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Viver é tornar acreditável o amor; é vingar o homem, amando
(Abbé Pierre) 
A essência universal da religião é redescoberta sempre que se lembra que a doutrina divide enquanto a ação une; ou que ying e yang não são opostos, mas sim interagentes

O propósito mais duradouro da humanidade sempre foi o de produzir mais humanidade. A certa altura, isso significou ter tantos filhos quanto possível, mas a quantidade de cuidados dispensados aos filhos veio a importar mais que o número deles. Hoje em dia a humanidade é, acima de tudo, um ideal de ternura e bondade, estendendo-se a qualquer idade e a qualquer ser vivo. Os primeiros rumores dessa mudança histórica ecoaram há muitos séculos, e agora grandes partes do mundo são sacudidas por eles.
Imaginar a forma que um renascimento viria a ter sobre tais bases foi difícil, porque as pessoas nunca foram capazes de uma visão nova do futuro sem primeiro rever sua ideia do passado.
 
(...) Vejo a humanidade como uma família que raramente tentou se encontrar. Vejo o encontro de pessoas, corpos, pensamentos, emoções ou ações como o princípio de mudanças maiores. Cada vínculo criado por um encontro assemelha-se a um filamento que, se fosse inteiramente visível, faria o mundo parecer recoberto de fios de teia de aranha. Todo indivíduo está ligado a outros, de maneira mais frouxa ou mais tensa, por uma singular mistura de filamentos, que se distendem através das fronteiras do espaço e do tempo. Todo indivíduo reúne lealdades passadas, apresenta necessidades e visões do futuro numa teia de contornos diferentes, com ajuda de elementos heterogêneos tomados de empréstimo a outros indivíduos; e esse constante intercâmbio constitui o principal estímulo da energia da humanidade. Quando as pessoas se vêem como fatores de influência entre si, já não são meras vítimas: qualquer uma, por mais modesta que seja, se toma então capaz de estabelecer uma diferença, por mais ínfima e fugaz, para modelar a realidade. Atitudes novas não são promulgadas por lei, mas se espalham, quase como uma infecção, de uma pessoa para outra.
O debate sobre como se conquistar uma vida melhor, se mediante o esforço individual ou pela ação coletiva, perdeu o sentido, porque não passa de dois lados da mesma moeda. É difícil fazer tudo sem ajuda ou inspiração de fora. As lutas individuais foram, simultaneamente, lutas coletivas. Todos os grandes movimentos de protesto contra o menosprezo, a segregação e a exclusão envolveram um número infinito de atos pessoais dos indivíduos, provocando no todo uma pequena mudança pela qual aprendem um do outro, e pela qual tratam os demais. Sentir-se isolado é não ter consciência dos filamentos que ligam uma pessoa ao passado e a partes do mundo onde jamais esteve.
A era da descoberta mal se iniciou. Até aqui, os indivíduos gastaram mais tempo tentando compreender a si mesmos do que descobrindo os outros. Mas agora a curiosidade se expande como nunca. Até aqueles que jamais puseram os pés fora da terra em que nasceram são, nas suas imaginações, imigrantes perpétuos. Conhecer alguém em todos os países do mundo, e alguém em cada volta da vida, poderá tomar-se, em breve, uma exigência mínima de pessoas que desejam experimentar plenamente o que significa estar vivo. O mundo entrelaçado por íntimos filamentos está separado em variados graus do mundo territorial em que as pessoas são identificadas pelo lugar onde moram e trabalham, por aquelas a quem têm de obedecer, pelos passaportes ou saldos bancários. A ascensão do cristianismo e outros movimentos religiosos do Império Romano é um exemplo de uma nova teia se espalhando por sobre uma civilização apodrecida; ainda que, na aparência, imperadores e exércitos continuassem a dar ordens como se nada houvesse mudado, os indivíduos, sentindo que as instituições oficiais tinham perdido a relevância em face de suas necessidades, buscaram consolo entre si. Hoje, uma reviravolta idêntica de atenção está ocorrendo: a terra está nos primeiros estágios de ser recoberta por fios invisíveis unindo os indivíduos que diferem entre si, segundo todos os critérios convencionais, mas que descobrem aspirações em comum. Quando as nações se formaram, todos os fios estavam destinados a se encontrar num ponto central; agora já não existe centro; as pessoas são livres para se encontrar onde bem quiserem.
Mesmo que todo mundo encontre as pessoas com que sonha, isso não significa o desaparecimento súbito dos descontentes. Almas gêmeas, muitas vezes, tiveram histórias trágicas. Encontrar Deus não evitou pessoas piedosas de se tornarem cruéis em Seu nome. Amizades se deterioram frequentemente em rotinas estéreis. A maior parte das vidas se paralisa no começo da vida adulta, após o que novos encontros não trazem novidade alguma. Os que mais sofreram desse tipo de desenvolvimento travado se dedicaram ao crime, que é a bancarrota final da imaginação.
A imaginação, todavia, não está condenada à fossilização. A descoberta mútua leva pessoas a cuidarem uma da outra tanto quanto de si mesmas. Ser útil ao próximo tem sido reconhecido, ocasionalmente, como um prazer mais profundo e satisfatório do que o exercício permanente do egoísmo, embora tal prazer se torne a cada dia mais delicado, estorvado por sensibilidades cada vez mais complicadas. Algumas relações estabelecidas ultrapassam a crença de que os seres humanos sejam basicamente animais, ou máquinas, ou inválidos crônicos que necessitam de permanente atenção médica. Mas a arte do encontro está apenas na infância.
Uma nova era envolve sempre uma nova categoria de herói. No passado, os seres humanos admiraram heróis porque tinham uma opinião fraca de si mesmos, poucos se julgando pessoalmente capazes de agir com heroísmo; mas também vieram a desmascarar seus heróis, um após outro, como simulacros, e a maior soma de esforços para inventar novos tipos de heróis acabou em decepção. O herói de Maquiavel era por demais insensível. O de Gracian pecava pela pretensão exagerada. O ídolo romântico tinha encanto pessoal, mas levou a sensibilidade ao ponto da auto tortura. O Super operário Herói da União Soviética não tardou a se sentir enganado. Heróis foram outrora conquistadores, mas subjugar já não é admirável, e os que comandam valem agora menos que os encorajadores. O êxito numa carreira já não basta para fazer de alguém um herói, porque a vida privada passou a valer tanto quanto a vida pública. A religião ainda pode inspirar alguns entusiastas a serem mártires, mas pouquíssimos preferem ser santos. O orador carismático e o líder revolucionário são vistos, a cada dia, com maior suspeita, pois o mundo está farto de promessas nãocumpridas e prefere alguém que ouça.
“Feliz o país que dispensa heróis”, disse Brecht. Não, sua falta será sentida se desaparecerem. Mas um número exagerado deles se fez passar por deuses: houve uma escassez de heróis modestos. Por isso, os anti-heróis foram inventados; eles jamais poderiam decepcionar. Ser herói hoje não significa criar um padrão para outros seguirem, porque o relacionamento ideal requer que cada parceiro seja mantido vivo pelo outro: heróis devem ser capazes tanto de receber quanto de dar, já que a influência em mão única pode se tomar desanimadora ou corruptora. Para tirar benefício de um herói, deve-se ter um pouco dele; deve-se ter coragem; a relação heróica é uma troca de coragem. Os heróis precisam ser intermediários que abrem o mundo para outros. Ser um intermediário que não engana está ao alcance de qualquer pessoa. Não basta contar somente com as minúsculas junções dos encontros pessoais.
Tornou-se possível, como nunca antes, prestar atenção ao que está acontecendo em cada canto do globo. Todos os seres humanos têm um horizonte pessoal, além do qual normalmente não ousam olhar. Mas, ocasionalmente, se aventuram mais longe, e então sua forma habitual de pensar fica inadequada. Hoje em dia eles se conscientizam, cada vez mais, da existência de outras civilizações. Em tais circunstâncias, velhos problemas assumem aparência nova, porque são revelados como partes de problemas mais complexos. A mudança de foco, das disputas nacionais para o humanitarismo amplo e as preocupações ambientais, são sinal da urgente necessidade de escapar de antigas obsessões, de manter à vista todas as dimensões diferentes da realidade e de enfocar simultaneamente o pessoal, o local e o universal.
A justiça - o mais velho sonho da humanidade - continua ilusória porque a arte de fazer justiça começa aos poucos a ser aprendida. Nos tempos antigos, a justiça era cega, incapaz de reconhecer a humanidade que está em todo mundo. Nos tempos modernos, tornou-se caolha, centrada estreitamente no princípio da impessoalidade, impondo as mesmas regras sobre todos, a fim de evitar o nepotismo e o favoritismo, mas incapaz de observar o que as pessoas sentem quando tratadas de maneira impessoal e fria, ainda que com justiça ou eficiência. Impessoais compensações monetárias do estado de bem-estar social não foram capazes de cicatrizar as feridas da injustiça, porque nada pode compensar de forma adequada uma vida desperdiçada, sobretudo quando, como acontece mesmo nos EUA, que estudaram a eficiência até os últimos limites, ela toma 7 dólares de impostos para pôr 1 dólar adicional de renda em mãos de uma pessoa pobre. Somente com os dois olhos abertos é possível ver que os seres humanos sempre necessitaram não apenas de comida e abrigo, saúde e educação, mas também do trabalho que não destrói a alma e de relacionamentos que fazem mais que expulsar a solidão; os seres humanos precisam ser reconhecidos como pessoas. Este livro é uma história de pessoas.
A humanidade só pode dar uma impressão satisfatória de rumo certo quando calcular suas realizações com a ajuda de uma economia que se refira às pessoas como estas de fato são, que incorpore comportamentos irracionais e altruístas em seus cálculos, que não parta do pressuposto de que as pessoas são sempre e fundamentalmente egoístas e que compreenda, por fim, que o êxito, mesmo no mundo material, não é obtido pelo empenho exclusivo no interesse egoísta. Esta economia de dois olhos está em vias de nascer, como também a política de dois olhos, preocupando-se não apenas em conceder vitória à maioria, mas em oferecer aos perdedores vitórias alternativas mutuamente aceitáveis, estimulando, sem ciúme, o cultivo de lealdades múltiplas.
A religião sempre utilizou dois olhos, essencialmente universais, abrangendo tanto o material quanto o espiritual, equilibrando salvação pessoal e interesse pelos outros, embora muitos crentes tenham preferido ter um olho só e nada mais ver além de sua verdade. No século XII, Maimônides disse que os seres humanos podiam contar com o céu, quaisquer que fossem suas crenças teológicas, desde que se comportassem com decência, aceitando as “Sete Leis de Noé”, que foi o pai de todos quando “a Terra inteira tinha apenas uma língua e uma fala”. Essas leis nada mais exigiam além do respeito ao próximo; os judeus concordavam que um muçulmano ou um cristão poderia ser “uma pessoa direita”. A essência universal da religião é redescoberta sempre que se lembra que a doutrina divide enquanto a ação une; ou que ying e yang não são opostos, mas sim interagentes; ou que a devoção hindu (bhakti) envolve o aprendizado da arte de ouvir e ser amigo; ou, como o rabino de Varsóvia declarou antes de sua comunidade ser aniquilada, que ninguém está sozinho - yahid (solitário) e yahad (juntos) estão separados apenas por uma letra. Descobrir compatibilidades através das fronteiras do dogma é o próximo item na agenda dos crentes e descrentes que não desejam ser confundidos pelas diferentes metáforas que cada sistema de crenças adota. Os fantasmas do passado podem ser postos no trabalho útil sem precisar causar estragos.
Enquanto cada segmento da humanidade, esquecendo que a busca do respeito é uma preocupação universal, exigi- lo somente para si, os resultados serão medíocres, como foram no passado. Os métodos tradicionais de agitação, legislação e infiltração vagarosa nas posições do poder nunca foram suficientes para mudar mentalidades. As mulheres abrindo caminho em profissões antes fechadas, geralmente se obrigam a aceitar as regras dos que estão no poder, os quais fazem concessões na suposição de que os recém-chegados irão jogar, mais ou menos, da maneira como se jogou sempre. Ademais, a independência econômica, o direito de trabalhar e de receber salário igual, não constituem fins em si mesmos, mas um meio voltado para uma vida mais completa, que a maior parte dos empregos não está destinada a estimular. Além da luta pelo poder, jaz a possibilidade de conquistar-se o respeito próprio ajudando os outros a se respeitarem mutuamente.
Tentei fornecer uma base onde salientar não uma retirada dos assuntos públicos para uma auto-obsessão particular, mas uma consciência do que é mais legitimamente público, o que os seres humanos compartilham. O que é único acerca da época atual é que a humanidade nunca esteve tão consciente da supremacia de suas preocupações íntimas, nem as exprimiu de forma tão franca, em quase todas as partes do mundo.
A busca do que temos em comum, apesar das nossas diferenças, nos enseja um novo ponto de partida.
“MINHA VIDA É UM FRACASSO.” Foram estas as palavras com que iniciei este livro, e agora o encerro com a história de um assassino que repetiu esta frase muitas vezes, até que um dia …
Meio minuto basta para transformar uma pessoa aparentemente comum num objeto de ódio, um inimigo da humanidade. Ele cometeu um homicídio e foi condenado à prisão perpétua. Depois, na sua cela desolada, meio minuto foi o suficiente para transformá-lo outra vez, agora em herói. Salvou a vida de um homem e foi perdoado. Mas ao chegar em casa encontrou a mulher vivendo com outro, além do que a filha nada sabia a seu respeito. Não o queriam, de modo que ele decidiu morrer.
Sua tentativa de suicídio também fracassou. Um padre chamado à beira do seu leito disse-lhe: “Sua história é terrível, eu nada posso fazer para ajudá-lo. Tenho família rica, mas renunciei à herança e fiquei apenas com dívidas. Gastei tudo que tinha em abrigos para os desamparados. Nada lhe posso dar. Você quer morrer e nada pode detê-lo. Mas, antes de se matar, me dê uma ajuda. Depois, faça como quiser.” Aquelas palavras mudaram o mundo do assassino. Alguém precisava dele: afinal não era uma pessoa supérflua e dispensável. Concordou em ajudar. E o mundo nunca voltou a ser o mesmo para o monge, que se sentia até então esmagado pelo acúmulo de sofrimento ao seu redor, e cujos esforços para minorá-lo quase não faziam diferença. O encontro casual com o criminoso deu-lhe a ideia que iria modelar todo o futuro: diante de uma pessoa na maior depressão, nada lhe pudera dar, mas, ao contrário, lhe pedira auxílio. Mais tarde o criminoso disse ao monge: “Se você tivesse oferecido-me dinheiro, ou um quarto para morar, ou um emprego, eu teria reiniciado minha vida de crimes e matado outra pessoa. Mas você precisou de mim.” Eis como nasceu o movimento de Emaús, do Abade Pierre, em benefício dos miseráveis: de um encontro entre duas pessoas totalmente diferentes, que acenderam uma luz no coração uma da outra. Esses dois homens não eram almas gêmeas no sentido comum, na significação romântica das palavras e, no entanto, cada um deles deve ao outro o sentido de direção que lhes guia a vida até hoje.
 Todos têm o poder, com um pouco de coragem, de estender a mão a um estranho, de ouvir e de tentar aumentar, ainda que em pequeníssima proporção, a soma de bondade e de humanidade no mundo. Mas não adianta agir assim sem lembrar que esforços anteriores falharam e que nunca foi possível prever com certeza como se comportará um ser humano. A história, com sua infindável procissão de passantes, que em sua maioria perderam a oportunidade de encontros esclarecedores, caracterizou-se, até aqui, como uma crônica do pendor para o desperdício. Mas, na próxima vez em que duas pessoas se encontrarem, o resultado talvez seja diferente. Esta é a origem da ansiedade, mas também da esperança, e a esperança é a origem da humanidade.

 (Theodore Zeldin - Uma história íntima da humanidade)
 

publicado às 02:53


Circe

por Thynus, em 04.02.16
Diante do promontório da Lucânia, desde então,
Estão à vista de todos as rochosas Sirenusas,
Formadas pelos ossos de antigas e belas sereias,
Que ainda dizem àqueles que cruzam suas águas:
"Cuidado! Mesmo as pedras escondem um desejo!"
(A. S. Franchini / Carmen Seganfredo - AS 100 MELHORES HISTÓRIAS DA MITOLOGIA)
 
Como sempre, quando a dificuldade é
insuperável, o Olimpo desperta. Hermes, o mensageiro de Zeus, intervém. Oferece a
Ulisses um antídoto, uma pequena erva que, se tomá-la logo, vai deixá-lo invulnerável
ao encanto de Circe. Além disso, oferece alguns conselhos: quando vir Circe, deve
aceitar e beber a poção. Nada vai acontecer. Circe, então, compreenderá a quem tem
pela frente. Ele deve se levantar e ameaçá-la com a espada, como se tencionasse matá-la.
Ela vai libertar seus companheiros, devolver-lhes a aparência humana, mas, em
troca, vai chamar Ulisses para compartilhar seu leito e fazer amor com ela. Ele deve
aceitar, mas sob uma condição: que ela jure pelo Estige que não tentará mais
prejudicá-lo.

[...] Ulisses acaba gostando. E com isso, fica um ano inteiro em seus
braços fazendo amor, bebendo, dormindo, comendo... e recomeçando a mesma rotina
no dia seguinte. O que o ameaça de novo, você sem dúvida já compreendeu, é a
tentação do esquecimento. Circe faz de tudo para que ele não pense em mais nada, que
sobretudo não pense em Penélope nem em Ítaca, e fique com ela no quentinho da sua
cama. Uma vez mais, Ulisses beira a catástrofe — uma catástrofe bem agradável, é
verdade, mas, mesmo assim, calamitosa. Pelo menos dessa vez, os marinheiros o tiram
dessa situação. Estão cansados de ficar ali e se impacientam, já que não têm Circe
todas as noites para entretê-los. Procuram então Ulisses, querendo retomar o caminho.
Contra toda expectativa, Circe aceita bem o fato. Afinal, não se pode manter um
amante à força, e se ele quer a qualquer preço ir embora, que vá! [...]

Ulisses organiza os preparativos da partida, mas continua sem saber
onde está e não tem a menor ideia do que fazer para chegar à sua ilha. Circe o ajuda,
mas com um conselho que o faz estremecer: é preciso encontrar a entrada do reino de
Hades, o reino dos mortos, nele penetrar e consultar Tirésias, o mais famoso de todos
os adivinhos. Apenas ele pode dizer a Ulisses o que o espera na sequência da sua
viagem e como retomar seu rumo.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)
 
 

Una ilustración de autor desconocido (por el momento) que muestra a Circe con su vara mágica convirtiendo a los hombres de Ulises en cerdos inteligentes.
 
