e a consciência humana; 3) a ontológica, ou da idéia de um sêr infinito, que possui todas as qualidades e, se a existência é uma realidade, necessariamente Êle existirá.
Se a existência de Deus, admitamos por hipótese, nos fosse demonstrada em devida forma, com um rigor e precisão perfeitamente científicos, ninguém teria paradoxalmente nenhuma razão para acreditar, ou ter fé, porque “saberiamos” Deus, como sabemos ter existido Napoleão ou Santo Tomás de Aquino.
A religiosidade ante o cósmos, cujos dados o budismo organizou e Schopenauer nos ensina a decifrar em maravilhosos textos, pode ser considerada como religião cósmica e superior, que não tem dogmas nem teologia, nem Deus concebido à imagem do homem. Por isso, muitas vezes foram tidos como ateistas homens sábios como Demócrito e Spinoza.
A interpretação histórica considera ciência e religião como adversários irreconciliáveis. Aquele que se convenceu de que a lei causal rege todo o acontecimento não pode encarar a idéia de um sêr a intervir no processo cósmico nem encontrar lugar para um Deus-angústia. O comportamento moral do homem se fundamenta eficazmente nos compromissos sociais e não implica uma base religiosa. Por isso as Igrejas muitas vezes combatem as ciências.

(Laurindo Toretta - DEUS, AS RELIGIÕES E O UNIVERSO)
 

publicado às 15:20


AS CRUZADAS

por Thynus, em 05.03.16
"Os homens nunca fazem o mal tão plenamente 
e com tanto entusiasmo 
como quando o fazem por convicção religiosa".
(Blaise Pascal)

"Deus matou 2.270.365 pessoas e o diabo 10".
(Elias Ramos - 101 CURIOSIDADES sobre a Bíblia Sagrada)
 

Mas Jesus lhe ordenou: 

“Embainha a tua espada; pois todos os que lançam 

mão da espada pela espada morrerão!

(Mt. 26,52)

 

A intolerância é intrínseca apenas ao monoteísmo: um deus único é, por natureza,
um deus ciumento, que não tolera nenhum outro além dele mesmo.

(Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR)  

 
 
No século 11, quando a influência muçulmana sobre o Oriente Médio e Jerusalém começou a aumentar, o papa Urbano 2º reagiu com fúria

APÓS A BATALHA DE MANZIKERT, em 1071, os bizantinos perderam quase toda a Ásia Menor para os Seldjúcidas e constataram que o Islã estava praticamente à sua porta. O poderio dos turcomanos, contudo, declinava, e o imperador Aleixo I Comneno acreditava que algumas campanhas vigorosas os aniquilariam para sempre. No início de 1095, o monarca bizantino pediu ajuda militar ao papa Urbano II, esperando receber alguns destacamentos dos mercenários normandos que já haviam lutado para ele. O pontífice, porém, tinha planos mais ambiciosos. Dirigindo-se aos clérigos, aos cavaleiros e aos pobres da Europa no Concílio de Clermont, realizado em novembro daquele mesmo ano, pregou uma guerra santa de libertação. Disse aos cavaleiros que, em vez de lutar entre si nas absurdas disputas feudais que estavam despedaçando a Europa, deviam partir para a Anatólia a fim de ajudar seus irmãos cristãos, que por mais de duas décadas sofriam o jugo dos turcos muçulmanos; depois deviam marchar sobre Jerusalém e libertar a Tumba de Cristo do domínio dos infiéis. Assim a Paz de Deus reinaria na Europa, e a Guerra de Deus assolaria o Oriente. Não temos nenhum registro contemporâneo de suas palavras textuais, mas provavelmente Urbano via essa expedição — que depois recebeu o nome de Primeira Cruzada — como uma peregrinação armada, semelhante às três grandes multidões de fiéis que se dirigiram à Cidade Santa no decorrer do século XI. Até então os peregrinos estavam proibidos de portar armas; agora o papa lhes entregava uma espada. No final de seu discurso Urbano recebeu uma clamorosa ovação, sua imensa plateia gritando a uma só voz: “Deus hoc vult!” [Deus o quer!].
A reação foi extraordinária, generalizada e imediata. Pregadores famosos difundiram a ideia, e na primavera de 1096 cinco exércitos de aproximadamente 60 mil soldados tomaram o rumo de Jerusalém, seguidos por hordas de camponeses e peregrinos que levaram suas famílias. A maioria morreu na perigosa viagem pela Europa oriental. No outono outros cinco exércitos de 100 mil homens e uma multidão de sacerdotes partiram para a Cidade Santa. Quando os primeiros destacamentos se aproximavam de Constantinopla, a princesa Ana Comnena teve a impressão de que “todo o Ocidente, toda a terra que se estende do mar Adriático até as Colunas de Hércules, mudou de lugar e irrompeu na Ásia como uma massa compacta com todos os seus haveres”.(Alexíada 10: 5, 7) O imperador havia pedido uma ajuda militar convencional e descobriu que acabara inspirando o que parecia uma invasão dos bárbaros. Primeiro empreendimento conjunto do Ocidente que emergia da Idade das Trevas, a Cruzada compreendia representantes de todas as classes sociais: padres e prelados, nobres e camponeses. Animava-os a paixão por Jerusalém, e não apenas a busca de terra e riqueza: a Cruzada era uma aventura assustadora, perigosa e cara. A maioria dos participantes perdia tudo que tinha e precisava de muito idealismo para sobreviver. Não é fácil definir seu ideal, já que esses peregrinos tinham concepções muito diferentes de sua expedição. O alto clero provavelmente partilhava o ideal de Urbano: uma guerra santa de libertação que aumentasse o poderio e o prestígio da Igreja ocidental. Muitos cavaleiros se sentiam na obrigação de lutar pela Cidade Santa, pelo patrimônio de Jesus, assim como lutavam pelos direitos de seu senhor feudal. Os cruzados mais pobres pareciam inspirados pelo sonho apocalíptico de uma Nova Jerusalém. A chave era sempre Jerusalém. Provavelmente Urbano não provocaria a mesma reação se não mencionasse a tumba de Cristo.
Esse idealismo tinha, porém, um lado sombrio. Logo se evidenciou que a vitória de Cristo significaria morte e destruição para outras crenças. Na primavera de 1096, um bando de cruzados alemães massacrou as comunidades judaicas de Speyer, Worms e Mainz, situadas às margens do Reno. Certamente não era essa a intenção do papa, mas os cruzados deviam achar absurdo marchar milhares de quilômetros para combater os muçulmanos — dos quais pouco ou nada sabiam —, quando os verdadeiros assassinos de Cristo (assim pensavam eles) estavam bem ao alcance de sua mão. Esses foram os primeiros grandes pogroms da Europa, que se repetiriam a cada anúncio de uma nova Cruzada. O fascínio da Jerusalém cristã contribuiu, portanto, para fazer do antissemitismo europeu uma doença incurável.