Uma das figuras mais fascinantes do mundo homérico é Circe, hábil em toda sorte de encantamentos e quem dava à espécie humana muito pouco valor. Por outro lado, amava a luz, e em honra dela colocara o nome de Aurora [Eos] na ilha em que reinava, abundante em carvalhos e outras espécies de árvores. Tecia e, às vezes, cantava nos terraços de seu palácio, situado em uma clareira do bosque cercado por leões e lobos que não haviam nascido de feras, mas homens que haviam sido transformados em animais pela força de seus feitiços.
Irmã de Eetes, o deus da mente perversa, Circe era uma poderosa deidade de fala humana. Conhecia o vigor secreto das ervas e praticava os mais delicados deleites do erotismo. Sua sensualidade também a levou a desfrutar os prazeres gastronômicos e a perceber, sem dificuldades, os desejos de seus visitantes através dos matizes de suas vozes e da profundidade de seus olhares. Sua devoção pelo esplendor provinha da linhagem paterna, assim como de sua mãe aprendeu a dominar as palavras, pois que, afamada como era por seus formosos cabelos, Circe era filha do Sol, que deu a luz aos homens, e sua mãe foi Perseis, ninfa gerada pelo Oceano.
Foi em sua ilha de Aea ou Eéia que desembarcou Odisseu [Ulisses] quando navegava para o leste em busca de seu reino de Ítaca, depois de atravessar suas últimas peripécias na terra dos lestrigões, povo que morava em outra ilha, governada por Lamo e cujo porto estreito era resguardado por dois promontórios rochosos; alguns situam tal país em algum ponto a noroeste da Sicília, onde se sentia tão de perto a manhã e a noite que os pastores que conduziam seus rebanhos para casa ao pôr-do-sol cruzavam no caminho com aqueles que se dirigiam aos campos na hora do amanhecer. Lá abundavam as fendas e os perigosos penhascos, a partir dos quais Ulisses e seus homens seriam atacados com pedras pelos selvagens antes que pudessem lançar ao mar suas naves. Hábil como era para arquitetar artimanhas, o herói pôde se salvar porque conseguiu cortar com a espada o cabo que prendia seu navio, enquanto exortava seus homens a remar com todas as suas forças a fim de evitar serem arrojados ao Hades.
Depois de uma longa viagem e ocupando o único barco que não fora destruído por aqueles vorazes canibais, Ulisses e os homens que lhe restavam vieram a atracar no amplo porto de Eéia, em cuja praia ficaram estendidos durante dois dias e duas noites, cheios de dor e vencidos pelo cansaço. Quando os primeiros raios da aurora anunciaram a chegada do terceiro dia, Ulisses subiu a uma atalaia a fim de ver se descobria a presença de mortais, e ao cabo de longos caminhos que atravessavam o espesso azinhal divisou uma cortina de fumaça que subia do local em que se erguia o palácio de Circe. Ali começou o episódio mais apaixonante de sua odisséia, aquele menos descrito por Homero em seus cantos e, ao mesmo tempo, o mais sugestivo sobre o sentido de pátria e sobre a batalha travada na alma do herói entre a paixão e o passado.
Já eram muitas as peripécias sofridas para que se descuidassem ao chegarem a regiões desconhecidas; mas não faltaram os imprudentes que, em sua insana curiosidade, se atreviam a descurar dos conselhos de Ulisses de conter seus impulsos e observar os arredores com cautela antes de colocarem suas vidas em risco. O curioso é que reincidiam em todos os casos e que, por causa de sua ousadia, os veteranos que acompanhavam Ulisses foram caindo um a um até deixá-lo praticamente sozinho nas últimas etapas de seu legendário périplo. Em Eéia, quando tiraram a sorte para decidir quem ficaria cuidando do navio e quem sairia a explorar a ilha, tocou justamente a Euríloco, o companheiro mais íntimo de Odisseu, colocar-se a testa dos 22 tripulantes que empreenderam a marcha em meio a soluços desconsolados.
Passo a passo, por entre azinheiros e carvalhos, subiram pela encosta até alcançarem o ponto mais elevado onde se encontravam as edificações de Circe, em um sítio protegido; ali rondavam leões e lobos sacudindo as caudas, os quais, em vez de atacá-los, se erguiam sobre as patas traseiras e os acariciavam. Desconcertados, os navegantes se indagavam que coisa era essa que lhes queriam dizer aquelas feras ao se comportarem daquela maneira, pois o natural seria que tentassem devorá-los e não que lhes lambessem as mãos. Seja como for, eles os seguiram até a clareira do bosque e encontraram Circe sentada em frente ao tear na mais pacífica das atitudes, tecendo uma tapeçaria imensa, divina, brilhante, sutil e graciosa, tal como correspondia ao labor de uma deusa. Cativados por seu canto bem afinado, começaram logo a gritar para chamar-lhe a atenção, acreditando tratar-se de uma donzela indefesa. No entanto, cheio de desconfiança, Euríloco se manteve na retaguarda sem se deixar fitar nos olhos pela mulher de belíssimos cabelos. Sorridente, de permeio às fórmulas da mais obsequiosa cortesia, Circe convidou os homens a comerem a sua mesa e os levou consigo para o interior do palácio.
Euríloco relatou a Ulisses que todos a seguiram sem discutir, como se não soubessem o que estavam fazendo, e que ela os fizera se assentar em poltronas magníficas para oferecer-lhes queijo e bolos de farinha, mel silvestre e o forte vinho de Pramno(Pramne ou Pramme era uma pequena cidade da Ásia Menor, nas cercanias de Esmirna, hoje na Turquia. Produzia um vinho doce e capitoso, extremamente afamado na Antigüidade), no qual se ocultava a erva que os faria se esquecer de sua pátria. Vorazes como eram, os homens acabaram com os manjares e de um só gole beberam o perverso licor, por cuja influência não somente se esqueceram totalmente da pátria como também, ao serem tocados pela vara mágica de Circe, começaram a se transformar em porcos, até que perderam completamente sua aparência humana. As cabeças, os pêlos, as patas e a maneira de andar tornaram-se idênticos aos dos suínos, ainda que sua mente continuasse intacta e totalmente humana. Por isso choravam com a mesma tristeza dos homens, ao mesmo tempo que guinchavam à maneira dos porcos; foram depois encerrados em um chiqueiro, no qual comiam as bagas de sanguinho, as abelotas de carvalho e os frutos de faia que Circe lhes lançava.
Euríloco somente se salvou do feitiço porque não se aproximara da mulher de lindos cabelos. Vira de fora tudo o que ocorrera, olhando por uma janela ou observando as pocilgas a distância, para não ser capturado pela deusa de mente perversa. Seus olhos se enchiam de pranto ao anunciar aos companheiros que haviam permanecido no batei a amarga fortuna de seus amigos. Intimidados pelo relato, alguns quiseram lançar o barco ao mar de imediato para não compartilhar de semelhante ruína, e até mesmo Euríloco suplicava a Ulisses, invocando o nome de Zeus, prostrado no solo e abraçado a seus joelhos, que não o fizesse voltar ao palácio de Circe, porque a perita em venenos era também senhora das ilusões e, segundo acreditava, fizessem o que fizessem, ninguém poderia ser libertado de seus encantamentos.
Ulisses não era homem que se furtasse aos desafios. Escutou o relato de Euríloco em todos os seus pormenores e consolou-o como pôde; mas não concordou que devessem fugir da ilha, nem que abandonassem à própria sorte os que haviam sido transformados em bestas. Ao contrário, sentiu-se tentado pelo desafio e disse ao amigo que podia permanecer ao resguardo da nave enquanto ele partia, armado somente com sua lança, para empreender a difícil aventura de derrotar a deusa; subiu a ribanceira a partir do mar e tomou o caminho ao longo do vale sagrado até aproximar-se da mansão de Circe, sem levar consigo o apoio de nenhum valente. Muito longe, a grande distância do ponto em que Ulisses parara a esquadrinhar o terreno, alguns de seus marinheiros se lamentavam pelo que supunham ser o seu destino inevitável, outros se resignavam, sentindo já perto de si as profundezas do Hades, enquanto os demais esperavam secretamente a intervenção de algum deus que se interpusesse entre aquela mulher que dispunha de um conhecimento tão rico sobre os venenos e o herói de Tróia. E como tudo em Homero está povoado de magia e de encantamento, no meio de um dos mais cerrados renques de carvalhos veio esperar por Ulisses o portador do caduceu de ouro, o grande Hermes, que para a missão assumira o aspecto de um jovem lanugento, um adolescente em sua idade mais cheia de graça.
Narra-se que o deus estendeu a mão e apertou a de Ulisses, interrompendo-lhe o passo para que não mais avançasse, e lhe dirigiu as seguintes palavras:
- Como vais atravessar sozinho estas brenhas, infeliz, desconhecendo o país e sem saber onde pisas? Teus amigos que entraram na casa de Circe estão encerrados nas pocilgas, transformados em porcos. Por acaso vieste com a intenção de salválos? Nem sequer tu mesmo voltarias de lá; ao contrário, ficarás preso onde eles estão e não haverá para nenhum esperança de regresso. Detém teu passo, Ulisses, e escuta a solução para livrar-te de tantos males que acabariam não só com tua glória, mas até com a recordação de ti, sem falar de tua esperança de algum dia poder ver de novo tua pátria.
 Acedendo docilmente ao chamado do deus, Ulisses deteve o passo e escutou, como escutavam os homens naquela época as revelações superiores. Soube por Hermes que existia na região uma raiz muito salutar, que lhe permitiria conservar o controle de sua mente e abolir o efeito daquela erva que fazia com que os homens se esquecessem de sua pátria.
- Agora vou te explicar - disse o adolescente divino - os truques maléficos de Circe. Ela vai preparar um veneno que porá na comida que te vai servir, porém, mesmo assim, não conseguirá te enfeitiçar. Serás defendido pela poção que te darei, mas sob a condição de fazeres o seguinte: quando Circe te mandar correr brandindo sua vara mágica, deves sacar da bainha a faca afiada que trazes presa ao flanco e saltar sobre ela, tal como se pretendesses matá-la. Imediatamente verás que, assustada com tua resistência, convidará a te deitares com ela. Não recusarás aquele leito divino a fim de que ela liberte os teus homens, e a ti, te acolha em sua moradia; porém, deves exigir-lhe que profira o grande juramento que só fazem os deuses, de que não tramará uma nova armadilha, que mais não seja para garantir que não te privará de tua força e vigor tão logo te veja desarmado.

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En esta pintura de 1900, el artista inglés Wright Barker (1864-1941) representa a Circe dando la bienvenida a su palacio de marmol pulido


Dito isso, o divino Argifonte entregou ao herói uma erva com flores da cor do leite e raiz negra, ensinando-o também a distinguir a planta para que esta não lhe faltasse. Os deuses a chamavam Molu, e era dura e muito resistente a sair da terra, mas fácil de arrancar para quem tivesse a mão sagrada. Assim, sem lhe dizer mais nada, Hermes partiu de regresso ao Olimpo sobrevoando a ilha e seus bosques, enquanto Ulisses, movendo-se em sentido contrário, se encaminhava para o palácio de Circe com o coração agitado por mil inquietações. Quando Ulisses, ainda angustiado, pisou o umbral da deusa de formosos cabelos, Circe saiu a recebê-lo com suspeitosa solicitude. Ia rodeada de sedutoras donzelas e seguida por feras tão dóceis que pareciam suas mascotes. Lentamente, como se cumprisse um ritual, enrolou sua tapeçaria, guardou os fios de cores brilhantes e os novelos de lã em suas cestinhas e o fez entrar no recinto quando já despontavam os primeiros raios da aurora. Como estava situado no cume do monte, de cada canto do palácio se divisava um arvoredo cerrado precedido por um pântano e cercado pela franja azulada de um mar tão manso que custava crer que há tão pouco tempo os ventos tivessem reduzido a estilhaços algumas das naves de Ulisses, enquanto arrastava outras delas para terras desconhecidas.
A deusa leu no porte e nos gestos do herói a sua fadiga.
Adivinhou também sua ansiedade e a urgência que sentia para desfrutar da acolhida doméstica, pois vagava há anos, presa da confusão e dos enredos com que o envolviam os seres olímpicos.
Quanto mais próxima vislumbrava a pátria, tanto mais longe se afastava de Ítaca, ao mesmo tempo que perdia homens e navios diante dos perigos mais inusitados; agora expunha-se à tecelã de feitiços a risco de transmutar-se ele mesmo em porco ou de ficar indefinidamente enredado em suas teias de erotismo.
Circe convidou Ulisses a sentar-se em uma poltrona marchetada de tachas de prata e sob seus pés colocou um tamborete cujo estofamento tinha sido bordado por ela mesma. Sem desperdiçar mais tempo, misturou em uma taça de ouro um vinho saboroso com a beberagem maligna, destinada a fazer com que seu hóspede se esquecesse da pátria. Ele, precavido e consciente de que sob sua beleza sedutora a maga praticava desígnios perversos, cheirou disfarçadamente a flor do conjuro e recordou-se ao consumi-la da advertência de Hermes. No momento em que Circe tocou-o no ombro pretendendo transformá-lo também em porco e conduzi-lo à pocilga para juntar-se a seus amigos, Ulisses sacou da faca e lançou-se ameaçadoramente sobre ela, como se fosse matá-la. Os dois se fitaram frente a frente e, antes que proferissem qualquer palavra, um halo de amor envolveu-os mesmo contra a vontade de ambos.
Nunca antes a deusa se havia ajoelhado, como o fazia agora perante Ulisses, a chorar aos pés de homem algum. Abraçou-lhe os joelhos com evidente aflição e perguntou como havia conseguido resistir ao feitiço que havia sido praticado com tanta eficácia sobre todos os outros mortais.
- Por acaso és tu aquele astuto Ulisses que, segundo a previsão do Argifonte do báculo de ouro, haveria de chegar em seu barco negro em seu retorno do cerco de Ílion? És então o anunciado, cuja mente indomável desafiaria meu poder? Baixa tua espada, Odisseu, para que subamos os dois ao leito sagrado até que, unidos em descanso e amor, aprendamos a confiar um no outro. Depois eu tecerei minha tapeçaria, te deleitarei com meu canto e gozarás em sossego sobre uma colcha confortável na qual receberás minhas atenções e poderás se recuperar até que estejas preparado para retornares tua rota.
Ulisses deixou que ela falasse e esperou. Circe fez-lhe uma profusão de promessas estendendo ao redor dele os fios de sua magia proscrita; mas ele recordou que todas as feiticeiras acabam por destruir ao amante, uma vez que, em meio aos gozos, lhe tiram o sangue para guardá-lo em pequenos odres e, da noite para o dia, não restam mais que ossos e pele ressequida ao redor de uma alma estéril que, sem nenhuma potência, desce indefesa até o Hades. Assim, prevenido, o herói recorreu mais uma vez à sua astúcia a fim de encontrar uma maneira de dobrá-la.
- Mas como, Circe, pretendes de mim que seja terno contigo se converteste meus homens em porcos e a mim mesmo, a quem já fizeste provar a beberagem que faz olvidar a pátria, me convidas cheia de dolo a subir a teu leito? O que desejas é me pegares desarmado a fim de me prenderes com outras artimanhas. Não concordarei com teu desejo até que me dês tua palavra de honra e te comprometas, por meio do juramento dos deuses, de que nunca mais irás tramar um novo ardil em prejuízo meu.
E foi assim que, de permeio a rituais sagrados, Circe empenhou o juramento em nome de todos os deuses benditos de devolver à forma humana não somente os companheiros de Ulisses, mas todos os demais desgraçados que mantinha em cativeiro sob a forma de bestas, e ainda jurou que jamais faria coisa alguma que pudesse prejudicá-lo enquanto estivesse adormecido. Confiando na palavra suprema da deusa, o herói se deixou conduzir por suas servas, ninfas filhas das fontes, dos bosques e dos rios as quais, em meio a grande agitação, lhe preparavam a indumentária de gala. Uma estendia pelos troncos belos tapetes recobertos de púrpura; outra colocava diante dele mesas de prata cobertas de cestas; outra mais, depois de misturá-los com perfeita harmonia, servia os vinhos com notas de mel em belas vasilhas. Enquanto a encarregada da água limpava as gotas que haviam sobrado das ânforas, a vigia do trípode mantinha, a distância, aceso o fogo sob a pequena caldeira. Quando percebeu a fervura da água no bronze, Circe convidou Ulisses a se banhar a fim de livrar seus membros do cansaço desgastante, e ela mesma, com grande habilidade e experiência, encarregou-se de lavá-lo e depois ungi-lo com óleo brilhante.
Por melhores que tivessem sido os banhos que Ulisses havia provado de mãos luxuriosas até então, o da deusa se distinguia por abundantes deleites que nele despertavam sensações adormecidas, não obstante sua mente permanecesse sempre alerta contra o perigo. Com um olho observava a túnica e o esplêndido manto cor de púrpura com que Circe o vestia aparentando grande respeito e reverência, e com o outro vigiava os alimentos que as donzelas estavam encarregadas de lhe servir. Deixou-se descansar mas sem se atrever a provar dos manjares, pois sua mente continuava ocupada prevendo calamidades que, no mínimo, poderiam reduzi-lo a um prisioneiro dos encantos da deusa feiticeira.
Ao notar que Ulisses continuava tomado de grande tristeza, a tecelã instou-o novamente a confiar em seu juramento divino; mas ele replicou que não se poderia esperar dele atitude diferente se seus amigos permaneciam enfeitiçados nos chiqueiros em vez de estarem sãos e salvos a seu lado. Circe, ansiosa para despertar-lhe o amor através de seu poder, dirigiu-se até as pocilgas para libertar os homens conforme haviam concordado e, como sinal de que estava disposta a cumprir sua palavra da melhor maneira possível para levar o herói para seu leito e talvez retê-lo consigo, não só lhes devolveu a humanidade como até os rejuvenesceu por meio de um novo filtro. Um por um iamse erguendo os navegantes, maravilhados não somente por sentir que haviam recuperado seus corpos e tinham novamente o controle de todos os seus movimentos, mas por retornar com aspecto e vigor juvenis. Como era próprio dos heróis homéricos, os homens romperam em pranto e, sem deixar de gemer, se congregaram ao redor de Ulisses para tomar-lhe as mãos em sinal de agradecimento. Diversamente aos costumes de nosso tempo, a Antigüidade se caracteriza por figuras másculas que soluçam, pranteiam e derramam lágrimas abundantes quase que por qualquer motivo. É a mulher, ao contrário, que domina suas emoções, conserva sua firmeza perante a dor ou, em seu desassossego, pode gritar e se indignar, mas dificilmente se abandona aos extremos sentimentais em que incorrem os homens, sejam eles guerreiros, deuses ou reis. Circe, sem descer de seu pedestal de deusa, quando muito se comove pelo grupo de humanos cuja aflição reforça seu desejo de volver à pátria; mas por condescender e agradá-los, lhes impinge outra amostra de seu poder oferecendo a Ulisses ocultar-lhe o tesouro, os cordames e as provisões em uma caverna até que tenham reparado o barco e estejam em condições de velejar e empreender a viagem.
- Arrastemos primeiro o barco para a terra - disse Ulisses a seus homens que haviam permanecido escondidos no batei. - Levemos depois o tesouro e os cordames para uma gruta próxima daqui; a seguir, preparem-se todos para me acompanhar ao palácio de Circe, onde encontrareis nossos companheiros, que lá estão comendo e bebendo fartamente.
Receoso, Euríloco descreu não de Ulisses, mas dos ardis da feiticeira, pois os tendo enganado uma vez, poderia ela enganá-los duas vezes, só que desta servindo-se da voz de Odisseu e sob o encantamento de apetitosos festins servidos por ninfas. Assim, em vez de segui-lo, como todos os companheiros já se aprestavam a fazer, Euríloco alertou-os a tomarem cuidado com aquele enlevo aparente, pois já eram bastantes os sofrimentos que haviam passado até chegarem a estas praias sem que precisassem acrescentar ainda mais um por esta imprudência.
- Recordem-se - disse-lhes - de todas aquelas loucuras que levaram à morte nossos companheiros quando perdemos o rumo; recordem-se do ciclope, dos ventos furiosos, da destruição das naves... Lembrem-se da pátria distante e das famílias que os esperam. Por muitos que sejam seus males, qualquer morte é odiosa para os pobres humanos... É melhor perseguirmos as vacas do deus Sol e escolhermos as mais saudáveis para fazer sacrifícios aos deuses. Se finalmente conseguirmos atracar em Itaca, nossa terra paterna, a primeira coisa que devemos fazer é erigir novos templos. Prefiro morrer boquiaberto sobre as ondas do que despedaçar minha vida nesta ilha terrível.
Mas Euríloco lhes falou em vão enquanto permanecia na popa, porque os demais empreenderam a marcha atrás de seu líder, ansiosos pelos banhos, pelas túnicas e pelos mantos aveludados com que Circe e suas ninfas os esperavam. E foi assim que começou essa aventura que duraria alguns anos na ilha de Eéia, sem suspeitar de que, se para uns não haveria regresso, para outros aguardavam as maiores dificuldades e talvez até a morte.
Aquela que se pensava a princípio ser apenas uma estada de passagem em sua rota para Ítaca, prolongou-se indefinidamente porque Ulisses finalmente sucumbiu aos encantos de Circe. Não que o houvesse enfeitiçado com qualquer substância arcana, mas a deusa utilizou seus liames de amor a fim de mantê-lo preso a seu leito, enquanto que aos demais, para que não protestassem, recomendava massagens e longos sonos até que se recuperassem do abatimento provocado pela recordação tenaz de tão más jornadas.
Segundo o calendário de Homero, um ano durou a paixão do herói pela deusa; de seus amores, foram frutos os nascimentos de Ágrio, Latino e Telégono, sobre quem pouco evocou a memória poética, já que a história se concentrou em Odisseu e no mito de seus encontros felizes com Circe em meio a banquetes de uma infinidade de carnes e de vinhos deliciosos nessa ilha de Eéia onde, além dos porcos consagrados particularmente à deusa Morte, alimentados com as vagens que cresciam nos arbustos de Cronos, existia um cemitério semeado de salgueiros dedicados a Hécate.
Através da Odisséia veio saber-se que, passado um ano, quando retornou a estação em que os dias fazem-se mais longos, os homens vieram a Ulisses para se queixarem, pois em suas almas sentiam os furores de uma profunda melancolia. Enquanto estiveram reunidos ao cair da tarde, comendo pedaços de carne salgada em torno do líder, o que havia sido escolhido para falar em nome dos demais explicou que haviam decidido que já era tempo de Ulisses voltar de novo sua mente para a pátria, posto que, se era certo o decreto divino de que deveriam se salvar e regressar à própria terra, não deveriam adiar mais sua partida, por mais que estivessem gozando na ilha dos mais acolhedores cuidados.
Ao imaginar a despedida, foi como se um raio trespassasse o coração de Ulisses; sentia saudades da pátria, mas sabia, no mais íntimo de sua alma, que amava a deusa e que, perante um dilema tão extremo, não seria ele quem decidiria, mas o destino que tudo prescreve e, ainda no momento do gozo, nos condena a sofrer, talvez porque não exista recompensa que não custe alguma renúncia. Apesar do aguilhão da dor, nada disse a seus homens sobre o padecer que sofria. Em um grego era raro o silêncio, e mais raro ainda em um herói que sozinho já padecera tanta tristeza, já que tudo se ventilava em corrilhos e a intimidade era algo incomum. Muito deve ter doído a Odisseu prometer-lhes que apelaria à palavra de deusa para pedir a Circe que cumprisse sua promessa de que os ajudaria a empreender a viagem de retorno, mas ele o fez nessa mesma tarde.
Nem essa noite nem a seguinte foram períodos tranqüilos para Odisseu, porque em seu coração crescia a angústia de uma paixão que teria de esquecer se quisesse continuar sua trajetória. Nenhuma notícia recebera de Ítaca durante sua ausência tão prolongada. Talvez suspeitasse que ainda o aguardava Penélope, espantando os pretendentes que o davam por morto; mas a risco de encontrá-la casada de novo e de que seu filho Telêmaco jamais viesse a conhecer o alcance de suas façanhas, já que havia crescido enquanto ele guerreava com os aqueus, o herói oscilava entre permanecer e retornar. A intensidade de seu apego à ilha de Eéia era, no mínimo, igual à da sua incerteza. Secretamente, ele sabia que Afrodite não outorga duas vezes a fortuna amorosa e que, ao lançar-se ao mar, empreenderia a rota inexplorada daqueles que abandonam, um rumo que o marcaria pelo resto da vida. Foi desse modo que, ao subir mais uma vez ao leito lavrado de Circe, abraçou os joelhos da deusa implorando clemência: - Enfim chegou o tempo para que cumpras, ó Circe, tua antiga promessa de ajudar em meu regresso à pátria. Sinto-me impelido pelo desejo de retornar, assim como meus homens, cujas súplicas quebrantam minha alma com seus lamentos infindos cada vez que me deixas a sós com eles.
Sem que renunciasse à sua dignidade de deusa, surgiu em Circe uma tristeza que lhe era desconhecida. Queria conservá-lo junto a si como seu amante e enfeitiçá-lo com seus atributos supremos; mas o traço de humanidade que desvendava dentro de si mesma a seu próprio pesar invalidava sua tentação de recorrer a artimanhas para retê-lo prisioneiro de novos encantamentos. Não conseguia entender o que era capaz de provocar tantas saudades em seu amado por uma Ítaca tão distante, o que pretendia ele recuperar em um leito já frio ou quais rebanhos reclamaria para si depois de ter partido para batalhar há tantos anos, já que as forças ainda não declinavam em seu corpo nem este era sulcado pelas cicatrizes da memória.
- A contragosto não haverei de te manter a meu lado - disselhe a deusa. - Ó Laértida("Filho de Laerte". Era comum entre os gregos designar uma pessoa ou um deus por um adjetivo derivado do nome de seu pai ou outro antepassado), Ulisses astuciosos, verdadeiro descendente dos deuses! Tampouco irás permanecer em minha casa descontente. Tu me humanizaste o coração, ao mesmo tempo que deixaste intacta minha condição superior. Vejo teu futuro e vejo o meu. Vejo a distância e o mar que se estende entre tua pátria e a minha. Vejo a tristeza como uma névoa e, não obstante, serei eu quem guiará teu caminho para impedir que cometas novos erros. Partirás, sei muito bem, mesmo que não te dê um regresso fácil nem livre de provações que os deuses se interponham em teu caminho.
Disse-lhe depois que, ao lançar-se ao mar, o primeiro que deveria fazer era consultar o adivinho Tirésias para que este lhe previsse a sorte, ainda que, para tanto, uma vez que o profeta se encontrava encarcerado na região dos mortos, devesse Ulisses se atrever a descer com seu negro navio ao escuro palácio onde habitavam Hades e a horrenda Perséfone, diante de cujo trono nenhum vivo havia chegado antes.
- O sopro de Bóreas conduzirá teu navio - explicou-lhe - até que tenhas atravessado o oceano e divisado os bosques de choupos e salgueiros inertes. Ali ancorarás teu batei e sozinho, tal como eu te ordeno, te dirigirás ao pé de um penhasco de onde brota uma cachoeira ruidosa, na confluência do rio das Chamas com o rio dos Prantos. Ali abrirás um rego a teu redor e nele derramarás uma libação para todos os mortos, vertendo primeiro uma mistura de leite e mel e depois outra de vinho doce com água; por cima, espalharás farinha de trigo branca e os honrarás longamente. Sacrificarás um carneiro jovem e uma ovelha negra a Perséfone e a Hades, orientando suas cabeças em direção ao Érebo. Deixarás que o sangue escorra inteiramente e penetre no valo que abriste à tua volta e, enquanto aguardas a chegada do cego Tirésias, a quem Perséfone prodigalizou sensatez e razão entre todos os mortos, afugentarás com tua espada a toda e qualquer alma que pretenda segui-lo. Vira teu rosto na direção oposta ao rio e não contemples a turba de homens privados de vida. Então ordena a teus homens que acendam fogo sob as rezes mortas invocando aos deuses e, sobretudo, não permitas aos residentes do Hades que te toquem nem toquem o sangue imolado até que te hajas encontrado com o sábio adivinho.
Ao alvorecer, a própria Circe revestiu Odisseu com uma túnica e um manto novos e, para despedir-se dele, abriu os cofres em que guardava seus ornamentos mais preciosos. Cingiu-lhe a cintura com fios de ouro e cobriu sua cabeça com um velo de lã, para que sua tristeza não perturbasse a algazarra dos que partiam. Nenhum deles, até então, sabia que sua meta era o Hades, a fim de solicitar-se um oráculo à alma de Tirésias. Ao se inteirarem de tão macabra aventura, romperam em prantos e todos se puseram a se retratar em vão.
Arrancavam os cabelos de tanto pesar, clamavam a Odisseu por piedade e rasgavam-se as vestes; mas por mais que gemessem, de nada lhes adiantou: através de Tirésias aguardava a voz do destino, e tudo estava determinado para que fosse aceita sua palavra.
Obrigados por Odisseu, finalmente todos embarcaram, menos o imprudente Elpenor que, embriagado, dormira no telhado de Circe e, ao despertar aturdido, caiu de cabeça no sola.
- Pensar - disse Ulisses - que chegaria Elpenor caminhando ao Tártaro antes que eu com minha nave! O herói prometeu-lhe uma sepultura digna e então se lançou ao mar impulsionado por um vento suave proporcionado pela deusa.
Lá atrás permaneceu Circe, olhando do alto de uma penedia o afastamento de seu amado, sentindo tanta dor na alma quanto em sua humanidade recém-adquirida. Chorava como choram as mulheres abandonadas, uma vez que, sendo maga, estava consciente de que cedo ou tarde, e depois de superar novas dificuldades, Odisseu e seus homens voltariam à pátria e jamais regressariam. Quando suas noites se fizessem tão longas e frias que não existiria Penélope nem quaisquer espaços capazes de fazê-lo sentir-se em casa, ele se daria conta em Ítaca do que havia perdido na ilha de Eéia. Choraria a ausência de Circe com saudade profunda. Vagaria envelhecido gritando por seu nome, suplicando aos deuses por outra oportunidade, até que se recolhesse a seu leito e, finalmente, encetasse sua última viagem. Para Circe, ao contrário, nem a morte lhe era permitida, pois as deusas não morrem, as deusas não descem ao Tártaro. Vagaria em círculos com seus fios dourados e, durante as tardes, teceria novos mantos em seu tear. Ao despontar da aurora, percorreria os caminhos de areia contemplando as águas que não lhe haviam deixado mais que a sombra de seu amado Ulisses e, algumas vezes, no decorrer dos séculos, se transmutaria em outra divindade menos sensível aos delírios humanos.