Mais ordeiros que seus predecessores, os cruzados que partiram no outono de 1096 não desviaram de seu caminho para matar judeus. A maioria chegou a Constantinopla em paz e ali jurou restituir territórios anteriormente pertencentes a Bizâncio — juramento que alguns deles não tinham a intenção de cumprir. As circunstâncias favoreciam um ataque aos Seldjúcidas, pois sua solidariedade inicial cedera lugar a lutas de facções e os emires se engalfinhavam entre si. Os cruzados começaram bem, infligindo derrotas aos infiéis em Niceia e Dorileia. No entanto, a viagem era longa e a comida escassa, e os turcos adotaram a tática da terra arrasada, que consistia em devastar uma região antes de abandoná-la ao inimigo. Foram necessários três anos de agruras inimagináveis para os cruzados chegarem a Jerusalém. No terrível inverno de 1097-8, sitiaram a bem fortificada Antioquia; durante o cerco um a cada sete homens morreu de fome e a metade do exército desertou. Apesar de tudo obtiveram a vitória e, quando se viram diante dos muros da Cidade Santa, em 1099, haviam mudado o mapa do Oriente Próximo. Destruíram a base dos Seldjúcidas na Ásia Menor e criaram dois principados governados por ocidentais: um em Antioquia, sob o normando Boemundo de Tarentino, e o outro em Edessa, na Armênia, sob Balduíno de Bolonha. Foram vitórias suadas, porém. Uma fama temível precedera esses implacáveis guerreiros.
Comentava-se que em Antioquia ocorreram atos de canibalismo, e afirmava-se que os bárbaros cristãos europeus eram impiedosos e fanáticos em seu zelo religioso. Ao tomar conhecimento dessas histórias alarmantes, muitos gregos ortodoxos e monofisistas de Jerusalém fugiram para o Egito. Os que permaneceram na cidade foram expulsos pelas autoridades muçulmanas, que baniram também os cristãos latinos. Tidos como simpatizantes dos cruzados, estes últimos de fato os ajudaram durante o cerco, fornecendo-lhes valiosas informações sobre a cidade.
Os comandantes dos cruzados espalharam suas tropas em torno das muralhas. Roberto da Normandia posicionou-se perto da arruinada igreja de Santo Estêvão, no norte; Roberto de Flandres e Hugo de St. Poll ficaram no sudoeste; Godofredo de Bouillon, Tancredo e Raimundo de St. Gilles acamparam em frente à Cidadela, enquanto outro exército se colocou no monte das Oliveiras para prevenir um ataque vindo do leste. Depois Raimundo deslocou seus provençais para defender os lugares santos fora dos muros do monte Sião. A princípio os cruzados pouco progrediram. Ainda não estavam habituados a sitiar as cidades de pedra do Oriente, muito maiores e mais imponentes que as suas, e não possuíam nem técnica nem material para fabricar as máquinas necessárias. Com os mastros, cordas e ganchos de uma frota genovesa que aportou em Jafa construíram duas torres móveis que podiam transportar sobre rodas até as muralhas — um engenho de ataque que os muçulmanos desconheciam. Foi utilizando uma dessas torres que, em 15 de julho de 1099, um soldado do exército de Godofredo conseguiu entrar em Jerusalém. Os demais cruzados o seguiram e, como os anjos vingadores do Apocalipse, caíram sobre os maometanos e judeus que defendiam a cidade. Durante três dias eliminaram sistematicamente cerca de 30 mil jerosolimitas. “Mataram todos os sarracenos e os turcos que encontraram”, escreveu com aprovação o autor das Gesta Francorum, “mataram todos, homens ou mulheres.” (The deeds of the Franks and the other pilgrims to Jerusalem, trad. R. Hill
(Londres, 1962), p. 91.)
Massacraram 10 mil muçulmanos que se refugiaram no teto de al- Aqsā e passaram à espada os judeus que reuniram na sinagoga, praticamente não deixando sobreviventes. Ao mesmo tempo, se apoderaram friamente de bens locais, diz Fulcher de Chartres, um capelão do exército. “Quem primeiro entrasse numa casa, fosse rico ou pobre, não era molestado por nenhum outro franco. Podia apossar-se da casa ou do palácio, bem como do que ali encontrasse.” (Fulcher de Chartres, History of the expedition to Jerusalem, 1095-1127, trad. F. R. Ryan, 3 vols. (Knoxville, 1969), 1, p. 19) O sangue literalmente corria pelas ruas. “Cabeças, mãos e pés se amontoavam”, informa o provençal Raymond de Aguiles, testemunha ocular da matança. Longe de apiedar-se, ele interpretou a carnificina como um sinal do triunfo do cristianismo, sobretudo no H. aram:
Se eu contar a verdade, não conseguireis acreditar. Basta, pois, dizer que no Templo e no Pórtico de Salomão homens cavalgaram com sangue até os joelhos e as rédeas. Foi a esplêndida justiça de Deus que fez o sangue dos descrentes inundar esse lugar, que durante muito tempo sofreu com suas blasfêmias.(August C. Krey, The first Crusade: the accounts of eye witnesses and participants
(Princeton e Londres, 1921), p. 266)

Os vencedores eliminaram muçulmanos e judeus da Cidade Santa como se a purgassem de vermes.
Por fim, quando não tinham mais a quem matar, lavaram-se e seguiram em procissão até a Anástasis, entoando hinos entre lágrimas de alegria. Ao redor do Santo Sepulcro celebraram o Ofício da Ressurreição, cuja liturgia parecia anunciar o alvorecer de uma nova era. Raymond assistiu à cena: Este dia, afirmo, será famoso em todos os tempos futuros, pois converteu nossos esforços e nossos sofrimentos em alegria e exultação. Este dia, afirmo, assinala a justificação de toda a cristandade, a humilhação do paganismo, a renovação da fé. “Este é o dia que o Senhor preparou, regozijemo-nos com ele”, pois neste dia o Senhor se revelou a seu povo e o abençoou.(Ibidem)
Tal visão dos fatos foi logo adotada pelos poderosos da Europa, que provavelmente se horrorizaram com as primeiras notícias do massacre. Apesar de tudo, o sucesso da Cruzada foi tão retumbante que os levou a acreditarem que desfrutavam uma bênção especial de Deus. No espaço de dez anos três religiosos eruditos — Guibert de Nogent, Robert, o Monge, e Baldrick de Bourgueil — escreveram sobre a Primeira Cruzada, endossando inteiramente a belicosa devoção de seus participantes. O Ocidente, que até então vira os muçulmanos com relativa indiferença, passou a considerá-los uma “raça vil e abominável”, “absolutamente estranha a Deus”, digna apenas do “extermínio”.(Robert, o Monge, citado em Jonathan Riley-Smith, The first Crusade and the idea of crusading (Londres, 1987), p. 143) A Cruzada fora um ato divino comparável ao Êxodo do Egito; os francos eram agora o novo Povo Eleito, os que assumiram a vocação abandonada pelos judeus.(Baldrick de Bourgueil, em ibidem)
Robert, o Monge, chegou a formular a espantosa afirmação de que a recente conquista da Cidade Santa constituiu o maior acontecimento da história mundial desde a Crucifixão.(Ibidem, p. 140) Logo o Anticristo surgiria em Jerusalém e teriam início as batalhas do fim dos tempos.(Krey, First Crusade, p. 38)
Mas os cruzados eram essencialmente práticos e, antes desses triunfos apocalípticos, trataram de limpar a cidade. Guilherme de Tiro diz que queimaram os corpos com grande eficiência, de modo que puderam dirigir-se aos lugares santos “com maior segurança”(Guilherme, arcebispo de Tiro, A history of deeds done beyond the sea, 2 vols., trad. E. A. Babcock e A. C. Krey (Nova York, 1943), 1, p. 368.) — provavelmente sem sofrer o inconveniente de tropeçar em membros decepados. Na verdade, tratava-se de uma tarefa imensa, e cinco meses depois ainda havia cadáveres espalhados pela cidade. Naquele ano, quando chegou a Jerusalém para celebrar o Natal, Fulcher de Chartres ficou horrorizado:
Oh, que fetidez exalavam, dentro e fora das muralhas, os corpos putrefatos dos sarracenos que matamos por ocasião da captura da cidade e que [ainda] jaziam no lugar onde os abatemos.(Fulcher de Chartres, History, 1, 33.)
Da noite para o dia, os cruzados transformaram a florescente e populosa Jerusalém num fétido ossário. Corpos amontoados ainda apodreciam nas ruas três dias após o massacre, quando os cruzados organizaram uma feira. Com grandes festividades eles venderam seus saques, indiferentes à carnificina que haviam realizado e às hediondas evidências que jaziam a seus pés. Se o respeito pelos sagrados direitos dos predecessores indica o grau de integridade dos monoteístas que conquistaram Jerusalém, os cruzados devem figurar no fim da lista.
Não visavam a nada além da conquista e não definiram nenhuma forma de governo. Os clérigos desejavam uma administração inspirada em princípios teocráticos e liderada por um patriarca; os cavaleiros queriam que um de seus pares assumisse o poder; e os pobres, que exerciam considerável influência sobre os cruzados, aguardavam a Nova Jerusalém e repudiavam todo e qualquer governo convencional. Por fim chegaram a um acordo. Como durante o cerco os muçulmanos haviam expulsado o patriarca ortodoxo, os conquistadores designaram para ocupar o cargo Arnulf de Rohes, o capelão de Roberto da Normandia, substituindo um grego por um latino. Depois escolheram como seu líder Godofredo de Bouillon, jovem piedoso, dotado de extrema coragem física e de mínima inteligência. Declarando que não podia usar uma coroa de ouro na cidade em que seu Salvador usara uma coroa de espinhos, Godofredo