 (Martha Robles - Mulheres, Mitos e Deusas, o feminino através dos tempos)

publicado às 19:19

ULISSES: para alguns, filho de Laertes, para outros, filho de Sísifo. Um dos maiores heróis gregos e
célebre pela engenhosidade e esperteza. Esteve na Guerra de Tróia, tendo sido o autor do
embuste do cavalo de madeira que pôs fim à guerra. No regresso, enfrentou uma série de
percalços para poder chegar a salvo em sua Ítaca natal, onde teve ainda de enfrentar os
pretendentes à mão de sua esposa Penélope, que por pouco não dilapidaram todos os seus bens.

(Mário da Gama Kury - Dicionário de mitologia grega e romana)

 

Ligado à fundação de Lisboa desde os autores greco‑latinos, devido a uma falsa etimologia (Ulisses > Olissipo), muito habilmente explorada, por motivos políticos, pelos nossos humanistas do Renascimento, num propósito de afirmar a existência de Portugal como país independente e autónomo face às ambições de Castela –, o mito de Ulisses tem uma presença muito forte na épica, desde Os Lusíadas (1572), até aos poemas epigónicos de Gabriel Pereira de Castro e de António Sousa Macedo, como Ulisses ou Lisboa Edificada (1636) e Ulyssipo (1640), respectivamente.

Toda esta tradição literária iria o Fernando Pessoa da Mensagem (1934) metê‑la num só e curto poema. Nele, Ulisses, como fundador de Lisboa, inaugura, qual pórtico emblemático, a galeria de figuras heróicas e simbólicas da História de Portugal, esculpidas numa escrita densa, críptica, ocultista, sibilina, recortada nos moldes epigramáticos da Antologia Grega, que o poeta conhecia pela tradução do inglês Paton.

O mito de Ulisses como fundador de Lisboa não escapou a Eça de Queirós, que a ele alude com ironia e em tom paródico. Mas em A Cidade e as Serras, Zé Fernandes, ouvindo a leitura da Odisseia por Jacinto, embalado pela imaginação, recria, entre a vigília e o estado onírico, esse mítico e fantástico mundo mediterrânico, teatro das aventuras e errâncias do mítico herói, na demanda da Ítaca natal, tudo recortado num «Amar muito azul», como pano de fundo. Bem mais sério e importante que este efeito de evasão no espaço e no tempo, foi a leitura que dessa figura mítica fez Eça de Queirós, apresentando‑o como paradigma e imagem especular da humanitas, de uma condição humana de que o homem abdica, hipotecando a sua identidade a ídolos alienantes. Ao revelar ao homem a maneira como deve recuperar e assumir a humana condição, Ulisses toma‑se em Eça de Queirós o fundador não da cidade física, mas da polis humana, a cidade dos homens. É o que acontece no conto «A Perfeição» (1902: 313‑344).
MANUEL DOS SANTOS ALVES - O Mito de Ulisses ou a queda na História

 

ULISSES 

O mito é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mito brilhante e mudo –

O corpo morto de Deus,

Vivo e desnudo.

Este que aqui aportou,

Foi por não ser existindo.

Sem existir nos bastou.

Por não ter vindo foi vindo

E nos criou.

Assim a lenda se escorre

A entrar nas realidade,

E a fecundá-la decorre.

Em baixo, a vida, metade

De nada, morre.
(Fernando Pessoa)

 

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Nausicaa e Ulisses 

Certa manhã, na Ilha de Feácia, a princesa Nausícaa divertia-se à beira do mar com suas damas de companhia. Era filha do rei Antínoo, governante da ilha. Ela tinha ido lavar roupas com suas servas no rio.
Terminada a tarefa, as moças se divertiam jogando bola na espuma das ondas. Às vezes, a princesa lançava um olhar melancólico ao horizonte. Tudo o que enxergava era água e mais água: a Feácia era um país isolado, perdido nos mares que cercam a Grécia.
Nausícaa perguntava-se se algum dia conheceria outro lugar além de sua ilha natal.
Era improvável. Estava em idade de se casar, e todos os seus pretendentes eram rapazes obtusos e acomodados. Subitamente irritada, Nausícaa chutou a bola para longe. “Chega de brincadeiras”, disse às servas. Nausícaa lançou um último olhar ao horizonte azul, à areia branca da praia – e, nesse momento, todas as moças levaram um grande susto. Um vulto desgrenhado e coberto de lama havia saído do meio dos arbustos e caminhava em direção a elas.
O homem tinha olhos azuis e havia muito não aparava a barba. Seu único arremedo de vestimenta era um ramo de oliveira, que ele segurava junto à cintura. Apesar da lama que o cobria, Nausícaa pôde ver que tinha mãos grandes e fortes. As damas de companhia debandaram, apavoradas. Mas Nausícaa se manteve onde estava. Era uma princesa da Casa Real da Feácia. Não seria tão fácil fazê-la correr.
– Apresente-se, estranho – ela ordenou. Para seu espanto, a assustadora figura não falou com voz rouca ou sinistra – mas com palavras suaves, empostadas e convincentes.
– Sou um pobre náufrago, e estou à sua mercê – disse. – Eu me jogaria a seus pés e beijaria seus joelhos agora mesmo se não estivesse paralisado diante de sua beleza, e se não estivesse tão sujo.
 Aquelas palavras imediatamente arrefeceram a desconfiança de Nausícaa. O forasteiro contou-lhe que esteve durante dias ao sabor das ondas, vindo da Ilha de Ogígia, a muitas léguas de distância. Os ventos da tempestade destruíram sua frágil jangada e o lançaram ali, naquela terra para ele desconhecida. A Feácia era um país tão isolado que poucos viajantes haviam aportado em suas praias. Ainda assim, os feácios tinham o costume de tratar os raros visitantes com a maior cortesia e hospitalidade. Seguindo a tradição, Nausícaa ordenou às servas que dessem ao estranho uma das roupas que haviam lavado. Depois, sugeriu sutilmente ao forasteiro que se banhasse no rio. Minutos mais tarde, o náufrago estava limpo e bem vestido. Era um homem maduro, com o rosto marcado por intempéries e peripécias – um rosto de quem correu o mundo e já viu muitas coisas na vida. Mentalmente, Nausícaa comparou aquele belo espécime com os tolos garotos que lhe faziam a corte. De novo, sentiu-se irritada. – Vamos – ela disse, chutando uma pedrinha sobre a areia –, meus pais irão recebê-lo.
O hóspede era estranhamente esquivo em relação à própria identidade – mas sua lábia e seu cavalheirismo compensavam o mistério.
Mesmo sem dizer seu nome, o forasteiro caiu nas graças do rei, da rainha e de toda a corte. O rei Antínoo empolgou-se tanto com o hóspede anônimo que lhe ofereceu um grande banquete. Todos os nobres da Feácia compareceram. Para divertir os convivas, o soberano convocou um aedo – espécie de bardo da Grécia antiga, que contava histórias ao som da harpa. Dedilhando as cordas do instrumento, o aedo começou a cantar uma história que já era famosa: a do Cavalo de Tróia. A mais célebre das guerras havia terminado cerca de dez anos antes – as façanhas de Odisseu, Aquiles e Ájax já eram conhecidas em toda a Grécia. A audiência feácia sabia de cor o nome dos heróis da Guerra de Troia e também seu destino – Aquiles fora morto por uma flecha no calcanhar; Agamênon fora assassinado pela esposa, Clitemnestraa, ao retornar para casa; Menelau descansava agora em Esparta, com sua esposa, Helena, a causa de tanta mortandade. Havia apenas um herói cujo destino permanecia obscuro: Odisseu. Sabia-se apenas que ele desaparecera no mar, tentando retornar à sua Ítaca natal. A esposa, Penélope, o pai, Laertes, e o filho Telêmaco o aguardavam em vão. Todos os convivas estavam com os olhos e os ouvidos fixos na canção do aedo, que falava da construção do cavalo de madeira e do ataque noturno liderado por Odisseu e Aquiles. Nesse momento, o rei Antínoo percebeu algo estranho: o forasteiro sem nome escondera o rosto sob o manto, e seus ombros se mexiam convulsivamente. Estava chorando.
O rei decidiu que estava na hora de acabar com o mistério. Quando terminou a canção, ele se levantou e disse: – Agora chega de artimanhas, meu amigo! Com certeza, não existe no mundo nenhum homem sem nome. Afinal de contas, quem é você?
O estranho se ergueu, com a face molhada de lágrimas. Agora todos os rostos se voltavam para ele.
 Pois bem – disse o estranho. – Sou Odisseu, filho de Laertes, célebre em todo mundo por minhas façanhas e por minha astúcia. Agora, ouçam minha história: vou lhes contar o estranho trajeto que os deuses traçaram para mim, começando naquele momento, dez anos atrás, em que parti de Tróia rumo ao lar.
E, com isso, o mais estranho, charmoso e ambíguo dos heróis gregos começou a narrar suas desventuras e trapaças, diante da atônita audiência, e olhando de tempos em tempos para a princesa Nausícaa, que o fitava cheia de deliciada perplexidade.
As aventuras de Odisseu no cerco de Tróia são narradas na Ilíada – mas suas desventuras no mar são o tema de outro poema também atribuído a Homero, a Odisseia. Após conquistarem Tróia, os guerreiros helenos entraram em seus navios e zarparam para suas terras. Todos chegaram lá em questão de meses – mas a frota de Odisseu, soprada pelos ventos do destino, acabou perdendo-se em uma fantástica geografia de perigos, maravilhas e tentações. Uma ironia perfeita: de todos os heróis gregos, Odisseu era o menos interessado em grandes feitos e durante dez anos desejou apenas retornar a casa. Havia destruído Troia apenas para poder voltar a Ítaca. Mas estava fadado a passar outros tantos anos perambulando pelo mundo, arrastado de desventura em desventura, e contando apenas com sua famosa astúcia para conseguir reencontrar o caminho tantas vezes perdido - numa inexplicável mistura de sorte, esperteza e azar que o transformou no maior viajante dos antigos mitos.
A primeira parada nessa mirabolante travessia foi a Ilha dos Lotófagos. O país tinha esse nome porque seus habitantes se alimentavam do lótus: um fruto mágico que apagava todas as lembranças. Os lotófagos eram criaturas desmemoriadas e felizes: viviam num eterno presente, desconhecendo o passado e sem pensar no futuro. Alguns dos marujos de Odisseu experimentaram a guloseima local: imediatamente, esqueceram-se do lar e resolveram ficar para sempre naquela maravilhosa amnésia. Odisseu teve de arrastá-los à força de volta aos navios e partiu dali o mais rápido possível. Ele ainda passaria por muitos perigos, mas o primeiro talvez tenha sido o maior deles: as delícias do esquecimento são uma tentação à qual é difícil resistir.
Após alguns dias de viagem, a frota avistou uma ilha rochosa, coberta por névoas. De longe, escutavam-se balidos de cabras e ovelhas e vozes ásperas ecoando entre os penhascos. Sombras colossais moviam-se em meio à neblina. Odisseu e seus marujos já tinham ouvido falar daquela ilha: era o país dos Cíclopes, gigantes de um olho só, que viviam afastados de todas as outras criaturas, pastoreando seus rebanhos.
Odisseu estava decidido a ver de perto aquelas criaturas. Após desembarcarem numa praia, ele e seus companheiros se aventuraram até uma caverna nas vizinhanças. Como de praxe naqueles tempos, Odisseu levava consigo um presente para oferecer a possíveis anfitriões. Era um vinho fortíssimo e de sabor indescritível, que trouxera da Ilha de Ismaura. Acompanhado de alguns marinheiros, e com sua dádiva etílica em mãos, Odisseu entrou na caverna. Junto às paredes de pedra, havia grandes cestas de vime cheias de lã e imensas tigelas com leite fresco. Pelo chão, havia uma sortida coleção de cajados de pastor – cada um deles do tamanho de um mastro de navio.
Então uma sombra cobriu a entrada da caverna. O proprietário da monstruosa residência estava chegando. O Cíclope entrou tangindo seu rebanho. Tão logo o último cordeirinho passou, o gigante lacrou a boca da caverna com um pedregulho. Ao ver os intrusos, ele franziu o cenho de forma nada hospitaleira. Odisseu pigarreou e deu um passo à frente. Falando em palavras açucaradas e suaves, como sempre, lembrou o gigante sobre as leis da hospitalidade, respeitadas por deuses e por mortais. O cíclope soltou uma gargalhada furiosa.
– Eu sou Polifemo, filho de Posêidon! Em minha caverna, não há outra lei além de minha vontade.
E, transformando suas palavras em ações, apanhou dois gregos, esmigalhou suas cabeças e devorou-os. Horrorizados, Odisseu e os demais marujos se encolheram no fundo da caverna, enquanto o sangue dos companheiros espirrava pelo chão.
As sinistras refeições tornaram-se rotina. Todos os dias, o cíclope levava seus rebanhos para pastar, deixando a caverna selada. Voltava de tardezinha, e matava a fome degustando dois gregos antes de dormir.
Odisseu, tentando manter a racionalidade no meio daquele espetáculo de horrores, cogitou trespassar o coração do gigante durante o sono. Mas como fariam para abrir a porta da caverna? Se matassem o cíclope, ficariam presos para sempre. Odisseu ponderou tudo isso e, certa manhã, concebeu um estratagema.
Quando o cíclope partiu novamente para apascentar suas ovelhas, Odisseu apanhou um dos cajados colossais, com a ajuda dos companheiros, e afiou-lhe a ponta a golpes de espada. Naquela noite, ofereceu ao captor antropófago o odre com o vinho de Ismaura.
– Isso vai lhe ajudar a digerir – disse o herói.
O gigante secou o odre. O vinho era tão forte que até a dantesca cabeça do Ciclope ficou estonteada.
– Um presente magnífico – exclamou o gigante em meio a sua bebedeira. – Agora me diga o seu nome, para que eu lhe devolva essa gentileza em espécie.
– O meu nome – responde Odisseu – é Ninguém.
– Excelente, meu caro Ninguém! Agora, eis o meu presente para você: vou devorá-lo por último. – E com isso, o Cíclope mergulhou num sono profundo.
Odisseu não perdeu tempo. Com a ajuda dos cinco marujos sobreviventes, ergueu a lança improvisada e atravessou o olho do seu captor. Com um grito, Polifemo arrancou o chuço da órbita: estava cego. Seus berros de raiva chamaram a atenção dos compatriotas.
Em breve, vozes chegaram de fora da caverna:
– Polifemo, que mal o aflige? Quem o feriu? – perguntavam os Cíclopes.
– Ninguém! – gritou Polifemo. – Ninguém me feriu! Ninguém está escondido em minha caverna! Ninguém quer me matar! Convencidos de que seu primo havia enlouquecido, os demais Cíclopes foram embora.
Polifemo urrou, esbravejou, bateu as mãos na parede – tudo em vão. Os gregos estavam bem escondidos em um recanto da caverna. O Cíclope cego não conseguiu encontrá-los. Na manhã seguinte, as ovelhas começaram a balir de fome. Sem outra alternativa, o pantagruélico pastor teve de abrir a caverna para deixá-las pastar. Na medida em que o rebanho saía, ele ia apalpando os lombos lanudos – sem desconfiar de que seus prisioneiros arrastavam-se sob as barrigas das ovelhas. Finalmente livres, Odisseu e seus companheiros voltaram aos navios.

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Polifermo e Ninguém
Vendo afastar-se a Ilha dos Cíclopes, Odisseu não imaginava que naquele momento sua frota era observada pelos olhos irados de Posêidon, deus dos mares e pai de Polifemo. O senhor dos oceanos planejava uma longa e dolorosa vingança. A curiosidade de Odisseu haveria de custar-lhe anos e anos vagando pelo mar, longe de casa, sem destino certo, sem família, sem fortuna – como se fosse mesmo ninguém.
Logo após a assustadora parada na Ilha dos Cíclopes, Odisseu desembarcou na Eólia, terra governada pelo rei Eolo. Era um soberano tão justo e ponderado que os deuses o haviam transformado em Guardião dos Ventos. Em uma alta torre, ele mantinha aprisionados os ventos Norte, Sul, Leste e Oeste, libertando-os apenas sob ordem divina. Odisseu entreteve o rei com histórias sobre a Guerra de Tróia. Agradecido e encantado, Eolo lhe deu um presente: os irritadiços ventos Norte, Sul e Leste, bem presos em um saco.
– Mantenha-os encerrados aí dentro e não os solte sob hipótese alguma. Assim, você chegará com segurança e sem tempestades à Ítaca.
Eolo deixou solto apenas o suave Zéfiro, o vento Oeste, que se encarregou de soprar a frota de Odisseu rumo à terra natal. Odisseu passou a viagem encerrado em sua cabine, agarrando com força o saco que continha os ventos. Temia que um deles escapasse por engano e soprasse a frota para longe. Quando estava apenas a algumas horas de viagem de Ítaca, o comandante da esquadra caiu no sono. Sua tripulação havia dias vinha arrastando o olho para aquele presente. – O que haverá de tão precioso naquele saco? – perguntavam-se alguns marujos. – Se é um tesouro tão valioso, nosso capitão deveria dividi-lo conosco.
Aproveitando-se do sono exausto de Odisseu, os marinheiros abriram o saco. E um uivo ensurdecedor encheu a terra e o céu. Os três ventos escaparam, enredando-se uns nos outros e formando um repentino furacão.
Odisseu acordou a tempo de ter um vislumbre de sua terra natal: entreviu as colinas verdes e os camponeses acendendo fogueiras. Mas logo em seguida a frota foi arrebatada por enormes vagalhões. Empoleirados nas cristas espumosas, os navios foram arrastados para longe, e o lar afastou-se, afastou-se, afastou-se até desaparecer no encapelado horizonte.
Após a quase chegada a Ítaca, as desgraças passaram a se acumular sobre a pobre frota de Odisseu – era Posêidon, que ia dosando sua vingança com calculada crueldade, jogando Ninguém de uma catástrofe para outra. Nem bem escapou à fúria dos ventos, a esquadra grega foi parar na terra dos Lestrigões – uma feroz nação de canibais que acabou devorando 11 das 12 tripulações de Odisseu. Os poucos sobreviventes escaparam num único barco. Após algumas semanas em alto-mar, chorando a triste sina dos amigos devorados, eles aportaram em uma ilha aparentemente tranquila e acolhedora. Havia colinas suaves e florestas serenas, e a terra emanava uma luz tênue e docemente fantasmagórica, como se o lugar estivesse mergulhado em um eterno crepúsculo. Estonteados e exauridos pelos últimos eventos, os marinheiros se convenceram de que a maré de azar finalmente estava recuando: além da aparência paradisíaca, a ilha recém-descoberta contava com uma fauna abundante e suculenta. Após um dia inteiro caçando veados e javalis, Odisseu e seus amigos se refestelaram com um pródigo churrasco. Mais tarde, contudo, ficou evidente que aquele éden zoológico escondia algum tipo de pesadelo. Um grupo de gregos se aventurou no interior da ilha. Apenas um deles retornou ao acampamento, trazendo uma história escabrosa.
– Encontramos um palácio de inacreditável beleza e fomos acolhidos por uma ninfa deslumbrante – contou o marinheiro, chamado Euríloco. – Ela disse ser a rainha desta ilha e nos convidou para um banquete. Serviu-nos uma bebida saborosa, mas estranha. Em seguida, fez alguns gestos com uma varinha, disse meia dúzia de palavras que não compreendi e todos os nossos amigos se transformaram em porcos! Consegui fugir, apavorado. Olhei para trás, vi a feiticeira trancafiar nossos companheiros em uma pocilga, escutei sua gargalhada. Então corri como louco até chegar aqui.
Odisseu logo compreendeu: aquela ninfa cruel e caprichosa certamente era Circe, temível feiticeira, conhecida pelo passatempo de transformar homens em animais.[Há quem diga que os transformava a todos em porcos antes mesmo de perguntar como se chamavam; quem por sua vez afirma que, antes de ir com eles para a cama ou depois, transformasse um em leão, outro em touro ou em rã ou em galo. Outros dizem, finalmente, que na realidade não os transformava, mas, simplesmente conseguia revelar aquilo que já eram fazendo aflorar a sua natureza escondida de porcos ou de burros.
Filha do sol e de uma ninfa, ambiguamente oscilante entre deusa e maga, femme fatale e dama socorredora, amante vingativa e divindade benigna, prostituta e mãe de heróis, senhora da natureza selvagem e mestra de refinados luxos, desde há séculos a figura de Circe modula-se sobre a dupla natureza dos fármacos a que está confiado o seu poder: poções potentes, em grau de produzir lúgubres degradações, mas também luminosas sublimações, capazes de tornar o indivíduo melhor ou talvez de transformá-lo em deus. A figura de Circe como pérfida sedutora continuará a ser composta e recomposta por séculos até às imagens fin de siècle de mulher «besta», pronta a enganchar os machos na sua sexualidade omnívora e felina. O lado positivo do poder de Circe será por sua vez redescoberto pelas artistas do Novecentos, para as quais Circe torna-se figura da mulher moderna, livre e consciente, capaz de contestar os estereótipos da cultura heróica patriarcal («Não estás cansado de matar? - pergunta a Odisseo a Circe de Atwood. - Não estás cansado de dizer Avante?»), mas também símbolo dos riscos de isolamento e das dificuldades de comunicação com o outro sexo ínsitas na nova condição feminil]

Decidido a salvar seus amigos daquele destino, Odisseu pegou sua espada e partiu sozinho rumo ao palácio de Circe. No meio do caminho, foi abordado por uma aparição: um jovem com sandálias aladas e rosto luminoso. Era o deus Hermes, que se compadecera vendo tantas desventuras e, às escondidas de Posêidon, resolvera dar uma ajuda ao nosso herói.
– Beba isso – ele disse, entregando um frasco a Odisseu. – É um antídoto contra a poção mágica de Circe. E não deixe que ela saque a varinha encantada. Outro conselho: ela tem uma queda por homens rudes. Use isso em seu proveito. – Hermes piscou um olho matreiro e desapareceu como um raio no espaço.
Bem provido e bem aconselhado, Odisseu chegou ao palácio. Circe o recebeu com falsa cortesia e o convidou para um jantar a dois. Serviu-lhe a poção encantada, dissimulando um sorriso, mas Odisseu estava protegido pelo antídoto de Hermes. Nem bem a feiticeira fez menção de levantar sua varinha, o grego saltou sobre ela de espada em punho e a apertou contra a parede. Circe, que realmente gostava de homens rudes, apaixonou-se na hora. Deixando cair a varinha, ela convidou o rústico hóspede para uma visita íntima ao seu quarto – onde Odisseu demonstrou ter outras habilidades além da eloquência.

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Após várias noites bastante ocupadas, Circe concordou em libertar os amigos de Odisseu e devolvê-los a sua forma original. Com efeito, a ninfa estava tão deleitada com a performance de seu hóspede que resolveu ajudá-lo em sua viagem de volta. Entregou-lhe um mapa dos mares vizinhos e fez uma profecia: antes de chegar a Ítaca, Odisseu teria de viajar para o mais extremo e perigoso dos destinos – o Hades, reino subterrâneo habitado pelos mortos.(1) Lá, Odisseu deveria falar com o espírito do cego Tirésias, o mais célebre adivinho da Grécia antiga.

Seguindo os conselhos de Circe, Odisseu dirigiu seu navio na direção do Sol poente. Navegou até os confins ocidentais do mundo, terras soturnas, cobertas por uma noite eterna – e chegou ao Rio Oceano, um gigantesco anel de águas que envolvia toda a Terra. Lá, desembarcou em um promontório coberto por bosques negros. No fundo da floresta, estava a entrada do Hades. Odisseu penetrou na cinzenta região dos mortos.(2)
Atravessou os três rios infernais: o Aqueronte, o Estige e o Letes. Chegou a uma planície tétrica e silenciosa, habitada por sombras espectrais, e invocou o fantasma de Tirésias. O adivinho aproximou-se em meio aos nevoeiros do além, apoiado em seu cajado.
– Odisseu, já conheço sua variada fama e seus muitos descaminhos – disse o vate em voz rouca. – Agora escute meu conselho. Para levar seus homens de volta a Ítaca, você deve ficar longe da Ilha de Hélios, onde o deus do Sol guarda seus rebanhos sagrados. Não pise nessa terra, Odisseu, pois ela será a ruína de seus companheiros.
Após essas enigmáticas palavras, o fantasma do adivinho lhe deu as costas e voltou a mergulhar na nebulosa distância. Odisseu estreitou os olhos e divisou uma multidão de espectros. Pouco a pouco, foi reconhecendo feições familiares: lá estava o orgulhoso Agamênon e o feroz Aquiles, seus irmãos em armas; lá estava Heitor, seu nobre inimigo; e também Anticleia, sua mãe, que morrera a esperá-lo em vão. Com o coração pesado de sombras, o herói voltou as costas aos fantasmas e retornou ao perigoso mundo dos vivos.
Após a visita ao Inferno, a nau de Odisseu seguiu em direção a Ítaca. No entanto, Circe o havia prevenido: no caminho, passariam pela Ilha das Sereias. Com seus cantos hipnóticos, elas atraíam marinheiros extraviados para sua ilha – e lá os pobres náufragos morriam à míngua, sem pensar em outra coisa além da melodia mortalmente bela de suas captoras. À medida que o vento empurrava o barco rumo à Ilha das Sereias, Odisseu urdiu outro de seus planos. Primeiro, ordenou a todos os marinheiros que tapassem os ouvidos com cera de abelha. Assim, ficariam imunes ao canto. Odisseu, contudo, era curioso demais. Queria ouvir aquelas vozes que haviam conduzido tantos marinheiros à morte e escapar com vida. Por isso, ordenou aos marinheiros que o amarrassem ao mastro.
– Se eu ordenar que me soltem, não obedeçam.
O vento impeliu o navio para a costa rochosa da ilha. Subitamente, toda a brisa cessou. Dos altos rochedos, vozes melódicas e irresistíveis começaram a ecoar. Chamavam Odisseu pelo nome, convidavamno a se aproximar e lhe prometiam o conhecimento de todas as coisas entre os céus e a terra.
Tomado de súbito êxtase e loucura, Odisseu gritou para que seus marujos o soltassem. Naquele momento, seu único desejo era atirar-se às águas, nadar loucamente em meio àquelas notas musicais, entregar-se ao encantamento que o dominava. Mas os gregos, com os ouvidos tapados, continuaram a remar. Odisseu gritou até ficar rouco. Desmaiou. E o canto e as promessas das Sereias se perderam ao longe, entre os sussurros do mar.
Logo após escaparem à sedução das cantoras marinhas, os viajantes tiveram de enfrentar o mais horripilante obstáculo da jornada: o Estreito de Cila e Caríbdis. Era uma passagem entre dois paredões de pedra escarpada – de um lado, estava Caríbdis, um redemoinho capaz de engolir embarcações inteiras, e, do outro, espreitava Cila, um monstro com 12 tentáculos e dez cabeças de cão raivoso, que vivia empoleirado em um alto penedo. Primeiro, a nau de Odisseu soçobrou à beira de Caríbdis: o torvelinho de águas espumantes abria-se feito uma bocarra com léguas de largura – tão grande que lá embaixo se podia entrever as pedras esbranquiçadas do leito do mar. Os remadores conseguiram impulsionar o barco na direção contrária – mas, tão logo se afastaram de Caríbdis, os tentáculos de Cila apanharam uma dezena de marinheiros e os ergueram no ar. Gritando em desespero o nome de seu comandante, os marujos foram puxados para o alto do penhasco e destroçados pelas presas ferozes do monstrengo, entre rolos de neblina borrifada de sangue.
Após o pavoroso ordálio nas mandíbulas de Cila e Caríbdis, a nau grega encontrou uma praia calma e aprazível para descansar. Era um lugar verde, ensolarado, soprado por uma brisa suave e quente. Nas baixas colinas, pastavam bois de chifres enrodilhados.
Os marinheiros estavam deleitados após tanto sofrimento. Mas Odisseu, que já se acostumara a desconfiar do destino, não se deixou enganar pela aparente calmaria. Consultando o mapa de Circe, constatou que estavam na Ilha de Hélios, o deus do Sol. Lembrou-se imediatamente da profecia de Tirésias.
– Temos de partir agora mesmo – ele ordenou. Mas seus marinheiros, que já não aguentavam rodar de um lado para outro sobre as ondas, ameaçaram amotinar-se: não arredariam pé daquela ilha antes de estarem todos bem descansados e alimentados. Odisseu nada pôde fazer. Com as mãos na cabeça e olhar ominoso, ele assistiu impotente a seus amigos se lançarem com voracidade sobre os bois sagrados do Sol. Repimpados após uma orgia de carne assada, os marinheiros voltaram ao navio, que balançou docemente sobre as ondas calmas – até que um relâmpago desceu do céu azul, incinerou a embarcação e matou todos os marinheiros. Era a vingança de Zeus, que recebera as queixas indignadas do deus do Sol. Apenas Odisseu sobreviveu, agarrado a um pedaço de mastro chamuscado. E foi assim que chegou à Ilha de Ogígia, governada pela ninfa Calipso. A deusa-rainha já ouvira falar dos dotes masculinos de Odisseu (Circe não era muito discreta com esses assuntos). O pobre herói foi mantido em uma espécie de prisão amorosa na Ilha de Ogígia por nada menos que sete anos – tendo de atender aos desejos insaciáveis de Calipso noite e dia, sem descanso. Finalmente saciada, ela deixou que Odisseu partisse em uma jangada improvisada. As tempestades de Posêidon o haviam lançado, finalmente, nas praias da Feácia.
– E aqui estou – disse Odisseu, por fim, sentando-se após a longa narrativa, com um suspiro de profundo, interminável, indescritível cansaço.
Com seu relato, Odisseu comoveu e fascinou toda a corte da Feácia – especialmente o rei e sua filha. Naquela mesma noite, enquanto o banquete prosseguia, Antínoo chamou o ilustre hóspede para uma conversa a sós. Pondo-lhe a mão no ombro, foi tecendo comentários sobre as aventuras de Odisseu e elogios à sua temperança – ao mesmo tempo, pouco a pouco, foi moldando, à base de indiretas, uma proposta sutil. “Que grande honra para Nausícaa se, em vez dos verdes garotões feácios, ela tivesse por marido um homem experiente, sofrido e testado nas agruras do mundo”, o rei disse, como quem não quer nada. E Odisseu – que já havia sobrevivido ao canto das Sereias, que escapara à voracidade de Cila e Caríbdis e que passara de coração incólume pelos possessivos afetos de duas semideusas – viveu naquele instante seu maior desafio. Estava cansado, infinitamente cansado. Para falar a verdade, não sabia que tipo de recepção o esperava em Ítaca – e se sua esposa, Penélope, houvesse cedido aos avanços de outro homem?(3) Afinal de contas, 20 anos haviam-se passado desde que Odisseu partira de casa. E a princesa Nausícaa, com sua inteligência, modéstia e simplicidade, fizera aquilo que as divinas Circe e Calíope haviam tentado sem conseguir: lançara na alma do herói vagamundo o desejo de ficar.
Resistir àquela tentação foi uma proeza que exigiu mais força e determinação do que todas as outras juntas. A última grande façanha de Odisseu em sua jornada pelo mundo foi recusar a mão da doce Nausícaa – a primeira pessoa, em toda aquela viagem, que o recebera sem tentar prendê-lo, matálo, devorá-lo e sem lhe dar presentes traiçoeiros. Alguns dias depois, na praia, a princesa observou um barco que se afastava pelo mar liso e sem ondas. A luz do Sol brilhou por um instante na vela branca. Depois a embarcação desapareceu no horizonte. Odisseu fora embora de Feácia. Fora para nunca mais voltar.
Vinte anos são 20 anos. Ao desembarcar em sua terra natal, Odisseu mal a reconheceu. Árvores agora cresciam onde antes havia só campinas. Em outros pontos, bosques tinham desaparecido para dar lugar a plantações. Mas o herói logo divisou algo familiar: os contornos de sua fortaleza, entre dois montes verdes. Respirou fundo e pôs-se a caminho. Nesse momento, contudo, sentiu-se envolver por uma espécie de neblina luminosa – sentiu um misto de medo e exaltação – e soube que sua amiga e protetora, a deusa Atena, estava nas vizinhanças.
– Eis-me aqui – disse Atena, surgindo diante de Odisseu com seus olhos verde-azulados e seu ar de elegante sabedoria.
– Já não era sem tempo – murmurou Odisseu, ousando introduzir uma leve reprovação no tom de voz. Ele e Atena eram velhos amigos – mas, nos últimos anos, ela havia desaparecido de sua vida. Deixara-o à mercê das intempéries e aos caprichos da fatalidade. Atena baixou os olhos brevemente e levou a mão aos cabelos, dissimulando o embaraço atrás de uma refulgente madeixa ruiva. Atena era tão bela e curvilínea quanto todas as deusas olímpicas – mas, diferentemente da maioria de suas parentas, vivia no mais completo celibato. Dedicara sua imortalidade ao culto da sabedoria e ao exercício das armas, jamais se entregando a deus ou a um mortal. Odisseu era a única criatura na Terra, no Olimpo ou nos Infernos capaz de deixá-la, vez por outra, com as pernas bambas.
– Perdoe-me, caro Odisseu, semelhante aos deuses – ela disse (“semelhante aos deuses” era o elogio que os heróis gregos mais gostavam de ouvir). – Mas, acredite, a culpa não foi minha. – Logo tratou de explicar que a ira de Posêidon é que a mantivera afastada. Por mais poderosa que fosse, Atena não era páreo para seu tio, cujas sísmicas oscilações de humor podiam sacudir os alicerces da terra e as profundezas do mar. Por sorte, Posêidon havia partido em uma longa viagem aos confins do mundo – fora visitar os Hiperbóreos, seus servos mais queridos, que viviam nas últimas margens do Oceano. A providencial ausência do deus dos mares havia permitido que Odisseu voltasse para casa.
Em seguida, a deusa contou-lhe o que andara acontecendo no palácio real nos últimos anos. Penélope estava cercada por insistentes e agressivos pretendentes. Mais de 100 nobres cortejavam a mão da rainha e o trono de Ítaca. Furioso, o príncipe Telêmaco partira na tentativa de encontrar o pai, mas voltara frustrado. Juntos, Odisseu e Atena urdiram um plano para livrar a casa real da praga dos pretendentes e, ao mesmo tempo, testar a fidelidade de Penélope. Num desses atos mágicos que parecem tão corriqueiros entre os deuses gregos, Atena alterou as feições de Odisseu, mudando-lhe o formato da barba e encurvando-lhe um pouco o nariz. E cobriu-o com roupas de mendigo. Assim, disfarçado pelo truque divino, Odisseu entrou no pátio de sua casa. Ninguém o reconheceu. Ou melhor – nenhum humano. Nem bem pisou a soleira do grande portão, o herói escutou um suave ganido. Olhou para o lado. Uma forma esquálida e de patas trêmulas estava a seus pés. Era Argos, o cachorro que havia acompanhado Odisseu em muitos passeios e caçadas. Já tinha quase 30 anos – um verdadeiro Matusalém canino. Durante duas décadas, havia aguardado o retorno do mestre. E o reconhecera, apesar do artifício de Atena. Segurando as lágrimas, Odisseu f1230054,14ez uma breve carícia na cabeça esfalfada do amigo. Argos esticou a cabeça, fechou os olhos e morreu.
Ninguém igualou a façanha de Argos.
Odisseu hospedou-se na própria casa sem que o disfarce fosse percebido. Para todos os efeitos, ele era apenas um mendigo andarilho. (Naquela época, os ricos tinham o costume de acolher e alimentar os pobres – já se vê que eram mesmo outros tempos.) Durante dias, engoliu a raiva observando os debochados e vorazes pretendentes que enchiam as peças de sua casa, bebendo o seu vinho, comendo a sua comida e jogando olhares cobiçosos para sua mulher. Diversas vezes, os jovens e arrogantes invasores lançaram injúrias àquele mendigo anônimo, que comia silenciosamente ao pé da lareira. Penélope – que continuava bonita após tantos anos decorridos – parecia resistir aos avanços com a mais perfeita dureza. Certo dia, o mendigo conseguiu aproximar-se da rainha e disse: “Seu marido está perto”. Nos olhos de Penélope, Odisseu divisou o mais sincero alívio e a mais profunda alegria. Sim, ela ainda me ama, ele concluiu. Antes de fazer a limpeza geral da casa, Odisseu revelou-se ao filho Telêmaco, que havia deixado quando era apenas um menino.
Nos 20 anos que se passaram, Telêmaco ficara obcecado com o paradeiro do pai. Enquanto muitos diziam que Odisseu só poderia estar morto, o jovem percorrera várias ilhas e mares buscando notícias dele – mas voltara a Ítaca sem nada descobrir. Lá, teve de suportar a petulância dos pretendentes que cobiçavam sua herança paterna. Agora, após uma longa conversa, pai e filho planejaram vingança. Aliciaram dois servos leais a Telêmaco – e começaram a afiar espadas.
Penélope havia decretado um desafio público. Na sala do trono, havia um grande arco que ninguém além de Odisseu jamais conseguira disparar. Não pela força – mas pelo jeito. Apenas Odisseu conhecia o modo correto de encurvar o arco e encaixar a flecha.
– Quem conseguir disparar este arco – declarou a rainha – terá a minha mão. O desafio era só uma artimanha para ganhar tempo: ela sabia que ninguém conseguiria usar a arma além do legítimo rei de Ítaca. Mas todos os pretendentes se candidataram a tentar – e, além deles, o mendigo sem nome.
Da turba de aristocratas ergueu-se uma retumbante gargalhada de desdém. Num canto, Telêmaco sorriu: “Vocês não perdem por esperar”.
Um por um, os candidatos tentaram e falharam. Chegou a vez do mendigo – que não apenas dobrou o arco como disparou a flecha no coração do pretendente mais próximo. Nisso, os dois servos leais entraram na sala carregados de armas e trancaram as portas. E a matança começou.
Odisseu, Telêmaco e os dois criados lutaram contra mais de 100 inimigos. Foi uma luta desigual. Desigual ao extremo: os pretendentes não tiveram a menor chance, pois Odisseu tinha do seu lado ninguém menos que Atena. Enquanto o arco era disparado repetidas vezes, Telêmaco e os servos derrubavam os inimigos que tentavam alcançar as portas – e Atena conferia força e precisão redobrada ao braço de seus protegidos.
Só após lavar a honra da casa e da família em um banho de sangue, o herói que mais rodou pelo mundo se revelou a sua esposa – a mais paciente das mulheres. E, naquela noite, o homem chamado Ninguém dormiu profundamente em sua cama, com a mulher que amava aconchegada em seu peito. Com que terá sonhado Odisseu naquela noite? Nenhuma canção, nenhum poema ou epopeia revela esse detalhe.
Talvez tenha sonhado com o mar.(4)