assumiu o título de “Advogado do Santo Sepulcro”. Daria proteção militar [advocatia] ao patriarca, que assumiria o governo. Poucos meses mais tarde, Daimbert, arcebispo de Pisa, chegou a Jerusalém na condição de legado oficial do papa. Sumariamente depôs Arnulf, apoderou-se do patriarcado e baniu da Anástasis e das outras igrejas jerosolimitas todos os cristãos locais — gregos, jacobitas, nestorianos, georgianos e armênios. Urbano II encarregara os cruzados de ajudarem os cristãos orientais, mas agora eles estendiam a seus próprios irmãos de fé a intolerância dos dominadores que os precederam. Na Páscoa de 1100, Godofredo entregou a Daimbert “Jerusalém, com a Torre de Davi e tudo que pertencia à cidade”,(F. E. Peters, Jerusalem: the Holy City in the eyes of chroniclers, visitors, pilgrims and prophets from the days of Abraham to the beginnings of Modern Times (Princeton, 1985), p. 292.) sob a condição de utilizá-la enquanto conquistava mais terras para o reino.
Essa era a tarefa mais urgente dos cruzados, pois a tomada de Jerusalém não significava a libertação de toda a Palestina. Os Fatímidas ainda controlavam boa parte do país, inclusive os importantes centros urbanos do litoral.
Godofredo começou por atacar suas bases, com o apoio da frota pisana. Obteve em março de 1100 a rendição dos emires de Ascalon, Cesareia, Acre e Arsuf, que o aceitaram como seu suserano. Os xeiques da Transjordânia os imitaram, enquanto Tancredo estabelecia um principado na Galileia. Contudo, a situação era precária. O reino tinha agora fronteiras defensáveis, mas nos 25 anos seguintes precisaria lutar pela própria sobrevivência, já que o rodeavam inimigos hostis.
O principal problema era o efetivo militar. A maioria dos soldados voltara para sua terra após a conquista da Cidade Santa, de modo que o exército minguara consideravelmente. A desolação reinava em Jerusalém, cuja população de aproximadamente 100 mil pessoas se reduzira a algumas centenas. “Nossos compatriotas eram tão pouco numerosos e tão necessitados que mal enchiam uma rua”, anotou Guilherme de Tiro.(Guilherme de Tiro, History, 1: 507) Procurando segurança, eles se apinhavam no bairro do Patriarca, em torno do Santo Sepulcro.(Joshua Prawer, “The settlement of the Latins in Jerusalem”, Speculum, 27 (1952)) O resto da cidade estava desabitado, ladrões e beduínos rondando pelas ruas e arrombando as casas desertas. A defesa adequada era impossível: quando Godofredo saía em missão com seus soldados, apenas alguns civis e peregrinos ficavam incumbidos de enfrentar eventuais ataques. Cessadas as hostilidades, muçulmanos e judeus começaram a voltar pouco a pouco para cidades como Beirute, Sidônia, Tiro e Acre, e os camponeses islamitas permaneceram na zona rural. Os cruzados promulgaram uma lei banindo os judeus e muçulmanos da Cidade Santa; expulsaram também os cristãos locais, suspeitando que fossem cúmplices do Islã. Para os rudes ocidentais não havia diferença entre os árabes e esses cristãos palestinos, coptas e sírios. Poucos francos queriam viver na santa Jerusalém, agora reduzida a uma sombra do que fora no passado. A maioria preferia as cidades litorâneas, onde a vida era mais fácil e havia mais oportunidades para os negócios.
Imediatamente após a conquista, Godofredo instalou-se na mesquita de al- Aqsā, que se tornou a residência real, e converteu a Cúpula do Rochedo numa igreja denominada “Templo do Senhor”, a qual Daimbert fez sua residência oficial. O H. aram não despertara o interesse dos bizantinos, mas significava muito para os cruzados, que se consideravam o novo Povo Eleito e, portanto, herdeiros desse lugar santo dos judeus. Desde o início o H. aram desempenhou importante papel na vida espiritual da Jerusalém dos cruzados, como atesta o fato de o patriarca e seu advogado decidirem morar nesse local solitário, distante dos principais alojamentos de seus comandados, na Colina Ocidental. Seus vizinhos mais próximos eram os beneditinos que Godofredo instalara na Tumba da Virgem Maria, no vale do Cedron.
Godofredo não reinou por muito tempo. Morreu de febre tifoide em julho de 1100 e foi enterrado na Anástasis, que os cruzados preferiam chamar de igreja do Santo Sepulcro. Daimbert se preparou para assumir o comando secular, além do espiritual, mas se viu suplantado por Balduíno, conde de Edessa, que seus concidadãos fizeram vir da Lorena. Muito mais inteligente e cosmopolita que seu irmão Godofredo, Balduíno recebeu na juventude formação eclesiástica; era mais culto que a maioria dos leigos, tinha uma tremenda presença física e podia viabilizar o Reino de Jerusalém. Quando chegou à Cidade Santa, em 9 de novembro de 1100, foi recebido com tumultuosa alegria não só por seus compatriotas, como pelos cristãos locais, que o esperavam no exterior das muralhas. Balduíno percebeu que para sobreviver no Oriente Próximo os francos precisavam de amigos, e, como os judeus e os muçulmanos estavam fora de cogitação, seus aliados naturais eram os cristãos gregos, sírios, armênios e palestinos. Ele próprio era casado com uma armênia e conquistara a confiança dos cristãos orientais, que Daimbert tratara com tanto desprezo.
Sua coroação ocorreu em 11 de novembro na igreja da Natividade, em Belém, cidade de Davi. Balduíno não demonstrou o menor escrúpulo em usar uma coroa de ouro, nem em ser chamado de “rei dos latinos”. Sob seu comando os cruzados conheceram uma série de triunfos. Em 1110, haviam conquistado Cesareia, Haifa, Jafa, Trípoli, Sidônia e Beirute. Agora estabeleceram um quarto Estado: o condado de Trípoli. Nessas cidades massacraram a população e destruíram as mesquitas, obrigando os sobreviventes a refugiaremse em território islâmico. Mais tarde teriam grande dificuldade em estabelecer relações normais com seus “súditos”, que guardavam na memória a lembrança de sua carnificina e de suas desapropriações. Pareciam imbatíveis, se bem que não encontrassem maior resistência por parte dos emires Seldjúcidas e dos dinastas locais, que, sempre às voltas com suas disputas pessoais, achavam impossível compor uma frente única. Bagdá não tinha como reagir. O califado estava irremediavelmente fraco e não podia arcar com essas guerras na distante Palestina. Assim, os cruzados conseguiram fundar as primeiras colônias ocidentais no Oriente Próximo.
Balduíno precisava também resolver o problema de Jerusalém, que permanecia praticamente deserta. Os francos continuavam preferindo as cidades mais afluentes do litoral. Eram na maioria camponeses e soldados, não artesãos, e tinham dificuldade em ganhar o sustento numa cidade que vivia da indústria leve. Pela Lei da Conquista, promulgada em 1099, todos os participantes da Cruzada estavam livres da hierarquia feudal vigente na Europa e, portanto, podiam tornar-se proprietários. Alguns desses “burgueses”, como eram chamados, agora possuíam imóveis em Jerusalém ou campos e vilas nos arredores. Para evitar que partissem em época de crise, esperando retornar quando a situação melhorasse, Balduíno criou uma lei que concedia a posse de uma casa a quem nela estivesse residindo durante o período de um ano e um dia. Os burgueses se converteram na coluna dorsal da Jerusalém franca, onde atuavam como cozinheiros, açougueiros, lojistas e ferreiros. Mas seu número era insuficiente.
Balduíno esperava reconduzir os cristãos da região às igrejas e aos mosteiros jerosolimitas, e em 1101 a oportunidade caiu-lhe do céu. Na noite anterior à Páscoa, as multidões aguardavam, como sempre, o milagre do Fogo Santo. Nada aconteceu: não se fez a luz divina. Provavelmente os gregos haviam levado o segredo consigo e agora não queriam contá-lo aos latinos. O fracasso parecia um mau sinal: teriam os francos desagradado a Deus de algum modo? Daimbert sugeriu enfim que os latinos o seguissem ao Templo do Senhor, onde Deus havia atendido às preces de Salomão. Os cristãos locais foram convidados a rezar também. Na manhã seguinte, anunciou-se que o fogo aparecera em duas das lâmpadas que ladeavam a tumba. A mensagem do céu parecia clara. O historiador armênio Mateus de Edessa afirmou que Deus se zangara quando “os francos expulsaram dos mosteiros os armênios, os gregos, os sírios e os georgianos” e só se dignara a mandar o fogo porque os cristãos orientais lhe pediram.(Joshua Prawer, The Latin Kingdom of Jerusalem, European colonialism in
the Middle Ages (Londres, 1972), p. 214)
Os gregos recuperaram as chaves da tumba, e outras congregações receberam permissão para retornar a seus santuários e monastérios.
A partir desse episódio, o rei de Jerusalém tornou-se protetor dos cristãos locais. O alto clero continuou sendo latino, mas havia cônegos gregos na igreja do Santo Sepulcro. Quando voltaram do Egito, para onde haviam fugido em 1099, os jacobitas recobraram o mosteiro de Maria Madalena.