(José Francisco Botelho, Maurício Horta, Salvador Nogueira - Mitologia: Deueses, Heróis e Lendas)
 

 

NOTAS:


(1) Hades, o senhor do inferno. Ele também é chamado “Plutão”, que
significa “rico” e é como os romanos vão chamá-lo: ele reina sobre os mortos — de
longe a população mais numerosa, uma vez que a humanidade se compõe muito mais de
mortos do que de vivos. Se medirmos a riqueza de um rei pelo número dos seus
súditos, de fato, com certeza o senhor dos infernos é o soberano mais opulento do
universo.
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

(2) - Para os gregos, o que caracteriza a morte é a perda da identidade. Os mortos são,
antes de mais nada, “sem-nome” ou mesmo “sem-rosto”. Todos que deixam a vida se
tornam “anônimos”, perdem a individualidade, deixam de ser pessoas. Ulisses, durante
a sua viagem, ao ser obrigado a descer aos infernos (Hades), onde estão aqueles que não têm mais
vida, é tomado por surda e terrível angústia. Contempla horrorizado todo aquele povo no
Hades. O que mais o preocupa é a indistinta massa de sombras que nada mais identifica.
Aterroriza-o o barulho que fazem: um barulho confuso, um burburinho, uma espécie de
rumor surdo dentro do qual não se pode reconhecer voz alguma e menos ainda qualquer
palavra que faça sentido. É essa despersonalização que caracteriza a morte aos olhos dos
gregos, e a vida boa deve ser, tanto quanto possível e pelo tempo que se puder, o contrário
absoluto desse tom acinzentado infernal.
Pois a identidade de uma pessoa passa por três pontos cruciais, sendo o primeiro a
sua inclusão em uma comunidade harmoniosa — um cosmos. Uma vez mais, o homem
só é de fato homem entre os homens e, em exílio, ele nada é — por isso, aliás, o
banimento da cidade, para os gregos, corresponde a uma condenação à morte, o castigo
supremo que se inflige aos criminosos. Mas há uma segunda condição: a memória, as
lembranças, sem as quais uma pessoa não sabe quem ela é. É preciso saber de onde
viemos para saber quem somos e para onde devemos ir. O esquecimento se revela,
com relação a isso, a pior forma de despersonalização que se possa conhecer em vida.
É uma pequena morte em plena existência, e o amnésico é o ser mais infeliz da terra.
Por último, deve-se aceitar a condição humana, isto é, apesar de tudo, a finitude. O
mortal que não aceita a morte vive em hybris, em descomedimento e com uma forma de
orgulho que beira a loucura. Ele se imagina o que não é, um deus, um Imortal, como um
louco se imagina César ou Napoleão.
Ulisses aceita — já lhe contei como, ao recusar a oferta de Calipso — sua condição
de mortal. Guarda tudo na memória e tem uma única ideia fixa: recuperar seu lugar no
mundo e repor sua casa em ordem. Nisso, ele é um modelo, um arquétipo da sabedoria
dos antigos.
(Luc Ferry - A Sabedoria dosMitos Gregos)

(3) Enquanto isso, Penélope aguardava, na esperança de que seu amado
encontrasse o caminho de volta para ela e Telêmaco. Na ausência dele,
chegaram a Ítaca muitos pretendentes, que tentaram convencê-la a desistir
de esperar Ulisses e casar-se com um deles. Todos cobiçavam a ilha, e além
disso Penélope ainda era muito bonita. Ela teve que descobrir um modo de
recusar os pretendentes (há quem diga que eles não eram menos de cento e
doze) e prometeu que, quando tivesse terminado de tecer uma mortalha para
seu sogro, escolheria um deles. Entretanto, embora tecesse arduamente por
longas horas durante o dia, à noite ela desfazia em segredo o trabalho diurno,
e com isso nunca terminava sua tarefa. Embora lhe fosse difícil continuar
acreditando no retorno seguro de Ulisses depois de vinte anos,
Penélope conseguiu manter sua confiança e sua fidelidade, e foi recompensada
com o retorno do marido e com seu feliz reencontro.
(Liz Greene, Juliet Sharman-Burke  Uma Viagem através dos Mitos, O significado dos mitos
como um guia para a vida)

(4) O mito de Ulisses e Penélope mostra um relacionamento
que resiste ao tempo, à tentação e à longa separação. Mas isso ocorre
unicamente porque os dois mantêm sua confiança um no outro, recusandose
a abrir mão de seus ideais comuns. Ambos são duramente testados e, vez
por outra, cometem erros; em algumas versões do mito, tanto Penélope
quanto Ulisses se entregam a outros amores, o que talvez seja
compreensível, considerando-se uma separação de vinte anos. Mas seu
amor e interesse um pelo outro e pelo filho os une de maneira absoluta e
sustenta a ambos em seus momentos mais difíceis. Na grande epopeia de
Homero, a Odisseia, Ulisses pensa em Penélope e Telêmaco todas as vezes
que corre o risco de se deixar apaixonar pelas várias mulheres que o tentam
ao longo do caminho. Elas conseguem seduzi-lo, mas não tocar seu coração
realmente, pois este já foi entregue.
A imagem de Penélope tecendo prendeu a imaginação dos leitores por
mais de dois mil anos. O que ela tece de dia e desfaz à noite é uma mortalha.
O que isso pode significar, como imagem do que sustenta sua
lealdade, mesmo ao lhe serem oferecidas companhias que poderiam pôr fim
à sua solidão? A mortalha traz o tema da morte — a morte do amor, o abandono
do passado, o rompimento de laços e vínculos antigos. Embora, nos
momentos em que está à vista de todos, ela continue a fazer seu trabalho,
Penélope o desfaz quando está sozinha, recusando-se a abrir mão do amor,
da lembrança e do passado tecido e compartilhado com o marido ausente.
Tecer é também uma imagem arquetípica da própria vida, uma trama
feita de muitos fios, experiências, sentimentos e acontecimentos diferentes.
Cada um de nós tem uma história singular, que começamos a tecer no nascimento
e concluímos na morte. Penélope se recusa a aceitar que a trama e a
tessitura de sua vida pregressa estejam completas; não busca o passado nem
o futuro; vive no aqui e agora, fiel a seus instintos e sentimentos, recusandose
a ser pressionada a abandonar a esperança, mas se recusando igualmente
a se tornar presa de fantasias infrutíferas. Na verdade, ela vive o momento,
plena e profundamente, e a mortalha que finge tecer é apenas um meio de se
proteger da importunação dos pretendentes. Essa capacidade de aceitar cada
momento tal como é, e de continuar fiel ao próprio coração, a despeito do
que os outros insistam em dizer que é a realidade, talvez seja a verdadeira
chave da capacidade de resistência desse casamento mítico. Para Ulisses, a
lembrança da mulher e do filho é o que o mantém comprometido com seus
valores e desejos mais profundos; a capacidade de Penélope de se manter
serena e calma no presente, recusando-se a dizer a si mesma que “o amor
acabou”, é algo que talvez tenhamos um imenso trabalho para encontrar. A
natureza do amor desafia o tempo, a distância e a perda física e, ao lado da
arte superior e dos momentos de visão mística, talvez seja a única coisa,
dentre as que podem ser experimentadas por nós, mortais, que nos permite
vislumbrar o eterno. Quando o encontramos, mesmo por breves instantes,
no contexto de uma relação próxima, descobrimos um dos grandes segredos
da imortalidade.
Também é interessante pensar que talvez seja o espaço entre essas duas
figuras míticas que possibilita sua fidelidade. Será que o amor de Ulisses e
Penélope teria sobrevivido à vida mundana corriqueira de Ítaca por vinte
anos, ou será que seus ideais um do outro, alimentados pela ausência e pela
saudade, ajudaram a manter vivo seu romance? Em seu livro O Profeta,
Kahlil Gibran (1883-1931) afirma a propósito do casamento:
Deixai que haja espaços em vossa união …
E permanecei juntos, porém não perto demais.
Pois as colunas do templo são separadas,
E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.

(Liz Greene, Juliet Sharman-Burke  Uma Viagem através dos Mitos, O significado dos mitos
como um guia para a vida)

publicado às 22:07


Um dia na vida de Adão e Eva

por Thynus, em 02.02.16
A tolerância não é uma marca registrada dos sapiens. Nos tempos modernos, uma pequena
diferença em cor de pele, dialeto ou religião tem sido suficiente para levar um grupo de sapiens a
tentar exterminar outro grupo. Os sapiens antigos teriam sido mais tolerantes para com uma espécie
humana totalmente diferente? É bem possível que, quando os sapiens encontraram os neandertais, o
resultado tenha sido a primeira e mais significativa campanha de limpeza étnica na história.
O que quer que tenha acontecido, os neandertais (e outras espécies humanas) apresentam um
dos grandes “e ses” da história. Imagine o que poderia ter acontecido se os neandertais ou
denisovanos tivessem sobrevivido ao lado do Homo sapiens. Que tipos de cultura, sociedade e
estrutura política teriam surgido em um mundo em que várias espécies humanas diferentes
coexistissem? Como, por exemplo, as fés religiosas teriam se desenvolvido? O livro do Gênesis
teria declarado que os neandertais descenderam de Adão e Eva, Jesus teria morrido pelos pecados
dos denisovanos, e o Corão teria reservado lugares no Paraíso para todos os humanos corretos,
independentemente da espécie? Os neandertais teriam recebido um lugar no sistema de castas hindu,
ou na vasta burocracia da China imperial? A Declaração da Independência dos Estados Unidos teria
considerado como uma verdade evidente que todos os membros do gênero Homo foram criados
iguais? Karl Marx teria instado os trabalhadores de todas as espécies a se unirem?


PARA ENTENDER NOSSA NATUREZA, NOSSA HISTÓRIA E NOSSA PSICOLOGIA, DEVEMOS entrar na cabeça dos nossos ancestrais caçadores-coletores. Durante praticamente toda a história da nossa espécie, os sapiens viveram como caçadores-coletores. Os últimos 200 anos, durante os quais um número cada vez maior de sapiens ganham o pão de cada dia como trabalhadores urbanos e funcionários administrativos, e os 10 mil anos precedentes, durante os quais a maioria dos sapiens vivia como agricultores e pastores, são um piscar de olhos em comparação com as dezenas de milhares de anos durante os quais nossos ancestrais foram caçadores e coletores.
O campo próspero da psicologia evolutiva afirma que muitas de nossas características psicológicas e sociais do presente foram moldadas durante essa longa era pré-agrícola. Ainda hoje, afirmam especialistas da área, nosso cérebro e nossa mente são adaptados para uma vida de caça e coleta. Nossos hábitos alimentares, nossos conflitos e nossa sexualidade são todos consequência do modo como nossa mente de caçadores-coletores interage com o ambiente pós-industrial de nossos dias, com megacidades, aviões, telefones e computadores. Esse ambiente nos dá mais recursos materiais e vida mais longa do que a desfrutada por qualquer geração anterior, mas também nos faz sentir alienados, deprimidos e pressionados. Para entender por quê, apontam os psicólogos evolutivos, precisamos nos aprofundar no mundo de caçadores-coletores que nos moldou, o mundo que, subconscientemente, ainda habitamos.
Por que, por exemplo, as pessoas se regalam com alimentos altamente calóricos que tão pouco bem fazem a seus corpos? As sociedades afluentes de hoje estão tomadas por uma praga de obesidade, que está rapidamente se alastrando para países em desenvolvimento. É intrigante tentar entender por que nos empanturramos com os alimentos mais doces e mais gordurosos que conseguimos encontrar, até considerarmos os hábitos alimentares dos nossos ancestrais caçadorescoletores. Nas savanas e florestas que eles habitavam, alimentos doces e calóricos eram extremamente raros, e a comida em geral era escassa. Um caçador-coletor típico de 30 mil anos atrás só tinha acesso a um tipo de comida doce: frutas maduras. Se uma mulher da Idade da Pedra se deparasse com uma árvore repleta de figos, a coisa mais razoável a fazer era ingerir o máximo que pudesse imediatamente, antes que um bando de babuínos comesse tudo. Hoje, podemos morar em apartamentos com geladeiras abarrotadas, mas nosso DNA ainda pensa que estamos em uma savana. É isso o que nos motiva a comer um pote inteiro de sorvete quando encontramos um no freezer e fazêlo descer com uma Coca-Cola grande.
Essa teoria do “gene guloso” é amplamente aceita. Outras teorias são muito mais controversas. Por exemplo, alguns psicólogos evolutivos afirmam que bandos antigos de caçadores-coletores não eram compostos de famílias nucleares centradas em casais monogâmicos. Em vez disso, eles viviam em comunidades onde não havia propriedade privada, relações monogâmicas ou mesmo paternidade. Em um bando como esse, uma mulher podia ter relações sexuais e formar laços íntimos com vários homens (e mulheres) ao mesmo tempo, e todos os adultos do bando cooperavam para cuidar das crianças. Os homens mostravam igual preocupação por todas as crianças, uma vez que nenhum sabia ao certo quais eram definitivamente filhos seus.
Tal estrutura social não é uma utopia aquariana. É bem documentada entre animais, notadamente entre nossos parentes mais próximos, os chimpanzés e os bonobos. Há, inclusive, uma série de culturas humanas nos dias de hoje em que se pratica a paternidade coletiva, como, por exemplo, entre os índios barés. De acordo com as crenças de tais sociedades, uma criança não nasce do esperma de um único homem, mas da acumulação de esperma no útero de uma mulher. Uma boa mãe trata de ter relações sexuais com vários homens diferentes, sobretudo enquanto está grávida, para que seu filho receba as qualidades (e os cuidados paternos) não só do melhor caçador como também do melhor contador de histórias, do guerreiro mais forte e do amante mais atencioso. Se isso parece estúpido, tenha em mente que antes do desenvolvimento dos estudos embriológicos modernos as pessoas não tinham provas concretas de que os bebês invariavelmente são concebidos por um único pai, e não por vários.
Os defensores dessa teoria da “comunidade antiga” afirmam que as infidelidades frequentes que caracterizam os casamentos modernos e o índice elevado de divórcios, sem falar da profusão de complexos psicológicos que acometem crianças e adultos, todos resultam de forçar os humanos a viver em famílias nucleares e relações monogâmicas, que são incompatíveis com nosso programa biológico.(Christopher Ryan e Cacilda Jethá, Sex at Dawn: The Prehistoric Origins of Modern Sexuality (Nova York: Harper, 2010); S. Beckerman e P. Valentine (orgs.), Cultures of Multiple Fathers. The Theory and Practice of Partible Paternity in Lowland South America (Gainesville: University Press of Florida, 2002))
Muitos acadêmicos rejeitam veementemente essa teoria, insistindo que a monogamia e a formação de famílias são comportamentos essencialmente humanos. Esses pesquisadores afirmam que, embora as antigas sociedades caçadoras-coletoras tendessem a ser mais comunais e igualitárias do que as sociedades modernas, eram, no entanto, constituídas de células separadas, cada uma delas contendo um casal ciumento e os filhos que eles tinham em comum. É por isso que hoje as relações monogâmicas e as famílias nucleares são a norma na grande maioria das culturas, que homens e mulheres tendem a ser muito possessivos com relação a seus parceiros e filhos e que até mesmo em Estados modernos como a Coreia do Norte e a Síria a autoridade política passa de pai para filho. A fim de resolver essa controvérsia e entender nossa sexualidade, nossa sociedade e nossa política, precisamos saber algumas coisas sobre as condições de vida de nossos ancestrais, a fim de examinar como viviam os sapiens entre a Revolução Cognitiva de 70 mil anos atrás e o começo da Revolução Agrícola, há cerca de 12 mil anos.
Infelizmente, há poucas certezas a respeito da vida de nossos ancestrais caçadores-coletores. O debate entre os defensores da “comunidade antiga” e os da “monogamia eterna” se baseia em indícios escassos. Obviamente, não temos registros escritos da época dos caçadores-coletores, e as evidências arqueológicas consistem basicamente de ossos fossilizados e ferramentas de pedra. Artefatos feitos de materiais mais perecíveis – como madeira, bambu ou couro – só sobrevivem em condições especiais. A impressão comum de que os humanos pré-agrícolas viveram em uma idade da pedra é um conceito equivocado baseado nessa tendência arqueológica. Seria mais adequado chamar a Idade da Pedra de Idade da Madeira, pois a maioria das ferramentas usadas pelos antigos caçadores-coletores era feita de madeira.
Toda reconstrução da vida dos antigos caçadores-coletores com base nos artefatos remanescentes é extremamente problemática. Uma das diferenças mais gritantes entre eles e seus descendentes agrícolas e industriais é que, para começar, os caçadores-coletores tinham pouquíssimos artefatos, e estes exerciam um papel comparativamente modesto em suas vidas. Ao longo de sua vida, um típico membro de uma sociedade moderna afluente possui vários milhões de artefatos – de carros e casas a fraldas descartáveis e caixas de leite. Dificilmente há uma atividade, uma crença ou mesmo uma emoção que não seja mediada por objetos concebidos por nós mesmos. Nossos hábitos alimentares são mediados por uma coleção impressionante de tais itens, de colheres e copos a laboratórios de engenharia genética e navios transoceânicos gigantes. Para brincar, usamos uma série de brinquedos, de cartas de plástico a estádios com 100 mil lugares. Nossas relações românticas e sexuais são equipadas por anéis, camas, roupas bonitas, lingeries sensuais, camisinhas, restaurantes da moda, motéis baratos, salas de espera de aeroporto, salões de festa e empresas de catering. As religiões trazem o sagrado à nossa vida com igrejas góticas, mesquitas muçulmanas, ashrams hindus, rolos de Torá, rodas de oração tibetanas, batinas eclesiásticas, velas, incenso, árvores de natal, lápides e ícones.
Mal percebemos o quanto nossos objetos são onipresentes até precisarmos nos mudar para uma casa nova. Os caçadores-coletores se mudavam todo mês, toda semana e, às vezes, todo dia, carregando nas costas o que quer que possuíssem. Não havia empresas de mudança, carroças e nem mesmo animais de carga para dividir o fardo. Consequentemente, eles tinham de se virar apenas com as posses essenciais. É razoável presumir, portanto, que a maior parte de sua vida mental, religiosa e emotiva fosse conduzida sem a ajuda de artefatos. Um arqueólogo trabalhando daqui a 100 mil anos seria capaz de recompor um cenário razoável da crença e da prática muçulmana com base nos vários objetos encontrados em escavações nas ruínas de uma mesquita. Mas, hoje, estamos praticamente perdidos tentando compreender as crenças e os rituais dos antigos caçadores-coletores. É, em grande medida, o mesmo dilema que um futuro historiador enfrentaria se tivesse de retratar o mundo social dos adolescentes do século XXI unicamente com base no que sobrevivesse das cartas trocadas entre eles – já que não restariam registros de conversas telefônicas, e-mails, blogs e mensagens de texto. A dependência dos artefatos, portanto, resulta em um relato tendencioso da vida dos antigos caçadores-coletores. Uma maneira de remediar isso é observar as sociedades caçadoras-coletoras modernas. Estas podem ser estudadas diretamente, por meio de observação antropológica. Mas há boas razões para ser cauteloso ao fazer inferências a partir das sociedades caçadoras-coletoras modernas sobre as antigas.
Em primeiro lugar, todas as sociedades caçadoras-coletoras que sobreviveram até nossos dias foram influenciadas por sociedades agrícolas e industriais adjacentes. Portanto, é arriscado presumir que o que é verdade sobre elas também foi verdade há dezenas de milhares de anos.
Em segundo lugar, as sociedades caçadoras-coletoras modernas sobreviveram principalmente em áreas com condições climáticas difíceis e terreno inóspito, inadequado para a agricultura. As sociedades que se adaptaram às condições extremas de lugares como o deserto de Kalahari, no sul da África, podem muito bem fornecer um modelo um tanto enganoso para entender sociedades antigas em áreas férteis como o vale do rio Yangtzé. Em particular, a densidade populacional em uma área como o deserto de Kalahari é muito mais baixa do que foi na região do antigo Yangtzé, e isso tem implicações profundas para questões essenciais sobre o tamanho e a estrutura dos bandos humanos e a relação entre eles.
Em terceiro lugar, a característica mais notável das sociedades caçadoras-coletoras é o quanto elas são diferentes umas das outras. Diferem não só de uma parte do mundo a outra como inclusive na mesma região. Um bom exemplo é a enorme variedade que os primeiros colonizadores europeus encontraram entre os povos aborígenes da Austrália. Logo antes da conquista britânica, entre 300 mil e 700 mil caçadores-coletores viviam no continente distribuídos em 200 a 600 tribos, cada uma dividida em vários bandos.(Noel G. Butlin, Economics and the Dreamtime: A Hypothetical History (Cambridge: Cambridge University Press, 1993), 98-101; Richard Broome, Aboriginal Australians (Sydney: Allen & Unwin, 2002), 15; William Howell Edwards, An Introduction to Aboriginal Societies (Wentworth Falls, N.S.W.: Social Science Press, 1988), 52.) Cada tribo tinha seu próprio idioma, religião, normas e costumes. Perto do que hoje é Adelaide, no sul da Austrália, viviam vários clãs patrilineares, que se baseavam na descendência por parte de pai. Esses clãs se uniam em tribos por razões estritamente territoriais. Por sua vez, algumas tribos no norte da Austrália davam mais importância à ancestralidade materna de uma pessoa, e sua identidade tribal não se baseava em território, e sim em seu totem.
É razoável pensar que a variedade étnica e cultural entre os antigos caçadores-coletores fosse igualmente impressionante e que os 5-8 milhões de caçadores-coletores que povoaram o mundo à véspera da Revolução Agrícola se dividissem em milhares de tribos com milhares de idiomas e culturas diferentes.(Fekri A. Hassan, Demographic Archaeology (Nova York: Academic Press, 1981), 196-199; Lewis Robert Binford, Constructing Frames of Reference: An Analytical Method for Archaeological Theory Building Using Hunter Gatherer and Environmental Data Sets (Berkeley: University of California Press, 2001), 143.) Esse, afinal, foi um dos principais legados da Revolução Cognitiva. Graças ao surgimento da ficção, até mesmo pessoas com a mesma composição genética e vivendo em condições ecológicas similares foram capazes de criar realidades imaginadas muito diferentes, que se manifestavam em diferentes normas e valores.
Por exemplo, temos todas as razões para acreditar que um bando de caçadores-coletores que viveram há 20 mil anos na região da atual Lisboa teria falado uma língua diferente daquele que viveu onde hoje se situa a cidade do Porto. Um bando pode ter sido beligerante e o outro, pacífico. Talvez o bando de Lisboa fosse comunal, e o do Porto se baseasse em famílias nucleares. O povo de Lisboa talvez passasse horas esculpindo estátuas de madeira de seus espíritos guardiães, ao passo que seus contemporâneos do Porto mostravam sua devoção por meio da dança. Os primeiros talvez acreditassem em reencarnação, enquanto os últimos consideravam isso absurdo. Em uma sociedade, relações homossexuais podem ter sido aceitas, ao passo que na outra eram um tabu.
Em outras palavras, embora as observações antropológicas dos caçadores-coletores modernos possam nos ajudar a entender algumas das possibilidades disponíveis para os caçadores-coletores antigos, o horizonte de possibilidades daquela época era muito mais amplo e, em sua maior parte, é desconhecido para nós.[Um “horizonte de possibilidades” significa todo o espectro de crenças, práticas e experiências que se apresentam diante de determinada sociedade, considerando suas limitações ecológicas, tecnológicas e culturais. Cada sociedade e cada indivíduo normalmente explora apenas uma pequena fração de seu horizonte de possibilidades] Os debates acalorados sobre o “estilo de vida natural” do Homo sapiens perdem de vista a questão principal. Desde a Revolução Cognitiva, não existe um único estilo de vida natural para os sapiens. Há apenas escolhas culturais, dentro de um conjunto assombroso de possibilidades.

  (Yuval Noah Harari - Sapiens, uma breve história da humanidade)

publicado às 21:34


A árvore do conhecimento

por Thynus, em 02.02.16
NO CAPÍTULO ANTERIOR VIMOS QUE EMBORA OS SAPIENS JÁ HABITASSEM A África Oriental há 150 mil anos, apenas por volta de 70 mil anos atrás eles começaram a dominar o resto do planeta Terra e levar as demais espécies humanas à extinção. Nos milhares de anos desse período, embora esses sapiens arcaicos se parecessem exatamente conosco e embora seu cérebro fosse tão grande quanto o nosso, eles não gozavam de qualquer vantagem notável sobre outras espécies humanas, não produziam ferramentas particularmente sofisticadas e não realizavam nenhum outro feito especial.
De fato, no primeiro encontro registrado entre sapiens e neandertais, os neandertais levaram a melhor. Por volta de 100 mil anos atrás, alguns grupos de sapiens migraram para o Levante – que era território neandertal –, mas foram incapazes de garantir sua sobrevivência. Isso pode ter se devido à crueldade dos nativos, a um clima inclemente ou à presença de parasitas com os quais não estavam familiarizados. Qualquer que seja o motivo, os sapiens acabaram por se retirar, deixando os neandertais como senhores do Oriente Médio.
Esse registro escasso de conquistas levou especialistas a especularem que a estrutura interna do cérebro desses sapiens provavelmente era diferente da nossa. Eles se pareciam conosco, mas suas capacidades cognitivas – aprendizado, memória, comunicação – eram muito mais limitadas. Ensinar português a um desses sapiens antigos, persuadi-lo da verdade do dogma cristão ou fazê-lo entender a teoria da evolução provavelmente teriam sido tarefas infrutíferas. Por outro lado, teríamos muita dificuldade para aprender sua linguagem e compreender seu modo de pensar.
Mas então, a partir de 70 mil anos atrás, o Homo sapiens começou a fazer coisas muito especiais. Nessa época, bandos de sapiens deixaram a África pela segunda vez. Dessa vez, eles expulsaram os neandertais e todas as outras espécies humanas não só do Oriente Médio como também da face da Terra. Em um período incrivelmente curto, os sapiens chegaram à Europa e ao leste da Ásia. Há aproximadamente 45 mil anos, conseguiram atravessar o mar aberto e chegaram à Austrália – um continente até então intocado por humanos. O período de 70 mil anos atrás a 30 mil anos atrás testemunhou a invenção de barcos, lâmpadas a óleo, arcos e flechas e agulhas (essenciais para costurar roupas quentes). Os primeiros objetos que podem ser chamados de arte e joalheria datam dessa era, assim como os primeiros indícios incontestáveis de religião, comércio e estratificação social.
Estatueta em marfim de um “homem-leão” (ou “mulher-leoa”) da caverna de Stadel, na Alemanha (c. 32 mil anos atrás).
O corpo é humano, mas a cabeça é leonina. Este é um dos primeiros exemplos indiscutíveis de arte, e provavelmente de
religião e da capacidade da mente humana de imaginar coisas que não existem de fato.
 A maioria dos pesquisadores acredita que essas conquistas sem precedentes foram produto de uma revolução nas habilidades cognitivas dos sapiens. Eles sustentam que os indivíduos que levaram os neandertais à extinção, que se instalaram na Austrália e que esculpiram o homem-leão de Stadel eram tão inteligentes, criativos e sensíveis como nós. Se nos deparássemos com os artistas da caverna de Stadel, poderíamos aprender a língua deles, e eles, a nossa. Seríamos capazes de lhes explicar tudo que conhecemos – das aventuras de Alice no País das Maravilhas aos paradoxos da física quântica – e eles poderiam nos ensinar como seu povo concebia o mundo.
O surgimento de novas formas de pensar e se comunicar, entre 70 mil anos atrás a 30 mil anos atrás, constitui a Revolução Cognitiva. O que a causou? Não sabemos ao certo. A teoria mais aceita afirma que mutações genéticas acidentais mudaram as conexões internas do cérebro dos sapiens, possibilitando que pensassem de uma maneira sem precedentes e se comunicassem usando um tipo de linguagem totalmente novo. Poderíamos chamá-las de mutações da árvore do conhecimento. Por que ocorreram no DNA do sapiens e não no DNA dos neandertais? Até onde pudemos verificar, foi uma questão de puro acaso. Mas é mais importante entender as consequências das mutações da árvore do conhecimento do que suas causas. O que havia de tão especial na nova linguagem dos sapiens que nos permitiu conquistar o mundo?[Aqui e nas páginas que seguem, ao mencionar a linguagem sapiens, refiro-me às habilidades linguísticas básicas de nossa espécie, e não a um dialeto em específico. Inglês, hindi e chinês são todos variantes de linguagem sapiens. Aparentemente, até mesmo na época da Revolução Cognitiva diferentes grupos sapiens falavam dialetos diferentes]
Essa não foi a primeira linguagem. Todos os animais têm alguma forma de linguagem. Até mesmo os insetos, como abelhas e formigas, sabem se comunicar de maneiras sofisticadas, informando uns aos outros sobre o paradeiro de alimentos. Tampouco foi a primeira linguagem vocal. Muitos animais, incluindo todas as espécies de macaco, têm uma linguagem vocal. Por exemplo, macacos-verdes usam gritos de vários tipos para se comunicar. Os zoólogos identificaram um grito que significa: “Cuidado! Uma águia!”. Um grito um pouco diferente alerta: “Cuidado! Um leão!”. Quando os pesquisadores reproduziram uma gravação do primeiro grito para um grupo de macacos, estes pararam o que estavam fazendo e olharam para cima assustados. Ao ouvir uma gravação do segundo grito, o aviso do leão, o grupo subiu rapidamente em uma árvore. Os sapiens podem produzir muitos mais sons do que os macacos-verdes, mas as baleias e os elefantes têm habilidades igualmente impressionantes. Um papagaio pode dizer qualquer coisa proferida por Albert Einstein, além de imitar o som de telefones chamando, portas batendo e sirenes tocando. Qualquer que fosse a vantagem de Einstein sobre um papagaio, não era vocal. O que, então, há de tão especial em nossa linguagem?
A resposta mais comum é que nossa linguagem é incrivelmente versátil. Podemos conectar uma série limitada de sons e sinais para produzir um número infinito de frases, cada uma delas com um significado diferente. Podemos, assim, consumir, armazenar e comunicar uma quantidade extraordinária de informação sobre o mundo à nossa volta. Um macaco-verde pode gritar para seus camaradas: “Cuidado! Um leão!”, mas um humano moderno pode dizer aos amigos que esta manhã, perto da curva do rio, ele viu um leão atrás de um rebanho de bisões. Pode então descrever a localização exata, incluindo os diferentes caminhos que levam à área em questão. Com essas informações, os membros do seu bando podem pensar juntos e discutir se devem se aproximar do rio, expulsar o leão e caçar os bisões.
Uma segunda teoria concorda que nossa linguagem singular evoluiu como um meio de partilhar informações sobre o mundo. Mas as informações mais importantes que precisavam ser comunicadas eram sobre humanos, e não sobre leões e bisões. Nossa linguagem evoluiu como uma forma de fofoca. De acordo com essa teoria, o Homo sapiens é antes de mais nada um animal social. A cooperação social é essencial para a sobrevivência e a reprodução. Não é suficiente que homens e mulheres conheçam o paradeiro de leões e bisões. É muito mais importante para eles saber quem em seu bando odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto e quem é trapaceiro.
A quantidade de informações que é preciso obter e armazenar a fim de rastrear as relações sempre cambiantes até mesmo de umas poucas dezenas de indivíduos é assombrosa. (Em um bando de cinquenta indivíduos, há 1.225 relações de um para um, e incontáveis combinações sociais mais complexas.) Todos os macacos mostram um ávido interesse por tais informações sociais, mas eles têm dificuldade para fofocar de fato. Os neandertais e os Homo sapiens arcaicos provavelmente também tiveram dificuldade para falar pelas costas uns dos outros – uma habilidade muito difamada que, na verdade, é essencial para a cooperação em grande número. As novas habilidades linguísticas que os sapiens modernos adquiriram há cerca de 70 milênios permitiram que fofocassem por horas a fio. Graças a informações precisas sobre quem era digno de confiança, pequenos grupos puderam se expandir para bandos maiores, e os sapiens puderam desenvolver tipos de cooperação mais sólidos e mais sofisticados.(Robin Dunbar, Grooming, Gossip, and the Evolution of Language (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1998))
A teoria da fofoca pode parecer uma piada, mas vários estudos a corroboram. Ainda hoje, a maior parte da comunicação humana – seja na forma de e-mails, telefonemas ou colunas nos jornais – é fofoca. É tão natural para nós que é como se nossa linguagem tivesse evoluído exatamente com esse propósito. Você acha que quando almoçam juntos professores de história conversam sobre as causas da Primeira Guerra Mundial, ou que físicos nucleares passam o intervalo do café em conferências científicas falando sobre partículas subatômicas? Às vezes. Mas com muito mais frequência eles fofocam sobre a professora que flagrou o marido com outra, ou sobre a briga entre o chefe do departamento e o reitor, ou sobre os rumores de que um colega usou sua verba de pesquisa para comprar um Lexus. A fofoca normalmente gira em torno de comportamentos inadequados. Os que fomentam os rumores são o quarto poder original, jornalistas que informam a sociedade sobre trapaceiros e aproveitadores e, desse modo, a protegem.
Muito provavelmente, tanto a teoria da fofoca quanto a teoria do leão perto do rio são válidas. Mas a característica verdadeiramente única da nossa linguagem não é sua capacidade de transmitir informações sobre homens e leões. É a capacidade de transmitir informações sobre coisas que não existem. Até onde sabemos, só os sapiens podem falar sobre tipos e mais tipos de entidades que nunca viram, tocaram ou cheiraram.
Lendas, mitos, deuses e religiões apareceram pela primeira vez com a Revolução Cognitiva. Antes disso, muitas espécies animais e humanas foram capazes de dizer: “Cuidado! Um leão!”. Graças à Revolução Cognitiva, o Homo sapiens adquiriu a capacidade de dizer: “O leão é o espírito guardião da nossa tribo”. Essa capacidade de falar sobre ficções é a característica mais singular da linguagem dos sapiens.
É relativamente fácil concordar que só o Homo sapiens pode falar sobre coisas que não existem de fato e acreditar em meia dúzia de coisas impossíveis antes do café da manhã. Você nunca convencerá um macaco a lhe dar uma banana prometendo a ele bananas ilimitadas após a morte no céu dos macacos. Mas isso é tão importante? Afinal, a ficção pode ser perigosamente enganosa ou confusa. As pessoas que vão à floresta à procura de fadas e unicórnios parecem ter uma chance menor de sobrevivência do que as que vão à procura de cogumelos e cervos. E, se você passa horas rezando para espíritos guardiães inexistentes, não está perdendo um tempo precioso, tempo que seria mais bem utilizado procurando comida, guerreando e copulando?
Mas a ficção nos permitiu não só imaginar coisas como também fazer isso coletivamente.
Podemos tecer mitos partilhados, tais como a história bíblica da criação, os mitos do Tempo do Sonho dos aborígenes australianos e os mitos nacionalistas dos Estados modernos. Tais mitos dão aos sapiens a capacidade sem precedentes de cooperar de modo versátil em grande número. Formigas e abelhas também podem trabalhar juntas em grande número, mas elas o fazem de maneira um tanto rígida, e apenas com parentes próximos. Lobos e chimpanzés cooperam de forma muito mais versátil do que formigas, mas só o fazem com um pequeno número de outros indivíduos que eles conhecem intimamente. Os sapiens podem cooperar de maneiras extremamente flexíveis com um número incontável de estranhos. É por isso que os sapiens governam o mundo, ao passo que as formigas comem nossos restos e os chimpanzés estão trancados em zoológicos e laboratórios de pesquisa.