Através de seu casamento Balduíno estabelecera um vínculo especial com os armênios, que foram particularmente favorecidos. A comunidade e o convento de São Tiago prosperaram. Importantes personalidades armênias peregrinavam a Jerusalém, levando ricos presentes: vestes bordadas, cruzes e cálices de ouro, crucifixos incrustados de pedras preciosas — que ainda hoje são usados nos dias de grandes festas — e manuscritos com iluminuras para a biblioteca do convento. Os armênios também obtiveram a custódia da capela de Santa Maria na igreja do Santo Sepulcro.
Finalmente, em 1115, Balduíno conseguiu resolver o problema populacional, importando cristãos sírios da Transjordânia, que em função das atrocidades cometidas pelos cruzados haviam se tornado personae non gratae no mundo muçulmano. Para atraí-los prometeu-lhes privilégios especiais e alojou-os nas casas abandonadas do noroeste de Jerusalém. Ademais, permitiu que construíssem e restaurassem igrejas para seu próprio uso: a de Santo Abraão, perto da Porta de Santo Estêvão, e as de São Jorge, Santo Elias e São Jacó no bairro do Patriarca.
A estratégia deve ter funcionado, pois Jerusalém se desenvolveu — chegou a abrigar cerca de 30 mil pessoas — e não só voltou a ser capital, como se converteu na principal metrópole de todos os estados francos, graças a sua importância religiosa. Com isso ganhou vida nova. Sob alguns aspectos apresentava a organização de uma cidade ocidental. A sharī‘ah, corte de justiça muçulmana, cedeu lugar a três organismos encarregados de causas civis e criminais: a Suprema Corte, para os nobres, a Corte dos Burgueses e a Corte dos Sírios, administrada pelos cristãos locais e a eles destinada. Os cruzados se apossaram dos mercados que haviam surgido no antigo fórum romano, ao lado do Santo Sepulcro, e ao longo do Cardo. Provavelmente aprenderam a organização do sūq com os cristãos de Jerusalém, pois mantiveram o sistema oriental de mercados distintos para aves, tecidos, especiarias e comida pronta. Francos e sírios trabalhavam juntos, mas em lados opostos da rua. Jerusalém não poderia se converter num centro comercial, pois se situava muito longe das principais rotas. Não atraía os mercadores italianos estabelecidos nas cidades costeiras, onde desempenhavam importante papel. Continuou — como sempre — dependendo do turismo. Balduíno acabara com a ideia de governála como uma teocracia. Depois que se livrou de Daimbert,(Daimbert foi deposto em 1102, acusado de peculato e simonia) tratou de escolher patriarcas que se contentassem com uma posição de subserviência. A partir de 1112, o patriarca exercia absoluta autoridade sobre o antigo bairro cristão, porém Balduíno administrava o restante da cidade. O reino estava mais livre do controle eclesiástico que qualquer Estado europeu contemporâneo.
Tendo surgido em meio a fanática religiosidade, a Jerusalém dos cruzados ironicamente se secularizou. Logo que se instalaram, os francos passaram a ocidentalizá-la, começando, em 1115, pela Cúpula do Rochedo — mais um indício da importância que atribuíam a esse local. Não conheciam bem a história do edifício. Sabiam que não era o Templo de Salomão, mas aparentemente achavam que Constantino ou Heráclio o construíra e que os muçulmanos o converteram para seu próprio uso impio. Em 1115, trataram de supostamente restaurá-lo a sua pureza original. Colocaram uma cruz no alto da Cúpula, revestiram a Rocha de mármore, transformando-a em altar e coro, e cobriram as inscrições do Alcorão com textos latinos. Foi um gesto típico, destinado a apagar a presença islâmica, como se ela nunca tivesse existido. Realizaram, porém, um trabalho da mais alta qualidade: a grade com a qual rodearam a Rocha é uma das melhores peças da metalurgia medieval que chegou até nós. Dedicaram-lhe anos: o “Templo do Senhor” só foi oficialmente consagrado em 1142. Ao norte da nova igreja construíram claustros para os agostinianos e converteram a Cúpula da Corrente numa capela dedicada a Tiago, o Tzaddik, que, segundo se acreditava, fora martirizado no monte do Templo.

(Karen Armstrong - JERUSALÉM: uma cidade, três religiões)

Primeira cruzada marcou época de conflitos religiosos sangrentos

publicado às 19:08

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