 (Yuval Noah Harari - Sapiens, uma breve história da humanidade)

publicado às 21:34


O evangelho do ouro

por Thynus, em 02.02.16
A nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças, do que nos nossos bolsos.
  
A boa educação é moeda de ouro. Em toda a parte tem valor.
Padre Antônio Vieira
 
Quem faz do dinheiro e da riqueza o objectivo essencial da sua vida de certeza que fará muitas vítimas pelo caminho e impedirá muitos de viver.
(Anselmo Borges
 
 
A confiança nas moedas de Roma era tão forte que, mesmo fora das fronteiras do império, as pessoas aceitavam de bom grado pagamento em denários. No século I, as moedas romanas eram um meio de troca aceito nos mercados da Índia, embora a legião romana mais próxima estivesse a milhares de quilômetros de distância. Os indianos tinham tanta confiança no denário e na imagem do imperador que quando os governantes locais cunharam suas próprias moedas, imitaram o denário à risca, até mesmo o retrato do imperador! O nome “denário” se tornou uma denominação genérica para moedas. Califas muçulmanos adaptaram o nome ao árabe e criaram os “dinares”. Dinar ainda é o nome oficial da moeda da Jordânia, do Iraque, da Sérvia, da Macedônia, da Tunísia e de vários outros países. Enquanto a cunhagem em estilo lídio se espalhava do Mediterrâneo para o oceano Índico, a China desenvolvia um sistema monetário um pouco diferente, baseado em moedas de bronze e lingotes de prata e ouro não marcados. Mas os dois sistemas monetários tinham suficientes pontos em comum (em especial o fato de se basearem em ouro e prata) para que se estabelecessem sólidas relações monetárias e comerciais entre as zonas chinesa e lídia. Mercadores e conquistadores muçulmanos e europeus disseminaram gradualmente o sistema lídio e o evangelho do ouro aos quatro cantos do planeta. No fim da era moderna, o mundo inteiro era uma única zona monetária, primeiro baseada em ouro e prata e depois em algumas moedas confiáveis como a libra esterlina e o dólar americano.
O surgimento de uma única zona monetária transnacional e transcultural assentou as bases para a unificação da Afro-Ásia, e, com o tempo, do mundo inteiro, em uma única esfera econômica e política. As pessoas continuaram a falar línguas mutuamente incompreensíveis, obedecer a governantes diferentes e adorar deuses distintos, mas todos acreditavam em ouro e prata e em moedas de ouro e de prata. Sem essa crença partilhada, as redes de comércio mundiais teriam sido praticamente impossíveis. O ouro e a prata que os conquistadores do século XVI encontraram na América permitiram que os mercadores europeus comprassem seda, porcelana e especiarias no leste da Ásia, movendo assim as rodas do crescimento econômico tanto na Europa quanto no leste da Ásia. A maior parte do ouro e da prata extraídos no México e nos Andes escapou por entre os dedos dos europeus e encontrou um bom lar nas bolsas dos produtores de seda e porcelana chineses. O que teria acontecido à economia global se os chineses não tivessem sofrido da mesma “doença do coração” que afligiu Cortés e seus companheiros – e tivessem se recusado a aceitar pagamento em ouro e prata?
Ainda assim, por que chineses, indianos, muçulmanos e espanhóis – que pertenciam a culturas muito diferentes, que não tinham quase nada em comum – partilham da crença no ouro? Por que não aconteceu de os espanhóis acreditarem em ouro, os muçulmanos, em cevada, os indianos, em conchas de cauri e os chineses, em rolos de seda? Os economistas têm uma resposta pronta. Assim que o comércio conecta duas áreas, as forças de oferta e procura tendem a equalizar os preços dos bens transportáveis. Para entender o porquê, considere um caso hipotético. Suponha que, quando teve início o comércio regular entre a Índia e o Mediterrâneo, os indianos não tinham o menor interesse em ouro, de modo que ele praticamente não tinha valor. Mas, no Mediterrâneo, o ouro era um símbolo de status cobiçado e, por conseguinte, seu valor era alto. O que aconteceria depois? Mercadores que viajavam entre a Índia e o Mediterrâneo notariam a diferença no valor do ouro. Para lucrar, começariam a comprar ouro barato na Índia e vendê-lo por um valor bem mais alto no Mediterrâneo. Logo, a demanda por ouro na Índia dispararia, assim como seu valor. Ao mesmo tempo, o Mediterrâneo experimentaria um influxo de ouro, cujo valor consequentemente cairia. Em um curto período, o valor do ouro na Índia e no Mediterrâneo passaria a ser muito similar. O mero fato de o povo do Mediterrâneo acreditar no ouro faria com que os indianos começassem a acreditar nele também. Mesmo que os indianos ainda não tivessem encontrado uma utilidade real para o ouro, o fato de o povo do Mediterrâneo o desejar seria o suficiente para fazer com que os indianos o valorizassem.
Do mesmo modo, o fato de outra pessoa acreditar em conchas de cauri, dólares ou dados eletrônicos é suficiente para fortalecer nossa própria crença neles, mesmo que essa pessoa seja odiada, desprezada ou ridicularizada por nós. Cristãos e muçulmanos, incapazes de concordar em termos de crença religiosa, concordam quando se trata de uma crença monetária, porque, enquanto a religião nos pede para acreditar em algo, o dinheiro nos pede para acreditar que outras pessoas acreditam em algo.
Durante milhares de anos, filósofos, pensadores e profetas demonizaram o dinheiro e o consideraram a raiz de todos os males. Seja como for, o dinheiro é também o apogeu da tolerância humana. O dinheiro é mais tolerante que linguagem, leis estaduais, códigos culturais, crenças religiosas e hábitos sociais. O dinheiro é o único sistema de crenças criado pelos humanos que pode transpor praticamente qualquer abismo cultural e que não discrimina com base em religião, gênero, raça, idade ou orientação sexual. Graças ao dinheiro, até mesmo pessoas que não se conhecem e não confiam umas nas outras são capazes de cooperar de maneira efetiva.

(Yuval Noah Harari - Sapiens, uma breve história da humanidade)

publicado às 14:40


Os muros da prisão

por Thynus, em 02.02.16
Os muros de pedra não fazem um cárcere, nem as grades de ferro uma jaula, porque o espírito inocente e tranquilo transforma uma prisão numa capela.
John Lubbock
 
A pior prisão do mundo é aquela que aprisiona a emoção humana e nos impede de ser livres e felizes. Ninguém pode contemplar o belo e irrigar sua vida com sentido se for prisioneiro dentro de si mesmo.
(Augusto Cury - A Pior Prisão do Mundo)   
 

Como você faz as pessoas acreditarem em uma ordem imaginada como o cristianismo, a democracia ou o capitalismo? Primeiro, você nunca admite que a ordem é imaginada. Você sempre insiste que a ordem que sustenta a sociedade é uma realidade objetiva criada pelos grandes deuses ou pelas leis da natureza. As pessoas são diferentes não porque Hamurabi disse isso, mas porque Enlil e Marduk decretaram isso. As pessoas são iguais não porque Thomas Jefferson disse isso, mas porque Deus as criou dessa maneira. Os livres mercados são o melhor sistema econômico não porque Adam Smith disse isso, mas porque essas são as leis imutáveis da natureza.

Prisão sem muros

 Você também educa as pessoas o tempo todo. Do momento em que nascem, você as lembra constantemente dos princípios da ordem imaginada, que estão presentes em tudo. Estão presentes nos contos de fada, nos dramas, nas pinturas, nas canções, na etiqueta, na propaganda política, na arquitetura, nas receitas e na moda. Por exemplo, hoje as pessoas acreditam em igualdade, então é moda as crianças ricas usarem jeans, que originalmente eram vestimenta da classe trabalhadora. Na Idade Média as pessoas acreditavam em divisões de classe, então nenhum jovem da nobreza usaria um traje de camponês. Na época, ser chamado de “senhor” ou “senhora” era um privilégio raro reservado para a nobreza e muitas vezes adquirido com sangue. Hoje, todas as correspondências formais, independente do destinatário, começam com “Prezado(a) senhor(a)”.
As humanidades e as ciências sociais dedicam a maior parte de suas energias a explicar exatamente como a ordem imaginada é tecida na trama da vida. No espaço limitado à nossa disposição, só podemos arranhar a superfície. Três fatores principais impedem as pessoas de perceberem que a ordem que organiza nossa vida só existe em nossa imaginação:

a. A ordem imaginada está incrustada no mundo material. Embora só exista em nossa mente, a ordem imaginada pode se entremear na realidade à nossa volta, e até mesmo ser gravada em pedra. Atualmente, a maioria dos ocidentais acredita no individualismo. Eles acreditam que todo ser humano é um indivíduo, cujo valor não depende do que outras pessoas pensam a seu respeito. Cada um de nós tem dentro de si um raio de luz brilhante que dá valor e significado à vida. Nas escolas ocidentais de hoje, os professores e os pais dizem às crianças que, se os colegas zombarem delas, elas devem ignorar. Somente elas mesmas, e não os outros, conhecem seu verdadeiro valor. Na arquitetura moderna, esse mito sai da imaginação e toma forma em tijolo e argamassa. A casa moderna ideal é dividida em muitos aposentos pequenos para que cada criança possa ter um espaço privado, ocultado da vista, proporcionando o máximo de autonomia. Esse espaço privado quase sempre tem uma porta, e em muitos lares é uma prática aceita que a criança feche ou inclusive tranque a porta. Mesmo os pais são proibidos de entrar sem bater e pedir permissão. O quarto é decorado como o filho quiser, com pôsteres de astros do rock na parede e meias sujas no chão. Alguém crescendo em tal espaço não pode deixar de se imaginar como “um indivíduo”, seu verdadeiro valor emanando de dentro, e não de fora.
Os homens nobres na Europa medieval não acreditavam no individualismo. O valor de uma pessoa era determinado por seu lugar na hierarquia social e por aquilo que outras pessoas diziam a seu respeito. Ser alvo de zombarias era uma indignidade terrível. Os nobres ensinavam seus filhos a protegerem seu nome a qualquer preço. Como o individualismo moderno, o sistema de valores medieval deixou a imaginação e se manifestou na pedra dos castelos medievais. O castelo raramente tinha aposentos privativos para as crianças (ou, aliás, para qualquer pessoa). O filho adolescente de um barão medieval não tinha um quarto só seu no segundo andar do castelo, com pôsteres de Ricardo Coração de Leão e do rei Artur nas paredes e uma porta trancada que seus pais não tinham permissão para abrir. Ele dormia ao lado de muitos outros jovens em um grande salão. Estava sempre à vista e sempre tinha que levar em consideração o que os outros viam e diziam. Alguém crescendo em tais condições naturalmente concluía que o verdadeiro valor de um homem era determinado por seu lugar na hierarquia social e por aquilo que outras pessoas diziam a seu respeito.(Constance Brittaine Bouchard, Strong of Body, Brave and Noble: Chivalry and Society in Medieval France (Nova York: Cornell University Press, 1998), 99; Mary Martin McLaughlin, “Survivors and Surrogates: Children and Parents from the Ninth to Thirteenth Centuries”, in Medieval Families: Perspectives on Marriage, Household and Children, org. Carol Neel (Toronto: University of Toronto Press, 2004), 81; Lise E. Hull, Britain’s Medieval Castles (Westport: Praeger, 2006), 144)

b. A ordem imaginada define nossos desejos. A maioria das pessoas não quer aceitar que a ordem que governa sua vida é imaginária, mas na verdade cada pessoa nasce em uma ordem imaginada preexistente, e seus desejos são moldados desde o nascimento pelos mitos dominantes. Nossos desejos pessoais, portanto, se tornam as defesas mais importantes da ordem imaginada. Por exemplo, os desejos mais valorizados dos ocidentais de hoje são definidos por mitos românticos, nacionalistas, capitalistas e humanistas que estão aí há séculos. Amigos dando conselhos muitas vezes dizem uns aos outros: “Siga seu coração”. Mas o coração é um agente duplo que geralmente recebe instruções dos mitos dominantes do momento, e a própria recomendação de “seguir seu coração” era implantada em nossa mente por uma combinação de mitos românticos do século XIX e mitos consumistas do século XX. A Coca-Cola Company, por exemplo, promoveu a Diet Coke pelo mundo sob o slogan “Diet Coke. Do what feels good” [“Coca-Cola Diet. Faça o que lhe faz bem”].
Mesmo aqueles que as pessoas imaginam serem seus desejos mais pessoais geralmente são programados pela ordem imaginada. Consideremos, por exemplo, o desejo popular de passar férias no exterior. Não há nada de natural ou óbvio nisso. Um chimpanzé macho alfa jamais pensaria em usar seu poder para passar férias no território de um bando de chimpanzés vizinho. A elite do Egito antigo gastou sua fortuna construindo pirâmides e mumificando seus cadáveres, mas quase ninguém pensou em ir fazer compras na Babilônia ou ir esquiar na Fenícia. As pessoas hoje gastam grandes somas de dinheiro com férias no exterior porque realmente acreditam nos mitos do consumismo romântico.
O romantismo nos diz que para aproveitar ao máximo nosso potencial humano devemos ter tantas experiências diferentes quanto possível. Devemos nos abrir a um amplo leque de emoções; experimentar vários tipos de relacionamento; provar culinárias diferentes; aprender a apreciar diferentes estilos de música. Uma das melhores maneiras de fazer tudo isso é escapar da nossa rotina diária, deixar para trás nosso cenário familiar e viajar para terras distantes, onde podemos “vivenciar” a cultura, os aromas, os sabores e as normas de outros povos. Ouvimos repetidas vezes os mitos românticos sobre “como uma nova experiência abriu meus olhos e mudou minha vida”. O consumismo nos diz que para sermos felizes precisamos consumir tantos produtos e serviços quanto possível. Se sentimos que algo está faltando ou fora de lugar, provavelmente precisamos comprar um produto (um carro, roupas novas, comida orgânica) ou um serviço (limpeza doméstica, terapia de casais, aulas de yoga). Todo comercial de televisão é mais uma pequena lenda sobre como consumir algum produto ou serviço tornará a vida melhor.
O romantismo, que encoraja a variedade, casa perfeitamente com o consumismo. Esse casamento deu à luz o infinito “mercado de experiências” sobre o qual se ergueu a indústria de turismo moderna. A indústria de turismo não vende passagens aéreas e quartos de hotel; vende experiências. Paris não é uma cidade, nem a Índia é um país – são ambos experiências cuja realização supostamente expande nossos horizontes, satisfaz nosso potencial humano e nos torna mais felizes. Consequentemente, quando a relação entre um milionário e sua esposa está passando por um período difícil, ele a leva para uma viagem cara a Paris. A viagem não é um reflexo de algum desejo independente, mas antes uma crença fervorosa nos mitos do consumismo romântico. Um homem rico no Egito antigo jamais teria sonhado em resolver uma crise de relacionamento levando a esposa para uma viagem à Babilônia. Em vez disso, ele talvez construísse para ela a tumba suntuosa que ela sempre quis.
Como a elite do Egito antigo, a maioria das pessoas na maioria das culturas dedica a vida a construir pirâmides. Só os nomes, as formas e os tamanhos dessas pirâmides mudam de uma cultura para outra. Elas podem assumir a forma, por exemplo, de uma casa de campo com piscina e grama sempre verde, ou uma bela cobertura com uma vista invejável. Poucas questionam os mitos que nos levam a desejar a pirâmide.

c. A ordem imaginada é intersubjetiva. Mesmo que, por um esforço sobre-humano, eu consiga livrar meus desejos pessoais das garras da ordem imaginada, sou só uma pessoa. Para mudar a ordem imaginada, preciso convencer milhões de estranhos a cooperarem comigo, pois a ordem imaginada não é uma ordem subjetiva que só existe na minha imaginação – é, antes, uma ordem intersubjetiva, que existe na imaginação partilhada de milhares e milhões de pessoas.
Para entender isso, precisamos compreender a diferença entre “objetivo”, “subjetivo” e “intersubjetivo”.
Um fenômeno objetivo existe independentemente da consciência humana e das crenças humanas. A radioatividade, por exemplo, não é um mito. Emissões radioativas ocorriam muito antes de serem descobertas e são perigosas ainda que as pessoas não acreditem nelas. Marie Curie, uma das pessoas que descobriram a radioatividade, não sabia, durante seus longos anos estudando materiais radioativos, que eles pudessem causar danos a seu corpo. Embora não acreditasse que a radioatividade pudesse matá-la, ainda assim morreu de anemia aplástica, uma doença causada pela exposição excessiva a materiais radioativos.
Subjetivo é algo que existe dependendo da consciência e das crenças de um único indivíduo. Desaparece ou muda se aquele indivíduo em particular mudar suas crenças. Muitos, quando crianças, acreditam na existência de um amigo imaginário que é invisível e inaudível para o resto do mundo. O amigo imaginário existe unicamente na consciência subjetiva da criança e, quando a criança cresce e deixa de acreditar nele, ele desaparece.
Intersubjetivo é algo que existe na rede de comunicação ligando a consciência subjetiva de muitos indivíduos. Se um único indivíduo mudar suas crenças, ou mesmo morrer, será de pouca importância. No entanto, se a maioria dos indivíduos na rede morrer ou mudar suas crenças, o fenômeno intersubjetivo se transformará ou desaparecerá. Fenômenos intersubjetivos não são fraudes malévolas nem charadas insignificantes. Eles existem de uma maneira diferente de fenômenos físicos como a radioatividade, mas seu impacto no mundo ainda pode ser gigantesco. Muitas das forças mais importantes da história são intersubjetivas: leis, dinheiro, deuses, nações.
A Peugeot, por exemplo, não é o amigo imaginário do CEO da Peugeot. A empresa existe na imaginação partilhada de milhões de pessoas. O CEO acredita na existência da empresa porque os diretores também acreditam nisso, bem como os advogados da empresa, as secretárias no escritório ao lado, os caixas no banco, os corretores na bolsa de valores e os revendedores de automóveis da França à Austrália. Se o CEO sozinho de repente deixasse de acreditar na existência da Peugeot, ele seria levado imediatamente ao hospital psiquiátrico mais próximo e outra pessoa ocuparia seu cargo. De maneira similar, o dólar, os direitos humanos e os Estados Unidos da América existem na imaginação partilhada de bilhões de pessoas, e um indivíduo sozinho não pode ameaçar sua existência. Se eu, sozinho, deixasse de acreditar no dólar, nos direitos humanos ou nos Estados Unidos, não faria muita diferença. Essas ordens imaginadas são intersubjetivas, de modo que para mudá-las precisamos mudar simultaneamente a consciência de bilhões de pessoas, o que não é fácil. Uma mudança de tal magnitude só pode ser alcançada com a ajuda de uma organização complexa, como um partido político, um movimento ideológico ou um culto religioso. No entanto, para construir tais organizações complexas, é necessário convencer muitos estranhos a cooperarem uns com os outros. E isso só acontecerá se esses estranhos acreditarem em alguns mitos partilhados. Daí decorre que para mudar uma ordem imaginada existente precisamos primeiro acreditar em uma ordem imaginada alternativa.
Para desmantelar a Peugeot, por exemplo, precisamos imaginar algo mais poderoso, como o sistema jurídico francês. Para desmantelar o sistema jurídico francês, precisamos imaginar algo ainda mais poderoso, como o Estado francês. E, se desejarmos desmantelar isso também, teremos de imaginar algo ainda mais poderoso.

Não há como escapar à ordem imaginada. Quando derrubamos os muros da nossa prisão e corremos para a liberdade, estamos, na verdade, correndo para o pátio mais espaçoso de uma prisão maior.

 (Yuval Noah Harari - Sapiens, uma breve história da humanidade)

publicado às 13:35


Ele e ela

por Thynus, em 01.02.16
Diferentes sociedades adotam diferentes tipos de hierarquias imaginadas. A raça é muito importante para os norte-americanos modernos, mas era relativamente insignificante para os muçulmanos medievais. A casta era uma questão de vida e morte na Índia medieval, ao passo que na Europa moderna é algo que praticamente inexiste. Uma hierarquia específica, no entanto, foi de extrema importância em todas as sociedades humanas conhecidas: a hierarquia do gênero. Todos os povos se dividiram entre homens e mulheres. E em quase todos os lugares os homens foram privilegiados, pelo menos desde a Revolução Agrícola.
Alguns dos textos chineses mais antigos são ossos oraculares que datam de 1200 a.C., utilizados para adivinhar o futuro. Em um deles estava entalhada a pergunta: “A gestação da sra. Hao será afortunada?”. Para a qual foi escrita a resposta: “Se a criança nascer em um dia ding, será afortunada; se nascer em um dia geng, terá um futuro promissor”. No entanto, a sra. Hao daria à luz em uma dia jiayin. O texto termina com a impertinente observação: “Três semanas e um dia depois, em um dia jiayin, nasceu a criança. Não foi afortunada. Era uma menina”.(Houston, First Writing, 196) Mais de 3 mil anos depois, quando a China comunista decretou a política do “filho único”, muitas famílias chinesas continuavam considerando o nascimento de uma menina uma desgraça. Os pais muitas vezes abandonavam ou matavam meninas recém-nascidas para ter mais uma chance de ter um menino.
Em muitas sociedades, as mulheres eram mera propriedade dos homens, principalmente do pai, marido ou irmão. O estupro, em muitos sistemas jurídicos, era tratado como violação de propriedade – em outras palavras, a vítima não era a mulher estuprada, mas o homem a quem ela pertencia. Nesse caso, a sentença era a transferência de propriedade – o estuprador era obrigado a pagar o valor de uma noiva ao pai ou ao irmão da mulher, e a partir de então ela se tornava propriedade do estuprador. A Bíblia diz que “Se um homem se encontrar com uma moça sem compromisso de casamento e a violentar, e eles forem descobertos, ele pagará ao pai da moça cinquenta peças de prata. Terá que casar-se com a moça” (Deuteronômio, 22:28-29). Os antigos hebreus consideravam esse acordo razoável.
Estuprar uma mulher que não pertencia a nenhum homem não era considerado crime algum, assim como pegar uma moeda perdida em uma rua movimentada não é considerado roubo. E se um marido estuprava a própria mulher, ele não cometia nenhum crime. Na verdade, a ideia de que um marido pudesse estuprar a esposa era um oximoro. Ser marido era ter controle absoluto da sexualidade da esposa. Dizer que um marido “estuprou” a própria esposa era tão ilógico quanto dizer que um homem roubou a própria carteira. Tal pensamento não se limitava ao antigo Oriente Médio. Em 2006, ainda havia 53 países em que um marido não podia ser processado por estuprar a esposa. Até mesmo na Alemanha, as leis de estupro foram modificadas apenas em 1997, criando-se uma categoria jurídica para o estupro conjugal.(Secretário-geral da ONU, Report of the Secretary-General on the In-depth Study on All Forms of Violence Against Women,apresentado à Assembleia Geral da ONU, Doc. A/16/122/Add.1 (6 jul. 2006), 89)
A divisão entre homens e mulheres é produto da imaginação, como o sistema de castas na Índia ou o sistema racial nos Estados Unidos, ou é uma divisão natural com raízes biológicas mais profundas? E, se houver, de fato, uma divisão natural, existem também explicações biológicas para a primazia dos homens sobre as mulheres?
Algumas das disparidades culturais, jurídicas e políticas entre homens e mulheres refletem as diferenças biológicas óbvias entre os sexos. Gerar uma criança sempre foi trabalho das mulheres, porque os homens não têm útero. Ainda assim, sobre essa verdade universal, todas as sociedades acumularam diversas camadas de ideias e normas culturais que pouco têm a ver com biologia. As sociedades associam masculinidade e feminilidade com uma série de atributos que, em sua maioria, não têm base biológica.
Por exemplo, na Atenas democrática do século V a.C., um indivíduo provido de um útero não tinha status jurídico independente e era proibido de participar de assembleias populares ou ser juiz. Com poucas exceções, tal indivíduo não podia se beneficiar de uma boa educação nem se envolver em negócios ou discursos filosóficos. Nenhum dos líderes políticos de Atenas, nenhum de seus grandes filósofos, oradores, artistas ou mercadores tinha útero. O fato de ter útero faz com que uma pessoa seja biologicamente inadequada para essas profissões? Os atenienses da Antiguidade acreditavam que sim. Os atenienses dos dias de hoje discordam. Na Atenas atual, as mulheres votam, são eleitas para cargos públicos, fazem discursos, projetam de tudo, de joias a edifícios e softwares, e frequentam universidades. O útero não as impede de fazer nenhuma dessas coisas com o mesmo sucesso que os homens. É verdade que ainda são pouco representadas na política e nos negócios – apenas cerca de 12% dos membros do parlamento grego são mulheres. Mas não existe nenhuma barreira jurídica à sua participação na política, e grande parte dos gregos dos dias de hoje considera perfeitamente normal que uma mulher ocupe um cargo público.
Muitos gregos da atualidade também pensam que uma parte integral de ser homem é se sentir sexualmente atraído apenas por mulheres e ter relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto. Eles não enxergam isso como um preconceito cultural, mas sim como uma realidade biológica – relações entre duas pessoas do sexo oposto são algo natural, e entre duas pessoas do mesmo sexo, não. Na realidade, a Mãe Natureza não se importa se os homens se sentem sexualmente atraídos uns pelos outros. Apenas mães humanas inseridas em determinadas culturas fazem escândalo ao saber que seu filho tem um caso com o vizinho. A explosão de raiva da mãe não tem base biológica. Um número significativo de culturas humanas vê as relações homossexuais como algo não apenas legítimo como até mesmo socialmente construtivo, sendo a Grécia antiga o exemplo mais notável. A Ilíada não menciona que Tétis tivesse qualquer objeção às relações entre seu filho Aquiles e Pátroclo. A rainha Olímpia, da Macedônia, foi uma das mulheres mais temperamentais e poderosas da Antiguidade e até mesmo mandou matar seu próprio marido, o rei Felipe. Mas ela não teve um ataque quando seu filho, Alexandre, o Grande, levou seu amante, Heféstion, para jantar em casa. Como podemos diferenciar aquilo que é biologicamente determinado daquilo que as pessoas apenas tentam justificar por meio de mitos biológicos? Um bom princípio básico é “a biologia permite, a cultura proíbe”. A biologia está disposta a tolerar um leque muito amplo de possibilidades. É a cultura que obriga as pessoas a concretizar algumas possibilidades e proíbe outras. A biologia permite que as mulheres tenham filhos – algumas culturas obrigam as mulheres a concretizar essa possibilidade. A biologia permite que homens pratiquem sexo uns com os outros – algumas culturas os proíbem de concretizar essa possibilidade.
A cultura tende a argumentar que proíbe apenas o que não é natural. Mas, de uma perspectiva biológica, não existe nada que não seja natural. Tudo o que é possível é, por definição, também natural. Um comportamento verdadeiramente não natural, que vá contra as leis da natureza, simplesmente não teria como existir e, portanto, não necessitaria de proibição. Nenhuma cultura jamais se deu ao trabalho de proibir que os homens realizassem fotossíntese, que as mulheres corressem mais rápido do que a velocidade da luz, ou que elétrons com carga negativa atraíssem uns aos outros.
Na verdade, nossos conceitos de “natural” e “não natural” não são tirados da biologia, mas da teologia cristã. O sentido teológico de “natural” é “de acordo com as intenções de Deus, que criou a natureza”. Os teólogos cristãos afirmam que Deus criou o corpo humano com a intenção de que cada membro e órgão servisse a um propósito em particular. Se usamos nossos membros e órgãos para o propósito previsto por Deus, trata-se de uma atividade natural. Usá-los de maneira diferente da intenção de Deus não é natural. Mas a evolução não tem propósito. Os órgãos não evoluíram com um propósito, e o modo como são usados está em constante mudança. Não existe um único órgão no corpo humano que execute apenas o trabalho que seu protótipo executava quando apareceu pela primeira vez, há centenas de milhões de anos. Os órgãos evoluem para executar uma função específica, mas, depois que existem, podem ser adaptados para outros usos também. A boca, por exemplo, surgiu porque os primeiros organismos multicelulares precisavam de uma forma de levar nutrientes para o corpo. Ainda usamos a boca para isso, mas também a usamos para beijar, falar e, se formos o Rambo, para puxar o pino de nossas granadas de mão. Algum desses usos não é natural simplesmente porque nossos ancestrais vermiformes não faziam essas coisas com a boca há 600 milhões de anos?
Da mesma forma, as asas não apareceram de repente com toda a sua maravilhosa aerodinâmica. Elas se desenvolveram a partir de órgãos que serviam a outro propósito. De acordo com uma teoria, as asas dos insetos evoluíram há milhões de anos a partir de protuberâncias no corpo de insetos não voadores. Insetos com calombos tinham uma área de superfície maior do que aqueles sem calombos, e isso permitiu que absorvessem mais luz do sol e, assim, ficassem mais aquecidos. Em um lento processo evolutivo, esses aquecedores solares ficaram maiores. A mesma estrutura que era boa para a máxima absorção da luz do sol – muita área de superfície, pouco peso – também, por coincidência, dava aos insetos um certo impulso quando saltavam e pulavam. Aqueles com protuberâncias maiores podiam saltar e pular mais longe. Alguns insetos começaram a usá-las para planar, e daí bastou um pequeno passo para chegar às asas capazes de realmente propulsar o inseto no ar. Da próxima vez em que um mosquito zumbir em seu ouvido, acuse-o de comportamento não natural. Se ele fosse bem-comportado e estivesse satisfeito com o que Deus lhe deu, usaria suas asas apenas como painéis solares.
O mesmo conceito de multitarefas se aplica a nossos órgãos e comportamentos sexuais. O sexo evoluiu, a princípio, para procriação e rituais de galanteio, como uma forma de avaliar a adequação de um possível parceiro. Mas muitos animais atualmente fazem uso delas para uma série de propósitos sociais que pouco tem a ver com a criação de pequenas cópias de si mesmos. Os chimpanzés, por exemplo, utilizam o sexo para firmar alianças políticas, criar intimidade e neutralizar tensões. Isso é antinatural?

(Yuval Noah Harari - Sapiens, uma breve história da humanidade)

publicado às 18:14


A profecia de Frankenstein

por Thynus, em 01.02.16
O doutor Frankenstein também queria se igualar aos deuses. Sonha poder dar vida,
como fizera o Criador. Passa a existência inteira procurando como conseguir reanimar
os mortos. E, um belo dia, consegue. Reúne cadáveres, roubados do necrotério do
hospital, e, usando a eletricidade do céu, dá vida ao monstro fabricado a partir de
corpos em decomposição. De início, tudo funciona bem, e Frankenstein se toma por um
verdadeiro gênio da medicina. Mas o monstro pouco a pouco assume sua
independência e foge. Como seu aspecto é abominável, ele espalha o terror e a
desolação por todo lugar em que passa, de forma que, como reação, ele próprio se
torna mau e ameaça devastar a terra e seus habitantes. Privação trágica: a criatura
escapa de seu criador, que fica, por assim dizer, frustrado. Ele perde o controle — o
que, é claro, na perspectiva cristã que domina esse mito, significa que o homem que se
toma por Deus segue direto para a catástrofe.
(Luc Ferry - A Sabedoria dos MItos Gregos)
 

Em 1818, Mary Shelley publicou Frankenstein, a história de um cientista que tenta criar um ser superior e, em vez disso, cria um monstro. Nos últimos dois séculos, essa história foi contada repetidas vezes em inúmeras variações, tornando-se o tema central de nossa nova mitologia científica. À primeira vista, a história de Frankenstein parece nos advertir de que, se tentarmos brincar de Deus e criar vida, seremos punidos severamente. Mas a história tem um significado mais profundo.
O mito do Frankenstein confronta o Homo sapiens com o fato de que os últimos dias estão se aproximando depressa. A não ser que alguma catástrofe nuclear ou ecológica intervenha, diz a história, o ritmo do desenvolvimento tecnológico logo levará à substituição do Homo sapiens por seres completamente diferentes que têm não só uma psique diferente como também mundos cognitivos e emocionais muito diferentes. Isso é algo que a maioria dos sapiens considera extremamente desconcertante. Gostamos de acreditar que, no futuro, pessoas exatamente como nós viajarão de planeta em planeta em espaçonaves velozes. Não gostamos de considerar a possibilidade de que, no futuro, seres com emoções e identidades como as nossas já não existam e que nosso lugar seja tomado por formas de vida estranhas cujas capacidades ofuscam as nossas.
De algum modo, encontramos conforto na fantasia de que o dr. Frankenstein pode criar apenas monstros terríveis, a quem deveríamos destruir a fim de salvar o mundo. Gostamos de contar a história dessa maneira porque implica que somos os melhores de todos os seres, que nunca houve e nunca haverá algo melhor do que nós. Qualquer tentativa de nos melhorar inevitavelmente fracassará, porque, mesmo que nosso corpo possa ser aprimorado, não se pode tocar o espírito humano. Teríamos dificuldade de engolir o fato de que os cientistas poderiam criar não só corpos como também espíritos e de que os drs. Frankenstein do futuro poderiam, portanto, criar algo verdadeiramente superior a nós, algo que olhará para nós de modo tão condescendente quanto olhamos para os neandertais.
Não podemos saber ao certo se os Frankensteins de hoje realizarão essa profecia. O futuro é desconhecido, e seria surpreendente se todas as previsões das últimas páginas se concretizassem. A história nos ensina que o que parece estar depois da esquina pode jamais se materializar devido a barreiras imprevistas e que outros cenários não imaginados acontecerão de fato. Quando irrompeu a era nuclear nos anos 1940, fizeram-se muitas previsões sobre o futuro mundo nuclear do ano 2000. Quando o Sputnik e a Apollo 11 atiçaram a imaginação do mundo, todos começaram a prever que no fim do século as pessoas estariam vivendo em colônias espaciais em Marte e Plutão. Poucas delas se tornaram realidade. Por outro lado, ninguém previu a internet.
Portanto, não saia por aí comprando seguros de responsabilidade civil para indenizá-lo contra processos iniciados por seres digitais. As fantasias – ou pesadelos – acima mencionados são apenas estímulos à sua imaginação. O que devemos levar a sério é a ideia de que a próxima etapa da história incluirá não só transformações tecnológicas e organizacionais como também transformações sociais na consciência e na identidade humana. E essas podem ser transformações tão fundamentais que colocarão em dúvida o próprio termo “humano”. Quanto tempo temos? Ninguém sabe ao certo. Como já dissemos, alguns dizem que em 2050 alguns humanos já serão amortais. Previsões menos radicais falam do próximo século, ou do próximo milênio. Mas, da perspectiva de 70 mil anos de história do sapiens, o que são alguns milênios?
Se a história do sapiens está mesmo chegando ao fim, nós, membros de uma de suas últimas gerações, devemos dedicar algum tempo a responder a uma última pergunta: o que queremos nos tornar? Essa pergunta, às vezes conhecida como a pergunta do Aperfeiçoamento Humano, obscurece o debate que atualmente preocupa políticos, filósofos, acadêmicos e pessoas comuns. Afinal, o debate atual entre as religiões, ideologias, nações e classes de hoje muito provavelmente desaparecerá junto com o Homo sapiens. Se nossos sucessores funcionarem realmente em um nível diferente de consciência (ou, talvez, tiverem algo além da consciência que sequer somos capazes de conceber), parece improvável que o cristianismo ou o islamismo os interesse, que sua organização social seja comunista ou socialista ou que seus gêneros possam ser masculino ou feminino. E, ainda assim, os grandes debates da história são importantes porque pelo menos a primeira geração desses deuses seria determinada pelas ideias culturais de seus criadores humanos. Eles seriam criados à imagem do capitalismo, do islamismo ou do feminismo? A resposta a essa pergunta poderia empurrá-los em direções completamente diferentes.
A maioria das pessoas prefere não falar sobre isso. Mesmo o campo da bioética prefere abordar outra pergunta: “O que é proibido fazer?”. É aceitável fazer experimentos genéticos com seres humanos vivos? Com fetos abortados? Com células-tronco? É ético clonar ovelhas? E chimpanzés? E quanto a humanos? Todas essas são perguntas importantes, mas é ingênuo imaginar que podemos simplesmente frear os projetos científicos que estão transformando o Homo sapiens em um tipo diferente de ser, pois esses projetos estão inextricavelmente unidos à busca pela imortalidade – o Projeto Gilgamesh. Pergunte aos cientistas por que eles estudam o genoma, ou tentam conectar um cérebro a um computador, ou tentam criar uma mente dentro de um computador. Nove em cada dez lhe darão a mesma resposta: estamos fazendo isso para curar doenças e salvar vidas humanas. Embora as implicações de criar uma mente dentro de um computador sejam muito mais dramáticas do que curar doenças psiquiátricas, essa é a justificativa padrão fornecida, porque ninguém pode argumentar contra ela. É por isso que o Projeto Gilgamesh é o mais importante da ciência. Serve para justificar tudo que a ciência faz. O dr. Frankenstein pega carona nos ombros de Gilgamesh. Uma vez que é impossível deter Gilgamesh, também é impossível deter o dr. Frankenstein.
A única coisa que podemos tentar fazer é influenciar a direção que eles estão tomando. Mas, considerando que possivelmente logo seremos capazes de manipular inclusive nossos desejos, a verdadeira pergunta a ser enfrentada não é “O que queremos nos tornar?”, e sim “O que queremos querer?”. Aqueles que não se sentem assombrados por essa pergunta provavelmente não refletiram o suficiente a respeito.

 (Yuval Noah Harari - Sapiens, uma breve história da humanidade)

 

LINKS:
Sobre a necessidade de morrer
Pureza
Nas origens do mito de Frankenstein: Asclépio (Esculápio), o médico que devolve vida aos mortos
FREUD E ALÉM

publicado às 17:16

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